Redes Complexas em Processos Dinâmicos

Na construção de uma “ciência da complexidade“…deve-se buscar                                    uma visão capaz de transcender a polarização entre “reducionismo”                                e…”holismo” permitindo a ‘modelagem’ de sistemas que apresentam,                                simultaneamente, as características de… “distinção“… e “conexão“.

neuronio2O estudo de ‘sistemas complexos’ cresceu muito nos últimos anos; não obstante ser o conceito de complexidade, ainda muito vagamente definidosegundo diferentes teorias. O termo ‘complexidade‘ vem do latim…’complexus’…cujo significado é definido por “entrelaçado”“retorcido”. – O que pode ser interpretado como que, para se ter um ‘sistema complexo’ é necessário… (a) 2 ou mais diferentes partes ou componentes;  e…(b) tais componentes devem estar de algum modo interligados numa estrutura estável.

Aqui, encontra-se a dualidade básica entre partes – que são, ao mesmo tempo…distintas e interconectadas. Um sistema complexo não pode ser analisado ou separado num conjunto de elementos independentes, sem ser destruído. Portanto é impossível empregar métodos reducionistas em sua interpretação. Se certo domínio for complexo, deverá…por definição  ser resistente à análise, e assim, seus fenômenos não poderão ser reduzidos às suas partes.  O holismo pode ser visto, como uma corrente de pensamento oposta ao reducionismo, propondo a observação do ‘fenômeno complexo’ como um todo; ao invés de uma coleção de suas partes… O “holismo”, entretanto, também negligencia um importante aspecto das ‘entidades complexas’, qual seja, o fato de que elas são compostas de “partes distintas“, mesmo que estas se encontrem em… “estreito relacionamento“. — Uma forma simples de modelo que satisfaz, simultaneamente, esses 2 requisitos… aparentemente contraditórios de… “distinção“…e…”conexão“… — se trata do conceito matemático de “rede”.

Uma rede consiste de nodos e conexõesou “arcos entre os nodos”, que podem ser vistos como partes de um ‘sistema complexo’, enquanto que as conexões irão corresponder às… “relações” … que se estabelecem entre si.

Esta visão tem a propriedade de ser reversível, isto é, pode-se também ver os nodos como conexões entre arcos, que então são tomados como “elementos componentes“. – Assim, a ‘abordagem reducionista‘ pode ser vista somente como um método de tenta eliminar, tanto quanto possível as ‘conexões‘, enfatizando a individualidade dos nodos, enquanto a ‘abordagem holística‘ elimina, tanto quanto possível, as ‘distinções’ entre estes nodos.  Ambos os métodos reduzem o “fenômeno complexo“, a uma representação mais simples, quer dizer…um conjunto solto de nodos diferenciados…ou uma massa de conexões entre nodos iguais, negligenciando assim uma parte essencial das características do fenômeno.

freelance-translator-scienceO termo “complexidade” é por vezes tomado como sinônimo de desordem…caos. Porém, apenas esta noção, não é suficiente para sua definição…É necessário entender também o conceito de ‘ordem‘. Exemplos simples são estruturas cristalinas… onde sua ‘simetria‘ se define matematicamente, na ‘invariância’ sob grupos de…’operações/transformações’.

Ordem e Caos
A principal característica de um sistema ordenado é a sua previsibilidade (espacial/temporal)… Não é necessário conhecer o sistema como um todo                          para reconstruí-lo…ou prever sua estrutura… – o sistema é “redundante”.

Levada ao limite esta definição, na tentativa de produzir uma ordenação máxima, obtém-se um sistema caracterizado pelo fato de ser “invariante“… sob toda e qualquer possível transformação. A única estrutura possível para tal sistema, então se caracteriza pela total “homogeneidade”…deve ser possível mapear o sistema de uma parte qualquer para outra sem que nenhuma modificação ocorra. Além disso, o sistema deve possuir uma ‘extensão infinita’, porque de outro modo se poderia imaginar transformações, que mapeassem de uma parte do sistema, para algum elemento fora de seus limites. Ou seja, um sistema de ordenação máxima iria corresponder a um…’vácuo clássico‘…substância estendida ao infinito… na qual nenhuma componente… – ou ‘estrutura interna‘, pode ser distinguida.

Tal sistema é o oposto do que se considera um “sistema complexo”,             que se caracteriza por possuir uma estrutura interna diferenciada.

desordem, por outro lado, é caracterizada pela ausência de invariância, isto é, pela ausência de transformações (não triviais) que não teriam qualquer efeito distinguível sobre o sistema. – No limite…isto significa que qualquer parte do sistema – por mais insignificante que seja … deve ser diferente ou independente de qualquer outra parte.

gás perfeito1O exemplo aproximado de um tal sistema, seria o do ‘gás perfeito’… onde a velocidade de 2 moléculas, não têm qualquer vínculo entre si. Porém, mais de perto o fenômeno  apresenta ‘diversas invariâncias‘, como, por exemplo, o movimento ‘contínuo’… das moléculas do gás, no curto intervalo de tempo… em que não colidem…indicando uma ‘conservação de momentum.

Além disso, o espaço entre as moléculas pode ser considerado                        como sendo, o de um…”vácuo clássico“…que… é ‘ordenado’.

Num sistema de ‘máxima desordem’, deve haver partículas com qualquer momento físico aparecendo e desaparecendo a qualquer instante no tempo, e qualquer posição no espaço. Um exemplo de tal sistema é o “vácuo quântico”…As flutuações quânticas do vácuo criam,  e destroem continuamente…”partículas virtuais…que de tão instáveis… a princípio – são impossíveis de se observar. Na prática, isto faz o ‘vácuo quântico’ indistinguível do ‘vácuo clássico’ – donde se conclui que…tanto a perfeita ordem, quanto a perfeita desordem…no limite, correspondem ao ‘vazio…isto é…à ausência de qualquer forma de ‘complexidade’.

auto-organizaçãoAuto-organização em processos dinâmicos

Outra questão fundamental é: ‘De onde vem a ordem?  Segundo as leis gerais termodinâmicas…os “processos dinâmicos” tendem a caminhos de menor consumo de energia…até o sistema achar um “ponto de equilíbrio”, onde permanecerá…enquanto não sofrer perturbação.   

Há, porém, diversos exemplos na natureza de sistemas e organismos que, além de alta energia, apresentam grande organização interna…em aparente desafio às “leis físicas”. Alguns deles são:

  • Partículas de limalha de ferro…que se alinham segundo as                                              linhas de força do campo magnético a que são submetidas;
  • Partículas d’água… que suspensas no ar… formam nuvens;
  • Formigas ou abelhas … que formam um complexo sistema                                                  de sociedade… – altamente estruturada… e, hierarquizada.

A organização surge espontaneamente a partir da desordem e não parece ser dirigida por leis físicas conhecidas. De alguma forma a ordem surge das múltiplas interações entre as unidades componentes, e as leis que podem governar esse comportamento…não são bem conhecidas. – A perspectiva comportamental de um “sistema auto-organizável“…poderia revelar, por exemplo, “padrões espaço-temporais” – ou seja… caminhos, limites, ciclos e sucessões poderiam surgir (de repente) em sistemas heterogêneos complexos…Entender estes mecanismos pode conduzir à construção de modelos mais informativos, e precisos.

Os primeiros modelos de formação de padrões usados, baseavam-se em uma abordagem “top-down”, onde os parâmetros descrevem níveis mais altos dos sistemas… De acordo com este enfoque a ‘dinâmica populacional’ é representada em seus níveis mais elevados,  e não como o resultado de uma atividade que ocorre ao nível mais baixo…dos indivíduos.  Este tipo de abordagem viola 2 princípios básicos dos fenômenos populacionais, que são: ‘individualidade e ‘localidade…A individualidade tenta considerar as diferenças entre os indivíduos. – Tais diferenças…mesmo pequenas…podem levar a resultados radicalmente diferentes na evolução populacional ao longo do tempo. Já a ‘localidade’, significaria que cada evento além de possuir localização, exerce um tipo de influência. – Ignorá-la…inibe fatores que talvez pudessem melhorar a visão da dinâmica espaçotemporal dos sistemas.

Pré-condições da Auto-organização                                                                                      A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira… que, por medo                                    da bagunça…preferimos optar pela arrumação’. (Carlos Drummond)

moto-contínuoÉ necessário a um sistema satisfazer diversas pré-condições, e valer-se de vários mecanismos para promover a auto-organização. Tais mecanismos, são, de certa forma, redundantes…e mal definidos – contudo, permitem, de certa maneira… – uma ‘avaliação  intuitiva‘… — do “potencial de auto-organização” dos sistemas. São eles:

  • Abertura Termodinâmica: Em 1º lugar, o sistema (unidade reconhecível, tal como órgão, organismo ou população) deve trocar energia e/ou massa…com o seu ambiente. Em outras palavras… – deve haver um “fluxo não-nulo” de energia através do sistema.
  • Comportamento Dinâmico: Se um sistema não está em equilíbrio termodinâmico, sua única opção é assumir algum tipo de ‘dinâmica‘ – significando contínua mudança.
  • Interação Local: Uma vez que todos sistemas naturais apresentam interações locais,  este deve ser importante mecanismo à “auto-organização” dos modelos representados.
  • Dinâmica Não-Linear: Sistemas com “laços de feedback”…positivo e negativo…são modelados por equações não-lineares. Com isso, pode ocorrer uma ‘auto-organização’ entre partes do sistema, e as estruturas emergentes em níveis hierárquicos mais altos.
  • Grande Número de Componentes Independentes: Uma vez que – a origem da auto-organização recai nas conexões, interações e ‘laços de feedback’ entre partes dos sistemas, sistemas auto-organizáveis devem possuir grande número de componentes.
  • Comportamento independente da “estrutura interna” dos componentes: Isto quer dizer que não importa do que… – ou, como os componentes do sistema são feitos, desde que façam as mesmas coisas… – Em outras palavras…isto significa, que    a mesma propriedade emergente irá surgir… em sistemas completamente diferentes.
  • Emergência: A “emergência” é provavelmente a noção menos conhecida dentre as que se relacionam com auto-organização… O todo é maior do que a soma das partes, exibindo padrões e estruturas que surgem espontaneamente, de tal comportamento.
  • Comportamento organizado… e, bem definido: Desconsiderando a estrutura interna de um sistema complexo, visto apenas como mais um ‘fenômeno emergente’, pode-se constatar que o comportamento deste sistema…é bastante preciso e regular.
  • Efeitos em Múltiplas Escalas: A emergência também aponta, para… ‘interações’ entre múltiplas escalas nos sistemas auto-organizáveis. – Estas…em pequena escala, produzem estruturas em larga escala… – que modificam atividades na escala menor.

snowball1Estruturas de Feedback

Uma estrutura de feedback é um ‘laço causal’, uma cadeia de causas e efeitos que forma um anel. Dentre essas estruturas, a mais simples    é o “feedback de reforço” … — cuja principal característica é ser… “auto-amplificador“.

Quanto mais “complexo” um sistema (“seres vivos”…por exemplo) maior a quantidade de estruturas de feedback, e maior também a possibilidade de surgirem… ‘propriedades emergentes’… totalmente novas em um sistema.

A metáfora da bola de neve que rola e cresce…ao mesmo tempo em que sua velocidade aumenta – além de bem representar o fenômeno … demonstra também 2 movimentos completamente diferentes de perceber o processo…ao se acompanhar a própria “bola”, verifica-se que ela possui um movimento circular de rotação, sobre si mesma. Mas, ao observarmos a bola rolando… vê-se que sua trajetória descreve uma linha reta. – Os 2 movimentos representam 2 formas fundamentalmente diversas de perceber o tempo.
Na tradição científica ocidental adota-se em geral a ‘visão linear‘. O tempo é visto como passado, presente e futuro dispostos sobre uma linha. O presente é um ponto sobre esta linha, movendo-se em direção ao futuro…e deixando o traço do passado atrás de si… Na visão linear as causas estão sempre por trás dos efeitos. Este entretanto, não é o caso na visão circular, onde causa e efeito estão conectados em um ‘ciclo‘. Não faz sentido falar      em “na frente de”…ou…“atrás de” uma trajetória circular…onde qualquer ponto está ao mesmo tempo na frente e atrás do outro. Na verdade, cada uma dessas visões necessita      da outra – pois correspondem a duas diferentes perspectivas, de um mesmo fenômeno.Sem título

A metáfora da bola de neve mostra como duas perspectivas podem ser combinadas…em 2 visões complementares…através de uma estrutura circular de feedback rolando (uniformemente) sobre um tempo linear.  

Metabalanceamento” e “fenômenos meta-estáveis”                                                    Um sistema…”meta-balanceado”…é um sistema que pode ser visto de 2 diferentes perspectivas. A nível de detalhe está totalmente “desbalanceado”… – mas de uma     perspectiva global, o sistema parece estável e ordenado. – O curioso aqui é que o sistema precisa estar desbalanceado internamente para produzir ‘ordem global’.

Frequentemente comportamentos muito organizados surgem em sistemas de extrema complexidade. – Nos organismos vivos…por exemplo… – bilhões de células interagem apresentando um comportamento, notavelmente organizado. – Ainda que os diversos ‘fenômenos emergentes’ que ali ocorrem sejam muito diferentes uns dos outros – eles possuem algo em comum. Um conceito muito importante que conecta a todos eles é o “meta-balanceamento. Este é um conceito considerado “chave” ao entendimento        da “emergência“…sendo um dos aspectos menos intuitivos da “teoria dos sistemas”.

efeitodomino.pngÉ como afirmar que o modo de produzir ‘estabilidade emergente‘ num sistema é induzi-lo…internamente…a um “estado desbalanceado…Na verdade, os efeitos “bola de neve”… bem como o “dominó”, são … “fenômenos meta-estáveis”.

No efeito dominó, há um comportamento estável e ordenado no sistema: a “onda. Mesmo assim, todavia, o comportamento individual, observado em cada ‘dominó’ – é          de desequilíbrio. – Isso porque a composição da…’esfera invisível‘…formada pelos dominós que caem, rola exatamente no ponto em que estes tombam, desbalanceados.

Um sistema “balanceado” (ou,em balanço“) é um sistema que não dispende energia. Portanto, um sistema está desbalanceado quando dispende energia, e para provocar o surgimento de “fenômenos emergentes” nos sistemas, é necessário fazê-los dispender energia…Além disso, deve-se continuamente alimentá-los com novos componentes, e energia para sustentar o meta-balanceamento…Assim, o efeito dominó somente pode       se manter, enquanto houver um novo dominó em pé… – na frente do que está caindo.

Em outras palavras, é necessário alimentar-se constantemente a esfera invisível com novos dominós para mantê-la desbalanceada. Da mesma forma como a bola de neve precisa ser alimentada com mais neve para manter-se crescendo… – Deste modo, ao contrário dos “sistemas estáveis”, sistemas ‘meta-estáveis‘ consomem muita energia.     ‘Metabalanceamento‘ é uma propriedade universal de todos fenômenos emergentes.

extreme-surfer- in-hawaiiSobrevivência e Uniformidade

Quando se observa uma onda no oceano (ou qualquer outra onda) tem-se a sensação que, de algum modo, de um momento para outro, ela “sobrevive“…isto é… a onda se apresenta como sendo única…e de duração prolongada no tempo. – A questão é que, quando a onda se ‘auto-reproduz’… avançando ao momento seguinte … ela o faz a partir de componentes diferentes. – Assim, se a onda emergente for observada a partir de uma “gota d’água”… já não será a mesma onda. Tal comportamento é característico de um fenômeno emergente, sendo verdadeiro … para todo tipo de ondas.

Na esfera dos “seres humanos”, por outro lado, tem-se a sensação de sobrevivência…de     um instante para outro, no entanto…o que realmente ocorre é um contínuo processo de “substituição… Nova energia e novas moléculas fluem continuamente no organismo humano, onde o ciclo de substituição, ao nível molecular, dura cerca de sete anos…Este     é o período em que…todas as moléculas do corpo humano – são substituídas por novas.

Assim, quando se fala em “sobrevivência” e “uniformidade” deseja-se referir à estrutura do sistema. – Ainda que todos os componentes do sistema sejam substituídos por novos… sua ‘estrutura’ permanece fundamentalmente a mesma. Ficam assim evidentes as razões pelas quais tais conceitos precisam ser analisados em conjunto – segundo suas diferentes visões:

Visão Circular Visão Linear
Estrutura

Perspectiva Global

Meta-balanceamento

Esfera Invisível

Padrão

Perspectiva do Componente

Desbalanceamento

Onda

A “estrutura global” dos Sistemas Complexos                                                              “Nuvens, padrões climáticos, correntes nos oceanos, assembleias comunitárias,    economias e sociedades…de todo tipo, exibem formas complexas… – indicando                 em sua infra-estrutura elementos de uma intensa e contínua auto-organização”.

A teoria da complexidade se relaciona muito de perto com a teoria dos sistemas.          Ambas por sua vez estão relacionadas com a “teoria do caos” … e a “cibernética”.            Esse relacionamento é resumido na tabela abaixo…a diferentes tipos de teorias:

Sistemas Comportamento
Teoria dos Sistemas simples simples
Teoria da Complexidade complexos simples
Teoria do Caos simples complexo
Cibernética complexos complexo

A teoria dos sistemas e a teoria da complexidade se sobrepõem e são baseadas nos mesmos princípios. Qual seria então a necessidade de duas disciplinas distintas?…A razão principal parece ser o fato de que ambas pertencem a 2 diferentes tradições científicas — entretanto, há certamente outros motivos… Nem todos os sistemas são tão simples como a galinha e o ovo… – Em um sistema, constituído por milhões de componentes – projetar sua estrutura circularmente…descrevendo todos os possíveis laços de feedback – seria quase impossível. Um esquema resumido de feedback em sistemas complexos é mostrado na Figura a seguir.
Sem título2

Como o diagrama sugere, há um relacionamento circular entre a estrutura global do sistema e as interações locais entre os componentes. A estrutura global pode ser definida como a rede de todos relacionamentos locais…produzida e mantida num dado momento, pelo total de interações que ocorrem neste instante… Cada um…e todos componentes do sistema interagem com seus vizinhos imediatos – modificando assim a ‘estrutura global’.

Uma vez que cada componente responde à “estrutura global”… então o comportamento de cada indivíduo é determinado pelo todo; ao mesmo tempo em que a resposta independente de todos componentes… em um      dado momento, produz o ‘todo’…correspondente ao momento seguinte.

Um exemplo de sistema complexo é uma ‘sociedade’…consistindo em muitos componentes independentes… interagindo de modo local. – O estado corrente da sociedade é a estrutura global. – Cada um, e todos os indivíduos respondem ao ‘estado corrente’…e portanto criam o novo estado da sociedade no momento seguinte, e assim por diante… — Desse modo, um “sistema complexo” pode ser definido como sendo constituído por inúmeros componentes, que interagem localmente para produzir um…”comportamento geral“… organizado e bem definido…de acordo com uma forma autônoma da estrutura interna de seus componentes.

Sistemas auto-organizáveis apresentam frequentemente, uma forma altamente complexa de organização… As colmeias, por exemplo… – tem padrões óbvios…e regularidades, mas não são estruturas simples. Elementos estocásticos afetam a estrutura e dinâmica de uma colmeia, gerando ‘variáveis não-determinísticas‘. Justamente por ser vista de muitas formas, não há uma definição geral apropriada para “complexidade“. – Intuitivamente, esta encontra-se em algum lugar entre a ordem e o caos – entre a superfície espelhada de um “lago“… – o bater de asas de uma “borboleta“… – e a turbulência de um “maremoto“.

Estado quiescente‘ & Transição de fase (na fronteira do caos)                    Complexidade‘ tem sido medida de várias maneiras…através de entropia                              métrica, profundidade lógica, conteúdo de informação…e outras técnicas                              semelhantes…adequadas a aplicações da química e física…mas nenhuma                                delas descreve, ‘completamente’, as características da “auto-organização”.

Uma forma de abordar o estudo da complexidade…considerando a ausência de definição satisfatória, é descrever certo espaço compreendido entre a ordem e o caos, denominado    fronteira do caos“…Em 1990, Chris Langton conduziu um experimento, empregando autômatos celulares(‘AC‘)…Tentava-se assim, descobrir sob que condições um simples AC suportaria interações do tipo transmissão, armazenamento, e troca de informações: 

automatocelular

Cada célula recebe todos seus “inputs” das demais células em sua região mais próxima, definida como sua ‘vizinhança’. — O estado interno das células… no momento seguinte, então é determinado … pelo ‘estado‘ de sua vizinhança…e a “função de transição”, que indica, qual o novo ‘estado‘ a ser assumido pela célula… Assim, portanto, o “estado da vizinhança” fica associado à transmissão… enquanto o “estado interno” do AC se refere ao armazenamento; já a “função de transição”, espelha a modificação da informação.

Para determinar como a ordem e o caos afetavam a computação…Langton formulou um valor lambda, definido como a probabilidade de dada vizinhança produzir numa célula determinado estado interno particular, denominadoestado quiescente“… Quando λ assumia o valor zero, todas as vizinhanças moviam uma célula para o estado quiescente,     e o sistema era imediatamente organizado. No entanto ao λ assumir o valor 1, nenhuma vizinhança se movia para o “estado quiescente”, e o sistema mantinha-se ‘desordenado’.

Tal experimento demonstrou a existência de um “valor crítico” para λ… correspondendo a pontos de transição de fase…em cuja proximidade, a organização computada pelo sistema é máxima. Por outro lado…ultrapassado esse valor, o caos surgia muito rapidamente… De acordo com Langton – pela associação da computação com tal ‘valor crítico’ – um sistema auto-organizado precisaria manter-se na “fronteira do caos“…para computar a si próprio.

As transições de fase nem sempre ocorrem de forma brusca como quebra entre 2 estágios. Por exemplo, a passagem de um líquido, do ponto de congelamento para o de ebulição, se dá de forma gradual, entre um estado e outro. Porém, a transformação do estado líquido para o gasoso nas vizinhanças da temperatura de ebulição, se dá num espaço muito curto entre os 2 estados. – Após um aquecimento gradual…ocorre uma mudança brusca para o estado gasoso… de forma que as 2 fases são claramente distintas, separadas por uma fina região com as condições da transição…O estudo de tais regiões é normalmente muito útil para a previsão das propriedades do sistema, ou da substância… em diferentes condições.

O mistério dos Vórtices

Redemoinhos…tornados, são exemplos perfeitos de “vórtices“. O curioso sobre eles… é que parece haver alguma força em seus centros, sugando… a partir de um ‘certo ponto’, tudo o que estiver ao seu alcance. Isto, entretanto, é apenas uma ‘ilusão’ devida ao movimento das massas em círculo. – Removidas estas massas do vórtice… — não sobra nada.

Entretanto, observando-se os vórtices, fica claro que existe uma força em algum lugar…A resposta para… – onde ela está?… é talvez uma das mais importantes da ‘ciência da complexidade’…Ela vem de dentro do sistema.

Ainda que na aparência uma força externa esteja organizando o vórtice…são as próprias massas em movimento circular que animam o fenômeno. Uma das razões pela qual este conhecimento é tão importante, é que ele encerrou a longa disputa entre o vitalismo e o materialismo… – Enquanto os ‘vitalistas’ defendiam a ideia da existência da uma “força vital”; aos ‘materialistas’ não seria necessária qualquer força externa para o surgimento    da vida… O estudo dos vórtices mostra que ambas colocações estão corretas.

Os vitalistas, muito acertadamente, identificaram uma força vital, correspondente à força de sucção ilusória, existente no centro do vórtice. – A visão materialista é também correta, uma vez que tal força vital emerge do interior do sistema. Nada do exterior está organizando o vórtice. – A força vital é real, mas não ‘existe’, possuindo o que se chama ‘hiper-existência‘ … que para ocorrer — as seguintes condições devem ser satisfeitas:

  1. O ‘fenômeno emergente’ estaria “incorporado”;
  2. Seus componentes estariam “desbalanceados”;
  3. Processos de “feedbackoperando no sistema.

Todas essas 3 condições…são satisfeitas pelos vórtices… (a) Um vórtice não pode emergir no vácuo…ele necessita estar incorporado em um ‘meio físico‘… – O que corresponde à 1ª definição de “sistema complexo” (…conter vários componentes ‘independentes’)…(b) Um vórtice não pode emergir – a menos que as massas de ar ou água que o compõem estejam em movimento (‘desbalanceadas’)…(c) o vórtice é uma…”estrutura circular“, permitindo feedbacks. Satisfeitas todas condições, a força virtual de sucção central emerge no vórtice.

A evolução por “seleção natural”                                                                                  “Realidade…é a multiplicidade das multiplicidades” (Alain Badiou…’O Ser e o Evento’)

feedbackTendo em vista que as estruturas de feedback podem atuar como filtros emergentes… ficam então tipificados tais… “processos de redução de informação…como uma forma de ‘seleção‘.  Há cerca de 150 anos atrás … Charles Darwin chegou à conclusão…que…o “mecanismo” da evolução biológica, correspondia justamente,  a um processo de “seleção natural”, definido como a “sobrevivência” do melhor adaptado.

Darwin via os organismos como um tipo de “máquina perpétua” … atravessando um processo de filtragem natural. No contexto da complexidade, tal conceito corresponde a mecanismos capazes de perpetuar sua execução…e se reproduzir. Portanto, organismos vivos entram nesta categoria, e para se manterem em funcionamento necessitam de um contínuo fluxo de energia e matéria através de si próprios, isto é…necessitam alimentos. Contudo, a seleção natural não é somente um filtro, ela é também uma ressonância que amplifica os organismos adequados, enquanto que os inadequados vão sendo retirados    de cena. E, para ser realmente criativa, precisa estar ‘desbalanceada‘…Mas, como fazer isso num sistema biológico? Levando os organismos a competir por recursos limitados.

Quando organismos competem…eles tornam a própria adequação instávelO que hoje é adequado, pode não o ser amanhãUm cenário de adequação dinâmica é fonte de novos fenômenos emergentes…que tornam a seleção natural mais do que um mero processo de filtragem passiva. Esta adequação produz criatividade e inteligência – sendo o fenômeno emergente mais importante de todos … por abrir caminho para a “evolução da evolução”. Isto pode ser constatado…na seleção natural…na evolução da mente, e evolução cultural dos povos. – Sistemas complexos são todos, constituídos de “outros todos”, mas não são criticamente dependente de seus componentes … que são os outros todos. Se uma célula morre ou uma formiga se perde isto pouco importa ao sistema ao qual pertencem.

Para estar em “meta-balanceamento”, um sistema complexo precisa        estar desbalanceado ao nível de seus componentes… – E… para isso,        precisa dar independência e liberdade a seus próprios componentes.

Sistemas complexos são ‘meta-estáveis‘ porque são constituídos de todos independentes que interagem. Quanto mais liberdade possuem os componentes, mais desbalanceado se torna o sistema… e isto é fonte de mais…”meta-estabilidade global”…evidenciando que a natureza de certa forma oscila entre o caos e a ordem. (texto base) Luiz Antônio Palazzo **********************************************************************************
‘A (Des)Ordem do Universo’ (ago/2011)  “Pensar o incerto, faz                                          acentuar o irracional, e assim, então…progredir”. (Ilya Prigogine) 

O universo surgiu por meio de 2 processos consecutivos; o 1º não foi uma                      explosão de ordem… – mas, uma gigantesca difusão de entropia…Já o 2º,                        usou essa extraordinária entropia, para criar “ordem”. Mas então… como                        seria possível essa entropia produzir ordem… – sem um “fluxo externo”?

Toda criação ocorre de forma irreversível – criar é dar forma ao que não tem forma…é por ordem na desordem. Quanto mais fluxo de energia impomos ao acaso, mais dele podemos extrair ordem… – Assim… a ordem pode surgir do acaso, por uma “ação transformadora”.  Para todo sistema aberto, não-linear, longe do equilíbrio…sob a influência de um fluxo de energia externo, é a conectividade entre as partes que pode gerar sua própria organização. Mas, ordem e desordem podem coexistir em qualquer sistema… Assim, na emergência da auto-organização … para se obter ordem – basta introduzir um pouco mais de ‘desordem’.  ******************************(texto complementar)*******************************

Complexas energias…quânticas simetrias                                                                          A pesquisa estuda um dos primeiros sistemas quânticos, com simetria de                    paridade e tempo… (PT) – permitindo a observação de como esse tipo de                        simetria, e o ato de rompê-la pode levar a fenômenos ainda inexplorados.  

De certo modo, a física é o estudo das simetrias do universo. — Os físicos se esforçam para compreender como os sistemas e as simetrias mudam sob várias transformaçõesKater Murch, físico da ‘Washington University’, em St. Louis/EUA, assim comentouem relação a seu estudo publicado em 07 de outubro/2019 na ‘Nature Physics’:

“Se você reflete um sistemaem um espelhoisso é chamado de transformação de paridade, trocando a mão direita pela mão esquerda, e vice-versa. Mas, se você        gravar a evolução do sistema, e reproduzir o vídeo ao contrário…é uma reversão do      tempo. Entretanto, ao executarmos essas 2 transformações simultaneamentee, ocasionalmente, o sistema parecer o mesmo de antes, o sistema terá…simetria PT”.

Outros experimentos tem demonstrado simetria PT em sistemas clássicos como:            pêndulos acoplados ou dispositivos ópticos, mas tal novo trabalho… juntamente              com experimentos da equipe de Yang Wu, na China…publicado na “Science” em            maio fornece o 1º evento experimental de um sistema quântico com simetria PT. 

Uma nova simetria em sistemas quânticos                                                                        “Nossa maior motivação é desbravar os territórios desconhecidos da…”física quântica”. Somos curiosos em investigar sistemas quânticos no momento de se encaminharem ao mundo complexo, e as poderosas ferramentas que possam oferecer”. (Mahdi Naghiloo)

O estudo da simetria PT tem suas ‘raízes‘ na Universidade de Washington, onde Carl Bender, entre outros, num artigo seminal estabelece que a exigência de que sistemas quânticos sejam hermitianos não é necessária, para que eles tenham valores reais de energia…Ao contrário, os requisitos mais fracos da simetria PT são suficientes…Essa  noção orientou um campo da física matemática, dedicado ao estudo de tais sistemas.

quantum complexityCom o Incentivo de Bender…Murch tem se interessado por este assunto, desde sua chegada à…’Universidade    de Washington’, em 2013…mas, até recentemente, ninguém sabia como fazer sistemas quânticos simétricos. Entretanto…Yogesh Joglekar, físico teórico da ‘Universidade de Purdue’ Indiana, ao trabalhar experimentos simétricos…com ‘circuitos elétricos’, fluidos, fótons isolados e átomos ultrafrios testou tais sistemas em plataformas distintas. Em fins de 2017uma discussão entre Murch e Joglekar deu a resposta para tal questão.

“Quase imediatamente, esboçamos no quadro exatamente qual era a ideia. Em 10 minutos, tínhamos toda o plano para o experimento”, lembrou Murch. — A equipe usou um circuito supercondutor (qubit) para gerar um sistema quântico de 3 estados… O 1º estado excitado tende a decair para o ‘estado fundamental’, e os dois demais estados excitados acoplam de modo oscilatório. Usando uma técnica chamada ‘pós-seleção’, a equipe considerou apenas as tentativas em que o qubit não decaiu para o…estado fundamental — escolha que resulta numa efetiva simetria PT. Controlando dois parâmetros relacionados à energia do sistema, verificou-se como o comportamento da evolução no tempo, dependia desses 2 parâmetros.

“O importante é que o experimento foi capaz de controlar o meio ambiente para que só o estado excitado decaia…e os outros estados não… – e isso era algo que, deliberadamente, poderíamos produzirAo mesmo tempo, pudemos inicializá-lo em um estado específico, para em seguida, realizarmos o processo de tomografia do estado quântico…descobrindo assim, exatamente, o comportamento do estado quântico após algum período de tempo”.

Possíveis aplicações à computação quântica                                                                  “O pesadelo de qualquer engenheiro quântico – é a                                                                  perda de informações quânticas … ou decoerência”.

Os estranhos fenômenos que a equipe observou resultam do fato do sistema possuir energias complexas, isto é, envolvem a raiz quadrada de -1. Todo número complexo      possui duas raízes quadradas (p. ex…o 4 tem 2 e -2 como raízes quadradas)exceto            o zero, que possui apenas uma (ele mesmo). Um ponto em que 2 valores se fundem.    Aqui, a ‘degenerescência’ da raiz quadrada aparece no ‘espaço de parâmetros’ como      uma “singularidade”. Tal ponto divide o “espaço de configuração” entre uma região            de simetria PT – onde o sistema oscila com o tempoe uma região com “quebra de simetria”, onde o sistema sofre decaimento. Esse tipo de comportamento contrasta fortemente com os sistemas quânticos dito triviais – que sempre oscilam no tempo.        Uma 2ª consequência das energias complexas é chamada sobreposição de auto-estatos. Os dois auto-estados do sistema, isto é, os estados com energias definidas, normalmente são ‘ortogonais’ entre si — condição análoga a 2 linhas perpendicular.      Mas, à medida que o sistema se aproxima da singularidade, o ângulo entre os auto-    estados diminui, até se tornarem paralelos, no próprio ponto singular; assim como            as raízes quadradas positiva e negativa se fundem com o valor único (0). Até agora,        essa forma de… “colapso”… nunca havia sido observada em um “sistema quântico”.

O trabalho da equipe é apenas o começo do estudo experimental da…simetria PT              na mecânica quântica. A teoria prediz estranhos efeitos geométricos associados ao    entorno da singularidade, que o laboratório está tentando medir em experimentos.             As primeiras indicações…baseadas nas simulações quânticas fotônicas de Joglekar              e Anthony Laing na Universidade de Bristol, Inglaterra sugerem que na instalação              do laboratório de Murch…o decaimento do primeiro estado excitado para o estado fundamental pode retardar o processo de decoerência‘…provendo a possibilidade            de uma computação quântica…mais estável, mais robusta. (texto baseout/2019)  *****************************************************************************

Reducionismo vs. Emergência  (Abril de 2021)                                                                        “Sociólogos submetem-se aos psicólogos. Psicólogos, submetem-se a neurologistas. Neurologistas submetem-se aos biólogos. Biólogos submetem-se aos químicos…Os      químicos – por sua vez – submetem-se aos físicos. – Já os físicos submetem-se aos matemáticos; enquanto estes, sem mais ninguém a recorrer, submetem-se a Deus.”

A ‘visão reducionista‘ é tão predominante em nossa cultura, que na cabeça das pessoas – se torna um padrão…uma filosofia implícita da ciência, mesmo que nunca explicitamente, se pense sobre isto. — O fato mesmo, é que uma precisa…perspectiva científica…pode trazer implicações fundamentais para tudo desde    filosofia … até a economia, incluindo política. 

O reducionismo, onde tudo sobre o mundo pode se explicar em átomos e suas interações, oferece uma ‘percepção estreita’ do Universo, falhando em explicar a realidade Por outro lado, a “emergência”, afirma a ‘incompletude’ do ‘reducionismo’ sugerindo que o mundo desenvolveria novas possibilidadese novas leisimprevisíveis partindo só de ‘átomos’.

Hoje muitos consideram que o reducionismo não pode representar o modo como o mundo funciona; além de ser esta “visão de mundo” – mais do que uma mera questão filosófica; carregando opções que podem ser perigosas ao próprio futuro da humanidade…como, por exemplo – o uso indiscriminado dos recursos terrestres, desprezando suas consequências; ou uma ‘inteligência artificial’, tendo a nossa como nada além de um arranjo de neurônios.

Segundo a perspectiva reducionista do filósofo Paul Humphreys“O mundo nada mais é do que arranjos espaço-temporais de objetos e propriedades físicas fundamentais…Você, eu, rochas, galáxias, sapos e ovos mexidos … somos apenas processos … cujos sucessivos estados configuram … ‘arranjos espaciais’ de objetos físicos elementares dispostos em diferentes representações, explicando toda a variedade surpreendente que encontramos em nosso dia-a-dia.” Esses “objetos fundamentais”na descrição de Humphreys, são as partículas elementares da física elétrons, quarks, etc. A ideia… é que depois de fazer uma lista de todas estas partículas elementares e entender como elas podem interagir (a quais forças respondem), a princípio, tudo o que pode acontecer, estaria nela codificado. 

Lógico que, instruídos defensores desse tipo de método têm uma compreensão filosófica sofisticada de como a cadeia de causas evolui, permitindo ir de quarks a moluscos…e daí,    a governos. Mas assim…é demonstrada uma das piores consequências do ‘reducionismo’,    qual seja…a descrição de um mundo sem novidade fundamental; sem inovação essencial.    Esta é uma questão de previsibilidade “de baixo para cima”. Se conhecemos as entidades fundamentais e suas leis, podemos, a princípio, prever tudo o que acontecerá, ou poderá acontecer. – Toda história futura, toda evolução…é só um rearranjo de elétrons e quarks. 

img

Cristais de água demonstrando um processo fractal emergente. (wikipedia)

Um desafio emergente  (a chave… é a evolução)    “Um fenômeno é emergentequando não pode ser reduzido, explicado ou previsto, a partir de de suas partes constituintes.  B. Falkenburg & M. Morrison

Emergênciaé a alternativa à ‘visão reducionista’.    De uma visão emergente, ao longo da história do universo, novas entidades, e até mesmo novas leis    que regem tais entidades surgem constantemente.

Definitivamente o universo tem a capacidade de inovar e criar novidades.                            Para isso, o processo empregado é a evolução – um processo mais do que                              apenas físico. Desse ponto de vista, embora obviamente sejamos feitos de                              átomos, somos também mais do que apenas poderia ser previsto, mesmo                          com o “conhecimento perfeito” de todas aquelas “partículas elementares”.

Como filosofia, a emergência foi introduzida pela 1ª vez por um grupo de filósofos britânicos no início do século 20. Eles argumentaram que fenômenos como vida e consciência eram tão diferentes dos ‘sistemas físicos’ estudados que deveriam      incluir novas entidades. Mas, à medida que a base bioquímica da vida (DNA, p.ex)              foi descoberta…nas décadas de 1950 e 60, o interesse pela “emergência” diminuiu.            No entanto, desde então, desenvolvimentos críticos em vários campos, trouxeram                a emergência de volta, tanto para o convívio dos cientistas, quanto para filósofos.

Uma das razões mais importantes para o seu…reaparecimento…é que a ciência                  precisa dela…Na fronteira das pesquisas, existe um novo campo notável chamado  ‘sistemas complexos’: (‘O todo é maior do que a soma de suas partes’). Abarcando percepções da física, biologia, e sistemas sociais, a ‘teoria dos sistemas complexos’                tem ofertado aos cientistas uma ampla gama de exemplosonde novas entidades,                e novas regras parecem emergir da interação em rede de suas partes mais simples.          Tais estudos têm levado uma nova geração de filósofos a novamente se engajar às      ideias emergentes…usando os avanços da ciência como estímulo para desvendar              os ‘ciclos de causalidade’…fechados ou abertos…e se movendo de baixo para cima,            ou de cima para baixo. Daí surgiram distinções como emergência “fraca” e “forte”.

O certo é que, quando se trata de “reducionismo” e “emergência” existem muitas questões  espinhosas que requerem um exame minucioso. E assim, a simples ‘imagem reducionista’,  que oferece um mundo feito apenas de átomos, não pode mais ser tida como a única visão “sóbria” da ciência em sua perspectiva sobre a vida, o universo e tudo mais. (texto base)

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Fragmentos de Ciência & Filosofia (em busca de Harmonia)

“A ciência como cultura para o benefício da humanidade, implica certamente, na melhor disseminação da ‘informação científica’ para o público em geral, mas também, por outro lado, na maior compreensão dos problemas do nosso tempo pela comunidade científica.”

filosofia-da-ciência.jpgA demarcação das ciências naturais em relação à filosofia foi um processo longo e gradual no pensamento ocidental. – Inicialmente… a investigação da natureza das coisas consistia numa mistura entre o que hoje seria visto como filosofia (considerações gerais, das mais vastas sobre a natureza do Ser…e nosso acesso cognitivo a ele), e o que hoje seria próprio das ciências particulares (com ‘fatos observáveis’, e hipóteses gerais para explicá-los).

Se olharmos os “fragmentos” que nos restam das obras dos filósofos pré-socráticos, encontraremos, não só tentativas engenhosas para aplicar a razão a várias questões metafísicas e epistemológicas…como também as primeiras teorias físicas – simples,      mas extraordinariamente imaginativas, sobre a ‘natureza da matéria‘…e os seus diversos aspectos mutáveisNa filosofia grega clássica, já podemos encontrar uma separação entre as 2 disciplinas. Nas suas “obras metafísicas”, Aristóteles faz o que        hoje seria feito por filósofos mas em seus trabalhos sobre astronomia…biologia e      física, podem-se achar “métodos investigativos”…hoje comuns na prática científica.

À medida que “ciências particulares”…como física, química e biologia foram aumentando em número, canalizando cada vez mais recursos, novas metodologias individualizadas se desenvolveram para descrever/explicar ‘aspectos fundamentais’ do mundo onde vivemos. Dado o sucesso dessas investigações específicasmuito se pergunta se ainda restará algo para os filósofos fazerem…Para alguns deles, não obstanteainda podem existir áreas de investigação…radicalmente diferentes das que pertencem às ciências particulares…como, por exemplo – a “vida após a morte” – “Universos Paralelos”; ou qualquer outra coisa do gênero… – Já outros filósofos, buscam uma prática mais próxima das “ciências naturais”.

Segundo uma perspectiva mais antiga…que foi perdendo popularidade ao longo dos anos, existe uma forma de conhecer o mundo que, em seus fundamentos, não precisa depender da investigação observacional ou experimental própria do método específico das ciências. Tal visão foi em parte influenciada pela existência pura da “lógica” e “matemática”, cujas ditas “verdades” não parecem depender de qualquer base observacional ou experimental.  Com efeito, desde Platão e Aristóteles…a Leibniz e os racionalistas; passando por Kant, e idealistasaté aos contemporâneos, tem persistido a esperança de que…suficientemente inteligentes e perspicazes … obteríamos um ‘corpo de proposições’ descritivas do mundo, carregadas da mesma certezacom que dizemos saber verdades da lógica e matemática.

Benefícios da filosofia no mundo atual

Atualmente acredita-se que o ‘papel da filosofia’ não é só o de funcionar como ‘fundamento’…ou ‘extensão‘ das ciências…mas sim propriamente, como sua observadora crítica. A ideia é…que as disciplinas científicas particulares ao usarem métodos próprios fazem com que as relações entre seus vários conceitos implícitas no seu uso científico, não sejam explícitas para nós. O papel da “filosofia da ciência” seria assim, o de “por a limpo” essas relações conceituais.

Como as ciências particulares usam métodos específicos … para fazer generalizações … a partir dos dados da observação – em direção a hipóteses e teorias, a “função da filosofia”, segundo esta perspectiva é o de descrever os métodos científicos, explorando as bases de sua apropriação, para encontrar a ‘verdade’…circunscrita dentro dessa mesma disciplina.    Mas será que assim podemos diferenciar de uma maneira simples e direta, a ‘filosofia da ciência’…de sua ciência específica?… – Muitos especialistas sugerem, que não, posto que nas ciências específicas, teorias por vezes não são adaptadas apenas por sua consistência com dados da observação, mas também com base na ‘simplicidade‘, força explicativa, ou outras considerações que pareçam contribuir para sua…plausibilidade intrínseca… Ao constatarmos isto, perdemos a confiança na possibilidade de existirem dois domínios de proposições antagônicas – aquelas apoiadas em dados empíricos, e as apoiadas na razão.

Muitos dos filósofos contemporâneos – tais como…Willard Quinedefenderiam que as ciências naturais, a matemática…e até a lógica pura, formam um contínuo unificado de crenças sobre o mundo… Todas, indiretamente apoiadas em dados observacionais, mas contendo também elementos de ‘apoio racional’. Sendo isto verdade, não será a própria filosofia, um lugar das verdades da razão…parte de um todo unificado?…Ou seja, não será também a filosofia, apenas uma componente do corpo das ciências especializadas?

metodo cientificoMetodologia científica
Quando procuramos a descrição e… a justificação apropriada dos métodos da ciência… parece que esperamos…por seus resultados. Como compreendermos o poder desses métodos para nos guiar à verdade… se não estivermos em condições de comprovar o valor, que lhes é atribuído?… E…como poderíamos fazer isso, sem usar    nosso…”conhecimento” sobre o mundo – revelado pela ciência?

Como poderíamos…por exemplo…justificar a confiança da ciência na                                  observação sensorial… se nossa compreensão do processo perceptivo                                (baseada na física, neurologia e psicologia) não nos assegurasse que                                      a percepção … tal como é usada quando se testam teorias científicas,                                    se trata de um bom “guia da verdade”…sobre a natureza do mundo?

É ao discutir as teorias mais gerais e fundamentais da física que a imprecisão da fronteira entre ciências naturais e filosofia…torna-se mais manifesta. Dado que elas têm a ambição ousada de descrever o mundo natural em seus aspectos mais gerais e fundamentais… não surpreende que os tipos de raciocínio usados … ao desenvolver estas teorias tão abstratas, pareçam mais próximos dos…”raciocínios filosóficos“…que dos métodos empregados, quando se conduzem “investigações científicas” de âmbito mais limitado e particular.

Ao explorarmos os conceitos e métodos usados pela física, quando esta lida com suas questões fundamentais mais básicas … vemos repetidamente que pode estar longe de    ser definido se estamos explorando questões de “ciência natural” ou de “filosofia”. Na verdade, nesta área da investigação sobre a “natureza do mundo”…a distinção entre      as duas disciplinas … torna-se bastante obscura.  (Lawrence Sklar, texto base, 1992)  ********************************************************************************

teoria do conhecimentoO que é teoria do conhecimento?    “A ciência retrata a vitória dos métodos da…’observação‘… — sobre os métodos da pura especulação”.  (Anísio Teixeira)

A “reflexão”…sobre a natureza do nosso conhecimento dá origem a uma série de desconcertantes ‘problemas filosóficos‘, tema da…”teoria do conhecimento”…ou ‘epistemologia‘. A maior parte desses problemas foi debatida pelos ‘gregos antigos’, e ainda hoje é escassa a concordância sobre a forma como devem ser resolvidos…ou, em último caso, abandonados. – Descrevendo os temas que se seguem, podemos tentar entender – de modo geral, a natureza do problema; como, por exemplo… – Qual a distinção entre…”conhecimento”…e a “crença na verdade”? 

A nossa prova para algumas coisas – ao que parece, consiste no fato de termos provas para outras coisas. Mas deveremos dizer de tudo aquilo para o qual temos prova, que esta prova consiste no fato de termos prova de outra coisa?… Se formularmos socraticamente – nossa justificativa para qualquer afirmação (A) de conhecimento será relativa a um fato (B)…e se formos rigorosos em nossa investigação, chegaremos numa espécie de fim da linha – onde  minha justificativa para pensar que algo acontecerá… – é, simplesmente, esse próprio fato.

As coisas que correntemente dizemos conhecer, não são portanto, ‘diretamente evidentes’. Mas ao justificarmos a afirmação de que conhecemos qualquer dessas coisas podemos ser levados de novo,                da forma descrita, à várias coisas que são diretamente evidentes.

Deveríamos assim, dizer que o conjunto daquilo que conhecemos, a qualquer momento dado…é uma espécie de “estrutura”…que se fundamenta no que é diretamente evidente nesse momento?… – Se dissermos isso deveremos estar então preparados para explicar      de que modo esse fundamento serve de apoio à estruturaMas essa questão é difícil de responder…visto que o apoio dado pelo fundamento, não seria dedutivo…nem indutivo.    Noutras palavras, não é o gênero de apoio que as premissas de um argumento dedutivo      ou indutivo dão à sua conclusão… pois se tomarmos como premissa, o conjunto do que        é diretamente evidente em dado momento, não podemos formular um bom argumento dedutivo…ou indutivo – onde qualquer das coisas que normalmente dizemos conhecer, apareçam como conclusão. Portanto, talvez seja o caso de…além das regras de dedução      e indução – existirem inclusas também determinadas…regras de evidência….básicas.

O ‘lógico dedutivo’ tenta formular o 1º tipo de regras; o ‘indutivo’,                    o 2º tipo; e a “epistemologia”…procura harmonizar essas regras.

conhecimentoCritérios de ‘verdade’e ‘extensão’  O que é que sabemos?…Qual a extensão do nosso conhecimento?…Como decidir no caso particular…se sabemos ou não? Quais são os critérios de conhecimento, se é que…porventura…de fato existem?

O ‘problema do critério‘ resulta do fato de que, se não tivermos resposta para o limite de nosso domínio, não teremos a nosso dispor um procedimento digno e razoável para encontrar uma “verdade“.   

A rigor…tal problema poderia ser formulado por outros caminhos,                como… por exemplo – o “conhecimento metafísico” (se houver)                de “coisas externas”… (“transcendentes“)… aos nossos domínios.

O nosso conhecimento (se houver) do que por vezes denominamos…“verdades da razão”; aquelas verdades da lógica e da matemática…dota-nos com um exemplo particularmente instrutivo do ‘problema de critério’. Alguns filósofos pensam que uma satisfatória “teoria do conhecimento”…deve se adequar ao fato de que…algumas das verdades da razão…tal como tradicionalmente concebidas…não fazem parte da realidade conhecida… — Outros, ainda procuram simplificar o problema, afirmando que as chamadas “verdades da razão” só pertencem à forma como pessoas pensam…ou, modo como empregam sua linguagem. 

Outros problemas da ‘teoria do conhecimento’, poderiam designar-se apropriadamente por “metafísicos”. Abrangem certas questões sobre o modo como as coisas nos parecem. Tais aparências… quando as observamos, parecem subjetivas, na medida em que… para sua existência e natureza… dependem do ‘estado do cérebro’… – Este simples fato levou  alguns filósofos a estabelecerem algumas ‘conclusões extremas’…Alguns afirmaram que      as aparências das coisas externas, devem ser…”duplicações internas“…produzidas pelo cérebro. Outros…que as coisas externas devem ser distintas do que costumamos aceitar. Nesse caso – por exemplo… “a lua poderia não existir, quando não se olha para ela”… E, ainda há outros … para quem as coisas físicas devem, de algum modo, ser compostas de aparências (surrealismo); além dos que também dissessem que… as aparências devem      ser compostas de “coisas físicas” (como o “éter“)Tal problema, levou alguns filósofos        a, inclusive…questionarem a existência real das “coisas físicas” (“solipsistas”)…e outros, mais recentemente (“positivistas) a indagarem sobre a…“utilidade das aparências”.

O “problema da verdade” poderá parecer um dos mais simples da teoria do conhecimento. Se dissermos a respeito de um homem que…“Ele acredita que Sócrates é mortal”, e depois informarmos que…“A sua crença é verdadeira”…Estamos então afirmando que:  “Sócrates é mortal”… Mas, o que aconteceria se afirmássemos a respeito de um homem que…“O que ele está dizendo é verdade”…quando o que ele está afirmando agora, é algo falso – seja lá o que for. Nesse caso, estamos construindo uma proposição que é ‘verdadeira’…ou ‘falsa’?

Aspectos do conhecimento científico

a) Verdade

Aquilo que surge em dado momento, não é a totalidade original – do “objeto investigado”.  O problema da verdade reside na finitude do homem – de um lado… e, na complexidade e ocultamento…do ser da realidade – de outro. O ser das coisas e objetos, que o homem traz dentro de si – se manifesta de várias formas.

O homem pode apoderar-se, e conhecer apenas os aspectos do objeto que se manifestam, que se impõem, que se desvelam…e isto ainda de modo imperfeito, pois ele não entra em contato direto com o objeto, mas com sua impressão representativa. A realidade total de um objeto não pode ser captada por um investigador humano – quiçá, nem todos juntos alcançarão um dia desvendar todo mistério do objeto investigado… Por isso, não há uma “verdade absoluta”…o que, porém…não invalida o ‘esforço humano‘ na busca incansável de decifrar enigmas do universo. O desvelamento do ‘ser das coisas‘ supõe a capacidade      de receber mensagens…e isto implica bons sentidos, bons instrumentos e muita atenção.    O método, e muita observação, são a alma da pesquisa científica rumo ao conhecimento.

O que é…a verdade?… – É o encontro do homem com o desvelamento…a                          manifestação do ser (objeto). Ocorre que, levado por aparências… e sem                        auxílio de instrumentos adequados, o homem emite “juízos precipitados”                              que não correspondem aos fatos da realidade – donde advém… o “erro”.

b) Evidência

A verdade só resulta quando houver “evidência” — que é a manifestação transparente do objeto, em seu ‘desvelamento. A respeito daquilo do ser, que se manifesta, pode-se dizer uma verdade…Mas, como nem tudo se desvela de um ente, não se pode falar sobre o que não se desvelou. A evidência, o desvelamento, a manifestação do Ser…é pois, o critério da verdade. — Por outro lado, afirmações humanas “erradas” … decorrem muito mais de atitudes arbitrárias e precipitadas e da ignorância do homem … em relação à natureza  do ser (que…fragmentariamente…se oculta…e se desvela)… – do que da realidade em si.

c) Certeza

A certeza é um estado de espírito que consiste na adesão firme a uma verdade sem temor de engano – e…que se fundamenta numa evidência – ou seja… – no desvelamento do ser.  Relacionando o trinômio…’verdade’/’evidência’/’certeza’, poder-se-ia então concluir que: havendo…”evidência“…(se o objeto se desvelar ou se manifestar com suficiente clareza) pode-se afirmar… – com “certeza“…(‘sem temor de engano‘)…uma certa “verdade“.

socratesQuando não houver evidência, ou suficiente manifestação do objeto,        o sujeito encontrar-se-á em outra situação; o que deve transparecer também na forma de expressar o objeto…ou na linguagem falada e          escrita…São os casos da ‘dúvida‘,          da ‘ignorância‘ — e… ‘opinião‘.

A dúvida é um estado de espírito onde se verifica o equilíbrio entre a afirmação e a negação. É “espontânea“, quando o equilíbrio entre a afirmação e a negação resulta          da falta do exame entre prós e contras. A dúvida “refletida” é o estado de equilíbrio,        que permanece após o exame dos prós e contras… A dúvida “metódica” consiste na suspensão fictícia ou real…mas sempre provisória…do consentimento à validade de      uma afirmação, tida até então por certa, para lhe controlar o valor. – A “universal“,          enfim…consiste em considerar toda afirmação como incerta (“Só sei que nada sei”).

Ignorância é um estado de espírito puramente negativo, que consiste na ausência de qualquer conhecimento relativo a um determinado objeto. Pode ser classificada como: “vencível“… quando pode ser superada; “invencível“… quando não pode ser superada,        e “culpável“…quando há a obrigação implícita – de desaparecer com todas evidências.

Já a opinião se caracteriza pelo estado de espírito que, ao afirmar…teme enganar-se,        de tal forma, que as razões em contrário…não lhe garantem uma certeza…O seu valor depende da maior ou menor probabilidade das razões que fundamentam a afirmação.

Intuiçãoe conhecimento científico                                                                                    O cosmos é uma auto-organização…da qual somos parte imanente. (Nelson Job)

A preocupação do cientista é chegar a verdades que possam ser afirmadas…e chegar ao conhecimento dessas verdades. Tal conhecimento se dá de 2 formas: na ‘intuição’, e no conhecimento discursivo. A ‘intuição é um modo de conhecimento imediato…onde o pensamento presente no espírito humano é atingido sem intermediários. – Pode então      ser conceituada como sendo uma…”revelação súbita“…Na metodologia científica, a intuição pode ser considerada como ponto de partida do conhecimento, da descoberta,        da possibilidade de…”invenção“, trazendo consigo os grandes saltos do saber humano.

O conhecimento discursivo é aquele que se dá de forma mediata…ou seja, aquele que se dá por meio de conceitos…Este tipo de conhecimento opera por etapas do pensamento, por encadeamento de ideias, juízos e raciocínios lógicos que levam a uma dada conclusão.

(texto base, 1977) Roderick Chisholm # (Na construção do conhecimento científico, 2007)  ************************************************************************************

“Teleologia”                                  Teleología é a resposta de um sistema, que não está ‘determinado’ por causas anteriores – mas… causas posteriores, que podem ser atribuídas a um futuro não imediato…no tempo…e no espaço.

A ideia de teleologia aponta para uma finalidade. Ao constituir-se como uma teoria do sentido nas Ciências Sociais, concede ‘finalidade‘ à “ação humana”, atribuindo-lhe assim um fundamento.

A finalidade da semente é converter-se em árvore… – um destino                    que está determinado por sua forma, ou essência… a qual aspira,                  e se encontra… em potência… fatalmente atribuído ao seu futuro.

Este entendimento do sentido da “ação histórica”, prolonga a tradição filosófica ocidental, que se organiza em torno da procura da verdade. Neste paradigma, razão e verdade fazem um caminho comum. A razão…”instância soberana de decisão”…é una; a verdade, por sua vez…é única e eterna… – Em larga medida… a retórica da vida intelectual contemporânea, mantém como evidente que a “finalidade” da pesquisa científica…cujo objeto é o Homem, consiste em compreender…”estruturas subjacentes”, “invariantes culturais”, ou “modelos biologicamente determinados”. De algum modo as ciências sociais e humanas confirmam a determinação do ser como ‘presença’, e a ideia de ‘objetividade científica’ é apenas mais um daqueles nomes que ao longo da História designaram a invariância de uma “presença plena” (de um fundamento)… essência…existência…substância…sujeito… transcendência, consciência, Deus, Homem. Assim…é a ideia de fundamento, como presença plena, e um lugar natural e fixo, que permite a projeção de um sentido teleológico – cuja origem seria arqueologicamente revelável…e cujo fim pode ser antecipado de uma formaescatológica‘.

nietzsche-frase

A “suspeição” metafísica

Foi Nietzsche, no entanto, quem, no século XIX, antes que, qualquer outro ousasse pensar… – se atirou contra o “paradigma teleológico”…no seu esforço em emancipar o nosso ‘modo de pensar’ daquilo que chamamos… “metafísica“. Esta, para Nietzsche, seria um “princípio dominante”  de Platão a Schopenhauer, pelo qual pensaré, para nós, descobrir o ‘fundamento’ que nos permita falar conforme o ‘verdadeiro’, e agir segundo o “bem” e “justo”. Todavia, de acordo com Nietzsche, nada há “de acordo com”, uma vez que não existe um “princípio originário” – como o seria a Ideia de “Bem” … em Platão, ou o “princípio da razão suficiente”, em Leibniz. Segundo o ‘filósofo da suspeita‘,   todo discurso, mesmo o da Ciência ou Filosofia, é apenas uma ‘perspetiva histórica.

A verdade inscreve-se pois, numa história da verdade. E, com efeito, a “historicidade” do conhecimento fratura a tradicional afinidade entre razão e verdade. – Segundo Gadamer, por exemplo…tomar em consideração a historicidade significa introduzir no pensamento um tema autocrítico que contesta a velha pretensão metafísica de atingir a verdade…Não que Gadamer abandone, de forma alguma, o problema da verdade. O que a historicidade vem simplesmente sublinhar é um vínculo indelével entre conhecimento e crença, teoria    e prática, compreensão e atuação, interpretação e preconceito. Isto é, a condição mesma, do nosso próprio…”ser histórico”…tanto no sentido do lado inacabado da nossa reflexão, como na impossibilidade da pretensão de um inverossímil recomeço…radical e absoluto.

O “princípio da historicidade do ser”                                                                        “Nossa imensa ignorância…perante a imensidão da vida e do universo;                              diante da impenetrabilidade das razões… de nosso nascimento e morte;                                perante nosso inexorável isolamento, nessa escura vastidão de espaços                                  infinitos (que nos assusta), impõe a humildade como forma de estar no                                mundo; sem a qual não há conhecimento possível”. (Otto M Carpeaux)

discursoO princípio da historicidade do ser exige uma existência essencialmente  “experimental“, onde a verdade está em se alcançar os limites da finitude humana. – A ideia de uma visão não teleológica da ação humana…porém, surge no “momento exato” em que a “linguageminvade a totalidade do ser, a ponto de tudo virardiscurso“.

Com efeito… ao estabelecer-se como lugar comum às Ciências Sociais e Humanas, a “linguística”, nas suas versões estruturalista e pragmática, faz ruir o fundacionismo,        por traduzir uma preocupação pela forma – na produção do sentido – ou seja…uma preocupação refratária a qualquer tipo de “descrição factual” da realidade; negando      assim…que componentes semânticos dos sistemas de significação, se fundamentem          na presença de qualquer tipo de realidade, física ou mental. De acordo com Derrida:

“Todo sistema de significação (e, portanto, também a ciência) produz-se no elemento do discurso”…Isto quer dizer que a verdade passa a ser entendida como uma “função”, uma espécie de não-lugar, que possibilita a prática de jogos infinitos…tanto de ‘substituições’    de signos (perspetiva estruturalista), como de usos (perspetiva pragmática). (texto base*****************************(texto complementar)*******************************

vidaCIÊNCIA E FILOSOFIA                                      A relação entre filosofia e ciência é mutuamente caracterizada por uma interação…cada vez mais profunda, entre seus próprios “campos de ação”.

A ‘pedra de toque’ do valor da filosofia como uma visão metodológica de mundo, é o grau em que ela está interligada com a vidaEsta interligação pode ser direta e indireta – através do sistema de culturada ciência, da arte, moral, religião, direito e política. Como forma de “consciência social”, interagindo constantemente com todas os outros meios de expressãoa filosofia é constituída…pela “fundamentação teórica” e “interpretativa“…dos fatos e acontecimentos.

A filosofia pode se desenvolver, a si mesma, sem o apoio da ciência?…Pode existir ciência sem filosofia? Algumas pessoas pensam que as ciências podem se desvincular da filosofia, que o cientista deve evitar… filosofar – no sentido muitas vezes entendido… de uma vaga teorização infundada. E se ao termo filosofia é dado uma má interpretação, então alguém poderia concordar com o aviso… “Física…cuidado com a metafísica!…” Mas, tal aviso não se aplica à filosofia, no sentido mais elevado do termo. As ciências específicas não podem, e não devem quebrar suas… ‘estreitas e primitivas ligações’… com a “verdadeira filosofia”.

Metodologia evolutiva científica                                                                                          As mais recentes teorias da unidade de…matéria, momento, espaço…e tempo,                  bem como os princípios da conservação da matéria…e movimento – além das                ideias sobre o infinito…já foram, de um modo ou de outro vistas pela filosofia.

Ciência e filosofia sempre aprenderamuma com a outra. A filosofia…incansavelmente, suga novas forças das descobertas científicasenquanto que para as ciências, a filosofia transmite uma visão de mundo, a impulsos metodológicos de seus princípios universais. Muitas ideias gerais orientadoras que estão na base da ciência moderna foram primeiro, enunciadas pela “força perceptiva” do pensamento filosófico. – Um desses exemplos é a ideia da “estrutura atômica” manifestada por Demócrito. Certas conjecturas sobre a seleção natural foram feitas por Lucrécio, e bem mais tarde, por Diderot (1713-1784); antecipando o que…2 séculos mais tarde se tornaria fato científico. – Podemos também lembrar ateoria do ato reflexo, de Descartes, e a sua proposição sobre aconservação    do movimento no universo. A ideia de “moléculas” – como “partículas complexas”, que consistem de átomos, foi empregada nas obras de Pierre Gassendi, e de M. Lomonosov.

Além de ‘influenciar o desenvolvimento de campos específicos do conhecimento… a filosofia se enriqueceu – substancialmente…do ‘progresso científico’. – Toda grande descoberta é…ao mesmo tempo, um passo a frente no desenvolvimento filosófico da        visão metodológica de mundo. – Afirmações filosóficas baseiam-se em conjuntos de        fatos cientificamente estudados … gerando um sistema de proposições … princípios, conceitos e leis – que desse modo, melhor podem resumir as ‘conquistas científicas’.          Por outro lado, ao traçarmos toda história da ciência natural e social…não podemos    deixar de notar…que – na construção de suas hipóteses e teorias – os cientistas têm constantemente aplicado, às vezes inconscientemente; visões de mundo, princípios, categorias, e sistemas lógicos … absorvidos de processos, e metodologias filosóficas.      Todo cientista teórico, constantemente fala sobre isso com profundo sentimento de gratidão, tanto em suas obras, quanto em conferências e congressosmundo afora.

Algumas pessoas pensam que a ciência chegou a um tal nível de sofisticação, que já não precisa de filosofia. Mas qualquer cientista, especialmente teórico, sabe em seu coração, que sua “atividade criativa está intimamente ligada à ‘prática filosófica’, por sua forma abrangente, capaz de analisar criticamente todos princípios e sistemas conhecidos pela ciência, descobrindo suas contradições internas, e as superando em novos conceitos. O pensamento científico em seu âmago é filosófico…bem como o verdadeiro pensamento filosófico é profundamente científico…de tal modo que…enraizada em suas realizações,      a formação filosófica dá ao cientista maior penetração, em sua mais ampla tentativa de levantamento… e…resolução dos seus problemas. (texto baseCaio Mariani (abr/2013)    *********************************************************************************

einsteinTeorias científicas & Processo filosófico

O que se entende por teoria científica, é que seja algo…até prova em contrário “provado”. Teorias científicas podem ser tomadas como…”verdade”. Mas, teorias estruturadas abstrativamente; sem necessidade de experimentos e observação… tal como a…Navalha de Ockham…são anteriores à própria ‘teorização científica’ – se tratando de “teorias filosóficas“… – fundamentais à ciência.

Nesse sentido, o significado científico de teoria, difere do significado filosófico…havendo inclusive inúmeros pensamentos, também considerados teoria – independente de serem validados cientificamente, ou não (exemplo… a “teoria do valor-trabalho”…em economia política, concorrendo sua validade com outras pseudo-teorias como a do valor marginal).  Um outro exemplo de ‘teoria filosófica’…portanto não-científica…é a longa disputa entre “realismo x idealismo”, que é totalmente teórica, metafísica e abstrata. – Não se trata de algo que se possa provar cientificamente, pois a articulação para sustentar uma ou outra posição é filosófica. – Mesmo assim, o que for definido dessa discussão; por exemplo, se átomos existem realmente, ou se são apenas ‘constructos teóricos’…criados para melhor entendermos um fenômeno estranho…irá impactar a fundo na própria prática científica.

Teoria científica e teoria filosófica parecem evidentemente divergir… levando em conta que, como comumente entendido no campo científico…para ser uma teoria, deveria ter    um experimento, ou teste comprovados – o que não se aplica a muitas ideias…também consideradas…teóricas…no relativo “senso-comum”…do campo filosófico. (texto base*******************************************************************************

Unesp lança videogame ensinando física quântica (mai/2010)                            “Trata-se de conceitos intrincados…que precisam ser repetidos…para                                    que sejam assimilados. – Filmes, livros…e quadrinhos já foram feitos                                  com tal objetivo – mas o videogame é bem mais eficaz nesse aspecto”.

Uma espaçonave de tamanho subatômico tem a missão de capturar partículas, identificá-las – e com elas… montar ‘estruturas atômicas‘ em outro planeta.                  Essa é parte da missão do…Sprace Game’…jogo de computador projetado por            físicos da ‘Universidade Estadual Paulista’ (Unesp), com o objetivo de transmitir          conceitos de…”física de partículas”…para estudantes, e para o público leigo. – O              professor do “Instituto de Física Teórica” da Unesp…Sérgio Ferraz Novaes… que                  coordena o projeto “Sprace…contou que o jogo faz parte do esforço de levar aos          alunos de ensino médio do país, informações atuais sobre a ‘física de partículas’.

videogame

Unesp lança o Sprace Game, um jogo eletrônico projetado para ensinar conceitos básicos sobre a composição da matéria, em suas partículas elementares.

Projetado em linguagem Java, o Sprace Game  consegue rodar em qualquer computador, com sistemas operacionais Windows, Linux ou Mac. Segundo o programador do jogo…Ulisses B. de Mello… — da ‘Black Widow há 3 versões de resolução, para que máquinas até um pouco mais antigas…possam receber o jogo; e explica:  “Conseguimos rodar a versão mais básica num Pentium 1,3 Ghz em 512 Mb de memória RAM,  e achamos que a ‘configuração mínima’ para o jogo seja essa”Funcionando em ‘plataformas básicas’ o videojogo pode servir de ferramenta  de ensino…a instituições carentes de recursos, só necessitando de acesso à internet…O jogo é gratuito, a partir da página “SPRACE GAME”.

As regras do Jogo                                                                                                                      “Não podíamos fazer um jogo somente divertido…mas com incorreções                          científicas, nem fazer algo muito preciso, mas que fosse chato de jogar”.

Experimentos realizados em aceleradores de partículas revelaram que prótons e neutrons são compostos de quarks, partes ainda menores. Além dos quarks…que se dividem em 6 tipos (up, down, estranho, charme, bottom e top), também foram descobertos os léptons (elétron, múon, tau e seus três respectivos neutrinos), e ainda…as partículas responsáveis pelas interações…forte e fraca, e a eletromagnética (glúon, W, Z e fóton), respectivamente.

Ao passar pelas 4 fases do Sprace Game, o jogador tem que capturar com sua espaçonave partículas subatômicas, levá-las a um laboratório para que sejam identificadas, descobrir do que são formadas as partículas compostas — hádrons — e recombinar quarks, para formar prótons e neutrons… – Com eles então… o “jogador” poderá conseguir montar núcleos atômicos de hidrogênio e oxigênio…visando obter um recurso fundamental à colonização do planeta explorado, a água. Numa outra fase muito fase bem interessante (2ª), o jogador deve encontrar, perseguir…e observar o “decaimento” da partícula tauou seja, sua decomposição em outras sub-partículas – ao fim de seu tempo de vida… São essas “sub-partículas que o jogador deverá capturar (ajudando assim, a melhor explicar    o conceito de ‘decaimento.) Um dos grandes desafios do projeto foi criar um jogo que garantisse um bom entretenimento – sem, contudo…perder de vista a “noção científica”.

O produto final foi testado e aprovado por alunos do ‘ensino médio’…participantes do ‘Master Class Hands on Particle Physics’…evento internacional cuja etapa paulista foi realizada em fevereiro pela Unesp. Com o sucesso na escolha do jogo eletrônico como mídia para divulgar a física de partículas – o ‘Sprace Game’ tenta levar conhecimento      atual para estudantes do século 21, por meio de uma mídia moderna Enriquecê-los,      com informações da física contemporânea — é o seu objetivo principal.  ‘texto base’    

Publicado em filosofia | Marcado com | 1 Comentário

Uma estranha Natureza, em sua imprevisibilidade quântica

“É visão corrente entre vários cientistas que a mecânica quântica não nos fornece qualquer retrato da realidade… E, que o seu arcabouço teórico deve ser encarado simplesmente como um formalismo matemático…que não nos diz essencialmente       nada sobre uma realidade efetiva do mundo… Mas, de fato, nos permite calcular probabilidades alternativas dela ocorrer.” (Roger Penrose, ‘The Road to Reality’)

escher-birds-to-fish (2)

Escher – “Birds-to-fish”

Há séculos… os métodos indutivo e dedutivo têm permitido aos cientistas caminharem do Todo…para as partes – e, das partes ao Todo, aprimorando seu conhecimento domundo natural‘ – em cada passo dessa caminhada. Tal aquisição de conhecimento só é possível, porque há uma estreita ligação entre o Todo, e o conhecimento de suas partes… – Quanto mais partes conhecidas mais entendemos  o Todo, e quanto mais o entendemos, maior  a compreensão de suas partes…Todavia, em seu estranho mecanismo, a ‘teoria quântica’ nos garante que podemos deduzir questões, mesmo faltando parte da ‘informação total’.

Pelo menos é isso que garantem Thomas Vidick e Stephanie Wehner da Universidade de Cingapura. – Os dois físicos usaram a “teoria quântica”…para demonstrar que é possível responder corretamente a praticamente qualquer questão sobre as partes de um sistema sem precisar conhecer o sistema inteiro. – Ou, invertida a proposição… que saber o todo   não é…absolutamente…uma garantia – para responder tudo… – sobre todas suas partes.  Imagine, por exemplo, que um aluno vai ao exame, tendo lido apenas metade do que lhe ensinaria o livro sobre a matéria… Em seu conhecimento incompleto sobre o ‘todo‘, terá que responder questões sobre suas partes. O senso comum diz que o aluno rapidamente será desmascarado…tão logo chegue nas questões cujas respostas estão nas páginas que não leu… No “mundo clássico”…isso sempre foi, e continuará sendo assim… — A “teoria quântica” porém não concorda com esse ‘senso comum’, e afirma que o aluno poderá se sair muito bem no teste – podendo até mesmo tirar um ‘10‘, se em vez das informações clássicas… — contidas em um “livro clássico”… – lidar com ‘informações quânticas‘.

“Os elétrons, por exemplo, não existem sempre…Existem apenas quando                            interagem…Materializam-se em um determinado lugar, ao se chocarem                            com alguma coisa. Nos saltos quânticos entre órbitas…se tornam ‘reais’.                            Um elétron é um conjunto de ‘saltos’…de uma interação a outra; porém,                            quando nada o perturba…ele não existe… em lugar algum.”  (C. Rovelli) 

Ignorância & Intuição quântica                                                                                “Observamos esse efeito… contudo, ainda não entendemos de onde ele surge…E,              não espere maiores explicações mais tarde…pois, como diria Richard Feynman,              uma compreensão intuitiva dos fenômenos quânticos… parece algo inatingível”.

No caso das informações quânticas… – não há como saber qual informação o aluno não detém… nem mesmo se o professor fica sabendo de antemão qual parte do livro o aluno leu. Ou seja, a dita ignorância quântica será preservada, e o aluno jamais desmascarado.

Uncertaintyprinciples

Uma ilustração entre a incerteza inerente entre posição e momento no nível quântico. Há um limite para o quão bem podemos medir essas 2 quantidades simultaneamente, já que elas não são mais meramente propriedades físicas, mas sim operadores mecânicos quânticos com aspectos desconhecidos inerentes à sua natureza. A incerteza de Heisenberg aparece em lugares onde geralmente menos se espera. (Wikimedia Commons – Maschen /E. Siegel)

Essa impossibilidade de desmascarar uma ‘ignorância quântica’ parece ter vindo se somar a uma série de outros fenômenos quânticos, impossíveis de se ter uma clássica ‘explicação mecanicista’…Uma das questões centrais para a compreensão do “mundo físico”, é o quão nosso conhecimento do todo se relaciona ao conhecimento de partes…Ou, o quanto nossa ignorância sobre o todo, impede o conhecimento…de ao menos… – uma – de suas partes. Apenas pela “intuição clássica” poderíamos conjecturar que uma forte ignorância do todo não pode vir sem uma significativa ignorância de…ao menos uma de suas partes. Todavia, curiosamente… – essa conjectura é falsa na teoria quântica… – onde pode coexistir uma imensa ignorância do todo … com o saber quase perfeito, de qualquer uma de suas partes.

Além das implicações teóricas ainda não totalmente compreendidas, a descoberta pode trazer sérias implicações sobre “criptografia quântica”, em pesquisas na codificação de informações…’à prova de qualquer ataque’. A propósito, Stephanie Wehner foi também uma das autoras da surpreendente descoberta de uma relação, entre a assim chamada “ação fantasmagórica à distância”…e o “Princípio da Incerteza”. (texto base, ago/2011) ***********************************************************************************

A natureza é — decididamente… “imprevisível“… — dizem os físicos… (jul/2012)  “A teoria quântica fornece, essencialmente…o limite final na previsibilidade do Universo. Por seu apelo de natureza fundamental…em contraste à teoria clássica, conhecer a exata configuração do universo no ‘Big Bang’… não basta para prever sua evolução completa”.

Num artigo … que promete desmerecer ‘palpites futurólogos’ – e estremecer os fundamentos de quase todas previsões, pesquisadores afirmam que a natureza é definitivamente imprevisível. E, com efeito… muitas das previsões do dia-a-dia são vagas – geralmente incorretas, porque nossas informações — sobre o ‘evento’… não podem ser completas;  como, por exemplo, na ‘meteorologia’, quando tentamos — “prever o tempo”.

Na mecânica quântica, todavia, a coisa é pior – porque, mesmo se toda informação estiver disponível, os resultados de certos experimentos…são impossíveis de serem perfeitamente previstos de antemão. Tal imprecisão, em relação aos resultados de experimentos na física quântica…a partir das discussões entre Einstein e Bohr, tem sido objeto de intenso debate. E, mesmo dando a ideia de uma ferramenta inadequada na previsão de resultados, afirma-se agora que a ‘teoria quântica’ está perto de seu ideal… – em termos de “poder preditivo”.

“Em nosso experimento mostramos que toda e qualquer teoria que apresente menos aleatoriedade (do que na mecânica quântica) está destinada ao fracasso…ou seja, a teoria quântica fornece essencialmente o limite final na previsibilidade do Universo”.

A referência lembra Einstein, que disse certa vez em uma carta a seu colega Max Born:      ‘não acreditar que Deus jogasse dados’…ele próprio, acreditando em leis naturais bem precisas e definidas. – O trabalho da equipe de Wolfgang Tittel, da Calgary University /Canadá – no entanto… contesta essa precisão – dando razão ao filósofo David Hume,    que afirmava serem tais leis científicas, ‘meras probabilidades’, pois nada impede que,    até mesmo “eventos no futuro” – possam contestar  eventos observados no passado.

A “aleatoriedade” é uma das principais características da teoria quântica, geralmente expressa pelo “Princípio da Incerteza” de Heisenberg. – Esse estranho comportamento, tornou-se popularmente conhecido… – graças a experimentos…como o famoso “gato de Schrodinger”; Dupla Fenda”; além de trabalhos na “computação quântica”. (‘texto base’**********************************************************************************

Testando o “efeito do observador”                                                                                        Dylan Mahler e Lee Rozema usaram ‘fótons entrelaçados’ para fazer medições,                  cujos resultados questionam uma das interpretações do Princípio da Incerteza. 

incerteza-heisenberg-1

O “Princípio da Incerteza” de Heisenberg, formulado em 1927, é um dos bastiões da mecânica quântica. Apresentado como afirmação de uma “incerteza intrínseca” aos sistemas quânticos…é bem fundado, e largamente demonstrado… Heisenberg, no entanto – originalmente – o formulou em termos do…”efeito do observador“…a relação entre a precisão da medição de uma partícula quântica…e, a ‘perturbação‘  criada ao medirmos… – por exemplo… – a posição de um ‘elétron’ … por um ‘fóton’.

Embora essa seja a forma mais conhecida do ‘Princípio’, ela nunca foi experimentalmente comprovada; havendo inclusive, erros matemáticos em sua demonstração. – Mas o baque maior veio mais recentemente, ao cientistas canadenses demonstraram a possibilidade de avaliar o distúrbio gerado pela medição…concluindo que o ‘Princípio da Incerteza‘ era pessimista demais… – E agora então, essa mesma equipe usou a chamada “medição fraca(que não afeta o sistema quântico), para lançar uma dúvida mortal sobre a “Incerteza” de Heisenberg em seu aspecto ‘influência do observador‘. Eles idealizaram um experimento que avalia um sistema quântico, por meio de uma ‘interação mínima‘, permitindo que    a informação sobre o ‘estado inicial‘ desse sistema seja extraída, com pouca ou nenhuma perturbação… – O físico Lee Rozema…participante do grupo, assim explica a experiência:

“Projetamos um aparato para poder medir a polarização de um único fóton. – Em seguida…medimos a sua influência… – sobre aquele fóton. Cada execução só indicava, uma ínfima quantidade de informação do distúrbio… – No entanto – ao repetir o experimento várias vezes, conseguimos obter uma boa ideia … sobre quanto o fóton foi afetado”. 

Nessa experiência foi usada a ‘medição fraca’…registrando o fóton antes dele entrar         no aparato, e depois lá dentro, medido normalmente. Comparando-se os 2 resultados, verificou-se que a interferência da medição sobre o fóton é menor do que a necessária para justificar uma “visão pessimista”…do “Princípio da Incerteza” de Heisenberg.

O experimento não afeta em nada o Princípio… em termos da incerteza intrínseca de      um sistema quântico, mas descarta de vez sua pretensa validade geral para os efeitos gerados pelo observador sobre as medições…E conclui Rozema… – “Estes resultados        nos forçam a ajustar nossa visão … sobre quais limites a mecânica quântica impõe às medições… – Tais limites são importantes aos fundamentos da mecânica quântica, e centrais na tecnologia de uma segura criptografia quântica”  texto base (set/2012) *******************************************************************************

Eventos quânticos independem da causalidade do espaço e do tempo                Há cerca de 2 meses, físicos demonstraram que causa e efeito não são coisas tão claras no mundo da mecânica quântica. O grupo propôs que existem situações nas quais um evento pode ser tanto a causa quanto o efeito de outro, quebrando a famosa “lei de causa e efeito“.entrelaçamento quântico

Num experimento em laboratório feito por físicos da Universidade de Viena…Xiao-Song Ma e equipe mostraram uma situação onde é impossível descrever a causalidade entre 2  eventos correlacionados, ou seja, sabe-se que um afeta o outro; mas não quem é a causa, ou o efeito… A ‘Interpretação de Copenhague’, a mais aceita da ‘física quântica’…diz que,  propriedades de um objeto quântico dependem dos aparelhos e da forma como se mede esse objeto, que assim poderá – na medição… revelar-se como onda ou partícula. Outro fenômeno bem conhecido é o entrelaçamento quântico ou emaranhamento, pelo qual uma…”partícula quântica”… – compartilhando propriedades com outra…é afetada instantaneamente…por algo que nela aconteça – não importando a distância entre elas.

Em ambos os casos, a princípio…ainda se pode falar em ‘causalidade’, onde uma partícula influencia a outra…ou, a própria medição altera a partícula.

Agora, porém, os físicos mostraram como a medição de uma partícula (um fóton de luz) é afetada…não pela medição feita nela própria, mas pela medição feita em um 2º fóton. Em outras palavras… o fóton se comporta como partícula, ou onda – dependendo da medição feita em um 2º fóton – tão distante do 1º… – que não poderia haver ‘troca de informação’ entre os dois, sem violar o limite de velocidade máxima do Universo…a velocidade da luz.  Os cientistas afirmam que o experimento não é suficiente para derrubar nenhum pilar da física…mas que é impossível, em termos de ‘causalidade‘, dar uma explicação lógica do que ocorre. – O 1º fóton estava no laboratório em Viena…enquanto o 2º estava nas Ilhas Canárias, mas a ‘manifestação‘ do fóton (como onda…ou partícula)…em Viena, depende sempre da medição feita nas Ilhas Canárias. E Anton Zeilinger, chefe da equipe concluiu:

“Nosso trabalho refuta a visão de que um sistema quântico possa, em certo instante, se mostrar, definitivamente como uma onda ou partícula… – Isso exigiria uma ‘intercomunicação’ mais rápida do que a ‘velocidade da luz’… entrando em ‘confronto direto’ com a teoria de Einstein.” texto base (2013)  **********************************************************************

Efeito do Observador: átomos não se movem se você estiver olhando 

efeito-zeno-1

Os átomos não se movem quando estão sendo observados, mas basta fazer as medições em intervalos maiores para que eles se movam. [Imagem: Y. S. Patil et al./PhysRevLett.]

Há poucos dias, num experimento histórico, físicos finalmente mostraram de uma forma incontestável que Einstein estava errado, ao menos numa – de suas ideias fundamentais, envolvendo o “princípio da incerteza” – e as “leis probabilísticas” da ‘mecânica quântica’.

Para não deixar margens a dúvidas – outra equipe finalmente demonstrou … de forma inequívoca…uma das bizarras previsões da teoria quântica justamente a que faz um sistema quântico não mudar … enquanto o pesquisador o estiver observando assim confirmando de fato que o observador influencia os … experimentos quânticos.

Segundo os físicos da Universidade de Cornell, EUA, responsáveis pelo experimento, esse experimento, além de resolver uma disputa de longa data entre os físicos, abre o caminho para uma técnica basicamente nova para controlar e manipular os “estados quânticos” de átomos – já permitindo … num primeiro momento – a criação de novos tipos de sensores.

Efeito Zeno Quântico                                                                                                                  “Olhe para eles, e eles ‘congelam’ no lugar; interrompa a medição, e eles voltam a tunelar”.

Para testar a ‘influência do observador’ sobre os experimentos quânticos – Yogesh Patil e Srivatsan Chakram resfriaram um gás contendo cerca de um bilhão de átomos de rubídio, no interior de uma ‘câmara de vácuo’ – até quase zero absoluto – e suspenderam a massa usando feixes de laser. – Nesse estado, os átomos se organizam em uma ‘grade ordenada’, como se estivessem em um cristal sólido‘…funcionando como uma entidade única – por essa razão, tal estrutura é muitas vezes chamada de “átomo artificial“…Em temperaturas tão baixas – os átomos podem…tunelar…de um lugar para outro, na…”rede atômica”.

O princípio da incerteza de Heisenberg diz que a posição e a velocidade de uma partícula estão relacionadas…e não podem ser simultaneamente medidas com precisão. – Sendo a temperatura uma medida do movimento da partículanum frio extremo, de quase ‘zero absoluto’ a velocidade então é praticamente zero – e…há muita ‘flexibilidade’ na posição: ao olharmos os átomos, eles são tão susceptíveis de estar num dado lugar na rede, como em qualquer outro. Os pesquisadores assim…demonstraram a possibilidade de suprimir    o “tunelamento quântico” (mudanças de posição) meramente observando os átomos. Esse procedimento então foi refeito, repetindo rapidamente as medições. E quanto mais rapidamente são realizados – menor é a probabilidade dos átomos terem saído do lugar.

Este chamadoEfeito Zeno Quântico– ou “Efeito do Observador” – deriva de uma proposta feita em 1977 por George Sudarshan e Baidyanath Misra, da Universidade          do Texas, que notaram que a ‘natureza estranha’ das medições quânticas permitiria “congelar” um sistema quântico através de medições repetidas, feitas em sequência.

efeito-zeno-2

Como os átomos se mostraram altamente sensíveis às menores forças externas – as forças envolvidas em sua medição – isto tornará possível desenvolver sensores mais precisos. [Imagem: Y.S.Patil /PhysRevLett.]

Classicalidade emergente

 Como explicou Mukund Vengalattore, professor orientador do grupo…essa representa a primeira observação do “Efeito Zeno Quântico”…por uma medição do ‘movimento atômico’ no espaço real.

“Além disso, devido ao alto grau de controle que se conseguiu demonstrar nos experimentosfoi possível‘sintonizar’gradualmente a maneira pela qual esses átomos puderam ser observados. Através desse ‘ajuste’ fomos também capazes de demonstrar o efeito chamado…classicalidade emergente ocorrendo neste sistema quântico.”

Na “classicalidade emergente”…os efeitos quânticos desaparecem, e os átomos começam    a se comportar da maneira prevista pela ‘física clássica’…aparentemente muito mais intuitiva.

Com a confirmação desses experimentos definindo a realidade das esquisitices quânticas, as atenções agora começam a se voltar para a fronteira entre os reinos que obedecem às leis da física clássica ou da mecânica quântica. Embora tradicionalmente associados com as dimensões das partículas envolvidas, alguns indícios apontam que a gravidade possa ser usada para explicar afronteira clássico-quântico, enquanto outros propõem…que    a física quântica emerge nafronteira entre múltiplos universos‘. (texto base) (nov/2015)  *******************************(texto complementar)*******************************

Reencarnação quântica: físicos ‘desmedem’ partículae ela retorna à vida     “A mecânica quântica não descrevepropriedades objetivasde um sistema físico,         mas sim… – oestado de conhecimentode quem o observa”. (Christopher Fuchs)

onda-particula

[Imagem: Andrew N. Jordan]

As partículas quânticas, ou sub-atômicas, têm comprovadamente, comportamentos que parecem absolutamente impensáveis.  Assim como podem se comportar… como partículas…ou ondas… – podem também estar em vários lugares ao mesmo tempo.

A teoria atualmente aceita, afirma que um objeto quântico pode estar em qualquer lugar entre as possibilidades descritas por sua função de onda. Quando alguém tenta medir essa onda/partícula, entretanto, ela imediatamente “colapsa“…para estar tão somente naquele exato local onde é feita a medição…assim como um ‘objeto clássico’.

Pois bem, para demonstrar que o mundo quântico pode ser ainda mais estranho, os físicos Andrew Jordan e Alexander Korotkov propuseram, em 2006, que seria possível ‘desmedir’ – desfazer a onda/partícula, fazendo-a voltar ao seu exato estado quântico anterior; como se a medição não tivesse acontecido… e, portanto, a partícula não tivesse sofrido qualquer alteração… – E, somente agora…2 anos depois, uma equipe da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, EUA, conseguiu realizar esse experimento… comprovando que a teoria tem importância…quase transcendental…nas explicações físicas sobre o mundo quântico.

clássicoxquântico

A nova teoria sugere que a fronteira entre o mundo quântico, e o mundo clássico não é uma linha muito bem definida…como se pensava até hoje. Em vez disso … dados sugerem que, essa fronteira é…na realidade, uma  “zona cinzenta”… – com amplitude ainda incerta – mas…cujo tempo a    ser percorrida – é maior que…zero.

Em recente artigo – Nadav Katz…e seu grupo de pesquisadores da UCSB/EUA   explicam como foram capazes de até “enfraquecer” a medição de uma ‘partícula quântica’, forçando apenas um…”colapso parcial”, algo como um “estado de coma” de uma partícula quântica. – A seguir… alterando certas propriedades da partícula…e refazendo a medição; esta retornou ao seu estado quântico…como se a ‘primeira medição’ não tivesse sido feita.

Esse mecanismo é de extremo interesse para se construir computadores quânticos…o que não é tarefa fácil…pois os ‘bits quânticos’ (qubits) desses ‘computadores futurísticos’ são muito sensíveis, sofrendo interferência de inúmeros fatores do ambiente – colapsando…e perdendo os dados… E assim, portanto, o novo “sistema de reversão” poderá representar uma possibilidade de se construir mecanismos de correção de erros…como explicou Katz:

“Enquanto vários cientistas afirmam que, como a simples medição de uma                            partícula quântica afeta seu comportamento – de certa forma – criamos a                            realidade, à medida que interferimos com ela…Agora…a demonstração de                            sermos capazes de reverter o “colapso” da partícula quântica…nos diz que,                          não podemos assumir que qualquer medição crie a realidade, pois sempre                            é possível apagar seus efeitos, e começar tudo de novo”. ‘texto base’ (2008)

****************(Whitehead – “O Conceito de Natureza”) *********************            Um objeto científico – como um elétron, por exemploé um aspecto do caráter sistemático da correlação dos caracteres de todos eventos existentes na Natureza.                 O elétron não está simplesmente ali onde está sua ‘carga’; esta é apenas o caráter quantitativo de certos eventos decorrentes da introdução do elétron na Natureza.                O elétron é a totalidade de seu campo de força. Ou melhor, é a forma sistemática                  pela qual todos os eventos são modificados, quando expressam a sua introdução.  ***************************************************************************

Mecânica quântica desafia relações clássicas de causa e efeito                                Como consequência direta desse resultado, tem-se uma nova forma de “não classicalidade”, que é mais forte que as outras formas conhecidas até então;                      inclusive… – a “não localidade quântica”… implicada pelo “teorema de Bell”.

quantum

A parte superior da ilustração mostra uma oscilação sinusoidal de um fóton em comportamento característico de onda; e na parte inferior mostra-o em seu comportamento típico de partícula. No intervalo, é caracterizada sua superposição partícula/onda”.

As relações de causa e efeito correspondem a um dos principais alicerces                              da física clássica. – São elas que permitem uma compreensão do mundo,                            que se manifesta em nosso dia a dia, identificadas em meio a correlações                      espúrias. – O mundo quântico, todavia… parece existir sob outras regras.

Já foi demonstrado que a mecânica quântica tem um caráter não local. Essa conclusão, viabilizada pelo famoso teorema de Bell, abalou noções clássicas de causa e efeito. Mas agora…um novo trabalho aprofunda essa investigação… – mostrando que é ainda mais complicado extrair “relações causais” em um ‘contexto quântico’…Isso porque, quando “estados quânticos” estão “emaranhados“…testes que classicamente funcionam para estabelecer…”relações de causa e efeito“… – aparentemente…deixam de funcionar.  Sobre issoRafael Chavespesquisador do Instituto Internacional de Física da UFRN (“Universidade Federal do Rio Grande do Norte”) – e principal autor desta pesquisa, publicada em dezembro de 2017 na revista científica… “Nature Physics” explica que:

“O primeiro resultado é que ‘efeitos quânticos’ podem levar a uma superestimação          da quantidade de ‘causalidade‘ – no sentido de que…usando uma teoria clássica, podemos concluir que 2 eventos têm causalidade positiva entre eles…enquanto, usando o fato de que… os ‘efeitos são quânticos’ – essa causalidade pode se anular.          O segundo é que testes muito importantes para quantificar a qualidade de nossas variáveis instrumentais, podem ser violados em estados quânticos emaranhados”.

O trabalho, que contou com a participação de Leandro Aolita, do Instituto de Física da UFRJ (Rio de Janeiro), e de um grupo de pesquisadores da ‘Universidade Sapienza’ de Roma, realizou testes fotônicos, para demonstrar a violação identificada teoricamente.  Além de todas implicações de ‘caráter fundamental’ – a pesquisa também pode incluir aplicações práticas, segundo os autores, no processamento de informação no contexto quântico… – e, em particular… – dentro de protocolos de “criptografia“. (texto base********************************************************************************

Mecânica quântica cada observador tem direito a seu próprio fato (out/2019)

observador-quantico

A equipe usou uma versão estendida do experimento de Wigner, em que um estado entrelaçado é enviado a dois laboratórios diferentes, cada um com um observador interno, e um observador externo. [Imagem: Proietti et al.]

O “método científico” se baseia em fatosestabelecidos através de medidas repetidas e acordadas universalmente, independentemente de quem fez as observações. Contudo, um grupo de físicos acaba de demonstrar que, no reino da mecânica quântica…os fatos podem depender não apenas de serem ou não observados… – mas também – de quem os observa.

Imagine jogar uma moeda. Uma moeda quântica pode existir              numa superposição de cara e coroa, até que ela seja observada,              proporcionando então a definição do resultado: cara ou coroa.

Na década de 1960, o físico Eugene Wigner (1902-1995), ganhador do Nobel de Física de 1963, propôs um experimento mental intrigante. Um pesquisador, comumente chamado de…”amigo de Wigner“…joga uma moeda quântica dentro de um laboratório fechado, observando um dos 2 resultados. Do lado de fora, não podemos dizer o que aconteceu, e    as regras da mecânica quântica nos permitem descrever o pesquisador e a moeda, como um sistema único. Fora do laboratório o amigo de Wigner e a moeda ficam entrelaçados,    o que significa que eles estão em uma… “superposição“… em que ambos os resultados, cara e coroa, ainda estão presentes … um fato que assim, pode ser estabelecido por um observador externo. Isso cria uma situação paradoxal, em que o fato estabelecido dentro     do laboratório parece criar uma ‘contradição‘, com o fato observado a partir do exterior.

Efeito de quem é o observador

Para testar essa previsão, Massimiliano Proietti, da Universidade Heriot-Watt – Escócia, realizou um teste quântico que envolve 4 observadores, implementados em um pequeno processador quântico fotônico. Num experimento envolvendo 6 partículas emaranhadas de luz, os dados demonstraram…que os observadores internos e externos realmente não conseguem concordar com o que aconteceu no experimento. A percepção então obtida é, que os “observadores quânticos” poderiam…realmente…ter direito a seus próprios fatos.

Se insistirmos que esse não deveria ser o caso para observadores humanos‘clássicos’, o desafio agora é fixar onde os 2 domínios [quântico e clássico] se separam. Isso pode, por exemplo, sugerir que a mecânica quântica não seja aplicável a objetos cotidianos‘, como explicou o professor Alessandro Fedrizzi (co-autor do trabalho)“Se alguém se apegar a premissas de localidade e livre escolha, o resultado tem como consequência, que a teoria quântica deve ser interpretada de uma maneira dependente do observador”. (texto base*********************************************************************************

Novo paradoxo quântico (“3º excluído”) em nossa visão do Universo (ago/2020)    “Enquanto as partes – necessariamente – condicionam o todo… – O todo não condiciona necessariamente as partes.” (Nietszche … “Sobre a teleologia de Kant” … obra inacabada)

paradoxo-quantico-universo

Pode uma pequena inteligência localizada – mesmo uma inteligência artificial – influir em todo o rumo do universo? [Imagem: Anthony Dunnigan]

Nos acostumamos com explicações que a ciência costuma nos dar sobre a natureza, frequentemente – considerando-as como “explicações definitivas“. — Mas não nos enganemos pelas aparências. Poucas das nossas teorias— se é que alguma delas,      pode ser considerada como“definitiva”.   

Afinal – além de extremamente jovem, a ciência está em ‘permanente construção’,          e nossa compreensão da natureza — está constantemente sendo…”ajustada”, para conseguir “dar conta” dos novos saberes.

Kok-Wei Bong e colegas da Universidade Griffith, na Austrália, acabam de nos dar mais um exemplo cabal dessa insustentável fluidez do saber, demonstrando que quando se trata de certas teorias longamente aceitas sobre a natureza, alguma coisa tem que ceder.    A equipe de físicos levantou um novoparadoxo quântico“, estabelecendo que – entre 3 princípios, devemos abrir mão de pelo menos 1 delespara que os outros se sustentem.

Pressupostos fundamentais sobre a natureza

Mesmo excepcionalmente eficaz para predizer o que observamos em objetos minúsculos, como átomos, a aplicação da “teoria quântica” em escalas muito maiores – em particular para os observadores que fazem as medições, traz questões conceituais complicadas. – O professor Eric Cavalcanti, um dos que elaborou o paradoxoexplica esta situação assim:

“O paradoxo significa que, se a ‘teoria quântica’ funcionar, ao descrever os observadores, os cientistas terão que desistir de uma das 3 suposições mais estimadas sobre o mundo.  A 1ª delas…é que, quando é feita uma medição, o resultado observado é um evento real e único no mundo…Esta suposição exclui, por exemplo, a ideia de que o Universo possa se dividir … com diferentes resultados sendo observados em diferentes universos paralelosO 2º pressuposto é que ‘cenários experimentais’ podem ser escolhidos livremente nos permitindo realizar testes aleatórios. E o 3º é que uma vez feita a escolha, sua influência não pode se espalhar no universo mais rápido do que a luz. Cada uma dessas suposições fundamentais parece inteiramente razoável…e amplamente aceita. No entanto, também    é amplamente aceito que experimentos quânticos podem ser escalonados para sistemas maiores; até mesmo a nível de observadores. Mas nós demonstramos que uma dessas crenças amplamente aceitas deve estar errada!… E abandonar qualquer uma delas, tem consequências de longo alcance para nossa compreensão do mundo” disse Cavalcanti.

lógicaParadoxo quântico-filosófico

A equipe estabeleceu o paradoxo analisando um cenário com “partículas quânticas entrelaçadas” bem separadas incluindo um “observador” quântico … um “sistema quântico” que pode ser manipulado e medido de fora, mas podendo ele mesmo fazer medições numa partícula Quem  explica o experimento … é a Dra. Nora Tischler:

“Com base nessas 3 hipóteses fundamentaisdeterminamos matematicamente os limites de quais resultados experimentais são possíveis nesse cenário. Contudo, a teoria quântica, quando aplicada aos observadores, prevê resultados que violam esses limites. Na verdade, já fizemos um experimento de ‘prova de conceito‘…usando fótons entrelaçados…achando uma violação exatamente como prevista na teoria quântica. Mas nosso ‘observador’ tinha um tipo de cérebro muito pequeno – por assim dizer… com apenas 2 estados de memória,  implementados como 2 caminhos diferentes para um fótonÉ por isso, que o chamamos de experimento deprova de princípio‘, e não uma demonstração conclusiva de que um dos 3 pressupostos fundamentais deste paradoxo deva estar errado”… ponderou Tischler.

E, acrescentou o professor Howard Wiseman…“Para uma implementação mais definitiva do paradoxo – nosso ‘experimento mental’…é aquele em que o observador quântico é um programa de inteligência artificial a nível humano, rodando num gigantesco computador quântico…Esse seria um bom teste para saber se a teoria quântica é observacionalmente falha, ou se uma das 3 suposições fundamentais é falsa. – Mas isso provavelmente levará décadas…para que possa ser realizado experimentalmente. – Há muito se reconhece que ‘computadores quânticos’ irão revolucionar nossa capacidade de resolver problemas difíceis. O que ainda não percebemos, é que eles também podem nos ajudar a responder problemas, tais como a natureza da relação entre mundosfísico e mental”. (texto base)

Publicado em física | Marcado com , , , | 2 Comentários

A hora e a vez da ‘inteligência artificial’

Os mais recentes algoritmos de IA investigam a evolução das galáxias,                                  calculam “funções de ondas” quânticas…descobrem novos ‘compostos                                  químicos’ e muito mais. Existirá algum limite para tal automatização? quebra-cabecas-cosmico-1-1 Nenhum ser humano…ou grupo humano, poderia acompanhar a…”avalanche“…de informações produzida por muitos dos experimentos atuais de…”astrofísica”…Com          alguns deles registrando ‘terabytes’ de dados ao dia, a correnteza só tende a crescer.              OSquare Kilometer Array‘, radiotelescópio previsto para…’entrar em ação’…agora,          em plena década de 2020 … irá gerar uma generosa Internet de tráfego de dados. O dilúvio está fazendo com que muitos cientistas recorram à inteligência artificial em busca de ajuda. Com um mínimo de entrada humana…sistemas de IA como as redes neurais artificiais (redes de neurônios simuladas por computador que imitam a função cerebral) podem explorar montanhas de dados – destacando anomalias e detetando padrões, que nós humanos nunca conseguiríamos perceber…É certo que o emprego de computadores no auxílio em pesquisa científica já tem cerca de 75 anos, e o método de análise manual de dados em busca de ‘padrões significativos’ teve sua origem milênios atrás, mas alguns cientistas argumentam que técnicas mais recentes de…“aprendizado        de máquina” e “IA”…constituem um modo fundamentalmente novo de se fazer ciência. Uma tal abordagem, conhecida por “modelagem generalizada” pode ajudar a identificar      a teoria mais plausível, entre todas explicações concorrentes para dados observacionais, apenas com base nesses dados e sem qualquer saber prévio de quais processos físicos poderiam estar em andamento no sistema em estudo. Os defensores desta nova técnica,      a consideram uma…“terceira via”…em potencial de ‘aprendizado’ sobre o Universo. Tradicionalmente, temos conhecimento da natureza por meio da… “observação”… Pense    em Johannes Kepler, debruçado sobre as tabelas de posições planetárias de Tycho Brahe, tentando discernir um…”padrão subjacente” (ele finalmente deduziu…que os planetas se movem em órbitas elípticas). Mas a ciência também avançou por meio da “simulação”: Um astrônomo, por exemplo, pode modelar o movimento da Via Láctea e de sua galáxia vizinha Andrômeda…e prever que elas irão colidir em alguns bilhões de anos. — Tanto a observação quanto a simulação ajudam a gerar hipóteses … que podem ser testadas com outras observações. – Contudo, o “modelo generalizado” difere de ambas as abordagens. Como disse o astrofísico Kevin Schawinski…até recentemente pesquisador no “Instituto Federal de Tecnologia” em Zurique, e um dos maiores divulgadores da nova técnica…“É um modo diferente de abordar o problema…uma 3ª via…entre observação e simulação”. Alguns cientistas veem a modelagem generalizada e outras novas técnicas, apenas como poderosas ferramentas para ajudar a ‘ciência tradicional’…mas a maioria, concorda que a ‘IA’ já está tendo um impacto enorme, e seu papel na ciência só aumentará. – Brian Nord, astrofísico do Fermi National Accelerator Laboratory, que usa ‘redes neurais artificiais’ em “estudos cósmicos” – está entre aqueles que temem não haver nada para um cientista fazer que não possa ser automatizado. É um pensamento meio assustador confessou ele. Modelagem linear generalizada                                                                                              Usando “modelagem generalizada” astrofísicos poderiam investigar a mudança das galáxias quando vão de regiões de baixa densidade do cosmos, para regiões de mais elevada densidade – e quais processos físicos são responsáveis por essas mudanças. galaxy_560 A partir de 2007, os usuários comuns de computador ajudaram os astrônomos registrando seus melhores palpites sobre qual galáxia pertencia a qual categoria…com a voz da maioria levando a classificações corretas. O projeto foi um sucesso, mas, como observa Schawinski, a IA o tornou obsoleto…“Hoje, um cientista talentoso com experiência em ‘aprendizado de máquina’, e acesso à computação em nuvem, poderia fazer tudo numa tarde”…Schawinski se voltou para a nova e poderosa ferramenta da “modelagem generalizada”, em 2016. Esta abordagem provou ser incrivelmente poderosa e versátil … pois fornece a possibilidade de, alimentando o sistema com determinado conjunto datado de modelos… — à medida que o programa analisa esses…dados genéricos…começa a estabelecer conexões entre imagens,  ao incluir a possibilidade de “alterações temporais” – em sua estrutura física individual. ‘Redes adversas geradoras’ (GANs) são os sistemas de ‘modelagem generalizada’ mais conhecidos. Após uma exposição adequada aos ‘dados iniciais’, esta rede pode reparar imagens com pixels danificados ou ausentes…ou mesmo tornar nítidas fotos borradas, aprendendo a inferir a informação faltante por meio de uma ‘competição’ (daí o termo ‘adverso’). Parte da rede (generalizadora) produz dados falsos…enquanto outra parte (discriminadora) tenta distinguir dados falsos de dados reais…Conforme o programa          é executado, essas 2 metades tendem a se aperfeiçoarem cada vez mais. – Em suma, a ‘modelagem regenerativa’ aloca conjuntos de dados (normalmente imagens, mas nem sempre) e divide cada um deles… em um conjunto básico de blocos de construção abstratos…Os cientistas chamam isso de “espaço latente” dos dados. — O algoritmo então, manipula os elementos desse espaço latente, para ver como isso afeta os dados originais, e isso ajudará a descobrir “processos físicos” em funcionamento no sistema. Num artigo publicado recentemente na “Astronomy & Astrophysics”, Schawinski e seus colegas de Zurich…Dennis Turp e Ce Zhang empregaram a…modelagem generalizada para investigar mudanças físicas pelas quais as galáxias passam, à medida que evoluem.      (O software usado trata o “espaço latente” de modo um pouco diferente da forma como uma rede adversa geradora o trata…não sendo tecnicamente um GAN, embora similar).    O modelo criou um conjunto de ‘dados artificiais como forma de testar hipóteses sobre processos físicos. Eles perguntaram…como a “extinção” estelar (“redução acentuada na taxa de formação”) se relaciona — no ‘ambiente galático’…ao aumento dessa densidade. Para Schawinski, a questão principal é saber quantas informações sobre os processos estelares e galáticos poderiam ser extraídas apenas dos dados. E sobre isso…ele abriu          uma questão: “Vamos apagar tudo o que sabemos sobre astrofísica… – Até que ponto poderíamos redescobrir esse conhecimento…utilizando apenas seus próprios dados?” Primeiro, as imagens galáticas seriam reduzidas ao seu ‘espaço latente’; então…Schawinski poderia ajustar um elemento desse espaço, de forma que correspondesse a uma mudança particular no seu ‘ambiente galático’ – a densidade ao redor…por exemplo. – Assim ele poderia reconstruir a galáxia…e ver quais diferenças surgiriam.    E disse…“Agora com uma ‘máquina de fazer hipóteses’ posso pegar um monte de galáxias originalmente num ambiente de baixa densidadee dessa maneira tentar adaptá-las a um ambiente de mais elevada densidade.” Dessa forma, Schawinski, Turp e Zhang observaram que conforme as                                galáxias vão de ambientes de baixa para alta densidade, elas se tornam                                mais avermelhadas — e suas estrelas tendem a se concentrar mais na                                região central da galáxia. – Segundo Schawinski… isso coincide com as                                  observações galáticas existentes. — A questão, é saber por que acontece. Buscando “respostas gerais”                                                                                                  A próxima etapa – diz Schawinski…ainda não foi automatizada… “Eu teria que me                acessar como humano, e dizer…OK, que tipo de física poderia explicar esse efeito?” Para o processo em questão, há duas plausíveis explicações talvez as galáxias se tornem avermelhadas em ambientes de alta densidade – porque contêm mais poeira, ou talvez se tornem mais vermelhas devido a um declínio na formação estelar – ou seja…suas estrelas tendem a envelhecer. – Através da modelagem generalizada, ambas as ideias podem ser colocadas à prova ao alterarmos os elementos no ‘espaço latente’ relacionados à poeira,    e às taxas de formação estelar, para então verificarmos como isso afeta a cor das galáxias. Nesse caso Schawinski diz que a resposta é evidente…“Galáxias avermelhadas estão onde    há reduzida formação estelar, e não devido à poeira. Essa portanto é a explicação correta”. Essa nova abordagem está relacionada à ‘simulação tradicional’ – mas com diferenças radicais. Uma simulação é “essencialmente baseada em suposições”, disse Schawinski;    enquanto a nova técnicaé do tipo: “Acho que sei quais as leis físicas subjacentes que        dão origem a tudo o que vejo no sistema; portanto tenho uma receita para a formação        de estrelas, bem como uma receita para o comportamento da matéria escura…e assim    por diante. Coloco todas as minhas hipóteses lá…e deixo a simulação rodar. – E então pergunto – isso parece com a realidade?”… O que se faz na ‘modelagem generalizada’,      diz ele, é em certo sentido…exatamente o oposto de uma simulação…Não sabemos de nada…não assumimos nada. Só deixamos que os dados nos mostrem qual a realidade. Como explicou Schawinski…“O aparente sucesso do ‘método generalizante’ em um estudo como este, parece representar uma mudança no grau em que o aprendizado sobre objetos e processos astrofísicos pode ser alcançado por um ‘sistema artificial’ que tem pouco mais na ponta de seus dedos eletrônicos do que um vasto conjunto de dados. – Essa não é uma ciência totalmente robotizada; mas demonstra que somos capazes de, ao menos em parte, construirmos as ferramentas que tornam o processo científico basicamente automatizado”. Assistentes que“dão duro” Amodelagem generalizadaé poderosa, mas a questão se de fato, ela representa uma novaabordagem científica – está aberta ao debate…Para o cosmólogo da “New York University”…David Hogg, a técnica é impressionante, mas apenas um modo ‘bastante sofisticado’ de se extrair padrões de certa quantidade de dados…coisa feita há séculos      por astrônomos. Noutras palavras, é só uma forma avançada de ‘observação analítica’. O próprio trabalho de Hogg – como o de Schawinski…apoia-se fortemente na ‘IA’. Ele costuma aplicar ‘redes neurais’ para classificar estrelas…de acordo com seus espectros,      e inferir outros atributos físicos estelares – empregando “modelos baseados em dados” (data-driven models). Mas ele vê seu trabalho, assim como o de Schawinski, como um    tipo de “ciência testada e comprovada” (“tried-and-true science”)…“Não acho que seja    uma 3ª via” – disse ele recentemente… “Só acho que nós, como comunidade, estamos    nos tornando muito mais sofisticados sobre como usamos os dados…Particularmente, melhoramos muito na comparação de dados, mas tudo ainda no modo observacional”. Contudo, quer sejam conceitualmente novas ou não, está claro que a IA e redes neurais, passaram a desempenhar um papel crítico (decisivo) na ‘astronomia contemporânea’, e      no desenvolvimento da pesquisa física. No Instituto de Estudos Teóricos de Heidelberg,    o físico Kai Polsterer chefia o grupo de…“astro-informática” – equipe de pesquisadores focada em novos métodos estatísticos de se fazer astrofísica. – Eles agora, por exemplo, têm aplicado um algoritmo de “aprendizado de máquina com o objetivo de extrair informações de redshift em conjuntos de dados galáticos; o que antes, era árdua tarefa.  Polsterer vê esses novos sistemas baseados em IA como ‘assistentes promissores’…que com suas…ferramentas…podem vasculhar os dados por horas…sem se entediar…ou reclamar das condições de trabalho. Como ele disse: “Esses sistemas podem fazer todo trabalho maçante…nos deixando fazer a ciência legal e interessante por conta própria”.  Mas não são perfeitos…Polsterer adverte, que ‘algoritmos’ só podem fazer o que foram treinados para fazer. – “O sistema é ‘agnóstico’… quanto à entrada mas dê a ele uma galáxia…e o software pode estimar seu desvio para o vermelho e sua idade, muito bem.  Nesse sentido — afinal…a supervisão de um cientista continua sendo essencial ao bom desempenho do trabalho…O pesquisador segue sendo responsável pela interpretação”. De sua parte, Nord, do Fermilab, adverte que é crucial que as redes neurais forneçam não apenas resultados, mas também limites de erro para acompanhá-las, como todo aluno de graduação é treinado para fazer. Como ele explicou: “Na ciência, se fizermos a medição, e não relatarmos uma estimativa do erro associado… – ninguém levará o resultado a sério”.  Como muitos pesquisadores de ‘IA’, Nord também se preocupa com a impenetrabilidade dos resultados produzidos pelas redes neurais; frequentemente, um sistema fornece uma resposta sem oferecer uma imagem clara de como o resultado foi obtido. – Todavia, nem todos – nesse caso, veem a falta de transparência – como necessariamente um problema. Lenka Zdeborová, pesquisadora do Instituto de Física Teórica do ‘CEA Saclay’ na França, ressalta que as intuições humanas costumam ser igualmente impenetráveis… “Você olha para uma fotografiae instantaneamente reconhece um gato – mas você não sabe como sabe…Na verdade”…disse ela…“seu próprio cérebro é, em certo sentido, uma caixa preta”. data-driven-model Mas não são apenas os astrofísicos e cosmólogos, que estão migrando em direção à uma ciência movida a dados, e alimentada por IA. Físicos quânticos como Roger Melko, do ‘Perimeter Institute for Theoretical Physics’, e da ‘University of Waterloo’ — em Ontário, têm usado redes neurais para resolver alguns dos problemas mais importantes e difíceis nesse campo, tal como representar uma função de onda que descreva matematicamente um sistema de muitas partículas. IA é essencial para o que Melko chama de “a maldição exponencial da dimensionalidade”. Isto é, as possibilidades na forma de uma ‘função de onda’ crescem exponencialmente com o número de partículas; no sistema que descreve. A dificuldade é semelhante a tentar descobrir a melhor jogada, em um jogo                          como ‘xadrez’ ou ‘Go’…tentamos olhar para a próxima jogada, imaginando                          o que nosso oponente vai jogar – para em seguida – escolhermos a melhor                            resposta… porém, a cada jogada… o número de possibilidades prolifera.  A “mente mecânica”, e a nova “revolução científica”                                                    Se Schawinski está certo ao afirmar que encontrou uma “terceira via”…de como fazer ciência – ou se…como diz Hogg – é apenas observação tradicional e análise de dados          (com esteroides) a verdade é que a IA está mudando o sabor da descoberta científica,  certamente, a acelerando. Só não se sabeé até onde nos levará essa nova revolução. Lee Cronin, químico da Universidade de Glasgow, tem usado robôs na mistura aleatória    de produtos químicos…para ver que tipos de novos compostos se formam. Monitorando    reações em tempo real com um espectrômetro de massa – uma máquina de ressonância magnética nuclear…e um espectrômetro infravermelho, o sistema acabou aprendendo a prever quais combinações seriam mais reativas…Como disse Cronin, o sistema robótico mesmo que não leve a novas descobertas — poderia permitir a aceleração das pesquisas químicos, em cerca de 90%…Já no ano passado, uma outra equipe de cientistas usou as redes neurais para deduzir leis físicas de um conjunto de dados. — Nesse sistema…uma espécie de Robô-Kepler redescobriu o modelo heliocêntrico do sistema solar, a partir    de registros da posição do Sol e de Marte no céu…como vistos da Terra – e dessa forma, ‘reconheceu’ a lei da conservação do momento. Visto que as leis físicas frequentemente podem ser expressas em mais de um modo – a dúvida dos pesquisadores é se o sistema pode oferecer novas maneirastalvez mais simples, de pensar sobre as leis conhecidas. Todos esses são exemplos de como a IA deu partida ao processo da descoberta                      científica. Embora em todos os casos possamos debater o quão revolucionária                      pode ser essa nova abordagem, talvez o mais controverso desses casos, seja a                    questão de quanta informação pode ser obtida, apenas dos dados disponíveis.       the-book-of-why-1 No livroThe Book of Why(2018)…a cientista da computação Judea Pearl — junto à escritora científica Dana Mackenzie afirma que os dados são profundamente idiotas. — Perguntas sobre “causalidade” nunca poderiam ser respondidas somente com dados. E elas escrevem: “Sempre que você encontrar algum ‘artigo’ – analisando os dados de uma forma não padronizada, pode ter certeza de que o resultado de um tal estudo, simplesmente resumirá…e talvez transformará, todavia … nunca poderá ‘interpretar’ os dados”. Schawinski simpatiza com a posição de Pearl, mas descreve como falsa a ideia de trabalhar apenas  com dados. – Ele afirma não deduzir causa e efeito dessa maneira… – Segundo ele: “Apenas penso, que podemos fazer mais com esses dados do que é comum fazermos”. Outro argumento frequentemente mencionado é que a ciência requer uma ‘criatividade’ que pelo menos até agora, não temos ideia de como programá-la numa máquina. Como disse Polsterer: “Criar racionalmente uma teoria exige criatividade. E cada vez que esta      é exigida, o humano se faz necessário”… — E de onde vem essa criatividade?…Polsterer suspeita que esteja relacionada ao tédio, algo que segundo ele…uma máquina não pode experimentar. “Para ser criativo, não podemos gostar de ficar entediado. E eu acho que    um computador nunca ficará entediado”…Nesse sentido…pode-se dizer que a luta para descrever o que se passa dentro da…“mente”…de uma máquina … é sempre espelhada pela dificuldade que costumamos ter em investigar nossos próprios processos mentais. Schawinski recentemente deixou a academia pelo setor privado… – agora ele dirige uma empresa chamada “Modulos” – empregando vários colegas cientistas. Como diz seu site, eles trabalham… “no ‘olho da tempestade evolutiva’…em IA e aprendizado de máquina”. Quaisquer que sejam os obstáculos que possam existir entre a tecnologia de IA atual – e      as mentes artificiais desenvolvidas…ele acredita que as máquinas estão preparadas para fazer mais e mais do trabalho humano… Resta saber se existe um limite nesse horizonte. E Schawinski pergunta“Será possível, num futuro previsível, construir uma máquina capaz de descobrir…usando hardware biológicoa física ou matemática que as mentes humanas mais brilhantes não sejam capazes de fazer por conta própria?… – Será que o futuro da ciência será necessariamente…impulsionado por máquinas operando a um nível…que nunca poderemos alcançar?”… É uma boa questão. (texto base – mar/2019)  *****************************(texto complementar)****************************** Inteligência artificial, Rede Neural e sistemas cognitivos                                          Cada uma dessas definições, em sua própria essência…está ligada                                              a diferentes práticas…protocolos, e tecnologias do mundo virtual. machine_learning Inteligência artificial é um conceito de certo modo simples e bem abrangente.        Podemos resumir a IA de forma bem sintética, como um conceito que se refere a        máquinas capazes de executar tarefas de um modo considerado… “inteligente”.            Pela infinidade de tarefas que se pode ensinar a uma máquina, e igual infinidade                de modos pelos quais ela pode executá-las…vemos quão abrangente é o conceito. Machine Learning (aprendizado de máquinas, em tradução livre) é a aplicação            baseada na ideia de darmos dados às máquinas e deixar elas aprenderem … por si mesmasÉ assim como uma IA que tem como missão criar testes para analisar o comportamento criativo humano — para então aprender como nós resolvemos os          nossos problemas. A partir daí, poderia criar criativas máquinas autossuficientes. É assim que a aprendizagem de máquinas funciona – também, no “mundo real”. Disponibilizamos para a máquina um ambiente em que ela possa acessar dados,                    e a partir de análises desses dados, ela pode chegar a conclusões inteligentes – e          definir padrões…ou seja, aprender. Qual a vantagem?… Quanto mais a máquina        aprender por ela mesmo…maior a complexidade de tarefas que poderá executar.            Além disso, ela pode se tornar capaz de cumprir atividades inéditas, “pensando”                  em soluções baseadas em tudo aquilo que observou … ao longo de suas análises. Como funcionam as “redes neurais” As redes neurais artificiais são um tipo de Machine Learning. A característica                mais marcante das redes neurais, é sua…”estruturação”…semelhante à rede de            neurônios em nosso cérebro. – São sistemas compostos por vários nós…que se interconectam em diversas ramificações. As redes neurais aprendem por meio                    da atualização e ampliação desses laços e interconexões…”Deep Learning”…ou              “Deep Neural Network”, abrange um sistema onde os neurônios se organizam                  em…”camadas ocultas”… – por baixo da superfície da… “rede neural artificial”. O “aprendizado profundo” não é um conceito recente, porém tem ganhado visibilidade      e importância…graças ao avanço da tecnologia…Do mesmo modo que apenas os dados estruturados dobig dataeram relevantes… — e agora, é possível extrair informações estratégicas dos dados não estruturados…hoje — com uma quantidade muito maior de dados e processadores mais potentes, o Deep Learning se tornou mais eficiente. Agora        é possível encontrar resultados para problemas complexos, com muito mais facilidade.
shutterstock

Todo nó contém informações. A cada vez que uma relação lógica é estabelecida entre os nós surge uma nova conexão os ligando. E novos nós com, por sua vez, novas conexões.

“Computação cognitiva” A computação cognitiva é um conceito abrangente e complexo…embora ainda esteja sob a definição de IA. – Existem controvérsias e mais de uma definição. Todaviavamos considerar que é uma  computação…focada na racionalização e compreensão de alto nível…de forma análoga à…’cognição humana‘…ou, ao menos inspirada por ela… conforme  Lynne Parker — diretora da divisão de sistemas de informação da Fundação Nacional de Ciências” … — dos ‘EUA’. É…portanto – um sistema que utiliza uma vasta gama de técnicas de aprendizado de máquinas. Mas não misturemos os conceitos!…Computação cognitiva, por si só, não            é um método de “Aprendizado de Máquinas”. De acordo com Lynne, seria mais uma “arquitetura de subsistemas de IA trabalhando em conjunto”…E Thomas Dietterich, professor da “Oregon State University”, argumenta que: “Esse subconjunto lida com cognição, que se refere a comportamentos associados que associamos com o pensar”. ‘Máquinas’ são capazes de pensar?… – Não… Elas ainda não são dotadas desse tipo de inteligência, estando bem longe disso. Elas ainda não são autossuficientes, até mesmo          o ‘Machine Learning’ não é plenamente criativo… – No entanto, a tecnologia avança…        Será então que ainda vamos ver máquinas realmente capazes de pensar?… Talvez isso      seja improvável, mas que elas estão se dedicando…é inegável. (texto base) mar/2016  
Publicado em Cibernética, comunicação, Teoria do Caos | Marcado com , , , , , | 1 Comentário

A organização evolutiva dos “sistemas autopoiéticos”

Alguns tipos de estabilidade negam certos tipos de mudança. A ironia é que existe uma categoria de estabilidade que não só depende da mudança… como é consequência dela. Para um sistema aberto, seja social ou biológico, imerso em um ambiente de mudança,    seu único modo de sobrevivência é a própria transformação…Nesse caso, tais sistemas      se adaptam a um… ‘ambiente flutuante’ – por processos de aprendizagem e adaptação.

autopoiesis

A contribuição mais importante à sistematização do conceito de auto-organização veio da biologia, quando, Humberto Maturana e Francisco Varela criaram uma“teoria cibernética”que permite incluir o observador no sistema, onde observar o observador retrata uma cibernética de 2ª ordem, e observar “sistemas sociais”uma de 3ª ordem.

A autopoiese nessa concepção, inclui a diferenciação entre “organização” e “estrutura”,      na contínua autoprodução dos seres vivosOrganização é definida pelo conjunto de relações entre seus componentes…Já estrutura compreende componentes e relações,        que se constituem em uma unidade particular desta organização. Nessa concepção, os “sistemas vivos podem ser considerados comoorganizações fechadasou seja, sistemas autônomos de interação que — fazem referência — tão somente a si próprios.      Assim, a ideia de sistemas biológicos abertos ao ambiente, é apenas o resultado de um esforço do observador…para dar sentido a tais sistemas, do seu ponto de vista externo.

Nessa argumentação…os sistemas vivos possuem 3 características principais… – autonomiacircularidade, e auto-referência.

“Um ser vivo ocorre e consiste na ‘dinâmica realizadora’ de uma rede de transformações e produções moleculares, tal que todas moléculas produzidas e transformadas no operar dessa rede, formam parte da rede, de modo que – com suas interações… a) geram a rede de produção/transformação que as produziu e transformou; b) dão origem à fronteiras, e extensão da rede como parte do seu próprio operar como rede, de modo a que esta fica dinamicamente fechada… sobre si mesma – em um ‘ente molecular’ discreto… que surge separado do meio molecular que o contém; c) configuram um ‘fluxo de moléculas’… que, ao se incorporar na dinâmica da rede…são componentes dela; e ao deixar de participar dessa… ‘dinâmica de rede’… – passam a fazer parte do meio” (MATURANA e VARELA).

Em um sistema autopoiético seus componentes se manifestam de modo processual. É um “sistema fechado”, porque existe uma circularidade necessária e suficiente de suas partes, para que toda e qualquer operacionalização, com vistas à manutenção do próprio sistema, se realize. Seu limite, ou bordas…diferenciam-se do meio ambiente em que está acoplado. É autopoiético porque produz e reproduz a si próprio de forma semântica, isto é…mesmo sendo um sistema ‘operacionalmente fechado’ – responde às transformações do meio em que se acopla, a partir de seus próprios componentes, a fim de permanecer como sistema.

Em oposição à concepção de “sistemas abertos” anteriormente dominante nas abordagens sistêmicas, para Maturana    e Varela, os sistemas autopoiéticos são sistemas auto-referenciados. A palavra autopoiese quer dizer ‘produção por si’,    e expressa, a busca por um termo mais adequado, que os até então circulantes, como ‘auto-organização’ ou “feedback”.

De acordo com essa abordagem… os “sistemas vivos” buscam manter sua identidade subordinando todas suas mudanças, através do envolvimento          em ‘padrões circulares’ de interação, onde a mudança…num elemento do sistema… está acoplada a mudanças    em ‘outro lugar’ – estabelecendo-se,  assim… “padrões contínuosde interaçãoauto-referenciados“.

A definição de…”auto-organização“…parte da ideia de que novas estruturas podem emergir da própria dinâmica de seus elementos… em certos domínios e circunstâncias.      A auto-referência se deve ao fato de um sistema não poder realizar interações que não sejam especificadas nos padrões que definem sua organização. Nesse caso, a interação      de um sistema com seu ambiente é um ‘reflexo’…que parte de sua própria organização,    facilitando sua ‘reprodução‘. Assim, o encontro de um sistema vivo com seu ambiente,        e outros seres vivos…define um “acoplamento estrutural”…orientado pela ‘linguagem’.

Com efeito, a linguagem ocupa um papel central nas formulações de Maturana e Varela. Segundo eles o encontro de um sistema vivo com seu ambiente e com outros seres vivos      é um ‘acoplamento estrutural’, reconhecido pelo observador por certos fatos (condutas). No entanto, a partir do determinismo, a conduta é uma descrição do observador, sendo portanto uma criação do cérebro. Desse modo os autores defendem que a comunicação humana só ocorre por ‘acoplamento estrutural’…recorrente no desenvolvimento do ser, mantendo-se a individualidade dos participantes… “cada pessoa diz o que diz, e ouve o que ouve – conforme sua própria…determinação estrutural”… – Ou seja, o cérebro cria imagens da realidade – como expressões, ou descrições…de sua própria organização; e assim…interage com essas imagens – modificando-as, com base na…”experiência real”. 

teoriageraldesistemas1. Teoria geral de sistemas 

A ‘teoria geral de sistemas’ foi concebida a partir das formulações do biólogo…L. Von Bertalanffy, que… em 1940 – afirmava ser necessário – considerar os problemas que envolvem seres humanos como ‘típicos de sistemas’, para isso…levando em conta os contornos, as componentes – assim como as relações que existem, entre suas partes.

Desse modo, lançava o desafio da construção de uma disciplina que tivesse como objetivos principais, investigar “isomorfismos” de conceitos, leis e modelos em campos diferentes; e ajudar nas transferências úteis entre esses campos – promovendo a ‘unidade das ciências’.  Nesse sentido…os princípios da “teoria geral de sistemas” reproduzem ideias previamente desenvolvidas para entender “sistemas biológicos”, incluindo em seu fim…os conceitos de:

homeostase – auto-regulação para manter um estado estável; sendo obtida através de processos que relacionam e controlam a “operação sistêmica” através do mecanismo da retroalimentação (desvios de algum padrão ou norma desencadeiam ações de correção);

entropia/entropia negativa – sistemas fechados tenderiam ao desaparecimento pela entropia; sistemas abertos buscam a auto-sustentação, importando energia do ambiente para atingir condições de estabilidade; 

estrutura, função, diferenciação e integração – estando os sistemas intrinsecamente inter-relacionados… — permitem sua “auto-sustentação“;

variedade – relacionada com a ideia de diferenciação e integração…afirma que mecanismos regulatórios internos precisam ser tão ‘diversificados‘… – quanto a diversidade do ambiente com o qual se relacionam;

equidade– num sistema aberto podem existir muitos modos diferentes de chegar a um dado estado final; assim, a estrutura do sistema num dado momento não é mais que um aspecto ou manifestação de um processo funcional mais complexo (ela não determina o processo);

evolução do sistema – capacidade que depende da habilidade de mover-se para formas mais complexas de diferenciação e integração, e maior variedade…facilitando a habilidade de lidar com desafios e oportunidades colocadas pelo ‘meio‘ (envolve processos cíclicos de variação, seleção e retenção de características selecionadas). 

A concepção de ‘sistema aberto’…desenvolvida por Von Bertalanffy a partir do estudo de sistemas vivos, resolve o problema do pensamento sistêmico em sua relação com a 2ª lei termodinâmica (tendência à entropia, inerente a todo sistema fechado, ao estabelecer as trocas de matéria e energia com o meio… – como forma de manter o “estado de ordem”).  Outro aspecto dessa abordagem, envolve a concepção do sistema contendo o todo dentro do todo…sistemas contêm subsistemas – que, por sua vez, podem ser sistemas abertos e, portanto… – interagirem entre si…com o sistema ao qual pertencem…e, com o ambiente. 

complexidade autopoiese2. Autopoiese

Aqui ocorre uma inovação com relação à concepção de ‘sistema aberto’…antes dominante… nas ‘abordagens sistêmicas’. – Para Maturana e Varela, os sistemas autopoiéticos (auto = por si só;  poiesis = produção) – são auto-referenciados, isto é, ‘fechados’.

A palavra autopoiese quer dizer produção por si, e expressa a busca, desses autores, por um termo que fosse mais adequado que os até então circulantes, tais como feedback, ou ‘auto-organização’…e que não incluíssem a interpretativa ‘dimensão semântica‘. Em tal abordagem…os sistemas vivos buscam manter a identidade pela subordinação de todas mudanças ao envolvimento com padrões contínuos de interação — onde cada elemento    do sistema é acoplado a mudanças externas – cuja ‘auto-referência’… se deve ao fato de um sistema só poder interagir – por relações específicas de seu ‘padrão organizacional’.

Assim, a interação de um sistema com seu ambiente é um reflexo                que parte de sua própria organização – facilitando com isso sua          própria reprodução, já que o ambiente é uma parte de si mesmo.

Desde que foi formulada na década de 1960, a teoria da autopoiese se disseminou de modo extraordinário, sendo utilizada como referência para abordar temas tão diversos…que para tanto…tem sido descrita como um sistema explicativo completo… – mais um ‘paradigma do que uma ‘teoria unificada’. – Na aplicação dessa abordagem a ‘sistemas sociais‘…por exemplo … limitando o potencial organizador do sistema … este passa a ser definido como:

“uma unidade que se realiza por intermédio de uma ‘organização fechada’ de processos produtivos, de modo a que sua organização seja gerada pela ação de seus próprios componentes… decorrendo daí… – a emergência de uma fronteira topológica como resultado de seus processos constituintes”.

niklas-luhmannNa aplicação da abordagem da autopoiese a “sistemas sociais”… se dá ênfase à novas condições…que limitando sua mobilidade, poderiam criar um ‘potencial organizador genético’ do sistema…de modo a produzir idênticos processos — pela ação… de seus próprios componentes. — Uma influência marcante da…abordagem autopoiética, nessa tentativa de romper com a tradição do modelo de “sistema aberto”…é encontrada na obra do pensador Niklas Luhmann, que defende uma diferenciação do sistema autopoeiético…em relação ao seu próprio entorno,  levando em consideração processos auto-referenciados, em um ‘fechamento operacional’: 

“O sistema social (‘auto-referencial’), permite contingência, abertura e interpenetração, a partir do reconhecimento da autonomia do sujeito, na postulação de sua autoconsciência.  Para Luhmann o importante é mostrar o modo como o sistema social segue respondendo diante de um entorno de suma complexidade. Seu objetivo é atingir um sistema apessoal, dentro de um paradigma da… ‘consciência’ – conforme a uma “instrumentação racional”.  Já os organismos vivos, manejando o sistema orgânico por autopoiese de um modo mais completo que sistemas mecânicos … podem assim diminuir com êxito sua complexidade    no entorno. – Tal procedimento consiste, na auto-produção de uma específica estratégia referencial de…’auto-regulagem‘…onde cada subsistema se constrói autopoieticamente”.

Aplicando a ‘teoria de Luhmann’ à análise do subsistema econômico, onde necessidades    da vida e do sujeito permanecem restritas a mero “entorno” (fora de uma consideração sistêmica) verificamos um “código binário“, sobre o qual ele se organiza…pagar e não pagar (ter dinheiro ou não ter dinheiro)… programa que ‘auto-regula‘ as “expectativas econômicas” em geral. Este subsistema auto-referente…intercomunica-se pelo dinheiro. Essa é a “mediação universal” de comunicação … no “subsistema fechado” da economia.  Como existe escassez de mercadorias e dinheiro, surgem 2 mecanismos dependentes…o ‘mercado‘ e a ‘competição‘. O mercado, em seus diversos níveis, se auto-regula pelos preços. A competição no mercado não é um fato discursivo ou autoconsciente, mas, por    tentar evitar qualquer interação pessoal direta…se torna um “mecanismo autopoiético”.

Uma empresa se auto-organiza no mercadotanto de uma forma ordenada, quanto aleatória, pois não há certeza absoluta sobre hipóteses e possibilidades de se vender  produtos e serviçosmesmo tendo possibilidades, probabilidades e plausibilidades.          O mercado é uma mistura de ordem e desordem. – A ordem é repetição, constância, invariância, uma relação altamente provável, enquadrada sob uma lei. Desordem            é…o irregular, aleatório, imprevisível desvio da estrutura dada. As organizações          necessitam de ordem e desordem…pois em um universo onde os sistemas tendem a desintegrar-se pela crescente desordem esta pode ser uma ordem reaproveitada.

Pode-se dizer basicamente, que quanto mais uma organização é complexa…mais tolera a desordem. Isso lhe dá vitalidade, porque os indivíduos estão sempre aptos a tomar iniciativas com a finalidade de regular este ou aquele problema, sem precisar, necessariamente…ter que passar pela “hierarquia central”…Esta é uma maneira mais inteligente de responder a certos desafios do mundo exterior.

O problema histórico global é como integrar nas empresas, as liberdades e desordens que podem trazer a adaptatividade e inventividade, mas que podem também trazer a decomposição…e morte. 

A evolução do trabalho ilustra o curso da unidimensionalidade à multidimensionalidade.  Estamos apenas no início desse processo. A vontade de impor – dentro de uma empresa, uma ordem inexorável… é ineficiente… – É preciso deixar uma parte da iniciativa a cada escalão, a cada indivíduo… Entretanto, um excesso de complexidade…é desestruturante. No limite, uma organização que só tivesse liberdade, e muito pouca ordem…desintegrar-    se-ia… – a menos que houvesse como complemento dessa liberdade, uma solidariedade profunda entre seus membros…A solidariedade vivida é a única que permite o aumento    da complexidade. No final das contas, as redes informais, as resistências colaboradoras,      as autonomias…e as desordens…são ingredientes necessários à vitalidade das empresas.

3. Cibernética                                                                                                                                A regulação e controle de “sistemas abertos” é o tema fundamental da “cibernética”.

Dessa aproximação entre os campos da física e biologia — com o incremento da noção de ‘retroalimentação negativa’, segue-se o surgimento da ‘cibernética’…de onde – a partir da teoria dos “autômatos auto-reprodutores”, e de uma tentativa “metacibernética”…emerge o problema da ‘autorganização’. Quando cientistas como Von Neuman, Winograd, Cowan e Ashby buscavam princípios construtores de autômatos…cuja confiabilidade fosse maior que a de seus componentes, isso trouxe uma série de compromissos entre ‘determinismo’    e ‘indeterminismo’…como se uma certa quantidade de indeterminação fosse necessária a partir de certo nível de complexidade para o sistema se adaptar a um dado nível de ruído.

edgar morinSegundo Edgar Morin, a ideia da auto-organização opera uma grande mudança no estatuto ontológico do objeto – que vai além da ‘ontologia cibernética’. Mesmo com todas as dificuldades para avanços da cibernética nessa direção… dadas pelas limitações teóricas e tecnológicas da época — Morin também registra a importância de suas posições de partida:

 Schrödinger destaca, desde 1945, o paradoxo da organização viva,                                          a qual não parece obedecer ao “segundo princípio termodinâmico”;

 Von Neumann inscreve o paradoxo na diferença entre a máquina viva (auto-organizadora) e a máquina artefato (‘simplesmente organizada’) – mostrando                  que existe um elo entre desorganização e organização complexa… o fenômeno                    da desorganização (entropia) prossegue seu curso no “ser vivo“…de um modo              inseparável do fenômeno de sua própria reorganização … (“neguentropia“).

Ainda segundo Morin, a ideia da “auto-organização” opera grande mudança no sentido ontológico do objeto, que vai além da “ontologia cibernética”. Como ele próprio explica:  “Ao mesmo tempo em que o sistema auto-organizador se destaca do meioe se distingue dele, pela sua autonomia e individualidade – liga-se tanto mais a ele, pelo crescimento da abertura, e da troca que acompanham qualquer processo de complexidade. – Enquanto o sistema fechado tem pouca individualidade, sem trocas com o ambiente externo…o outro sistema tem sua autonomia ligada a relações de dependência com o meio…menos isolado, porém carente de matéria, energia, informação e organização. – O meio…em seu interior, desempenha papel ‘co-organizador’…Um tal sistema, portanto, não poderia bastar-se a si próprio – só podendo ser ‘totalmente lógico’ … introduzindo-se em um meio catalisador”.  

Os princípios-chave da cibernética para que o sistema possa operar de modo inteligente estão relacionados a uma teoria de comunicação e aprendizagem. Os sistemas precisam ser capazes de perceber, monitorar e decompor aspectos significativos do seu ambiente; relacionando essas informações às normas operantes, que guiam o comportamento dos sistemas; para quando encontrar desvios significativos, iniciar as correções necessárias.  Entretanto, as habilidades de aprendizagem assim definidas são limitadas – de modo a que o sistema apenas mantenha o ‘curso de ação’ – determinado por normas operantes,    ou padrões que as guiam…Tais limitações levaram ao desenvolvimento de um processo    de…”auto-aprendizagem“…onde sistemas cibernéticos complexos – como o cérebro humano…ou computadores avançados – são capazes de detetar e/ou corrigir erros nas normas operantes – e assim, influenciar os padrões que guiam suas ‘operações lógicas’.

Alguns tipos de estabilidade negam certos tipos de mudança. – O que se esquece é que      pelo menos uma categoria de estabilidade depende da mudança e é consequência dela. Precisamente esse tipo de estabilidade – para a cibernética… tem interesse primordial.    Um sistema aberto, seja social ou biológico…num ambiente variável…ou se adapta, ou perece. – Nesse caso, dos sistemas abertos que se adaptam a um ambiente instável, os processos de aprendizagem e inovação constituem seu único caminho à sobrevivência.

complexidade4. Teoria do Caos

A “teoria do caos“, por sua vez, é um desenvolvimento específico, no estudo dos ‘sistemas dinâmicos’, que se segue às revoluções teóricas da ‘relatividade’, e ‘mecânica quântica’… – Insere-se no campo da física de partículas, de onde procedem teorias sobre a “origem” do universo, e de forças fundamentais da natureza. Faz parte de uma ciência da natureza global de sistemas…gerando argumentos a um tipo de…”pretensão unificadora”, presente na “teoria da complexidade”… – Se desenvolveu sobretudo na década de 1970 … sob a honra da “Universidade de Santa Fé”.

Os estudos de Santa Fé incluem a “teoria do caos“…aos estudos dos “sistemas adaptativos complexos” formados por unidades simples, interligadas entre si…onde o comportamento de uma, influencia a outra. Desse modo, a complexidade do todoà medida que o sistema evolui, vai decorrer do entrelaçamento de “influências mútuas. Dentre suas propriedades estão a não-linearidade, os fluxos intermitentes, a diversidade…e, estruturas hierárquicas; e sua aplicação pode abranger, entre muitos outros temas: análise de trânsito nas cidades, aspectos econômicos, e problemas ecológicos…Por se manter numa situação entre ordem e desordem, tal sistema só pode ser analisado com a ajuda de simulações computacionais, dentro de uma ‘complexidade‘, a qual Ilya Prigogine formulou os seguintes parâmetros:

 nos limites do ‘caos’… níveis identificados de energia importada (o que Schröedinger chamava de “neguentropia“) fazem com que estruturas dissipativas emerjam de agregamentos estocásticos, em micro-estados;

 estruturas dissipativas, enquanto existirem, mostram comportamentos previsíveis… ainda que não compatíveis – com a explicação newtoniana;

 as explicações científicas mais aplicáveis à região em que ocorrem esses fenômenos diferem essencialmente do tipo de complexidade que a ciência newtoniana, o ‘caos determinístico’…e a ‘mecânica estatística’ enfrentam.

“Colocamos a possibilidade…e a necessidade de uma unidade da ciência. Todavia…uma      tal unidade é impossível e incompreensível no quadro atual, onde miríades de dados se acumulam em alvéolos disciplinares cada vez mais estreitos e fechados.” (Edgar Morin)

5. Teoria dos sistemas dinâmicos                                                                                      Em organizações, a presença, e a produção de desordem                                                            (degradação…degenerescência) são inerentes ao sistema.                                                  

gestaoambiental

Um ecossistema pode ser definido como uma aplicação da teoria geral dos sistemas à ecologia, relacionando os indivíduos com atributos (matéria, energia e informação).

O ponto de partida da ‘teoria sistêmica’, está na premissa de que…a natureza da realidade é um conjunto de fenômenos externos ao comportamento individual.  Desse modo, ações humanas e relações sociais, sendo consideradas ‘fatos’… do mundo objetivo, devem ser concebidas como ‘fenômenos reais’ (“coisa-em-si”) de um arcabouço…bem maior – o qual influenciam… — e … são influenciadas.    Mesmo considerando que…toda teoria sistêmica apresente muitas diferenças entre si … partem do mesmo princípio, assim resumido, nos seguintes termos:

a) admite-se a existência de um todo a ser analisado; b) esse todo está composto de unidades que se configuram distintamente entre si; c) as unidades…contudo, estão agregadas a outras…sendo mutuamente interdependentes; d) tal interdependência,            se encontra intrinsecamente regulada – por meio de uma…”estrutura morfológica”. 

A consideração dessas 4 abordagens sistêmicas permite que se perceba a relação entre      as mesmas, como sendo evolutiva. – A transposição entre campos de conhecimento se efetiva pelo uso de metáforas, emoções…e memórias – seguindo presente o esforço de simplificar (modelando) para apreender a complexidade do real…Assim, é pela forma,    em que se relacionam os componentes do sistema; ou seja, pela ‘estrutura’ do sistema,    que se explica determinado ‘objeto de estudo’. São teorias…portanto, que pressupõem  certa “codificação” do sistema — onde a tarefa principal do pesquisador … é decifrá-la.  Sistemas com muitos componentes… se comparados aos que têm poucos – podem ser considerados complexos. A cardinalidade de um conjunto pode então ser considerada, medida de complexidade. – Sistemas caracterizados por grande ‘interdependência’ de componentes são considerados, geralmente, mais complexos do que os com pouca ou nenhuma. – Sistemas não-demonstráveis, ou não-calculáveis formalmente podem ser considerados complexos, se comparados àqueles deterministas… A complexidade dos sistemas pode ser medida pelo conteúdo da informação. Por esse critério, os sistemas      com muitos componentes idênticos são menos complexos que os de mesmo tamanho,    com componentes variados. — Seguindo esse critério…mas, numa abordagem de viés humanista, Morin defende o caráter complexo das relações: todo/parte, uno/diverso:

O todo é maior que a soma das partes…princípio bem definido, e intuitivamente bem reconhecido, visto que em seu nível surgem não só uma macro-unidade, mas também emergências, que são qualidades/propriedades novas. Contudo, o todo é menor que a soma das partes (pois…sob efeito das coações resultantes da organização do todo, tais partes perdem algumas de suas qualidades/propriedades). – Ademais, o todo é maior        do que o todo…porque o todo, enquanto todo, retroage sobre as partes; que por outro      lado, retroagem sobre o todo. – Consequentemente, o todo é mais que uma ‘realidade global’… – para todos os efeitos… – representa um…dinamismo organizacional.”

Nesse sentido…a explicação deve procurar compreender o…’processo recorrente’… cujos produtos, ou efeitos finais…geraram o seu próprio recomeço. – Isso nos traz de volta um conceito de caráter paradigmático, central nas formulações de Morin; o de ‘organização’:

“A organização cria ordem (criando o seu próprio determinismo sistêmico)…mas também desordem:  se por um lado o determinismo sistêmico pode ser flexível… comportar suas ‘zonas de aleatoriedade’,  de jogo, e liberdades … por outro lado, o trabalho organizador requer energia – que traz desordem… aumentando a entropia do sistema”.

A organização é também, e simultaneamente, transformação e formação. A transformação é vista como o modo pelo qual as partes de um todo perdem qualidades e adquirem outras novas. A transformação da diversidade desordenada em diversidade organizada…significa transformação da desordem em ordem…Pode-se dizer que a relação ordem/organização é circular quando a organização produz ordem, que por sua vez, mantém a organização que a produziu, transformando sua improbabilidade global em probabilidade local, mantendo a originalidade do sistema – em resistência contra todas ‘desordens’ (internas e externas).

O “paradigma da organização“…portanto – comporta nesse plano… igualmente uma          reforma do pensamento… Doravante, a explicação já não precisa expulsar a desordem        de dentro da organização, mas sim dessa relação sempre conceber uma complexidade.

metáforas da complexidade”                                                                                              “A teoria da complexidade se apresenta como um movimento transdisciplinar, que tenta restabelecer a ‘unidade’ no estudo da natureza, e dos seres humanos…que, com a divisão compartimentada advinda do ‘cartesianismo’ se teria perdido. Suas origens, se reportam às abordagens da teoria de sistemas, autopoiese, cibernética, caos e sistemas dinâmicos”.

torre-de-babel

Metáfora é uma ferramenta linguística  muito utilizada, como ferramenta para expressar ‘mensagens’ … no sentido de deixar subtendido, algo difícil de dizer, com uma simples ‘comunicação direta’.

Assim como a teoria dos sistemas abertos, a “teoria da complexidade se baseia num conjunto demetáforas…que reportam à um tipo de…”ordem holística emergente”, capaz de se tornar, gradualmente…’senso comum’. Adotar tal perspectivaleva a uma reflexão sobre seu significado … e as implicações em tomá-las como ‘verdades’.

De acordo com Nigel Thrift, a “teoria da complexidade”…é uma tentativa de substituir um conjunto de metáforas por outro. – Como consequência, seus elementos-chave movem-se para outras disciplinas… parecendo estar produzindo reconfigurações nas mesmas. Nesse caso o problema é que, ao chegar a outros campos, apropriam-se simplisticamente desses elementos, tornando-os; não mais metáforas, mas modelos…ignorando a contingência da verdade metafórica, e as dificuldades epistemológicas decorrentes do contexto próprio de cada campo do saber. Assim, essa abordagem “útil e promissora” corre o risco de regredir na constatação da “singularidade” dos fenômenos e forças que determinam sua dinâmica.

Dentre esses aspectos…o mais comum e questionável… é a transposição de conceitos das ciências naturais, para a vida em sociedade…eliminando-se, nessa perspectiva, a possibilidade de se analisar como…intencionalidades, julgamentos morais e razão substantiva interferem na construção do real.

Por que razão deveríamos crer que as leis que regem os ‘sistemas naturais’ servem para os sistemas sociais?… Admitir que essa transposição de conceitos é possível e adequada, não implica ver os sistemas sociais como casos específicos de sistemas naturais?…Não implica admitir um status de “naturalidade“, a qualquer tipo de organização social?…Não implica dissimular a história, destituir o livre arbítrio, a vontade, a intencionalidade e a razão que habita o espírito humano (e não células… átomos… planetas… ou qualquer outra entidade componente de sistemas naturais)?… Também preocupado com a capacidade que a teoria da complexidade teria para abordar meandros da realidade social, Peter Stewart propõe a tese de uma realidade social por demais complexa para ser explicada por esta nova teoria.

O ‘sistema social’ permite abertura, inter-relação, e acaso…mas nunca a irrupção do      outro como … “sujeito autônomo” … pois se encontra sempre respondendo a um ‘entorno‘ de “pura complexidade”… Seu horizonte continua sendo visto a partir de          uma razão instrumental, mormente impessoal, sujeita ao paradigma da consciência.

paradigma da “complexidade”                                                                                                O pesquisador Mario Tarride afirma que, ao se considerar a “complexidade”… uma propriedade avaliável dos sistemas, pode-se estabelecer modelos…quantificando-a. Todavia, tal proceder desprezaria a fundo o nível de entendimento destes sistemas.

A contestação parte da influência da…”modelagem matemática”, presente na teoria da complexidade, sabendo-se que os contextos sociais tem históricas físicas, ambientais e humanas particulares, onde em cada um deles, é produzido um conjunto de condições diferentes; além daquelas condições criadas pelas pessoas nas suas tentativas de atuar reflexivamente sobre todos aspectos. Quando a abordagem da complexidade atua nos debates sobre o social – se alia a uma variedade de abordagens sociológicas…místicas, culturais, filosóficas e políticas. – E assim…interesses nesses campos têm conduzido à incorporação desses aspectos como ferramentas a serviço de suas próprias estratégias.  Modelos de um fenômeno complexo são construídos mentalmente, e experimentados        por representações físicas; obedecendo a um determinado…’critério básico’…de que a “modelagem analíticaé objetiva, e a “modelagem sistêmica… é projetiva.

Michael Dillon analisa a ‘teoria da complexidade’ a partir da dúvida sobre que forma de vida essa teoria permite que se construa. Na busca por respostas, ele a relaciona ao pós-estruturalismo. Em ambas as teorias se encontra uma anterioridade da ‘relacionalidade radical’, ou seja, nada existe sem estar relacionado a algo…e tudo existe, no seu próprio modo de existir…em termos, e em razão de relações. – Todavia…essa ‘anterioridade do relacional está para os pós-estruturalistas relacionada a uma radicalidade imprevisível.

Segundo Dillon, a ‘teoria da complexidade’ tem uma preocupação estratégica com sua  “contínua capacidade de intervir na orquestração do jogo – objetivação/subjetivação”.        E isso fica evidente…na defesa feita por Morin, de que essa teoria corresponderia… “à possibilidade, e necessidade, de uma unidade estrutural da ciência. (texto base) ********************************************************************************

O Acoplamento Estrutural da Aprendizagem Humana                                                “Há aprendizagem, quando a conduta de um organismo varia durante                                  sua história…de maneira congruente com as variações do meio, e o faz                              seguindo um curso contingente a suas interações nele”. (H. Maturana)

maturana1Segundo Humberto Maturana, há 2 perspectivas básicas para lidar com o fenômeno da aprendizagem, se quisermos explicá-lo: a) Segundo uma perspectiva – o observador vê que o meio está lá…do lado de fora…como o mundo em que o organismo tem que existir e atuar… e, que lhe proporciona a informação, os dados…e, os significados de que necessita…para conseguir uma representação desse mesmo mundo – e assim calcular o comportamento adequado, que lhe permitirá nele sobreviver.

b) Pela outra perspectiva, o observador vê que a estrutura de um “organismo” determina a cada instante seu comportamento (inclusive de seu sistema nervoso)…e que “ele” só vai se adequar ao meio – se esta sua estrutura for congruente à estrutura e dinâmica desse meio.

De acordo com o 1º modelo… a aprendizagem é o processo pelo qual o organismo obtém informação do meio, e constrói dele uma representação, que armazena em sua memória,    a utilizando para construir seu ‘comportamento’ – em resposta às perturbações que dele provêm. A partir deste ponto de vista, a ‘recordação‘ consiste em encontrar na memória,    a melhor representação para as respostas adequadas…às interações recorrentes do meio.   

Nesta perspectiva, o meio é “instrutivo”…pois especifica no “organismo” mudanças de estado, que congruentes com ele, serão sua representação.

Já no 2º modelo – a aprendizagem é o próprio curso da mudança estrutural do organismo (incluindo seu sistema nervoso) em congruência com mudanças estruturais do meio, como resultado da recíproca seleção estrutural que se produz entre eles durante a recorrência de suas interações, com a conservação de suas respectivas identidades. – De acordo com esta visão… – o organismo não constrói uma representação do meio… nem calcula para ele um comportamento mais adequado. Desta perspectiva… para o organismo em seu operar, não há meio, não há recordação nem memória, mas apenas uma ‘dança estrutural’ no presente que … ou segue um curso congruente com a dança estrutural do meio… – ou se desintegra.

O “comportamento orgânico” permanece adequado…apenas se o organismo conserva sua adaptação durante as interações (perturbações do meio), vistas por ele, como recorrentes; desse modo, o que um observador vê como… ‘recordação’ – consiste em comportamentos, considerados por ele como adequados. Segundo esta visão não há “interações instrutivas”. O meio apenas seleciona as mudanças estruturais do “organismo”…mas não as especifica. 

Na medida em que o organismo (incluindo sistema nervoso) é um sistema determinado estruturalmente – a 1ª perspectiva (‘informacionista’)…que requer interações instrutivas, pois exige que o meio especifique no organismo (…e sistema nervoso…) as mudanças que lhe permitem criar uma representação dele…deve ser abandonada. Assim, Maturana vê a perspectiva ‘informacionista constitutivamente inadequada, considerando os seres vivos como…”sistemas determinados estruturalmente”. – Por esse motivo, a outra perspectiva (‘interativista’), como não requer interações instrutivas…sendo compatível a um sistema orgânico e nervoso, como sistemas determinados estruturalmente…será por ele adotada.

construção-social-da-pessoaÉ comum se pensar que o aprendizado envolve uma certa intencionalidade … um certo propósito. – Isso porque…em geral… se pensa que o que é central em todo comportamento são suas consequências…Mas, isto é um erro. — O propósito nos comportamentos, não pertence a eles mesmos, mas à descrição, ou ao comentário do observador. – Tal descrição serve na conversação, mas engana no… ‘domínio conceitual’.

“A aprendizagem não tem propósito” … é consequência da ‘mudança estrutural’ dos seres vivos sob condições de sobrevivência … com conservação da organização e estrutura. Não há representação do meio, não há ação sobre o meio, não há memória – nem passado, ou futuro…somente o presente. Porém, porque há aprendizagem, há linguagem e descrições nas quais o passado e o futuro surgem… e podemos equivocar-nos sobre a aprendizagem.

A aprendizagem (social) humana                                                                                  Apenas a transcrição acima é suficiente para mostrar que ninguém se aproximou tanto de uma ‘visão interativista’ não informacionista (ou não cognitivista) do que Maturana. Mas, veremos a seguir, que apesar de tal visão ser fundamental a uma “teoria da aprendizagem dos seres vivos”…ela não pode dar respostas a uma aprendizagem “tipicamente humana”.

Mesmo com o conceito ampliado de biologia de Maturana, não se pode derivar da biologia, ou melhor, do modo como a biologia explica como seres vivos aprendem, todo o arcabouço explicativo para a aprendizagem humana (e, deve-se dizer que…nem Humberto Maturana, nem seu aluno e depois parceiro Francisco Varela pretenderam isso). A investigação sobre como o sistema nervoso ‘apreende informações’… pode lançar muita luz sobre o fenômeno da aprendizagem dos “seres vivos”…em termos gerais, mas não é suficiente para explicar a aprendizagem humana… – fundamentalmente ‘social’… – e não especificamente biológica.

Por certo Maturana não queria derivar o social do biológico, ou captar fenômenos gerais que explicassem tanto o comportamento dos…”seres vivos” (organismos e ecossistemas) quanto de “seres sociais” (pessoas ou sociedades). – A seu favor podemos dizer que suas ideias não podem ser acusadas de deslizes epistemológicos. – Entretanto, mesmo assim, também não podem revelar características comuns ao que é vivo ou social, a menos que:

a) se baseassem numa investigação da ‘fenomenologia da interação’ em seres vivos e em seres sociais (pessoas ou redes humanas); b) levassem em conta outro tipo de fenômeno que só acontecesse em redes sociais. – Todavia, nenhum desses 2 requisitos foi atendido.

Autopoietic system

3D representation of a living cell during the process of mitosis, example of an autopoietic system

A autopoiese, conceito central de Maturana e Varela, não pode ser útil … a não ser como inspiração para a formulação de uma teoria da aprendizagem humana. Varela afirmou que ‘uma extensão da autopoiese em níveis “superiores” não é frutífera e deve ser deixada de lado’…mas um ano antes havia chegado a admitir que seria claramente frutífero ‘vincular a autopoiese com uma opção epistemológica além da vida celular ao operar do sistema nervoso… aos fundamentos da comunicação humana’. O que pode ser correto no que tange a “organismos multicelulares”, mas não à “comunicação humana” (fundamentalmente social).

A autopoiese caracteriza a vida – mas…não abrange a sociedade – a não ser em um sentido metafórico ou metonímico. A rigor o conceito original (que Maturana chama de autopoiese de primeira ordem) não pode ser aplicado nem mesmo a um “organismo multicelular”…do tipo animal, quanto mais à uma sociedade. – A sociedade não é uma coleção de seres vivos (no caso…da espécie “homo sapiens”)…O que vale para cada indivíduo desta nossa espécie, não vale necessariamente para o que ocorre entre os homo sapiens (quando eles se tornam pessoas). Os “homo sapiens” só se tornam pessoas quando acontece algo entre eles…Neste caso, talvez precisássemos de um ‘novo conceito’ como o de… “alterpoiese“. (texto base*******************************(texto complementar)*********************************

homem_computador

A evolução da espécie e o sedentarismo

Segundo Darwin… e sua ‘teoria da evolução’, características favoráveis de sobrevivência ao meio… que são “genéticas“… tornam-se mais comuns em gerações sucessivas, de uma população que se reproduz … – enquanto…por outro lado, características desfavoráveis tornam-se incomuns. Pois bem, hoje o homem encontra-se extremamente adaptado ao meio, suas características físicas – ou seja, seu “fenótipo” é bastante evoluído…para acompanhar, e dar subsídios às suas necessidades básicas…e assim, à sua sobrevivência. Já para o pesquisador Steve Jones…’a evolução acabou‘…ou seja, graças ao nosso ‘estilo de vida‘ conseguimos sobreviver e reproduzir, sem depender das diferenças herdadas… para enfrentar o frio, fome e doenças… Assim, nos dias de hoje… o mundo se adapta ao homem… e não o homem se adapta ao mundo.

Especificamente falando sobre atividade física – o homem caçava, plantava e colhia para adquirir seu alimento. Para fugir do perigo, o homem usava tanto seu raciocínio (o que o diferia dos demais animais), quanto seu corpo adaptado para correr/fugir …  Além disso, sua sobrevivência foi intimamente associada à sua capacidade de comunicação — e, pelo desejo de entender e influenciar o ambiente… – Porém, o que temos hoje?… Um homem que não se esforça para o seu alimento (só vai ao supermercado – ou internet – comprar sua comida), e para o seu preparo, aperta um botão on/off do microondas. Devidamente alimentado…o homem não foge do perigo (…não há mais predadores no nosso convívio).

O maior perigo hoje enfrentado é a “Violência Urbana”;                            nesse caso… — para fugir dela…  ‘NÃO SAIA DE CASA!’.

Além disso, com o avanço da tecnologia (vide e-mails, celulares, blogs…twitter), sua capacidade comunicativa aumentou profundamente… – Para sobrevivermos nos dias de hoje… – o que seria, então… necessário?… – Trabalhar… – estudar…  atualizar-se – Todavia, o resultado de todo esse ‘avanço tecnológico‘, somado ao tempo gasto no computador … entre pesquisas…e teses — levaram o homem moderno ao sedentarismo; de tal modo, que a sua sobrevivência (“HOJE”) pode estar a ‘ele’ diretamente correlacionada. 

No entanto…paradoxalmente…ao tornar-se sedentário, o homem torna-se exposto a doenças que o podem levar a morte. Por outro lado, se levarmos em conta a expectativa de vida crescente…podemos então concluir – que o homem continua em seu “ciclo evolutivo” – adaptando-se para sobreviver.

E, afinal de contas… ainda existem adaptações genéticas, as quais favorecem um melhor funcionamento dos nossos sistemas (cardiovasculares, músculo-esqueléticos, digestivos, respiratórios). Sobretudo por influência do meio (estilo de vida) essas alterações podem ser via epigenética – tornando o indivíduo cada vez mais adaptado para a sobrevivência, seja por manter-se física ou mentalmente saudável. Assim, se o homem adaptou o meio para seu maior conforto… – para viver e sobreviver… usando sua inteligência – agora é necessário que desconstrua esse paradigma… Usando sua sabedoria, adapte-se ao meio.    O corpo precisa de movimento!… – Sua saúde física e mental agradecem… (‘texto base’)

Publicado em Cibernética, filosofia, Teoria do Caos | Marcado com , | 1 Comentário

A peremptória invasão dos “Neurônios cibernéticos”

Como sempre acontece na ciência, as coisas são sempre mais complicadas do que parecem. – Um grupo internacional de pesquisadores acaba de descobrir – que o        cérebro possui um…”poder computacional”…muito maior do que eles calculavam.

esquema-neuronio

Os dendritos têm seu próprio poder computacional. [Imagem: Biosferas/UNESP]

Neurônios são células nervosas de cujo corpo central derivam um ‘axônio’…a parte        mais longae ‘dendritos’, uma teia com numerosas ramificações. As teorias atuais afirmam que os axônios “disparam” (liberam cargas elétricas), para que neurônios comuniquem-se uns com os outros…Tudo que o cérebro faz seria resultado dessas interações interneurais (“redes neurais“) Os dendritos – por sua vez – seriam              apenas fios de interligação, sem nenhum papel ativo. Todavia, uma equipe da Grã- Bretanha e dos EUA acaba de descobrir que os dendritos (muito mais numerosos),    também disparam, fazendo suas próprias computações de uma forma autônoma.

Cálculos cerebrais                                                                                                                      Cientistas gostam de comparar o cérebro humano com um computador, no qual os neurônios seriam os “transistores”…com os quais se constroem os “processadores”.

Os resultados da pesquisa desafiam o paradigma atual das neurociências – no qual,  cálculos cerebrais somente se realizam através de um grande número de neurônios trabalhando em conjunto. Tudo isso, demonstra então, como componentes básicos            do cérebro são dispositivos computacionais excepcionalmente potentes. E, ainda        sobre o assunto…Michael Hausser – professor orientador do estudo, concluiu que:

“Dendritos atuam como dispositivos de computação em miniatura, para detectar,                e amplificar tipos específicos de sinais de entrada. – Esta nova propriedade deles,          vem adicionar um novo importante elemento para a nossa caixa de ferramentas computacionais do cérebro”…Assim, mesmo a nova descoberta não foi suficiente            para se escapar de uma concepção mecanicista do cérebro. (texto base) out/2013 ***************************************************************************

Inteligência artificial em hardware                                                                          “Descrever  o cérebro a partir do neurônio é como descrever uma musica, a partir da sequência de zeros e uns do CD. É preciso fazer a coisa funcionar para saber realmente como é. Ou então emular o processo… Por apenas a soma das partes, não chegamos lá”.

transistor-que-aprende

Esquema do transístor neuromórfico, que funciona como uma sinapse artificial. [Jennifer Y. Gerasimov et al.]

Parece mesmo, estar sendo formada uma massa crítica que nos levará da computação eletrônica tradicional àcomputação neuromórfica– onde  processadores funcionam, de forma mais parecida…ao cérebro humano.

Depois de avanços importantes no campo dos…“memoristores…e do surgimento de um…capacitor com memória analógica — agora acaba        de ser fabricado o ‘transístor’  que também é capaz de funcionar como umasinapse artificial“.

Transístor neuromórfico                                                                                                        Jennifer Gerasimov, da Universidade Linkoping, na Suécia, construiu o transístor neuromórfico usando materiais orgânicos à base de carbono – o que significa que              os circuitos poderão ser fabricados por impressão…em substratos finos e flexíveis.

Um transístor normal funciona como uma…”válvula”…que amplifica, ou amortece o sinal de saída, dependendo das características do sinal de entrada…ou, de um sinal de controle.  No transístor eletroquímico orgânico – construído por Jennifer… o canal de passagem da corrente é feito de um plástico condutor “eletropolimerizado“…o que permite que a saída não seja simplesmente um sinal (1), ou um ‘não-sinal’ (0), mas uma infinidade de valores entre estes 2 extremos… Desse modo, o “transístor neuromórfico” pode ser treinado para reagir a um certo estímulo – um determinado ‘sinal de entrada’…de modo que o canal do componente se torne mais condutor, e o sinal de saída maior, ou vice-versa, criando uma conexão dinâmica entre uma entrada e uma saída. Esse funcionamento foi demonstrado, quando a equipe incorporou o transístor num ‘circuito eletrônico’…que associa um certo estímulo a um determinado sinal de saída. Segundo Simone Fabiano, membro da grupo:

“Esta é a primeira vez que é vista a formação em tempo real de              novos componentes eletrônicos em dispositivos neuromórficos”.

O transístor neuromórfico é um passo importante à implantação de inteligência artificial em um hardware, e ainda com a vantagem de empregar… “eletrônica orgânica”…(em um processamento analógico). As redes neurais artificiais baseadas em software, são usadas atualmente no que é conhecido como ‘aprendizado profundo’…O software requer que os sinais sejam transmitidos por um grande número de nós…simulando uma única sinapse,    o que consome considerável poder computacional…e portanto, muita energia. – Com tal transístor uma sinapse pode ser reproduzida usando um único componente. (texto base***********************************************************************************

cyborgsCyborgsbem-vindos ao futuro

‘Homens biônicos’ não são mais parte apenas da ficção científica; os avanços da neurologia, desvendando o comportamento do cérebro, e da bioengenharia…com membros mecânicos, podem fazer…em décadas… – com que cegos voltem a enxergar…e, paralíticos a caminhar.  Apesar do alto custo… membros se movendo por ‘controle remoto’ – já são uma realidade; permitindo superar limitações…impostas ao corpo humano. Na “neurologia” – pesquisas desenvolvem ‘soluções’ que tomam por base  o uso dos impulsos cerebrais para que então um paciente possa executar… – por meio do ‘pensamento’… – tarefas ditas “impossíveis”.

Por meio de eletrodos implantados no cérebro… ou colocados sobre a cabeça do paciente, como um capacete, os sinais cerebrais são utilizados por exemplo, para movimentar uma cadeira de rodas… – Os ‘eletrodos’ – pequenos condutores metálicos de corrente elétrica, captam impulsos transmitidos por neurônios, ou células nervosas…Os impulsos ocorrem de forma caótica no cérebro… A intensidade e o local das transmissões variam segundo o indivíduo. Por isso…procura-se fazer com que este ‘eduque‘ sua transmissão de impulsos nervosos. – Esse controle os torna inteligíveis ao eletrodo…que os traduz em informação.

As pesquisas ainda são recentes…Apesar da primeira leitura de impulsos cerebrais ter sido realizada na década de 20o seu uso na movimentação de aparelhos teve início na década passadaUma das mais recentes pesquisas, usa neurônios relacionados ao movimento da mão esquerda de pacientes, para mover o cursor de um computador fazendo com que se comuniquem…O estudo, realizado por Roy Bakay e Philip Kennedy da Emory University,  Atlanta/EUA, implantou o eletrodo em 2 pacientes paralíticos, incapazes de se comunicar.  O paciente imagina movimentar a mão esquerda – Isso ativa um grupo de neurônios no córtex motor do cérebro… – O eletrodo implantado no local, então registra os dadose os envia ao computador…Os sinais fazem com que um cursor na tela do micro se movimente. 

Vendo o cursor se movimentar na tela, o paciente é capaz de, treinando, conseguir que seus neurônios transmitam frequências que controlem o cursor…Tal ‘exercício mental’        faz com que os neurônios atuem de modo sincronizado – sendo então mais facilmente detetado pelo eletrodo…Assim, impulsos nervosos são usadas em técnicas de pesquisa.

brain-computer-interface-2

Audição e Visão

O eletrodo pode servir ainda como receptor de estímulos do ambiente. É o caso de implantes, que ajudem os pacientes a enxergar … ou ouvir. O processo, nesses casos é inverso: o eletrodo capta sinais do exterior,  e os decodifica, para que o cérebro possa entendê-los…Na audição…o implante é feito… na parte interna do ouvido – mais especificamente, na cóclea…onde eletrodos detetam sons do ambiente… – estimulando eletricamente o cérebro. No Brasil, tais implantes já existem…INCOR.

Processos que façam com que uma pessoa cega possa enxergar…contudo – ainda estão em fase de desenvolvimento. Cientistas estudam o implante de eletrodos no olho ou no córtex visual… – região do cérebro ligada à visão. No caso de eletrodos corticais…a pesquisa deve levar mais tempo. Tais estudos procuram fazer com que eletrodos, no cérebro ou na retina reproduzam imagens captadas por uma “câmera de vídeo”… – Dessa forma…uma imagem simplificada… – similar à de um “placar eletrônico”… – seria então recebida pelo paciente.

Pelo visto, portanto… os eletrodos não devem, de imediato, trazer muita qualidade visual. Assim sendo, se uma solução biológica for encontrada (…regeneração de “células visuais”, p.ex), uma restauração poderá ter melhor qualidade que a solução mecânica. (texto base***********************************************************************************

cibernéticaRaízes cibernéticas informacionais

‘Cibernética’ é a ciência que, intimamente relacionada à …teoria geral de sistemas“, estuda os mecanismos de comunicação, e controle de sistemas físicos…e sociais, ou seja…”máquinas” e “seres vivos“. Já para Gregory Bateson é o ramo da matemática que lida com controle erecursividadede informações, onde…’sistemas complexos’ afetam e se adaptam a seu ‘meio externo’.

Nascida por volta de 1942, e inicialmente orientada por Norbert Wiener e Arturo Stearns, a ciência cibernética vem desenvolvendo…’técnicas de linguagem’ – úteis na resolução de problemas da comunicação em geral. Quando em 1950, o matemático Ben Laposky criou, num computador analógico, abstratas oscilações eletrônicas, anunciou-se a possibilidade de manipular essas ondas, e gravá-las eletronicamente…como o despertar do que viria a ser conhecido como ‘computação gráfica‘. Mais tarde… ao longo dos anos 50, William Ross Ashby propôs teorias relacionadas à “inteligência artificial“. – Já em meados da década de 60…a ‘cibernética’ deu grande impulso à…’teoria da informação‘ – quando    o “computador digital” substituiu o processamento da “imagem eletrônica analógica”.

São dos anos 50/60…a 1ª geração de computadores (c/desenhos gráficos); a 2ª geração (c/transistores); a 3ª, em 1964 (c/circuitos integrados); bem como as 1ªslinguagens de programação…Fortran, Cobol, Algol… e Lisp.

A extrema rapidez com que essas mudanças ocorrem está afetando os modos de vida        na sociedade – promovendo assim…em vários casos, o abandono daquelas crenças e tradições profundamente enraizadas – nos mergulhando numa cultura de constante relatividade … com sérias limitações nas relações pessoais e sociais entre indivíduos.  Cibernética é uma ciência interdisciplinar, tão ligada à física, e ao estudo do cérebro, quanto ao estudo dos computadores, e às linguagens formais da ciência, fornecendo ferramentas para descrever objetivamente, o comportamento destes todos sistemas.

Muitos associam cibernética com a ‘robótica’, e o conceito de ‘cyborg’, devido ao uso      que tem sido dado em certas obras de “ficção científica“… – mas… do ponto de vista puramente científico, cibernética são sistemas de controle, com ‘retro-alimentação‘.  Stafford Beer, filósofo organizacional, a quem o próprio Wiener considerava como o        pai da gestão cibernética, a definia como ”a ciência da organização eficaz“… – Nesse sentido, a “cibernética“…estudaria a informação que flui em torno de um sistema, animado ou inanimado, e como essas informações são empregadas por este sistema      para uma…”auto-regulação” – mantendo sua estabilidade…em processos que – por mecanismos de “retroalimentação”, relacionam e controlam a “operação sistêmica”.

A característica de um sistema não-trivial “auto-regulado” é que, apesar de                      lidar com variáveis incomensuráveis, incertas demais para se identificar, e                      difíceis de se entender, algo pode ser feito para gerar uma “previsibilidade”.

cibernetica

“Fundamentos da teoria cibernética”

As teorias que embasaram o desenvolvimento desta disciplina — foram formuladas em 1948, quando o filósofo matemático Norbert Wiener publicou seu livro…Cibernética. O ‘princípio básico’ é a ‘retro-alimentação’ (feedback), que consiste na ‘contínua correção’ – pelo sistema, dos erros cometidos…O cérebro humano aliás, se utiliza desse princípio, ‘inconscientemente’.  Do ponto de vista…cibernético – todo sistema transforma uma variável (…ou conjunto delas) de entrada…nas correspondentes variáveis de saída. A relação matemática, exprimindo essa relação “saída x entrada” é chamada “função transferência“, tendo uma complexidade  diretamente proporcional…àquela do sistema.

Nos ‘sistemas realimentados‘…porém…as variáveis de saída dependem, não só das variáveis de entrada, como também de si próprias, aumentando consideravelmente a…”complexidade“…da…’função de transferência‘.

A possibilidade de um sistema controlar a si mesmo… – até automatizar o processo que realiza, pode ser considerada a principal vantagem dada pelo ‘princípio cibernético‘. Isso permite aumentar a complexidade do sistema e acrescentar várias partes ou etapas independentes – que funcionarão realimentadas entre si…de modo a não ser necessário vigiar o correto funcionamento de cada uma delas, separadamente. Assim, as máquinas projetadas de acordo com tais critérios parecem mais ‘inteligentes’…do que aquelas que requerem permanente operação revisora, além de sofrerem menor perturbação externa.

Automação de “sistemas retro-alimentadores”                                                              “O tema fundamental da ‘cibernética‘ é a regulação e                                                          controle de sistemas abertos”. (Mervyn Cadwallader)

Em processos complexos, como, por exemplo, nos mecanismos que entram em jogo nos pilotos automáticos das aeronaves, deve existir um retardo mínimo, entendendo-se como tal o ‘tempo de reação’ do sistema frente a ‘perturbações externas‘. – Quando um sistema realimentado é ativado, na realidade, se deve a um ‘sinal de erro’…ou seja, uma diferença entre a saída registrada em um momento dado, e a fixada como objetivo. Isso exige que o sistema atue por impulsos…e não de modo contínuo…oscilando de um lado para outro, em relação à posição de equilíbrio. Quanto mais rápida a reação do sistema, mais difícil será mantê-lo dentro de suas margens de estabilidade… Por isso, na prática, verifica-se uma preferência pelos ‘sistemas estáveis’, cujo controle possa ser totalmente efetivado…com comportamento, para todos efeitos…previsível; o que limita…em muito,  sua rapidez de funcionamento – e a possibilidade aplicativa de…”sistemas de correção”.

Em grandes sistemas, costuma-se manipular um grande número de variáveis de entrada e saída, relacionadas entre si de uma forma complexa. Por consequência… tais sistemas não podem ser abordados diretamente – sendo decompostos em modelos mais simples – cujo comportamento seja equivalente ao do ‘sistema original’…O estudo assim enfocado é feito por simulação, ou observação da resposta do modelo nas várias condições a que o sistema se submete sucessivamente… As conclusões então obtidas são utilizadas para projetar um “controlador“… que servirá de base ao modelo definitivo de automatização do processo.

“Processos cibernéticos”                                                                                                            Um computador só terá comportamento cibernético, ao processar uma informação que lhe exija certo grau de adaptação, mantendo 1 ou + efeitos constantes ao variarem suas causas.

De modo geral… os procedimentos mecânicos (‘não eletrônicos’) carecem das características adequadas para reagir com rapidez e precisão de uma maneira controlada e previsível… Um procedimento cibernético entretanto, é capaz de exercer funções dessa natureza. O modelo, variáveis e funções que o configuram … são o suporte lógico de controle, ou “software“. O controlador, os sensores…e todo conjunto de dispositivos físicos — geralmente eletrônicos, são o suporte físico do sistema, “hardware“.

O tratamento matemático realizado pode ser analógico, isto é, contínuo no espaço e no tempo, e digital ou discreto, tanto no espaço, como no tempo. Os ‘processos analógicos’ permitem realizar uma grande variedade de ‘operações matemáticas’…mas o custo dos circuitos e seu consumo crescem proporcionalmente – recomendando-se nesse caso, o emprego de um ‘procedimento digital’…via computador. É comum se considerar que a evolução da astronáutica – e a consequente corrida espacial…constituíram o fator que desencadeou o desenvolvimento cibernético; no entanto … são inúmeras as aplicações industriais de suas teorias, todas dirigidas à automação em processos de produção, na principal missão de comprovar que, efetivamente…tudo funcione conforme o previsto.

Podem-se considerar como manifestações avançadas da cibernética…a “robótica (criação de máquinas que substituem atividades físicas humanas) e, em especial, a “inteligência artificial“, cuja finalidade consiste, em programar máquinas para          resolver situações previamente definidas – com capacidade de decisão, em muitas ocasiões, superior à humana… Todavia, a capacidade de adaptação, e resolução de problemas completamente novos, incluída aí a de concebê-los… são dons naturais.

O Modelo Neuronal                              ‘Redes neurais artificiais’ constituem o sistema que simula o funcionamento e comportamento do “cérebro humano”. 

O início das ciências cognitivas se deu no período 1945-55, nos EUA, quando do incremento de extensas discussões sobre o funcionamento do ‘cérebro’, a partir da ideia de ‘redes neurais‘ de processamento e retroalimentação de informação, ciência batizada em 1948 por Norbert Wiener como cibernética.

Von Neumann, Norbert Wiener, e Warren McCulloch…pais da cibernética…trabalhavam, cada um em sua universidade…com sua equipe, na articulação da matemática e da lógica no funcionamento do sistema nervoso. McCulloch desenvolveu para o funcionamento do cérebro um modelo teórico; Wiener sintetizou os conhecimentos; e Neumann aplicou-os, construindo computadores. – Enquanto para Neumann o desafio era criar uma máquina capaz de realizar operações…a partir de um programa armazenado nela mesma (a básica ideia do ‘computador digital’), para McCulloch o desafio era formular uma explicação do funcionamento dos neurônios baseada numa lógica matemática. – Ambos se valeram da “Teoria da Informação”, criada por Claude Shannon em 1938… na qual a “informação” é proposta como um ‘dígito binário’ [bit (“binary digit”) … unidade básica de informação].

Com esta ideia, McCulloch e Walters Pitts formulararam seu modelo lógico-neuronal, em 1943, no qual surge a primeira visão de que o cérebro funcionava com base no sistema de informação binária (0 ou 1)…onde a sinapse só tem 2 possibilidades – conectada, ou não.

É a ideia do tudo ou nada (“all-or-none”)E assim… esta característica da atividade cerebral, poderia ser então tratada – por uma lógica proposicional matematizável. Isto abriu a perspectiva de se imaginar o cérebro, como umarede de conexãoentre as células, fechada em si mesma, e não de uma forma ‘comportamentalista’, analisada em função … só de “estímulos externos” … como anteriormente, assim fazia o ‘paradigma behavioristavigente.

“Eco-cibernética”                                                                                                                          A neguentropia, juntamente com a…homeostase…criada em 1929 por W. Cannon, são 2 ‘ideias-chaves’…que hoje explicam a ‘emergência’ e a ‘sustentabilidade’ dos ecossistemas.

A era cibernética deixou um legado de conceitos, e um consequente domínio linguístico às “ciências cognitivas”, em especial, à visão ecológica de mundo…que também se formava à época, imprescindível. Ateoria Gaiapor exemplo, formulada por James Lovelock e Lynn Margulis está fundada na ideia cibernética de ‘auto-reguladores; sistemas homeostáticos, sem os quais seria impossível pensar a Terra como um organismo que se auto-organiza; a partir de suas próprias interrelações. Outro conceito exemplar ao “modelo ecológico”…foi proposto por Wiener…”neguentropia“…a entropia negativa que “sistemas cibernéticos” teriam a disposição; explicando o aumento de ordem num “fluxo termodinâmico”, dentro do qual segue valendo a “2ª lei entrópica”…da desordem crescente nos sistemas fechados.

Gregory Bateson, que em 1984 recebeu postumamente o prêmio “Norbert Wiener”, por sua contribuição ao desenvolvimento da “cibernética”, também foi seu principal crítico; notadamente quanto à tendência belicista implícita na seguida tentativa de reprodução   de ‘qualidades mentais’, em máquinas controláveis pelo homem, na adaptação de uma emergente inteligência artificial. Mas Bateson foi além; usando o âmago da cibernética para criar seu modelo ecológico, e…ao mesmo tempo, sua própria auto-crítica – usou a teoria da informação, para demonstrar que um “sistema vivo” não se sustenta só com a energia que recebe de seu exterior, mas fundamentalmente…através da organização da informação que o sistema é capaz de processar…E, ainda que esta informação (mesmo aquela tratada como ruído)…pode – enfim… ser geradora de ordem e sustentabilidade.

Esta ideia de ordem a partir do ruído…de ‘sistemas autorganizadores’ é identificada como o ‘segundo momento’ das ciências cognitivas…Bateson pôde manter seu ‘foco de pesquisa’ preocupado com a vida, e suas implicações…dentro de um momento histórico… no qual o objetivo era inventar uma… “máquina”… que, livremente agisse… “conscientemente”.

“Sistemas Auto-Organizados”

Este segundo momento na formação das ciências cognitivas inicia-se com os trabalhos de Bateson e Heinz von Forster ainda na primeira década da era cibernética (1945/1955)Estes  2 pesquisadores, aplicaram todos os conceitos modernos da cibernética  a “sistemas abertos”, criando assim, uma cibernética de 2ª ordem, cujos sistemas ‘auto-evoluem’… de forma diversa da… “Inteligência Artificial”.

A ideia de sistemas auto-organizados surge a partir dos resultados inesperados (como é comum acontecer nas descobertas científicas) das simulações dos modelos cibernéticos    de “all-or-none“…Observou-se que, mesmo com um mecanismo determinista, como as “redes binárias”depois de um certo tempo — as simulações apresentavam um padrão novo de desenho, uma nova organização no circuito de alternativas, isto é, algo de auto-organização estava acontecendo com o sistema. Foi esta ideia de ordem emergente que físicos, biólogos e matemáticos começaram a aplicar dentro de seus ‘campos de estudo’.

William Ashby foi um dos primeiros a afirmar em 1947, que o cérebro era um sistema auto-organizador. Forster trabalhou durante as duas décadas seguintes com este foco, cunhando o conceito de “redundância“…e a famosa frase…“ordem a partir do ruído, ordem a partir da desordem”…se referindo à captura da desordem que sistemas vivos realizam, transformando a entropia externa para manutenção da organização interna.

Pesquisas com modelos simuladores de sistemas auto-organizados, permitiram verificar 3 características cibernéticas distintas: a componente neguentrópica, que explica o aumento de ordem; a criatividade dos sistemas abertos – condição de estarem fora do equilíbrio… e, a presença de…”redes de retroalimentação”…para conectar o sistema – exigindo assim um tratamento matemático com equações não-lineares. Emergem daí…2 modelos teóricos:

a) “Modelo Neguentrópico”                     A entropia, medida da perda de organização em um sistema… – por ser inexorável… tem sinal positivo…seguindo a ‘flecha do tempo’.

O “modelo neguentrópico” é dado pela ideia de que “sistemas vivos” são abertos… – com  o poder de se auto-organizarem, garantindo assim sua “sobrevivência”…no ambiente em que vivem… — considerado em sua máxima extensão…isolado e fechado, estando assim, sujeito à 2ª lei termodinâmica (‘entropia‘).

Sua irreversível…”perda de ordem”…devido à uma “resultante global termodinâmica”… é  universalmente conhecida como “morte térmica“. Agindo no sentido inverso da ‘flecha do tempo’, tendo portanto, sinal negativo, a “neguentropia” pode ser considerada uma “entropia negativa”. Sua grande vantagem é poder explicar como surgem e se mantêm os sistemas auto-organizados – em um cenário de perda irreversível de organização…sendo inclusive utilizada como uma das principais medidas de auto-organização de um sistema.  Diversos autores vêm disseminando este modelo…e dentre eles se destaca Ilya Prigogine, pesquisador pioneiro com seu trabalho de 1945 sobre “estruturas dissipativas“, e sua conclusão de que elas podem ser geradoras de ordem. Já pelo lado das ciências sociais, o pensador Edgar Morin realizou a mais ampla e radical aplicação deste conceito – em sua síntese civilizatória ‘O Método‘: conjunto de 4 volumes, com o 1º dedicado à organização da natureza… – o 2º…à vida – o 3º…ao conhecimento – e o 4º…à organização das ideias.

Morin trabalha a ideia de ‘neguentropia‘, tanto para explicar a ‘auto-organização‘ da natureza como para o próprio surgimento e morte das ideias. O conceito de neguentropia, enquanto força emergente e organizadora do ambiente … assumirá um papel de destaque neste trabalho, seja por seu poder de explicação das dinâmicas dos ecossistemas, seja por seu “papel pedagógico”… – ao tornar possível… uma reversão da “degradação ambiental”.

sistema autorganizadob) “modelo caótico”                                  É preciso um caos dentro de si para dar à luz … uma ‘estrela cintilante’. (Nietzsche)

O “modelo caótico” é dado pela ideia extremamente simples de que sistemas auto-organizadores são muito sensíveis    à mudança em suas ‘condições iniciais’.  Nesse caso, Caos representa a evolução destes sistemas… A grande surpresa…é ‘simulações matemáticas’… mostrarem    que todo ‘fenômeno caótico’ possui um padrão indefinidamente reproduzido a toda…mudança de fase…do sistema.

Este padrão é o atrator do sistema, que… uma vez plotado, mostra figuras    geométricas muito estranhas – até então nunca vistas – com uma beleza de                        simetria impressionante. Daí receberem o nome de ‘estranhos atratores‘.

O “modelo caótico” é hoje o mais difundido entre as ‘ciências cognitivas’…Noções como “não-linearidade”, explicam fenômenos cuja reprodução não acontecem em uma escala linear e aritmética…fenômenos que têm sensibilidade a tudo que lhes diga respeito…ou seja…a complexidade pode ser definida como a “ciência das emergências relacionais”.

A “fractabilidade” explica a geometria de sistemas com dimensionalidade                              fracionária, isto é…múltiplos de uma fração (daí o termo ‘fractal’). Sendo                              a geometria dos atratores… ‘fractal‘… estes possuem a propriedade da                              auto-similaridade…presente em toda ampliação de um “sistema caótico”.

O que une os modelos neguentrópico e caótico é o “princípio ecológico das propriedades emergentes”. ‘Emergência‘ é uma propriedade da natureza…que nos garante que certo estado ou nível de organização gera uma qualidade única – não presente em estados, ou níveis anteriores ou posteriores de organização de seus componentes. O modelo caótico, porém, diferencia-se do neguentrópico… ao afirmar que é possível, em toda emergência, identificar padrões geométricos, a comportamentos extremamente simples (‘atratores’), através dos quais… é possível conhecer as dinâmicas próprias dos “sistemas complexos”.

humanstemcell

A Presença da “Autopoiesis”

Por fim, a 3ª característica das ciências cognitivas – vem a partir dos trabalhos de H. Maturana, e F. Varela – biólogos chilenos que propuseram, entre 1970 e 1973…uma “biologia da cognição“, e o paradigma daautopoiesis‘, como uma solução necessária e suficiente…para o entendimento – dos…”sistemas vivos”.

Maturana foi aluno de McCulloch…e Varela foi aluno de Maturana…tendo trabalhado com Gregory Bateson… E, ambos foram amigos e colegas de Heins von Forster, sendo portanto, herdeiros diretos das primeiras gerações cibernéticas. Maturana define ‘autopoiesis’ como uma ‘rede molecular’ de produção de componentes… – fechada em si mesma – de onde os componentes gerados só servem para constituir a dinâmica da própria rede – propiciando sua extensão no espaço físico em que materializa sua individualidade, e criando um “fluxo energia/matéria”…alimentador da própria rede. Dessa forma…a ‘autopoiesis‘ descreve a capacidade de ‘auto-organização’, ‘autodeterminação’, e ‘autocriação’ dos “sistemas vivos”.

Seu modelo é baseado em algumas categorias epistêmicas…1ª) a ideia dedeterminismo estrutural, pela qual sistemas vivos são estruturalmente determinados…e sua história é representada pelas mudanças desta estrutura…conservando sua organização de sistema vivo; 2ª) a ideia declausura operacional… que explica sistemas vivos – como fechados operacionalmente…onde sua autonomia de “processamento interno”…define um espaço próprio de produção. E a ideia deacoplamento estrutural; onde mudanças estruturais  do sistema são definidas em função das perturbações provenientes do meio em que vive.

No modelo autopoietico os sistemas são concebidos circulares, retroalimentadores e auto-referenciais… Esta última qualidade de monitorar-se a si próprio é dada por uma capacidade inata de aprendizagem, dentro do processo de relações entre os componentes de uma ‘rede molecular’. Esta capacidade de apreender e determinar comportamentos é a cognição. Daí a afirmação de que ‘sistemas vivos são cognitivos‘. — Varela destaca, que as 2 redes biológicas de maior evidência nos sistemas vivos… os sistemas ‘nervoso’…e ‘imunológico’…são “sistemas cognitivos”…e só isso explica seu funcionamento autônomo.

O modelo cognitivo autopoiético diferencia-se das outras abordagens, ao propor que      todo conhecimento faz parte de uma conduta descritiva — criando assim seu próprio ‘campo epistêmico’… Um domínio de condutas cognitivas, resulta das interações nas      quais o sistema vivo participa…sem perder sua identidade…sua própria organização,      única variável que permanece constante numa experiência autopoiética. (texto base) *****************************************************************************

“Modularidade biológica” impulsionando ‘inteligência artificial’ (fev/2013)    Embora os seres vivos sejam formados por unidades básicas chamadas células – essas células não se distribuem homogeneamente para formar um órgão. Em vez disso, elas      se organizam em grupos notadamente redes biológicas tendem a se organizar em ‘módulos’. Por que isso acontece era um mistério até agora; os livros-texto de biologia afirmam que a evolução produziu módulos porque seres modulares podem responder        às mudanças mais rapidamente…o que – em tese – lhes dá uma vantagem adaptativa;        todavia, isso é uma justificativa… e não uma explicação para a origem do fenômeno.

redes-modulares

A explicação sobre como surge a modularidade nas redes biológicas poderá ser transferida imediatamente para as redes neurais artificiais. [Clune et al./PRS]

“Custos de conexão”

A primeira proposta de explicação, surgiu agora, com o trabalho de Jeff Clune, Jean-Baptiste Mouret e Hod Lipson, da Cornell University, EUA. Usando 25 mil gerações de agentes, evoluindo em uma ‘simulação computadorizada’ eles descobriram que a evolução produzmódulos‘. Isso pode ser ‘naturalmente‘ explicado se levarmos em conta que gerar e manter as conexões – é processo trabalhoso e ‘caro’ em termos de consumo de energia. Entretanto…o design modular produz conexões de rede menores…e em menor número. — Então, bastou que fosse incluído um… “custo de conexão” na evolução de seus… agentes virtuais… para que agora finalmente, sobressaíssem as gerações formadas por seres comorganização modular“.

Inteligência artificial com QI maior                                                                                      “Assim que você acrescenta um custo para as conexões de rede…os módulos aparecem imediatamente…Sem um custo, os módulos nunca se formam. – O efeito é dramático”. 

A descoberta vai muito além de uma melhor compreensão da ‘biologia’ e da ‘evolução’,        o que já seria muito…Um modo mais eficiente de organização de redes neurais deverá      ter um impacto direto nos algoritmos da inteligência artificial, um campo promissor,    mas que vem se desenvolvendo a passos muito mais lentos, do que o previsto. — Para imitar de forma mais fidedigna o funcionamento dos “seres vivos” se faz necessário sobretudo entender – com detalhes – como o cérebro humano se organiza e funciona.      Aí, a explicação sobre como surge a modularidade nas ‘redes biológicas’ poderá ser transferida imediatamente às redes neurais artificiais…que tentam justamente imitar          o cérebro. A possibilidade de desenvolver modularidade nos permitirá criar cérebros computacionais mais sofisticados e mais complexosdiz Lipson. E, quem sabe, mais inteligentes … ao menos o suficiente para dar aos robôs, impulso similar. (texto base*******************************************************************************

“Computações cerebrais”                                                                                                          Cientistas há muito sonham em construir computadores tão poderosos quanto o cérebro humano. Mas agora a tarefa ficou muito mais difícil. Não porque o desenvolvimento dos computadores tenha se deparado com algum “gargalo intransponível“, mas sim porque    a complexidade do…”cérebro humano“… é muito maior… – do que se podia imaginar.

processamento-dendritos

Rede de células piramidais no córtex cerebral. Estes neurônios foram simulados usando um programa de computador que captura a arquitetura dendrítica de células piramidais reais. – Agora ficou demonstrado, que esses dendritos possuem a incrível capacidade de realizar cálculos por si próprios. [Imagem: UCL]

Até agora, o saber científico estabelecia que apenas os axônios, as porções maiores dos neurônios, seriam ativas, e todos os processos cerebrais seriam resultantes da atuação    dasredes neurais… conjuntos de vários neurônios disparando seus axônios de forma coordenada…Nessa interpretação, dendritos seriam apenas a ‘fiação’ que interliga os neurônios uns aos outros… Todavia, segundo Spencer Smith… neurocientista da SLAB (Universidade da California) os dendritos, partes menores dos neurônios, também são componentes ativos, que fazem suas próprias “computações”. E o pesquisador explica:

“Subitamente…é como se o poder de processamento do cérebro se tornasse muito maior,  do que tínhamos pensado originalmente… Imagine reconstruirmos uma engenharia…de um pedaço de tecnologia alienígena…e o que você pensava que fosse uma simples fiação, seriam transistores computando informação. Foi algo assim que acabamos de descobrir”.

Poder computacional do cérebro                                                                                            1ª medição da corrente elétrica de uma sinapse individual.

O maior poder computacional do cérebro revelou-se quando foi desenvolvida                  tecnologia com resolução suficiente para medir a atividade elétrica dos dendritos,                o que revelou sua capacidade de gerar livremente seus próprios disparos elétricos.              O experimento constou em inserir uma “pipeta” de vidro microscópica cheia de              solução fisiológica, em dendritos neuronais no cérebro de um camundongoIsso            permitiu que se “ouvisse” diretamente o processo de sinalização de cada dendrito.

partes-neuronio

O axônio é uma parte do neurônio responsável pela condução dos impulsos elétricos que partem do corpo celular, até outro local mais distante, como um músculo ou outro neurônio.

Os dados coletados comprovaram que dendritos atuam, de fato, tais como ‘computadores sub-neurais’, ao processar os “sinais neuronais” por conta própria…sem depender dos axônios, e menos ainda – das redes neurais. Assim, estimativas sobre a quantidade de ‘neurônios no cérebro’ — os últimos cálculos indicam 86 bilhões – não servem mais como parâmetro, porque há cálculos internos, em andamento nos neurônios, numa quantidade  e rapidez — ainda desconhecidas.

Atualmente, as tentativas de imitar os processos cognitivos cerebrais                                      em computadores concentram-se nos processadores neuromórficos“,                                    geralmente construídos não com “transistores”, mas um componente                                      eletrônico com capacidade de memória… – o memristor. (texto base*****************************************************************

“Neuromatemática”a nova ciência do cérebro                                                      “Estamos tentando encontrar evidências de que usar a ‘seleção estatística de modelos’ como paradigma para a atividade cerebral é viável e factível. — O desafio é construir modelos que expliquem as evoluções temporais obtidas de registros eletrofisiológicos, durante a exposição a estímulos diversos…como rítmicos e visuais”. (Antônio Galves)

neuromatematica-1

O professor Antônio Galves coordena o esforço brasileiro para tentar entender como o cérebro processa informações. [USP]

A neurociência, em sua situação atual, padece      de um mal estranho — é rica em dados … mas pobre em teoria… – Sendo assim… os estudos conseguem registrar coisas acontecendo no cérebro… mas, não compreendem o que estes dados significam Para sanar esse problema, são necessários novos modelos matemáticos    que deem conta dos … “dados experimentais” observados em uma nova ‘ciência do cérebro’,      a…”neuromatemática” — tema de estudos        da equipe do professor…Antônio Galves – do ‘Instituto de Matemática e Estatística’…’USP’.

A empreitada, batizada de NeuroMat, conta com uma equipe composta por matemáticos de áreas diversas, além de neurocientistas, cientistas da computação e médicos da USP e outras instituições nacionais e internacionais…como explicou Galves: “Trata-se de um “Centro de Matemática Pura”inspirado nas questões que a neurobiologia nos coloca”.

Uma das perguntas que o NeuroMat tenta responder é como nosso cérebro codifica e processa estímulos externos. Ao ver uma árvore por exemplo, é possível reconhecê-la como árvoreainda que seus galhos estejam se movendo, ou que suas folhas tenham caído… — indicando a capacidade de reconhecer padrões — naquilo que observamos.  Mas…este processo é bem mais elaborado do que podemos imaginar numa 1ª análise.        Os cientistas suspeitam que o cérebro seja na verdade um ‘exímio estatístico’. A ideia          é que existe uma regularidade…em um nível superior ao da simples aparência; sendo        esse processo…de caráter estatístico, denominado … “seleção estatística de modelos”.

arvore-da-vida-mandala

Em neurociência, buscar regularidades estatísticas por ‘seleção de modelos’ seria como a capacidade do cérebro em decodificar/processar “informações” (mesmo quando “variáveis”) para que assim, possamos então reconhecer, por exemplo…uma “árvore”. 

Uma das experiências realizadas, para tentar compreender o ‘funcionamento’ do cérebro, gravou a atividade elétrica cerebral de voluntários … expostos a 3  ritmos musicais diversos; os ritmos se revelavam … a partir de uma sucessão regular de…unidades… – com batidas fortes…fracas… – ou ainda, intervalos silenciosos … incluindo-se também aí,    o apagar aleatório… de batidas fracas, intercaladas…por alguns… “silêncios”.

O ‘objetivo principal’ da pesquisa, era conseguir “evidências experimentaisque corroborassem a hipóteseque o nosso cérebro realiza uma … seleção estatística de modelos…Ou seja, se a partir de longas amostras produzidas com sequências rítmicas, mais o ‘apagamento aleatório’ – o cérebro poderia identificar sequências regulares de base, em relação a qualquer escolha aleatória de ‘apagamento’.      E os resultados preliminares até agora obtidos têm sido positivosdando força à ideia.

Atualmente, o grupo trabalha na construção de um banco de dados com informações de experimentos e análises em neurociência. – A ideia é que este seja facilmente adaptável para gerenciar também dados pertencentes a outros campos da neurociência… Estando também prevista… — em apoio à integração dos pesquisadores no acesso de dados para construção dessas ‘ferramentas computacionais‘, a construção de um portal, para facilitar o acesso aos resultados das pesquisas do “NeuroMat”. (USP/2014) ‘Texto base’ ***********************************************************************************

computação digital x computação orgânica (Pedro Dell’Orto)                      “Computadores digitais não chegam nem aos pés de nosso cérebro… ou mesmo                   do cérebro de lesmas ou ratos… – evidenciando assim restrições … próprias da             cibernética, para se atingir a tão sonhada inteligência artificial”.  (M. Conrad) 

inteligenciartificialNinguém pode simular a você ou a mim por meio de um sistema que seja menos complexo do que nós…Os produtos que fabricamos podem ser vistos como uma simulação…e, embora consigam resistir a determinadas condições…impossíveis ao nosso organismo … jamais chegam à original “complexidade” do seu criador.

Empédocles (2.500 A.C) explica a visão humana em analogia com a tocha de fogo, Kepler (1604) comparou à luneta… – e Fritz Kahn (1939)…ao filme fotoquímico cinematográfico. Atualmente, assim como em Santaella e Deleuze, a “lógica cibernética” é aplicada para explicar e descrever os sistemas de funcionamento da complexa ‘máquina humana’. Cada vez é mais comum encontrarmos textos explicando o funcionamento do “corpo biológico” através das teorias da ciência da computação. – No entanto, não devemos nos basear nos computadores digitais para explicar o cérebro; a cibernética é o que sabemos fazer, e não como funciona a ‘computação orgânica’. Para o biólogo Michael Conrad o hábito de criar teorias orgânicas baseadas na estrutura das máquinas disponíveis é como refletir sobre    a vida…por uma abordagem mecanicista. — Conrad então, propõe inverter a perspectiva, em direção à uma ‘visão organicista’ da computação, inspirada na sabedoria da natureza, que há bilhões de anos experimenta e testa, por violentos embates de…”seleção natural”, eficientes soluções para transmitir informações orgânicas. Apesar da estrutura biológica não resistir a certas condições atuais – a composição de carbono no cérebro, o torna um suporte material mais resistente e adaptávelque o silício dos computadores modernos.

“a vida sabia o que estava fazendo, quando escolheu                                            o carbono … como seu ‘substrato’ para computar”.

A computação orgânica se baseia na combinação de formas em contato, para achar a solução de um problema. – Por ser uma molécula capaz de assumir inúmeras diferentes   formas, o carbono foi o material usado na natureza…para achar a solução do problema.

O computador digital de silício computa de forma linear, através de sequências simbólicas, de zeros e uns… – que representam – a presença…ou ausência de um elétron… passando por um único processador…ogargalo de Von Neumann”, por onde, ‘obrigatoriamente’, devem passar todas as informações…O processamento linear permite obter uma máquina estável – previsível e segura – mas, desprovida de vida. – Segundo Conrad…a capacidade e velocidade de processamento, necessárias para realizar atividades básicas em ‘organismos vivos‘… extrapolam em muito os limites atuais da computação…Ele explica:

“A velocidade vertiginosa dos modernos processadores…nem de longe se aproxima da potência necessária à realização dessas funções… Ou seja, o computador digital não é  um “cérebro gigante”; é só uma máquina confiável e versátil que podemos controlar”.

Conrad afirma que o segredo do desempenho previsível…está na harmonia dos seus componentes (uniformemente) padronizados, pois funcionam a partir de comandos específicos, onde qualquer programador no mundo…pode consultar o manual, para      criar programas. – Anula-se assim… a possibilidade de correlações ativas… e efeitos colaterais dos componentes isolados… mesmo daqueles que poderiam ser benéficos.

Este controle inerente à cibernética é o motivo por que computadores, contrariamente ao nosso cérebro, não são passíveis de aprendizagem.

Neste sentido, para Conrad, em comparação à ‘computação orgânica’ a evolução dos nossos computadores está imobilizada. – Um meio de tornar os computadores mais rápidos seria encurtar o tempo de viagem de elétrons, pela redução das “chaves“, as reunindo num espaço menor. Porém, existe um limite de redução dos componentes eletrônicos, apontado pelos engenheiros da computação… – o chamado ‘Ponto Um’:

“Abaixo de 0,1 micrômetro (espessura de um segmento de DNA,                       ou 1/500 da espessura de um fio de cabelo humano) os elétrons simplesmente ‘riem-se’ das chaves fechadas… e passam direto”.

Outra possibilidade é o multiprocessamento. Contudo, Conrad adverte que a falta de controle causaria a paralisação do sistema… – “não haveria como ter certeza absoluta do que poderia acontecer, quando muitos programas fossem usados ao mesmo tempo. – Os programadores não teriam como consultar um…’manual do usuário‘…para prever como os programas se relacionariam entre si”…Segundo Conrad, para ‘imaginar’ o verdadeiro computador do futuro…“temos de pousar o cursor no ‘neurônio’… e clicar duplamente”.   A vida…afirma ele, não se alimenta de números, pois “computa”, tateando caminhos em busca de soluções. – Nos neurônios, o reconhecimento de padrões é um processo físico- analítico…e não lógico — como no “padrão clássico…0/1“…dos computadores atuais.

inevitavelAlém disso, neurocientistas não encontraram um “centro físico” da consciência; o que os levou à conclusão de que não existe um   “comando central“. Como afirma Kevin Kelly, quem manda é a “sabedoria da rede”…constituída por uma malha de nódulos (‘neurônios‘) ligados em “democrático paralelismo“… milhares ligados a milhares…ligados – por sua vez…a milhares de outros, com todos podendo ser usados paralelamente…para solucionar um problema. – Tal atuação em “rede de neurônios“, não se dá pela interligação de simples ‘interruptores‘…ou ‘processadores’ …pois se trata da conexão entre bilhões de sistemas complexos.

Este conexionismo e multiprocessamento realizado pelo cérebro para gerar pensamentos, sonhos ou ações, revela que…“cada neurônio da rede cerebral é um sábio por si mesmo”. Neste sentido… ficou claro, em pouco tempo…para outros cientistas… que a comunicação entre neurônios era um ‘fenômeno eletroquímico‘…espécie de dança, bem mais complexa que o simples ‘sim’ ou ‘não’ da “ativação neuronal”… – Conrad entende que… enquanto a computação tradicional é obcecada por controle… – o cérebro é imprevisível, por não ser uma estrutura programável…tal qual dispositivos digitais. Além disso, de forma orgânica, processa simultaneamente em paralelo, tateando formas de encaixes moleculares…e não,   de modo lógico…ou simbólico – como os computadores digitais de processamento linear.

“Desta forma…o cérebro consegue ligar 100 bilhões desses computadores numa intrincada rede neural…Dentro de cada neurônio, existem dezenas      de milhares de moléculas envolvidas num fantástico ‘pega-pega’ químico iniciado…toda vez que… — ‘por exemplo’… — escutamos o telefone tocar”.

Como comparou biofísico alemão Helmut Tributsch, para chegar ao resultado dos biomas atuais, a vida fez experiências como se fosse uma criança brincando. Ela se especializa em todas áreas computacionais possíveis, e aprende a resolver criativamente seus problemas, aproveitando do seu “armazém natural”…cada uma das forças físicas… – elétrica, térmica, química, fotoquímica e quântica…para aprimorar fisicamente os neurônios e suas formas de comunicação entre si. Quando pequenas mudanças são permitidas sem problema… há o acumulo gradual de efeitos benéficos – e a evolução avança para outro degrau na escala.

A comparação entre o cérebro, e os computadores digitais… demonstra que — ao pretendermos melhorar o desempenho computacional, temos  que avaliar…as reais possibilidades do cérebro…Ou seja, 1º precisamos criar processadores, por si mesmos potencialmente capazes. – E então, projetá-los à imagem e semelhança da natureza; usando materiais que sejam maleáveis à evolução… num sistema…embutidos flexivelmente.

Conrad dessa forma…reitera a facticidade da computação orgânica feita por humanos, ao afirmar que… – “Não tenho ilusões, trabalhei num laboratório de pesquisas da origem da vida, e sei quanto ela é fantástica. — Para imitar a natureza…nosso 1º desafio é conseguir descrevê-la em seus próprios termos”. Com base numa Engenharia Biofísica, o sentido da associação entre corpo orgânico e tecnologias computacionais produzidas se inverteu.  A ciência…’Biomimética‘…reconhecendo a mágica sabedoria da natureza… – criativa por necessidade…como “fonte de inspiração” para a construção de máquinas mais eficientes, busca desenvolver tecnologias inspiradas em soluções mecânicas da vida … que após 3,8 bilhões de anos de evolução, já foi capaz de resolver os problemas que tentamos resolver, aprendendo O que funciona…O que é apropriado…O que dura.Nosso desafio portanto, é aproveitar essas ideias… – “testadas pelo tempo… e reproduzi-las… em nosso cotidiano.

Os bioengenheiros copiam e usam modelos orgânicos para solucionar nossos problemas, através das “obras-primas” da natureza… – fotossíntese, automontagem, seleção natural, ecossistemas, olhos, ouvidos, peles, conchas, etc… A inovação, vinda da natureza, inspira computadores mais resistentes e adaptáveis… capazes de aprender e evoluir. (texto base)   *******************************(texto complementar)*******************************

A cibernética de Wiener (Felipe Pait/Estadão)                                                                       “Informação é informação, não matéria ou energia.”

NorbertWienerEnquanto a ciência clássica do Renascimento e Iluminismo se ocupava da matéria…e, grandes avanços a partir do século 19 se basearam no conceito de energia; em 1942, o filósofo e matemático Norbert Wiener, professor do ‘MIT’ (Massachusetts Institute of Technology) – supondo acertadamente que a ciência…a partir da segunda metade do século 20,  se desenvolveria em torno da ‘informação’…criava o termo “cibernética”.

De seus 3 aspectos (controle, comunicação e cognição), o avanço das comunicações é o mais visível no quotidiano…A operação de todo dispositivo moderno de comunicações, depende do processamento da informação/sinais…a teoria das comunicações abstrai o significado dos…sinais transmitidos…para se concentrar nos modelos matemáticos da transmissão – na versão cibernética da máxima de McLuhan“o meio é a mensagem”.      A engenharia do “controle automático”, muitas vezes é descrita como uma “tecnologia escondida”, indispensável ao funcionamento regular e eficiente de máquinas, fábricas, dispositivos eletrônicos, veículos, navios, aviões…e foguetes espaciais…mas, o usuário raramente toma conhecimento da operação de tais mecanismos — exceto ao falharem.

O aspecto da “cognição”, contudo…talvez tenha tido um desenvolvimento mais distinto    da visão integrada da cibernética. Os avanços da ‘inteligência artificial’ se beneficiaram    do enorme crescimento das capacidades dos ‘computadores eletrônicos‘…bem mais do      que de um entendimento fundamental sobre como seres vivos obtêm, compreendem, e processam as informações. E a cada novo avanço na mecanização de um procedimento      que anteriormente se entendia exigir a…’inteligência humana’…parece que o horizonte onde se enxerga o surgimento de uma…’inteligência artificial’, cada vez mais se amplia.

Teoria-dos-JogosUm ponto de vista alternativo – vem dateoria dos jogos…desenvolvida a partir dos trabalhos de von Neumanno qual, considera ruídosdistúrbios… erros de medição, e comportamentos dinâmicos não previstos nos modelos como sendo adversários que podem causar prejuízo a objetivos especificados. – A tarefa do projetista é…escolher a estratégia…que minimiza o impacto da pior ação que o adversário pode executar. Bem popular entre os estrategistas “realistas” durante a guerra fria, teve sucessos notáveis em economia, mas não é exatamente uma generalização, nem um caso particular da ‘teoria de controle ótimo’. Na verdade, são ‘visões complementares’.

Com o tempo, a palavra cibernética e o prefixo “ciber” entraram para a linguagem popular em conexão com a robótica e inteligência artificial, mas voltando a seus aspectos originais, o conceito mais frutífero para o estudo de um sistema de comunicação e controle… é a sua resposta em frequência – quantificando amplificação e defasagem, entre um sinal medido na saída do sistema e um sinal de entrada periódico. Tais experimentos podem ser usados para obter modelos matemáticos analíticos; e inversamente, ao ser conhecido o modelo, a “resposta em frequência” pode ser calculada… – sem a necessidade de mais experimentos.

A descrição frequencial caracteriza totalmente os ‘sistemas lineares’, sendo suficiente para analisar muitos… processos – quando sofrem pequenas variações…em torno do ponto de operação projetado… – A análise dos diagramas de resposta em frequência, pode prever o comportamento de um… sistema sempre que este for controlado por “realimentação” com o objetivo de assim se obter um… ‘comportamento específico’. 

A visão de mundo implícita na cibernética de Wiener, é mais humanista e afável do que a visão dura e litigiosa de von Neumann. Além disso, o estudo dos processos que permitem analisar variáveis com evolução temporal aleatória, tais como ruído branco e ‘movimento browniano’, talvez tenha sido sua maior contribuição matemática… – Estes são conceitos aplicáveis em várias áreas específicas — das ciências, engenharias e finanças. (texto base***********************************************************************************

sistemas neuronaisStafford Beer, e a ciência cibernética  

Stafford Beer, preocupado com problemas extra-ordinários (‘organizações sociais’) se decidiu a redefinir a jovem “cibernética“, como a ciência da organização efetiva. Stafford ressaltava que há leis de sistemas complexos que são “invariantes” … não só    a transformações em sua forma… — como também de conteúdo…Ampliava-se assim,  a abrangência da cibernética, incitando a expansão de seu escopo; de sistemas mecânicos    e neurofisiológicos… aos sistemas sociais e econômicos. Para Beer, contudo, essa enorme abrangência não significa que todos sistemas são iguais – ou… de certo modo “análogos”.

O que ele afirma é a existência de leis fundamentais, que desobedecidas, levariam qualquer sistema complexo à instabilidade… e ao crescimento explosivo… – incluindo aí… – a incapacidade de se adaptar… e ‘evoluir’.

Poderia, a cibernética ajudar no estudo e forma das estruturas organizacionais?… Traz ela argumentos a favor… ou contra a centralização das instituições sociais?… Traz respostas à questão da liberdade individual versus planejamento?…Receitas para curar o mal crônico da burocracia?… – A resposta de Staffod Beer é…SIM!… E o critério que ele resgata…dos ensinamentos de Wiener é o de… “viabilidade“. – Mas, em que consiste esse critério?…  Beer argumenta que, um sistema viável não oscila, a ponto de levar suas dimensões vitais, a posições extremas…sistemas complexos preferem “estados de equilíbrio“…provando uma tendência que a cibernética denominou “homeostase(propriedade de um sistema de absorver a capacidade que tem cada um de seus diferentes componentes em perturbar  o conjunto). Esse é o motivo por que organismos não toleram a temperatura do corpo, ou pressão sanguínea…acima ou abaixo de certos limites, reagindo, por exemplo, com o suor.

Nesse caso, a estabilidade que interessa ao sistema não é a da rigidez, mas a do equilíbrio dinâmico…em interação adaptativa ao meio que o circunda respondendo às mudanças ambientais. Essa tendência é denominada adaptação. Um “mecanismo homeostático”, para garantir a estabilidade, move seu ponto de equilíbrio, em resposta às perturbações do ambiente. Essa trajetória cumpre-se num certo período de tempo – dito“período de relaxamento do sistema” sendo que – nas situações em que o intervalo médio entre os “estímulos perturbadores” for menor que tal período — o sistema ingressa em “regimes oscilatórios” — que podem resultar ‘explosivos’. (Carlos Eduardo de Senna Figueiredo) 

Publicado em Cibernética | Marcado com , , , | 3 Comentários

“Teoria (global) da Comunicação Humana”

“Sem comunicação, não poderia ter evolução…pois não há jaula mais                                destrutiva, do que nossos pensamentos, construindo muros ao redor.”

comunicandoPela…”Teoria da comunicação humana”, do psicólogo austríaco Paul Watzlawick, a “comunicação” desempenha um papel fundamental em nossas vidas embora não estejamos inteiramente conscientes disso. Mesmo sem perceber… desde o início da nossa existência, participamos do processo de aquisição de suas regras, inseridas em nossos relacionamentos.

Paul Watzlawick foi um dos mais notáveis teóricos da comunicação, bem conhecido por seu livro “A arte de amargar a vida” publicado em 1983Ele fez doutorado em filosofia,    se formou em psicoterapia no “Instituto Carl Jung”, e lecionou na “Stanford University”.  Juntamente com Janet Bavelas da UVIC /Canadá, e Don Jackson, do “MRI“…Palo Alto, EUA, desenvolveu a…”teoria da comunicação humana“, pedra angular da “terapia familiar”…Nela, a comunicação não é explicada como um processo interno…individual, mas como resultado de uma troca de informaçõesoriginada em um “relacionamento”.

Por essa perspectiva, o importante na comunicação…é a forma de nos influenciarmos        uns aos outros Vejamos agora, quais os princípios fundamentais em que a teoria da comunicação humana está baseada, e quais as lições que podemos aprender com eles.

Os 5 axiomas da “teoria da comunicação humana”                                                      A comunicação é um ‘processo cíclico‘, no qual cada parte                                              contribui, de forma singular, à moderação do intercâmbio.

menina-lua1) É impossível não se comunicar

A comunicação é inerente à vida…Com este princípio, Paul Waztlawick afirma que todo comportamento é uma forma de comunicação, em si mesmo … tanto de forma implícita  –  quanto explícita. Mesmoficar em silêncio… traz uma informação ou mensagem – e por isso, “é impossível não se comunicar”.

“Todo o comportamento…é uma forma de expressão”. — Assim…não existindo uma forma contrária ao comportamento (“anti-comportamento”), também não há ‘não-comunicação’. Mesmo quando não fazemos nada… – verbalmente ou não… – transmitimos algo… Talvez não estejamos interessados ​​no que nos dizem…e simplesmente, preferimos não comentar.

2) A “metacomunicação” tem aspectos de conteúdo, e relação

Isto significa que em todas as comunicações…não só o significado da mensagem em si é importante (nível de conteúdo), mas também é importante como a pessoa que fala quer ser entendida … e como pretende agir para que os outros a entendam (nível de relação).  Portanto, toda a comunicação tem, além do significado das palavras, mais informações. Tais informações são a maneira como o comunicador dá a entender…sua relação com o receptor da informação. Assim, há mais informações na mensagem…além das palavras.

Quando nos relacionamos…obrigatoriamente transmitimos informações, mas a qualidade do nosso relacionamento pode dar um significado diferente a essa informação. – Assim, o aspecto do conteúdo corresponde ao que transmitimos verbalmente, enquanto o aspecto de relação se refere à forma como comunicamos essa mensagem (tom de voz, “expressão facial”…contexto). Conforme a isso, a mensagem será recebida, de uma forma ou de outra.

3) A pontuação dá significado…(de acordo com a pessoa)

O terceiro axioma foi explicado por Paul Watzlawick, como“A natureza de uma relação depende da intensidade das sequências comunicacionais entre as pessoas”. Com isso, ele quis dizer que cada um de nós sempre está construindo uma versão própria, daquilo que observa, e experimenta … e dessa forma, define o relacionamento com as outras pessoas.  Este princípio é fundamental quando se trata de “relacionamentos”…e, devemos manter isso em mente sempre que interagimos com alguém Toda informação que nos chega é filtrada com base em nossas experiências, características pessoais e aprendizadoo que faz com que um mesmo conceito como amor, ou amizade…tenha significados diferentes.

A natureza de uma relação é dependente da pontuação das sequências comunicacionais entre os comunicantes. Tanto o emissor, quanto o receptor da comunicação estruturam essa relação de modo diferente…interpretando o seu próprio comportamento durante a comunicação, em função da reação do outro. Dessa forma…um aspecto fundamental da comunicação, é que cada interlocutor acredita que o comportamento do outro é a causa    do seu próprio comportamento… quando, na verdade…a comunicação é um processo muito mais complexo… – que não pode ser reduzido à simples relação de causa e efeito.

cerebro4) Os seres humanos se comunicam        de duas formas: digital … e analógica

Modo digital“, se refere ao que é dito por meio das palavras (veículo da comunicação).  ‘Modo analógico‘ — A arte de “amargar a vida“…inclui a comunicação não-verbal, ou seja, a forma como nos expressamos… para além das palavras (veículo da relação), e do que é dito – (comunicação digital); a forma como é dito (‘linguagem corporal’…uso dos silêncios – e emprego das onomatopeias).

5) Comunicação simétrica e complementar                                                                    Tanto as relações simétricas quanto as complementares…precisam ser trabalhadas socialmente para evitar a “cismogênese (processo de diferenciação nas normas de comportamento individual…resultante das interações cumulativas dos indivíduos).

As permutas comunicacionais são ‘simétricas’ ou ‘complementares’. – Com este axioma, dá-se importância à maneira como nos relacionamos com os outros…algumas vezes sob condições de igualdade – enquanto outras, a partir das circunstâncias de diferenças.    “Relações simétricas” seriam aquelas nas quais os grupos, ou indivíduos, compartilham anseios, aspirações, expectativas e modelos comuns…e, por este motivo, colocam-se em posições antagônicas…buscando relação semelhantes. Já “relações complementares” se constituiriam quando as aspirações de grupos ou indivíduos fossem fundamentalmente diferentes, e portanto, a submissão de uns constituísse resposta à dominação de outros.

Quando temos um relacionamento simétrico, avançamos no mesmo plano, isto é, temos condições de igualdade…e um poder equivalente na troca, mas não nos complementamos. Se o relacionamento é complementar, como por exemplo, nas relações entre pai e filho, professor e aluno… – ou vendedor e comprador… – apesar de estarmos em…”condições desiguais“… – ao aceitarmos as “diferenças“…possibilitamos a conclusão da interação.

Considerando esses princípios chegamos à conclusão de que, em todas as situações comunicativas, precisamos prestar atenção ao relacionamento em si mesmo, isto é,        no modo de interagir entre as pessoas que se comunicam… – e não tanto…no papel individual de cada uma delas. A comunicação, portanto, é um processo muito mais complexo do que podemos imaginar… — com uma série de ‘aspectos implícitos’ que ‘cismam’ em surgir no ‘dia a dia’ de nossos relacionamentos. (texto base) (consulta) *****************************************************************************          “O ser humano é parte de um todochamado Universo, uma parte limitada no tempo,        e no espaço. – Ele experimenta a si mesmo…seus pensamentos e incertezas – como se separado do resto; uma espécie de ilusão de ótica de sua consciência. Tal ilusão é uma prisão que nos restringe aos nossos desejos pessoais…e afetos por certas pessoas mais próximas de nós. – Devemos ter por tarefa nos libertar desta prisão, ampliando nosso círculo de compaixão … para abraçar as criaturas vivas e a natureza, em sua plenitude. Todo esforço nesta direção é em si mesmo parte dessa libertação, e um alicerce para a nossa própria segurança”. (Albert Einstein, em ‘A realidade quântica’ – Nick Herbert)    ******************************************************************************

cavernmanHistória da Comunicação Humana

Os homens das cavernas, com seu ‘cérebro rudimentar’, deviam se comunicar através de gestos…posturas… gritos… e grunhidos, bem como os demais animais não dotados da capacidade de expressão mais refinada.

Com certeza, num certo momento desse passado…esse homem aprendeu a relacionar objetos e seu uso e a criar utensílios para caça e proteção, e pode ter passado isso aos demais – através de gestos e repetição do processo … criando uma forma primitiva, e simples de linguagem…Com o tempo…essa comunicação foi adquirindo formas mais    definidas e evoluídas, facilitando a comunicação…não só entre povos de uma mesma    tribo…como entre tribos diferentes….As primeiras comunicações escritas (desenhos)        que se têm notícias…são as inscrições nas cavernas 8.000 anos a.C…O povo sumério, considerado uma das mais antigas civilizações do mundo … 4 séculos antes de Cristo,        já ocupava a região da Mesopotâmia…Essa civilização foi a primeira a usar o sistema pictográfico (escrituras pintadas nas cavernas) utilizada também pelos egípcios, que        em 3100 a.C., criaram seus “hierós glyphós”. – Sendo esta escrita…além de pictórica, também ideográfica, ela empregava símbolos simples para representar tanto objetos materiais, como ideias abstratas. – Nesse estágio, utilizava o princípio do ideograma        (“sinal que exprime ideias“) no sentido em que… deixa de significar o objeto que representa…passando a indicar o – “fonograma“… referente ao nome desse objeto.

escrita-cuneiforme

Escrita cuneiforme, de origem Suméria, encontrada no Iraque. Foto: Fedor Selivanov / Shutterstock.com

Um dos maiores patrimônios dos “sumérios” está ligado à chamada…escrita cuneiforme“. Nesse sistema…observamos a impressão dos caracteres… sobre uma base de argila… Com efeito, essa civilização mesopotâmica logrou produzir uma extensa atividade literária, na qual se inclui a criação de poemas… códigos de leis…fábulas…mitos…e, outras narrativas. Sendo a língua escrita mais antiga – das que se têm testemunho gráfico … suas primeiras inscrições… possuem datação de…3000 a.C.

O estágio moderno da comunicação humana foi a descoberta da tipografia (“arte de imprimir), pelo alemão Johann Gutemberg, em 1445. Essa invenção, multiplicou e barateou os custos dos escritos da época, dando origem à era da comunicação social.

Componentes da Comunicação

São componentes do processo de comunicação — o emissor da mensagem, o receptor, a mensagem em si, o canal de propagação, o meio de comunicação, a resposta (feedback),    e o ambiente onde o “processo comunicativo” acontece. – Este processo…em relação ao ambiente, sofre interferências do ruído, e a interpretação/compreensão da mensagem fica subordinada à capacidade do receptor. – Quanto à forma, a comunicação pode ser:

Verbal – Comunicação através da fala propriamente dita…formada por palavras e frases. Não-verbal – Comunicação que não é feita por palavras faladas ou escritas; emprega-se muito os “símbolos” (sinais, logotipos, ícones) constituídos de formas, cores e tipografias, que combinados, transmitem uma ideia/mensagem. Linguagem corporal – são todos os movimentos gestuais e corporais, que fazem com que a comunicação seja mais efetiva. A “gesticulação” foi a primeira forma de comunicação, todavia com o advento da palavra falada…os gestos foram se tornando secundários…constituindo hoje…o complemento da expressão…quando coerentes ao conteúdo da mensagem…Por outro lado, a “expressão corporal” possui fortes “laços psicológicos”…com ‘traços comportamentais’ secundários; sendo geralmente usada em auxílio à comunicação verbal. Já Comunicação mediada,    é o processo onde está envolvido algum tipo de aparato técnico intermediando locutores.

Com todos esses ingredientes, a humanidade passou a viver de uma maneira totalmente nova…onde fronteiras físicas deixaram de ser obstáculos à comunicação constante entre    os povos. Formas que até alguns anos eram impensáveis…passam a fazer parte do nosso dia a dia. Um universo novo se apresenta, mas…se os horizontes se alargam…perde-se o controle da informação… próxima e genuína. Chegamos à “exacerbação” da informação através dos meios eletrônicos…dos quais a internet é campeã. Nesse mundo tecnológico predomina a sapiência humana, em todas suas qualidades…mas também, suas mazelas. Cabe aos que dispõem dos meios de comunicação … utilizar as informações disponíveis, como fonte de troca à aquisição de sabedoria pelo conhecimento adquirido. (texto base*********************************************************************************

FUNÇÕES EXECUTIVASLinguagens (“digital“…e analógica“)

Para nos comunicarmos…utilizamos dois modos  de linguagem, digital e analógica. – A linguagem digital traduz a analógica. A prática cultural, por exemplo, possui fundamentação digital, criando sentido, a partir de interações entre seus dígitos. A linguagem digital possui como características: precisão racional, o ‘contraditório‘, e o poder de abstração. Já numa linguagem analógica…seus próprios elementos são significantes, e com isso as relações e interações produzem significado (‘não contraditório’)…como “leis naturais”.

Linguagem digital. – A palavra digital vem do latim “digitum”…que significa dedo. Os dígitos são elementos da linguagem – que quando devidamente combinadosproduzem determinado sentido, criando informaçãoComo exemplo, através das letras se formam as palavras, que escritas e/ou faladas, passam então a ter ‘sentido. Outros exemplos, são    o DNA, os neurônios, computadores clássicos, etc. Essa comunicação mediante palavras, dígitos e símbolos, carecendo de ‘semântica’…é  caracterizada pela ‘sintaxe’…E, apenas a espécie humana… – até aqui…demonstrou “sinais evidentes” de sua (ampla) utilização.

Linguagem analógica. – A palavra analógica vem do latim “analogon”…que significa semelhante. É a forma cientifica da própria totalidade do objeto, tendo como exemplos, imagens, cheiros, gestos, emoções, intuições, sentimentos, e sensibilidades. Portanto, é quando a palavra…“coisa”…é a informação que você está sentindo … que está em você.  Também é a comunicação não-verbal…”semântica”, que se expressa através dos gestos, postura, expressões faciais…ritmo – sendo representada também no teatro, e na dança, pelo “gesto corporal”… – É pelo modo analógico – que se aborda o campo das ‘relações humanas’ na comunicação – e pelo mesmo método … nos é possível abrir comunicação com os animais!…suas vocalizações e repetidos movimentos característicos constituem comunicações analógicas, pelas quais definem a natureza de suas relações. (texto base*********************************************************************************

A relação das linguagem digital e analógica com a ‘evolução comportamental’  Essencial para a vida em sociedade… – assim pode ser conceituada a comunicação. Todos nós, seres humanos, sabemos que, sem ela…não podemos nos relacionar como indivíduos de um grupo social. Através dela é possível que um ser humano conheça a si próprio e aos outros, interagindo e expondo suas ideias, sentimentos, opiniões. Uma boa ‘comunicação’ é indispensável, por ser fundamental que a mensagem emitida seja entendida por quem a recebe. E, por estar vinculada à capacidade de compreensão do indivíduo, a comunicação não pode ser distorcida…o receptor deve receber a mensagem de maneira clara e objetiva. communication

Considerado referência no tema, Paul Watzkawick conceitua as 2 formas de comunicação: analógica e digital, afirmando que na ‘comunicação humana’…podemos nos referir aos objetos de 2 modos distintos. Eles podem ser representados por uma semelhança, como num desenho (“analógico“), ou referidos por um “nome” – escrito, ou falado (“digital“).

A ‘comunicação analógica‘ é toda aquela ‘não verbal’…que envolve gestos, postura, expressão facial, inflexão de voz, sequência, ritmo, cadência das palavras, ou qualquer outra manifestação sensível. A “linguagem analógica”…é responsável pelas relações, transmitindo sobretudo, emoções e afetos pelos quais os sentimentos se expressam. Estando agregada aos sentidos humanos especula-se uma relação profunda com os “períodos arcaicos” da evoluçãoe, por causa disso, possuiria relevância ainda maior.

Antes de aprender a falar – o homem compartilha seu estado psíquico…e                    emocional; e assim pode referir-se mais facilmente àquilo que representa.

Já ‘linguagem digital‘…é a comunicação mediante palavras; que podem ser escritas ou faladas… – sendo portanto…segmentar, divisível em fonemas… verbal e linguística, com uma complexa ‘sintaxe lógica’, porém carecendo da semântica própria ao campo das relações… Sua existência é obrigatória  ao ‘progresso da civilização’…pois sem ela, seria impensável a realização da maioria… senão todas atividades humanas – que, ao partilhar ‘informações’ – fazem transmitir o “conhecimento real” entre os indivíduos.

Assim como nas palavras e no DNA – as informações transmitidas por neurônios no corpo humano são digitais… – seus impulsos são responsáveis por excitar…ou inibir as respostas sinápticas, em forma de “tudo ou nada” … como transmissão de informação digital binária. Todavia, o sistema humoral é considerado analógico, pois é responsável por liberar ou não substancias (“anticorpos”) em quantidades inconstantes … em função de inúmeros fatores.

Considerando que toda comunicação tem um conteúdo (‘forma digital’)        e uma relação (‘natureza analógica’), podemos supor, para possibilitar  uma eficiente comunicação que estes 2 aspectos da linguagem – não só existam, permanentemente lado a lado…atuando de forma combinada,  como complementam-se em todas mensagens, traduzidos um no outro. 

O material da mensagem digital é de um grau muito mais elevado de complexidade, versatilidade e abstração do que o analógico. Com uma “sintaxe lógica”, complexa e poderosa, a linguagem digital portanto, é eminentemente adequada à comunicação,            a nível de conteúdo, mas carente de adequada ‘semântica’ no campo das relações. A linguagem analógica, por sua vez…possui esta semântica… – mas não…uma sintaxe adequada para uma definição não ambígua das relações. – No ‘corpo humano’…por exemplo, a informação transmitida pelos neurônios é digital… – já que os impulsos excitam ou inibem as respostas sinápticas, mas em forma de tudo ou nada. Por sua        vez, o sistema ‘humoral‘ é analógico, liberando ou não substâncias em quantidades variáveis, dependendo de fatores específicos…Mas, tanto o sistema analógico como              o sistema digital humano, coabitam e atuam de modo complementar e contingente.           

Na cerne da comunicação existe um aspecto digital e outro analógico. O aspecto digital da comunicação é o que dizemos…as palavras, os dígitos e ‘significados’. O aspecto analógico da comunicação é a qualidade, a forma com que dizemos. A “comunicação humana”, com efeito, aprimorando algo indispensável para a vida em sociedade…procura acompanhar a evolução da espécie. – Este avanço…no entanto, adquiriu proporções inimagináveis. Para então, facilitar as relações, e encurtar distâncias… novas ferramentas foram criadas. Uma das mais notáveis e de grande utilidade é a ‘internet‘, possibilitando que o mundo como um todo conectado… – interaja em curtos espaços de tempo. (texto base) (complemento***********************************************************************************

Global Communication“Comunicação global”

No “mundo globalizado” – como em toda sociedade formadora é notória a importância da comunicação, que também se vê nos “estudos linguísticos” – onde sempre teve papel essencial, mesmo que afetado no inicio do século 20…pela afirmação de Saussure, de    que a “linguagem” seria…fundamentalmente – um “instrumento de comunicação” … abrindo com isso, profundas rupturas sobre as concepções anteriores.

A ‘teoria da comunicaçãoque utiliza métodos e perspectivas diferenciadas das dos estudos linguísticos, se propõe, basicamente, a encontrar soluções para os problemas da linguagem, através de um esquema simplificado de comunicação – linear, e com caráter mecanicista. Com isso, o diálogo entre humanos na forma verbal ou escrita, passa pelas propostas simplificadorasrevendo de todos os ângulos a questão da comunicação e os aspectos que necessitam ser revistosTendo sempre um sujeito emissor e um receptor, essa teoria continua sendo empregada para analisar a transmissão de uma mensagem.

Para a mensagem ser eficaz, necessita de significados e significantes comuns, tanto ao remetente quanto para o destinatário, ou seja, para que haja comunicação é preciso que ambos compartilhem o domínio total ou parcial de códigos ou subcódigos. A falta deste domínio impede a comunicação. A linguagem deve ser entendida, em sua variedade e funções (emotiva, informativa, referencial, denotativa, cognitiva, representativa…fática, poética, expressiva, apelativa, metalinguística, etc) sendo que todas elas possuem valor simbólico; segundo conteúdo e expressão predominantes no texto. Já a comunicação  deve ser pensada como um sistema – onde não apenas os efeitos da comunicação sobre      o receptor são relevantes… como também… “a reação produzida pelo emissor”…e a reciprocidade entre eles. Lembrando que reciprocidade na comunicação é o equilíbrio entre os interlocutores…onde nesse caso a ‘linguagem verbal’ é fundamental ao diálogo.

Neste processo de comunicação – os envolvidos se constroem juntos…transformando as relações intersubjetivas ao estabelecerem aí um jogo de códigos e imagens em interação.  Todavia, evidenciam-se os afazeres persuasivos e interpretativos aos quais dependem os envolvidos, sendo necessário – nesse caso…uma comparação e entendimento de valores, crenças e sentimentos, para poder se estabelecer essa ‘interação’…No entanto, nenhuma comunicação é neutra ou ingênua…e os discursos presentes na sociedade, são definidos,  de fato, pelas…”convenções sociais” – que diante da junção de vozes, concordam ou não entre si, construindo os…”discursos” e “sujeitos“…da “comunicação social“. (texto base)

McLuhan citacaoO pajé da“aldeia global”

Criador da ideia de“aldeia global” – o pensador Marshall McLuhan foi chamado, de acordo com a simpatia despertada por suas ideias de sonhador… a louco. Em suas teorias sobre comunicação ele deu à educação um novo enfoqueao profetizar que…“Uma rede, mundialmente ordenada, tornará acessível em alguns minutos, todo tipo de informação aos estudantes do mundo inteiro”. Em tempos de internet, essa frase é óbvia. Quando foi dita – em 1964, parecia extraída de um livro de ficção. – Isso aconteceu quando McLuhan publicou um livro chamado “Understanding Media”, que em português ganhou o título de “Os meios de comunicação como extensões do homem”…Ao publicá-lo, talvez não imaginasse que estava lançando um dos clássicos da comunicação… – muito mais discutido do que lido muito mais desprezado do que estudado. A grande novidade do autor em relação à educação é o enfoque…baseado em suas teorias sobre comunicação; mais uma vez, adiantando-se à criação de um campo de estudos — que só seria explorado na década dos 90. – Em seu livro… “Revolução na Comunicação”… McLuhan explica que:

“Em nossas cidades, a maior parte da aprendizagem ocorre fora da sala de aula…A quantidade de informações transmitidas pela imprensa excede, de longe…a quantidade de informações…transmitidas pelos textos escolares”.

McLuhan propõe que até o surgimento da televisão, vivíamos na ‘galáxia de Gutemberg’, onde todo o conhecimento era visto apenas em sua dimensão visual. Sua ideia é simples: antes… – o conhecimento era transmitido oralmente – em lendas, histórias…e tradições. Quando Gutemberg inventou a imprensa, permitiu a difusão do conhecimento. Mas por outro lado, reduziu a comunicação a um único aspecto…o escrito: “Antes da imprensa, o jovem aprendia ouvindo, observando, fazendo. A aprendizagem era fora da sala de aula”.  Crítico feroz da ‘escola tradicional’…o autor canadense aponta defeitos do sistema atual, que, segundo ele, critica a mídia, em vez de utilizá-la como aliada à educação. Um outro erro apontado…é a orientação da escola…com vistas exclusivas ao mercado de trabalho:

aldeia global“A educação era, até agora, uma tarefa ‘relativamente‘ simples; bastava descobrir        necessidades da “máquina social”, e depois recrutar e formar ‘pessoal’ que a elas correspondesse…Contudo, nesse contexto são poucos      os que adquirem…o “dom”    da análise, muito menos a ‘capacidade’ – em discutir  assuntos fora de sua alçada… A educação escolar tradicional suscita em nós o desgosto    por qualquer outra atividade humana. Mas apenas onde o interesse do aluno já estiver focado é que se encontra o ponto natural de elucidação de seus problemas e interesses”. 

Um dos mais famosos conceitos de McLuhan é o de aldeia global. Em seu livro…“O meio é a mensagem” ele afirma que “a nova interdependência eletrônica cria o mundo à imagem de uma aldeia global”. — Quando disse isso, a coisa mais parecida com internet que existia, significava algumas redes privadas de computadores. ‘Computador pessoal’ era um “sonho distante”. “Evolução tecnológica” deixa aqui, de ser mera coadjuvante na vida social: o que é dito, é condicionado pela maneira como se dizO próprio ‘meio‘ passou a ser a principal atração…a informação…Por exemplo, muitas das páginas da internet poderiam ser livros ou revistas…mas, segundo McLuhan, tornam-se interessantes justamente por que estão em um novo meio de comunicação…Isso não significa, é claro, ser passivo diante da mídia:

“A tarefa educativa não é…unicamente, fornecer os instrumentos                    básicos da percepção, mas também desenvolver a capacidade de                      discernimento crítico … por meio da experiência social corrente”.

Uma das mais curiosas ideias de McLuhan é a de que, assim como se usa uma pinça para aumentar a precisão das mãos…e, a chave de fenda para girar um parafuso – os meios de comunicação seriam, na verdade, extensões dos sentidos humanos… Com a internet, não deixa de ser curioso se falar em “relações virtuais“, como se máquinas fossem realmente capazes de sentir e pensar…pelos seus operadores…Além do que, muito antes de alguém falar em “aspectos lúdicos da educação”, McLuhan já dizia que o estudo deveria ser uma atividade divertida…A escola para ele, ainda não tinha percebido essa realidade óbvia. E, dizia… – “É ilusório supor…que exista qualquer diferença básica entre entretenimento e educação. Sempre foi verdade… que tudo o que agrada, faz ensinar melhor”. (texto base**********************************************************************************

A teoria da comunicação autopoiética de Niklas Luhmann                                      Para Luhmann… a “comunicação”… é uma síntese resultante de 3 seleções: a seleção da “informação”…a seleção do…”ato de se comunicar”…e a seleção realizada no…”ato de se entender”. – Estas 3 componentes estão ‘entrelaçados‘ de maneira circular – porém… a comunicação só se dá ao se entender a diferença entre informação e o ato de comunicar.

A sociedade não pode ser pensada sem comunicação, e esta não pode ser pensada – sem a necessidade evolutiva dessa própria sociedade.

Este tipo de ‘constatação’ – a principio      óbvio e tautológico— na verdade é oponto de partida a partir do qual se torna possível assimilar a sociologia    de…Niklas Luhmann estruturada na teoria de “sistemas autopoiéticos”.

Sistemas autopoiéticos são sistemas operativamente fechados, que se auto-reproduzem, e  onde a comunicação tem um papel central; gerando a autopoiesis do sistema social…pois, como defende Luhmannsendo fielmente constituída por grande número de sistemas de consciência, não pode ser imputada a uma consciência isolada. Na teoria luhmanniana o sistema sociedade não se caracteriza por uma determinada “essência” – muito menos por uma certa moral, mas somente pela operação que o produz e reproduz…a “comunicação”.  Nesta operação não há transferência de sentido, nem transmissão de informação. Não há propriamente transmissão de alguma coisa, mas sim uma ‘redundância’…criada de modo que a comunicação invente sua própria…memória…que pode ser evocada por diferentes pessoas, de diferentes maneiras…No lugar da metáfora da transferência (transmissão) de informação…do modelo cibernético de 1950 – a partir de uma…’cibernética de 2ª ordem’, Luhmann propõe a “comunicação” como… – um pulsar constante…a cada ‘redundância’, e a cada…’seleção’… de onde o sistema…se expande e se contrai…permanentemente”.

Na ‘Comunicação’ deve-se falar sobre algo; um tema deve ser abordado. Porém, aquele que fala pode se converter, ele mesmo, em tema…ao dizer que na realidade queria dizer outra coisa…quando disse aquilo, ou ao exteriorizar um estado de ânimo…por exemplo.    Assim, a comunicação…tem a especificidade de poder articular-se, indistintamente…ao    ato de comunicar ou à informação. Daí que na própria operação da comunicação esteja  incorporada a ‘autorreferência’ (referência à informação), bem como a “exorreferência”  (ao ato de comunicar)… – Enquanto essas distinções … (entre a informação…e o ato de comunicar) não se realizam… “não haverá comunicação…mas uma simples percepção”.      É através do ato de entender que a comunicação gera uma nova comunicação – em um pulsar constante e autopoiético. Quando é feita tal distinção, o ato de entender pode se ocupar da informação, ou do comportamento do outro, realizando a autopoiese, e uma nova comunicação…“A síntese onde a comunicação se faz é obtida no ato de entender”.

Sem que importe o que cada um entende em sua consciência (que                                        é autopoieticamente fechada), o sistema de comunicação elabora                                        seu próprio entendimento e sua incompreensão…e, para tanto, o                                          sistema cria seu próprio processo de observação e ‘autocontrole’.

Diferença que faz a diferença… — Distinção sistema/entorno                                 A informação, para Luhmann, não é a exteriorização de uma unidade,                              mas sim, a seleção de uma diferença que faça com que o sistema mude                                  de estado… – e… consequentemente… – nele se opere outra diferença”.

comunicaçãoA informação é uma seleção surpresa entre várias possibilidades…que deve ser produzida dentro do sistema… – por uma comparação de expectativas. Sistemas autopoiéticos produzem, por si mesmos não somente estruturas…mas também elementos que os constituem. Do conceito de informação de Gregory Bateson: “diferença que faz a diferença”,  Luhmann explica… “Elementos são informações; são variações, que no sistema, fazem a diferença; ‘unidades de uso’ produzindo novas unidades de uso, ondenão há correspondência no entorno”.

Para que a comunicação se efetue é fundamental que todos os participantes intervenham com um saber e um não-saber…“A comunicação bifurca a realidade: cria duas versões do mundo, a do sim e a do não…obrigando assim…à tomada de uma decisão”. Graças a essa bifurcação da alternativa entre aceitar ou recusar – característica da ‘autopoiesis‘…que a comunicação pode garantir sua continuidade…A alternativa define a posição da conexão    à comunicação posteriorque pode ser construída na busca do dissenso ou do consenso.  Na autopoeisis o sistema é autônomo, não unicamente no plano estrutural, mas também no plano operativo. Somente sistemas operacionalmente fechados podem construir uma alta complexidade própria que pode servir para especificar sob que aspectos o sistema reage a condições do entorno – enquanto que em todos os demais aspectos, graças a sua autopoiesis, pode permitir-se ‘indiferença. Luhmann entende teoria dos sistemas como teoria da distinção sistema/entorno. O próprio sistema (‘operacionalmente’) distingue a autorreferência de uma ‘exorreferência‘, isto porque…a diferença sistema/entorno se dá    2 vezes: como distinção produzida pelo sistema, e como distinção observada no sistema.

O limite do sistema é a diferença (autopoética) entre ‘autorreferência’            e…”exorreferência” – que se faz presenteem todas as comunicações.

O termo “diferenciação” tem significado central na teoria de Luhmann. Para ele quer dizer que os sistemas, quando se diferenciam, criando uma fronteira com o…’meio circundante’, essa diferenciação ocorre de uma maneira especial… é um diferenciar-se autofortificando-se…autoconfinando-se. – O sistema não é uma unidade, mas uma diferença…“A diferença entre sistema e o meio…que possibilita sua emergência, é também a diferença pela qual o sistema já se encontra constituído”… — Segundo Luhmann…a função da comunicação é…  “tornar provável o bastante improvável…a autopoiesis do sistema de comunicação social”.

Encerramento operativo & acoplamento estrutural                                                      Isso não exclui que um observador externo, situado no meio, possa observar o sistema. Porém o ponto cardinal desse preceito teórico reside em que o sistema estabelece seus próprios limites…em operações exclusivas – e unicamente assim…pode ser observado.

Crucial para compreender a distinção ‘sistema/meio’ é a teoria do…encerramento operativo, que, bem como o conceito de autopoiesis, vem da “biologia cognitiva” de Maturana…Nesta teoria, uma variação com o meio, se daria no mesmo sistema.

O “encerramento operativo” traz como consequência – que o sistema dependa de sua própria organização. Contudo, auto-organização e autopoiesis são conceitos distintos. “Auto-organização”…significa – construção de estruturas próprias dentro do sistema; enquanto “autopoiesis”, ao contrário…é a demarcação do estado posterior do sistema,        a partir da limitação anterior à qual a operação se deu. O acoplamento estrutural, outro conceito fundamental na “teoria dos sistemas autopoiéticos”…também oriundo        da “biologia cognitiva” de Maturana, especifica uma impossibilidade de contribuição        do meio … capaz de preservar intacto o patrimônio da “autopoiesis” de um sistema.

“O meio só pode influir causalmente em um sistema no plano da destruição, e não no sentido da determinação de seus estados internos”…A seleção de acontecimentos que        se dão no meio, capazes de produzir efeitos no sistema, é condição para este, com um espectro assim tão seletivamente depurado, possa empreender algo…É somente para sistemas autopoiéticos que a influência externa se mostra como uma determinação à autodeterminação, e portanto, como informação; a qual modifica o ‘contexto interno’        da ‘autodeterminação’, sem todavia renegar a “estrutura legal” necessária ao sistema.        As informações são, por conseguinte, acontecimentos que delimitam a entropia, sem necessariamente definir o sistema. A informação reduz complexidade, na medida em      que permite conhecer a seleção, excluindo assim, possibilidades…mas, também pode aumentar a complexidade…“A redução da complexidade é condição do seu aumento”.

meios-de-comunicaçãoLinguagem meios de comunicação

Na teoria luhmanniana, a função da linguagem é a de…“servir de acoplamento estrutural entre (sistemas de) consciência e comunicação”, sem constituir um sistema próprio. – O fato de que, consciência e comunicação estejam permeadas pelo sentido…deve sua ‘estabilidade de reprodução’…a estarem estruturalmente acopladas  pela linguagem, sem que por isso se conclua, que ambas devem ser reduzidas à linguagem.

O meio fundamental de comunicação, o que garante a regular e continua autopoisesis da sociedade é a linguagem. Mas, é no ato de entender a comunicação que ocorre a conexão entre informação e o ato de comunicar…sobretudo ao se utilizar a linguagem…Luhmann também observa que: “a escrita transformou radicalmente a situação crítica da forma de  se comunicar, e culturalmente assim forçou a invenção de meios a se sobrepor à recusa”.  Segundo Luhmann, não há apenas uma teoria da comunicação, mas também uma teoria dos meios de comunicação, um dos sistemas de funcionamento da sociedade. Somente a fabricação industrial de um produto portador da comunicação, conduziu à diferenciação de um sistema específico, dos meios de comunicação; a tecnologia de difusão representa aqui, por assim dizer…o mesmo que é realizado pelo dinheiro na economia – apenas um modo de permitir a formação de…”mecanismos” – diversos do próprio meio – operando transações que permitem a diferenciação, e o fechamento do sistema. Em todos os casos,    é decisivo o fato de não poder ocorrer – nas pessoas que participam, nenhuma interação entre emissor e receptor. – Com efeito, os meios de comunicação constroem a realidade.    Em termos kantianos: “os meios de comunicação produzem uma ilusão transcendental”.   

A atividade dos meios de comunicação é vista não apenas como uma sequência de operações, mas também como sequência de observações, que Luhmann chama de ‘operações observadoras’. O que ocorre é uma duplicação da realidade no sistema observado dos meios de comunicação – que, de fato, comunica algo distinto de si            mesmo. É portanto um sistema que distingue autorreferência, de ‘exorreferência’.

Os meios de comunicação necessitam, como sistemas observadores, desta diferenciação. Eles não podem atuar de outra forma…Não podem tomar a si mesmos como ‘a verdade‘. Eles precisam construir a realidade…mas uma outra realidade…diferente deles mesmos.    Nem toda a realidade é construção, pois a distinção entre autorreferência e exorrefência ocorre dentro do sistema… de acordo com o “construtivismo operacional” de Luhmann.

dissonância cognitiva“Realidade cognitiva”                                                  “A codificação cognitiva identifica numa                           comunicação…a informação…do ruído”.

A cognição pode refletir sobre si mesma; contudo, a realidade não repousa no mundolá fora’mas, nas próprias operações cognitivas, pois estas só existem, sob 2 condições… – formar um sistema que se auto-reproduz…e que esse sistema só funcione … quando puder diferenciar autorreferência de exorreferência.  

Para Luhmann, no sistema funcional dos meios de comunicação há uma diferenciação interior estabelecida entre as distintas áreas da programação…”Programas”…na teoria luhmanniana, complementam a distinção informação/ruído, classificando tudo o que pode ser esperado… como “informação”. – A diferença entre sistema e ambiente se dá      no sistema funcional dos meios de comunicação – por um código binário, que fixa um valor positivo e uma valor negativo, excluindo a terceira possibilidade. Este código é a distinção entre informação e ruído. – No jornalismo é o equivalente ao “valor notícia”.

Para essa (como para qualquer) autopoiese não há nem uma meta nem      um fim natural…Ou melhor, comunicações informativas são elementos autopoiéticos … que servem à reprodução … desses próprios elementos.

Quando se chega ao fechamento operacional de sistemas – chega-se igualmente a um fechamento do processamento das informações (sem que o sistema entre num estado      de liberdade causal…flutuando livremente)… – Nos meios de comunicação não existe transporte de informação. Eles são meios à medida que disponibilizam…e continuam          a desenvolver um ‘saber de fundo’…que se pode tomar como base na comunicação. O    traço básico talvez mais importante…é que ‘meios de comunicação’ ao mesmo tempo      que elaboram informações, abrem um “horizonte de incertezas”, produzidas por eles mesmos, que precisa ser servido com outras sempre novas informações. – O sucesso desses ‘aparelhos’ em toda sociedade deve-se à imposição de temas, dos quais não se      pode desviar… Eles representam a “exorreferência” da comunicação… – servindo ao “acoplamento estrutural” dos meios de comunicação, com outras áreas da sociedade. 

Ao contrário do que ocorre na ciênciapara Luhmann, o problema das informações        nos meios de comunicação – não está na verdade ou inverdade, mas na seleção feita.      Isto porque, na base de todas seleções, há um agir integrado que não se encontra no mundo externo onde se comunicam coisas. É isso que sustenta a tese de que apenas            a comunicação (ou sistema dos meios de comunicação) atribui significado aos fatos.          O sistema precisa viver…ressalta Luhmann – com a suspeita de manipulação…para desenvolver e remeter outra vez para dentro de si…seu próprio paradoxo, a unidade          da diferença entre “informação”…e “manipulação”… – A função social dos meios de comunicação é…para ele, criar uma memória sistêmica…uma realidade de fundo da          qual se pode partir…é orquestrar uma auto-crítica do sistema social. (texto base****************************(texto complementar)****************************

O Perigo dos subentendidos e acordos implícitos na comunicação (set/2017)      “O silêncio é o ruído mais forte talvez o mais forte…de todos os sons.” (Miles Davis)figuras-representando-comunicacao

Infelizmente… existe um conjunto de mecanismos sociais e culturais – que nos incitam a deixar mensagens no ar. Contudo é preciso compreender os perigos dos subentendidos e dos acordos implícitos na comunicação. Nesse sentido, a palavra e a forma como é usada são objeto de controle por parte da sociedade… — Por vezes – invocando os bons modos, outras vezes… — simplesmente refletindo uma… adaptação prática – ao uso cotidiano.

Também acontece que as próprias pessoas às vezes não sabem o que … ou como comunicar, simplesmente porque não têm clareza no seu pensamento. São caos,                    onde também está falhando uma… “comunicação interior” – e isso se traduz em dificuldades para dialogar com os outros. Como explica Oliver Wendell Holmes:

“Ao tentarmos falar claramente… esculpimos cada palavra – antes de lançá-la”.

Da mesma forma… “relacionamentos de poder” influenciam essas equações infelizes.  Supõe-se que existam pessoas às quais podemos falar … e outras às quais não. Quase            todos poderes do mundo reclamam como seu o direito de exigir silêncio. E silenciam.        Mas quando, às vezes, tudo parte da comunicação…só dá lugar a enganos e confusão.

os-problemas-da-comunicacaoSão chamados…”subentendidos”…os atos de comunicação que não são diretos, mas nos quais uma ou ambas partes assumem  que há suficiente clareza…e não precisam de mais explicações, como quando dizem: “Estão batendo na porta”…Óbvio, você já ouviu, e sabe disso. – A mensagem então subentendida é…Vá abrir a porta”!

Porém, em situações cotidianas os subentendidos têm a possibilidade de se transformar em mal-entendidos. – Continuando com o exemplo anterior…estão batendo à portatambém pode ser entendido de outras formas … dependendo do contexto, e da situação. Talvez possa significar… “É hora de cortar o assunto, porque alguém chegou”…Ou pode significar… “Chegou quem estávamos esperando”…  É possível inclusive, que também signifique…“Alerta, ninguém teria por que bater à porta…Mas estão…Há algum perigo”.

Os participantes da conversa precisam estar em sintonia, para interpretar exatamente o que o outro quer dizer, quando lança essas frases imprecisas…que do seu ponto de vista, são subentendidas. Isso poderia ser considerado bizarro…não fosse pelo fato de que em situações mais complexas também se recorre a tal fórmula de comunicaçãoque quase nunca é uma boa ideia. De fato…é uma ideia terrível quando entramos no mundo das demandas e desejos…Sempre acontece ao querermos que o outro faça alguma coisa por nós, ou para nós, sem pedirmos Assumimos que o outro deveria saber E pensamos: ‘Como não percebe que preciso ou quero aquilo?’O ruim é que as outras pessoas nem sempre são capazes de entender e conhecer suas…circunstâncias– É nesse momento, que o conflito aparece – e os perigos dos subentendidos…se transformam em realidade.

Um acordo é basicamente um pacto que se realiza entre 2 ou mais partes…Lógico que também existem pactos realizados consigo mesmo…mas enfatizaremos aqui “acordos sociais”. Num acordo, cada parte se compromete a agir de acordo com certa forma de conduta desejável para poder alcançar um objetivo comum. Entretanto, há quem cometa o erro de dar por certo a existência de um acordo…sem diretamente consultar      a(s) outra(s) partes…e portanto, sem que estas o tenham confirmado. — Por exemplo, supondo quepor fazerem alguma coisa – os outros deveriam agir do mesmo jeito.

Duas ou mais pessoas podem criar qualquer tipo de acordo…O ruim é quando um dos envolvidos dá como certo um pacto jamais expressamente acordado. Criam-se muitas correspondênciasmas também surgem outras dimensões mais complexas. Nenhum desses pactos é uma boa ideia. – A boa ideia é promover a comunicação direta e clara.      De um jeito ou outro, essa comunicação sempre é falha em alguma medida – e o risco desse erro se multiplica ao predominarem mensagens implícitas… Por isso, promover        um diálogo explicito – sem todavia abdicar de uma certa “dose de humor”  é uma ótima ideia para evitar conflitos, e afastar os perigos dos ‘subentendidos’. (texto base) ********************************************************************************

telepatia-rede-cerebral-1Telepatia… “Papo cabeça”

A ciência não está convencida de que pessoas sejam capazes de transmitir seus ‘pensamentos’, ou de…”extra-sensorialmente”…se comunicar a distância. – Mas histórias intrigantes é que não faltam, mesmo que…de fato…não provem nada.

Não há como descartar a possibilidade de que tudo não passe de coincidência. Afinal, para cada história arrepiante… quantas não devem haver… de pessoas com um pressentimento, que não deu em nada?… – O único jeito de comprovar a existência da “telepatia“, seria ter resultados estatísticos de que esses fenômenos acontecem…com mais frequência do que o normal. E ainda assim não teríamos a certeza suficiente para afastar todas as dúvidas.

‘Telepatia‘ é o termo usado para se referir à aquisição de informações por outros meios, que não os sentidos físicos conhecidos. A resistência em tentar entender tais eventos, ou acreditar neles é grande… mas fácil de ser compreendida – como diz Wellington Zangari, coordenador do Grupo de Estudos de Semiótica, Interconectividade e Consciência (Inter Psi), da PUC/São Paulo…“Entrar em contato com pensamentos, sentimentos e ideias de outras pessoas, de uma forma aparentemente direta (mente/mente)… sem necessidade que tais informações passem pelos sentidos … é considerado algo fora do normal – por  se tratar de um tipo de interação bastante diferente da maneira prevista pela ciência”.

E como tudo o que é fora do normal caminha lado a lado com o ceticismo, como diz Jean Claude Obry, pesquisador e filósofo francês, morando no Brasil há cerca de 20 anos…“Se você acredita… poderá ser associado ao charlatanismo, misticismo… ou ser visto como alguém facilmente influenciável… – Se não, será suspeito de cientificismo ateu…de não possuir uma ‘mente aberta’; de não ter qualquer curiosidade científica”. Se os assuntos considerados ‘fora da normalidade’ pudessem se encaixar no cotidiano…não pareceriam tão assustadores. E, para permitir que eles se transfiram para dentro dessa realidade… é preciso aceitar e mudar conceitos, regras e crenças, que gerenciam o dia-a-dia. – Se não fizermos essa mudança – nada será feito – além de um “agradável debate” … mas estéril.

Em suas primeiras décadas de estudo… tentou-se compreender a ‘telepatia‘ como um fenômeno eletromagnético que funcionaria da mesma forma que os aparelhos de rádio e televisão. Era suposto que, entre receptor e emissor, informações do conteúdo cerebral fossem transportadas por “ondas mentais“… Contudo, as teorias baseadas nesse modelo caíram por terra, porque aparentemente, a telepatia não é limitada pela distância, ou barreiras físicas – como o são as conhecidas… “ondas eletromagnéticas”.      Mais tarde, outras teorias surgiram, visando saber mais do “porquê” – do que “como” ocorre o fenômeno E assim, mesmo precisando de mais pesquisas para por fim à polêmica em torno do assunto, a soma dos testes experimentais indica a existência de        um processo anômalo de interação entre seres humanos, o que faz da parapsicologia          a teoria apta a interpretações mais interessantes para explicar a telepatia. (texto base)  ******************************************************************************

Ainda não é telepatia, mas estamos chegando lá                                                              A “interface” permitiu compartilhar a carga de trabalho, entre                                              todos participantes, dependendo do desempenho cognitivo de                                              cada um…estimado a partir de sua ‘atividade cerebral elétrica’.

A criação de ‘interfaces neurais’ ‘cérebro/computador’, permite controlar dispositivos externos pelo pensamento, empregando “intenções de movimento“; e não ideias abstratas… do tipo “Eu quero isto”, ou…”Eu quero aquilo”. É portanto…natural, pensar – num próximo estágio dessas ‘neuro-interfaces’que permita … um dia … transferir diretamente – informações do cérebro d’uma pessoa, a outra.

Mas agora um grupo de pesquisadores acaba de publicar um artigo, alegando terem dado um passo importante nesse rumo…Eles desenvolveram uma interface neural que permite distribuir uma tarefa cognitiva entre diversas pessoas. – Em seus testes…a equipe usou a interface cérebro-cérebro para estimar ‘estados cerebrais‘ de cada uma…e distribuir uma “carga cognitiva” entre os membros do grupo…que realizavam juntos uma tarefa comum.   
Vladimir Maksimenko, e colegas – colocaram 2 voluntários – para juntos – resolver uma tarefa de classificação de imagens ambíguas apresentadas em uma tela. – Cada um deles, tinha sua atividade cerebralmonitorada em tempo real, por eletroencefalogramas.

A classificação de imagens bastante ambíguas exige grande esforço                cognitivo — em oposto com a identificação de imagens mais claras.

A equipe forçou uma sobrecarga cognitiva aumentando a duração do experimento (40 minutos) e fazendo pausas curtas…entre a apresentação das imagens (5 a 7 segundos). Assim, os voluntários foram obrigados a manter alto nível de concentração, durante o experimento. No primeiro estágio, cada voluntário fez a tarefa separadamente…o que permitiu detetar – nos “sinais cerebrais” … a carga cognitiva… e os períodos de fadiga, mostrando momentos de ‘perda de atenção’ com momentos de recuperação…durante        os quais a concentração voltava a aumentar. – No segundo estágio, a interface neural avaliava continuamente a “carga cognitiva no cérebro de cada um dos participantes;          e…conforme o resultado – distribuía a tarefa para cada um deles … mostrando assim, imagens menos ambíguas, ou elevando o tempo entre as imagens…para aqueles mais cansados, e por outro lado aumentando a carga para quem se mostrasse concentrado.

Tudo foi feito de modo a manter o mesmo ‘tempo total’                                        para a tarefa, e mostrar o mesmo número de imagens.

Ficou então demonstrado, que a eficiência da equipe pode ser aumentada devido à redistribuição do trabalho entre os participantes, de modo que a carga de trabalho          mais difícil recaia sobre o operador de desempenho máximo. Ficou assim provado,          que a interação…”humano-humano” é mais eficiente na presença de certo retardo, determinado pelos ritmos cerebrais. Os resultados obtidos são promissores para o desenvolvimento de uma nova geração de sistemas de comunicação, baseados na atividade cerebral neurofisiológica de pessoas interagentes. Os resultados obtidos      podem ser um ponto de partida ao desenvolvimento de ‘sistemas de comunicação      neural’ entre pessoas sensitivas, resultando numa interação mais eficiente. (texto)  

Publicado em comunicação | Marcado com , , | 2 Comentários

“Primeiro Contato”…Murray Leinster (livre adaptação)

“E…semelhante espaço o chamamos infinito, porque não há razão, possibilidade, sentido ou natureza que deva limitá-lo. Nele…existem infinitos mundos semelhantes a este…pois não há razão nem defeito da capacidade natural, pela qual, assim como nesse espaço que nos rodeia existem – não existam igualmente em todo outro espaço que por sua natureza não é diferente deste – inumeráveis sóis, com infinitas terras… que giram igualmente em torno deles, assim como vemos estes 7 planetas girar em torno desse sol que nos ilumina”  **********Giordano Bruno********** “De l’infinito, universo e mondi” **********(1584)
holografiaTommy Dort entrou na cabine de comando com suas últimas ‘estereofotos’…“Pronto”, disse ele ao Comandante…“acabei de tirar as fotos que precisava”…Inseriu no projetor holográfico o chip, olhando com interesse profissional para o espaço panorâmico (3D)   que circundava externamente a espaçonave, “hiper-projetado” na cabine de comando.

A Llanvabon estava a considerável distância da Terra… Os hologramas onde desfilavam, conforme a magnitude desejada, virtualmente todas as estrelas da Via-Láctea, com suas constelações…respeitando distâncias, localização e brilho…com surpreendente precisão, pareciam ligeiramente fora de lugar – devido ao deslocamento do ‘referencial terrestre’.  Uma luz violeta indicava os painéis de controle…incluindo os instrumentos necessários      à viagem da “Llanvabon”…A cabine tinha ainda 3 poltronas “aerodinâmicas”, com telas projetadas para permitir uma estereoscópica visão tridimensional do “espaço exterior”.  Eles tinham pela frente um vasto nevoeiro luminoso que há algum tempo já se tornara indistinguível. O nevoeiro era a “Nebulosa do Caranguejo”…remanescente da explosão    de uma supernova na Constelação do Touro, com 11 anos-luz de extensão. Uma nuvem      bem tênue de gás, com uma ‘estrela central de neutrons’…Tommy exclamou pensativo:

“Estamos penetrando no abismo…senhor”.

O comandante aprovou as últimas “estereofotos” tiradas por Tommy … para logo voltar-se inquieto à observação dos visoramas dianteiros. A Llanvabon estava desacelerando ‘a todo vapor’ … achava-se agora, apenas a meio ano-luz da nebulosa. – O trabalho de Tommy era planejar o curso da ‘espaçonave’ – a qual… enquanto permanecesse estacionada dentro da nebulosa, o deixaria ocioso; mas ele já havia pago um bom preço por essa ociosidade, pois  acabara de realizar um feito sem precedentes: o completo registro fotográfico da nebulosa remanescente da explosão de uma ‘supernova‘ com 6,5 mil anos de história…concentrada agora numa estrela de neutrons com cerca de 25 kms de diâmetro – girando 30 vezes/seg.

O caso é que a “Nebulosa do Caranguejo” está a 6,5 mil anos-luz de distância da Terra – e…as ‘estereofotos’ haviam sido tiradas de uma luz – que chegaria à Terra… (respeitando o limite da velocidade da luz), no 9º milênio da Era Cristã.  E enquanto a Llanvabon penetrava lentamente na nebulosa, uma forte luminosidade começou  a tomar conta dos “visoramas“. — À frente… uma cerração brilhante… – e atrás… um vácuo salpicado de estrelas… das quais…percebia- se apenas o ‘brilho esmaecido’… – daquelas mais luminosas. — Como se perfurasse um túnel de escuridão…por entre paredes de gás luminoso,  a Llanvabon, devagar…penetrava na nebulosa.

As fotografias tomadas de maior distância tinham revelado características estruturais na nebulosa, e quando a nave chegou mais perto, indicações de estrutura se tornaram ainda mais nítidas…A Llanvabon, ao aproximar-se da nebulosa em curva logarítmica, permitiu que Tommy tirasse sucessivas fotos… de ângulos ligeiramente diferentes… e conseguisse ‘estereopares’, mostrando a nebulosa em 3 dimensões, em todo seu complicado formato, que mais parecia uma rede de filamentos de neurônio… em um imenso cérebro humano.

A distância entre a extremidade da nebulosa e a estrela de neutrons – repousando em sua parte central, era de 5,5 anos-luz – com taxa de expansão aproximada de 1,5 mil km/s…O problema era que… apesar da nebulosa ser composta por um gás muito tênue, um veículo deslocando-se em “overdrive” … precisa de um “vácuo puro“… como o que existe entre as estrelas…e não de um vácuo parcial. Nesse caso…com a nave penetrando num gigantesco nevoeiro, deveria limitar sua velocidade àquela permitida por tal vácuo…e assim foi feito.

O comandante então, pôs-se à vontade. Uma de suas funções era pensar coisas que pudessem causar preocupação, e depois preocupar-se com elas… O comandante da Llanvabon era atento às suas obrigações, e apenas quando um instrumento parava definitivamente de registrar informações — é que se dava ao direito de descontrair.

Um Objeto não Identificado

O overdrive cessou, todavia, quase instantaneamente, campainhas estridentes ressoaram em todos os cantos da nave. Tommy então, olhava fixamente para o já tenso comandante. Um aparelho entrava em histeria… – enquanto outros logo registravam suas descobertas.

Crab Nebula,UFOUm ponto no difuso e brilhante nevoeiro estampado no ‘visorama’ tornou-se mais destacado enquanto o laser de varredura se fixava nele. — Foi a deteção do objeto, que fez soar o alarme de colisão – com o indicador virtual, conforme leitura ótica, mostrando um pequeno corpo sólido…a cerca de 80 mil kms de distância – além de outro objeto — cuja distância variava de zero a 80 mil, avançando e recuando.

“Aumente a definição do aparelho”…disse o comandante… – O ponto luminoso veio logo à tona. Ampliação pronta, mas nada aparecia… – Absolutamente nada… Entretanto, o radar insistia em que algo invisível e misterioso fazia loucos arremessos em direção à Llanvabon, a velocidades que implicavam alta colisão, se distanciando, a seguir, na mesma velocidade.

A graduação do visorama foi aumentada ao máximo, e nada ainda. Quando Tommy disse ao comandante… – “Senhor, eu vi algo parecido com isto…certa vez numa viagem entre a Terra e Marte, enquanto estávamos sendo localizados por outra espaçonave. – Como sua transmissão era feita com a mesma frequência que a nossa… – sempre que a captávamos, parecia estarmos diante de um estranho “corpo sólido”… – indo e voltando rapidamente”.

Isso mesmo!” – reagiu o comandante excitado”é exatamente o que está acontecendo conosco. Temos sobre nós alguma coisa; assim como um ‘localizador de rádio‘. Estamos sendo atingidos por essa transmissão, e além disso, por nosso próprio eco!… Mas a outra nave é invisível. Quem estaria aqui numa nave invisível com instrumento de localização? ”Não seriam humanos, certamente!”. Apertou um botão e transmitiu a ordem: ”Atenção! preparem todas as armas disponíveis para combate… Alerta máximo em todos setores!”.

Seus nervos se contraíram. – Fixou de novo o…’visorama’, que nada mostrava, além de uma luminosidade bem disforme…“Não seriam humanos?”…pensou Tommy perplexo, ainda querendo entender o que estava se passando…”O senhor quer dizer então que…”

crab-nebula“Quantos sistemas solares há em nossa galáxia?”perguntou energicamente o comandante. – “Quantos planetas com condições de vida? E, quantas espécies de vida pode haver?…Se essa nave não vem da Terra (e não vinha) … toda sua tripulação não é humana” (e seres que, apesar de não serem humanos, podem empreender ‘viagens‘ pela vastidão do espaço, devem possuir uma civilização nada desprezível)… — Nessas ocasiões, até mesmo…um veterano comandante, que tem por tarefa dever se preocupar, por vezes, deve desabafar com alguém:

“Algo semelhante tem sido objeto de discussões e especulações…há anos… Pelos cálculos probabilísticos é quase certo que em alguma parte de nossa galáxia haja outra civilização igual – ou superior à nossa… – Ninguém poderia jamais suspeitar… onde, ou… quando a encontraríamos… – No entanto…parece que coube a nós realizar essa proeza… – Agora.”

Os olhos de Tommy adquiriram um brilho incomum… ”O senhor acha que eles podem ser cordiais?”, perguntou ao comandante, que olhava fixamente para o indicador de distância, onde o falso ‘objeto fantasma’ ainda fazia seus loucos arremessos em direção à Llanvabon, recuando à mesma incrível velocidade… – “Está se movendo” … disse num tom alterado… ”vindo em nossa direção…É possível que sejam amigos, mas temos que nos manter alerta. A única arma de defesa a longa distância que temos à disposição, são os desintegradores”.

overdriveVindo em nossa direção

Os desintegradores são correntes de laser, com altíssimo poder de destruição, que servem para limpar a rota da ‘nave espacial’ – da indesejada presença de ‘matéria interestelar’. Embora não tenham sido concebidos como armas … podem ser utilizados como tal. – Com um alcance de 5 mil kms…são capazes de abrir um buraco num asteroide de porte médio, no caminho da nave.

Tommy aproximou-se da janela traseira…e, voltando a cabeça para trás, questionou: “Desintegradores, senhor?…Para quê?”… O comandante, com uma expressão grave, respondeu…“Porque não sabemos as intenções deles, e não podemos nos arriscar!…           Tentaremos fazer amigos, mas não temos muita chance… – Não podemos depositar           neles a mínima confiança…Não ousaremos… Eles têm rastreadores, talvez melhores           que os nossos. Quem sabe, sem sabermos, não acompanharam nosso trajeto…desde             a Terra?… Não podemos nos arriscar que uma raça alienígena saiba onde fica nosso planeta, a menos que estejamos totalmente seguros a respeito de suas intenções…E,           como adquirir essa segurança?…Eles poderiam vir negociar…ou quem sabe, invadir         nosso planeta em overdrive sem que fôssemos capazes de esboçar qualquer reação”.

Tommy argumentou, com certo ar de espanto… “Isso tudo, teoricamente, foi inúmeras vezes discutido. Porém, até hoje ninguém encontrou uma resposta satisfatória, mesmo porque jamais se pensou desse encontro ser ao acaso… – no espaço…sem que nenhum    dos lados soubesse a procedência do outro…Para isso, ainda não temos uma resposta”.

O comandante então, expôs a Tommy suas dúvidas… ”Talvez essas criaturas sejam belas, distintas e amáveis, possuindo entretanto, a ferocidade de um canibal… Ou, talvez sejam rudes como um camponês sueco, mas com o espírito de justiça e decência, que é a marca do seu caráter. Talvez uma mistura dos 2, mas não arriscaria o futuro da humanidade na presunção de que seja possível confiar neles. Claro que valeria a pena conhecermos uma nova civilização – isso estimularia a nossa, e talvez lucrássemos enormemente; mas não posso correr o risco de mostrar onde está a Terra…E eles devem pensar o mesmo”. Logo após falou aos tripulantes: “Oficiais navegadores atenção! Todos mapas estelares devem estar preparados para destruição imediata – incluindo fotodiagramas, pelos quais nossa rota – ou ‘ponto de partida‘…possa ser deduzido. – Quero todos os dados astronômicos imediatamente arquivados, de modo a poderem ser deletados…em fração de segundos”.

O primeiro contato do ser humano com uma raça alienígena era uma possibilidade prevista de várias formas, mas nunca de uma maneira tão embaraçosa quanto esta    parecia ser… Duas naves solitárias – uma da Terra…e outra de um mundo distante, encontram-se numa nebulosa…bem longe do planeta de origem de cada uma delas.        Eles poderiam desejar paz, mas era impossível distinguir um ‘ataque’ traiçoeiro de        uma ‘aproximação’ amistosa. Deixar de lado a suspeita, poderia resultar no fim da          raça humana. Mesmo considerando a pacífica permuta do saber o maior benefício        para ambas civilizações – teriam que ficar alerta … pois qualquer erro – seria fatal.

ufo-nebulaMáxima aproximação possível

Reinava profundo silêncio na cabine de comando. A janela traseira estava tomada por um…’luminoso nevoeiro difuso’, desprovido de qualquer tipo de contorno aparente. Foi então que Tommy subitamente exclamou: ”Ali, senhor!”… — Era possível distinguir no nevoeiro um pequeno objeto opaco em forma retangular, e tênue luminosidade, mas seus detalhes eram imperceptíveis.  Tommy então, olhou para o medidor de distância, e exclamou… “Senhor, está se dirigindo para nós… em alto grau de aceleração… Será que tentarão um contato…ou usarão suas armas tão logo tenham condições de nos atingir?”.

Deslizando num brilhante mar luminescente, que ocupava o núcleo central da nebulosa,    ao chegar mais perto da Llanvabon, o estranho veículo desacelerou… – parando, depois    de se aproximar o máximo que a prudência permitia; tanto num sinal de cordialidade e respeito…quanto de precaução contra um possível ataque. O momento da aproximação, contudo, foi dominado por grande tensão. Um simples movimento agressivo deles, e os desintegradores seriam acionados. – Tommy observava tudo, preocupado. Esses ‘seres  em naves espaciais’…deviam possuir alto nível tecnológico – e civilizações não evoluem sem prudência. A essa hora, portanto – tal como os ‘seres humanos’ da Llanvabon, eles também estariam considerando todas implicações, deste “1º contato” entre civilizações.

É bem provável que a ideia de um contato pacífico…com a troca de suas respectivas tecnologias, tenha ocorrido, tanto aos tripulantes da nave alienígena, quanto aos da Llanvabon… – Quando culturas humanas dessemelhantes entram em contato, uma geralmente se subordina, ou há guerra… Contudo, entre raças oriundas de planetas diferentes, a subordinação dificilmente se estabeleceria pacificamente…Os homens,  jamais consentiriam em se subordinar – nem qualquer outra raça, suficientemente desenvolvida o faria. Benefícios comerciais jamais compensariam uma condição de inferioridade. Algumas raças – os homens, quem sabe, talvez preferissem negociar.    Talvez o mesmo acontecesse com tais alienígenas. Mas a maioria iria preferir lutar.

Se o veículo estranho agora tão próximo da Llanvabon, voltasse à sua base com a notícia da ‘existência humana’, e de naves como a Llanvabon, isto daria a seu povo a alternativa de negociar ou guerrear… E, como para se fechar um negócio é preciso que os dois lados estejam de acordo, basta um…para se fazer a guerra. Talvez assim, a única segurança de ambos os lados fosse a destruição de uma, ou ambas as naves ali estacionadas, e já. Mas,    a própria vitória não seria o bastante. O homem precisava conhecer o planeta de origem dessa outra raça, para mais tarde evitá-la, ou combatê-la… Precisava conhecer armas, e recursos…para conquistá-los, caso necessário. E os desconhecidos sentiriam as mesmas necessidades frente à humanidade. Por isso, o comandante da Llanvabon não apertou o botãoque, possivelmentedestruiria a outra nave… Não ousou abrir fogo. – Até que, daquela imensa tensão – “quebrando o silêncio”… ouviram-se vozes na sala de controle:

“A outra nave está parada, senhor. – Absolutamente                                          imóvel. Os desintegradores estão centralizados nela”.

Cavaleiro-negro-sateliteEra uma sugestão para abrir fogo, mas o comandante balançou a cabeça para si mesmo. – A nave estranha, apagada, por completo, não estava a mais de 20 kms de distância…Todo o seu exterior, era um escuro abissal em que nada se refletia… Não se via qualquer detalhe, exceto variações insignificantes… que  reproduziam seu perfil…em contraste com a ‘espuma brilhante’ da nebulosa.

O “bote salva-vidas”

”Eles enviaram em nossa direção uma onda curta modulada. Frequência modulada. Aparentemente um sinal…Não tem força suficiente para causar qualquer dano”… O comandante trincou os dentes… — “Estão fazendo alguma coisa agora, senhor… Há movimento do lado de fora da nave”…  “Observem o que eles mandam para fora”, replicou o comandante… — “Concentrem nesse alvo os desintegradores auxiliares”,  completou. — E então… algo comprido começou a sair lentamente da ‘nave escura’;        que logo após, começou a mover-se…“Estão se afastando, senhor”, disse o auxiliar.        Mas o objeto colocado para fora pela outra nave permanecia estacionado. Quando,      outra vez, novo comunicado: ”Mais sinais em frequência modulada. Ininteligíveis”.

Os olhos de Tommy brilharam. O comandante olhou para o visor, enquanto o suor lhe descia da testa…“Tanto melhor comandante”, disse Tommy confiante… “Se enviassem alguma coisa em nossa direção, poderia parecer um projétil…ou uma bomba. – Assim,    eles chegaram perto, largaram um ‘bote salva-vidas’, e se afastaram de novo. Pensam  eles, que poderíamos mandar um artefato – tripulado ou não, para fazer contato, sem maiores riscos à nossa espaçonave… — Eles devem pensar mais ou menos como nós”.        

O comandante, sem tirar os olhos da tela do visor, disse para Tommy: ”Sr. Dort, poderia sair da nave, para examinar o objeto?…preciso de alguém para fazê-lo…” E Tommy logo respondeu… ”Muito bem, senhor; vou precisar um traje espacial, com algum dispositivo    de propulsão. – Creio que deva levar o estabilizador EPR”… Enquanto isso, a outra nave seguia se afastando…40, 80, 400 kms…Até que aí parou, na certa, aguardando resposta.  Enquanto vestia seu traje espacial (“com propulsão”)…Tommy escutava as informações transmitidas a todos compartimentos da nave. O fato do outro veículo ter parado a 400 kms de distância, para ele…era altamente tranquilizador. Nenhuma arma convencional alcançaria tal distância, portanto…sentia-se seguro. Contudo… justamente quando esse pensamento começava a se cristalizar em sua mente, a estranha nave vertiginosamente    se afastou ainda mais. (Seria este um plano de fuga ou uma dissimulação?…pensou ele)

traje espacial.jpg

Tommy lançou-se para fora da espaçonave … penetrando num vácuo de brilho tão intenso quanto jamais fora dado  a qualquer ser humano experimentar. Foi quando… atrás dele, a Llanvabon afastou-se como um dardo… Nos fones de seu capacete — Tommy já ouvia a voz do comandante:    ”Também estamos recuando Dort – para proteger a nave contra qualquer ‘reação em cadeia’… Voltaremos quando você fizer a conexão do ‘simulador EPR‘ com o objeto”.

Seu raciocínio estava certo, muito embora ‘aterrorizante‘. Um explosivo capaz de lançar uma ‘onda de choque’ num raio de 20 kms era tecnologicamente desconhecido… porém, teoricamente plausível. Assim…por segurança, convinha à Llanvabon se afastar do local. Tommy, àquela hora numa enorme solidão, ligou os propulsores do seu traje espacial, e    se precipitou nas profundezas do vácuo – rumo àquela pequena mancha … no nevoeiro.

Nesse intervalo, a Llanvaban desapareceu de vista, confundindo, a uma relativamente curta distância, o brilho de sua couraça polida, com o nevoeiro…A outra nave também    não era mais visível a olho nu. – Tommy nadava no vácuo, a 6,5 mil anos-luz da Terra, para encontrar um pequenino objeto escuro… o único sólido, em todo espaço ao redor.  “Estou aqui”disse Tommy, pelo fone do capacete. Tocou no objeto, que era metálico, totalmente opaco. Apalpando com suas luvas, não percebeu qualquer sinal de textura, nada de novo…”Impasse, senhor!…nada a informar que nosso esquadrinhador já não tenha feito”. – Nesse momento…em de seu traje…sentiu algum tipo de vibração…que  podia traduzir em ruídos estridentes…e então…uma parte da estrutura abriu-se… Ele, curioso, tentou olhar para dentro, pensando encontrar aí… os “extraterrestres” – que jamais outro ser humano observara. – No entanto, o que viu – foi simplesmente uma    placa plana, da qual luzes aleatórias se projetavam sem qualquer finalidade aparente.

Ouviu então uma exclamação de surpresa. – Era a voz do comandante…”Muito bem,    Dort. Ajeite o ‘estabilizador EPR’ de maneira a poder apontá-lo para essa placa. Eles lançaram um veículo de comunicação. – Qualquer ação que fizéssemos, atacaríamos apenas o mecanismo. Talvez esperem que levemos o aparelho a bordo, mas pode ser      que tenha uma bomba. Deixe o ‘conversor automático’ aí conectado…e volte à nave”.   

“Sim senhor”, disse Tommy… ”mas onde está a nossa nave?”…Não havia estrelas. A nebulosa as obscurecia, com sua luz brilhante. Da ‘plataforma alienígena‘…a  única coisa visível – era a incrível pulsação da estrela de neutrons…o centro da nebulosa… – E Tommy não mais podia se orientar apenas com aquela referência.  Foi quando veio a ordem do comandante…“Afaste-se em linha reta, partindo da direção do pulsar!…Nós o resgataremos!”. – Dessa forma, as duas espaçonaves se comunicariam pelo “estabilizador EPR”…que lhes permitiria trocar todo tipo de informação, que – por ventura, ousassem fornecer … enquanto discutiriam internamente, como garantir sua própria segurança.

A missão Llanvabon

A missão Llanvabon depois disso, tornou-se um duplo dever. Deixara a Terra                  com a tarefa de observar do ponto mais próximo possível, detalhes da estrela                      de neutrons, no centro da nebulosa – resultado da mais violenta explosão no                universo – tanto observada, quanto registrada e catalogada pelo ser humano.

A explosão ocorreu no século VI A.C…mas, sua luz só foi alcançar a Terra no ano 1054 da era cristã…fato devidamente registrado por astrônomos chineses à essa época. Sua luminosidade foi tão grande, que mesmo à distância de 6,5 mil anos-luz da Terra…tal fenômeno pôde ser visto à luz do dia — ao longo de 23 dias, com um brilho maior do que Vênus. – Mais tarde…foi reconhecido como ‘supernova‘, quando no século 20,  os telescópios – ao apontarem para o céu,  viram uma pequena “estrela de neutrons”, pulsando solitária, no centro da nebulosa.

Ela, portanto, bem que merecia ser vista de perto – incluindo uma análise detalhada de sua luz. Esse era o objetivo principal da missão…mas, o encontro inesperado na mesma região tinha implicações tais…que deixariam em 2º plano o propósito inicial da missão.    E de fato, o pequeno e misterioso aparelho alienígena flutuando no tênue gás nebuloso, levara os tripulantes da Llanvabon a uma enorme expectativa em seus postos de alerta.

A explosão, observada há mil anos, teria limpada a área, agora tomada pela nebulosa, de todo e qualquer possível vestígio de vida. Portanto, os visitantes provinham de um outro sistema estelar, afastado dali – e sua viagem, como a da nave terrestre, deve ter sido por motivos puramente científicos…Já que nada havia de valor, que pudesse ser extraído da nebulosa, a não ser gás rarefeito… – Supondo então, que os tripulantes da outra nave se encontrassem perto do nível da civilização humana… isso significava que eles possuíam, ou poderiam desenvolver técnicas e objetos de uso (científico ou não) que poderiam ser objetos de permuta, em termos cordiais. Todavia…necessariamente haveriam de se dar conta… – de que a existência humana…era uma ameaça potencial à sua própria espécie.

Ser ou não ser… (inimigos mortais)  O mais certo… – é que a única solução completamente segura para ambos os lados seria a destruição do outro … ou mesmo, que ambos fossem destruídos.

Até no caso de uma guerra, era preciso mais que uma simples destruição… Na ‘comunicação/navegação’ interestelar, os alienígenas deveriam desfrutar…de toda a sorte de energia – incluindo… é claro algum tipo de…‘overdrive’…para viajarem acima da velocidade da luz. E, além da radiolocalização por ‘estabilizadores EPR’, possuiriam, naturalmente, muitos outros dispositivos quantum-fotônicos de comunicação.

As duas raças poderiam ser amigas, mas também, ‘inimigas mortais’. Cada uma, mesmo que inconscientemente, era uma ‘ameaça fatal‘ à outra… – E, num certo sentido, a coisa mais segura a se fazer diante de tal situação, é destruí-la…Ali, portanto, na “nebulosa do Caranguejo”, o problema era grave e imediato. Futuras relações entre as 2 raças, seriam (ou não) estabelecidas nesse momento. Sendo possível iniciar um ‘processo de amizade’, ambas raças se beneficiariam mutuamente. – Mas…esse tipo de ‘confiança mútua’ tinha que ser estabelecido…e estimulado… – sem um mínimo perigo de traição… A ‘confiança’ precisaria ser estabelecida sobre os alicerces de uma total desconfiança. Nenhuma das 2 naves ousaria retornar à sua base … se a outra pudesse – de algum modo – prejudicá-la.

Que armas teriam eles? … Qual a verdadeira extensão de sua cultura?… Poderia se estabelecer um intercâmbio de comércio e amizade entre os 2 povos, ou seriam as 2 raças tão dessemelhantes…a ponto de só a guerra poder existir entre elas?…E se a paz fosse possível, como seria iniciada?

A tripulação da Llanvabon precisava de fatos, o mesmo acontecendo com os viajantes da espaçonave desconhecida… Eles deveriam colher o máximo de informações possível. E a mais importante de todas, por precaução seria, em caso de guerra, a localização da outra civilização. Esta informação poderia ser o fator decisivo numa guerra interestelar… Mas, o trágico em tudo isso, era que não podia haver informação possível capaz de levar à paz. Nenhuma das 2 tripulações podia expor a existência de sua própria raça – presumindo a boa vontade ou dignidade da outra. Assim, fez-se uma curiosa trégua entre as 2 naves. A alienígena continuava no seu trabalho de observação, bem como a Llanvabon. O veículo robótico flutuava no vácuo brilhante. – O aparelho “esquadrinhador” estava sintonizado com o aparelho alienígena… que, dessa maneira… – mantinha contato com a Llanvaban.

Assim, a comunicação entre as 2 naves começou de repente, a progredir rapidamente. Tommy Dort foi um dos que apresentou relatórios iniciais sobre esse progresso… Sua missão inicial na expedição, tinha sido substituída pela incumbência de interpretar, e decodificar mensagens trocadas entre as tripulações… E, juntamente com o psicólogo      de bordo, nesse instante dirigiu-se à ‘cabine de comando‘ para transmitir a notícia do sucesso. Essa cabine como de costume, era um lugar silencioso, com painéis em luzes fosforescentes, e grandes visores panorâmicos tridimensionais, nas paredes e no teto.

telepatia-rede-cerebralOs telepatas

“Estabelecemos comunicação bastante satisfatória”, disse o psicólogo… mostrando sinais de cansaço. — Seu trabalho a bordo era o de avaliar dentro da tripulação fatores de risco, para reduzir ao máximo o nº de erros humanos possíveis…“Senhor, podemos dizer-lhes quase tudo o que desejarmos,    e podemos entender quase tudo o que eles dizem… – No entanto… – naturalmente…não podemos ter certeza absoluta de que seja verdade… tudo aquilo que eles querem dizem.”

E Dort complementou… “Montamos certo mecanismo, que corresponde a um tradutor iônico… – Temos “micro-conversores”…em corrente direta de ondas curtas. Eles usam modulação de frequência intermitente, combinada com algo, provavelmente variações aleatórias de ondas caóticas… Nunca fizemos uso de algo semelhante, por isso nossos instrumentos não podem operar satisfatoriamente nessa faixa… – mas, aperfeiçoamos    uma espécie de ‘código‘, que corresponde à uma linguagem inédita para nós. Emitidas suas informações em ondas curtas, moduladas em ‘frequência’, nós as gravamos como sons. Quando respondemos, a transmissão é reconvertida para frequência modulada.”

O comandante franziu a testa…e perguntou… “Por que a forma da onda modulada se converte em ondas curtas?… – Como você descobriu isso?”… – E Tommy respondeu:  “Eles gravam a frequência naturalmente modulada. Penso que não usam som – nem mesmo para falar. Nós os observamos pelo…’visorama‘…enquanto se comunicavam.      Não fizeram movimentos perceptíveis de nada que correspondesse, ao órgão da fala,        ou audição. Em vez de usarem microfones – simplesmente se colocam perto de algo          que funcione como uma antena. Minha impressão, senhor…é que usam microondas naquilo que se pode chamar de uma… ‘conversação pessoal’ – como se fossem sons”.

O comandante fixou-lhe o olhar, algo surpreso…”Isso significa que eles são telepatas?”… E Tommy respondeu: ”Sim senhor. E significa que nós também somos telepatas com relação a eles. – Provavelmente são surdos. Certamente, não têm qualquer ideia de ondas sonoras no ar para comunicação… – Simplesmente, não utilizam ruídos para nenhuma finalidade”. O comandante escutou tudo, e então indagou… ”Bem, e o que mais?”– Tommy explicou:
”Acho que, mesmo assim…conseguimos nos entender… Estabelecemos, de comum acordo, símbolos arbitrários para uma “linguagem analógica”… e, elaboramos relações verbais por diagramas e fotogramas… Daí…já possuímos cerca de 2 mil palavras como signos comuns. Montamos um analisador para selecionar seus grupos aleatórios de microondas – para os quais adaptamos uma máquina decodificadora. Em sequência… o terminal de codificação recebe as gravações, para produzir os grupos de onda que precisamos reenviar…com base na frequência da pulsação dos neurônios. — Quando quiser conversar com o comandante da outra nave… é só o senhor avisar – pois acho que estamos preparados para a conexão”.

“E qual sua impressão sobre a psicologia deles?”…perguntou o comandante ao psicólogo. “Não sei, senhor” disse ele embaraçado… – Parecem absolutamente sinceros, mas não deixaram transparecer nenhum sinal de tensão – e nós sabemos que, nesse caso, sempre existe. Agem como se estivessem simplesmente estabelecendo um ‘meio de comunicação’ para um ‘bate-papo amigável’…Mas, parece difícil não existir alguma coisa por trás disso tudo” (O psicólogo…de fato, estava surpreso com um tipo de pensamento desconhecido).

“Se não me engano, senhor”…ponderou Tommy…”eles respiram oxigênio como nós, e não são muito diferentes em outros aspectos. Talvez uma evolução paralela onde a inteligência evolua, assim como as funções básicas do corpo. – Quero dizer que, qualquer ser vivo… de qualquer espécie deve ingerir, metabolizar, e expelir. Talvez todo cérebro inteligente, pela percepção, encontre uma resposta pessoal…Estou certo de ter percebido um quê de ironia por parte deles…um senso de humor. Em resumo senhor…acho que se possa gostar deles”.

Programa Zip detecta fronteira da física quântica

“Abrindo conversação”

O comandante pôs-se de pé — e… murmurou:  ”Vamos ver o que eles têm a dizer”… A seguir, se dirigiu ao “setor de telemática” da nave. Tommy Dort, que o seguia de perto … ligou o código de protocolos do “transdecodificador“. Dele se podia ouvir ruídos… – extremamente aleatórios – dirigidos a um “auto-modulador frequencial”, devidamente preparado … para decodificar o sinal recebido…Foi então…que num piscar de olhos a tela do visor acoplado    ao transmissor alienígena…iluminou-se com imagens do interior da outra nave, e um ser emergiu a frente do…’visorama‘…olhando curiosamente para dentro da tela. Parecia extraordinariamente humanomas não era.      A impressão era de uma personalidade moldada por uma franqueza … bem-humorada.

“Eu gostaria de dizer”, começou o comandante com uma voz grave”coisas adequadas sobre este primeiro contato entre duas diferentes civilizações planetárias … e da minha esperança de que isso resulte num intercâmbio cordial entre nossos povos”… – Tommy operou o ‘codificador’, transformando a mensagem em “ruídos aleatórios”… os quais, o comandante da outra nave pareceu compreender, com um possível gesto de aprovação.  Após alguns segundos…o ‘transdecodificador‘ da Llanvaban entrou em ação… com seu zunido característico, e letras formaram palavras moduladas por um ‘código analógico’      de algoritmos. E Tommy então assim as explicou… – “Ele concorda com tudo…senhor,    mas pergunta se não teria alguma forma de permitir o regresso de ambas expedições a seus planetas de origem, sem qualquer tipo de receio. Ficaria feliz, caso esse problema fosse resolvido de comum acordo por ambas as partes, mas ainda não vê uma solução”.

A atmosfera na Llanvabon era confusa. Havia perguntas demais…e nenhuma resposta    para qualquer uma delas. Mas, todas deviam ser respondidas imediatamente… A nave poderia voltar para Terra?…A outra nave poderia viajar em dobra num overdrive?…E,    caso lutassem … mesmo que vencessem, se a nave alienígena tivesse um comunicador espaçotempo, poderia rastrear as ‘coordenadas gravitomagnéticas‘ da Llanvabon até     seu regresso à Terra?… – Mas, se perdesse, melhor que fosse totalmente destruída ali mesmo…sem deixar pistas de sua origem. – A outra nave…por certo…também estaria      com a mesma preocupação… Regressando agora, poderia ser seguida pela Llanvabon,        ou mesmo, ter sua rota interceptada por mecanismos hiperespaciais de rastreamento;          o que igualmente, acarretaria na fragilidade de seus protocolos de segurança máxima.

Nenhuma das naves podia pensar em fuga…E, nesse ponto, ambas estavam                      em absoluta igualdade de condições…E uma pergunta continuava no vácuo                      interestelar…para ser urgentemente (co)respondida… – O que fazer agora?

Os outros enxergavam na luz infravermelha, o que indicava que sua estrela de origem emitiria na mesma faixa — justamente abaixo do ‘espectro visível’ dos seres humanos; conclusão essa, inversamente, também deduzida por eles, que tinham um dispositivo interno, tipo memória, para armazenamento de informações em microondas; alvo de tanta curiosidade, por parte dos humanos…quanto os alienígenas estavam fascinados pelos mistérios do som…Eles podiam perceber a ‘luz infravermelha’ pela sensação de      calor que ela produzia, mas eram incapazes de diferenciar a variedade dos tons. Para      eles…a ciência humana do som… se tornara uma incrível descoberta. – Encontrariam      para ruídos aplicações que jamais imaginaríamos, se conseguissem escapar vivos dali.

GalaxyMapNem tão diferentes assim

Tommy se deu conta a certa hora, de que os alienígenas haviam elaborado um falso mapa estelar de navegação, com os mesmos… ‘erros propositais’, que havia projetado em outro mapa, e…esboçou um sorriso…Começara a simpatizar com esses… ‘alienígenas’.  Aos poucos – tentava diálogos – tão sutis quanto lhe fosse permitido em transcrições para ‘microondas‘…à  ‘frequência modulada’. Transmitido com tanta formalidade não era para ter graça – mas…”eles” entenderam.

Havia um tripulante alienígena, em especial, para o qual a comunicação era uma coisa tão natural, quanto para Tommy. E os 2 fizeram estreita amizade – por códigos…e conversões intermitentes…Quando as mensagens oficiais envolviam detalhes técnicos em excesso, ele fazia algumas ilações estritamente informais, semelhantes a gírias. – Tommy, sem motivo especial, resolveu apelidá-lo de ‘Mack’, nome pelo qual…ele próprio passou a assinar suas mensagens. Na 3ª semana de comunicações, de repente surgiu na tela…o seguinte recado:  “Você até que é um bom sujeito… – pena que tenhamos que nos matar”…(Mack). Tommy, que também pensava no mesmo assunto, logo respondeu, pesarosamente…”Não sabemos como evitar isso. E vocês?”… Após breve pausa…foi recebida a resposta… ”Se pudéssemos acreditar um no outro, haveria uma solução…Mas, não podemos acreditar em vocês, nem vocês em nós… – Sentimos muito”. (Mack). Tommy Dort então, se dirigiu ao comandante da Llanvabon…”Olhe senhor, eles são bem parecidos conosco”. Demonstrando cansaço, o comandante respondeu: ”Eles respiram oxigênio. Seu ar contém 28% de oxigênio, em vez dos nossos 21%, mas poderiam tranquilamente respirar na Terra. – Seria portanto… uma conquista altamente desejada para eles”. Inquieto, Tommy argumentou: “Se destruirmos    a nave deles, ao regressarmos à Terra, nosso governo global…não vai ficar nada satisfeito por não tentarmos de todas as formas uma ‘colaboração amigável‘, e seguirmos isolados no universo”. E o comandante respondeu: “Também não gosto disso, mas não vejo saída”.

Na Llanvabon toda engenharia mecânica já estava preparada para uma sobrecarga de energia nos desintegradores…apontados diretamente para a outra espaçonave…Já os mapas estelares, instrumentos de navegação, e registros de viagem…com anotações e estereofotos dimensionais, que Tommy Dort elaborara durante os 6 meses de viagem, estavam em um arquivo secreto … para serem instantaneamente deletados. A própria Llanvabon, também havia se preparado para uma eventual “autodestruição”… apesar      do sincero tom moderador do comandante alienígena, em seus últimos comunicados. Nesse ponto, todos dois comandantes admitiam que procurariam de todas as formas imagináveis por uma maneira, a mais civilizada possível, de entendimento entre eles.

Poderiam impedir o combate mediante a troca antecipada de ‘informações confidenciais’, mas havia limites para concessões, de parte a parte. Aparentando uma ameaça terrível ao outro lado, ambos tentavam tornar a luta evitável. Era curioso, entretanto, a forma como aqueles cérebros, de fato, totalmente desconhecidos entre si — conseguiam relacionar-se.

sistema_nao_linearUma questão (eminentemente) bipolar

Tommy Dort… – afinal… ao estabelecer uma espécie de gráfico dos problemas que ambos os lados tinham pela frente … encontrou um tipo de…’equação não-linear biunívoca‘. Inicialmente – partiu da premissa de que os desconhecidos…com toda aquela tecnologia, não portavam qualquer instinto natural de destruição humana. A única causa de matar ou ser morto… numa guerra terrestre…se justifica por motivos estritamente…’lógicos’.

A seguir, Tommy listou os principais objetivos humanos, nesse caso específico, por ordem de importância… – O primeiro…era comunicar a existência de uma ‘cultura desconhecida’. O segundo… – supondo um ‘grau tecnológico’ razoavelmente semelhante… – a localização daquela cultura na galáxia… – E o terceiro… obter o máximo de informação possível sobre essa cultura alienígena…o que, aliás, ou bem ou mal, já estava sendo feito. Mas, o segundo objetivo era provavelmente impossível, o que – de certa forma, comprometia…o primeiro.  Por outro lado, os objetivos alienígenas eram exatamente iguais; de sorte que os humanos deveriam evitar… – primeiro… a informação de sua existência por eles… – em seguida… a localização da Terra…e, por fim – informações que estimulassem a curiosidade alienígena sobre a cultura humana. E, tudo isso, levando em conta que a ‘transmissão da informação’ ainda dependia da restrição relativística da “velocidade da luz“… – E que essa questão, só um “teletransporte quântico“, ou mesmo “tunelamento em hiperespaço” poderia resolver. 

Olhando com certo amargor para este quadro, Tommy Dort de repente se deu conta de que mesmo a vitória completa para um dos lados… não seria a solução perfeita… – Isto porque, o ideal…para ele – seria que a Llanvabon levasse consigo aquela exótica nave para estudos. Só assim, o 3º objetivo estaria plenamente cumprido… Mas Tommy intimamente rejeitava a hipótese de que, para a evolução do saber, devêssemos aniquilar seres inteligentes…bem-humorados…’ou seja, o puro acaso do encontro entre povos que muito se estimavam, iria resultar numa situação capaz de sua exterminação’. Por isso… ele se empenhara tanto na busca por uma solução. Todavia, apesar de tudo…o problema parecia não ter uma solução.

Era por demais absurdo que 2 espaçonaves eminentemente científicas…se enfrentassem    no espaço distante… – temendo que tripulantes de uma dessas naves carregasse consigo informações que levassem uma civilização inteligente a ir contra a outra. Mas, se ambas    as raças pudessem, uma sabendo a índole pacífica da outra, se inter-relacionassem, sem saber da localização do outro – senão após encontrar motivos para confiança recíproca?  Era impossível, utópico…Uma tolice…Mas, era uma ideia tão sedutora que Tommy Dort não hesitou em codificar uma mensagem ao Mack, e a resposta logo veio: “Ok” disse ele:  “É uma bela tentativa, mas eu gosto de você, porém ainda não acredito em você. E se eu lhe dissesse isso antes, você também não acreditaria, por mais que simpatizasse comigo. Eu te digo a verdade mais do que você acredita, e talvez você também me fale a verdade, além da minha capacidade de crer. Mas, sobre isso, não há meio de saber. Sinto muito.”

Tommy decifrou a mensagem com grande pesar, sentindo-se responsável por um fracasso que poderia custar a vida de bilhões de seres, humanos e/ou alienígenas. Mas, justamente quando mais triste se sentia – pareceu que a resposta lhe chegara como uma ‘premonição’. Era de uma simplicidade singular…e caso realmente funcionasse, poderia ser considerada uma vitória para ambas os lados… – Ele então, sentou-se silencioso…sem ousar o mínimo movimento, para não interromper o fio da meada…que dava continuidade às ideias então esboçadas em seu pensamento. – Entregue às reflexões, ele mesmo levantava objeções…e as refutava, tentando transpor com segurança, todas dificuldades… – mesmo aquelas que pareciam impossíveis de ultrapassar. Quando finalmente sentiu-se seguro de sua solução, emergindo tonto de suas…quase infindáveis elucubrações… – caminhou aliviado à cabine de comando, a fim de expor suas ideias… “Senhor”disse Dort ao comandante…“gostaria de propor um novo método para abordar a outra espaçonave. – Eu próprio o elaborei… e, mesmo que não dê certo – nossa nave não sofrerá qualquer consequência em represália”.

O plano em ação

O comandante voltou-se para Tommy, e disse com desconfiança… ”As táticas já foram todas elaboradas…Sr. Dort…e estão sendo gravadas agora… para o relatório de bordo. É um jogo terrível, mas necessário”. Mas, imediatamente Tommy replicou…  ”Senhor, acho que encontrei um meio de evitar esse jogo arriscado”… — E continuou a explicar sua ideia, enquanto a névoa difusa se  espelhava pelo “visorama“…ao ritmo pulsante da “estrela de neutrons”, no centro da nebulosa … girando lá fora, regularmente…30 vezes por segundo.

O comandante achava que, acompanhando Tommy, poderia assumir a responsabilidade pelo sucesso…ou fracasso daquela tentativa. Em caso de fracasso…a Llanvabon já estaria preparada para “atacar” a nave alienígena. – A escotilha externa abriu-se para o vácuo, após a despressurização. À curta distância o ‘aparelho alienígena de contato’ permanecia  tranquilamente estacionado. As 2 silhuetas, em trajes espaciais…deslizaram para fora da Llanvabon… – mergulhando num oceano de espaço – com destino ao “bote salva-vidas”, enquanto se comunicavam através do “interfone” embutido no traje espacial…”Sr. Dort”, disse o comandante: ”durante toda minha vida sonhei com aventuras. Essa é a primeira vez que posso justificá-las a mim mesmo”. E Tommy prontamente respondeu: ”Isso não me parece aventura, senhor… Desejo desesperadamente que o plano seja bem-sucedido. Sempre me pareceu que numa aventura… pouco se estava importando com o resultado.”

”Não!”…respondeu o comandante…”uma aventura é quando você                   coloca sua vida na balança do acaso, e espera o ponteiro parar.”

Ao alcançarem o objeto flutuante, o comandante comentou…”Inteligentes, essas criaturas! Devem estar muito curiosas em conhecer nossa nave, para concordarem com essa troca”…  Tommy concordou, mas intimamente suspeitava que Mack, seu amigo alienígena, gostaria de conhecê-lo, independente de qualquer disputa…E também, que entre os tripulantes das duas espaçonaves, se formara um ambiente de cortesia… como, por exemplo, o que existia entre cavaleiros medievais… – antes de se espetarem em um torneio…diante da corte real.  Não esperaram muito tempo, até que do nevoeiro… 2 outras figuras surgissem, com trajes também propulsionados…Os alienígenas, de menor estatura, usavam capacetes revestidos de um material que filtrava raios ultravioletas, para eles, mortais. – Quando por interfone, Tommy recebeu a mensagem de que a nave alienígena já os aguardava… logo informou ao  comandante. – Este fez um gesto aos outros…em direção à Llanvabon – e mergulhou com Tommy no espaço em direção à outra nave. Embora não pudessem enxergá-la muito bem.

GJ1214b_(Artist_s_impression)

Os alienígenas

A nave alienígena era praticamente do mesmo tamanho que a Llanvabon, e os 2 caminhavam em seu sombrio interior… – por sobre esteiras magnéticas… quando Tommy e o comandante, tentando se acostumar ao ‘infravermelho‘ dos alienígenas que os esperavam ao fim do longo corredor — na ‘cabine de comando alienígena’.

Tommy notou em seu “monitor de pulso” que o ar dali continha 30% de oxigênio … em vez dos 21% da Terra, mas com uma pressão um pouco menor. – Então, achou por bem retirar o capacete, e conseguiu respirar sem problemas. A gravidade artificial era um pouco maior do que na Llanvabon…o que fazia sentido… – em um planeta um pouco maior que a Terra, orbitando uma solitária “anã vermelha“. Como um gesto de cortesia, os ‘anfitriões’ haviam iluminado o ambiente com uma luz um pouco acima dos padrões deles… o que fez Tommy ainda mais confiante de que seu plano desse certo. O comandante deles se dirigiu aos dois, com um gesto que – para Tommy, pareceu como de…’boas-vindas‘… assim traduzido pelo pessoal da Llanvabon…“Ele diz que os saúda com prazer, mas só conseguiu pensar em um único meio pelo qual o problema desse encontro casual possa ser resolvido”. “Se ele pensa numa luta”, disse o comandante…”explique que estou aqui para propor outra alternativa”.

Os 2 comandantes estavam face a face – mas sua comunicação se dava indiretamente…Os extraterrestres não usavam sons para se comunicar…Sua conversação era por microondas, e telepatia de curta distância. Eles não ouviam, muito menos falavam…no sentido comum da palavra. O que o comandante alienígena fez… foi se comunicar com a Llanvabon, e esta transmitiu ao comandante terráqueo que o seu colega estava ansioso por saber a proposta.

A proposta…(a)final                                                                                                                    “A história humana não é muito bonita… – É baseada em povos…com superioridade tecnológica e cultural, conquistando outros povos. Os mais fortes…com maior poder, acabam subjugando outros…quase sempre de forma destruidora.” (Jorge Quillfeldt)

negóciofechadoO comandante da nave terrestre então, tirou seu capacete, e colocou suas cartas na mesa“Estamos aqui há um mês trocando informações superficiais – e…mutuamente, não nos odiamos… – Nem temos qualquer motivo para lutar”.  Parou um instante para respirar, e concluiu: ”Tudo isso é uma loucura!”… – E aguardou a resposta da Llanvabon…    “Ele afirma que tudo o que o senhor diz é verdade… Mas, que a raça dele tem que ser protegida – da mesma forma que o senhor acha que precisa proteger a sua civilização”.

“Naturalmente”, disse o comandante transparecendo certo nervosismo. “Mas a coisa mais sensata a fazer para proteger nossos povos é começar uma luta totalmente insensata?…Os nossos povos devem ser advertidos da existência de uma outra raça…é verdade…mas cada um deve ter prova de que a outra não deseja lutar, mas sim manter relações cordiais entre si… – E, embora não sejamos capazes de nos localizar… deveríamos poder nos comunicar, para encontrarmos motivos de confiança, e respeito mútuo. Se nossos governos quiserem assumir a loucura de uma guerra, isso é lá com eles. – Mas temos obrigação de dar-lhes a oportunidade de tornarem-se amigos fraternos, ao invés de iniciar uma guerra no espaço”.

Logo a seguir, a Llanvabon retransmitiu a mensagem do comandante alienígena…”Ele diz que a dificuldade consiste em confiarmos um no outro… Estando em jogo a sobrevivência de duas civilizações… ele não pode correr o mínimo risco – nem tampouco o senhor pode conceder-lhe qualquer vantagem. – E diz que está curioso em saber qual a sua proposta.”

“TROCAR DE NAVES!”…respondeu o comandante da Llanvabon impaciente. “Trocar de naves, e regressarmos a nossos planetas. Podemos ajustar nossos instrumentos de modo    a não sermos rastreados… Ambos retiraremos nossos mapas estelares…e programas que possam denunciar nossos planos de voo… E ambos travaremos nossas armas… O ar não oferece problemas – tanto aqui quanto lá… – Podemos tomar a nebulosa do Caranguejo como ponto de encontro, numa data a ser marcada mais tarde…Essa é minha proposta”.

Quando a tradução chegou aos alienígenaseles começaram a se movimentar excitados, com gestos incompreensíveis aos dois terráqueos… – Só mais tarde, Tommy Dort, e seu comandante…Jerry Mcgee, foram descobrir que…na verdade, “eles” estavam festejando um acordo, que a todos… parecia algo tão improvável… – E, por 3 dias as tripulações se misturaram…aprendendo tudo o que de mais importante havia a ser aprendido… – Foi grande o trabalho naqueles 3 dias… – Ainda havia uma infinidade de detalhes, a serem resolvidos – desde a troca da iluminação dos ambientes…até dúvidas quanto à retirada    de arquivos. – Mas o curioso é como cada tripulação já estava perfeitamente ciente das  medidas corretas a tomar para impedir toda e qualquer quebra de protocolo no acordo.

Houve uma conferência final, antes das duas naves se separarem, na sala de comunicações da Llanvabon – onde ficou acordado de que se encontrariam novamente… naquele mesmo lugar, numa data determinada de comum acordo com seus governos, se é que eles iriam se entender sobre isso… – E, quando o último humano deixou a nave terrestre…esta deslisou para fora do nevoeiro da Nebulosa… – seguida pela nave alienígena… em direções opostas, mergulhando alucinadamente, graças ao overdrive, no vazio aberto do espaço interestelar.

Texto baseado no conto “Primeiro Contato” de Murray Leinster (1945…tradução de Mário Salviano) incluído na coletânea… “Antologia Cósmica“… organizada por Fausto Cunha.  *****************************(termos complementares)******************************  

FrequênciaÉ o número de oscilações de onda, por um certo período de tempo. A unidade de frequência é o hertz (Hz), que equivale a 1 segundo; assim, quando uma      onda vibra a 50Hz significa que ela oscila 50 vezes/segundo… A frequência de uma      onda só muda quando houver alterações na origem de sua fonte…A “intermitência”    ocorre, quando algo se manifesta, parando e recomeçando em intervalos. Portanto,              é uma característica de algo que, por interrupções, não é permanente, ou contínuo.

TRANSDUTOR: claro que é possível transformar energia sob a forma de som em energia elétrica… – Isso é feito a todo momento. Por exemplo… quando falamos em um microfone, o som gerado é transformado em “energia elétrica pelo aparelho…Tal energia, no entanto, tem um nível muito baixo (“potência mínima”). Por esse nível ser tão baixo, o som captado pelo microfone… – precisa ser amplificado…para assim, então… – poder tornar-se audível.

Deteção no radiotelescópio: Diferentemente dos fótons óticos, a deteção de ondas        de rádio explora o caráter ondulatório da luz… A radiação excita um campo no detetor, que é registrado eletronicamente como uma voltagem de ‘corrente alternada‘, descrita  por uma onda, com amplitude e fase. A fase permite que ondas de diferentes detetores possam ser somadas, produzindo ‘interferometria‘. – antena do rádio telescópio,      por sua vez, seleciona a direção a ser observada, coleta a radiação e a transforma – em      sinal de corrente alternada. – O receptor seleciona a frequência e a largura da banda, processa o sinal e grava os dados – podendo então…ter um canal para cada frequência. ****************************(texto complementar)********************************

Cientistas estão usando informações sobre a ressonância de estrelas…para estimar a    idade e a massa de corpos celestiais. Eles medem as oscilações a partir das ondas de      som contidas nelas. Em outras palavras, estudam o som das estrelas para melhor entende-las… Este som é estudado, do mesmo modo com que se ouve a forma como    ressoa um…”instrumento musical” – a intensidade dos tons indica aspectos sobre o tamanho do instrumento… – além do que estiver dentro dele… – o fazendo ‘ressoar’.ceunoturno

Ondas sonoras não se propagam no espaço, mas ondas eletromagnéticas sim… e são estas, emitidas por estrelas, que podemos ouvir com ajuda de equipamentos. Tudo graças a uma recente área da astronomia e seus métodos…a Sismologia Estelar. Se trata de estudar a estrutura interna das estrelas… através de seus espectros de frequências eletromagnéticas, geradas pela…”energia térmica” das estrelas – que se converte em “pulsações“. Uma vez captadas essas…”emissões eletromagnéticas pulsantes“, através de radiotelescópios terrestres, e outros equipamentos, como o telescópio espacial ‘Corot‘, elas são convertidas para um formato de áudio (assim como fazem os aparelhos de som; que captam as “ondas de rádio”…e as convertem em ondas sonoras). – Dessa maneira…quando as pulsações são ouvidas – podem revelar muitas informações sobre o que acontece dentro dessas estrelas.

O som de algumas estrelas parecidas com o Sol, nos dá a sensação de estarmos no espaço. Já o som de pulsares com rotações mais lentas, parece o tocar de um tambor. – Enquanto em pulsares de rotação mais rápida … como o da ‘Vela‘… – se assemelham a um grupo de “percussionistas enlouquecidos”… — Ouça você mesmo o “som das estrelas”!… (consulta***********************************************************************************

A Nebulosa do Caranguejo acaba de “iluminar” a Terra com fótons da maior energia já registrada  Jun 21, 2019  Um desses  fóton medido, tem aproximadamente uma energia equivalente à queda de uma bola de ‘pingue-pongue’ na superfície da Terra.

chuveirada cósmicaO planalto tibetano, às vezes chamado de “Telhado do Mundo” — é um dos lugares mais isolados da Terra… Se trata de uma vasta planície… – elevada a quase 5 kms acima do nível do mar — limitada ao sul, pela cordilheira mais alta do planeta… e, ao norte, por terrenos desérticos. O bom da altitude toda… é que este se torna um lugar bastante útil, aos astrônomos… Lá, inclusive … em 1990 – foi construído um observatório…com a exclusiva finalidade de estudar um “fenômeno”, denominado “chuveirada cósmica”… Se trata de raios cósmicos de alta energia, que sempre, ao atingirem as…”camadas superiores”…da atmosfera se decompõem em  ‘partículas subatômicas’… Este trabalho é mais fácil de ser verificado em alta altitude, porque justamente lá a atmosfera, para absorver as partículas – é muito mais…”rarefeita”.

Desde então, o instrumento chamado “Tibet Air Shower Array” tem registrado um grande número de… “raios cósmicos de alta energia”… – que são partículas aceleradas a enormes energias por fenômenos astrofísicos – como… ‘supernovas‘, ‘núcleos ativos’ de galáxias, e misteriosas fontes ainda não identificadas – provavelmente… fusões de “buracos negros”.  Mas o aparelho também capta “chuveiradas” causadas ​​por uma fonte diferente… “fótons de alta energia”. Esses fótons também são criados por fenômenos astrofísicos…tais como interação entre partículas de alta energia, e o fundo cósmico de microondas…Assim, eles podem fornecer uma visão única sobre esses processos…e, os ambientes em que ocorrem.

Ao longo dos anos o ‘Tibet Air Shower Array’ detetou muitos desses fótons…com energias de dezenas de tera-elétronvolts (TeV= 10e12)… – Isso quase equivale aos fótons de maior energia criados na Terra (LHC). E esse era o limite…ninguém, até agora, tinha observado fótons mais poderosos. – Hoje, porém, pesquisadores da Colaboração Tibetana em Raios Gama afirmam ter observado, pela primeira vez…fótons com energias acima de 100 TeV, incluindo um incrível fóton – com a maior energia já registrada… de quase 500 TeV… Os pesquisadores também descobriram…a origem desses fótons – eles vêm da ‘Nebulosa do Caranguejo’, remanescente de uma supernova ocorrida em 1054 dC – no braço “Perseu”,    da Via Láctea, a cerca de 6.500 anos-luz da Terra…No centro desta nebulosa se encontra um pulsar…cuja estrela de neutrons gira a uma taxa de 30 vezes por segundo… emitindo pulsos regulares… – numa ampla faixa de frequências … do “espectro eletromagnético”.

Embora a Nebulosa do Caranguejo não seja visível a olho nu… — tem o mesmo brilho da lua de Saturno…Titã, sendo a fonte mais brilhante no céu… tanto em raios X quanto raios gama – atingindo energias acima de 30 KeV… — Isso faz com que se torne de raro interesse aos astrônomos…Uma questão fascinante,    é, o quão energéticos os fótons podem  se tornar – e…o que a distribuição das energias desses fótons pode nos dizer, das “condições internas” da nebulosa.

Acredita-se que os fótons nessa energia sejam criados por um processo conhecido como “dispersão inversa de Compton”…Isso ocorre, quando uma partícula de alta energia tem sua energia transferida para um fóton…No caso da ‘Nebulosa do Caranguejo’, partículas    de alta energia são provavelmente elétrons e prótons – acelerados por ‘ondas de choque’ em poderosos campos magnéticos que circundam o pulsar. Isso lhes dá energia na faixa dos 10e15 eV. Numa comparação, o Large Hadron Collider – mais poderoso ‘acelerador    de partículas’ da atualidade, tem…em sua totalidade…uma energia de colisão de 14 TeV.

Estas partículas então transferem sua energia aos fótons remanescentes do ‘Big Bang’, no fundo cósmico de microondas, dando-lhes centenas de TeV. Estes são os fótons que estão sendo detetados pelo…“Tibet Air Shower Array”. Sendo esta a primeira deteção para uma fonte astrofísica de fótons com energia maior que 100 TeV…abre-se a oportunidade de se revelar exatamente, quais condições devem existir dentro dessa nebulosa. Em particular, revela a magnitude das ondas de choque, que passam pelo campo magnético. E isso, por sua vez…lança alguma luz – sobre os processos que devem gerar essas ondas de choque.

Várias teorias preveem um limite para a energia que os fótons podem obter dessa forma, mas o grupo do Tibete não encontrou nenhum sinal desse limite até agora… Pode ser que fótons com (10e18) eletronvolts estejam sendo produzidos também. Nesse caso, um único fóton teria a energia de uma… “bala de ar comprimido”… – De todo modo… em primeiro lugar … mais evidências serão necessárias para ajudar a calibrar as teorias astrofísicas, sobre o que…exatamente – acontece dentro desses ambientes mais extremos do universo.

Ref: “First Detection of Photons with Energy Beyond 100 TeV from an                              Astrophysical Source” – https://arxiv.org/abs/1906.05521 (texto base******************************************************************

Civilizações avançadas podem estar se comunicando por neutrinos (mai/2019)

neutrino

Representação artística de um conjunto de aceleradores-transmissores em órbita de uma estrela de neutrons. [A.A. Jackson/Triton Systems LLC]


Em 1960, o físico teórico Freeman Dyson fez uma proposta radical Em um artigo chamado…“À procura de fontes estelares artificiais de radiação infravermelha”, ele sugeriu que pudéssemos encontrar ‘ETIs’ (Inteligências Extraterrestres avançadas) buscando sinais de ‘estruturas artificiais’ tão grandes… que englobassem sistemas estelares inteiros (… “megaestruturas“). Desde então… – muitos cientistas têm apresentado suas próprias… “ideias“,        visando à possibilidade de construção dessas incríveis… “megaestruturas“.

Assim como a ‘esfera‘ proposta por Dyson…essas ideias foram sugeridas como uma forma de dar opções aos cientistas do ‘SETI’ envolvidos na busca por inteligência extra-terrestre. Ademais, o físico Albert Jackson…funcionário da empresa de tecnologia “Triton Systems“,  sediada em Houston, divulgou recentemente um ‘estudo‘…propondo um mecanismo pelo qual uma sociedade avançada poderia construir um…”retransmissor de dados”… em uma “estrela de neutrons” – para focar feixes de neutrinos, e criar assim um… farol espacial.

Para resumir brevemente…a existência de megaestruturas depende inteiramente de      onde uma civilização extraterrestre se encaixaria na Escala de Kardashev (isto é, se          são civilizações planetária, estelar ou galática). Nesse caso Jackson sugere que uma civilização Tipo II seria capaz de cercar uma estrela de neutrons (ou ‘buraco negro’)      com a criação de um grupamento de micro-satélites, retransmissores de neutrinos.

Jackson inicia seu estudo com uma citação do ensaio de Freeman Dyson de 1966,            “The Search for Extraterrestrial Technology”, onde resume seus objetivos… “A 1ª          regra do meu jogo é… – pense nas maiores ‘atividades artificiais’ possíveis…com            seus limites estabelecidos apenas por…leis físicas – e então… – procure por elas”.

nasa-binary-black-holeEm um estudo anterior Jackson havia sugerido como ‘civilizações avançadas’ poderiam utilizar…’pequenos buracos negros‘ como lentes, enviando sinais de “ondas gravitacionais” pela galáxia. Esse conceito, baseia-se em trabalhos recentes de outros pesquisadores que sugeriram que estas ondas (foco de importantes pesquisas ​​– desde que foram detetadas pela 1ª vez em 2016), poderiam ser usadas para transmitir informações.

Em outro artigo, ele também se aventurou em prever como uma civilização avançada o suficiente poderia usar o mesmo tipo de lente para criar um “farol a laser“. Nos 2 casos,    os requisitos tecnológicos seriam impressionantes — exigindo infraestrutura em escala estelar. E levando tudo isso um passo adiante — Jackson então explora a possibilidade      de neutrinos serem usados ​​para transmitir informações, uma vez que eles, assim como    ondas gravitacionais, podem viajar pelo “meio interestelar” quase sem sofrer absorção.    Quanto ao processo pelo qual esse farol poderia ser criado … ele novamente se refere à ‘regra’ de Freeman Dyson sobre como tais civilizações poderiam criar qualquer tipo de megaestrutura… – “Se a física permitir … é tecnologicamente … possivelmente viável”.

No caso de uma civilização Tipo II, os requisitos de engenharia estariam além de nossa compreensão, mas o princípio permanece válido. Basicamente, o conceito tira proveito    de um fenômeno conhecido como “lente gravitacional”onde os cientistas se valem da presença de um objeto intermediário massivo para focalizar e amplificar a luz vinda de      um objeto mais distante. Nesse caso…a fonte de luz seria neutrinos, e focalizá-los, com base numa estrela de neutrons, ou “buraco negro”, produziria um sinal bem mais forte    do que as fontes naturais de neutrinos – como o sol ou supernovasE isso poderia ser     um ótimo indício de sinais de uma atividade tecnológica avançada alienígena. E, para resumir as coisas… – empregamos outra citação de um dos famosos ensaios de Dyson:

“Quando olhamos para o universo em busca de sinais de atividades artificiais é a tecnologia e não a inteligência que devemos procurar.          Seria muito melhor procurar por inteligência, mas a tecnologia é a        única coisa, de fato, que temos chance de perceber”. (texto original) ***************************************************************

Teóricos descobrem a “Pedra de Roseta” da física dos neutrinos (set/2019)

eigenvectorsrotation

Linhas e planos passando através da origem são subespaços lineares no espaço euclidiano R³. Subespaços são estudados em álgebra linear.

Álgebra linear” é um ramo da matemática,  que surgiu do estudo detalhado de sistemas de equações lineares…sejam elas algébricas  ou diferenciais – usando alguns conceitos e estruturas fundamentais… – como ‘vetores‘,  espaços vetoriais, ‘transformações lineares‘,  ‘sistemas de equações lineares‘, e ‘matrizes‘. Por muitos séculostais propriedades têm sido investigadas, em detalhes, fornecendo assim – ferramentas inestimáveis à física e engenharia … através de valiosos teoremas usados para ‘prontamente’ solucionar seus mais intrincados… – e diversos problemas.

Em agosto deste ano, 3 físicos teóricos: Peter Denton (‘Brookhaven National Laboratory’),  e…“Neutrino Physics Center” ( Fermilab) — Stephen Parke, físico teórico do Fermilab — e Xining Zhang, estudante de graduação da Universidade de Chicago “viraram a mesa”, no contexto da física de partículas, descobrindo uma identidade fundamental… relacionando diretamente…de um maneira nunca antes prevista… – “autovetores” e “autovalores”.  Estes 2 elementos da álgebra linear reduzem as propriedades de uma…”matriz“…a seus componentes mais básicos, sendo bastante aplicada na física matemática do ‘mundo real’.

Os autovetores identificam as direções nas quais uma transformação ocorre, e os autovalores especificam a quantidade de alongamento ou compressão no sistema.

Por séculos se tentou encontrar a identidade em algum lugar da literatura, mas nenhuma evidência foi encontrada, online, ou em livros didáticos. – Nós fomos enfim direcionados, por um resultado semelhante – ao professor de matemática da UCLA, Terence Tao – que carrega em seu currículo uma…“Medalha Fields”…e um…“Breakthrough Prize”Quando apresentamos a Tao nosso resultado…ele declarou ser, de fato, a descoberta de uma nova identidade…e forneceu várias provas matemáticas, agora publicadas online. Tao também discutiu a nova identidade em seu blog de matemática…A utilidade física desse resultado decorre de nossas investigações das probabilidades de oscilação de neutrinos na matéria, que envolvem a busca de ‘autovetores’ e ‘autovalores’…com expressões bem complicadas.

Embora os autovalores sejam inevitavelmente complicados, esse novo resultado mostra que autovetores podem ser escritos de forma simples, compacta e fácil de lembrar, uma vez que os autovalores sejam calculados. – Por esse motivo chamamos os autovalores      de…“a Pedra de Roseta” – para oscilações de neutrinos em nossa publicação original; depois de conhecê-los… — podemos obter tudo o que precisamos saber. (texto original)

Publicado em ficção científica | Marcado com | 3 Comentários

Trabalho & Liberdade contra o fantasma da Dívida Pública

“O trabalho representa o fator principal do ‘salto ontológico’ entre o mundo natural          e a vida social moderna… – Aliado a valores inerentes ao ser… tais como finalidade, consciência, conhecimento e liberdade, é responsável direto pela evolução humana”.

Não há, em Marx — pretensão de encontrar o caminho de uma unidade lógica entre ‘sujeito’ e ‘objeto’…ou, como quer Hegel… entre ‘ser’ e ‘pensamento’. – As categorias vistas na teoria marxista vêm das ‘relações sociais’…e não, de uma “especulação logicista” … Por outro lado,  pesquisas sobre o ‘ser social’…não podem ser feitas pelas ‘ciências naturais’, pois estas são ‘ontologicamente limitadas… para explicar a anatomia das ‘sociedades de classes’… e suas ‘relações sociais’ numa ‘sociedade capitalista’.

“Na análise dos sistemas econômicos, o conceito deve substituir os instrumentos de medição…pois o seu valor é a ‘mercadoria’…como produto do trabalho”. (K. Marx)

As categorias modais que realmente vão despertar o interesse do pensamento marxista      são aquelas que brotam do ‘universo econômico’, como um produto ‘auto-evolutivo’ do      ser social, na incessante perseguição ao movimento histórico das relações de produção.    Tais categorias não se originam da produção a priori…mas sim, de uma longa evolução processual do ser (social). “Formulações categoriais” são predicações sociais mediadas pelos sujeitos em uma dada forma de “sociabilidade”. As categorias são tanto dadas no cérebro, quanto na realidade. Essas categorias expressam, como diz Marx…“formas de ser…finalidades existenciais”. – Ao contrário de preceitos gnosiológicos e logicistas…a consciência se coloca como tarefa importante – no curso do desenvolvimento social…à medida que o indivíduo vai superando as barreiras naturais, que silenciam a Natureza.

crise

As “categorias econômicas”                              A perspectiva marxista não tem o propósito de esclarecer o processo de constituição do pensar, mas, basicamente… suas finalidades objetivas”.

Se limitando à uma análise abstrata, a economia política não consegue tratar estas ‘categorias’ de uma forma correta…desprezando as ‘mediações’ que existem entre “categorias complexas”… e as mais simples. Segundo Marx…economistas exprimem as relações da produção burguesa: divisão do trabalho, crédito, moeda, lucro, etc. como categorias fixas, imutáveis, eternas; mas não explicam o ‘movimento histórico’ que as engendra, concebendo estas categorias como isentas de história e contradição… – Ao se apropriar do… “método de investigação hegeliano”, que concebe a realidade como eminentemente contraditória, Marx consegue operacionalizar tal ‘interpretação’. Para ele, o ‘método das categorias’, deve considerar a relação ontológica entre…simples (abstratas)…e complexas (concretas). E complementa:

O “concreto” surge no pensamento por um processo de síntese…como um resultado, e não ‘ponto de partida’. Embora aí possa estar contido, ele só aparece claramente em seu ponto de chegada… mas, como algo que está tanto no começo quanto no final…O “problema” da consciência é que ela    só pode emergir do resultado — como uma… “ressaca…do dia seguinte“.

A realidade é uma totalidade multiforme, estruturada por complexos… mais simples, ou não. Não existe paradoxo entre as categorias menos complexas (simples) e as categorias mais complexas (concretas)…nem hierarquização na relação entre elas – pelo contrário, ocorre um processo de desenvolvimento combinado e desigual… As categorias somente emergem nas sociedades mais complexas – isto é…desenvolvidas… porque pressupõem      um longo desenvolvimento das forças produtivas…bem como da subjetividade humana.

As categorias mais complexas, são as que servem de esteio, à compreensão evolutiva da história da humanidade, enquanto as simples, por seu caráter ‘contingente’, explicam apenas certo momento … e dados circunstanciais.   A ‘propriedade’, por exemplo, surge como a relação organizacional mais simples numa ‘sociedade de classes’; no entanto — não se constitui como base de uma… ‘sociedade primitiva’, onde relações simples são ‘naturais‘. 

A “propriedade“, como ‘categoria simples’, pressupõe a existência de uma categoria    mais complexa, como por exemplo…”trabalho“…Isso porque, categorias simples são expressões de relações nas quais o complexo… – ainda não desenvolvido…pode ter se manifestado, sem ainda revelar sua “conexões multilaterais”, mentalmente expressas      nas categorias mais complexas, onde a mais evoluída conserva essa mesma categoria,  como uma relação subordinada. E, de fato, categorias mais simples podem expressar relações dominantes de um todo ainda não desenvolvido. Essas categorias…também           têm sua complexidade, e por isso merecem atenção. – O “dinheiro“…em particular,           que historicamente precedeu ao capital, aos bancos, e trabalho assalariado — parece         ser uma categoria, que se inclui em todas sociedades. – Uma análise mais detalhada, porém, revela que algumas delas bem evoluídas, como as pré-colombianas, e outras,         como as antigas comunidades eslavas… — desconheceram expressamente o seu uso. 

Na sociedade romana, por exemplo…o ‘dinheiro’ ficou circunscrito ao exército, sem exercer papel predominante no reino produtivo da vida material. Nas sociedades antigas, ocupou papel episódico, marcando       mais presença nas inter-relações entre grandes nações comerciantes.

Com efeito, essa categoria mais simples (dinheiro) aparece historicamente em toda sua intensidade, nas condições mais desenvolvidas da sociedade…Portanto, a relação entre categorias mais simples e mais complexas, não é meramente controlada por uma regra cronológica, em que o pensamento abstrato vai do mais simples ao mais complexo, sua relação é bem mais paradoxal. – Já o ‘trabalho’…apesar de aparentar natureza simples,     sua categoria é tanto abstrata, quanto complexa…A possibilidade de entender trabalho como “categoria”… emerge com o desenvolvimento do “modo de produção” capitalista,     ao revelar sua natureza abstrata. Como ‘valor de uso’, ao se relacionar no metabolismo ‘sociedade/natureza’… na forma de uma… ‘necessidade’ – é uma “categoria complexa”.

valor-de-uso-troca

Imagem de Igor Morski

‘valor de uso’ / ‘valor de troca’

Adam Smith realizou um grande progresso ao considerar o trabalho como a “universalidade abstrata – da atividade criadora de riqueza”. Isso só foi possível no tempo histórico em que o trabalho singular…”desgrudou” do corpo do trabalhador, e este pôde passar…de um oficio a outro… de forma bastante distinta da época histórica das “corporações medievais”… Mas, isso também se deve – sobretudo ao fato…do trabalho surgir como categoria determinante do “valor de troca”… – no modo de produção capitalista; de um modo simples, ou abstrato.

O trabalho, enquanto “substância do valor”, constitui-se como a força de trabalho que age no processo de produção de mercadorias como uma coisa…“simplesmente”…quantitativa. Ele funciona como ‘abstração universal’ … destituída de sua singular substância corpórea. A relação que o trabalhador estabelece com o capitalista é uma relação em que o trabalho emerge como “abstrato”, no qual o “valor de uso”, passa a ser regido pelo “valor de troca”.

O trabalho é valor de uso para o capitalista… – e valor de troca para o trabalhador… mas só é valor de uso para o capitalista à proporção em      que é possível convertê-lo em ‘valor de troca’. – Ao vender sua força de trabalho como… “mercadoria” – se estabelece uma ‘cisão monumental’ entre o próprio trabalhador… – e… o “produto final”… de seu trabalho.

A indiferença diante de determinado tipo de trabalho pressupõe uma totalidade de tipos efetivos de trabalho, onde nenhum deles predomina sobre os demais. – Essa indiferença aos seus aspectos contingentes e imediatos, se configura na forma de “trabalho abstrato”. Isso só foi possível com a evolução das relações de “produção capitalista”…que permitiu compreender o trabalho – tanto como ‘valor de uso‘ … quanto como ‘valor de troca‘.

Embora o trabalho como ‘valor de uso‘ seja uma universalidade concreta, que perpassa a história de todas as sociedades precedentes, sua elucidação só foi possível pela mediação da explicação do trabalho em sua “universalidade abstrata“…ou seja, em uma sociedade mais desenvolvida… – Por isso, a “sociedade capitalista” fornece a chave para elucidar as sociedades precedentes, porque ela guarda em seu interior vestígios – como um “grão de sal”…das sociedades precedentes… E, embora o “trabalho concreto”…como ‘valor de uso’, estivesse no seu ponto de partida…ele somente pode aparecer claramente, em seu ponto  de chegada, como algo que está tanto no ‘ponto de partida’ quanto no ‘ponto de chegada’.

Trabalho como categoria – simples ou complexa                                                            A consciência do trabalho como uma categoria concreta só pode emergir do modo de produção capitalista, ao superarmos idiossincrasias de sua função geradora de riqueza.

consciencia-negraO trabalho…pelo incremento de uma sociedade capitalista…pode ser tanto categoria ‘concreta’ quanto ‘abstrata’,    já que, tal tipo de sociedade, permite caracterizar nossa (“bem”) complexa natureza de…”ser social” – à medida que a ‘realidade’ se constitui – como expressão de ‘determinações sociais’.

A abstração geral do trabalho é produto do desenvolvimento de suas condições objetivas.  No seu processo de apreensão pela consciência… a categoria mais simples pode vir antes da complexa; mas do ponto de vista ontológico, o trabalho, enquanto categoria concreta, vem antes do trabalho abstrato…E, essa “inversão prática”…é assim explicada por Marx:

“A mais simples abstração, que a Economia moderna coloca em 1º plano, exprime uma antiga relação válida para todas formas de sociedade – mas, tal abstração, na prática, só existe como categoria da sociedade moderna. – A categoria mais concreta… evoluiu plenamente em uma forma de sociedade menos desenvolvida. O ‘elevar-se’ do abstrato ao concreto – significa apropriar-se deste último… – pela utilização do…’pensamento’, reproduzindo-o… — ‘materialmente‘… — na forma (‘espiritual’) de um conceito”.

Isso denota que Marx se apropria do modo de investigação operacionalizado por Hegel na “Ciência Lógica”. De um ponto de vista mais amplo…Marx considera o trabalho – a forma exemplar de se mostrar como, categorias mais abstratas também são produto de ‘relações históricas’ – e têm sua plena validade…só para essas relações, e no interior delas – apesar de sua validade em todas as épocas. Por isso não é possível entender as categorias apenas isolando-as umas das outras – como faz a economia política, mas usando um processo de abstração, em que o ‘isolamento’ deve ser seguido, pela articulação das partes com o todo.

O ‘caminho de ida’…da afirmações abstratas…será razoável…à medida que for seguido por seu ‘caminho de volta’, indicando ao sujeito o rumo correto, onde…por um processo de síntese – a universalidade complexa explicará a abstrata … afastando a realidade de uma esfera primitivamente “caótica”.

Para Lukács, ao nível mais simples … as categorias se manifestam em relação recíproca umas com as outras (matéria/forma, parte/todo, etc). Nesse contexto, o trabalho como valor de uso, surge como a categoria decisiva para compreender outras categorias, pois presume um processo homogêneo e espontâneo na evolução das categorias modais. No entanto, nas etapas mais avançadas do desenvolvimento das relações sociais, enquanto complexo de complexo cada categoria ganha sua relativa autonomia frente ao trabalho. Embora este, como valor de uso, constitua uma categoria básica do ser social, isso não impede que em estágios mais avançados… outras categorias possam aparecer, dotadas        de relativa autonomia perante o trabalho. Isso, evidentemente, pode levar à falsa ideia      de que as categorias existam por si mesmas…ou que constituam formas a priori. Marx    fala do perigo desse cenário, no prefácio à 2ª edição alemã de “O capital”… ao afirmar:

“A pesquisa tem de captar detalhadamente a matéria, analisar suas várias formas de evolução e rastrear sua conexão íntima. Só depois de concluído esse trabalho é que se pode expor devidamente o movimento real… Não conseguir se espelhar idealmente a vida da matéria… – pode parecer que se esteja tratando de uma construção a priori”.

teatroEssência & aparência 

Com efeito, o método de pesquisa investigativa exige um árduo esforço para captar a matéria em detalhes, analisar suas várias formas de evolução – e, rastrear suas conexões mais íntimas. Isso implica dizer que a matéria – base, e critério de toda investigação… não pode ser captada facilmente. – A definição externa é perpassada por uma singular ‘determinação interna’, a qual…em função do desconhecimento lógico dessa relação, faz presumir a necessidade de uma ‘ciência’.

Marx confirma que…havendo unidade entre essência e aparência não haveria necessidade de ciência. A determinação concreta é perpassada pela relação dialética ‘interior/exterior’,  o que presume uma atenção investigativa, a desvelar as malhas de sua “substancialidade”.  Nesse caso, é preciso analisar suas várias formas evolutivas e rastrear sua conexão íntima à totalidade real. E analisar é um avanço, que significa retroceder, na perspectiva de uma elucidação, que busca o conhecimento de seus próprios…’fundamentos’… Nesse processo de análise, a ‘abstração‘ representa o momento, em que é possível isolar certo aspecto da realidade para melhor compreendê-la. – Esse isolamento, porém…não deve desprezar as articulações existentes entre suas partes estudadas…e, as manifestações heterogêneas da “realidade concreta”…que comparece como síntese de múltiplas determinações…Através  da elevação do abstrato ao concreto…o ‘pensamento’ se apropria da ‘realidade…sem que isso implique algum tipo de ‘identidade absoluta’ pairando entre o ‘pensamento’ e o ‘ser’.

Com efeito… a exposição do “ser” na forma categorial é uma etapa posterior à investigação da estrutura anatômica do objeto, e representa a reprodução da estrutura da vida material no âmbito do pensamento. Ou melhor, significa um adentrar no “universo das abstrações”, onde abstrair implica estabelecer o que é essencial ou não…o sujeito e o objeto… o efeito e a causa…Por uma ‘exposição‘, se adentra no universo do ‘espelhamento‘ da realidade, por isso pode parecer tratar-se de uma construção a priori, quando na verdade a exposição do ser pela consciência é essencialmente intempestiva (‘post festum’)…E Marx explica assim:

“A reflexão sobre as formas humanas de vida… – em sua análise científica,                        segue sobretudo um caminho oposto ao seu desenvolvimento real. Começa                      pelo fim, com seus resultados já definidos no processo de desenvolvimento”.

Teoria-MarxistaOs“finalmente”

O reino da lógica ou da reprodução ideal de uma conexão concreta acontece mediante a manifestação da… “coisa”… e seu progresso efetivo no mundo material – verificando-se dois fatores complexos…o ‘ser social‘, que existe, independentemente do fato – de ser conhecido, ou não; e o…’método mental‘.

Enquanto o pensamento hegeliano enveredou pela elucidação da ‘anatomia constitutiva’ das categorias … como determinações objetivas da existência – contrapondo-se à ‘lógica clássica’, que desconsiderou seus aspectos objetivos e ontológicos… – a ‘teoria marxista’ buscou aplicabilidade às suas categorias, articulando-as à lógica do processo capitalista.    Evidentemente que essa “apropriação” se inscreveu de modo bem peculiar, já que o seu propósito não era constituir um novo sistema filosófico, ou resolver o problema de suas categorias numa perspectiva escolástica – mas, apropriar-se das ‘categorias hegelianas’, subvertendo-as, para elucidar as “conexões íntimas”, e as “relações contraditórias”, que perpassam as várias categorias econômicas…latentes no ‘modo de produção capitalista’.

Tal elucidação da realidade pressupõe um investigador atento ao movimento reflexivo dessas categorias, e à articulação existente entre categorias mais simples (abstratas) e, mais complexas (concretas). Assim, pode-se dizer que foi Marx quem, de fato, deu um tratamento correto às categorias hegelianas…ao libertá-las de seu “invólucro místico”:

“Os seres humanos podem se diferenciar dos animais pela consciência, religião, ou qualquer outra meio que quisermos considerar. – Mas, só podem ser considerados          “humanos” – ao produzirem os seus próprios meios de sobrevivência”. (texto base)  ******************************************************************************

O “trabalho” como finalidade evolutiva (segundo Lukács)                                           “A lógica natural não é nem está de alguma formaadequada/direcionada ao atendimento das necessidades humanas. Apenas o trabalho, organizando suas propriedades de uma forma diversa da original – pode fazer nascer um produto,              que atenda estas necessidades…E, é dessa forma, que o processo do trabalho na                natureza (meio) … faz nascer na sociedade … o produto do seu trabalho (fim).” 

Na formulação marxista – o “trabalho” (como categoria) constitui a realização de uma…’projeção teleológica‘, que dá origem a uma objetividade (‘produto’),  implicando sua tendência à ‘constante evolução’…e evidenciando o ‘poder da consciência’ em projetar previamente, tudo aquilo… – que…mais tarde – vai produzir. Assim, se no trabalho…uma “projeção teleológica” é fundamental, pode-se qualificar, com mais precisão    as 2 categorias “heterogêneas” que se  incluem, em sua própria constituição:

(a) causalidade, característica dos processos naturais (orgânicos /inorgânicos) operando por si mesmos… (b) teleologia, categoria    agregada onde a consciência cumpre uma finalidade fundamental.

O fenômeno exclusivamente humano de ‘captura‘ da realidade está na raiz do                    processo de conhecimento…cujo aprimoramento continuado conduz à gênese                    do saber… Assim, tanto a simplicidade da sabedoria… quanto a complexidade              metodológica científica, têm fundamentos ontológicos baseados no ‘trabalho’.                        O âmbito no qual este se relaciona – desde o ponto de vista ontológico do ‘ser                      social’…até o surgimento do “pensamento científico”…e sua própria evolução,                      é…precisamente determinado – por uma investigação dos…meios naturais.

Os meios e os fins

A posição final se origina numa necessidade sócio-humana, mas para se chegar à sua posição autêntica, a investigação dos “meios” (‘conhecimento natural’) deve alcançar  determinado nível, coerente com esses meios… Se esse nível ainda não foi alcançado,          a posição do fim permanece um projeto meramente utópico…uma espécie de ‘sonho’.  Evidentemente, o trabalho não se realizará sem um mínimo “conhecimento natural”, portanto, é importante esclarecer sua ligação/evolução com o pensamento científico.

O trabalho é condicionado pelo nível de conhecimento, adquirido e fixado socialmente.    Ao mesmo tempo, a própria finalidade determina o seu critério de verdade – isto é, em cada processo de trabalho concreto e individual…’o fim domina e regula os meios‘.  Contudo… observa Lukács que – levando em conta a ‘histórica’ evolução processual do trabalho… esta “relação hierárquica” é invertida… de modo que… – os meios adquirem progressivamente… maior importância do que os fins… – As “finalidades” – por serem  direcionadas à satisfação direta e imediata de necessidades…são esquecidas, enquanto      os meios (“instrumentos“) conservam-se. – Como a pesquisa natural está concentrada      na preparação dos meios…são estes a “garantia social” da conservação dos resultados      do trabalhoque, então fixados, possibilitam assim, um desenvolvimento continuado.

Daí, Lukács sugerir que a gênese da ciência está ligada à investigação dos                        meios, e que esta… ao se constituir como uma ‘esfera autônoma específica’,                      passa a ter a busca da verdade como finalidade, distanciando-se bastante                        das finalidades particulares daqueles… “processos de trabalho imediatos”.

spinosaDeterminismo & Liberdade 

O fenômeno da “liberdade”… – totalmente estranho à natureza, aparece no momento  em que a ‘consciência’ … alternativamente, decide qual “finalidade” vai disponibilizar, e de que maneira quer transformar “séries causais naturais“, em meios de realização. Nessa realização de um fim, está contida a simultaneidade “determinismo/liberdade”. 

A posição de um fim é um ato de liberdade, pois os modos e meios de satisfazer uma necessidade são resultados de ações decididas e executadas conscientemente… e não produtos de cadeias causais espontaneamente biológicas. – Entretanto… a liberdade (decisão alternativa) jamais é isenta de…’determinismo‘, pois como traço do Ser que      vive e age socialmente, não é abstrata; sendo ‘condicionada’, social e historicamente. 

Sob essa ótica, o único caminho para se chegar à…liberdade humana…é pela passagem do determinismo natural dos instintos, ao ‘autodomínio consciente’ da realidade. (texto base ******************************(texto complementar)********************************

POR QUE SOCIALISMO?… – ALBERT EINSTEIN ( “Monthly Review”…nº1, maio/1949)    Os sacerdotes fizeram da divisão da sociedade em classes uma instituição permanente, criando para isso…um ‘sistema de valores’ – pelo qual o comportamento social do povo passou a ser cegamente orientado (por estes próprios sacerdotes) a nível inconsciente.”  

albert-einstein.jpgSerá aconselhável que um “não especialista” em assuntos econômicos e sociais manifeste pontos de vista sobre o tema…“socialismo”? (Por várias razões… – eu acredito que sim!)  Comecemos considerando a questão… pelo ponto de vista ‘epistemológico‘, analisando  o próprio … “conhecimento científico“. Pode ser que pareça… não haver diferenças metodológicas essenciais entre Astronomia e a Ciência Econômica… pois nos 2 campos, cientistas tentam descobrir leis que tornem inteligível a interconexão entre certo grupo de fenômenos. Mas tais diferenças existem.

No campo econômico, a descoberta de leis gerais é dificultada pela circunstância de que fenômenos econômicos observáveis são – com frequência… afetados por muitos fatores, difíceis de se avaliar separadamente. Ademais…como se sabe…a experiência acumulada desde o início do assim chamado período civilizado da história humana tem sido muito influenciada…e limitada, por fatores, cuja natureza, não são exclusivamente econômica.

Por exemplo…a maioria dos grandes Estados da história deveu sua existência às grandes conquistas… – E os povos conquistadores estabeleceram-se… – legal e economicamente, como a “classe privilegiada” do território conquistado … apossando-se do monopólio da propriedade da terra, e designando, de suas próprias fileiras, uma classe sacerdotal para    o ‘fiel controle’ da educação. Mas a ‘tradição histórica’ começou ontem…por assim dizer. Em nenhum momento superamos…o que Thorstein Veblen chama de…“fase predatória” do desenvolvimento humano. – Os fatos econômicos observáveis pertencem a essa fase,    e, por uma ironia do destino, as leis que deles podemos derivar, não se aplicam a outras. 

Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar a ‘fase predatória’ do desenvolvimento humano, e avançar para além dela, se direcionando por uma finalidade ética, a “Ciência Econômica” atual pouco pode esclarecer sobre uma ‘sociedade socialista’ do futuro. – A “Ciência Natural”, todavia…não tem o poder de criar ‘finalidades’, e muito menos de transmiti-las – podendo tão-somente fornecer meios… para atingir certos fins.

thorsteinveblenÉ característico em situações de crise, como esta… – que há algum tempo, a  sociedade humana vem atravessando, que as pessoas se sintam indiferentes e até mesmo ‘hostis’… ao grupo a que pertencem. – Com efeito, o homem é ao mesmo tempo, um ‘ser solitário’ e um ser social. Como solitário – tenta proteger sua própria existência… e a dos que lhe são próximos… – satisfazer seus desejos pessoais… – desenvolver suas habilidades inatas, etc. Como ‘ser social’, busca conquistar reconhecimento e afeição de seus semelhantes… – compartilhar seus prazeres, confortar seus sofrimentos… – melhorando suas condições de vida. – E…somente essas diferentes aspirações… muitas vezes conflitantes… já podem responder pelo caráter de uma pessoa. 

É bem possível que a intensidade relativa desses 2 impulsos…seja determinada, basicamente pela hereditariedade, mas a personalidade que acaba emergindo é              formada … – em ampla escala – pelo ambiente – que envolve seu ‘crescimento’,                  como pessoa, e pela estrutura da sociedade em que vive…com suas tradições, e                valores, que são atribuídos – ao fato deste, ou daquele tipo de comportamento.

O conceito abstrato de… “sociedade“… para o ser humano… – significa a soma de suas relações diretas e indiretas com seus contemporâneos, e todas as pessoas das gerações anteriores. O sujeito é capaz de pensar, sentir, trabalhar e desejar…por si mesmo, mas     ao mesmo tempo…depende tanto da sociedade (em sua existência física, intelectual, e emocional)…que é impossível entendê-lo, fora desse contexto (social)É a “sociedade”    que lhe proporciona comida, roupas, lar, a ferramentas do seu trabalho…a linguagem,  formas de pensar, e a maior parte do conteúdo de seu pensamento… – Sua vida se faz possível mediante o trabalho… – com a realização de todos passados e presentes… do futuro contemporâneos…que se acham escondidos por detrás da palavra “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um fato da natureza que não pode ser abolido. Contudo, enquanto os processos de vida das abelhas e formigas, por exemplo, se determinam, inteiramente, por instintos hereditários rígidos, o ‘padrão social’ e ‘inter-relação’ dos seres humanos são altamente suscetíveis de mudanças.  A memória, a capacidade de realizar novas combinações…e o dom da comunicação verbal, possibilitaram desenvolvimentos no ser que não são ditados por ‘necessidades biológicas’.

Realizações técnicas e científicas, obras de arte, e engenharia são exemplos que explicam como acontece do ser humano ser capaz de…em certo sentido, influir em sua vida mediante seu próprio pensamento e vontade consciente.

O ser humano ao nascer, adquire através da “hereditariedade” … uma constituição biológica considerada inalterável – onde se incluem os ‘impulsos naturais’…como característicos – da… “espécie humana”.

Em acréscimo – ao longo de sua vida…o indivíduo adquire – da sociedade… uma constituição cultural, com mudanças ao longo do tempo, que guiam sua conduta. 

A antropologia moderna nos ensina, pela investigação comparativa de culturas primitivas, que o comportamento social… em função dos “padrões culturais” – e tipos dominantes de organização, pode diferir muito. – Os que se empenham em melhorar a condição humana podem basear suas esperanças nisso… – Os seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilarem-se uns aos outros; nem estar … “à mercê do destino”.  Mas, se nos perguntarmos de que modo a estrutura da sociedade, e a ‘atitude cultural‘ do ser humano deveriam ser mudados, para tornar a ‘vida humana’… tão satisfatória quanto possível… deveríamos estar conscientes de certas condições, as quais somos incapazes de modificar. – Para todos os efeitos práticos…a “natureza biológica do ser humano…não é modificável. Além disso, não podemos desprezar os eventos tecnológicos e demográficos, que nos últimos séculos, criaram condições que estão aqui para ficar… – E nesse sentido:

Há pouco exagero em dizer que a humanidade já se constitui                        em uma “comunidade planetária” … de produção e consumo.

Pode-se dizer então, que a “essência da crise do nosso tempo refere-se à consciência por parte do indivíduo de sua relação de dependência com a sociedade. Mas, sua experiência dessa dependência não é a de um bem positivo, um laço orgânico, uma força protetora, e sim… uma ameaça aos seus direitos naturais… à sua liberdade… – ou, até mesmo… à sua existência “sócio/econômica”…Além disso, o indivíduo está posicionado na sociedade de modo tal, que impulsos egoístas ‘inatos‘, constantemente se reforçam, enquanto aqueles sociais…por sua natureza…mais fracos… – se deterioram progressivamente. Assim, todo “ser humano” – seja qual for sua… ‘posição social‘ – sofre esse processo de deterioração. Prisioneiro inconsciente do próprio egoísmo, vê-se privado do simples ‘desfrute’ da vida.

desgoverno-oligarquicoA “anarquia econômica” da sociedade capitalista se mostra hoje, quando vemos diante de nós uma comunidade de produtores… cujos membros… se empenham sem cessar, em privar uns aos outros dos frutos de seu trabalho coletivo… em inteiro e fiel cumprimento às… “legalmente estabelecidas” regras mercadológicas…Se torna relevante nesse contexto dar-se conta do fato de que os meios de produção… capacitados em produzir bens para o consumo, assim como bens de capital adicionais, sejam… “propriedade privada“… com o objetivo único de maximizar seus lucros. – Nesse processo…o ‘proprietário’ dos meios de produção está em posição de comprar (barganhar) a força de trabalho do operário, que se utilizando dos meios de produção, fabricam novos bens…que irão se tornar “propriedade capitalista”.

O ponto essencial aí… é a relação entre o que o trabalhador produz – e aquilo que lhe pagam, ambos medidos em termos de “valor real”… — Uma vez que a contratação do trabalho é “livre”… o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que produz, mas sim por suas…”necessidades mínimas” – e pela relação entre a demanda por força de trabalho capitalista, e o nº de trabalhadores…competindo por emprego no “livre” mercado de trabalho… – Dessa forma… não é difícil concluir que:

Nem mesmo em teoria, o pagamento do trabalho                                              assalariado é definido pelo valor do seu produto.

O ‘capital privado‘ tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à ‘competição capitalista’…e também, porque a divisão do trabalho, com o desenvolvimento tecnológico, estimulam a formação de maiores “unidades produtivas”, em prejuízo daquelas menores.  O resultado disso tudo é uma ‘oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado – sequer por uma sociedade política…livremente organizada.  E isso é assim…porque os membros dos corpos legislativos são selecionados por partidos políticos…que são amplamente financiados…ou influenciados de algum outro modo, por capitalistas privados…que para todos os propósitos…separam o eleitorado, da legislatura.

A consequência é que os representantes do povo não protegem de fato, suficientemente,  os interesses dos setores menos privilegiados da população… Além disso, nas condições atuais, os capitalistas privados, inevitavelmente, controlam direta ou indiretamente as principais fontes de informação (imprensa, rádio, televisão). Torna-se assim… bastante difícil para o cidadão… e de fato impossível, na maioria dos casos… chegar a conclusões objetivas, para assim… – fazer bom uso de seus direitos políticos – nas urnas eleitorais.

A situação predominante em uma economia baseada na propriedade privada de capital, caracteriza-se por 2 princípios centrais… 1º) meios de produção (capital) são possuídos privadamente, e proprietários dispõem deles, como acharem melhor; 2º) a contratação    de trabalho é livre (não regulada). Nesse sentido… não há “sociedade capitalista” pura. Em especial…é bom registar que os trabalhadores, em longas e amargas lutas políticas, conseguiram assegurar uma forma um tanto melhorada de “livre contrato de trabalho” para algumas categorias… Mas, tomada em seu conjunto…a economia atual não difere muito de um capitalismo “puro”…(selvagem)

A ‘produção se realiza com a finalidade do lucro…e não pelo uso. Não existem disposições para garantir que todas as pessoas capazes e dispostas a trabalhar sempre consigam emprego – existe um ‘exército de desempregados’ esperando oportunidades… e o trabalhador assim, sempre está com medo do desemprego.  Como – trabalhadores desempregados,  ou mal pagos não formam um mercado lucrativo, é restrita a produção de bens  de consumo…o que resulta “privações”  à maior parte da população – bem como aumento dos preços…pela diminuição da oferta.

O progresso tecnológico, geralmente, em vez de aliviar a                              carga de trabalho para todos… faz mais desempregados.                  

O lucro como motivação… em conjunto com a concorrência capitalista, é responsável pela instabilidade na acumulação e utilização do capital, que leva a crises cada vez mais graves. A competição irrestrita leva a um gigantesco desperdício de força de trabalho – e também à uma deformação da consciência social dos indivíduos. Essa deformação…eu a considero  o pior dos males do capitalismo…Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante – que, como preparação para sua futura carreira…é treinado com afinco, para alcançar (e idolatrar) um ‘sucesso aquisitivo’.

O caminho que resta para resolver todos esses males…é o estabelecimento                          de uma “economia socialista”, acompanhada por um sistema educacional                        orientado por objetivos sociais, na qual os meios de produção… utilizados                          de modo planejado…se tornem propriedade comum da própria sociedade.

Uma economia planejada … que ajuste a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos os capazes de trabalhar, e garantiria o sustento de cada homem…mulher e criança… – A educação do indivíduo… além de desenvolver suas próprias habilidades inatas, faria brotar nele … um compromisso        com seus companheiros de humanidade, em vez da glorificação do poder e sucesso.  Contudo este planejamento ainda não é um ‘socialismo’. Uma economia planejada,        pode vir com a escravização total do indivíduo. – A plena realização do socialismo,    requer ainda a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis:

Como é possível, em face da centralização abrangente do poder político e econômico, impedir que a burocracia se torne tão poderosa?…Como se faz para proteger direitos individuais, e garantir com isso – contrapeso democrático ao poder burocrático?… A clareza quanto às metas e problemas do ‘socialismo’…é da mais alta relevância nessa          era de transição. Como na conjuntura atual a discussão livre destes problemas virou grande tabu – considero esta oportunidade…um relevante ato…de interesse público. ********************************* (texto base)**********************************

A “dívida brasileira” e o “paradoxo da desigualdade”                                                    “O ‘Sistema da Dívida’ opera de modo similar nos diversos continentes, fundamentado      no enorme poder do setor financeiro, em âmbito mundial, o que lhe possibilita exercer      seu controle sobre estruturas legais, políticas, econômicas, e de comunicação de países, gerando diversos mecanismos, que de um modo ou de outro, viabilizam esse esquema”.

O endividamento público de vários países… gerou o que Maria Lúcia Fattorelli – que coordena a organização brasileira ‘Auditoria Cidadã da Dívida’, chama… sistema da dívida; ou seja, a utilização do endividamento públicoàs avessas, em vez de servir      para aportar recursos ao “Estado”, tem sido um instrumento de contínua e crescente subtração de ‘recursos públicos’, direcionados sobretudo ao setor financeiro privado.

Segundo a auditora, a dívida pública é…atualmente, um dos principais alimentos do capitalismo… especialmente na atual fase de “financeirização global”, favorecendo a concentração de renda no “setor financeiro”…e aumentando ainda mais o seu poder.        Na entrevista a seguir a auditora aposentada também comenta a dívida dos Estados brasileiros, gerada de “forma espúria”, que “passou a crescer em escala exponencial:

O que é Sistema da Dívida? Como e por que ele se reproduz em vários países do mundo?

Fattorelli – Escolhemos o tema…“Sistema da Dívida”… para nortear todos os debates do ‘seminário internacional’…realizado semana passada – devido à importância da atuação desse esquema em vários países. Ele corresponde à utilização do endividamento público    “às avessas”… ou seja – em vez de servir para aportar recursos ao Estado…o processo de endividamento tem sido um instrumento de contínua e crescente subtração de recursos públicos… que são direcionados – principalmente – ao… “setor financeiro privado“.

Esse esquema funciona por meio de vários mecanismos que geram dívidas, na maioria das vezes sem qualquer contrapartida, e promovem seu contínuo crescimento. Para operar, tal sistema conta com privilégios legais, políticos, econômicos, e também com a grande mídia, além do suporte dos organismos financeiros internacionais ao impor medidas, benéficas à atuação do “esquema”. O livro “Auditoria Cidadã da Dívida: Experiências e Métodos”, que lançamos durante o seminário internacional, detalha tais mecanismos…cabendo ressaltar os esquemas de “salvamento de bancos”…a transformação de dívidas privadas em dívidas públicas, e a aplicação de ‘Planos de Ajuste Fiscal’ fundamentados em corte orçamentário,  privatizações, e demais reformas liberais, para destinar os recursos ao ‘Sistema da Dívida’.

Como tal ‘Sistema’ funciona internacionalmente?… Todos os países são afetados por ele?

sistema da dívida1As experiências de auditoria… já realizadas, têm demonstrado que o ‘Sistema da Dívida’ segue um ‘modus operandi’ semelhante em diversos países – permeando fases de fatos graves, tais como…geração de dívidas, sem qualquer contrapartida ao país /sociedade; aplicação de – “mecanismos financeiros”… (“taxas de juros”…abusivas – “atualizações monetárias automáticas”… – cobranças de comissões, taxas, etc.)…que fazem a dívida crescer continuamente…novamente – sem que se tenha qualquer ‘contrapartida real’; refinanciamentos que empacotam ‘dívidas privadas’…e outros custos, não correspondentes à entrega de recursos ao Estado…trazendo um aumento ainda maior no volume do endividamento, e beneficiando unicamente o setor financeiro privado … nacional e internacional; utilização do endividamento – gerado dessa maneira, como justificativa para a implementação pelos organismos internacionais (FMI e Banco Mundial) de medidas macroeconômicas contrárias aos interesses coletivos – e…que mais uma vez – beneficiam unicamente o mesmo setor financeiro, tais como privatizações, reforma da previdência…reforma trabalhista…reforma tributária…controle inflacionário…liberdade de movimentação de capitais, etc.

A “dívida pública” é um dos principais alimentos do capitalismo…especialmente na atual fase de ‘financeirização global’, ao favorecer a concentração de renda no setor financeiro, aumentando ainda mais o seu poder. Por isso, o endividamento é um problema presente em quase todos países capitalistas… Além de atentar para o volume da dívida… é preciso observar o valor dos juros – que dirão o peso dessa dívida para cada país. Desse modo, o endividamento brasileiro é o mais oneroso do mundo… pelas altíssimas “taxas de juros”.

Qual a situação da dívida pública brasileira?… – Que percentual                                        do…”orçamento federal”… é destinado ao pagamento da dívida?

Os números da “dívida pública brasileira” – indicam que já estamos em situação de crise da dívida. Em 31/12/2012, a Dívida Externa alcançou 442 bilhões de dólares, ou seja, R$ 884 bilhões, com o dólar a R$ 2,00…É verdade que a maior parte dessa dívida é privada, porém, possui a garantia do governo brasileiro…e, dessa forma, constitui uma obrigação, que deve ser computada em sua integralidade…A chamada “Dívida Interna”, por sua vez, atingiu o patamar de R$ 2,8 trilhões em 31/12/2012. – A maior parte dessa dívida… está nas mãos de bancos nacionais e internacionais…Dessa forma, o total da dívida brasileira alcançou R$ 3,6 trilhões ou 82% do PIB.

Como essa dinâmica ocorre internamente entre os…’estados brasileiros’…e a União?

O ‘Sistema da Dívida’ se reproduz também internamente, tendo em vista que, no caso dos estados…quase toda dívida não possui “contrapartida real”, crescendo a partir de mecanismos… – “meramente financeiros”.    A maior parcela da … “dívida dos estados”, corresponde ao refinanciamento feito pelo governo federal a partir do final da década de 1990 — (com base na Lei nº 9.496/97). Esse ‘refinanciamento‘ englobou passivos  de bancos estaduais, a serem privatizados (“PROES”)…transformando “parcelas” de diversas naturezas, em dívida pública dos estados; evidenciando a falta de contrapartida dessas…“dívidas” – geradas em processo não transparente, e…no mínimo – profundamente questionável…sob todos os aspectos.

E, além disso, existem vários questionamentos acerca da origem da dívida refinanciada, bem detalhados no livro lançado em maio deste ano…Além de gerada de forma espúria,    tal dívida passou a crescer em escala exponencial, em função da extorsiva remuneração nominal cobrada pelo governo federal… Essa “taxação” é tão abusiva…que vários entes federados estão contraindo empréstimos junto ao “Banco Mundial”…e bancos privados internacionais…com a única finalidade de pagar suas dívidas…junto ao governo federal.

dívida1Uma verdadeira aberração e ofensa ao federalismo, além do risco de transferir a crise financeira para o interior do país – pois, tais “bancos internacionais” exigem, entre outras condições…a troca do sistema previdenciário estadual, para um tipo de fundos de pensão de natureza privada, fortes investidores em derivativos…papéis podres que provocaram a crise financeira nos Estados Unidos e Europa…O estado brasileiro mais endividado de todos — é São Paulo.

Quais são os impactos sociais e econômicos da implantação desse “Sistema da Dívida”?

Como já mencionado, o Sistema da Dívida opera de modo similar nos vários continentes,  fundamentado no enorme poder do setor financeiro em âmbito mundial, o que lhe traz a possibilidade de exercer seu controle sobre…’estruturas legais’…políticas…econômicas, e de comunicação dos países…gerando diversos mecanismos que viabilizam esse esquema.  No fim das contas…o custo da dívida pública é transferido diretamente para a sociedade, em particular, para os mais pobres… tanto por meio do pagamento de elevados tributos, incidentes sobre tudo que consomem…quanto pela ausência ou insuficiência de serviços públicos a que têm direito… – saúde, educação, assistência social, previdência… e ainda, entregando o patrimônio público, pelas privatizações e exploração ilimitada de riquezas naturais com irreparáveis danos ambientais, ecológicos, sociais. O custo social é imenso.

O gráfico do orçamento federal evidencia que, na medida em que absorve quase a metade dos recursos, todas as áreas sociais ficam prejudicadas, explicando-se assim…o ‘paradoxo inaceitável’ que existe em nosso país… — sétima economia mundial, e um dos países mais injustos do mundo; desrespeitando direitos humanos fundamentais, como bem denuncia,  uma vergonhosa classificação em 85º lugar, nos direitos humanos (IDH), índice da ONU.

É preciso conhecer que dívidas estamos pagando… – A auditoria é a ferramenta que nos permite conhecer e documentar tal processo. O papel da cidadania é de suma relevância. Não podemos seguir passivos – diante do contínuo e crescente ‘escoamento’ de recursos públicos orçamentários, acompanhado da entrega da riqueza nacional, de forma infame.    É necessário fundamentar…com documentos e provas – as denúncias desse vergonhoso esquema que tem submetido países e povos a uma ‘escravidão‘, incompatível à situação econômica real … suficiente para garantir vida digna e abundante para todas as pessoas.

Maria Lúcia Fattorelli é auditora fiscal aposentada, e coordenadora da organização brasileira…”Auditoria Cidadã da Dívida”… – Participou da “Comissão de Auditoria Integral da Dívida Pública” no Equador, 2007/2008. É autora do livro…”Auditoria            da dívida externa. Questão de Soberania” ( Edição Contraponto, 2003).  texto base

Publicado em Economia, política | Marcado com , | 1 Comentário

Alienação humana nas “categorias teleológicas”

“Os homens se ‘auto-criaram’ através do trabalho, mas sua                                                  história até hoje, foi apenas a pré-história da humanidade”.

É falsa a ideia de que Marx subestimava a importância da consciência, em relação ao ser material… – Na realidade, esse modo de ver é equivocado…Marx entendia a consciência como um produto tardio do desenvolvimento do ser. – Aquela impressão equivocada só pode surgir ao se interpretar tal fato por um idealismo tipo platônico. Em uma ‘filosofia evolutiva’… ao contrário – o “produto tardio” – jamais possui mero… ‘valor ontológico’.

Quando se diz que a “consciência” reflete a realidade, e sobre essa base, torna possível intervir nessa realidade… para modificá-la, quer-se dizer, que a consciência tem poder  plenamente consolidado no “plano do ser”. A essência do trabalho consiste em ir além da competição biológica dos homens, com seu ‘meio ambiente‘… Sua consolidação se realiza – não pela fabricação de ‘produtos’, mas pelo papel daconsciência‘, ao deixar de ser um mero ‘acessório‘ de reprodução biológica… – Pelas palavras de Karl Marx:

“O ‘produto‘ é um resultado, que no início do processo já                        existia (de modo ideal) na representação do trabalhador”.

Talvez surpreenda o fato, de que…exatamente na delimitação materialista…entre o ser      da natureza orgânica e o ser social…seja atribuído à consciência um papel tão decisivo. Porém, não se deve esquecer que ‘problemas complexos’ aqui emergentes (liberdade e necessidade, como exemplos) só adquirem verdadeiro sentido – quando se atribui, na “perspectiva ontológica do ser“… — um significado ativo à sua… “consciência“.

Com justa razão se pode designar o homem que trabalha…como um ser que dá respostas. Com efeito … é inegável que toda ‘atividade laborativa’ surja como solução de respostas à necessidade que a provoca, todavia o núcleo da questão se perderia caso se tomasse aqui como pressuposto uma relação imediata. Ao contrário, o homem torna-se um ser que dá respostas, precisamente na medida em que…paralelamente ao desenvolvimento social, e em proporção crescente… – ele generaliza… transformando em perguntas, suas próprias possibilidades de satisfazê-las; e…pela resposta, funda e enriquece sua própria atividade.

Não apenas a resposta, mas também a pergunta…ser produto imediato da consciência que guia a atividade não anula o fato de que, ontologicamente, o ato de responder seja o ‘elemento primário’nesse “complexo dinâmico”. 

globalA doutrina teleológica do ‘trabalho’

Com o trabalho, dá-se, ontologicamente a… ‘possibilidade humana evolutiva’ – ao ser alterada uma – “adaptação natural”…  meramente…”reativa”… – do processo de ‘reprodução do mundo’, transformado-se então, de forma ativa e consciente, numa nova ordem, fabricada com base em uma ética plenamente vinculada ao ‘ser social’.

O ‘trabalho‘ é resultado de ‘posições teleológicas‘ que põem em atividade “séries causais”. – Ao contrário da ‘causalidade espontânea‘…na qual todos movimentos, de  todas as formas do ser, encontram sua expressão geral, a teleologia é uma forma de conscientizar, que orienta certa direção às ‘séries causais‘. As filosofias clássicas, não reconhecendo a “posição teleológica” como uma particularidade do ser social – eram obrigadas a inventar…de um lado, um sujeito transcendente, de outro, um predicado especial, onde as correlações atuavam teleologicamente, a fim de atribuir à natureza,          e à sociedade…”tendências efêmeras”, de um desenvolvimento como “objetivo final”.

Mas, uma “duplicidade” aqui se apresenta… numa sociedade tornada social, a maior      parte das atividades cujo conjunto põe a totalidade em movimento, é certamente, de origem teleológica – mas a sua existência real, e não importa se permaneceu isolada,      ou…se foi inserida num contexto – é feita de…”conexões causais” – que jamais – em nenhum sentido – podem ser de… “caráter teleológico”… – Toda a “praxis social“, considerando o trabalho como seu modelo, contém em si esse caráter contraditório. 

Por um lado, a praxis é uma decisão entre alternativas, já que todo indivíduo singular, sempre deve decidir se faz algo, ou não. – Assim, todo ‘ato social’ surge de uma decisão    entre alternativas acerca de “posições teleológicas futuras“. – A ‘necessidade social‘,  por sua vez… só se pode afirmar pela pressão (frequentemente, anônima) – que exerce sobre indivíduos – a fim de que suas decisões tenham certa orientação. Segundo Marx:

“Os homens são impelidos, pelas circunstâncias, a agir de determinado modo…’sob        pena de se arruinarem’. – Eles devem, em última análise, realizar…por si próprios,          suas ações… – ainda que… – frequentemente… atuem contra sua própria vontade”.  **********************************************************************************    Teleologia diz respeito a processos do ‘ser social’…que, ao invés de puramente causais, não estão no âmbito da necessidade natural…ocorrendo por “decisão consciente”. – Daí, Lukács afirmar que… “o trabalho converte puras causalidades naturais – em agregadas“.  **********************************************************************************

Sobre categorias (de valor e trabalho)

Na ‘natureza inorgânica’… – mudanças de um modo de ser para outro, não têm nada a ver com seus ‘auto-valores‘… Porém, na ‘natureza orgânica’… como o “processo de reprodução”, ontologicamente representa ‘adaptação ao ambiente’…se pode falar de ‘êxito/fracasso‘, mas mesmo assim…essa dualidade se limita a um mero…”ser-de-outro-modo“. Todavia ao lidarmos com trabalho…distingue-se nitidamente entre   o ‘ser-em-si‘ dos objetos … e seu caráter mercadológico obtido cognoscitivamente.

No “trabalho coletivo”…então, o produto torna-se realmente ‘propriedade objetiva’, em virtude da qual, pode (“livremente”) desempenhar suas “funções sociais”. É portanto, a “objetivação real” do produto do trabalho coletivo…que dá a oportunidade de surgirem “autovalores”. E o fato de, em níveis sociais mais altos, estes valores assumirem formas mais elevadas, não elimina o significado básico…circunscrito à sua “gênese ontológica”.

Se, agora… — partirmos do sujeito — que dirige um olhar… sobre o “processo global” do trabalho, vemos que ele realiza sua posição teleológica de modo consciente… – mas sem jamais estar em condições de perceber todas as consequências, de sua própria atividade.

dejando-redes

É óbvio que isso não impede que os homens atuem… De fato, existem inúmeras situações nas quais, sob pena de se arruinar, é absolutamente necessário que o homem aja, embora tenha consciência de não poder conhecer, senão uma parte ínfima das circunstâncias… E, no próprio trabalho, o homem muitas vezes sabe que pode dominar apenas uma pequena faixa de elementos circunstantes; mas sabe também…já que a necessidade urge – que até nessas condições, o trabalho promete satisfazê-lo, em tudo aquilo que é capaz de realizar.

A dialética do trabalho                                                                                                                O trabalho é um ato de… ‘conscientização’… – que pressupõe um conhecimento            concreto, ainda que jamais perfeito, de certas finalidades e determinados meios.

Dessa natureza necessária do trabalho surgem 2 consequências primordiais. Em primeiro lugar, a dialética interna do constante…”aperfeiçoamento interno“…a qual se expressa no fato de – enquanto o trabalho é realizado, cresce continuamente a faixa de determinações que se tornam cognoscíveis, e assim – este trabalho se aperfeiçoa, incluindo campos cada  vez maiores e diversos… subindo de nível… – tanto em extensão…quanto em intensidade.  Entretanto…na medida em que tal processo de aperfeiçoamento não consegue eliminar o “fundo de incognoscibilidade”… do “conjunto das circunstâncias” – paralelamente ao seu crescimento – esse “modo de ser” desperta a sensação de uma “realidade transcendente”,  cujos ‘poderes misteriosos‘, o homem tenta, de algum modo, utilizar em proveito próprio.

Talvez a mais importante dessas diferenciações seja a tipificação crescente de atividades preparatórias, que no próprio trabalho concreto tem lugar entre o conhecimento…e suas finalidades e meios. A matemática, a geometria, física…e química, eram originariamente partes desse processo preparatório do trabalho, e aos poucos cresceram, até se tornarem campos autônomos do saber, sem perderem totalmente sua respectiva função originária.

Quanto mais universais e autônomas elas se tornam, mais universal e                              perfeito, por sua vez, torna-se o trabalho. – Quanto mais crescem e se                                intensificam… maior se torna a “influência” dos conhecimentos assim                                obtidos…sobre as finalidades do trabalho…e seus meios de efetivação.

capitalismoA “sociedade global”

O ‘processo global‘ da sociedade é um ‘processo causal‘…normativo…porém, jamais é ‘objetivamente dirigido’ para realizar ‘finalidades’…Mesmo quando alguns grupos, conseguem realizá-las, seus resultados costumam produzir –  algo totalmente diverso do ‘esperado’.  Essa discrepância…entre as “posições teleológicas”, e seus efeitos colaterais, cresce com a… “globalização“… e, o incremento da ‘participação humana’ nelas. – Naturalmente…esse ‘sentido contraditório’ também deve ser visto, quando… certos eventos econômicos globais, como a grande crise de 1929,    se apresentam a nós, sob a aparência    de ‘irreversíveis catástrofes naturais’.

Mas a história mostra que, justo nas reviravoltas mais significativas, o “fator subjetivo” foi de suma importância. É certo que a diferença entre finalidade e seus efeitos aí se expressa, como preponderância de elementos e tendências materiais, no processo de reprodução da sociedade, porém isso não significa que tal processo, necessariamente, consiga afirmar-se sem qualquer tipo de resistência. Esse fatoradvindo da reação humana a tais tendências de movimento, conserva-se em muitos campos como um determinante ‘fator de mudança’.

O predomínio econômico do mercado mundial…que hoje em dia se afirma cada vez mais forte, mostra que a humanidade já se unificou; pelo menos no sentido ‘econômico global’. É verdade que tal unificação existe apenas como ativação de princípios econômicos reais de unidade, ao se realizar de fato apenas num mundo onde essa integração é dominante.  Mas…em todo caso…estamos diante de tendências decisivas da…transformação – tanto externa quanto interna… do “ser social” – através das quais este chega à forma que lhe é      própria; ou seja – o homem deixa a condição de…’ser natural’… – para tornar-se ‘pessoa humana’ … transformando-se de uma espécie animal… – que alcançou um certo grau de desenvolvimento…relativamente elevado – em um ‘gênero humano’ – em ‘humanidade’.

Tudo isso é produto das ‘séries causais’ que surgem no conjunto da sociedade. O processo em si não tem uma finalidade… – sua evolução é no sentido de níveis superiores, por isso, contém a ativação de contradições de tipo cada vez mais elevado…mais fundamental. – O progresso é decerto, uma síntese das atividades humanas… – mas não o aperfeiçoamento no sentido de uma finalidade qualquer. – Por isso…esse desenvolvimento continuamente destrói os resultados primitivos, que… – embora belos… são ‘economicamente limitados’.

Por isso, o progresso econômico objetivo, aparece                                                 sempre… – sob a forma de novos conflitos sociais.

É assim que surgem, da comunidade primitiva humana, antinomias aparentemente insolúveis… – as “oposições de classe”; de modo que até mesmo as piores formas de inumanidade são o resultado desse progresso. No início…o escravagismo constituiu      certo progresso em relação ao canibalismo… Hoje, a generalização da alienação dos homens é um sintoma de que o desenvolvimento econômico está para revolucionar              a relação do homem…com o trabalho… – Como assim supõe o argumento de Marx:            “Os homens fazem sua história… mas não, em circunstâncias por eles escolhidas”.

pawel-kuczynski

pawel kuczynski – “necessidade/liberdade”

Isso significa o mesmo do que antes foi formulado como… – “o homem é um ser… que dá respostas”. Expressa a unidade contida no ‘ser social‘…de um modo ‘contraditoriamente indissolúvel‘… – entre liberdade e necessidade, operando o trabalho, através de… “decisões teleológicas“… envoltas em “premissas“…e “relações causais“…numa unidade que se reproduz… ‘continuamente‘… sob formas sempre novas, cada vez mais complexas e mediatizadas em todos níveis “sócio-pessoais” da atividade humana. – Por isso… Marx considera o período inicial da autêntica história humana: um ‘reino da liberdade‘… – o qual…só pode florescer sobre a base do “reino da necessidade“… (ou seja, da forçosa reprodução econômico-social das tendências pragmáticas do progresso). 

Liberdade x Necessidade                                                                                                            “O tipo especial de razoabilidade do reino da liberdade jamais eliminará                                  o… fundamental propósito – desempenhado pelo reino da necessidade”.

Precisamente essa ligação do “reino circunstancial da liberdade”…com o “reino econômico da necessidade”, mostra como o gênero humano seria o resultado de sua própria atividade. A liberdade…bem como sua possibilidade, não é algo dado por natureza, não é um dom do “alto”… e nem sequer uma parte integrante – de origem misteriosa…do ser humano. – É o produto da própria atividade humana – que decerto sempre atinge concretamente alguma coisa diferente daquilo que se propusera, mas que nas suas consequências, objetivamente, e de um modo contínuo…dilata o espaço…dentro do qual… – a liberdade se torna possível.

E, tal dilatação ocorre, de modo direto, no processo de desenvolvimento econômico, no qual, por um lado, acresce-se o número e alcance das decisões humanas alternativas…e por outro, eleva-se a capacidade humana, na medida em que se elevam as tarefas, fruto    de sua própria atividade. – E tudo isso, naturalmente, ainda no…’reino da necessidade’.

Marx define o “reino da liberdade” como um “desenvolvimento de energia humana que é fim em si mesmo”portanto, como algo que… – tanto ao indivíduo…quanto à sociedade, possui conteúdo suficiente para então transformar-se em uma ‘finalidade autônoma’… É claro que tal adequação, pressupõe um nível do “reino da necessidade”… do qual – ainda estamos muito longe…Só com o trabalho efetivamente dominado pela “raça humana“, e portanto, com a possibilidade de ser, não apenas meio de vida, mas sua “1ª necessidade”,   e a humanidade tiver superado qualquer caráter coercitivo — em sua trajetória evolutiva de “auto(re)produção”…que essa tal de…”liberdade” – será então… plenamente possível.

Desse modo, terá sido aberto o caminho social da ‘atividade humana’… como fim autônomo, ou seja, criadas as condições materiais necessárias … e um ‘campo de possibilidades’ para o ‘livre emprego’ do produto da atividade humana… fruto do desenvolvimento necessário, bem como, resultado da utilização correta … do que necessariamente for produzido – para o “bem-estar comum”…da “humanidade”.

A própria liberdade não pode ser apenas um ‘produto necessário’…de um desenvolvimento inevitável, ainda que todas premissas de sua explicitação encontrem aí, suas possibilidades de existência. – É por isso que não estamos aqui, diante de uma utopia… A princípio, todas as suas efetivas possibilidades de realização…são produzidas por um ‘processo necessário‘. Não é casual portanto, que no trabalho… – em seu ‘estágio inicial’…seja dado tanto peso ao momento da liberdade na decisão entre alternativas. O homem deve adquirir sua liberdade através de sua própria atuação. – Mas ele só pode fazê-lo…se toda sua atividade também já contiver em sua parte constitutiva – um sentido indispensável de “liberdade“. (texto base************************************************************************************

As categorias ontológicasde Hegel a Marx (segundo Lukács)                               Para Hegel…o pensamento cria a realidade – como uma manifestação exterior à ideia. Já para Marx…a ‘realidade material’ cria o pensamento, e a dialética vai se processar, em condições…tanto históricas quanto sociais…pela “realidade” da existência humana

karl_marx-fraseA “crise pós-moderna“… que acomete diversas concepções filosóficas da ‘contemporaneidade’ resulta basicamente do abandono no interesse na elucidação das condições fundamentais em que a realidade social… tal qual um complexo de complexos, se vê envolvida. – Expressam a ideologia de um ‘tempo histórico‘, pautado no fim das utopias…e negação velada à revelação perspectiva da…essencialidade…das coisas.

Em certa medida pode-se afirmar que a concepção hegeliana…bem                                      como a marxista se constituem como tentativas modais de elucidar                                      as ‘contradições’… – que como um todo… – perpassam a realidade.

Marx (materialismo dialético) x Hegel (idealismo objetivo)

Tanto o ‘idealismo objetivo’ de Hegel… – quanto o ‘materialismo marxista’, partem do entendimento de que é necessário ultrapassar a percepção imediata da vida cotidiana,    que se manifesta de maneira bastante multifacetada e heterogênea, para se alcançar a essencialidade das coisas… – E, para isso, é fundamental superar, tanto o terreno das idiossincrasias que emanam de uma “percepção imediata” da realidade … quanto um conhecimento fragmentário… – resultante de uma…”representação caótica”…do todo.

Isso todavia não implica uma desconsideração pela vida cotidiana,              visto que esta se constitui no “celeiro” de onde emanam as questões decisivas … que envolvem toda a investigação científica e filosófica.

Embora a filosofia hegeliana se movimente sobre um terreno bastante movediço, consegue se desprender do processo de mistificação da realidade…ao observarmos que ela considera suas categorias, como que brotando de um desenvolvimento do ser social, ou seja, dotadas de certos ‘determinantes ontológicos‘. Por outro lado…pela ‘perspectiva lukacsiana’, a “ontologia marxista” se interessa em elucidar a gênese (‘evolução dialética’) do “ser social”, enquanto ‘ser’ que se constitui historicamente, e não um ‘ente’ brotando pronto e acabado.

A totalidade social, enquanto um complexo de múltiplas determinações, pressupõe um processo de isolamento…ou abstração…em que ‘determinação’ aparece como essencial elemento em todo esforço de apreensão da natureza constitutiva do Ser…E o ‘processo determinístico’ é uma ‘negação‘ na medida em que significa um “adentrar nas malhas mais profundas do Ser”… para de lá, exibir sua legítima constituição – ‘mais singular’.

Por tudo isso…para que o ‘todo’ possa emergir como um aspecto concreto, e não uma mera aparição caótica, é preciso estabelecer a conexão com sua parte estudada. Essa perspectiva tem sua gênese na “filosofia hegeliana”… enquanto concepção que estabelece as bases para uma nova compreensão das…’questões ontológicas‘. – À proporção que as categorias se afirmam como dotadas de uma realidade essencialmente dinâmica, penetrada pela relação dialética entre unidade e multiplicidade, conteúdo e forma, aparência e essência … a partir daí…a substância não emerge como algo estático; mas um ‘ente‘…em essência…’dinâmico’.

As “categorias hegelianas”                                                                                                    ‘Categorias’ são produto das ‘relações sociais’ no desenvolvimento                                      fundamental dos meios de produção … e reprodução da realidade.

Hegel

Hegel, com seu idealismo lógico-ontológico…foi um precursor no domínio do pensamento prático, na medida em que concebeu… a seu modo… a ‘ontologia’… como uma história. Em contraste com a ontologia religiosa, a de Hegel partia de baixo… do seu aspecto mais simples, para evoluir até o “cume” – das objetivações mais complexas da “cultura humana”.

Apesar de Aristóteles compreender a lógica como inteiramente independente do preceito pragmático da utilidade, ele considerava que a ciência (“metafísica“) só poderia florescer numa época em que um grupo de homens alcançasse… ‘quase todo o necessário‘, ou seja, as ciências…como a matemática, apenas puderam se desenvolver precocemente no Egito, porque ali a casta dos sacerdotes se encontrava ‘pronta’, em condições de ter tempo livre.

Contudo, entende Hegel que a “lógica” não é algo “extemporâneo” ao movimento que perpassa o tempo histórico. Mas, no estado em que se encontra apenas se reconhecem  nela ‘indícios’ do método científico. Portanto, para se vivificar mediante o espírito seu “esqueleto morto”, até dar-lhe substância e conteúdo… – seria necessário que, por seu próprio método, sua lógica fosse capaz de construir uma ‘ciência pura’. Desse modo, a perspectiva hegeliana corrobora uma articulação existente – entre o desenvolvimento    das ‘categorias ontológicas’ do conhecimento … e o próprio desenvolver da ‘realidade’.   

Naturalmente, o acento caía sobre o ‘ser social’ e seus produtos;              além se ser uma característica de seu pensamento … – o fato do            homem se apresentar…assim como… – o “criador” de si mesmo.

Nesse sentido… Hegel contesta o caráter histórico do afastamento do pensamento              em relação ao mundo, nos seguintes termos…Ele entende que é na ‘vida cotidiana’          que se aplicam as categorias lógicas/matemáticas…e que estas comparecem como abreviaturas da realidade…devido ao seu caráter de abrangência e universalidade.

E, estas categorias também servem como definições mais precisas de ‘relações objetivas’, em que, mesmo sem atribuir qualquer importância às suas influências individuais… – o conteúdo de verdade do pensamento aparece como totalmente dependente do existente. 

logica-fundamentoA lógica da linguagem humana

Na verdade, a lógica não é uma coisa ‘distante do mundo’ – não é algo que paire… ‘no céu de uma subjetividade‘, destituída de qualquer sentido; basta observar o cotidiano – para perceber que a “linguagem humana” presume (para si) … a sua própria “existência”.

A lógica, por exemplo… – está presente na maneira como os homens sentem – pensam…e desejam as coisas… – e pode-se dizer que também está presente na vida…proporcionando representações e finalidades. Por adentrar em todas relações e atividades naturais, de um modo abstrato, parece ser algo sobrenatural e distante da realidade… quando, na verdade, é tão somente uma “abstração universal“… – muito peculiar ao modo de ser da ciência.

A própria ‘linguagem humana‘ é perpassada por uma série de ‘expressões lógicas’… – que servem para apontar as “conclusões” do pensamento. – Sem dúvida que tais expressões se inscrevem no âmbito das sensações que compõem a “linguagem cotidiana”… que se utiliza  de suas categorias, geralmente sem plena consciência de sua natureza. – Nesse aspecto…a “tradição marxista” possui certa semelhança… — pois suas categorias podem influenciar a sociedade antes mesmo de serem apropriadas conscientemente pelo homem. Diz Lukács:

“É próprio do processo efetivo da realidade mostrar que a                  consciência surge… após o desenvolvimento do ser social”.

“Fenomenologia do espírito”                                                                                                   O tratamento adequado da propriedade essencial das coisas presume o adentrar               no reino íntimo das categorias. É nesse espaço que é possível falar das essências;            porque o conceito destas… – somente pode surgir… – na “esfera do pensamento”.

Na Fenomenologia do espírito Hegel afirma que toda novidade apresenta-se inicialmente como abstrata (em-si), para depois explicitar-se gradualmente em formas mais concretas. Assim, o ser para-si somente é possível a partir do ser em-si, isto é…as formas superiores do ser passam pela mediação de suas formas mais simples… – Na ‘perspectiva hegeliana’,  a gênese processual da realidade, fornece a chave para a compreensão de todo ‘resultado’.

O mérito da Fenomenologia do espírito consiste em apontar que as categorias surgem na consciência humana, enquanto expressões do modo de ser da processualidade das coisas. Por isso que Hegel na sua “Ciência da lógica” trata das “determinações reflexivas”, numa seção denominada ‘fenomenologia’. Aí, tudo parece mover-se no terreno da ‘gnosiologia’, ao Hegel revelar uma razão vinda do entendimento… – a constituir-se em sua ‘realidade’.

Hegel - frasesPor não se restringir ao dualismo entre sujeito/objeto…muito menos à simples consideração finita e limitada do saber,        a “lógica hegeliana” vai além da “lógica transcendente” de Kant…superando as “idiossincrasias” das determinações de ‘finitude’ operadas pelo entendimento,        até enfim alcançar o “terreno racional”        da ‘infinitude‘, e adentrar na esfera do conceito — enquanto uma “articulação dialética” … entre finitude e infinitude.

Por exemplo, o ‘absoluto’ é um processo de síntese concreta de movimentos                   reais… – é identidade da identidade. – Ele não repousa numa ‘imobilidade transcendente’…indiferente ao movimento efetivo da realidade… – mas se                             constitui como “quintessência” das variações…que percorrem a realidade.

A interação dialética entre ‘entendimento’ e ‘razão’ … serve de prelúdio à compreensão hegeliana da realidade como uma totalidade dinâmica e contraditória. É por isso que o ‘idealismo hegeliano’ considera que a essência das coisas emana da evolução do sere, não…simplesmente dopensamento‘, como postula Kant. Sendo assim, para Hegel não       é possível afirmar as categorias como uma propriedade do sujeito, pois este não detém       a propriedade conceitual das coisas. O que o sujeito realiza pela mediação da ciência, é     tão somente descobrir uma lógica imanente nelas. O ‘conceito das coisas‘ surge de sua própria essencialidade, e não produto de uma subjetividade transcendental (kantiana)

O conceito de “Consciência” em Hegel                                                                                 “Não podemos nos sobrepor ao objeto; nem…                                                                 tampouco ultrapassar a natureza das coisas”.

Na perspectiva hegeliana, a atividade do pensamento comparece como uma força movente que trama todas nossas representações…fins, interesses e ações; atuando como uma lógica natural inconsciente…O que nossa consciência tem diante de si é o conteúdo – objetos das representações, que preenchem nosso interesse… As determinações do pensamento valem como formas, que pertencem ao conteúdo. A atividade mais elevada da “ciência lógica“…é libertar as categorias da perspectiva fragmentada… meramente instintiva; ressaltando que o conhecimento em si constitui-se com um atributo fundamental da ‘realidade do espírito’.

dialética.jpgNesse contexto é que se podem compreender as categorias da ‘identidade’…e da ‘diferença’. Segundo Lukács essas expressões categoriais não são ‘construtos’ do “sujeito cognoscente”, mas pertencem à própria “materialidade” da realidade, ou seja…o preceito da ‘identidade’ do sujeito não se funda na…’lógica formal’… mas em uma ‘objetividade’… – intrínseca ao ‘objeto material’…que se pretende conhecer.

A afirmação e negação da identidade…constituem-se como elementos imanentes à ordem do ser, não procedendo pois do sujeito do conhecimento. A identidade não emana de fora das coisas, mas da “processualidade” do mundo (interação das forças e ações recíprocas),  como uma ‘propriedade objetiva’. É a própria dinâmica do ser que indica um movimento de interação e oposição – ao afirmar e negar seus componentes categoriais. A lei do devir faz parte de toda estrutura do objeto… e a tarefa do pensamento é apenas se apropriar da razão imanente que perpassa as ‘malhas processuais’ da realidade. – O tornar-se outro é expressão de mudanças que se dão na própria constituição do “ser objetivo” (material).

“Forma x Conteúdo” (…e a crítica de Lukács a Hegel)                                                     “Ao introduzir o conteúdo na investigação lógica, não são as coisas,                                           senão o o ‘conceito das coisas’…o que se converte no objetivo final”.

Hegel recusa ainda qualquer formulação que compreenda conceitos como ‘formas puras’, separadas do conteúdo, denunciando a “esterilidade das categorias puramente formais”. O conteúdo separado da forma é vazio, pois não pode existir sem forma, assim como a forma não pode existir sem conteúdo (como quer a ‘lógica tradicional’)…A forma tem a obrigação de oferecer uma “manifestação fenomênica” ao conteúdo. E sobre isso Hegel ainda afirma:

“O conceito tem subentendido em si todas determinações anteriores do pensar…é o ‘pensamento universal’…incomensurável abreviação diante       da ‘singularidade’ dos objetos, tais como estes se apresentam à intuição       e…representação de sua ‘existência’… totalmente indeterminados”.

O ‘conceito’, como movimento dialético de singularidade, particularidade e universalidade surge da relação objetiva de diferenciação e contraste entre objetos. Desse modo, a relação de determinação como negatividade serve de preâmbulo para a compreensão da distinção existente entre a natureza ontológica ou intrínseca de uma coisa…e sua qualidade exterior.

aparencias-enganamPara Lukács…o caminho do saber vai do ‘ser abstrato’ – à essência mais concreta, enquanto na realidade… a essência mais concreta e complexa… – é, um ‘ponto de partida’ do qual, abstratamente, se pode obter — o… “conceito ontológico do ser”.

Porém…quando Hegel tenta fazer brotar de sua natureza… as origens da essência do ser, tal conceito padece de equívocos.

Lukács entende que não dá para sustentar a tese hegeliana, de que o conceito emana do movimento da essência do ser… – pois seus aspectos lógicos acabam contrapondo-se às exigências reflexivas em que as categorias brotam do mundo objetivo, desconsiderando assim, os “aspectos ontológicos”. Ou seja, o ‘ser coletivo’ e o ‘ser individual’, nesse caso, não brotam das determinações de um mesmo processo… – Para Lukács… o ‘conceito’ é fruto da tentativa de constituição da identidade sujeito/objeto – e não… de um ‘avanço processual’ do ser, como faz entender a ‘filosofia hegeliana’, ao conceber as ‘resoluções’    do pensamento como conteúdo de uma “suprema verdade lógica”… na qual é sujeito, e objeto de si mesmo. — Como assim definiu Hegel… “As determinações do pensamento têm…em si mesmas – valor e existência objetivas.”  Eis então, o que impede a ‘filosofia hegeliana’ de poder avançar… – em direção a uma efetiva compreensão da “realidade”.

Críticade Marx a Hegel                                                                                                         

Para Marx é impossível alcançar a efetividade do ser mediante a mera reversão ideal de um processo de abstração…que tem o seu ‘ponto de partida‘ num conceito logicamente esvaziado de ‘determinação ontológica‘. Não é pela mediação do movimento do pensar consigo mesmo que se chegará à “objetividade” da lógica, pois ao se partir do “reino do abstrato”…e não do mundo concreto…constituímos uma abstração carente de resposta.

Marx destaca que… um ‘ser indeterminado’ não passa de uma construção do pensamento … pois não é possível alcançar a essencialidade das coisas, afastando-se progressivamente de seu ‘movimento ontológico’… – e assim abstrair do ‘movimento processual’ contingente — seus riscos e acidentes”.

océudacavernaO problema da ‘perspectiva logicista’ é que ela se afasta das efetivações da ‘processualidade‘ do ser social, para pairar, de forma absoluta…no ‘reino da ideia’, onde o pensamento…é sua própria ‘autodeterminação’…em um pano de fundo de categorias lógicas, pelas quais os ‘preceitos hegelianos’ conferem uma “força descomunal“; onde…para Marx… “Toda realidade submerge, em um mundo abstrato”.  A realidade objetiva assim subverte-se às… “categorias lógicas” – para aí encontrar ‘substancialidade’, onde o “método absoluto” de Hegel … tanto explica todas as coisas como implica o movimento delas… – em inusitada tentativa de… na ‘abstração da ideia, afirmar a síntese conceito/realidade.

Com efeito…ao não levar às últimas consequências as disposições objetivas das categorias, e erigir a “ideia” como momento predominante – reveladora da razão em si mesma…e em todas as coisas…Hegel pretende fazer dela, o que existe de mais elevado, ou seja, a síntese do conceito e da realidade…“O que é racional é real, e o que é real é racional”…ou seja, é a consciência que decididamente define realidade; circunscrita à sua forma de pensamento.

Assim, a tentativa hegeliana de constituição de uma nova fundamentação filosófica acaba consistindo apenas numa nova roupagem de reprodução da velha perspectiva fundada na ‘consciência sobre o ser’…à medida que o ‘absoluto’ surge como o processo de síntese, em que todas diferenciações são submetidas ao nível especulativo, por uma ‘autoconsciência do espírito’… – Por esse motivo…a ‘determinação ontológica’ das categorias não pode ser concluída – e apenas com Marx assumirão verdadeiramente suas funções processuais na realidade… e não meras definições lógicas. – Por seu princípio ser a “realidade material”,  e não “preceitos lógicos” do pensamento, a “dialética materialista” levará as formulações de natureza objetiva das categorias postuladas por Hegel, às suas últimas consequências.  A determinação ontológica das categorias em Hegel e Marx segundo Lukács (Abril/2013) ***********************************************************************************

O conceito de “trabalho ideológico”                                                                                    “O desenvolvimento e aperfeiçoamento do trabalho é uma de suas características onto­lógicas que, ao se constituir…chama à vida produtos sociais de ordem mais elevada. E, talvez o mais impor­tante desse produto, seja a crescente autonomia de suas ativi­dades preparatórias, na separação relativa entre o conhecimento e suas finalidades e meios”.

No texto… “As bases ontológicas do pensamento e da atividade do homem”… de Gyorgy Lukács, no início de 1968, o filósofo marxista observou que…com o desenvolvimento da ‘divisão social do trabalho’ – temos o seu aperfeiçoamento, e diferenciação numa escala ampliada, trazendo não só a separação de ‘campos autônomos’ do saber… mas também,      o surgimento de um novo tipo de ‘trabalho humano’… que não trata apenas de ela­borar ‘fragmentos da natureza’ consoante suas finalidades… – Conforme Lukács…o homem      é induzido a rea­lizar certas posições teleológicas, segundo um modo pré-determi­nado”.

Enquanto a posição teleológica primária…típica da natureza do trabalho produtivo,        trata do intercâmbio com a natureza, a posição teleológica secundária — própria da natureza do trabalho ideológico, derivado do trabalho produtivo propriamente dito              é essencial à reprodução social, influenciando outras visões em movimento – o que significa que a posição teleológica não pode jamais ter um caráter puramente ideal,    quando o seu objeto (fim)…é o homem, com suas relações, ideias, sentimentos, etc.

O “trabalho produtivo”

Uma ‘concepção empirista’ do trabalho tende a reduzi-lo a um tipo de trabalho voltado somente … à transformação da natureza pelo homem. – Esse trabalho, predominantemente formado segundo  posições teleológicas primárias onde o homem, ao criar um novo objeto, nele se reconhece…”sujeito da criação”…dá início a seu processo de exteriorização.

Neste sentido, o trabalho produtivo não só cria um novo ser,                            como engendra a si mesmo – como “ente humano genérico”.

De Bacon a Marx – as definições de trabalho põem em destaque, a transformação da natureza pelo homem, para servir a suas necessidades… O “trabalho produtivo”, que          se distingue do…“trabalho ideológico”…diz respeito, nesse caso, à forma material da atividade laborativa, e não propriamente à sua forma social – isto porque…’trabalho produtivo’ na perspectiva sócio ontológica é o trabalho concreto que produz ‘valores            de uso’. – Por outro lado, na “perspectiva sócio-histórica”…sob o modo de produção capitalista, trabalho produtivo é todo trabalho que produz ‘mais-valia’. Desse modo, atividades profissionais que têm como base estruturante o…“trabalho ideológico” –    como, por exemplo, o trabalho do professor – sob determinadas condições…podem          ser consideradas “trabalho produtivo” – na medida em que produzem “mais-valia”.

Esse “trabalho ideológico” é uma modalidade de trabalho humano constituído, em seu momento predominante, por posições teleológicas secundárias, isto é, uma ação social visando induzir certas… posições teleológicas – de acordo com um modo pré-determi­nado, visando assim encontrar meios que garantam sua “unitariedade finalística”,    conforme a uma… – divisão social do trabalho“… – o mais diferenciada possível.

A partir do momento em que surge a ‘divisão do trabalho’,                        essas novas posições … tornam-se um meio indispensável                                  a todo trabalho que se funda sobre a sua própria divisão.

Com a diferenciação social de nível superior e o nascimento de classes com interesses antagônicos, esse tipo de posição teleológica secundária torna-se a ‘base estruturante’      do que o marxismo chama “ideologia“…quando sua função social autonomiza-se do trabalho produtivo, tornando-se uma atividade social, ou profissão, imprescindível à reprodução social. E assim, a natureza do trabalho ideológico incorpora em sua ‘base estruturante’…a ideologia, como posição teleológica secundária, na ação dos homens    sobre si mesmos e suas consciências, pondo em movimento… “posições teleológicas”,        seja no sentido de “conservar”, ou no sentido de “transformar” a realidade existente.

trabalho-ideologico

Signos e Instrumentos

Após a revolução industrial…ocorrida entre os séculos 18 e 19 – o “trabalho ideológico” surge como uma nova forma social da “produção do capital”, imprescindível…não só à reprodução social, mas também à ‘organização produtiva’. Esta “ação social”, visando ao… ‘engajamento estimulado’ na produção do capital, se traduz como o trabalho de gestão e controle … numa modalidade de ‘trabalho ideológico’, cada vez mais imprescindível…na produção do capital.

Este “trabalho ideológico”…no sentido lukacsiano, trata-se de um campo qualitativamente oscilante…imprevisível…onde a ação dos homens sobre outros homens, se junta à enorme imprevisibilidade de suas reações – ampliando em muito o grau de dificuldade relativo ao conhecimento da “objetividade natural”, típica de posições do trabalho. Como trabalho de mediação, o viés ideológico implica no uso de um tipo particular de elemento…o “signo“.

Considerando que a relação homem/mundo não é uma relação direta,        mas, fundamentalmente, uma ‘relação mediada’…podemos distinguir        dois tipos de elementos mediadores – os instrumentos e os signos.

instrumento…elemento mediador do trabalho; interposto entre o trabalhador e o objeto de sua produção – amplia as possibilidades de transformação da natureza pelo homem. Como elementos externos ao individuo – têm a função é provocar mudanças      nos objetos, no controle dos processos de produção. Já os signos – o outro elemento mediador da relação homem/natureza…também chamado “instrumento psicológico”, são orientadas para dentro do individuo; buscando o controle de suas próprias ações.

Com o ‘recurso aos limites naturais’…que caracteriza o ‘processo civilizatório’; com a diminuição do tempo de trabalho socialmente necessário à produção, e um processo        de reprodução, cada vez mais nitidamente social…crescem…na esfera da reprodução social, as modalidades de “trabalho ideológico”, e inclusive, de sua própria produção.

alienação trabalhoO “trabalho ideológico”

O “trabalho ideológico”, como um trabalho concreto, distingue-se do…’trabalho produtivo’ – embora hoje, esteja dele cada vez mais impregnado… – a ponto de tornar-se fundamental no sistema produtivo, não só pela ação (‘desmedida’) do homem sobre a natureza, mas, inclusive, pela intervenção sobre si próprio, na  captura subjetiva do trabalho pelo capital…exigindo cada vez mais uma…”incorporação ideológica”…nas relações do trabalho, com a finalidade de garantir a eficácia nos resultados da produção através da ação do homem… – sobre os seus próprios ‘semelhantes’.

Numa perspectiva sócio ontológica, podemos conceber historicamente o trabalho humano para além da concepção empirista que o reduz a “trabalho produtivo”. – A atividade social caracterizada pelo agir sobre os próprios homens… sobre suas consciências – para pôr em movimento suas posições teleológicas – seja no sentido de conservar, ou de transformar a realidade existente… também é trabalho – é o que denominamos de “trabalho ideológico”, que tem como base estruturante…”posições teleológicas secundárias”…que articulam, por meios eminentemente ideológicos…funções da reprodução dos indivíduos e da sociedade.

Por consequência, a natureza do ‘trabalho ideológico’ caracteriza hoje – o                        traço essencial de uma série de ocupações profissionais, que representam                              as modalidades do trabalho constituintes de uma “sociedade de serviços”.

Todo trabalho humano, produtivo ou ideológico…é formado – segundo Luckás, por posições teleológicas: primárias e secundárias. – O ato consciente que caracteriza o trabalho humano como modelo de práxis social, implica tanto posições teleológicas primárias, quanto secundárias, implícitos elementos do processo – que marcarão o homem como espécie diferenciada. Entretanto…o ‘trabalho ideológico’ é o trabalho        que se caracteriza pela predominância da posição teleológica secundária … na ação ideológica…que se utiliza de uma “cadeia de mediações”, cada vez mais articuladas.

O trabalho como fundamental categoria ontológica própria ao ser social é formado          por…”posições teleológicas”, que a cada oportunidade, põem em movimento séries causais…envolvendo tanto instrumentos produtivos, quanto elementos (signos) de mediação das “posições teleológicas” (primárias e secundárias)…componentes do processo de trabalho. – Todo trabalho humano … inclusive o “trabalho ideológico”,    implica na articulação de instrumentos e signos – onde estes, no caso do “trabalho ideológico”…tornam-se essenciais à posição teleológica secundária…na medida em            que se desenvolve a sociedade de serviços e amplia-se a escala dos conflitos sociais.

O ‘trabalho ideológico‘ – formado por posições teleológicas secundárias…constitui            hoje a esfera das ocupações profissionais vinculadas à reprodução e controle social. 

Alienaçãona vida & trabalho    Alienar: ‘tornar algo alheio a alguém’.

O conjunto de profissões do…”mundo do trabalho”…que representam hoje o ‘trabalho ideológico’ — sob o modo de produção capitalista está impregnado de alienação. Primeiro … as exercidas como meio de ‘vida social’ do sistema lógico…típico ao trabalho assalariado.  Depois, em seu controle de interesses.

O conjunto de profissões que representam o trabalho ideológico torna-se então um campo através do qual os homens se conscientizam desses conflitos, e neles se inserem, mediante a luta. E, como modalidades de trabalho assalariado, no setor privado ou público, elas são regidas pela lógica do trabalho abstrato, submetendo-se aos parâmetros de produtividade.  Assim, nas sociedades de classes sociais com interesses antagônicos o trabalho ideológico assume – cada vez mais…’caráter manipulatório’…onde a ideologia aparece como recurso sistêmico de controle e manipulação social (é o sentido negativo da ideologia, como “falsa consciência”). – À medida em que a “forma material” do trabalho ideológico se impregna da “forma social” da produção do capital, suas modalidades incorporam diretamente…ou, por derivação, o sentido do trabalho capitalista como “trabalho alienado” (daí o problema da precarização das categorias assalariadas… – dos serviços, e da administração pública).

A “sociedade do capital” sob a ação do “capitalismo manipulatório” aparece cada vez mais como “sociedade de serviços”, tendo em vista que os serviços, principalmente aqueles que  têm como base estruturante o ‘trabalho ideológico’…são formas materiais adequadas para o exercício da… “manipulação”… que, como ‘posição teleológica secundária’…socialmente condicionada por interesses da ‘reprodução social’ do ‘sistema capitalista’ (…no consumo, lazer e política) torna-se traço essencial do metabolismo social da modernidade burguesa.

Com o capitalismo global, todas as formas de trabalho humano impregnam-se da forma social do trabalho alienado, não importando se o trabalho humano é, no plano material, “trabalho produtivo” ou “trabalho ideológico”, ou no plano social…“trabalho produtivo”, ou “trabalho improdutivo”. O que é relevante na perspectiva da ontologia do ser social é      a vigência do ‘trabalho alienado’ como forma social de inclusão do ‘trabalho concreto’, à lógica do ‘trabalho abstrato’. É por isso que, hoje… o ‘trabalho ideológico’…assume uma forma alienada, ou melhor – o ‘trabalho concreto’ assume a forma de ‘trabalho abstrato’.

“Gestões perversas”

O “trabalho ideológico”…das profissões vocacionadas… — exige do trabalhador, cuidado, abnegação e doação…Todavia, na ‘sociedade do capital’…em sua etapa de ‘crise estrutural’, à medida em que a forma material do “trabalho ideológico” impregna-se da forma social do capital, caracterizada pelo trabalho alienado, é então, assim constituída – uma “lógica subjetiva” … de natureza bem perversa.

Se por um lado, temos o ‘trabalho ideológico’ como uma atividade meticulosa, envolvendo a pessoa humana numa dedicação total – por outro…na medida em que a lógica do capital impregna a relação laboral das profissões – dissemina-se uma forma de “adormecimento” entre todas categorias profissionais assalariadas que exercem o ‘trabalho ideológico’…isto é, a modalidade de trabalho humano que implica, por completo, a ‘subjetividade humana’, na medida em que possui como base estruturante a ação do homem sobre outros homens.

Uma das características cruciais do ‘trabalho ideológico’ como trabalho humano concreto,  é implicar, de modo radical, a subjetividade do trabalhador com sua atividade laboral. Na medida em que o capital amplamente incorpora … na lógica do trabalho abstrato, as mais diversas modalidades de ocupações profissionais dos serviços – educação…saúde, justiça, segurança pública, etc. dissemina-se então, amplamente, o fenômeno da alienação social.  Na ideologia orgânica da gestão capitalista, sua presença, dentro do processo de trabalho de amplas camadas assalariadas – não apenas do mundo da produção…mas também dos serviços diversos e administração pública…contribuem efetivamente para a afirmação de uma característica extremamente perversa…como gestão capitalista do trabalho humano.

Imagens da semana 199 - http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=11629

A rigor… a “captura”…da subjetividade do trabalho pelo capital é um modo perverso de ‘implicação humana’ – pois, ao mesmo tempo em que envolve…’emocionalmente’ o trabalhador assalariado…pelo conteúdo da atividade laboral, o insensibiliza como ser humano, na medida em que impõe os parâmetros de um ‘trabalho abstrato’. Ao mesmo tempo em que… o trabalhador da indústria, serviço, administração pública, se envolvem subjetivamente, ao trabalho concreto (inclusive, sendo tratados como ‘parceiros’), eles são … “insensibilizados” como seres humanos, na medida em que seu tempo de ócio é reduzido, em função de um tempo…permanente…de trabalho.

Tal processo assume dimensões perversas, no caso das modalidades de trabalho ideológico onde a matéria social do trabalho concreto é a ação do homem sobre outros homens, o que significa que o modo de gestão é como uma “manipulação reflexiva” da subjetividade… nas condições flexíveis do capitalismo global, manipulado sob domínio desse espírito perverso. Com efeito, o problema da invasão do tempo de vida pessoal – pelo tempo que impregna a atividade laboral…é o principal problema da ‘alienação social’ dos profissionais dessa área.

Nesse caso, ao invés do trabalhador assalariado tornar-se “patrão de si mesmo”, com suposta margem de “autonomia”…ele irremediavelmente,  por conta da ‘manipulação reflexiva’…torna-se “carrasco de si mesmo”.

A implicação perversa do “trabalho ideológico” nas atividades laborais responsáveis pela reprodução social, é… em especial, bastante visível, no caso do trabalho de formação dos professores como profissionais – imersos em sua “criação pedagógica”. – A princípio, o trabalho deles é um ‘trabalho ideológico’ que em si mesmo…possui “dimensão invasiva”. Desse modo, o profissional encontra satisfação nessa ‘implicação criativa’, entretanto, o problema reside na subordinação do trabalho à lógica do mercado/capital. (texto base)    ****************************(texto complementar)*********************************

A finalidade teleológica                                                                                                  Segundo Kant o uso da teleologia é justificado no estudo do ser vivo,                                      ou da obra de arte, pois nos 2 casos – a explicação teleológica … que                                considera as partes…em virtude do todo… – é a única esclarecedora.teleologia

A ideia de teleologia aponta uma ‘finalidade’. Constituindo-se uma                                    ‘teoria do sentido’ nas Ciências Sociais e Humanas, ela remete a uma                              finalidade da “ação humana”, atribuindo-lhe assim, um fundamento.

Este entendimento do sentido da…”ação histórica”, prolonga a tradição filosófica ocidental, que se organiza em torno da “procura da verdade”. – Neste paradigma,            razão e verdade percorrem um caminho comum – a saber… – instância soberana                de decisão…a razão é una — enquanto, por sua vez…a verdade é única e eterna.

Em larga medida, a retórica da vida intelectual contemporânea mantém como evidente que a finalidade da pesquisa científica… — cujo objeto é o ser humano — consiste em compreender as…”estruturas subjacentes”…os “invariantes culturais”…ou, os “modelos biologicamente determinados”De algum modo, ciências sociais e humanas garantem    “a determinação do ser como presença”, e a ideia de objetividade científica, é apenas mais um daqueles nomes que…ao longo da História…designaram a invariância de uma presença plena (fundamento): essência, existência, substância, sujeito, transcendência, consciência, Deus, Homem…Em todos casos, é a ideia de fundamento, como “presença plena”, lugar natural e fixo, que permite projetar um sentido teleológico … cuja origem pode ser uma…”descoberta arqueológica”…e o fim, antecipado na “forma escatológica”.

Foi, no entanto, Nietzsche…quem, no século 19, contrariou – antes de qualquer outro, o paradigma fundacionista e teleológico, ao emancipar o pensamento, ou melhor, o nosso modo de pensar, da metafísica. E o que é a metafísica?…Para Nietzsche…é um princípio, que prevaleceu de Platão a Schopenhauer, pelo qual pensar é descobrir o “fundamento” que nos permita falar conforme o verdadeiro, e agir de acordo com o bem e com o justo.

friedrich_nietzsche_frasePara Nietzsche, todo discurso, mesmo o da Ciência, ou da Filosofia, é apenas uma… “perspetiva” — onde a verdade, inscreve-se numa história da verdade. Isto quer dizer, que eles são a própria condição do nosso… – “ser histórico”; e desse modonão podem se esgotar nuncanum saber total de si próprio.

O princípio da ‘historicidade do ser’ implica que a “existência” seja essencialmente “uma experiência”, e que a verdadeira experiência seja a dos limites, ou da finitude humana. A ideia “não fundacionista” da verdade, e portanto, a ideia de uma visão não teleológica da ação humana – é, no entanto, a conquista de toda uma época (a nossa época)…quando a “linguagem invade o campo do “conhecimento“, a ponto de tudo se tornar discurso.

Com efeito, ao estabelecer-se como “casa comum” para as Ciências Sociais e Humanas, a “linguística”, nas suas versões estruturalista e pragmática, faz ruir a opção fundacionista, porque traduz uma preocupação pela forma na produção do sentido, ou seja, refratária à qualquer descrição factual da realidade. Como todo sistema de significação e, segundo Derrida, portanto também a ciência produz-se no elemento do discurso, isto quer dizer que a verdade passa a ser entendida como “uma função”, uma espécie de não-lugar, que torna possível – uma prática…e um jogo infinitos – tanto de ‘substituições de signos (“perspetiva estruturalista”), como de ‘empregos de signos (“perspetiva pragmática”).

São os nomes mais emblemáticos desta visão “não fundacionista” da verdade, e não teleológica da ação humana…Nietzsche (e a crítica da metafísica, com sua ideia de        jogo, de interpretação, e de signo; sem verdade presente); Freud (e a sua crítica da presença-a-si-próprio, quer dizer, a crítica da consciência, do sujeito, da identidade            e da propriedade de si próprio); e Heidegger (do ser como presença). (texto base******************************************************************************

Matemáticos revelam “rede capitalista” que controla o mundo (out/2011)              “Este é o 1º estudo que vai além das ideologias… identificando empiricamente essa rede     de poder global…conforme os protestos contra o capitalismo se espalham pelo mundo”.

empresas-dominam-mundo

Este gráfico mostra as interconexões entre o grupo de 1.318 empresas transnacionais que formam o núcleo da economia mundial. O tamanho de cada ponto representa o tamanho da receita de cada uma.[Imagem: Vitali et al.]

Uma análise das relações entre 43 mil empresas transnacionais concluiu que um pequeno número delas, sobretudo bancos… possui um ‘desmedidamente  alto’ poder sobre a economia global. A conclusão… se deve a 3 pesquisadores da área de…”sistemas complexos“, do “Instituto Federal de Tecnologia“…de Lausanne, Suíça. – James Glattfelder, um dos autores do trabalho, explicou:

“Nossa análise é baseada na realidade, mas esta é complexa demais, portanto temos que ir além dos dogmas…sejam eles das teorias da conspiração, ou do livre mercado”… Esta análise utiliza a mesma matemática, há décadas, para criar modelos dos sistemas naturais e para a construção de simuladores dos mais diversos tipos… – Agora…ela foi usada para estudar dados corporativos disponíveis mundialmente, resultando num mapa, que traça a rede de controle entre as grandes “empresas transnacionais”…em nível global.

Estudos anteriores já haviam identificado que algumas poucas empresas controlam grandes porções da economia…mas esses estudos incluíam um número limitado de empresas – e, não consideravam controles indiretos de propriedade…não podendo, portanto ser usados para dizer como a rede de controle econômico poderia afetar a economia mundial; tornando-a mais ou menos instável, por exemplo. Sobre isso, o          novo estudo pode falar com a autoridade de quem analisou uma ‘base de dados‘ de              37 milhões de empresas…e investidores. – A análise conseguiu identificar…43.060 grandes empresas transnacionais, e traçou as conexões de controle acionário entre            elas, construindo desse modo, um modelo de poder econômico em escala mundial.

“Poder econômico global                                                                                                          Noutras palavras, elas detêm um controle sobre a economia real                                          que atinge…60% – de todas as vendas realizadas no mundo todo”.

Refinando ainda mais os dados…o ‘modelo final’… revelou um núcleo central de 1.318 grandes empresas, mantendo laços – com ao menos 2 outras empresas … na média, cada uma delas com 20 novas conexões.  Mais que isso, embora este núcleo central de poder econômico, logre concentrar, só 20% – das receitas globais de venda, tal grupo detêm    maioria…nas ações das principais empresas do mundo (blue chips’).

E isso não é tudo… — Quando os cientistas desfizeram o emaranhado dessa “rede de propriedades cruzadas” … eles identificaram uma “super-entidade” de 147 empresas intimamente inter-relacionadas que controla 40% da riqueza total daquele primeiro núcleo central de 1.318 empresas. Como assim explica Glattfelder…em sua pesquisa:

“Na verdade, menos de 1% das companhias controla                                          40% da rede inteira… E a maioria delas são bancos”.

Os pesquisadores afirmam em seu estudo que a concentração de poder em si não é boa,      e nem ruim, mas essa interconexão pode ser… — Como o mundo viu durante a crise de 2008, essas redes são muito instáveis…basta que um dos nós tenha um problema sério para que o problema se propague automaticamente por toda a rede…levando consigo a economia mundial como um todo. – Eles ponderam, contudo, que essa super-entidade pode não ser o resultado de uma conspiração … 147 empresas seria um número grande demais para sustentar um conluio qualquer. – A questão real, colocam eles…é saber se esse núcleo econômico global tem condições de…intencionalmente…exercer um poder político centralizado. Na verdade eles suspeitam que as empresas podem até competir entre si no mercado… mas, agem em conjunto no interesse comum; e um dos maiores interesses seria resistir a mudanças na própria rede. – Como exemplo, estas são as 50 primeiras…das 147 empresas transnacionais…consideradas como “super conectadas”:

1) Barclays plc 2) Capital Group Companies Inc. 3) FMR Corporation 4) AXA insurance      5) State Street Corporation 6) JP Morgan Chase 7) Legal & General Group 8) Vanguard Group Inc 9) UBS AG. 10) Merrill Lynch & Co Inc  11) Wellington Management Co.  12) Deutsche Bank 13) Franklin Resources 14) Credit Suisse Group  15) Walton Enterprises  16) Bank of New York Mellon  17) ‘Natixis’ 18) Goldman Sachs  19) T Rowe Price Group  20) Legg Mason Inc 21) ‘Morgan Stanley’ 22) Mitsubishi Financial Group 23) Northern Trust Corporation  24) ‘Société Générale’  25) ‘Bank of America’  26) Lloyds TSB Group  27) Invesco plc  28) Allianz SE  29) TIAA  30) Old Mutual Public Limited   31) Aviva plc  32) ‘Schroders’ 33) Dodge & Cox 34) Lehman Brothers Holdings 35) Sun Life Financial Inc.  36) Standard Life  37) CNCE  38) Nomura Holdings Inc  39) The Depository Trust Company  40) Massachusetts Mutual Life Insurance  41) ING Groep NV.  42) “Brandes Investment Partners” 43) “Unicredito Italiano” 44) Deposit Insurance Co. of Japan 45) “Vereniging Aegon” 46) “BNP Paribas” 47) “Affiliated Managers” 48) Resona Holdings  49) Capital Group International Incorporation  50) “China Petrochemical” (texto base

Publicado em Economia, política | Marcado com | 1 Comentário