A ‘Teoria da Comunicação Humana’ de Paul Watzlawick

“Sem comunicação, não poderia ter evolução…Pois não há jaula mais destrutiva, do que nossos pensamentos, construindo muros ao redor.”

comunicandoPela “teoria da comunicação humana”… do psicólogo austríaco Paul Watzlawick, a “comunicação” desempenha um papel fundamental em nossas vidas – embora não estejamos inteiramente conscientes disso. – Mesmo sem perceber… desde o início da nossa existência, participamos do processo de aquisição de suas regras, inseridas em nossosrelacionamentos“.

Paul Watzlawick foi um psicólogo austríaco … reconhecido internacionalmente pelo seu livro “A arte de amargar a vida” publicado em 1983. – Ele fez doutorado em filosofia, se formou em psicoterapia no Instituto Carl Jung, e lecionou na Universidade de Stanford.  Juntamente com Janet Bavelas da UVIC /Canadá, e Don Jackson, do “MRI“…Palo Alto, EUA, desenvolveu a “teoria da comunicação humana“; pedra angular da “terapia familiar“. Nela, a comunicação não é explicada como um processo interno, individual, mas como resultado de uma troca de informações… originada em um “relacionamento”.

Por essa perspectiva, o importante não é tanto a maneira como nos comunicamos, e se isto é consciente ou não…mas sim… – a forma de nos influenciarmos uns aos outros… – ao nos comunicamos no aqui e agora… Vejamos quais os princípios fundamentais em que a teoria da comunicação humana se baseia … e quais são as lições que podemos aprender com eles.

Os 5 axiomas da “teoria da comunicação humana”

menina-lua1) É impossível não se comunicar

A comunicação é inerente à vida. Com este princípio, Paul Waztlawick afirma que todo comportamento é uma forma de comunicação, em si mesmo … tanto de forma implícita  –  quanto explícita. Mesmo “ficar em silêncio” … traz uma informação ou mensagem – e por isso, “é impossível não se comunicar”.

Mesmo quando não fazemos nada, verbalmente ou não, estamos transmitindo algo. Talvez não estejamos interessados ​​no que nos dizem…ou simplesmente preferimos não comentar. Todo o comportamento é uma forma de comunicação… – Assim, não existindo uma forma contrária ao comportamento (“anti-comportamento”), também não há ‘não-comunicação’.

2) A comunicação tem aspectos de conteúdo, e de relação (“metacomunicação”)

Isto significa que em todas as comunicações…não só o significado da mensagem em si é importante (nível de conteúdo), mas também é importante como a pessoa que fala quer ser entendida … e como pretende agir para que os outros a entendam (nível de relação).

Portanto, toda a comunicação tem – além do significado das palavras…mais informações. Essas informações são o modo como o comunicador dá a entender a relação que tem com o receptor da informação. Assim, há mais informações na mensagem… além das palavras.

Quando nos relacionamos… obrigatoriamente transmitimos informações, mas a qualidade do nosso relacionamento pode dar um significado diferente a essa informação. — Assim, o aspecto do conteúdo corresponde ao que transmitimos verbalmente, enquanto o aspecto de relação se refere à forma como comunicamos essa mensagem (tom de voz, “expressão facial”, contexto…). Conforme isso… a mensagem será recebida de uma forma ou de outra.

3) A pontuação dá significado… (de acordo com a pessoa)

O terceiro axioma foi explicado por Paul Watzlawick, como… “A natureza de uma relação depende da intensidade das sequências comunicacionais entre as pessoas”. Com isso, ele quis dizer que cada um de nós sempre está construindo uma versão própria… daquilo que observa e experimenta – e… dessa forma, define o relacionamento com as outras pessoas.

Este princípio é fundamental quando se trata de “relacionamentos”… e devemos manter isso em mente sempre que interagimos com alguém. Toda a informação que nos chega é filtrada com base em nossas experiências…características pessoais e aprendizado, o que faz com que um mesmo conceito, como amor, ou amizade, tenha significados diferentes.

A natureza de uma relação é dependente da pontuação das sequências comunicacionais entre os comunicantes. Tanto o emissor, quanto o receptor da comunicação estruturam essa relação de modo diferente…interpretando o seu próprio comportamento durante a comunicação, em função da reação do outro. Dessa forma…um aspecto fundamental da comunicação é que cada interlocutor acredita que o comportamento do outro é a causa    do seu próprio comportamento… – quando, na verdade…a comunicação é um processo muito mais complexo… – que não pode ser reduzido à simples relação de causa e efeito.

A comunicação é um “processo cíclico” … no qual cada parte                                              contribui de forma singular para a moderação do intercâmbio.

cerebro4) Modo digital e modo analógico

Postula-se, da teoria, que a comunicação humana exista conforme 2 modalidades:

Modo digitalse refere ao que é dito por meio das palavras…veículo da comunicação.

Modo analógico A arte de “amargar a vida”…inclui a comunicação não-verbal, ou seja, a forma como nos expressamos, que é      o veículo da relação.

Os seres humanos se comunicam de forma digital e analógica…Para além das próprias palavras, e do que é dito (comunicação digital), a forma como é dito (linguagem corporal, gestão dos silêncios… onomatopeiastêm também enorme importância na comunicação.

5) Comunicação simétrica e complementar   

As permutas comunicacionais são ‘simétricas’ ou ‘complementares’. – Com este axioma, dá-se importância à maneira como nos relacionamos com os outros…algumas vezes sob condições de igualdade – enquanto outras… – a partir das circunstâncias de diferenças.

As relações simétricas seriam aquelas nas quais os grupos ou indivíduos comunicantes compartilham anseios, aspirações, expectativas e modelos comuns… e – por este motivo, colocam-se em posições antagônicas…buscando então…formas simétricas de relação. Já relações complementares seriam constituídas … quando as aspirações dos grupos, ou indivíduos comunicantes são fundamentalmente diferentes, e portanto…a submissão de uns constitui uma resposta à dominação de outros.

Quando temos um relacionamento simétrico, avançamos no mesmo plano, isto é, temos condições de igualdade…e um poder equivalente na troca, mas não nos complementamos. Se o relacionamento é complementar, como por exemplo, nas relações entre pai e filho, professor e aluno… – ou vendedor e comprador… – apesar de estarmos em…”condições desiguais… – ao aceitarmos as “diferenças“…possibilitamos a conclusão da interação.

Tanto as relações simétricas, quanto as complementares, precisam ser trabalhadas socialmente para evitar a cismogênese (processo de diferenciação nas normas de comportamento individual…resultante das interações cumulativas dos indivíduos).

Considerando esses princípios, chegamos à conclusão de que, em todas as situações comunicativas, precisamos prestar atenção ao relacionamento em si mesmo, isto é,        no modo de interagir entre as pessoas que se comunicam… – e não tanto…no papel individual de cada uma delas. A comunicação, portanto, é um processo muito mais complexo do que podemos imaginar… — com uma série de ‘aspectos implícitos’ que ‘cismam’ em surgir no ‘dia a dia’ de nossos relacionamentos. (texto base) (consulta) *******************************************************************************

linguagensLinguagens (analógica e digital)

Para nos comunicarmos…utilizamos dois modos  de linguagem, digital e analógica. – A linguagem digital traduz a analógica. A prática cultural, por exemplo, possui fundamentação digital, criando sentido a partir das interações entre seus dígitos.  Já as ‘leis naturais’ são analógicas – isto é… seus próprios elementos são significantes, e com isso, suas relações e interações produzem significado.    A linguagem digital possui como características,      a precisão racional…a possibilidade da negação,      e o poder de abstração… A linguagem analógica, por sua vez, tem na imprecisão…e incapacidade      de negação seus aspectos principais.

Linguagem digital… – A palavra digital vem do latim “digitum”, que significa dedo. Os dígitos são os elementos da linguagem, que quando devidamente combinados, produzem determinado sentido, criando informação… Como exemplo, através das letras se formam as palavras, que escritas e/ou faladas, passam então a ter ‘sentido. Outros exemplos, são    o DNA, os neurônios, os computadores clássicos, etc.

Essa comunicação mediante palavras, dígitos e símbolos, carecendo de semântica…é caracterizada pela sintaxe… E apenas a ‘espécie humana’,   até aqui… – demonstrou…”sinais evidentes”… de sua (ampla) utilidade.

Linguagem analógica… – A palavra analógica vem do latim “analogon”, que significa semelhante. É a forma cientifica da própria totalidade do objeto…tendo como exemplos, imagens, cheiros, gestos, emoções, intuições, sentimentos, e sensibilidades…Portanto, é quando a palavra “coisa”…é a informação… – que você está sentindo…que está em você.

É a comunicação não-verbal, caracterizada pela semântica, que se expressa por meio dos gestos…postura…expressões faciais… ritmo,              representada também no teatro e na dança — pelo gesto corporal. 

É o modo analógico que aborda o campo das relações humanas na comunicação. E, graças ao modo analógico também, nos é possível comunicar com os animais!…suas vocalizações e movimentos intencionais são “comunicações analógicas” pelas quais definem a natureza de suas relações. (texto base)

A relação das linguagem digital e analógica com a ‘evolução comportamental’communicationEssencial para a vida em sociedade… – assim pode ser conceituada a comunicação. Todos nós, seres humanos, sabemos que, sem ela…não podemos nos relacionar como indivíduos de um grupo social. Através dela é possível que um ser humano conheça a si próprio e aos outros, interagindo e expondo suas ideias, sentimentos, opiniões. Uma boa ‘comunicação’ é indispensável, por ser fundamental que a mensagem emitida seja entendida por quem a recebe. E, por estar vinculada à capacidade de compreensão do indivíduo, a comunicação não pode ser distorcida…o receptor deve receber a mensagem de maneira clara e objetiva.

Existem 2 formas de comunicação…a digital e a analógica. Considerado referência neste tema, Paul Watzkawick conceitua essas duas vertentes afirmando que… na comunicação humana, podemos nos referir os objetos… – na mais ampla acepção da palavra…de duas maneiras inteiramente diferentes. Podem ser representados por uma semelhança, como em um desenho… ou ser referidos por um “nome”, escrito ou falado…isto é, pela palavra.

Esses 2 tipos de comunicação…um por semelhança autoexplicativa, o outro por uma palavra, são equivalentes aos conceitos de analógico e digital … respectivamente.

“A comunicação analógica é toda a comunicação não verbal que envolve sintomas, gestos, postura, expressão facial, inflexão de voz, sequência… ritmo… e cadência das palavras, ou qualquer outra manifestação não verbal que o organismo seja capaz”…(Paul Watzkawick)

Esta “linguagem analógica” é responsável pelas relações, transmitindo sobretudo emoções e afetos, através dos quais os sentimentos sejam expressos. Estando agregada aos sentidos humanos… – especula-se sua relação muito ampla com os ‘períodos arcaicos‘ da evolução; não se tratando portanto de algo recente… – e, por isso, possuindo ainda maior relevância.

Antes de aprender a falar… – o homem compartilha seu estado psíquico, e emocional; e assim, pode referir-se mais facilmente àquilo que representa. 

Já a “linguagem digital”… é a comunicação mediante palavras; que podem ser escritas ou faladas… – sendo portanto…segmentar, divisível em fonemas… verbal e linguística, com uma complexa ‘sintaxe lógica’, porém carecendo da semântica própria ao campo das relações… Sua existência é obrigatória  ao ‘progresso da civilização’…pois sem ela, seria impensável a realização da maioria… senão todas atividades humanas – que, ao partilhar ‘informações’ – fazem transmitir o “conhecimento real” entre os indivíduos.

Assim como nas palavras e no DNA, as informações transmitidas pelos neurônios no corpo humano são digitais… – seus impulsos são responsáveis por excitar…ou inibir as respostas sinápticas, em forma de “tudo ou nada” … como transmissão de informação digital binária. Todavia, o sistema humoral é considerado analógico, pois é responsável por liberar ou não substancias (“anticorpos”) em quantidades inconstantes … em função de inúmeros fatores.

Os dois modos de linguagem (analógica e digital) atuam de forma combinada, traduzindo-se um no outro… – e…complementando-se – para possibilitar uma eficiente comunicação.  Considerando-se então, que toda comunicação tem um conteúdo e uma relação, podemos supor que estes 2 modos – não só existem lado a lado…como complementam-se em todas mensagens…Além do que, enquanto o ‘aspecto de conteúdo’ teria toda a probabilidade de ser transmitido digitalmente — o ‘aspecto relacional’ seria predominantemente analógico, por sua própria natureza.

A comunicação humana, aprimorando algo que é indispensável para a vida em sociedade, busca acompanhar a evolução da espécie. Este avanço … no entanto, adquiriu proporções inimagináveis. Para então, facilitar as relações, e encurtar distâncias… novas ferramentas foram criadas. Uma das mais notáveis, e de grande utilidade é a internet, possibilitando que o mundo como um todo conectado interaja em curtos espaços de tempo. (texto base) ***************************(termos complementares)********************************

1. Premonição: Embora essa ideia seja inicialmente associada ao “sobrenatural” … a psicologia entende que premonição é um ‘pressentimento’ de que alguma coisa boa, ou ruim está para acontecer… Esta sensação está muito mais associada à emoção do que à razão, e diretamente à ‘intuição‘. – Ao sujeito avaliar cada um de seus pressentimentos,  irá encontrar uma relação entre essa sensação… e algum aspecto de sua vida.

2. Intuição: Compreensão global e instantânea de uma verdade, de um objeto, de um fato. Nela… de uma só vez, a razão capta todas relações que constituem a realidade, e a verdade da coisa intuída… – É um ato intelectual de discernimento e compreensão. Os psicólogos se referem à intuição, usando o termo insight ao descreverem o momento    em que temos a compreensão total, direta e imediata de alguma coisa…ou percebemos, num relance, um caminho para a solução de um problema científico, filosófico ou vital.

Todas pessoas são intuitivas, mas a maioria prefere racionalizar pensamentos e sentimentos… – tomando decisões … com base no julgamento do certo, ou errado — desprezando seus sentimentos.

3. Método intuitivo e método discursivo

Descartes foi o primeiro filósofo moderno, que se utilizou da ‘intuição primária’, para reconstruir todo sistema filosófico, fazendo desse método, o principal de sua filosofia. Outros filósofos – posteriores a Descartes…também fizeram amplo uso da intuição, e ainda hoje vale ressaltar que a intuição é largamente utilizada nos estudos filosóficos.

eurekaA intuição consiste num único ato do espírito, da onde se obtém um conhecimento imediato, que vai diretamente ao objeto (método direto).

Por outro lado…há o “método discursivo”, que atinge o conhecimento, através da formulação de várias teses… – que serão aprimoradas, até atingirem a realidade completa do objeto, isto  é…o conceito. Assim, trata-se de um método indireto…para atingir ‘conhecimento mediato’.

4. A intuição sensível

Existem vários tipos de intuição, e um deles, a intuição sensível… é o exemplo mais característico de intuição porque a praticamos a todo momento quando percebemos e captamos os objetos. É, pois, uma intuição imediata, isto é, uma relação direta entre o sujeito e o objeto.

Entretanto, essa modalidade de intuição não pode ser empregada pelo filósofo na busca do conhecimento por 2 motivos fundamentais, a saber: só podemos aplicar a intuição sensível a objetos (sensíveis) que possam ser captados pelos sentidos. – Além disso, por seu caráter individual, não permite que se atinja a ‘universalidade’ dos objetos…”objetivo da filosofia”.

5. A intuição espiritual

Outra modalidade de intuição é a “intuição espiritual”, que ao contrario do conhecimento discursivo, e assim como o princípio da contradição, não necessita de demonstração, pois se trata de uma visão direta do espírito. Um exemplo é a diferenciação que fazemos entre um objeto e outro. – Essa ‘relação de diferença‘… é decorrência de um objeto da intuição,  e não de um objeto sensível.

Por referir-se à forma dos objetos, e não ao seu conteúdo, a “intuição do espírito” tem sempre como objeto uma relação… – de “caráter formal”. 

Assim como a ‘intuição sensível’…a ‘intuição espiritual’ não é suficiente à construção de uma doutrina filosófica…isto porque, não há como se penetrar na essência da realidade das coisas, só por meio de formalismos. Por esse motivo, há ainda outra modalidade de intuição que é a intuição real… – Essa, sai do espírito…e vai ao encontro da realidade existencial dos objetos… – isto é, vai ao “fundo das coisas”.

6. A intuição real… intelectual, emotiva e volitiva

A intuição real pode dividir-se em 3 categorias. Numa intuição intelectual, a qual terá no objeto… seu exato correlato, predominam as faculdades intelectuais do filósofo. Essa intuição consiste em captar a essência de um objeto…seu “éidos“, por meio de um    ato direto do espírito… Quando predominarem motivos de caráter emocional, teremos a intuição emotiva, também com correlato no objeto, mas tendo seu próprio “valor”.

Uma terceira espécie de intuição real é a intuição volitiva, em que os motivos derivam da vontade, referindo-se à realidade existencial do objeto, mais ainda, a existência do ser manifesta-se ao homem mediante essa intuição. Não diferentemente das duas primeiras, encontra seu correlato no objeto.

Como representantes, a intuição intelectual (pura) é encontrada na Antiguidade… em Platão – e na época moderna em Descartes… – e nos idealistas alemães. A ‘intuição emotiva‘… – por sua vez…é encontrada na Antiguidade em Plotino, e depois em Santo Agostinho;  já entre os pensadores modernos, há Spinoza com sua ‘intuição mística‘; e Hume, para quem a existência de um mundo exterior, não passa de uma crençaum ato de… Por fim, a ‘intuição volitiva‘ é representada por Fichte, a quem a existência do ‘eu‘ representa um ato da vontade, pois a realização da vida… ao superar obstáculos… – é a base de todo “sistema filosófico“.

Na “filosofia contemporânea“, há um leque variado de modalidades em que a intuição se apresenta, onde cada filósofo utiliza um sistema, no qual aplica cada um dos 3 métodos de intuição no estudo do ser… – Classificaremos, a seguir… suas três principais correntes:

a) A intuição de Bergson

Acredita Bergson que o método intuitivo é o único que se deva empregar no estudo filosófico. Isto porque, contrapõe a “atividade intelectual”… que consiste em tornar as coisas estáticasestudando assimsomente oaspecto superficial da realidade‘…à “atividade intuitiva”…que busca por meio de “metáforas“; opondo-se à atividade do intelecto, conhecer e explicar uma realidade em movimento… – que…”flui no tempo”.

b) A intuição de Dilthey

Para Dilthey a intuição a ser utilizada nos estudos filosóficos deve ser a volitiva… e, assim como Bergson, acredita que os métodos que se utilizam apenas do intelecto são suficientes para o estudo da filosofia. A existência das coisas – para ele…consiste em percebermo-nos como agentes que possuem vontades, e portanto…esbarram em dificuldades. Ao lutarmos contra essas dificuldades… – as transformamos em existências (“filosofia existencial“).

c) A intuição de Husserl

Husserl aplica a intuição fenomenológica (intelectual) ao estudo filosófico… intuição essa que se relaciona ao pensamento platônico, e também cartesiano. Esse procedimento consiste em… a partir de representações singulares – eliminando de nossa contemplação suas particularidades – chegar-se à “essência geral” do objeto.

Ao tratarmos das construções intelectuais que não se preocupam com a origem… ou essência do objeto – como as ciências matemáticas, físicas, biológicas, jurídicas e sociais,  o método mais eficiente será a “intuição fenomenológica“. Contudo, ao tentar captar aquilo que for pré-intelectual…é necessário descobrir a própria vivência do homem, a qual se depara com resistências e obstáculos… – que se tornam existências, para então transformarem-se em essências… a serem assim, estudadas pelo intelecto. (texto base) **********************************************************************************

telepatiaTelepatia… “Papo cabeça”

A ciência não está convencida de que as pessoas sejam capazes de transmitir seus ‘pensamentos’, ou de…”extra-sensorialmente”…se comunicar a distância. – Mas histórias intrigantes é que não faltam… – mas, não provam nada.

Não há como descartar a possibilidade de que tudo não passe de coincidência. Afinal, para cada história arrepiante… quantas não devem haver… de pessoas com um pressentimento, que não deu em nada?… – O único jeito de comprovar a existência da “telepatia”, seria ter resultados estatisticamente significantes, de que esses fenômenos acontecem … com mais frequência do que seria normal, um fato qualquer acontecer. E esses resultados ainda não teriam a clareza suficiente para afastar todas as dúvidas.

‘Telepatia‘ é o termo usado para se referir à aquisição de informações por outros meios, que não os sentidos físicos conhecidos. A resistência em tentar entender tais eventos, ou acreditar neles é grande… mas fácil de ser compreendida – como diz Wellington Zangari, coordenador do Grupo de Estudos de Semiótica, Interconectividade e Consciência (Inter Psi), da PUC/São Paulo…“Entrar em contato com pensamentos, sentimentos e ideias de outras pessoas, de uma forma aparentemente direta (mente/mente)… sem necessidade que tais informações passem pelos sentidos… – é considerado algo fora do normal, por se tratar de um tipo de interação bastante diferente da maneira prevista pela ciência”.

E, como tudo o que é fora do normal… caminha lado a lado com o ceticismo… – como diz Jean Claude Obry, pesquisador e filósofo francês, morando no Brasil há cerca de 20 anos:  “Se você acredita, poderá ser associado ao charlatanismo, misticismo ou ser visto como alguém facilmente influenciável… – Se não… será suspeito de cientificismo ateu, de não possuir uma ‘mente aberta’…de não ter qualquer curiosidade científica”. Se os assuntos considerados fora da normalidade pudessem se encaixar na realidade cotidiana, eles não pareceriam tão assustadores. E complementa Obry:

“Para permitir que o ‘fora do normal’ se transfira para dentro dessa realidade…é preciso aceitar e mudar conceitos, regras e crenças que gerenciam o dia-a-dia. – Se não fizermos essa mudança…nada será      feito… além de um debate agradável, mas estéril”.

FUNÇÕES EXECUTIVASOndas mentais

Apesar de não haver consenso sobre a melhor teoria para explicar a telepatia, a “parapsicologia” vem apresentado interpretações interessantes. Em suas primeiras décadas de estudo… tentou-se compreender a ‘telepatia‘ como um ‘fenômeno eletromagnéticoque funcionaria da mesma forma… que os aparelhos de rádio e televisão… – Era suposto que, entre receptor e emissor, ‘ondas mentais’ transportassem entre si…informações do conteúdo cerebral.

No entanto, as teorias baseadas nesse modelo caíram por terra porque, aparentemente, a telepatia não é limitada pela distância…nem pelas barreiras físicas – como o são as ondas eletromagnéticas conhecidas… – Mais tarde, outras teorias surgiram, visando reconhecer mais o “porquê”… do que “como”… ocorre o fenômeno.

A sistematização das pesquisas

As pesquisas sobre a possibilidade da existência da telepatia se tornaram sistemáticas… a partir da década de 30, com a criação do ‘Instituto de Parapsicologia’ da Duke University, EUA, dirigido pelo Joseph Banks Rhine….Lá, foram realizadas provas experimentais para verificar se, de fato, a telepatia, entre outros fenômenos anômalos, ocorria. – Ao longo de quase 5 décadas o grupo de Rhine obteve resultados significativos a favor de sua hipótese.

Depois disso, pesquisadores do mundo inteiro fizeram outros estudos… e muitos chegaram a resultados similares, mesmo com técnicas diferentes daquelas usadas no laboratório de “parapsicologia” da Duke University. 

Um dos modelos atualmente em construção é o desenvolvido pelo psicólogo americano Rex Stanford, o “Modelo de Resposta Instrumental Mediada”…conhecido pela sigla em inglês, “PMIR”. Propõe em linhas gerais, que o ser humano utiliza não apenas sentidos conhecidos…tato, visão…para estabelecer contato com o meio, mas também processos não-sensoriais, ou extra-sensoriais, para reconhecer tanto os perigos, quanto as fontes      de satisfação de necessidades básicas.

O modelo de Stanford é importante para a ciência, porque                    permite a avaliação empírica de seus postulados… – além                              de integrar as perspectivas da biologia…com a psicologia.

efeito GanzfeldAté agora…a técnica mais sofisticada criada para estudar cientificamente a hipótese da telepatia se chama efeito Ganzfeld. O experimento utiliza um emissor e um receptor. O primeiro vê uma imagem ou videoclipe, escolhido aleatoriamente por um computador,        e tenta ‘transmiti-lo’ mentalmente a um receptor…afastado sensorialmente do emissor.

O receptor fica numa sala acústica e eletromagneticamente isolada…tendo sobre os olhos uma espécie de óculos, em que uma luz colorida fornece um campo sensorial homogêneo. Seus ouvidos são bombardeados por um sinal sonoro constante, como o de um rádio fora da estação. Procura-se assim, criar uma situação em que a pessoa possa reconhecer mais facilmente suas imagens mentais, sensações e sentimentos, ao praticamente se isolar dos estímulos externos… se concentrando… – bem mais atenta… aos seus estímulos internos.

Os resultados mais sólidos obtidos neste tipo de pesquisa se relacionam à existência de correlações entre algumas variáveis. – Em resumo, os resultados são melhores quando:   

1) emissor e receptor são pessoas afetivamente próximas…como amigos…pais e filhos, ou marido e mulher; 2) o receptor tem personalidade extrovertida; 3) antes de participar do experimento – o receptor teve um histórico de ‘experiências anômalas espontâneas’; 4) o receptor já realiza algum tipo de atividade de “treinamento mental”…como meditação ou relaxamento; 5) o receptor acredita em fenômenos como a “percepção extra-sensorial”; e  6) o campo geomagnético está menos ativo.

Ainda há muito o que esclarecer sobre os experimentos Ganzfeld. – Apesar de reconhecermos algumas variáveis, que parecem interferir no fenômeno, não conhecemos todas; o que ainda não nos permite controlar o fenômeno de modo a realizá-lo de acordo com os desígnios de nossa própria vontade.

As pesquisas Ganzfeld foram iniciadas na década de 1970… e, até o momento, tiveram êxito em, pelo menos, demonstrar a possibilidade de existência da telepatia. – E, como não poderia deixar de ser – mesmo com a necessidade de mais pesquisas para acabar com a polêmica em torno do assunto, a soma dos resultados experimentais favorecem      à existência de um “processo anômalo” de interação entre seres humanos. (texto base)

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“Primeiro Contato”, de Murray Leinster…(‘livre adaptação’)

“A história humana não é muito bonita. – É baseada em povos com ligeira, ou grande superioridade tecnológica e cultural conquistando outros povos. Povos mais fortes…com uma maior capacidade para guerrear… – acabam subjugando outros, quase sempre de forma destruidora.” (Jorge Quillfeldt)

starwars_spaceshipTommy Dort entrou na cabine de comando com suas últimas ‘estereofotos’. – “Pronto”, disse ele ao Comandante … “acabei de tirar as fotos que precisava”. Inseriu no projetor holográfico o chip… olhando com interesse profissional para o espaço panorâmico (3D) que circundava externamente a espaçonave, “hiper-projetado” … na cabine de comando.

A Llanvabon estava a considerável distância da Terra… Os hologramas onde desfilavam, conforme a magnitude desejada, virtualmente todas as estrelas da Via-Láctea, com suas constelações…respeitando distâncias…localização e brilho, com surpreendente precisão, pareciam ligeiramente fora de lugar – devido ao deslocamento do ‘referencial terrestre‘.

Uma luz violeta indicava os painéis de controle — com os instrumentos necessários para a viagem da “Llanvabon”… – A cabine tinha ainda 3 poltronas “aerodinâmicas” — com telas projetadas…de forma a permitir uma panorâmica visão tridimensional do espaço exterior.

Eles tinham pela frente um vasto nevoeiro luminoso… – que há algum tempo, já se tornara indistinguível… O nevoeiro era a “Nebulosa do Caranguejo“, remanescente da explosão de uma supernova, na Constelação do Touro, com 11 anos-luz de comprimento… Uma nuvem de gás muito tênue… em cujo centro gira uma ‘estrela de neutrons’… 30 vezes por segundo.

Tommy disse, pensativo… – “Estamos penetrando no abismo, senhor”.

O comandante aprovou as últimas “estereofotos” tiradas por Tommy … para logo voltar-se inquieto à observação dos visoramas dianteiros. A Llanvabon estava desacelerando ‘a todo vapor’… achava-se agora apenas a meio ano-luz da nebulosa… – O trabalho de Tommy era planejar o curso da ‘espaçonave’ – a qual… enquanto permanecesse estacionada dentro da nebulosa, o deixaria ocioso… – mas… ele já havia pago um bom preço por essa ociosidade.

Tommy acabara de realizar um feito sem precedentes… – um completo registro fotográfico da nebulosa remanescente – originada da explosão de uma ‘supernova’… com 6,5 mil anos de história, agora concentrada numa estrela de neutrons … com aproximadamente 25 kms de diâmetro…girando 30 vezes por segundo.

Não é que Tommy tivesse 6,5 mil anos de idade. O caso é que a “Nebulosa do Caranguejo” está a 6,5 mil anos-luz de distância da Terra – e…as ‘estereofotos’ haviam sido tiradas de uma luz – que chegaria à Terra … (respeitando o limite da velocidade da luz)…no 9º milênio da Era Cristã.

E enquanto a Llanvabon penetrava lentamente na nebulosa, uma forte luminosidade começou a tomar conta dos “visoramas“. — À frente… uma cerração brilhante… – e atrás… um vácuo salpicado de estrelas… das quais…percebia- se apenas o ‘brilho esmaecido’… – daquelas mais luminosas.

A Llanvabon mergulhou na nebulosa…como se perfurasse um                          túnel de escuridão… em meio a paredes de cerração luminosa.

As fotografias tomadas de maior distância tinham revelado características estruturais na nebulosa, e quando a nave chegou mais perto, indicações de estrutura se tornaram ainda mais nítidas…A Llanvabon, ao aproximar-se da nebulosa em curva logarítmica, permitiu que Tommy tirasse sucessivas fotos… de ângulos ligeiramente diferentes… e conseguisse ‘estereopares’, mostrando a nebulosa em 3 dimensões, em todo seu complicado formato, que mais parecia uma rede de filamentos de neurônio… em um imenso cérebro humano.

A distância entre a extremidade da nebulosa e ‘estrela de neutrons’, que se encontrava em sua parte central, era de 5,5 anos-luz… com taxa de expansão aproximada de 1,5 mil km/s. O problema era que apesar da nebulosa ser composta por um gás muito tênue, um veículo deslocando-se em “overdrive” … precisa de um “vácuo puro“… como o que existe entre as estrelas, e não de um vácuo parcial. – Nesse caso, com a nave penetrando num gigantesco nevoeiro, teria que…gradativamente…limitar sua velocidade, àquela que esse vácuo assim permitisse; e isso foi feito.

O comandante então, pôs-se à vontade. Uma de suas funções era pensar coisas que pudessem causar preocupação, e depois preocupar-se com elas… O comandante da Llanvabon era atento às suas obrigações, e apenas quando um instrumento parava definitivamente de registrar informações — é que se dava ao direito de descontrair.

Um Objeto não Identificado

O overdrive cessou, todavia, quase instantaneamente, campainhas estridentes ressoaram em todos os cantos da nave. Tommy então, olhava fixamente para o já tenso comandante. Um aparelho entrava em histeria… – enquanto outros logo registravam suas descobertas.

Crab Nebula,UFOUm ponto no difuso e brilhante nevoeiro estampado no ‘visorama’ tornou-se mais destacado enquanto o laser de varredura se fixava nele. – Foi a detecção do objeto que fez soar o alarme de colisão – com o indicador virtual, conforme leitura ótica, mostrando um pequeno corpo sólido…a cerca de 80 mil kms de distância – além de outro objeto — cuja distância variava de zero a 80 mil, avançando e recuando.

“Aumente a definição do aparelho”…disse o comandante… – O ponto luminoso veio logo à tona. Ampliação pronta, mas nada aparecia… – Absolutamente nada… Entretanto, o radar insistia em que algo invisível e misterioso fazia loucos arremessos em direção à Llanvabon, a velocidades que implicavam alta colisão, se distanciando, a seguir, na mesma velocidade.

A graduação do visorama foi aumentada ao máximo, e nada ainda. Quando Tommy disse ao comandante… – “Senhor, eu vi algo parecido com isto…certa vez numa viagem entre a Terra e Marte, enquanto estávamos sendo localizados por outra espaçonave. – Como sua transmissão era feita com a mesma frequência que a nossa… – sempre que a captávamos, parecia estarmos diante de um estranho “corpo sólido”… – indo e voltando rapidamente”.

“Isso mesmo!”reagiu o comandante excitado… – ”é exatamente o que está acontecendo conosco. Temos sobre nós alguma coisa…assim como um localizador de rádio… Estamos sendo atingidos por essa transmissão; e além disso, por nosso próprio eco!”. Mas a outra nave é invisível. Quem estaria aqui numa nave invisível com instrumentos de localização? ”Não seriam humanos, certamente!”. Apertou um botão e transmitiu a ordem: ”Atenção! preparem todas as armas disponíveis para combate. – Alerta máximo em todos setores!”.

Seus nervos se contraíram. Fixou de novo o ‘visorama’, que nada mostrava, além de uma luminosidade bem disforme…“Não seriam humanos?”… pensou Tommy perplexo, ainda querendo entender o que estava se passando… – ”O senhor quer dizer então que…”

crab-nebula“Quantos sistemas solares há em nossa galáxia?” perguntou energicamente o comandante. – “Quantos planetas com condições de vida? E, quantas espécies de vida pode haver?…Se essa nave não vem da Terra (e não vinha) … toda sua tripulação não é humana” (e seres que, apesar de não serem humanos, podem empreender ‘viagens‘ pela vastidão do espaço, devem possuir uma civilização nada desprezível.)

A essa altura… – a voz do comandante estava trêmula, mas Tommy pertencia ao seu ‘staff pessoal…E, mesmo um comandante, cujas tarefas incluem o dever de se preocupar, por vezes, precisa desabafar com alguém. Sendo que também é de muita ajuda ‘pensar em voz alta’. E assim ele o fez:

“Algo semelhante tem sido objeto de discussões e especulações há anos… – Pelos cálculos probabilísticos, é quase certo que em alguma parte de nossa galáxia haja outra civilização igual, ou superior à nossa… – Ninguém poderia jamais suspeitar… onde… – ou, quando a encontraríamos… – No entanto… parece que coube a nós realizar essa proeza… – agora.”

Vindo em nossa direção

Os olhos de Tommy adquiriram um brilho incomum …”O senhor acha que eles podem ser cordiais?”, perguntou ao comandante, que olhava fixamente para o indicador de distância, onde o falso ‘objeto fantasma’ ainda fazia seus loucos arremessos em direção à Llanvabon, recuando à mesma incrível velocidade… – “Está se movendo” … disse num tom alterado… ”vindo em nossa direção… É possível que sejam amigos, mas temos que nos manter alerta. A única arma de defesa, a longa distância, que temos à disposição são os desintegradores”.

overdriveOs desintegradores são correntes de laser, com altíssimo poder de destruição, que servem para limpar a rota da ‘nave espacial’ – da indesejada presença de ‘matéria interestelar’. Embora não tenham sido concebidos como armas … podem ser utilizados como tal. – Com um alcance de 5 mil kms – têm poder destruidor capaz de abrir um buraco num asteroide de porte médio, que se ache no caminho do veículo espacial. – Mas, não em ‘overdrive’… naturalmente.

Tommy aproximou-se da janela traseira…e voltando a cabeça para trás, questionou: “Desintegradores, senhor?…Para quê?”… O comandante, com uma expressão grave, respondeu…“Porque não sabemos as intenções deles, e não podemos nos arriscar!…           Tentaremos fazer amigos…mas não temos muita chance… – Não podemos depositar           neles a mínima confiança…Não ousaremos… Eles têm rastreadores, talvez melhores           que os nossos. Quem sabe, sem sabermos, não acompanharam nosso trajeto…desde             a Terra?… Não podemos nos arriscar que uma raça alienígena saiba onde fica nosso planeta, a menos que estejamos totalmente seguros a respeito de suas intenções…E,           como adquirir essa segurança?…Eles poderiam vir negociar…ou quem sabe, invadir         nosso planeta em overdrive, sem que fôssemos capazes de esboçar qualquer reação”.

Tommy argumentou, com certo ar de espanto… “Isso tudo, teoricamente, foi inúmeras vezes discutido. Porém, até hoje ninguém encontrou uma resposta satisfatória, mesmo porque jamais se pensou desse encontro ser ao acaso… – no espaço…sem que nenhum    dos lados soubesse a procedência do outro…Para isso, ainda não temos uma resposta”.

O comandante então, expos a Tommy suas dúvidas… ”Talvez essas criaturas sejam belas, distintas e amáveis, possuindo entretanto, a ferocidade de um canibal… Ou, talvez sejam rudes como um camponês sueco, mas com o espírito de justiça e decência, que é a marca do seu caráter. Talvez uma mistura dos dois, mas não arriscaria o futuro da humanidade na presunção de que seja possível confiar neles. – Claro que valeria a pena conhecermos uma nova civilização, isso estimularia a nossa…e talvez lucrássemos enormemente, mas não posso correr o risco de mostrar onde está a Terra… E eles, devem pensar o mesmo.”

E logo após, falou aos tripulantes: “Oficiais navegadores, atenção! Todos mapas estelares neste veículo devem estar preparados para a destruição imediata. Isto inclui fotografias e diagramas, pelos quais nossa rota, ou ‘ponto de partida’ possa ser deduzido. – Quero que todos dados astronômicos sejam arquivados… de modo a que possam ser deletados… em fração de segundos”.

O primeiro contato do ser humano com uma raça alienígena, era uma possibilidade prevista de várias formas, mas nunca de uma maneira tão embaraçosa, quanto esta    parecia ser… Duas naves solitárias – uma da Terra…e outra de um mundo distante, encontram-se numa nebulosa…bem longe do planeta de origem de cada uma delas.

Eles poderiam desejar paz, mas não era possível distinguir exatamente entre as linhas de conduta – de um ataque traiçoeiro, ou de uma ‘aproximação amistosa’. Colocar de lado a suspeita, poderia resultar no fim da raça humana…Por outro lado, uma permuta pacífica dos frutos de ambas civilizações seria o maior benefício imaginável. Mas, como qualquer erro seria irreparável, não ficar alerta poderia ser fatal.

Máxima aproximação possível

Reinava profundo silêncio na cabine do comandante. A janela traseira estava tomada com a imagem de ínfima parte da nebulosa. – Era um luminoso nevoeiro difuso, sem qualquer contorno aparente. Quando Tommy subitamente exclamou…”Ali, senhor!”…Distinguia-se uma pequena forma no nevoeiro. – Era um objeto negro, opaco, com a forma aproximada de um retângulo, com uma tênue luminosidade – mas seus detalhes eram imperceptíveis.

Tommy então, olhou para o medidor de distância, e exclamou…“Senhor, está se dirigindo para nós, em alto grau de aceleração. O senhor acha que tentarão um contato conosco, ou usarão suas armas tão logo estejam em condições de nos atingir?”.

A Llanvabon não se achava mais num abismo de vácuo … na fina substância da nebulosa…mas deslizava num mar luminescente de intenso brilho – que ocupava o núcleo central da nebulosa.

Ao chegar mais perto da Llanvabon…o estranho veículo desacelerou, parando depois de aproximar-se o máximo que a prudência permitia, tanto num sinal de cordialidade e respeito…quanto de precaução, contra um possível ataque.

O momento da aproximação, contudo, foi dominado por grande tensão…Um simples movimento agressivo deles, e os desintegradores seriam acionados.

Tommy observava tudo, preocupado…Aqueles seres deviam possuir alto nível tecnológico, para terem naves espaciais; e civilizações não se desenvolvem sem prudência. A essa hora, portanto… – eles também deviam estar considerando todas as implicações deste primeiro contato de 2 raças civilizadas…tal como o faziam os seres humanos a bordo da Llanvabon.

É bem provável que a ideia de um contato pacífico…com a troca de suas respectivas tecnologias, tenha ocorrido, tanto aos tripulantes da nave alienígena, quanto aos da Llanvabon… – Quando culturas humanas dessemelhantes entram em contato, uma geralmente se subordina, ou há guerra… Contudo, entre raças oriundas de planetas diferentes, a subordinação dificilmente se estabeleceria pacificamente…Os homens,  jamais consentiriam em se subordinar – nem qualquer outra raça, suficientemente desenvolvida o faria.

Os benefícios que resultam do comércio, jamais podem compensar a condição de inferioridade. Algumas raças… os homens, quem sabe…    talvez preferissem o comércio, à conquista. Talvez o mesmo também acontecesse com os alienígenas… – Mas a maioria iria preferir lutar.

Se o veículo estranho agora tão próximo da Llanvabon, voltasse à sua base com a notícia da existência humana, e de naves como a Llanvabon… isto daria a seu povo a alternativa de negociar ou guerrear. – E como se sabe, para se fechar um negócio é preciso que os 2 lados estejam de acordo, mas basta um para se fazer uma guerra. Eles poderiam não ter certeza das intenções pacíficas humanas, nem os homens, do pacifismo deles. – A única segurança para ambos seria destruição de uma ou ambas as naves ali estacionadas…e já.

Mas, a própria vitória não seria o bastante…O homem precisava conhecer o planeta de origem dessa outra raça, para mais tarde…evitá-la, ou combatê-la. Precisaria conhecer suas armas, e recursos, para eliminá-la… – caso fosse necessário… E os desconhecidos sentiriam as mesmas necessidades frente à humanidade. – Por isso…o comandante da Llanvabon não apertou o botão… que, possivelmente teria destruído a outra nave. Não ousou abrir fogo. Dentro daquela imensa tensão, ouviram-se vozes na sala de controle:

“A outra nave está parada, senhor. – Absolutamente                                          imóvel. Os desintegradores estão centralizados nela”.

Cavaleiro-negro-sateliteEra uma sugestão para abrir fogo, mas o comandante balançou a cabeça para si mesmo. – A nave estranha, apagada, por completo, não estava a mais de 20 kms de distância…Todo o seu exterior, era um escuro abissal em que nada se refletia… Não se via qualquer detalhe, exceto variações insignificantes… que  reproduziam seu perfil…em contraste com a ‘espuma brilhante’ da nebulosa.

O “bote salva-vidas”

“Está completamente parado, senhor”… disse outra voz… ”Eles enviaram em nossa direção uma onda curta modulada. Frequência modulada. Aparentemente um sinal. Não tem força suficiente para causar qualquer dano”. O comandante cerrou os dentes… — “Estão fazendo alguma coisa agora”… “Há movimento do lado de fora da nave”.

“Observem o que eles mandam para fora”, replicou o comandante… – “Concentrem sobre esse alvo os desintegradores auxiliares”, completou. Então, algo comprido começou a sair lentamente da nave escura. E logo após, esta começou a mover-se… – “Estão se afastando, senhor”…disse o auxiliar… – Mas o objeto colocado para fora pela outra nave permanecia estacionado. Quando…outra vez, o silêncio foi interrompido …”Mais sinais em frequência modulada, senhor… – Ininteligíveis”.

Os olhos de Tommy brilharam. O comandante olhou para o visor, enquanto o suor lhe desciam da testa. “Tanto melhor comandante”, disse Tommy confiante. “Se enviassem alguma coisa em nossa direção, poderia parecer um projétil…ou uma bomba. – Assim,    eles chegaram perto, largaram um ‘bote salva-vidas’, e se afastaram de novo. Pensam  eles, que poderíamos mandar um artefato – tripulado ou não, para fazer contato, sem maiores riscos à nossa espaçonave… — Eles devem pensar mais ou menos como nós”.

O comandante… sem tirar os olhos da tela do visor… disse para Tommy: ”Sr. Dort, você poderia sair da nave, para examinar o           objeto?…preciso de alguém para fazê-lo… Talvez você pudesse”.

E Tommy, prontamente respondeu… – ”Muito bem, senhor…basta um traje espacial, com algum dispositivo de propulsão. Creio que deva levar o estabilizador EPR”. Enquanto isso, a outra nave continuava se afastando silenciosamente… 40, 80…400 kms… Até que então, aí parou, aguardando uma resposta.

Enquanto vestia seu traje espacial (‘com propulsão’) … Tommy escutava as informações transmitidas a todos compartimentos da nave. O fato do outro veículo ter parado a 400 kms de distância, para ele…era altamente tranquilizador. Nenhuma arma convencional alcançaria tal distância, portanto…sentia-se seguro. Contudo… justamente quando esse pensamento começava a se cristalizar em sua mente, a estranha nave vertiginosamente    se afastou ainda mais. Seria este um plano de fuga…ou uma dissimulação?…pensou ele.

Tommy lançou-se para fora da espaçonave, penetrando num vácuo de brilho                    tão intenso — quanto jamais fora dado a qualquer ser humano experimentar.

Foi quando, por trás dele, a Llanvabon afastou-se como um dardo. Pelos fones de seu capacete, Tommy ouvia então, a voz do comandante… – ”Também estamos recuando, Dort…É possível que possuam alguma ‘reação em cadeia’…que não usam de sua nave,    mas que seja detonada dessa distância. Nós recuaremos enquanto você faz a conexão        do (‘simulador EPR’) com o objeto”.

ufo-nebulaSeu raciocínio estava certo … muito embora “aterrorizante” … Um explosivo capaz de destruir qualquer coisa num raio de 20 kms era ‘tecnologicamente’ desconhecido – mas, teoricamente plausível . Assim, por medida de segurança, convinha que a Llanvabon se afastasse do local. – Tommy, sentindo uma enorme solidão naquele momento, ligou os autopropulsores do seu traje espacial, e precipitou-se através das profundezas do vácuo, rumo àquela pequena mancha negra, que se destacava em meio à incrível luminosidade nebular.

Nesse intervalo, a Llanvaban desapareceu de vista, confundindo, a uma relativamente curta distância, o brilho de sua couraça polida, com o nevoeiro…A outra nave também    não era mais visível a olho nu. – Tommy nadava no vácuo, a 6,5 mil anos-luz da Terra, para encontrar um pequenino objeto escuro… o único sólido, em todo espaço ao redor.

“Estou aqui” disse Tommy, pelo fone do capacete. Tocou no objeto, que era metálico, totalmente opaco… Apalpando com suas luvas, não percebeu qualquer sinal de textura, nada de novo… ”Impasse, senhor!… nada a informar que nosso esquadrinhador já não tenha feito”. – Nesse momento, em de seu traje… – sentiu algum tipo de vibração, que   podia traduzir em ruídos estridentes…e então, uma parte da estrutura abriu-se. – Ele, curioso…tentou olhar para dentro, pensando encontrar aí os primeiros extraterrestres    que jamais outro ser humano observara. – Mas, o que viu foi simplesmente uma placa plana… – da qual “luzes aleatórias” se projetavam… sem qualquer finalidade aparente.

De volta à Llanvabon

Ouviu então uma exclamação de surpresa. – Era a voz do comandante…”Muito bem,    Dort. Ajeite o ‘estabilizador EPR’ de maneira a poder apontá-lo para essa placa. Eles lançaram um veículo de comunicação. – Qualquer ação que fizéssemos, atacaríamos apenas o mecanismo. Talvez esperem que levemos o aparelho a bordo, mas pode ser      que tenha uma bomba. Deixe o ‘conversor automático’ aí conectado…e volte à nave.”

“Sim senhor”, disse Tommy…”mas onde está a nossa nave?”…Não havia estrelas. A nebulosa as obscurecia com sua luz brilhante. – A única coisa visível da plataforma alienígena era a incrível pulsação da estrela de neutrons…no centro da nebulosa. E    Tommy não mais conseguia se orientar… – apenas com aquele pulso de referência.

“Afaste-se em linha reta, partindo da direção do pulsar!”…veio a ordem pelo fone de ouvido…”Nós o resgataremos!”… As duas espaçonaves então, se comunicariam pelo “sistema EPR”. Seu estabilizador lhes permitiria trocar todo tipo de informação que ousassem fornecer… enquanto poderiam discutir internamente o meio mais prático          de garantir sua própria segurança… em função das informações assim transmitidas.

A missão Llanvabon depois disso…tornou-    se um duplo dever…Deixara a Terra com a tarefa de observar do ponto mais próximo possível, detalhes da “estrela de neutrons”, no centro da nebulosa… resultado da mais violenta explosão no universo…observada,  registrada…e catalogada pelo ser humano.

A explosão ocorreu no século VI A.C., mas sua luz só foi alcançar a Terra no ano 1054 da era cristã…fato devidamente registrado por astrônomos chineses… à época. — Sua luminosidade foi tão grande que mesmo à distância de 6,5 mil anos-luz da Terra, o fenômeno pôde ser visto à luz do dia, durante 23 dias consecutivos, com intensidade de brilho aparente maior do que Vênus, no fenômeno que passou a ser conhecido como “supernova“.

Quando, no século 20, os telescópios apontaram para o evento…no céu restava                apenas uma pequena estrela de neutrons, pulsando no centro de uma nebulosa.

Ela, portanto, bem que merecia ser vista de perto, incluindo uma análise detalhada de sua luz. Esse era o objetivo principal da missão, mas o encontro inesperado com a espaçonave alienígena na mesma região tinha implicações tais… – que deixariam em segundo plano o propósito inicial daquela expedição. E de fato o pequeno e misterioso aparelho alienígena flutuando no tênue gás da nebulosa, levara os tripulantes da Llanvabon – em seus postos de alerta máximo, a uma enorme expectativa.

A explosão, observada há mil anos, teria limpada a área, agora tomada pela nebulosa, de todo e qualquer possível vestígio de vida. Portanto, os visitantes provinham de um outro sistema estelar, afastado dali – e sua viagem, como a da nave terrestre, deve ter sido por motivos puramente científicos…Já que nada havia de valor, que pudesse ser extraído da nebulosa, a não ser gás rarefeito… – Supondo então, que os tripulantes da outra nave se encontrassem perto do nível da civilização humana… isso significava que eles possuíam, ou poderiam desenvolver técnicas e objetos de uso (científico ou não) que poderiam ser objetos de permuta, em termos cordiais. Todavia…necessariamente haveriam de se dar conta… – de que a existência humana…era uma ameaça potencial à sua própria espécie.

Ser ou não ser…(inimigos)                                                                                                            As duas raças poderiam ser amigas…mas também, inimigas mortais. Cada uma, mesmo que inconscientemente, era uma ameaça mortal à outra…E, em um certo sentido, a coisa mais segura a se fazer diante de tal situação, é destruí-la.

Portanto… – ali, na “nebulosa do Caranguejo”, o problema então era grave, e imediato. As futuras relações entre as 2 raças, seriam (ou não) estabelecidas agora. Se fosse possível de se iniciar um processo de amizade, ambas raças se beneficiariam mutuamente… Mas esse processo de confiança mútua tinha que ser estabelecido…e estimulado – sem um mínimo perigo de traição… A confiança precisaria ser estabelecida sobre os alicerces de uma total desconfiança. – Nenhuma das 2 naves ousaria retornar à sua base, se a outra pudesse, de algum modo, prejudicá-la… – O mais certo, é que a única solução totalmente segura para ambas, seria uma destruir a outra, ou ambas serem destruídas.

Mesmo no caso de uma guerra porém, era necessário mais do que pura destruição … No domínio da comunicação, e navegação interestelar os alienígenas deviam saber e desfrutar de toda forma de energia…mais algum tipo de ‘overdrive’… para viajarem acima da “velocidade da luz”…E, além da radiolocalização por comunicadores EPR, possuiriam, naturalmente, muitos outros dispositivos quantum-fotônicos.

Que armas teriam eles?… — Qual a verdadeira extensão de sua cultura? Poderia se estabelecer um intercâmbio de comércio e amizade entre os 2 povos, ou seriam as 2 raças tão dessemelhantes…a ponto de só a guerra poder existir entre elas?…E, se a paz fosse possível, como seria iniciada?

A tripulação da Llanvabon precisava de fatos, o mesmo acontecendo com os viajantes da espaçonave desconhecida… Eles deveriam colher o máximo de informações possível. E a mais importante de todas, por precaução, seria, em caso de guerra a localização da outra civilização. Esta informação poderia ser o fator decisivo numa guerra interestelar… Mas, outros fatores seriam igualmente valiosíssimos.

O trágico em tudo isso, era que não podia haver informação possível capaz de levar à paz. Nenhuma das 2 tripulações podia expor a existência de sua própria raça, na convicção da boa vontade, ou dignidade da outra. Assim, fez-se uma curiosa trégua entre as 2 naves. A alienígena continuava no seu trabalho de observação…bem como a Llanvabon. O veículo robótico flutuava no vácuo brilhante. Um aparelho “esquadrinhador” estava sintonizado com o aparelho alienígena…que assim mantinha contato com a Llanvaban… e vice-versa.

Assim, a comunicação entre as 2 naves começou de repente…e progrediu rapidamente. Tommy Dort foi um dos que apresentou os relatórios iniciais sobre esse progresso. Sua missão inicial na expedição tinha sido substituída pela incumbência…de ‘interpretar’ e decodificar as mensagens trocadas entre as tripulações. E juntamente com o psicólogo      de bordo, nesse instante dirigiu-se à “cabine de comando” para transmitir a notícia do sucesso. Essa cabine, como de costume, era um lugar silencioso, com painéis em luzes fosforescentes, e grandes visores panorâmicos tridimensionais…nas paredes e no teto.

Os telepatas

“Estabelecemos comunicação bastante satisfatória”…disse o psicólogo… — demonstrando sinais de cansaço. Seu trabalho a bordo, era avaliar fatores pessoais de risco na tripulação, para redução de erros humanos ao nível mais baixo possível… “Podemos dizer-lhes quase tudo o que desejarmos, e podemos entender quase tudo o que dizem…Mas, não podemos, naturalmente… – ter certeza de que seja verdade… – tudo aquilo que eles querem dizem.”

E Dort complementou… “Montamos certo mecanismo, que corresponde a um tradutor iônico… – Temos “micro-conversores”…em corrente direta de ondas curtas. Eles usam modulação de frequência intermitente, combinada com algo, provavelmente variações aleatórias de ondas caóticas… Nunca fizemos uso de algo semelhante, por isso nossos instrumentos não podem operar satisfatoriamente nessa faixa… – mas, aperfeiçoamos    uma espécie de ‘código‘, que corresponde à uma linguagem inédita para nós. Emitidas suas informações em ondas curtas, moduladas em ‘frequência’, nós as gravamos como sons. Quando respondemos, a transmissão é reconvertida para frequência modulada.”

O comandante franziu a testa…e perguntou… “Por que a forma da onda modulada se converte em ondas curtas?… – Como você descobriu isso?”… – E Tommy respondeu:

“Eles gravam a ‘frequência modulada’ naturalmente. – Penso que não usam o som, nem mesmo para falar. Nós os observamos pelo ‘visorama’ quando se comunicavam conosco. Não fizeram movimentos perceptíveis… de qualquer coisa que correspondesse ao órgão    da fala ou audição. – Em vez de usarem microfones…simplesmente se colocam perto de alguma coisa que funcione como uma antena. – Minha impressão, senhor… é que usam microondas no que se pode chamar de uma conversação pessoal…como se fossem sons”.

O comandante fixou-lhe o olhar, algo surpreso… ”Isso significa que eles são telepatas?”… E Tommy respondeu…”Sim senhor. E significa que nós também somos telepatas com relação a eles. – Provavelmente são surdos…Certamente, não têm qualquer ideia de ondas sonoras no ar para comunicação… – Simplesmente… não utilizam ruídos para nenhum finalidade”.

O comandante escutou tudo…e então indagou: ”Bem, e o que mais?”… – Tommy explicou:

”Acho que, mesmo assim… conseguimos nos entender. Estabelecemos, de comum acordo, símbolos arbitrários para uma “linguagem analógica”… e elaboramos relações verbais por diagramas e fotogramas… Daí, já possuímos cerca de 2 mil palavras como signos comuns. Montamos um analisador para selecionar seus grupos aleatórios de microondas…para os quais adaptamos uma máquina decodificadora. Em sequência…o terminal de codificação recebe as gravações para produzir os grupos de onda que precisamos reenviar…com base na frequência da pulsações de neurônios. – Quando quiser conversar com o comandante da outra nave, é só o senhor avisar … pois acho que estamos preparados para a conexão”.

“E qual sua impressão sobre a psicologia deles?”…perguntou o comandante ao psicólogo. “Não sei, senhor”… disse ele embaraçado… – Parecem absolutamente sinceros, mas não deixaram transparecer nenhum sinal de tensão – e nós sabemos que, nesse caso, sempre existe. Agem como se estivessem simplesmente estabelecendo um ‘meio de comunicação’ para um ‘bate-papo’ amigável…Mas, parece difícil não existir alguma coisa por trás disso tudo” (O psicólogo, de fato… não estava preparado para analisar um tipo de pensamento totalmente desconhecido).

“Se não me engano, senhor”… disse Tommy meio inibido…”Eles respiram oxigênio como nós, e não são muito diferentes nos outros aspectos…Talvez seja uma evolução paralela…Talvez a inteligência evolua assim como as funções básicas do corpo… – Quero dizer que, qualquer ser vivo, de qualquer espécie – deve ingerir, metabolizar, e expelir. Talvez todo cérebro inteligente deve, pela percepção encontrar uma resposta pessoal. Estou certo de ter percebido um quê de ironia por parte deles, um senso de humor. Em resumo senhor, acho que se possa gostar deles.”

salarial1Abrindo “conversações”

O comandante pôs-se de pé… e murmurou… ”Vamos ver o que eles têm a dizer”. E a seguir, se dirigiu ao “setor de telemática” da nave. – Tommy Dort, que o seguia… iniciou o protocolo de códigos do transdecodificador,    e começou a “operá-lo”.

Dele se podia ouvir ruídos altamente aleatórios…dirigidos a um modulador frequencial, já devidamente preparado para a decodificação do sinal recebido. — Então… quase que num repente, a tela do visor…acoplado ao transmissor alienígena iluminou-se com imagens do interior da outra nave. E um ser surgiu diante do ‘visorama‘ … parecendo curiosamente olhar para dentro da tela… – Parecia extraordinariamente humano… – mas não era… – A impressão que dava… era uma extrema calvície… e uma franqueza muito bem-humorada.

“Eu gostaria de dizer”…começou o comandante com uma voz grave…”coisas adequadas sobre este primeiro contato entre duas diferentes civilizações planetárias … e da minha esperança de que isso resulte num intercâmbio cordial entre nossos povos”… – Tommy operou o ‘codificador’, transformando a mensagem em “ruídos aleatórios”… os quais, o comandante da outra nave pareceu compreender, com um possível gesto de aprovação.

Alguns segundos depois… e o ‘transdecodificador’ da Llanvaban entrou em ação, com seu zunido característico, e letras formaram palavras, moduladas por um código analógico de algoritmos. E Tommy, assim as explicou: “Senhor, ele concorda com tudo…mas pergunta se haverá algum modo capaz de permitir o regresso de ambas expedições a seus planetas de origem, sem qualquer tipo de receio… Ficaria feliz, caso esse problema fosse resolvido por ambas as partes, mas por enquanto, não vê uma solução”.

A atmosfera na Llanvabon era confusa…Havia perguntas demais, e nenhuma resposta para qualquer uma delas. Mas, todas deviam ser respondidas imediatamente…A nave poderia voltar para Terra?…A outra nave poderia viajar em dobra num overdrive?…E,    caso lutassem, mesmo que vencessem… teria a nave alienígena um comunicador ‘tipo  EPR’ para enviar online suas ‘coordenadas gravitomagnéticas‘…em rastreamento da Llanvabon até seu regresso à Terra?… Mas, se perdesse, melhor que fosse totalmente destruída ali mesmo…sem deixar pistas de sua localização de origem. – A outra nave,      por certo, também estaria com a mesma preocupação. – Regressando agora, poderia        ser seguida pela Llanvabon… ou mesmo… ter sua rota interceptada por ‘mecanismos hiperespaciais de rastreamento’… – o que também acarretaria na fragilidade de seus protocolos de segurança máxima.

Nenhuma das naves podia pensar em fuga…E, nesse ponto, ambas estavam                      em absoluta igualdade de condições…E uma pergunta continuava no vácuo                      interestelar, para ser urgentemente (co)respondida… – O que fazer agora!?

Os outros enxergavam na luz infravermelha, o que indicava que sua estrela de origem emitiria na mesma faixa… – justamente abaixo do espectro visível dos seres humanos; conclusão essa, inversamente, também deduzida por eles…que tinham um dispositivo interno, tipo memória, para armazenamento de informações em microondas…alvo de tanta curiosidade, por parte dos humanos…quanto os alienígenas estavam fascinados pelos mistérios do som.

Eles podiam perceber a luz infravermelha pela sensação de calor que ela produzia,         mas eram incapazes de diferenciar a variedades dos tons… – Para eles … a ciência humana do som… – se tornara uma incrível descoberta… – Encontrariam para os       ruídos, aplicações que jamais imaginaríamos; se conseguissem escapar vivos dali.

Mas essa era outra questão. – A princípio, nenhuma das naves poderia partir primeiro, sem antes destruir a outra…enquanto a troca de informações rolava, não muito à solta.

GalaxyMapTommy se deu conta a certa hora, de que os alienígenas haviam elaborado um falso mapa estelar de navegação, com os mesmos ‘erros propositais’… que havia incluído num outro mapa, projetado anteriormente por ele… e, esboçou um sorriso… – Começara a simpatizar com esses…’alienígenas’.

Aos poucos Tommy tentou traçar um diálogo mais leve, incluindo gracejos tão sutis…quanto lhe fosse permitido, para transcrições em microondas… a “frequência modulada“. Transmitido com tanta formalidade…não era para ter graça… — mas “eles” entenderam.

Havia um tripulante deles…em especial, para o qual a comunicação era uma coisa tão natural, quanto para Tommy. E os dois fizeram estreita amizade, através de códigos e conversões intermitentes. Quando as mensagens oficiais envolviam detalhes técnicos,      em excesso, o alienígenas fazia algumas ilações estritamente informais…semelhantes          a gírias. Tommy, sem nenhuma razão especial, resolveu apelidá-lo de ‘Mack’ … nome    pelo qual o desconhecido passou a assinar suas mensagens.

Na 3ª semana de comunicações…o ‘decifrador’, subitamente, estampou na tela a seguinte mensagem…“Você até que é um bom sujeito…pena que tenhamos que nos matar”. (Mack)  Tommy, que também pensava no mesmo assunto, logo respondeu, pesarosamente… ”Não sabemos como evitar isso. E vocês?”. Após breve pausa, nova mensagem foi recebida:  ”Se pudéssemos acreditar um no outro, haveria uma solução…Nosso comandante ficaria feliz, mas não podemos acreditar em vocês… – nem vocês em nós… – Sentimos muito”. (Mack)

Tommy Dort então, se dirigiu ao comandante da Llanvabon…”Olhe senhor, eles são bem parecidos conosco”…Demonstrando cansaço, o comandante respondeu… ”Eles respiram oxigênio. Seu ar contém 28% de oxigênio…em vez dos nossos 21%…mas podem respirar muito bem na Terra… – Portanto… – seria uma conquista altamente desejada para eles”.

Tommy, que se mostrava inquieto, argumentou…“Se destruirmos a nave deles, ao regressarmos à Terra, nosso governo global… não vai ficar nada satisfeito por não tentarmos de todas as formas obter contato para uma “colaboração amigável” – e continuarmos isolados no universo” E o comandante respondeu… visivelmente contrariado… “Também não gosto disso, mas não vejo outra saída”.

Na Llanvabon, toda engenharia mecânica já estava preparada para uma sobrecarga de energia nos desintegradores, apontados diretamente para a outra espaçonave. – Já os mapas estelares, instrumentos de navegação, e registros de viagem… com anotações e estereofotos dimensionais, que Tommy Dort elaborara durante os 6 meses de viagem, estavam num arquivo secreto, para serem instantaneamente deletados.

A própria Llanvabon, também havia se preparado para uma eventual  autodestruição… — apesar do sincero tom moderador do comandante alienígena, em seus últimos comunicados… — Nesse ponto, todos dois comandantes admitiam que procurariam, de toda forma imaginável,    uma maneira…a mais civilizada possível, de entendimento entre eles.

Poderiam impedir o combate mediante a troca antecipada de “informações confidenciais”, mas havia limites para concessões, de parte a parte. Aparentando uma ameaça terrível ao outro lado, ambos tentavam tornar a luta evitável. Era curioso, entretanto, a forma como aqueles cérebros…  —  totalmente desconhecidos entre si…  —  conseguiam relacionar-se.

Uma questão eminentemente bipolar

Tommy Dort, finalmente, ao estabelecer uma espécie de gráfico dos problemas que ambos os lados tinham pela frente  –  encontrou um tipo de…’equação não-linear biunívoca‘. Inicialmente … partiu da premissa de que os desconhecidos… com toda aquela tecnologia, não possuíssem qualquer instinto natural de destruição humana. E, com efeito… o estudo das ‘comunicação alienígenas’ produzira um sentimento de tolerância para com os extra-terrestres … parecido com o que se via entre soldados inimigos… — durante uma ‘trégua’.

A única causa de matar ou ser morto, durante uma guerra                             terrestre, se justificava por motivos estritamente…’lógicos’.

A seguir, Tommy listou os principais objetivos humanos, nesse caso específico, por ordem de importância… – O primeiro… era comunicar a existência de uma cultura desconhecida. O segundo… – supondo um ‘grau tecnológico’ razoavelmente semelhante… – a localização daquela cultura na galáxia… – E o terceiro… obter o máximo de informação possível sobre essa cultura alienígena…o que, aliás, ou bem ou mal, já estava sendo feito. Mas, o segundo objetivo era provavelmente impossível, o que – de certa forma, comprometia…o primeiro.

Por outro lado, os objetivos alienígenas eram exatamente iguais; de sorte que os humanos deveriam evitar… – primeiro… a informação de sua existência por eles… – em seguida… a localização da Terra…e, por fim – informações que estimulassem a curiosidade alienígena sobre a cultura humana. E, tudo isso, levando em conta que a ‘transmissão da informação’ ainda dependia da restrição relativística da “velocidade da luz“… – E que essa questão, só um “teletransporte quântico“, ou mesmo “tunelamento em hiperespaço” poderia resolver. 

Olhando com certo amargor para este quadro, Tommy Dort de repente se deu conta de que mesmo a vitória completa para um dos lados… não seria a solução perfeita… – Isto porque, o ideal…para ele – seria que a Llanvabon levasse consigo aquela exótica nave para estudos. Só assim, o 3º objetivo estaria plenamente cumprido… Mas Tommy intimamente rejeitava a hipótese de que, para a evolução do saber, devêssemos aniquilar seres inteligentes…bem-humorados.

Ou seja, o puro acaso do encontro entre povos que se podiam estimar mutuamente … resultaria numa situação capaz de sua exterminação.

Por isso, ele se empenhara tanto na busca por uma solução. Mas o problema parecia insolúvel. Era por demais absurdo que duas espaçonaves se enfrentassem no espaço distante (…sabendo que nenhuma delas tinha por objetivo guerrear) – temendo que tripulantes de uma dessas naves carregasse consigo informações, que levassem uma civilização inteligente a ir contra um adversário desprevenido. – Mas, e se ambas as    raças pudessem, uma sabendo que a outra não queria lutar, se inter-relacionar sem          saberem suas localizações, senão após encontrar motivos para confiança recíproca?

Era impossível, utópico…Uma tolice…Mas, era uma ideia tão sedutora que Tommy Dort não hesitou em codificar uma mensagem ao seu colega Mack…e a resposta não tardou a chegar: “Certo”…disse ele… “é uma bela tentativa, mas eu gosto de você, e porém, ainda não acredito em você. E se eu lhe dissesse isso antes, você também não acreditaria…por mais que simpatizasse comigo. Eu te digo a verdade mais do que você acredita, e talvez, você também me fale a verdade, além da minha capacidade de acreditar. Mas, quanto a isso, não há um meio de saber. Sinto muito.”

Tommy decifrou a mensagem com grande pesar, sentindo-se responsável por um fracasso que poderia custar a vida de bilhões de seres, humanos e/ou alienígenas. Mas, justamente quando mais triste se sentia – pareceu que a resposta lhe chegara como uma ‘premonição’. Era de uma simplicidade singular…e caso realmente funcionasse, poderia ser considerada uma vitória para ambas os lados.

Ele então, sentou-se silencioso, sem ousar o mínimo movimento, para não interromper o fio da meada… que dava continuidade às primeiras ideias esboçadas em seu pensamento. Entregue às reflexões, ele mesmo levanta objeções, e as refutava…tentando transpor com segurança, todas dificuldades… mesmo aquelas que pareciam impossíveis de ultrapassar.

Quando finalmente sentiu-se seguro de sua solução… emergindo tonto… de suas quase infindáveis elucubrações, caminhou aliviado para a cabine de comando, a fim de expor suas ideias… “Senhor”disse Dort ao comandante…“gostaria de propor um método de abordar a outra espaçonave… Eu mesmo o realizarei, e mesmo que não dê certo, nossa nave não sofrerá qualquer consequência em represália”.

O comandante voltou-se para ele, com um ar de desconfiança…”As táticas já foram todas elaboradas, Sr. Dort”disse enfático… “E estão sendo gravadas agora, para o relatório de bordo. É um jogo terrível, mas necessário”… – Ao que Tommy imediatamente replicou…  ”Senhor, acho que encontrei um meio de evitar esse jogo tão arriscado; suponhamos que eu envie uma mensagem à outra nave oferecendo…” E Tommy continuou sua explicação, enquanto o “visorama” tridimensional espelhava a névoa, intercalada pelo pulso regular    da estrela de neutrons, no centro da nebulosa… – girando lá fora…30 vezes por segundo.

O plano em ação

O comandante achava que… acompanhando Tommy, poderia assumir a responsabilidade pelo sucesso – ou fracasso daquela tentativa. Em caso de fracasso…a Llanvabon já estaria preparada para “atacar” a nave alienígena.

A escotilha externa, após a despressurização, abriu-se para o vácuo. – À curta distância…o ‘aparelho alienígena de contato’ permanecia,  tranquilamente estacionado… As 2 silhuetas, em trajes espaciais…deslizaram para fora da Llanvabon… – mergulhando num oceano de espaço — com destino ao “bote salva-vidas”, enquanto se comunicavam através do “interfone” embutido no traje espacial… ”Sr. Dort”, disse o comandante…”durante toda minha vida sonhei com aventuras. Essa é a primeira vez que posso justificá-las a mim mesmo”E Tommy prontamente respondeu: ”Isso não me parece aventura, senhor… Desejo desesperadamente que o plano seja bem-sucedido. Sempre me pareceu que numa aventura… pouco se estava importando com o resultado.”

”Não!”respondeu o comandante…”uma aventura é quando você                   coloca sua vida na balança do acaso, e espera o ponteiro parar.”

Ao alcançarem o objeto flutuante, o comandante comentou…”Inteligentes, essas criaturas! Devem estar muito curiosas em conhecer nossa nave, para concordarem com essa troca”…  Tommy concordou, mas intimamente suspeitava que Mack, seu amigo alienígena, gostaria de conhecê-lo, independente de qualquer disputa…E também, que entre os tripulantes das duas espaçonaves, se formara um ambiente de cortesia… como, por exemplo, o que existia entre cavaleiros medievais… – antes de se espetarem em um torneio… diante da corte real.

Não esperaram muito tempo, até que do nevoeiro 2 outras figuras surgissem, com trajes também dotados de propulsão… – Os alienígenas, de menor estatura, usavam capacetes revestidos de um material que filtrava raios ultravioletas…que para eles, seriam mortais. Por interfone… Tommy recebeu uma mensagem da Llanvabon… informando que a nave alienígena já os aguardava. – O comandante então fez um gesto aos outros em direção à Llanvabon, e mergulhou com Tommy no espaço…em direção à outra nave. Embora não pudessem enxergá-la muito bem, foram guiados até lá por instruções da Llanvabon… E, logo chegaram lá…

A nave alienígena era praticamente do mesmo tamanho que a Llanvabon, e os dois caminharam em seu sombrio interior por esteiras magnéticas. Tudo era escuridão, quando Tommy e o comandante simultaneamente, acenderam as luzes brandas do capacete espacial para não ofuscar a visão em infravermelho dos alienígenas… que            os aguardavam, e os encaminharam…através de longo corredor…à outra cabine de comando da outra nave espacial.

Tommy notou em seu ‘aparelho de pulso’ que o ar dali continha 30% de oxigênio… em vez dos 21% da Terra… mas com uma pressão um pouco menor… Então, achou por bem retirar o capacete – e conseguiu respirar sem maiores problemas.

A gravidade artificial era um pouco maior do que a mantida na Llanvabon… – o que fazia sentido…para um planeta um pouco maior do que a Terra, orbitando uma anã vermelha. – Os ‘exóticos anfitriões’ como um gesto de cortesia… haviam iluminado o ambiente com uma luz um pouco acima do normal deles — o que fez Tommy ainda mais confiante de que seu plano desse certo.

O comandante da nave se dirigiu a eles… com um gesto que pareceu a Tommy… como de ‘boas-vindas‘, que o pessoal da Llanvabon assim traduziu: “Ele diz, senhor, que os saúda com prazer, mas que só conseguiu pensar em um único meio pelo qual o problema desse encontro casual possa ser resolvido”...“Ele está querendo uma luta”disse o comandante    a Tommy…”Diga-lhe que estou aqui para propor uma outra alternativa.”

Os 2 comandantes estavam face a face – mas sua comunicação se dava indiretamente…Os extraterrestres não usavam sons para se comunicar…Sua conversação era por microondas, e telepatia de curta distância. Eles não ouviam, muito menos falavam…no sentido comum da palavra. O que o comandante alienígena fez… foi se comunicar com a Llanvabon, e esta transmitiu ao comandante terráqueo que o seu colega estava ansioso por saber a proposta.

A propostaafinal

O comandante da nave terrestre então, tirou seu capacete, e colocou suas cartas na mesa: “Estamos aqui há um mês… trocando informações superficiais – e mutuamente, não nos odiamos. Não temos qualquer motivo para lutar, exceto…por nossos povos”parou para respirar, e concluiu…”Mas tudo isso é uma loucura!”…E aguardou a resposta de volta da Llanvabon… “Ele afirma que tudo o que o senhor diz é verdade. Mas que a raça dele tem que ser protegida, da mesma forma que o senhor acha que a sua deva ser.”

“Naturalmente”, disse o comandante transparecendo certo nervosismo. “Mas a coisa mais sensata a fazer para proteger nossos povos é começar uma luta totalmente insensata?…Os nossos povos devem ser advertidos da existência de uma outra raça…é verdade…mas cada um deve ter prova de que a outra não deseja lutar, mas sim manter relações cordiais entre si… – E, embora não sejamos capazes de nos localizar… deveríamos poder nos comunicar, para encontrarmos motivos de confiança, e respeito mútuo. Se nossos governos quiserem assumir a loucura de uma guerra, isso é lá com eles. – Mas temos obrigação de dar-lhes a oportunidade de tornarem-se amigos fraternos, ao invés de iniciar uma guerra no espaço”.

Logo a seguir, a Llanvabon retransmitiu a mensagem do comandante alienígena…”Ele diz que a dificuldade consiste em confiarmos um no outro… Estando em jogo a sobrevivência de duas civilizações ele não pode correr o mínimo risco… – nem tampouco o senhor pode conceder-lhe qualquer vantagem. – E diz que está curioso em saber qual a sua proposta.”

“TROCAR DE NAVES!”…respondeu o comandante da Llanvabon impaciente. “Trocar de naves, e regressarmos a nossos planetas. Podemos ajustar nossos instrumentos de modo    a não sermos rastreados… Ambos retiraremos nossos mapas estelares…e programas que possam denunciar nossos planos de voo… E ambos travaremos nossas armas… O ar não oferece problemas – tanto aqui quanto lá… – Podemos tomar a nebulosa do Caranguejo como ponto de encontro, numa data a ser marcada mais tarde. Esta é a minha proposta”.

negóciofechadoQuando a tradução chegou aos alienígenaseles começaram a se movimentar excitados, fazendo gestos incompreensíveis aos dois terráqueos… – Só mais tarde…Tommy e Jerry – seu comandante…foram descobrir que “eles” estavam festejando um acordo, que a todos… – parecia assim, tão improvável.

Durante 3 dias as tripulações se misturaram…aprendendo tudo o que de mais importante havia a ser aprendido…Foi grande a tensão naqueles 3 dias. Havia ainda uma infinidade de detalhes a serem então resolvidos… desde a troca da iluminação dos ambientes… até dúvidas quanto à retirada    de arquivos. – Mas o curioso é como cada tripulação já estava perfeitamente ciente das  medidas corretas a tomar para impedir toda e qualquer quebra de protocolo no acordo.

Houve uma conferência final, antes das duas naves se separarem, na sala de comunicações da Llanvabon – onde ficou acordado de que se encontrariam novamente… naquele mesmo lugar, numa data determinada de comum acordo com seus governos, se é que eles iriam se entender sobre isso… – E, quando o último humano deixou a nave terrestre…esta deslisou para fora do nevoeiro da Nebulosa… – seguida pela nave alienígena… em direções opostas, mergulhando alucinadamente, graças ao overdrive, no vazio aberto do espaço interestelar.

Texto baseado no conto “Primeiro Contato” de Murray Leinster (tradução original de Mário Salviano) incluído na coletânea “Antologia Cósmica” organizada por F. Cunha.  *************************(termos complementares)******************************

Frequência: É o número de oscilações de onda…por um certo período de tempo… – A unidade de frequência é o hertz (Hz), que equivale a 1 segundo… portanto, quando uma onda vibra a 50Hz … significa que ela oscila 50 vezes por segundo. A frequência de uma onda só muda quando houver alterações na origem de sua fonte… Já a ‘intermitência  ocorre, quando algo se manifesta cessando e recomeçando por intervalos. Intermitente, portanto, é uma característica de algo que, por interrupções, não é permanente…não é contínuo.

TRANSDUTOR: claro que é possível transformar energia sob a forma de som em energia elétrica… – Isso é feito a todo momento. Por exemplo… quando falamos em um microfone, o som gerado é transformado em “energia elétrica pelo aparelho…Tal energia, no entanto, tem um nível muito baixo (“potência mínima”). Por esse nível ser tão baixo, o som captado pelo microfone… – precisa ser amplificado…para assim, então… – poder tornar-se audível.

Detecção no radiotelescópio

A detecção de ondas de rádio, diferentemente da detecção de fótons óticos, explora o caráter ondulatório da luz. A radiação excita um campo alternado no detector…que é registrado eletronicamente como uma voltagem de corrente alternada – descrita por    uma onda, com amplitude e fase. A ‘fase’ permite que ondas de diferentes detectores possam ser somadas, produzindo ‘interferometria‘. antena do rádio telescópio,      por sua vez, seleciona a direção a ser observada, coleta a radiação e a transforma em      sinal de corrente alternada. O receptor seleciona a frequência e a largura da banda, processa o sinal e grava os dados, podendo então, ter um canal para cada frequência.  ***************************(texto complementar)*******************************

Sismologia Estelar

Cientistas estão usando informações sobre a ressonância de estrelas para estimar a idade e a massa de corpos celestiais…Eles medem as oscilações a partir das ondas de som contidas nelas…Em outras palavras, estudam o som das estrelas para entende-las melhor. O som da estrela é estudado da mesma forma como se ouve a forma como ressoa um instrumento musical – a intensidade dos tons indica aspectos sobre o tamanho do instrumento, e o que estiver dentro dele, o fazendo ressoar.

Ondas sonoras não se propagam no espaço, mas ondas eletromagnéticas sim… e são estas, emitidas por estrelas, que podemos ouvir com ajuda de equipamentos. Tudo graças a uma recente área da astronomia e seus métodos : a Sismologia Estelar. Se trata de estudar a estrutura interna das estrelas… através de seus espectros de frequências eletromagnéticas, geradas pela energia térmica das estrelas… – que se converte em “pulsações”.

Uma vez captadas essas emissões eletromagnéticas pulsantes, através de radiotelescópios terrestres, e outros equipamentos…como o telescópio espacial Corot, elas são convertidas para um formato de áudio (assim como fazem os aparelhos de som…que captam as ondas de rádio e as convertem em ondas sonoras)… – Dessa maneira… quando as pulsações são ouvidas… podem revelar muitas informações sobre o que acontece dentro dessas estrelas.

O som de algumas estrelas parecidas com o Sol…nos dá a sensação de estarmos no espaço. Já o som de pulsares com rotações mais lentas, parece o tocar de um tambor. – Enquanto em pulsares de rotação mais rápida … como o da ‘Vela‘… – se assemelham a um grupo de “percussionistas enlouquecidos”… – Ouça você mesmo o “som das estrelas”!… (consulta)

‘oscilações acústicas ressonantes’

Um grupo de astrofísicos da Universidade de Birmingham, Inglaterra, encontrou uma forma de registrar os sons emitidos por alguns dos astros mais antigos da “Via Láctea”,    de acordo com estudo divulgado pela ‘Real Sociedade Astronômica’… Os dados foram obtidos da missão espacial ‘Kepler/K2’ da NASA – onde os pesquisadores detectaram “oscilações acústicas ressonantes” em 8 gigantes vermelhas do aglomerado M4…com    uma idade calculada em 13 bilhões de anos. 

M4, situado a 7,2 mil anos-luz de distância da Terra, perto da constelação do Escorpião…é um dos acúmulos de estrelas mais antigos da ‘Via Láctea’. 

Para obter os sons, foi empregada uma técnica conhecida como ‘astrossismologia‘, que consiste no estudo da estrutura interna das estrelas…pela interpretação dos espectros das “oscilações ressonantes” produzidas… — Essas oscilações seriam responsáveis por breves “pulsos brilhantes” … criados quando o som na estrela interage com sua estrutura interna.

O que eles fizeram foi ouvir as notas de uma espécie de coro estelar criado pelas oscilações, e a partir dessas informações, estimar a idade e a massa das estrelas. – Esta técnica estuda as oscilações periódicas das superfícies das estrelas, que são objetos fluidos, vibrando com certos períodos naturais. Tais oscilações produzem mudanças diminutas…como pulsos na luminosidade, causados pelo som registrado dentro das estrelas. – Medindo os tons dessa “música estelar” se torna possível, então… – determinar a massa e a idade de uma estrela.

De acordo com os pesquisadores, estas estrelas são verdadeiros ‘fósseis vivos‘, da época    da formação da Via Láctea… – e por isso, a observação delas pode ajudar a explicar, por exemplo, como galáxias em espiral como a nossa se formaram e evoluíram…Ou seja, da mesma forma que arqueólogos podem revelar o passado … escavando a terra, podemos usar o som do interior das estrelas para realizar “arqueologia galática”… – auscultando algumas das “relíquias estelares” de nosso obscuro universo. (texto original) (consulta)

Missão Kepler/K2 (iniciada em 2014)

Há pouco, parecia certo que a missão do telescópio espacial Kepler chegaria ao fim antes de 2016, quando estava prevista para terminar… — Lançado pela NASA em 2009, com o objetivo de encontrar ‘exoplanetas‘ parecidos com a Terra… – o ‘Kepler’ teve sua missão interrompida quando 2 de suas quatro rodas de giro…necessárias para manter o satélite estável no espaço, pararam de funcionar. – A NASA tentou restaurar o telescópio na sua funcionalidade original… – mas… sem obter sucesso – decidiu reativá-lo para uma nova missão, denominada K2, que terá início nesta sexta-feira.

A solução veio de forma criativa…a energia do Sol será usada para estabilizar o telescópio, ajudando a mantê-lo no lugar. Desde seu lançamento, o Kepler observou mais de 150 mil estrelas em uma mesma região do céu — procurando oscilações na luminosidade emitida por elas… o que pode significar a passagem de um planeta. Mas agora, como o telescópio precisará da luz do Sol para se manter imóvel…deverá se posicionar sempre na frente do astro, ou perpendicular a ele… – se movendo…para acompanhar o movimento da estrela.

A mudança pode ter alterado o propósito original do telescópio – mas…ao mesmo tempo, possibilitou novos estudos. A Nasa selecionou novas propostas até 2016, e dentre os mais de trinta projetos escolhidos … dois contam com a participação de José Dias Nascimento, pesquisador visitante do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, EUA… e, professor do departamento de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

A primeira pesquisa tem como objetivo estudar estrelas gigantes. Segundo  Nascimento… “Essas estrelas são importante porque representam o futuro evolutivo do Sol…sendo que, já foram detectados traços de planetas nessas estrelas”. Pelas oscilações de luminosidade observadas pelo Kepler é possível obter informações sobre a estrutura delas. (texto base)

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A ‘evolução social’ pelo ‘trabalho’ (segundo K. Marx)

“O trabalho representa o fator principal do ‘salto ontológico’ entre o mundo natural          e a vida social moderna…Através de valores inerentes ao ser – tais como finalidade, consciência, conhecimento e liberdade, é responsável direto pela evolução humana”.

A constituição de uma “teoria do conhecimento”, ou “ciência lógica”, não faz parte da perspectiva marxista… – A preocupação fundamental desta teoria é ontológica, e não meramente gnosiológica – ou seja…não tem como propósito esclarecer o processo de constituição do pensamento em si… mas, basicamente… suas “finalidades objetivas”.

Não há, em Marx — pretensão de encontrar o caminho de uma unidade lógica entre ‘sujeito’ e ‘objeto’…ou, como quer Hegel… entre ‘ser’ e ‘pensamento’. – As categorias vistas na teoria marxista vêm das ‘relações sociais’…e não, de uma “especulação logicista” … Por outro lado,  pesquisas sobre o ‘ser social’…não podem ser feitas pelas ‘ciências naturais’, pois estas são “ontologicamente” limitadas, para explicar a anatomia das ‘sociedades de classes’… e suas ‘relações sociais’ numa ‘sociedade capitalista’.

“Na análise dos sistemas econômicos… nem microscópio, nem reagentes químicos podem ajudar… A faculdade de ‘abstrair’, deve substituir a ambos. – Para a sociedade burguesa, a célula da economia é a mercadoria como produto do trabalho, ou seu valor”. (K. Marx)

As “categorias modais” que realmente vão despertar o interesse do pensamento marxista são aquelas que brotam do ‘universo econômico‘…como um produto “auto-evolutivo” do ser social…A partir do momento em que se deixa de perseguir o movimento histórico das ‘relações de produção’…e se quer ver nestas categorias apenas pensamentos espontâneos, independentes das relações reais – a partir daí se é forçado a considerar o movimento da “razão pura” como a origem desses pensamentos.

As categorias não são frutos de uma produção a priori, mas produtos de longa evolução processual do ser (social). As formulações categoriais são predicações sociais mediadas pelos sujeitos em uma dada forma de “sociabilidade“. As categorias são tanto dadas no cérebro, quanto na realidade. Essas categorias expressam…“formas de ser, finalidades existenciais”…como diz Marx. – Ao contrário de preceitos gnosiológicos e logicistas…a consciência se coloca como tarefa importante, no curso do desenvolvimento social … à medida que o indivíduo vai superando as barreiras naturais, que silenciam a Natureza.

Os entraves da economia política

Se limitando à uma análise abstrata, a economia política não consegue tratar estas ‘categorias’ de uma forma correta…desprezando as ‘mediações’ que existem entre “categorias complexas”… e as mais simples. Segundo Marx“Os economistas exprimem as relações da “produção burguesa”:  a divisão do trabalho, o crédito…moeda…como categorias fixas, imutáveis, eternas”…Mas, não explicam o ‘movimento histórico’, que engendra    as ‘categorias econômicas’, as concebendo como isentas de “historicidade” e “contraditoriedade”.

Ao se apropriar, corretamente, do método de investigação hegeliano, que concebe a realidade como eminentemente ‘contraditória’, Marx consegue operacionalizar essa interpretação. — Ele considera que o método cientificamente correto das categorias,      deve levar em conta a relação ontológica entre as simples (abstratas) – e complexas (concretas). – E complementa:

O “concreto” surge no pensamento por um processo de síntese…como um resultado, e não ‘ponto de partida’. Embora aí possa estar contido, ele só aparece claramente em seu ponto de chegada… mas, como algo que está tanto no começo quanto no final…O “problema” da consciência é que ela    só pode emergir do resultado… – como uma…’ressaca’…do dia seguinte.

A realidade é uma totalidade multiforme, estruturada por complexos… mais simples, ou não. Não existe paradoxo entre as categorias menos complexas (simples) e as categorias mais complexas (concretas)…nem hierarquização na relação entre elas – pelo contrário, ocorre um processo de desenvolvimento combinado e desigual… As categorias somente emergem nas sociedades mais complexas – isto é…desenvolvidas… porque pressupõem      um longo desenvolvimento das forças produtivas…bem como da subjetividade humana.

As categorias mais complexas são as que servem de esteio à compreensão evolutiva da história da humanidade, enquanto as simples, por seu caráter ‘contingente’, explicam apenas certo momento … e dados circunstanciais. 

A ‘propriedade’, por exemplo, surge como a relação organizacional mais simples numa ‘sociedade de classes’, no entanto — não se constitui como base de uma… ‘sociedade primitiva’, pois nesta — relações simples… são aquelas em que “associações naturais“… se organizam como famílias… clãs… e tribos. 

Propriedade, Trabalho & Dinheiro

A “propriedade“, como ‘categoria simples’, pressupõe a existência de uma categoria    mais complexa, como por exemplo… “trabalho“. Isso porque, categorias simples são expressões de relações nas quais o complexo… – ainda não desenvolvido…pode ter se manifestado, sem ainda revelar sua “conexões multilaterais”, mentalmente expressas      nas categorias mais complexas, onde a mais evoluída conserva essa mesma categoria,  como uma relação subordinada.

De fato… categorias mais simples podem expressar “relações dominantes” de um todo ainda não desenvolvido. – Essas categorias, também têm sua complexidade, e por isso, precisam ser estudadas. O “dinheiro” em particular, que historicamente precedeu ao capital, aos bancos, e trabalho assalariado – parece ser uma categoria que se inclui em todas sociedades – porém…uma análise mais detalhada, revela que existiram algumas delas, bem desenvolvidas – como as pré-colombianas…e antigas comunidades eslavas,   que desconheceram expressamente o seu uso.

Na sociedade romana, por exemplo…o ‘dinheiro’ ficou circunscrito ao exército, sem exercer papel predominante no reino produtivo da vida material. No interior das sociedades antigas, ocupou papel episódico, marcando mais presença nas relações entre as ‘nações comerciantes’.

Com efeito, essa categoria mais simples (dinheiro) aparece historicamente em toda sua intensidade, nas condições mais desenvolvidas da sociedade…Portanto, a relação entre categorias mais simples e mais complexas, não é meramente controlada por uma regra cronológica, em que o pensamento abstrato vai do mais simples ao mais complexo, sua relação é bem mais paradoxal.

Já o ‘trabalho’ … apesar de aparentar natureza simples… sua categoria é tanto ‘abstrata’, quanto ‘complexa’. A possibilidade de entender trabalho como “categoria”, emerge com      o desenvolvimento do “modo de produção” capitalista, ao revelar sua natureza abstrata.    E como ‘valor de uso’, ao se relacionar no metabolismo ‘sociedade/natureza’ como uma ‘necessidade’…é uma categoria complexa.

‘valor de uso’ / ‘valor de troca’

Adam Smith realizou um grande progresso ao considerar o trabalho como a “universalidade abstrata … da atividade criadora de riqueza”. Isso só foi possível no tempo histórico em que o trabalho singular…”desgrudou” do corpo do trabalhador, e este pôde passar…de um oficio a outro… de forma bastante distinta da época histórica das “corporações medievais”… Mas, isso também se deve – sobretudo ao fato…do trabalho surgir como categoria determinante do “valor de troca”… – no modo de produção capitalista; de um modo simples, ou abstrato.

O trabalho, enquanto “substância do valor”, constitui-se como a força de trabalho que age no processo de produção de mercadorias como uma coisa…“simplesmente”…quantitativa. Ele funciona como ‘abstração universal’ … destituída de sua singular substância corpórea. A relação que o trabalhador estabelece com o capitalista é uma relação em que o trabalho emerge como como “trabalho abstrato” … no qual o “valor de uso” passa a ser regido pelo “valor de troca”.

O trabalho é valor de uso para o capitalista… – e valor de troca para o trabalhador… mas só é valor de uso para o capitalista à proporção em      que é possível convertê-lo em ‘valor de troca’. – Ao vender sua força de trabalho como mercadoria, se estabelece uma cisão monumental entre          trabalhador… e o ‘produto’ de seu trabalho.

A indiferença diante de determinado tipo de trabalho pressupõe uma totalidade de tipos efetivos de trabalho, onde nenhum deles predomina sobre os demais. – Essa indiferença aos seus aspectos contingentes e imediatos, se configura na forma de “trabalho abstrato”. Isso só foi possível com a evolução das relações de “produção capitalista”… que permitiu compreender o trabalho… – tanto como ‘valor de uso‘, quanto como ‘valor de troca‘.

Embora o trabalho como ‘valor de uso‘ seja uma universalidade concreta, que perpassa a história de todas as sociedades precedentes, sua elucidação só foi possível pela mediação da explicação do trabalho em sua “universalidade abstrata“…ou seja, em uma sociedade mais desenvolvida… – Por isso, a “sociedade capitalista” fornece a chave para elucidar as sociedades precedentes, porque ela guarda em seu interior vestígios – como um “grão de sal” – das sociedades precedentes… Embora o “trabalho concreto” … como ‘valor de uso’, estivesse no seu ponto de partida…ele somente pode aparecer claramente, em seu ponto  de chegada, como algo que está tanto no ‘ponto de partida’ quanto no ‘ponto de chegada’.

Trabalho como categoria… simples ou complexa                                                            A consciência de que o trabalho se constitui como categoria concreta, somente pode emergir do modo de produção capitalista, no qual se superam as idiossincrasias do trabalho em sua determinação geradora de riqueza.

mafalda-trabalhoO trabalho…pelo incremento de uma sociedade capitalista…pode ser tanto categoria ‘concreta’ quanto ‘abstrata’, já que, tal tipo de sociedade, permite caracterizar nossa (“bem”) complexa natureza de…”ser social” – à medida que a ‘realidade’ se constitui – como expressão de ‘determinações sociais’.

A abstração geral do trabalho é produto do desenvolvimento de suas condições objetivas.   No seu processo de apreensão pela consciência…a categoria mais simples pode vir antes da complexa; mas, do ponto de vista ontológico, o trabalho, enquanto categoria concreta, vem antes do trabalho abstrato… – Como assim explica Marx:

“A mais simples abstração, que a Economia moderna coloca em 1º plano, exprime uma antiga relação válida para todas as formas de sociedade; mas tal abstração na prática, só existe como categoria da sociedade moderna… – A categoria mais concreta…evoluiu plenamente em uma forma de sociedade menos desenvolvida…O ‘elevar-se’ do abstrato ao concreto, significa apropriar-se deste…por meio do pensamento, reproduzindo-o na forma (espiritual) de um conceito”.

Isso denota que Marx se apropria do modo de investigação operacionalizado por Hegel na “Ciência Lógica“. – Resguardadas as devidas distinções…Marx considera o trabalho, uma forma exemplar de revelar como as categorias mais abstratas…são igualmente produto de ‘relações históricas’…e têm sua plena validade – só para essas relações, e no interior delas, apesar de sua validade em todas as épocas…Por isso não é possível entender as categorias apenas isolando-as umas das outras, como faz a economia política, mas operando por um processo de abstração, em que o “isolamento” … deve ser seguido pela “articulação”… das partes com o todo. – E assim a universalidade complexa explicará a abstrata, afastando a realidade de uma esfera primitivamente “caótica”…até alcançar sua “totalidade concreta”.

O “caminho de ida” da afirmação das abstrações isoladoras, será razoável  à medida que for seguido pelo “caminho de volta” — indicando ao sujeito o rumo correto, por um processo de síntese de suas múltiplas determinações.

Mandelbrot Fractal

Mandelbrot Fractal

Para Lukács, ao nível mais simples … as categorias se manifestam em relação recíproca umas com as outras (matéria/forma, parte/todo etc). Nesse contexto, o trabalho, como valor de uso, surge como a categoria decisiva para compreender outras categorias, pois presume um processo homogêneo e espontâneo na evolução das categorias modais. No entanto, nas etapas mais avançadas do desenvolvimento das relações sociais, enquanto complexo de complexo, cada categoria ganha sua relativa autonomia frente ao trabalho.

Embora este, como valor de uso, constitua uma categoria básica do ser social, isso não impede que em estágios mais avançados… outras categorias possam aparecer, dotadas        de relativa autonomia perante o trabalho. Isso, evidentemente, pode levar à falsa ideia      de que as categorias existam por si mesmas…ou que constituam formas a priori. Marx    fala do perigo desse cenário, no prefácio à 2ª edição alemã de “O capital”… ao afirmar:

“A pesquisa tem de captar detalhadamente a matéria, analisar suas várias formas de evolução e rastrear sua conexão íntima. Só depois de concluído esse trabalho é que se pode expor devidamente o movimento real. Consiguindo isso, e espelhada idealmente      a vida da matéria… pode parecer que se esteja tratando de uma construção a priori”.

Essência & aparência (na investigação científica)

Com efeito, o método de pesquisa investigativa exige um árduo esforço para captar detalhadamente a matéria, analisar suas várias formas de evolução… e rastrear sua conexão íntima. Isso implica dizer que a matéria… que é a base, e o critério de toda investigação…não pode ser captada facilmente. – A definição externa é perpassada          por uma determinação interna – a qual faz presumir a necessidade de uma ciência.

AparênciasMarx confirma que – se houvesse unidade entre essência e aparência não haveria necessidade da ‘ciência‘. A determinação concreta é perpassada pela relação dialética “interior/exterior”… o que exige presumir a atenção de um investigador ao desvelar as malhas de sua ‘substancialidade’…É preciso analisar suas várias formas evolutivas e rastrear sua conexão íntima à totalidade real. E analisar é um avanço… que significa retroceder, na perspectiva de uma elucidação…na busca do conhecimento de seus próprios “fundamentos”.

Nesse processo de análise, a abstração comparece como momento em que é possível isolar um determinado aspecto da realidade para compreendê-la melhor. – Esse isolamento…no entanto, não deve desprezar as articulações existentes entre as partes da matéria estudada, e as manifestações heterogêneas da ‘realidade concreta’…que comparece como síntese das múltiplas determinações.

É através da elevação do abstrato ao concreto que o pensamento se apropria da realidade… – sem que isso implique alguma espécie de identidade absoluta… – pairando entre o “pensamento” … e o “ser”.

Com efeito… a exposição do “ser” na forma categorial é uma etapa posterior à investigação da estrutura anatômica do objeto, e representa a reprodução da estrutura da vida material no âmbito do pensamento. Ou melhor, significa um adentrar no “universo das abstrações”, onde abstrair implica estabelecer o que é essencial ou não…o sujeito e o objeto… o efeito e a causa. Através da exposição se adentra no universo do ‘espelhamento‘ da realidade…por isso pode parecer tratar-se de uma construção a priori, quando na verdade a exposição do ser pela consciência é essencialmente intempestiva (‘post festum’)…E Marx explica assim:

“A reflexão sobre as formas humanas de vida… – em sua análise científica, segue sobretudo um caminho oposto ao seu desenvolvimento real. Começa pelo fim, com seus resultados já definidos no processo de desenvolvimento”.

O reino da lógica ou da reprodução ideal de uma conexão concreta acontece mediante a manifestação da coisa e seu desenvolvimento efetivo no mundo material, verificando-se dois fatores complexos… – o ‘ser social‘… que existe, independentemente do fato de ser corretamente conhecido, ou não; e o ‘método mental‘ para captá-lo da maneira mais adequada possível…podendo vir a existir, sem ser idealmente captado pela consciência.

Teoria-MarxistaOs “finalmente”

Enquanto o pensamento hegeliano enveredou pela elucidação da ‘anatomia constitutiva’ das categorias… como determinações objetivas da existência – contrapondo-se à ‘lógica clássica’, que desconsiderou seus aspectos objetivos…e ontológicos… – a teoria marxista buscou uma aplicabilidade às suas categorias, articulando-    as ao processo de compreensão da anatomia do sistema do capital… em toda sua Lógica.

Evidentemente que essa apropriação se inscreveu de maneira bem peculiar…já que o seu propósito não era constituir um novo sistema filosófico… ou resolver o problema de suas categorias numa perspectiva escolástica, mas sim apropriar-se das categorias hegelianas, subvertendo-as…para elucidar as “conexões íntimas”, e as “relações contraditórias”…que perpassam as diversas categorias econômicas…latentes no modo de produção capitalista.

Tal elucidação da realidade pressupõe um investigador atento ao ‘movimento reflexivo’ dessas categorias, e à articulação existente entre categorias mais simples (abstratas), e mais complexas (concretas). Assim, pode-se dizer que foi Marx quem, de fato, deu um tratamento correto às categorias hegelianas … ao libertá-las de seu “invólucro místico”.

“Os seres humanos podem se diferenciar dos animais pela consciência, religião, ou qualquer outra meio que quisermos considerar. – Mas, só podem ser considerados          “humanos”… – ao produzirem os seus próprios meios de sobrevivência”. texto base  *******************************************************************************

O “trabalho”como finalidade social evolutiva (segundo Lukács)                                 “A lógica da natureza não é…nem está de nenhuma forma adequado e/ou direcionado para o atendimento das necessidades humanas. Apenas o trabalho, organizando suas propriedades de uma nova forma, diversa da original…pode fazer nascer um produto que atenda estas necessidades… – E assim, o processo do trabalho na natureza (meio)    faz nascer o produto do trabalho (fim).” 

Na formulação marxista…o “trabalho” (como ‘categoria’) constitui a realização de uma projeção teleológica, que dá origem a uma nova objetividade (‘produto’), o que implica    sua tendência a uma constante evolução – evidenciando a capacidade da “consciência”    em projetar previamente aquilo que mais tarde vai produzir…Portanto, se no trabalho        uma ‘projeção teleológica‘ é fundamental, pode-se qualificar com mais precisão as  duas “categorias heterogêneas” nele envolvidas…(a) causalidade, característica dos processos naturais (inorgânicos/orgânicos) operando por si mesmos…(b) teleologia, categoria agregada… – onde a “consciência“… cumpre uma finalidade fundamental.

Teleologia diz respeito a processos do ‘ser social’…que diferentemente dos processos puramente causais, não estão no âmbito da necessidade natural, ocorrendo por força    de uma decisão da consciência… Daí Lukács afirmar que…“o trabalho converte puras  causalidades (naturais) em causalidades agregadas”.

contrato_de_trabalhoO fenômeno exclusivamente humano de captura da realidade – como “possessão
espiritual” – está na raiz do processo de conhecimento… – cujo aprimoramento continuado conduz à gênese da ciência. Assim, tanto o conhecimento… em seus estágios mais simples, quanto a ciência, e sua complexidade, têm ‘fundamentos ontológicos’… – baseados no “trabalho”.

Os meios e os fins                                                                                                                        O âmbito no qual o trabalho se relaciona, desde o ponto de vista ontológico do ser social, até o surgimento do pensamento científico…e sua evolução, é precisamente determinado através da investigação dos “meios naturais”.

A posição final se origina numa necessidade sócio-humana; mas, para de que chegue à sua posição autêntica, a investigação dos meios (“conhecimento da natureza“)… deve alcançar  determinado nível, coerente com esses meios… – Se esse nível ainda não foi alcançado… a posição do fim permanece como um projeto meramente utópico… uma espécie de ‘sonho’.

Evidentemente… o trabalho não pode se realizar sem o mínimo de conhecimento natural. Portanto, é importante esclarecer sua ligação, e evolução com o pensamento científico. O trabalho é condicionado pelo nível de conhecimento…adquirido e fixado socialmente. Ao mesmo tempo, a própria finalidade determina o seu critério de verdade, ou seja, em cada processo de trabalho concreto e individual… — “o fim domina … e regula os meios“.

Contudo, Lukács observa que – levando em conta a ‘histórica’ evolução processual do trabalho, esta relação hierárquica é invertida… – de modo que… – os meios adquirem progressivamente… maior importância do que os fins… – As ‘finalidades’ – por serem  direcionadas à satisfação direta e imediata de necessidades, são esquecidas, enquanto      os meios (‘instrumentos‘) conservam-se. – Como a pesquisa natural está concentrada      na preparação dos meios…são estes a ‘garantia social‘ da conservação dos resultados      do trabalho… que são fixados, possibilitando assim, um desenvolvimento continuado.

Daí, Lukács sugerir que a gênese da ciência está ligada à investigação dos                        meios, e que esta… ao se constituir como uma ‘esfera autônoma’ específica,                      passa a ter a busca da verdade como finalidade, distanciando-se bastante                        das finalidades particulares… daqueles “processos de trabalho” imediatos.

SpinosaDeterminismo x Liberdade 

O fenômeno da “liberdade”… – totalmente estranho à natureza, aparece no momento  em que a ‘consciência’ … alternativamente, decide qual ‘finalidade’ quer disponibilizar, e de que maneira quer transformar “séries causais naturais“, em meios de realização. Nessa realização de um fim, está contida a simultaneidade “determinismo/liberdade”. 

A posição de um fim é um ato de liberdade, pois os modos e meios de satisfazer uma necessidade são resultados de ações decididas e executadas conscientemente… e não produtos de cadeias causais espontaneamente biológicas. – Entretanto… a liberdade (decisão alternativa) jamais é isenta de ‘determinismo’… pois como traço do ser, que      vive e age socialmente, não é abstrata; sendo ‘condicionada’, social e historicamente. 

Sob essa ótica, o único caminho para se chegar à liberdade humana…é    pelo “autocontrole” – passagem do determinismo natural dos instintos,      ao ‘autodomínio consciente’ da realidade plena. ******(consulta)******  ***********************(texto complementar)************************

POR QUE SOCIALISMO? NOTA DE ALBERT EINSTEIN

Artigo escrito por Einstein… – e publicado especialmente para o 1º número da revista marxista estadunidense “Monthly Review”, lançada em maio de 1949 … traduzido por Ralf Rickli… e extraído deste próprio ‘site’.

Será aconselhável que um “não especialista” em assuntos econômicos e sociais manifeste pontos de vista sobre o tema…“socialismo”?

Por várias razões… – eu acredito que sim…  Comecemos considerando a questão… pelo ponto de vista ‘epistemológico‘, analisando  o próprio … “conhecimento científico“.

Pode parecer que não há diferenças metodológicas essenciais entre Astronomia e a Ciência Econômica… – nos 2 campos… cientistas tentam descobrir leis que sejam – de modo geral, aceitáveis para certo grupo de ‘fenômenos’… – com a finalidade de tornar compreensível a interconexão entre eles… – Mas, essas diferenças existem…

No campo econômico, a descoberta de leis gerais é dificultada pela circunstância de que fenômenos econômicos observáveis são – com frequência… afetados por muitos fatores, difíceis de se avaliar separadamente. Ademais…como se sabe…a experiência acumulada desde o início do assim chamado período civilizado da história humana tem sido muito influenciada…e limitada, por fatores, cuja natureza, não são exclusivamente econômica.

Por exemplo…a maioria dos grandes Estados da história deveu sua existência às grandes conquistas… – E os povos conquistadores estabeleceram-se… – legal e economicamente, como a “classe privilegiada” do território conquistado … apossando-se do monopólio da propriedade da terra, e designando, de suas próprias fileiras, uma classe sacerdotal para    o ‘fiel controle’ da educação.

Os sacerdotes fizeram da divisão da sociedade em classes uma instituição permanente – criando um sistema de valores pelo qual o comportamento social do povo passou a ser (cegamente) orientado … a nível inconsciente.

thorsteinveblenMas a ‘tradição histórica’ começou ontem, por assim dizer. – Em nenhum momento, superamos o que Thorstein Veblen chama de…“fase predatória” do desenvolvimento humano. – Fatos econômicos observáveis pertencem a essa fase… e as leis que deles podemos derivar, não se aplicam a outras.  Como o verdadeiro propósito do socialismo é precisamente superar a ‘fase predatória’ do desenvolvimento humano, e avançar para além dela, a Ciência Econômica em seu estado atual pode esclarecer bem pouco sobre a sociedade socialista do futuro.

Apesar do socialismo se direcionar para uma ‘finalidade ética’ – a ciência, todavia, não tem o poder de criar finalidades, e muito menos de transmiti-las; podendo tão-somente fornecer meios…para atingir certas finalidades.

É característico em situações de crise…como a que há algum tempo a sociedade humana vem passando, que indivíduos se sintam indiferentes e até mesmo hostis ao grupo a que pertencem. De fato, o homem é ao mesmo tempo um ser solitário e um ser social. Como  solitário, tenta proteger sua própria existência, e a dos que lhe são próximos… satisfazer seus desejos pessoais, desenvolver suas habilidades inatas…etc. Como ‘ser social‘, busca conquistar reconhecimento e afeição de seus semelhantes … compartilhar seus prazeres, confortar seus sofrimentos…melhorar suas condições de vida. E apenas essas diferentes aspirações…muitas vezes conflitantes… já podem responder pelo caráter de uma pessoa. 

saltar-abismoÉ bem possível que a intensidade relativa desses 2 impulsos seja… – basicamente…determinada pela hereditariedade… mas, a personalidade que acaba emergindo é formada … – em ampla escala – pelo ambiente – que envolve seu ‘crescimento’ – como pessoa, e pela estrutura da sociedade em que vive, com suas tradições e valores – que são atribuídos,  ao fato deste…ou daquele tipo de comportamento.

O conceito abstrato de… “sociedade“… para o ser humano significa a soma de suas relações diretas    e indiretas com seus contemporâneos, e todas as pessoas das gerações anteriores. O sujeito é capaz de pensar, sentir, trabalhar e desejar,  por si mesmo – mas, ao mesmo tempo…depende tanto da sociedade (em sua existência física, intelectual e emocional) que é impossível entendê-lo, fora desse contexto (social).

É a “sociedade”… que lhe proporciona comida, roupas, lar, a ferramentas do seu trabalho, a linguagem, as formas de pensar, e a maior parte do conteúdo de seu pensamento. – Sua vida se faz possível mediante o trabalho, com a realização de todos…passados e presentes, contemporâneos do futuro, que se acham escondidos por detrás da palavra… “sociedade”.

É evidente, portanto, que a dependência do indivíduo em relação à sociedade é um fato da natureza que não pode ser abolido. Contudo, enquanto os processos de vida das abelhas e formigas, por exemplo, se determinam, inteiramente, por instintos hereditários rígidos, o ‘padrão social’ e ‘inter-relação’ dos seres humanos são altamente suscetíveis de mudanças.  A memória, a capacidade de realizar novas combinações…e o dom da comunicação verbal, possibilitaram desenvolvimentos no ser…que não são ditados por necessidades biológicas.

Realizações técnicas e científicas, obras de arte, e engenharia são exemplos que explicam como acontece do ser humano ser capaz de…em certo sentido, influir em sua vida mediante seu próprio pensamento e vontade consciente.

O ser humano ao nascer, adquire através da “hereditariedade” … uma constituição biológica considerada inalterável – onde se incluem os ‘impulsos naturais’…como característicos… – da “espécie humana”.

Em acréscimo…ao longo de sua vida – o indivíduo adquire da sociedade… – uma constituição cultural, com mudanças ao longo do tempo, que guiam sua conduta. 

A antropologia moderna nos ensina, pela investigação comparativa de culturas primitivas, que o comportamento social… em função dos “padrões culturais” – e tipos dominantes de organização, pode diferir muito. – Os que se empenham em melhorar a condição humana podem basear suas esperanças nisso… – Os seres humanos não estão condenados por sua constituição biológica a aniquilarem-se uns aos outros; nem estar… “à mercê do destino“.

Mas, se nos perguntarmos de que modo a estrutura da sociedade e a ‘atitude cultural‘ do ser humano deveriam ser mudados, para tornar a “vida humana” tão satisfatória quanto possível – deveríamos estar conscientes de que há certas condições que somos incapazes    de modificar. – Para todos os efeitos práticos, a natureza biológica do ser humano não é modificável… – Além disso… desenvolvimentos tecnológicos e demográficos nos últimos séculos criaram condições que estão aqui para ficar… – E, nesse sentido…

Há pouco exagero em dizer que a humanidade já se constitui                         em uma “comunidade planetária”… de produção e consumo.

Pode-se então… dizer que a “essência” da crise do nosso tempo – refere-se à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo se tornou mais consciente do que nunca de sua dependência da sociedade…mas sua experiência dessa dependência não é a de um bem positivo, um laço orgânico, uma força protetora…e sim… uma ameaça aos seus direitos naturais… – à sua liberdade… – ou, até mesmo… à sua existência… “sócio/econômica”.

Cada-um-é-um-universo.jpgAlém disso o indivíduo está posicionado na sociedade de modo tal, que impulsos egoístas… – ‘inatos‘, constantemente se reforçam…enquanto os sociais…por sua natureza, mais fracos… – se deterioram progressivamente… E todo ser humano, seja qual for a posição social, sofre esse processo de deterioração. – Prisioneiro inconsciente do próprio egoísmo, vê-se privado … do simples ‘desfrute’ da vida.

A ‘anarquia econômica‘ da sociedade capitalista se mostra hoje… quando vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores, cujos membros se empenham sem cessar em privar uns aos outros dos frutos de seu trabalho coletivo… em inteiro e fiel cumprimento à regras mercadológicas, estabelecidas legalmente… — Nesse contexto…é importante dar-se conta do fato de que os meios de produção…capacitados de produzir bens para o consumo, assim como bens de capital adicionais, sejam ‘propriedade privada‘, com o único objetivo de maximizar seus lucros… – Nesse processo…o ‘proprietário’ dos meios de produção está em posição de comprar (barganhar) a força de trabalho do operário, que se utilizando dos meios de produção, fabricam novos bens, que irão se tornar uma ‘propriedade capitalista’.

O ponto essencial aí… é a relação entre o que o trabalhador produz — e aquilo que lhe pagam, ambos medidos em termos de valor real. Na medida em que a contratação do trabalho é “livre” … o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que produz, e sim por suas necessidade mínimas, bem como pela relação entre a demanda por força de trabalho – dos capitalistas … e a quantidade de trabalhadores, que competem por empregos no mercado de trabalho.

Nem mesmo em teoria, o pagamento do trabalhador é definido pelo valor do seu produto.

desgoverno-oligarquicoO “capital privado” tende a se concentrar em poucas mãos…em parte devido à competição capitalista… – e também porque a divisão do trabalho com o desenvolvimento tecnológico estimulam a formação de maiores “unidades produtivas”… – em prejuízo das menores.

O resultado é uma “oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser efetivamente controlado, sequer por uma sociedade política livremente organizada.

E isso é assim, porque os membros dos corpos legislativos são selecionados por partidos políticos, que são amplamente financiados, ou influenciados de algum outro modo…por capitalistas privados, que para todos os propósitos…separam o eleitorado da legislatura.    A consequência é que os representantes do povo não protegem de fato, suficientemente,  os interesses dos setores menos privilegiados da população… Além disso, nas condições atuais, os capitalistas privados, inevitavelmente, controlam direta ou indiretamente as principais fontes de informação (imprensa, rádio, televisão).

Torna-se assim extremamente difícil para o cidadão… e de fato impossível, na maioria dos casos, chegar a conclusões objetivas… – e assim, fazer bom uso dos seus direitos políticos.

A situação predominante em uma economia baseada na propriedade privada de capital… caracteriza-se por 2 princípios centrais…, os meios de produção (capital) são possuídos privadamente – e os proprietários dispõem deles como acham melhor…, a contratação de trabalho é livre (isto é, não regulada). – É claro que, nesse sentido…não há “sociedade capitalista” pura. Em especial, é bom registar que os trabalhadores em longas e amargas lutas políticas, conseguiram assegurar uma forma um tanto melhorada de ‘livre contrato de trabalho’ para algumas categorias… Mas, tomada em seu conjunto…a economia atual não difere muito de um capitalismo “puro” (selvagem)

lucrocapitalistaA ‘produção se realiza com a finalidade    do lucro, e não pelo ‘uso’… Não existem disposições para garantir que…todas as pessoas capazes e dispostas a trabalhar sempre consigam emprego – existe um ‘exército de desempregados’ esperando oportunidades… e o trabalhador assim, sempre está com medo do desemprego.

Devido aos trabalhadores mal pagos…e desempregados não se constituírem em um ‘mercado rendoso’, a produção de bens de consumo é restrita, o que resulta grandes privações à maior parte da população, bem como aumento dos preços…pela diminuição    da oferta.

O progresso tecnológico, geralmente, em vez de aliviar a                              carga de trabalho para todos… faz mais desempregados.                  

O lucro como motivação… em conjunto com a concorrência capitalista, é responsável pela instabilidade na acumulação e utilização do capital, que leva a crises cada vez mais graves. A competição irrestrita leva a um gigantesco desperdício de força de trabalho – e também à uma deformação da consciência social dos indivíduos. Essa deformação…eu a considero  o pior dos males do capitalismo…Nosso sistema educacional inteiro sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante – que, como preparação para sua futura carreira… é treinado para idolatrar um sucesso aquisitivo.

O caminho que resta para resolver todos esses males…é o estabelecimento de uma “economia socialista”, acompanhada por um sistema educacional orientado por objetivos sociais, na qual os meios de produção… utilizados de modo planejado…se tornem propriedade comum da própria sociedade.

Uma economia planejada … que ajuste a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos os capazes de trabalhar, e garantiria o sustento de cada homem…mulher e criança… – A educação do indivíduo… além de desenvolver suas próprias habilidades inatas, faria brotar nele … um compromisso        com seus companheiros de humanidade, em vez da glorificação do poder e sucesso,    como temos na sociedade atual.

Contudo é preciso lembrar que este planejamento ainda não é socialismo. Uma economia planejada pode ser acompanhada pela “escravização total” do indivíduo… A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas “sócio-políticos” extremamente difíceis:

– Como é possível… em face da ‘centralização abrangente’ do poder político e econômico, impedir que a burocracia se torne todo-poderosa e prepotente? Como se podem proteger os direitos individuais, e garantir com isso contrapeso democrático ao poder burocrático?

A clareza quanto às metas e problemas do socialismo é da mais alta significação em nossa era de transição. Como na conjuntura atual, a discussão livre e sem barreiras destes problemas se tornou um grande tabu, considero a fundação desta revista um relevante ato de interesse público. **************** (texto base)*******************

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Hegel, e a ‘ontologia prática’ do pensamento contemporâneo

‘“Os homens se ‘auto-criaram’ através do trabalho, mas sua                 história até hoje foi apenas a pré-história da humanidade”.

É falsa a ideia de que Marx subestimava a importância da consciência, em relação ao ser material… Concretamente, esse modo de ver é equivocado. Marx entendia a consciência como um produto tardio do desenvolvimento do ser. – Aquela impressão equivocada só pode surgir ao se interpretar tal fato por um idealismo tipo platônico. Em uma “filosofia evolutiva”… ao contrário – o “produto tardio”… jamais – possui menor valor ontológico.

Quando se diz que a “consciência” reflete a realidade, e sabre essa base, torna possível intervir nessa realidade – para modificá-la, quer-se dizer, que a consciência tem poder  plenamente consolidado no “plano do ser”.

A essência do trabalho, consiste em ir além da ‘competição biológica‘ dos homens com seu ‘meio ambiente’ … Sua consolidação se realiza – não pela fabricação de ‘produtos’, mas pelo papel da “consciência” … quando deixa de ser mero acessório de reprodução biológica. Segundo as palavras de K. Marx:

O ‘produto‘ é um resultado que no início do processo, já                        existia (de modo ideal) na representação do trabalhador.

Talvez surpreenda o fato, de que … exatamente na delimitação materialista entre o ser      da natureza orgânica e o ser social…seja atribuído à consciência um papel tão decisivo. Porém, não se deve esquecer que ‘problemas complexos’ aqui emergentes (liberdade e necessidade, como exemplos) só adquirem verdadeiro sentido – quando se atribui, no ‘plano ontológico’, um papel ativo à consciência.

Com justa razão se pode designar o homem que trabalha – como um ser que dá respostas. Com efeito… – é inegável que toda atividade laborativa surja como solução de respostas à necessidade que a provoca, todavia, o núcleo da questão se perderia caso se tomasse aqui como pressuposto uma relação imediata…Ao contrário, o homem torna-se um ser que dá respostas, precisamente na medida em que…paralelamente ao desenvolvimento social, e em proporção crescente… ele generaliza… – transformando em perguntas, suas próprias possibilidades de satisfazê-las; e… quando pela resposta… funda e enriquece sua própria atividade, com tais mediações… frequentemente muito bem articuladas. – De modo que:

Não apenas a resposta… mas também a pergunta ser produto imediato da consciência que guia a atividade, não anula o fato de que ontologicamente, o ato de responder seja o “elemento primário”…nesse “complexo dinâmico”. 

TÉCNICA+TELEOLÓGICAA ‘doutrina teleológica’ do trabalho

Com o trabalho, dá-se, ontologicamente a… ‘possibilidade humana evolutiva’ – ao ser alterada uma “adaptação natural”… –  meramente…”reativa”… – do processo de ‘reprodução do mundo’, transformado-se então, de forma ativa e consciente, numa nova ordem… – vinculada ao ‘ser social‘.

O “trabalho” é um resultado de “posições teleológicas”, que põem em atividade “séries causais”… Ao contrário da ‘causalidade‘ – lei espontânea na qual todos movimentos de todas as formas do ser encontram sua expressão geral, a teleologia é um modo de conscientizar que orienta certa direção às séries causais.

As filosofias clássicas, não reconhecendo a “posição teleológica” como particularidade do ser social, eram obrigadas a inventar, por um lado, um sujeito transcendente…e de outro, uma natureza especial onde as correlações atuavam de modo teleológico…com finalidade de atribuir à natureza e à sociedade … tendências de desenvolvimento como “finalidade”.

Mas, uma ‘duplicidade’ aqui se apresenta… – numa sociedade tornada realmente social, a maior parte das atividades cujo conjunto põe a totalidade em movimento é certamente de origem teleológica, mas a sua existência real… e não importa se permaneceu isolada ou se foi inserida num contexto – é feita de conexões causais – que jamais, em nenhum sentido, podem ser de caráter teleológico… – Toda “praxis social”, considerando o ‘trabalho’ como seu modelo, contém em si esse caráter contraditório.

Por um lado, a praxis é uma decisão entre alternativas, já que todo indivíduo singular, sempre deve decidir se faz algo, ou não. – Assim, todo ‘ato social’ surge de uma decisão    entre alternativas acerca de “posições teleológicas futuras”. – A ‘necessidade social‘,  por sua vez… – só se pode afirmar pela pressão (frequentemente ‘anônima’) que exerce sobre indivíduos – a fim de que suas decisões tenham certa orientação. Segundo Marx:

“Os homens são impelidos, pelas circunstâncias, a agir de determinado modo… ‘sob        pena de se arruinarem’… – Eles devem, em última análise, realizar, por si próprios,          suas ações… – ainda que… – frequentemente… atuem contra sua própria vontade”.

Sobre as categorias de valor e dever, a natureza desconhece as 2… Na natureza inorgânica … as mudanças de um modo de ser para outro — não têm nada a ver com seus ‘auto-valores’. Já na natureza orgânica…como “ontologicamente”… o “processo de reprodução” representa… ‘adaptação ao ambiente’…se pode falar de ‘êxito/fracasso’…mas mesmo assim, essa oposição não passa dos limites de um mero… – “ser-de-outro-modo“.

Ao nos deparamos com o trabalho, no entanto… – o ‘conhecimento em geral’ distingue bem nitidamente entre ‘ser-em-si‘ dos objetos existentes, por um lado… e o “caráter mercadológico” que tais objetos adquirem no “processo cognoscitivo”, por outro… – Todavia, no “trabalho coletivo” o produto torna-se realmente ‘propriedade objetiva’, em virtude da qual … pode (“livremente”) desempenhar suas “funções sociais”.

É portanto, a ‘objetivação real’ do produto do trabalho coletivo que faz    com que possam nascer ‘autovalores’. E o fato de que, em níveis sociais mais altos, estes valores assumam formas mais ‘elevadas’, não elimina          o significado básico que permanece inscrito em sua ‘gênese ontológica‘.

Se, agora… — partirmos do sujeito que dirige um olhar… — sobre o “processo global” do trabalho, vemos que ele realiza sua posição teleológica de modo consciente… – mas sem jamais estar em condições de perceber todas as consequências, de sua própria atividade.

dejando-redes

É óbvio que isso não impede que os homens atuem… De fato, existem inúmeras situações nas quais, sob pena de se arruinar, é absolutamente necessário que o homem aja, embora tenha consciência de não poder conhecer senão uma parte ínfima das circunstâncias. – E, no próprio trabalho, o homem muitas vezes sabe que pode dominar apenas uma pequena faixa de elementos circunstantes; mas sabe também…já que a necessidade urge – que até nessas condições, o trabalho promete satisfazê-lo, em tudo aquilo que é capaz de realizar.

O trabalho é um ato de ‘conscientização’ – e assim… pressupõe um conhecimento            concreto, ainda que jamais perfeito, de certas finalidades, e determinados meios.

Essa situação tem duas importantes consequências. – Em primeiro lugar… a dialética interna do constante aperfeiçoamento do trabalho – a qual se expressa no fato de que, enquanto o trabalho é realizado… cresce continuamente a faixa de determinações que        se tornam cognoscíveis, e por conseguinte, este se aperfeiçoa…incluindo campos cada        vez maiores e diversos, subindo de nível…tanto em extensão…quanto em intensidade.      Na medida porém em que esse processo de aperfeiçoamento não consegue eliminar o ‘fundo de incognoscibilidade’ do conjunto das “circunstâncias”; paralelamente ao seu crescimento…esse modo de ser desperta a sensação de uma ‘realidade transcendente’, cujos “poderes misteriosos” o homem tenta, de algum modo, utilizar em seu proveito.

Talvez a mais importante dessas diferenciações, seja a tipificação crescente de atividades preparatórias, que no próprio trabalho concreto tem lugar entre o conhecimento, por um lado…e, por outro, suas finalidades e meios…A matemática, a geometria, física e química eram originariamente partes desse processo preparatório do trabalho – e, pouco a pouco cresceram, até se tornarem campos autônomos do saber…mas sem perderem totalmente sua respectiva função originária.

Quanto mais universais e autônomas elas se tornam, mais universal e perfeito, por sua vez, torna-se o trabalho. – Quanto mais crescem e se intensificam… maior se torna a “influência” dos conhecimentos assim obtidos – sobre as finalidades … e os meios de efetivação do trabalho.

sociedade globalA “sociedade global”

O ‘processo global‘ da sociedade é um ‘processo causal‘ – com suas próprias normatividades… — porém… jamais é objetivamente dirigido à realização de ‘finalidades’. – Mesmo quando alguns grupos…conseguem realizá-las – seus resultados – via de regra… produzem algo inteiramente diverso daquilo que se havia pretendido.

Essa discrepância interior entre posições teleológicas e seus efeitos colaterais, aumenta com o crescimento da “globalização”… e a intensificação da participação sócio-humana nelas. Naturalmente, esse ‘sentido contraditório’ também deve ser entendido… quando certos grandes eventos econômicos (como por exemplo, a crise de 1929) se apresentam  sob a aparência de irresistíveis ‘catástrofes naturais’.

A história mostra porém, que precisamente nas reviravoltas mais significativas, o ‘fator subjetivo’ foi de suma importância. – É verdade que a diferença entre finalidade e seus efeitos, aí se expressa – como preponderância dos elementos e tendências materiais no processo de reprodução da sociedade, mas isso não significa que esse processo consiga,    de modo necessário… – sempre afirmar-se – sem ser abalado por nenhuma resistência.

O fator subjetivo, resultante da reação humana a tais tendências de movimento, conserva-se sempre em muitos campos, como um fator          tão modificador… – que, por vezes… se faz… – até mesmo ‘decisivo’.

sociedade-global.O predomínio econômico do mercado mundial, que hoje em dia se afirma cada vez mais forte… mostra que a humanidade já se unificou – pelo menos no sentido econômico global. É verdade que tal unificação existe apenas, como ativação de princípios econômicos reais de unidade…ao se realizar concretamente, apenas num mundo onde essa integração é dominante.

Em todo caso, estamos diante de tendências importantes, decisivas… da transformação tanto externa quanto interna do ser social, através das quais este chega à forma que lhe       é própria; ou seja – o homem deixa a condição de ‘ser natural’ … para tornar-se ‘pessoa humana’…transformando-se de uma espécie animal… – que alcançou um certo grau de desenvolvimento relativamente elevado – em um ‘gênero humano’ … em ‘humanidade’.

Tudo isso é produto das ‘séries causais’ que surgem no conjunto da sociedade. O processo em si não tem uma finalidade… – sua evolução é no sentido de níveis superiores, por isso, contém a ativação de contradições de tipo cada vez mais elevado…mais fundamental. – O progresso é decerto, uma síntese das atividades humanas… – mas não o aperfeiçoamento no sentido de uma finalidade qualquer. – Por isso…esse desenvolvimento continuamente destrói os resultados primitivos, que… – embora belos… são ‘economicamente limitados’.

Por isso, o progresso econômico objetivo, aparece                                                 sempre… – sob a forma de novos conflitos sociais.

É assim que surgem, da comunidade primitiva humana, antinomias aparentemente insolúveis… – as “oposições de classe”; de modo que até mesmo as piores formas de inumanidade são o resultado desse progresso. No início…o escravagismo constituiu      certo progresso em relação ao canibalismo… Hoje, a generalização da alienação dos homens é um sintoma de que o desenvolvimento econômico está para revolucionar              a relação do homem…com o trabalho… — Como assim supõe o argumento de Marx:

“Os homens fazem sua história…mas não, em circunstâncias por eles escolhidas”.

pawel-kuczynski

pawel kuczynski – “necessidade/liberdade”

Liberdade x Necessidade

Isso significa o mesmo do que antes foi formulado como… – “o homem é um ser… que dá respostas”. Expressa a unidade contida no ‘ser social‘…de um modo ‘contraditoriamente indissolúvel‘… – entre liberdade e necessidade, operando o trabalho, através de… “decisões teleológicas“… envoltas em “premissas“… e “relações causais“… Uma unidade que se reproduz… ‘continuamente‘… sob formas sempre novas, cada vez mais complexas e mediatizadas em todos níveis “sócio-pessoais” da atividade humana.

Por isso…Marx fala do período inicial da autêntica história da humanidade… – como de um “reino da liberdade”, o qual…só pode florescer sobre a base do reino da necessidade (ou seja… da reprodução econômico-social de tendências objetivas do progresso). “O tipo especial de razoabilidade do reino da liberdade jamais eliminará o fundamental papel desempenhado pelo reino da necessidade”.

Precisamente essa ligação do “reino circunstancial da liberdade”…com o “reino econômico da necessidade”, mostra como o gênero humano seria o resultado de sua própria atividade. A liberdade…bem como sua possibilidade, não é algo dado por natureza, não é um dom do “alto”… e nem sequer uma parte integrante – de origem misteriosa…do ser humano. – É o produto da própria atividade humana – que decerto sempre atinge concretamente alguma coisa diferente daquilo que se propusera, mas que nas suas consequências, objetivamente, e de um modo contínuo…dilata o espaço…dentro do qual… – a liberdade se torna possível.

E, tal dilatação ocorre, de modo direto, no processo de desenvolvimento econômico, no qual, por um lado, acresce-se o número e alcance das decisões humanas alternativas…e por outro, eleva-se a capacidade humana, na medida em que se elevam as tarefas, fruto    de sua própria atividade… – E tudo isso, naturalmente, ainda no ‘reino da necessidade’.

Marx define o reino da liberdade como um “desenvolvimento de energia humana que        é fim em si mesmo”…portanto, como algo que tanto ao indivíduo, quanto à sociedade, possui conteúdo suficiente para então transformar-se em uma ‘finalidade autônoma’.

É claro que tal adequação, pressupõe um nível do “reino da necessidade”… do qual, ainda estamos muito longe. Só quando o trabalho for efetivamente dominado pela humanidade, e portanto, quando tiver em si a possibilidade de ser… – não apenas meio de vida…mas a “1ª necessidade da vida“, e a humanidade tiver superado qualquer caráter coercitivo, em sua “autoprodução”…será então possível.

Desse modo, terá sido aberto o caminho social da ‘atividade humana’… como fim autônomo. Ou seja criadas as condições materiais necessárias … e um ‘campo de possibilidades’ para o ‘livre emprego’ do produto da atividade humana… fruto do desenvolvimento necessário, bem como, resultado da utilização correta … do que necessariamente for produzido – para o “bem-estar” comum … da ‘humanidade’.

A própria liberdade não pode ser apenas um ‘produto necessário’…de um desenvolvimento inevitável, ainda que todas premissas de sua explicitação encontrem aí, suas possibilidades de existência. – É por isso que não estamos aqui, diante de uma utopia… A princípio, todas as suas efetivas possibilidades de realização…são produzidas por um ‘processo necessário‘.

Não é casual portanto, que no trabalho… – em seu ‘estágio inicial’…seja dado tanto peso ao momento da liberdade na decisão entre alternativas. O homem deve adquirir sua liberdade através de sua própria atuação. – Mas ele só pode fazê-lo…se toda sua atividade também já contiver em sua parte constitutiva – um sentido indispensável de “liberdade“. (texto base*******************************(texto complementar)********************************

As categorias ontológicasde Hegel a Marx (segundo Lukács)                               Para Hegel é o pensamento que cria a realidade, sendo esta uma manifestação                exterior à ideia. – Já para Marx…a ‘realidade material’ cria o pensamento, e a                dialética vai se processar, em condições reais – tanto históricas quanto sociais,              pela “realidade” da “existência humana”. (A DIALÉTICA…de HEGEL a MARX)

karl_marx-fraseA “crise pós-moderna“… que acomete diversas ‘concepções filosóficas’ da contemporaneidade resulta basicamente do abandono do interesse na elucidação das condições fundamentais em que a realidade social, enquanto um complexo de complexos, se vê envolvida. – Expressam a ideologia de um ‘tempo histórico‘, pautado no fim das utopias, e por uma negação declarada à perspectiva de revelação da “essencialidade” das coisas. Em certa medida…é possível afirmar que a concepção hegeliana e a concepção marxista se constituem como tentativas modais da elucidação de contradições, que como um todo, perpassam a realidade.

Marx (materialismo dialético) x Hegel (idealismo objetivo)

Tanto o ‘idealismo objetivo’ de Hegel… – quanto o ‘materialismo marxista’, partem do entendimento de que é necessário ultrapassar a percepção imediata da ‘vida cotidiana’,    que se manifesta de maneira bastante multifacetada e heterogênea, para se alcançar a essencialidade das coisas… – E, para isso, é fundamental superar, tanto o terreno das idiossincrasias que emanam de uma “percepção imediata” da realidade … quanto um conhecimento fragmentário… – resultante de uma…”representação caótica”…do todo.

Isso todavia não implica uma desconsideração pela vida cotidiana,              visto que esta se constitui no “celeiro” de onde emanam as questões decisivas … que envolvem toda a investigação científica e filosófica.

Embora a filosofia hegeliana se movimente sobre um terreno bastante movediço, consegue se desprender do processo de mistificação da realidade…ao observarmos que ela considera suas categorias, como que brotando de um desenvolvimento do ser social, ou seja, dotadas de certos ‘determinantes ontológicos‘. Por outro lado…pela ‘perspectiva lukacsiana’, a “ontologia marxista” se interessa em elucidar a gênese (‘evolução dialética’) do “ser social”, enquanto ‘ser’ que se constitui historicamente, e não um ‘ente’ brotando pronto e acabado.

A totalidade social, enquanto um complexo de múltiplas determinações, pressupõe um processo de isolamento…ou abstração…em que ‘determinação’ aparece como essencial elemento em todo esforço de apreensão da natureza constitutiva do ser… E o processo determinístico é uma ‘negação’, na medida em que significa um ‘adentrar nas malhas mais profundas do ser‘… para de lá, exibir sua legítima constituição interior…lidando com processos de captação e distinção…de tudo aquilo, que de mais singular subsiste.

Por tudo isso…para que o ‘todo’ possa emergir como um aspecto concreto, e não uma mera aparição caótica, é preciso estabelecer a conexão com sua parte estudada. Essa perspectiva tem sua gênese na “filosofia hegeliana”… enquanto concepção que estabelece as bases para uma nova compreensão das…’questões ontológicas‘. – À proporção que as categorias se afirmam como dotadas de uma realidade essencialmente dinâmica, penetrada pela relação dialética entre unidade e multiplicidade, conteúdo e forma, aparência e essência … a partir daí…a substância não emerge como algo estático; mas um ‘ente‘…em essência…’dinâmico’.

As “categorias hegelianas”                                                                                                    ‘Categorias’ são produto das ‘relações sociais’ no desenvolvimento                                      fundamental dos meios de produção … e reprodução da realidade.

hegel-y-el-idealismo

Hegel, com seu idealismo lógico-ontológico…foi um precursor no domínio do pensamento prático, na medida em que concebeu… a seu modo… a ‘ontologia’… como uma história. Em contraste com a ontologia religiosa, a de Hegel partia de baixo… do seu aspecto mais simples, e evoluir … até ao “cume” – das objetivações mais complexas da “cultura humana”.

Apesar de Aristóteles compreender a lógica como inteiramente independente do preceito pragmático da utilidade, ele considerava que a ciência (“metafísica“) só poderia florescer numa época em que um grupo de homens alcançasse… ‘quase todo o necessário‘, ou seja, as ciências…como a matemática, apenas puderam se desenvolver precocemente no Egito, porque ali a casta dos sacerdotes se encontrava ‘pronta’, em condições de ter tempo livre.

Contudo, entende Hegel que a “lógica” não é algo “extemporâneo” ao movimento que perpassa o tempo histórico. Mas, no estado em que se encontra apenas se reconhecem  nela ‘indícios’ do método científico. Portanto, para se vivificar mediante o espírito seu “esqueleto morto”, até dar-lhe substância e conteúdo… – seria necessário que, por seu próprio método, sua lógica fosse capaz de construir uma ‘ciência pura’. Desse modo, a perspectiva hegeliana corrobora uma articulação existente – entre o desenvolvimento    das ‘categorias ontológicas’ do conhecimento … e o próprio desenvolver da ‘realidade’.   

Naturalmente, o acento caía sobre o ‘ser social’ e seus produtos;              além se ser uma característica de seu pensamento … – o fato do            homem se apresentar…assim como o… “criador” – de si mesmo.

Nesse sentido… Hegel contesta o caráter histórico do afastamento do pensamento              em relação ao mundo, nos seguintes termos…Ele entende que é na ‘vida cotidiana’          que se aplicam as categorias lógicas/matemáticas…e que estas comparecem como abreviaturas da realidade…devido ao seu caráter de abrangência e universalidade.

E, estas categorias também servem como definições mais precisas de ‘relações objetivas’, em que, mesmo sem atribuir qualquer importância às suas influências individuais… – o conteúdo de verdade do pensamento aparece como totalmente dependente do existente. 

logica-fundamentoNa verdade, a lógica não é uma coisa ‘distante do mundo’ – não é algo que paire no céu de uma… ‘subjetividade’, destituída de qualquer sentido; basta observar o cotidiano – para perceber que a linguagem humana…presume sua própria existência…A lógica, por exemplo… está presente na maneira como os homens sentem…pensam e desejam as coisas… – e, pode-se dizer que também está presente na vida…proporcionando representações e finalidades. Por adentrar em todas relações e atividades naturais…de um modo abstrato, parece ser algo sobrenatural e distante da realidade… quando, na verdade, é tão somente uma “abstração universal“… – muito peculiar ao modo de ser da ciência.

A própria ‘linguagem humana‘ é perpassada por uma série de ‘expressões lógicas’… – que servem para apontar as “conclusões” do pensamento. – Sem dúvida que tais expressões se inscrevem no âmbito das sensações que compõem a “linguagem cotidiana”… que se utiliza  de suas categorias, geralmente sem plena consciência de sua natureza. – Nesse aspecto…a “tradição marxista” possui certa semelhança… — pois suas categorias podem influenciar a sociedade antes mesmo de serem apropriadas conscientemente pelo homem. Para Lukács:

“É próprio do processo efetivo da realidade mostrar que a                  consciência surge… após o desenvolvimento do ser social”.

Na Fenomenologia do espírito Hegel afirma que toda novidade apresenta-se inicialmente como abstrata (em-si), para depois explicitar-se gradualmente em formas mais concretas. Assim, o ser para-si somente é possível a partir do ser em-si, isto é…as formas superiores do ser passam pela mediação de suas formas mais simples… – Na ‘perspectiva hegeliana’,  a gênese processual da realidade, fornece a chave para a compreensão de todo ‘resultado’.

Por exemplo, o ‘absoluto’ é um processo de síntese concreta de movimentos reais… – é identidade da identidade. – Ele não repousa numa ‘imobilidade transcendente’…indiferente ao movimento efetivo da realidade… – mas se constitui como “quintessência” das variações…que percorrem a realidade.

O mérito da Fenomenologia do espírito consiste em apontar que as categorias surgem na consciência humana, enquanto expressões do modo de ser da processualidade das coisas. Por isso que Hegel na sua “Ciência da lógica” trata das “determinações reflexivas”, numa seção denominada ‘fenomenologia’. Aí, tudo parece mover-se no terreno da ‘gnosiologia’, ao Hegel revelar uma razão vinda do entendimento… – a constituir-se em sua ‘realidade’.

Hegel - frasesPor não se restringir ao dualismo entre sujeito/objeto…muito menos à simples consideração finita e limitada do saber,        a “lógica hegeliana” vai além da “lógica transcendente” de Kant…superando as “idiossincrasias” das determinações de ‘finitude’ operadas pelo entendimento,        até enfim alcançar o “terreno racional”        da ‘infinitude‘, e adentrar na esfera do conceito – enquanto articulação entre finitude e infinitude.

O tratamento adequado da propriedade essencial das coisas presume o adentrar            no reino íntimo das categorias. É nesse espaço que é possível falar das essências;            porque o conceito destas… – somente pode surgir… – na “esfera do pensamento”.

A interação dialética entre ‘entendimento’ e ‘razão’ serve de prelúdio à compreensão hegeliana da realidade como uma totalidade dinâmica e contraditória… – Realidade,      que os preceitos gnosiológicos dos séculos anteriores foram incapazes de apreender.      Por isso o idealismo hegeliano considera que a essência das coisas emana do ser em desenvolvimento… e não…simplesmente dopensamento‘… – como postulava Kant.

Com efeito… para Hegel não é possível afirmar as categorias como uma propriedade do sujeito, pois este não detém a propriedade conceitual das coisas. O que o sujeito realiza, pela mediação da ciência, é tão somente descobrir uma lógica imanente nelas… Ou seja,      o ‘conceito das coisas’ surge de sua própria ‘essencialidade’, não sendo produto de uma subjetividade transcendental (kantiana) centrada em si mesma. E, Hegel ainda destaca:

“Não podemos nos sobrepor ao objeto; nem…                                                      tampouco ultrapassar a natureza das coisas”.

Na perspectiva hegeliana, a atividade do pensamento comparece como uma força movente que trama todas nossas representações…fins, interesses e ações; atuando como uma lógica natural inconsciente…O que nossa consciência tem diante de si é o conteúdo – objetos das representações, que preenchem nosso interesse… As determinações do pensamento valem como formas, que pertencem ao conteúdo. A atividade mais elevada da “ciência lógica“…é libertar as categorias da perspectiva fragmentada… meramente instintiva; ressaltando que o conhecimento em si constitui-se com um atributo fundamental da ‘realidade do espírito’.

dialética.jpgNesse contexto é que se podem compreender as categorias da ‘identidade’…e da ‘diferença’. Segundo Lukács essas expressões categoriais não são ‘construtos’ do “sujeito cognoscente”, mas pertencem à própria “materialidade” da realidade, ou seja…o preceito da ‘identidade’ do sujeito não se funda na…’lógica formal’… mas em uma ‘objetividade’… – intrínseca ao ‘objeto material’…que se pretende conhecer.

A afirmação e negação da identidade…constituem-se como elementos imanentes à ordem do ser, não procedendo pois do sujeito do conhecimento. A identidade não emana de fora das coisas, mas da “processualidade” do mundo (interação das forças e ações recíprocas),  como uma ‘propriedade objetiva’. É a própria dinâmica do ser que indica um movimento de interação e oposição – ao afirmar e negar seus componentes categoriais. A lei do devir faz parte de toda estrutura do objeto… e a tarefa do pensamento é apenas se apropriar da razão imanente que perpassa as ‘malhas processuais’ da realidade. – O tornar-se outro é expressão de mudanças que se dão na própria constituição do “ser objetivo” (material).

Hegel recusa ainda qualquer formulação que compreenda os conceitos como puras formas, separadas do conteúdo, denunciando a “esterilidade das categorias puramente formais”. O conteúdo separado da forma é vazio, pois não pode existir sem forma, assim como a forma não pode existir sem conteúdo (como quer a ‘lógica tradicional’)…A forma tem a obrigação de oferecer uma “manifestação fenomênica” ao conteúdo. Como Hegel diz, dialeticamente:

“Ao introduzir o conteúdo na investigação lógica, não são as coisas,        senão o o conceito das coisas… – o que se converte no objetivo final”.

Hegel afirma que “o conceito tem subentendido em si todas determinações anteriores do pensar…é o pensamento universal, incomensurável abreviação diante da ‘singularidade’ dos objetos, tais como estes se apresentam à intuição e representação… indeterminados”.

O ‘conceito’, como movimento dialético de singularidade, particularidade e universalidade surge da relação objetiva de diferenciação e contraste entre objetos. Desse modo, a relação de determinação como negatividade serve de preâmbulo para a compreensão da distinção existente entre a natureza ontológica ou intrínseca de uma coisa…e sua qualidade exterior.

caminhosdosaberPara Lukács, o caminho do saber vai…do ser abstrato… – à essência mais concreta, enquanto na realidade porém, a essência mais concreta e complexa… – é ponto de partida ontológico do qual se pode obter, através da abstração…o ‘conceito do ser’, que também é… sobretudo…’ontológico’.  Porém, quando Hegel tenta fazer brotar de sua natureza…as origens da essência    do ser… o conceito padece de equívocos.

Lukács entende que não dá para sustentar a tese hegeliana, de que o conceito emana do movimento da essência do ser… – pois seus aspectos lógicos acabam contrapondo-se às exigências reflexivas em que as categorias brotam do mundo objetivo, desconsiderando assim, os “aspectos ontológicos”. Ou seja, o ‘ser coletivo’ e o ‘ser individual’, nesse caso, não brotam das determinações de um mesmo processo… – Para Lukács… o ‘conceito’ é fruto da tentativa de constituição da identidade sujeito/objeto – e não… de um ‘avanço processual’ do ser, como faz entender a ‘filosofia hegeliana’, ao conceber as ‘resoluções’    do pensamento como conteúdo de uma “suprema verdade lógica”… na qual é sujeito, e objeto de si mesmo… – Como assim definiu Hegel, por meio de suas próprias palavras:

“As determinações do pensamento têm…em si mesmas – valor e existência objetivas”.

Eis o que impede a filosofia hegeliana de avançar no entendimento efetivo da realidade. Para Marx é impossível alcançar a efetividade do ser mediante a mera reversão ideal de um processo de abstração…que tem o seu ‘ponto de partida‘ num conceito logicamente esvaziado de ‘determinação ontológica‘. Não é pela mediação do movimento do pensar consigo mesmo que se chegará à “objetividade” da lógica, pois ao se partir do “reino do abstrato” … e não do mundo concreto, constituímos uma abstração carente de resposta.

Marx destaca que… um ‘ser indeterminado’ não passa de uma construção do pensamento … pois não é possível alcançar a essencialidade das coisas, afastando-se progressivamente de seu ‘movimento ontológico’… – e assim abstrair do movimento processual contingente em seus riscos e acidentes”.

O problema da ‘perspectiva logicista‘ é que ela se afasta das determinações efetivas da “processualidade” do “ser social”… para pairar… de uma forma absoluta, no “reino da ideia”, onde o pensamento…é a ‘autodeterminação’ de si mesmo, em um ‘pano de fundo’ constituído pelas ‘categorias lógicas’, nas quais, os ‘preceitos hegelianos’… conferem uma ‘força descomunal’ ao poder de abstração…Como diz Marx:

“Assim… toda realidade submerge no ‘mundo das abstrações’ … das categorias lógicas”.

Através da regressão abstrata torna-se possível subverter todo reino da realidade objetiva à condição de ‘categorias lógicas‘, e nestas encontrar a substancialidade existente, em que o método absoluto de Hegel pode, tanto explicar todas coisas, como implicar o movimento delas, numa inusitada tentativa de afirmar… na abstração da ideia, a síntese do conceito e realidade, na qual a razão reencontra-se em si mesma… e reconhece-se em todas as coisas.

Com efeito…ao não levar às últimas consequências as disposições objetivas das categorias, e erigir a “ideia” como momento predominante, Hegel pretende fazer dela, o que existe de mais elevado, ou seja, a síntese do conceito e da realidade. É por isso que ele concebe… “O que é racional é real, e o que é real é racional”… ou seja – é a ‘consciência’ que…em última instância…define a realidade – enquanto esta se circunscreve à sua forma de pensamento.

Assim, a tentativa hegeliana de constituição de uma nova fundamentação filosófica acaba consistindo apenas numa nova roupagem de reprodução da velha perspectiva fundada na ‘consciência sobre o ser’…à medida que o ‘absoluto’ surge como o processo de síntese, em que todas diferenciações são submetidas ao nível especulativo, por uma ‘autoconsciência do espírito’… – Por esse motivo…a ‘determinação ontológica’ das categorias não pode ser concluída – e apenas com Marx assumirão verdadeiramente suas funções processuais na realidade… e não meras definições lógicas. – Por seu princípio ser a “realidade material”,  e não “preceitos lógicos” do pensamento, a “dialética materialista” levará as formulações de natureza objetiva das categorias postuladas por Hegel, às suas últimas consequências.

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Imanência & transcendência…em um ‘campo fenomenológico’

“Como detetives investigando a realidade, somos livres para usar todo tipo de pista. Mas como juízes tentando verificar se uma teoria…de fato, descreve a realidade… precisamos testá-la empiricamente… – Isto… é o que torna a ciência bem sucedida”.  (Carlos Rovelli)

husserlNa primeira edição de…“Investigações Lógicas”… Edmond Husserl delimita o domínio da ‘pesquisa fenomenológica’, numa ‘imanência psicológica’…Porém, ao examinar ‘atentamente’ os critérios empregados… – constata-se…que eles implicam uma…’transcendência‘… do objeto pesquisado, acarretando assim dilemas epistemológicos … na relação entre ‘objeto físico’/’objeto percebido’.

Quanto à relação entre imanência e transcendência – da edição de 1900/1901 de ‘Investigações Lógicas’, para a edição revisada de 1913… Husserl fez importantes alterações … destacando-se uma rearticulação entre imanência e transcendência,          como consequência da compreensão alcançada por ele…de que a fenomenologia                  é uma filosofia transcendental, tendo como domínio a “consciência pura“.

teoria representacional da percepção

Por objeto da física… trata-se fundamentalmente de objetos descritos em termos lógico-matemáticos dos quais a física moderna, a partir de Newton, busca investigar; como… por exemplo, átomos ou estruturas atômicas e químicas. Por objeto da percepção, entende-se tudo o que aparece em nosso mundo circundante, como estrelas, cadeiras ou cachorros. Na relação sujeito/objeto… – as ciências naturais… em especial a física – não pretendem investigar a realidade interna – psicológica do sujeito – mas sim, a realidade externa. Daí, a pergunta que se segue: Qual a relação entre o objeto dado na percepção e o objeto físico?

Uma forma popular de se responder essa questão é a com a teoria representacional da percepção, segundo a qual, se eu vejo uma mesa…isso ocorre porque fótons estimularam minha retina desencadeando impulsos nervosos que são processados no cérebro, de modo a emergir em mim uma representação consciente da mesa… Ou seja, a mesa exterior afeta o meu sistema sensorial, de modo a produzir em mim uma ‘representação’… – ou imagem mental da mesa. – Assim teríamos, de acordo com essa teoria, 2 mesas…uma interna, que é advinda de “processos cerebrais”, oriundos da consciência – e, outra mesa física externa, que ao ser iluminada…difrata a luz – emitindo fótons que estimulam o aparelho sensorial.

Com isso…o “representacionalismo” postula a existência de duas entidades implicadas  na percepção … — um “objeto extra-mental” … — e uma “representação intra-mental”.

a consciência fenomenológica

Husserl, no entanto, rejeita essa forma de ‘representacionalismo‘. – Para ele, ao ver uma mesa, não estamos conscientes de uma imagem mental da mesa ou de sua representação, mas sim da mesa, ela própria como objeto. – É verdade, afirma Husserl, que a impressão sensorial da mesa… ou sua aparição… é uma vivência… – e assim…portanto, conteúdo de consciência, mas o que percebemos não é a impressão ou a aparição, mas a própria mesa.

Os objetos por nós percebidos – e dos quais estamos conscientes, transcendem à vivência. Ou seja, é preciso distinguir o ‘objeto percebido’, da vivência de perceber. Esta, bem como a aparição do objeto, é um autêntico conteúdo de consciência — ao passo que o objeto percebido…não. Husserl defende que na percepção visamos diretamente o objeto transcendente, sem a mediação de uma ‘representação‘, ou ‘imagem mental’.

E, sendo a ‘consciência perceptiva‘ um modo intencional descritivamente distinto da consciência, sua imagem não é uma propriedade do objeto, como ser vermelho, mas algo adquirido por este, em função de nova forma de intencionalidade que o interpreta, como representante de outro objeto. – Por mais que 2 objetos sejam semelhantes…isso não faz de um, a imagem do outro… – Para isso, o interpretamos…como ‘representando’ o outro. 

Toda consciência de imagem pressupõe a consciência de 2 objetos, o objeto-imagem e o objeto-sujeito…Contudo, uma correta descrição da ‘consciência perceptiva’ mostra que nela…somos conscientes apenas de um único objeto.

Claude Monet, Impression Sunrise_1872

Claude Monet, ‘Impression Sunrise’ -1872

a delimitação consciente da imanência

A elucidação descritiva do sentido pelo qual o objeto percebido é… ‘transcendente‘ – possui várias implicações — e, pede esclarecimentos.  Nesse sentido — uma das melhores maneiras recomendadas… é analisarmos o que Husserl entende por ‘consciência‘ e ‘conteúdos da consciência‘. – Para tanto, observamos que, de acordo com o próprio Husserl…este termo carrega consigo vários tipos de conceitos… os quais, a seguir serão devidamente elucidados:

  1. Consciência como interno dar-se conta das vivências psíquicas. Diz respeito ao fato de que toda consciência é também “autoconsciência”… ainda que não seja uma autoconsciência realizada de modo explícito – por meio de um ato reflexivo, ou de um ato de percepção interna. Esta forma de consciência se refere ao “caráter intransitivo” das vivências – isto é…ao fato de que toda vivência é uma unidade de consciência que se manifesta a si mesma… sem, por isso, devir objeto.
  1. Consciência como designação global para todo e qualquer tipo de ato psíquico. Trata-se da consciência tomada como “consciência de algo”… – como vivência intencional… e, portanto, concerne ao “caráter transitivo” das vivências. Estudar a consciência neste sentido é estudar os atos de consciência.
  1. Consciência como consistência fenomenológica do eu. Este conceito delimita    a consciência como unidade da totalidade do fluxo de vivências, como explicitado por Husserl… —  “a consistência conjunta do ‘eu espiritual’ (eu fenomenológico enquanto feixe ou entrelaçamento de vivências psíquicas).

Como Husserl rejeita a noção de ‘eu puro’, e trabalha com uma concepção não egológica de consciência, o ‘eu fenomenológico‘ nada mais é do que o próprio fluxo de vivênciasconteúdo da consciência. As vivências são marcadas pela temporalidade… devendo ser entendidas como “ocorrências reais“… – “fatos psíquicos“…que mudam de momento a momento, se interligando…e interpenetrando de muitas formas… – de modo a constituir a consciência do indivíduo psicofísico.

Sobre os conteúdos da consciência, Husserl faz as seguintes considerações:

1. Apenas vivências são vivenciadas… Portanto – um objeto exterior sensível… um estado de coisas ou uma entidade ideal, não podem propriamente ser vivenciados. Toda transcendência é uma não-vivência.

2. As vivências constituem o fluxo de consciência.

3. O fluxo de consciência tem lugar em indivíduos psicofísicos.

4. As partes de uma vivência compartilham da mesma natureza: são vividas, fazem parte do mesmo fluxo… — e são tão singulares, quanto as “vivências concretas”. 

transcendencia imanenteconsciência transcendente

Husserl afirma que o objeto intencionado é transcendente ao ato… e para esclarecer a natureza desta transcendência, ele apela para a evidência do fato que…percebemos coisas transcendentes … onde estas manifestam-se à consciência. Estes ‘objetos mentais’… contudo, não se identificam com as ‘sensações’, que também se encontram na ‘consciência’.

Husserl, guiado pela ideia de que a ‘fenomenologia’ é uma ciência puramente descritiva…e metafisicamente neutra… limita-se a afirmar que o objeto … em seu conteúdo psico-descritivo… não se acha descritivamente no ato“… Estar consciente de algo transcendente, significa portanto estar cônscio de algo descritivamente distinto de uma ‘vivência’. E assim… a estratégia de Husserl para defender a transcendência do objeto é mostrar que seus traços descritivos são distintos…tanto de traços vivenciais…quanto os de suas partes.

Uma vez que a vivência é uma ocorrência real… não pode se repetir, mas um mesmo objeto pode ser intencionado em múltiplas vivências distintas.

Cada percepção do objeto é um evento psíquico que dura enquanto durar a percepção, ao passo que o objeto deve ser descrito como algo, que permanece numericamente o mesmo. Se o objeto fosse uma vivência…não poderia se repetir… – pois uma vivência é distinta da outra… – O “objeto intencional” também não pode ser parte dessa vivência, pois toda sua parte, abstrata ou concreta, compartilha da mesma natureza singular.

No caso da percepção exterior, é possível que 2 vivências de percepção distintas sejam direcionadas ao mesmo objeto. Vejo essa mesa – tenho portanto uma vivência dirigida para ela… – Fecho os olhos…abro-os novamente – e agora tenho uma nova vivência de percepção da mesa. As vivências são distintas… tanto no todo – como em cada uma de suas partes, contudo, o objeto deve ser descrito como “permanente” … ao passo que as vivências e suas partes, serem consideradas numericamente distintas umas das outras.

Ora, se o objeto não pode ser imanente, logo ele é transcendente, ou seja, a consciência visa – por meio de operações imanentes… algo ‘transcendente’.

fenomenologiauma metafísica transcendente

Sendo a transcendência do objeto percebido uma ‘função descritiva’ não ontológica…compreendemos porque — para Husserl… o objeto  transcende ao ato de observar, de um modo independente de saber, em que sentido e com que direito se fala de seu ‘ser’. Dessa forma é preciso notar…que – a afirmação de que o “objeto intencional    é transcendente à vivência

  1. Não implica, a princípio, ontologicamente, sua independência ou não da consciência.
  2. Não implica, a princípio… – que seja real, ou exista… – muito menos…que seja irreal.

Por entender a fenomenologia como uma ciência metafisicamente neutra, Husserl se abstém de abordar frontalmente a relação entre o ‘objeto intencional’… e um suposto mundo físico, ontologicamente independente da consciência… — Limita-se a afirmar,      que o problema da existência de átomos, moléculas…e vibração do ar… diz respeito à metafísica…

“A consciência visa um ‘objeto transcendente’, sendo fenomenologicamente irrelevante se este objeto intencionado é em si, uma ilusão ou não, se existe ou não… – O problema da existência da natureza do ‘mundo externo’ é um problema metafísico”.

A diferença entre percepção e alucinação é fenomenologicamente irrelevante… na medida em que a descrição de ambas seja idêntica. Mas isso é revelador. Como a intencionalidade da consciência independe da existência ou inexistência do objeto, a relação intencional do sujeito ao objeto não é uma relação real entre 2 realidades. — Não se trata de uma relação causal entre objeto e consciência … entre uma realidade interior, e uma realidade exterior (ontologicamente independente).

A vivência intencional não é produzida pelo objeto exterior…que ao afetar a sensibilidade do organismo, acaba afetando a consciência. Pelo contrário, são os componentes internos à própria vivência que determinam sua referência a este, ou aquele objeto… — Ou seja… a intencionalidade da consciência… sua direcionalidade a uma transcendência, é produzida por elementos imanentes à vivência. Assim portanto…quando Husserl considera o objeto intencional como exterior, é preciso observar que essa é uma determinação descritiva, de onde não se pode inferir que o objeto intencional revele-se identificado com a coisa física.

(imanência transcendental)

A partir daí a pergunta que se coloca, em especial na esfera da percepção, é sobre a relação entre três instâncias…a) a aparição do objeto; b) o objeto que aparece; c) o objeto da física.

Sabemos que a aparição do objeto é imanente, e o objeto percebido é transcendente. Mas, e o objeto da física?… — Tratar-se-ia de uma transcendência que… ao contrário do objeto percebido, não aparece?… Haveria, portanto, implicitamente 2…e não um único conceito de transcendência?…Tudo parece sugerir a necessidade de duas transcendências, a saber:

  1. Uma transcendência metafísica, que…por princípio, não pode vir à doação intuitiva;
  2. Uma transcendência que aparece e que não se confunde com a vivência da aparição.

floraçãoPara a filosofia fenomenológica… — a própria ‘objetividade‘… — em termos gerais … não é nada — ela transcende    ao ato… – Independente de saber em qual sentido, e com que direito se fala do “ser”… independente de saber se é real ou ideal; verdadeira…possível ou impossível… – o ato se dirige para ela.

Com efeito, esta transcendência, para Husserl… depende da consciência, na medida em que resulta de “operações imanentes”… – que pressupõem uma ‘transcendência oculta‘ … delimitando o ‘campo fenomenológico’… pela exclusão do “corpo físico“… (hipótese, aliás… incompatível com o desenvolvimento da fenomenologia como uma “teoria do conhecimento”)… — Todavia, a compreensão desta incompatibilidade é um passo fundamental à “virada transcendental”, com o estabelecimento de um “campo fenomenológico”…a partir de um novo conceito de “imanência pura”, ou “transcendental” – que é, segundo Husserl, o “verdadeiro absoluto”.

Ao examinar a ‘teoria da percepção’ de Husserl podemos obter valiosas informações sobre o problema da dependência (ou não) do objeto percebido, em relação à consciência. Nesta, a percepção é compreendida como uma “apreensão objetivante” de sensações – através da qual se constitui a aparição do objeto…Sensações são interpretadas como ‘transcendentes’, em função dessa assimilação à manifestação do objeto, ou de suas ‘propriedades objetivas’.

“sentidos & sensações”                                                                                                                Por “sensações”… devemos entender algo que pertence a um “fluxo subjetivo“… – Nas percepções normais… sensações são vividas…mas não percebidas. É apenas por meio de uma apreensão deste algo…pertencente ao fluxo, que um ‘objeto transcendente’ aparece.

Tomemos como exemplo o caso da percepção sensível de uma esfera amarela. O termo “amarelo” pode designar tanto uma sensação, entendida como momento pertencente à aparição, quanto uma “propriedade transcendente”…(qualidade cromática amarela) do objeto. Ao afirmarmos que o objeto percebido é amarelo, designamos uma propriedade     do objeto, mas não a sensação do amarelo. Isso porque…a qualidade amarela do objeto,     é resultante da interpretação objetivante dessa sensação específica.

sol

O Sol nos aparenta amarelo devido à refração atmosférica (na verdade, é branco)

O objeto transcendente… dado na percepção… possui a propriedade transcendente de ser “amarelo”… graças à interpretação objetivante       da sensação imanente do amarelo. Para Husserl, essa interpretação é sempre realizada pelo “sentido”…     Ou seja… – perceber é interpretar objetivamente as sensações – por     um determinado sentido… – E as propriedades do objeto, resultam      dessa interpretação de sensações.

Conclui-se daí que a transcendência do objeto observado, bem como suas propriedades, são dependentes de operações imanentesE que as propriedades objetivas de um corpo se devem à sensações. Sua propriedade amarela é resultado de uma sensação imanente. 

Ou seja, a relação entre ‘sensação‘ e “propriedades transcendentes” não é arbitrária, e o sentido pelo qual o conteúdo imanente é interpretado é limitado pelos próprios dados de sensações. Uma sensação de amarelo, uma vez apreendida não pode propiciar a aparição de um objeto verde…  —  A cada uma das sensações … auditivas … gustativas … visuais … corresponde uma ‘propriedade objetiva‘ resultante de sua ‘apreensão objetivante‘.

Mas, apesar de Husserl atribuir às sensações uma… “forma espacial inautêntica”… – esta, uma vez apreendida, constitui um “espaço autêntico“…Onde aqui, Husserl compreende por “espacialidade”… — “o momento de sensação… – cuja ‘percepção objetiva’ constitui a autêntica espacialidade emergente”… – E, dessa forma…conclui-se que o ‘espaço objetivo transcendente’ é resultado de “operações imanentes“…Ou seja, pela apreensão do espaço imanente das sensações se constitui o ‘espaço objetivo transcendente’; no qual os objetos percebidos se encontram.

Tudo leva a crer, que esse espaço constituído ainda não é o “espaço físico”… — tal como concebido pelas teorias físicas. A física não estuda um espaço produzido por operações na consciência psíquica… mas sim um espaço que existe independente da existência da consciência pertencente a entes de uma determinada espécie animal.

transcendênciacontradições da transcendência

Do que foi exposto até agora, devemos considerar que… — apesar de todos os esforços de Husserl … algo permanece em aberto…

Qual o tipo de ‘vínculo ontológico’ que existe entre o objeto, e suas aparições? O que significa…”transcendência”…do objeto — em relação à sua aparição?…

E esses problemas se agravam… ao levarmos em conta que a esfera fenomenológica – a qual pertence a aparição, é obtida por uma abstração do eu empírico, ou seja, pela exclusão do corpo físico. Como consequência, isso nos leva a considerar a transcendência do objeto… misteriosa… – pois, se de um lado, o objeto que aparece como transcendente é resultado de operações puramente imanentes, por outro lado… – essas operações se passam … em um “domínio de imanência” … obtido justamente pela abstração do lado físico de um homem real… – que faz parte da natureza.

Seria a transcendência do ‘corpo físico’… a mesma do ‘objeto observado’?…

Para que tal identificação fizesse algum sentido…teríamos de supor que a transcendência constituída na ‘imanência psíquica’, milagrosamente coincidisse com a realidade exterior física… que, de saída, foi excluída para a obtenção do campo fenomenológico. Como uma transcendência produzida pela imanência, pode então … coincidir com suposta realidade exterior, que por definição, é independente da consciência?

Como o objeto percebido, que aparece como transcendente, não pode ser confundido com o objeto da física… – já que este não possui qualidades sensíveis… mas apenas qualidades lógico-geométricas, a situação torna-se ainda mais complexa, numa ‘suposição ontológica’ idealizada por Husserl, em que ele identifica o objeto sensível com o objeto real. Contudo, um átomo não é vermelho ou amarelo… — Quente e frio não se confundem com a energia cinética das moléculas de um objeto físico.

husserl-frasePor isso devemos retomar mais uma vez a pergunta… – Qual a relação entre esse objeto transcendente…’perceptível’…e o objeto da física?… – Seria este…que por princípio não pode aparecer… – apenas uma entidade irreal?… – Qual a relação entre o objeto sensível intuído e o físico? De semelhança?… Imagem?… De signo? 

Temos acesso imediato ao objeto transcendente da percepção e apenas acesso mediato ao mundo físico? Ou seria essa uma pergunta que a fenomenologia, tomada como psicologia descritiva, por princípio não pode responder?…

A física se dispõe a estudar a realidade observável, que não se identifica ‘ipsis litteris‘ com a realidade exterior… – Por isso…o antigo problema da relação entre sujeito… e realidade externa… – problema este levantado por Descartes, o qual Locke busca responder…não é eliminado pela… “fenomenologia” … — ressurgindo, pois… sob uma forma mais refinada.

O problema de relação entre experiência sensível e realidade exterior torna-se agora… – o problema da relação entre uma transcendência imanente à “consciência”…dependente portanto do sujeito… – e uma “transcendência física” … que não se mostra de uma maneira direta.

A ‘teoria do conhecimento’… que se originava a partir do pressuposto de um mundo exterior, era incapaz do legitimar qualquer forma de conhecimento a respeito deste mundo…externo ao sujeito. Assim, a epistemologia fundamentada numa psicologia descritiva… – cujo domínio era alcançado pela exclusão do mundo físico… acabava carregando pressupostos ontológicos…conflitantes com premissas epistemológicas.  Esses pressupostos permaneciam implícitos na ‘concepção fenomenológica’ – como        uma teoria do conhecimento – fundamentada na ‘consciência individual’… E assim,          a fenomenologia já no início trazia consigo uma concepção não fenomenológica de transcendência.

paradigmasa ‘Virada transcendental’ 

Husserl — na 1ª edição de sua “Investigações Lógicas, havia concebido sua fenomenologia, conforme uma ‘epistemologia’ fundada na vivência cognitiva  de uma “psicologia descritiva”. Pensava que uma…’imanência fenomenológica’… poderia ser metafisicamente neutra… Sua ideia era construir a partir daí, uma “teoria do conhecimento”.

É importante frisar que, em 1901… apesar de assumir uma neutralidade na metafísica, Husserl não a rejeitou…nem à existência de uma realidade exterior independente. Ele      deixa a entender, por exemplo…que a mera rejeição do ‘pressuposto metafísico’ sobre          o qual a física se efetiva não traria nenhuma vantagem, a menos que a fenomenologia      fosse capaz de oferecer uma proposta alternativa restabelecendo-a sobre novas bases.

Ao invés de abordar o problema do conhecimento, como uma relação entre a realidade psíquica e a realidade exterior, Husserl se propunha a recolocar o problema a partir da imanência, ou seja, como concernente à relação entre diferentes formas de vivências intencionais, nomeadamente intuitivas. Se o “problema do conhecimento” recebesse tratamento adequado a partir dessa imanência, aparentemente não haveria razão para      ir da esfera da psicologia descritiva — aos problemas metafísicos da realidade exterior.

fenomenologiaÉ isso que Husserl pensa em 1900/1901… Mas poucos anos depois ele percebe que a sua teoria do conhecimento extrapolava o âmbito psicológico…trazendo implicações ontológicas… – até então despercebidas…

Em 1906/1907, quando cria o método da ‘redução transcendental‘, passa a rejeitar      a determinação da fenomenologia, como metafisicamente neutraafirmando, ao contrário, que uma boa epistemologia só     seria possível numa autêntica ‘metafísica‘. A fenomenologia, concebida como ‘filosofia transcendental’… é, para Husserl… a elaboração de uma nova ‘teoria do conhecimento’.

os (3) conceitos de imanência

A partir de 1907, a fim de libertar a fenomenologia de sua carga psicológica, Husserl opera algumas modificações no texto da 2ª edição… — Destas…merece destaque a distinção de 3 tipos de conteúdos fenomenológicos … assim classificados em 3 conceitos de “imanência”:

1) Imanência real. Trata-se da esfera de vivências obtidas pela abstração do corpo físico. Na 1ª edição Husserl denomina de “eu empírico” ao conjunto composto por corpo físico, e uma ‘esfera de vivências’…O domínio da fenomenologia é obtido justamente pela exclusão do corpo físico, como se observa na seguinte passagem…“Se separarmos o eu corporal do eu empírico, e limitarmos, portanto, o eu psíquico puro ao seu teor fenomenológico… ele reduz-se à uma unidade de consciência; por conseguinte, à complexão real de vivências, que, evidentemente, encontramos disponível para nós próprios, e que na parte restante, com fundadas razões… supomos”.

cogitoEste conceito de ‘imanência real‘ é análogo ao “conceito cartesiano“… – no sentido de que permanece implícita a suposição de que se trata de um “cogito humano” … com o lado físico pressuposto – e um lado psíquico…explícito. Sendo o domínio da fenomenologia, obtido na abstração do corpo – é claro que este…tomado como base material das vivências (e não correlato objetivo delas) permanece como dado de antemão, pois do contrário não haveria sentido em apartá-lo. Tal caso só faz sentido…numa concepção ingênua de transcendência.

Na medida em que se constitui da abstração do corpo…em relação ao ‘mundo exterior’… a fenomenologia abstém-se de tratar os problemas concernentes à natureza dessa suposta exterioridade então abstraída,    cuja investigação é relegada à ‘metafísica’.

2) Imanência inata…Designa o fluxo constituído pelas vivências (atos da consciência)  purificadas de sua ‘apercepção‘ psicológica…sem contaminações transcendentes. Em “A Ideia da fenomenologiaHusserl exemplifica…“Ao efetuar a reflexão, o imanente surge como incontestável… – pois nela (“reflexão”) nada mais exibe para além de si mesmo”.

O conceito de ‘transcendência’…obtido por contraposição a esse conceito de imanência é distinto do conceito anterior. Todo conteúdo impróprio de um ato (…conteúdos ideais, e os objetos intencionais dados em atos não reflexivos) é…nesse sentido…transcendente…, pois o próprio ‘sujeito psíquico’ (tomado como parte de um sujeito real), bem como suas vivências (oriundas da consciência) é também algo transcendente deste “ser psicofísico”.

3) Imanência pura… é constituída pelos conteúdos fenomenológicos, ou seja, por dados evidentes…no sentido genuíno, e dados absolutos… apreendidos em ‘intuição pura’, com o propósito de descobrir estruturas essenciais dos atos (noesis) … e suas entidades objetivas correspondentes (noema). A ‘imanência inata’ é apenas um caso especial desta imanência.

epochéEpoché‘ é um exercício de suspensão da tese de existência do mundo… a fim de alcançar o dado absoluto.

A “imanência pura” pode ser circunscrita a 3 níveis de ‘consideração fenomenológica’…No 1º (incluindo a ‘imanência inata’), trata-se do “cogito” tomado em sua singularidade. No 2º, dos “eidos“… universais. No 3º, os correlatos de toda espécie, na medida em que, ao serem formados na consciência, fazem da fenomenologia uma ‘ciência universal‘ … baseada na correlação consciência (noesis) / objeto (noema).

No caso da ‘percepção externa’… — tais correlatos fazem                                  parte da ‘imanência pura’, mas não da ‘imanência inata’.

o problema da ‘transcendência Pura’                                                                                   “Cada conceito de imanência tem como contraponto…um conceito de transcendência.”

Uma vez de posse destes 3 conceitos…de imanência e transcendência – podemos agora concluir que… Se em 1901, Husserl faz a distinção entre a aparição e o que aparece, em 1907 ele acrescenta que essa distinção deve ser realizada no interior da imanência pura. Tanto aparição quanto objeto são imanentes no sentido absoluto… Contudo, a aparição     do objeto pertence à ‘imanência inata’, enquanto o objeto é transcendente com relação       à ela…“Por conseguinte, temos 2 dados absolutos… – o dado do fenômeno, e o dado do objeto; e o objeto, dentro desta imanência, não é imanente no sentido incluso (inato).”

‘Objetos da percepção’…entendidos de maneira reduzida, também podem     ser vistos em sentido absoluto… – tanto quanto sua aparição (fenômeno).

Inicialmente… – temos o conceito de “imanência (real) descritiva”… – que compreende a consciência como uma região ontológica do mundo, ao lado de outras regiões que lhe são transcendentes… A ‘imanência psíquica’ é tomada apenas como um objeto, dentre outros tantos possíveis de ‘investigação científica’. – Já o conceito de ‘imanência inata‘ traz uma ideia relativa de transcendência… – todo conteúdo fenomenológico que não é inato… – é transcendente… — como por exemplo… as essências e correlatos objetivos das ‘vivências intencionais’… – Neste caso, o objeto percebido… (pela consciência)… é “transcendente”.

Se, em termos de transcendência, os 2 primeiros conceitos de imanência      se encontram bem definidos, isso não se pode dizer do 3º conceito… Aí…        o problema se coloca…ao buscarmos um conceito de “transcendência”… contraposto à “imanência transcendental”… – como veremos a seguir…

fenomenologia.O domínio da fenomenologia… – após 1907, não é mais obtido pela exclusão daquilo que transcende ao ‘conteúdo inato’… – mas pela ‘desconexão’ de tudo que é transcendente, à “imanência pura”, ou seja… tudo aquilo que não é dado após a ‘redução transcendental’. Mas… o que não é dado após a efetuação da epoché?… A única resposta é — tudo aquilo que não pode…a princípio…ser constituído na consciência. Mas então, o que seria isto?

A resposta mais óbvia para essa pergunta… – parece ser o ‘mundo real‘ … o mundo em si, ontologicamente independente da consciência. No entanto, ainda que essa seja a resposta mais óbvia, é problemática. – Como Husserl nos mostrou em 1913, a redução não implica em perdas…pois caso algo desconectado possua algum tipo de validade, será reconectado.  Assim, a objeção de que a redução limita o campo de pesquisa à interioridade…ainda que transcendental, só pode ser resultado de uma má compreensão da mesma, ao confundir a atitude transcendental com a natural. – Se há algo que a ‘epoché‘ exclui…esse algo não é a própria realidade, mas apenas uma concepção absurda da mesma – nomeadamente, uma realidade independente de toda teoria, de toda experiência.

Todo objeto passível de ser conhecido, predicado e experienciado é correlato de operações noéticas…Mas, quando esta consciência é vista a partir de uma perspectiva externa…não é possível revelar sua dimensão transcendental…. Querer assim compreender a constituição do mundo é recair em psicologismo e contrassenso…Contudo, quando a consciência não é vista sob esta perspectiva naturalística, mas a partir de uma ‘redução transcendental’, não há exterioridade, nem interioridade…Estes são 2 dados correlatos a uma ‘imanência pura’.

Com efeito, um dos maiores ganhos da redução é que ela revela o vínculo essencial que há entre ser e aparecer… – O sujeito transcendental é condição do aparecimento de qualquer ente possível, pois a essência de um ‘objeto transcendente’… diz respeito ao próprio modo como o objeto deve se mostrar. A postulação de um ser que, a princípio, não se manifeste,  e não se anuncie… — nem mesmo ao pensamento teórico… — não é algo que faça sentido.

Segundo Husserl… – do ponto de vista transcendental… – a concepção de    um ‘mundo ontológico’, independente da consciência, é um ‘contrassenso’.

fenomenologia-introduçãorelação entre objeto ‘físico‘…e percebido

A partir de 1906 … com a ‘virada transcendental’, Husserl entende que a epistemologia não deve se fundamentar na ‘psicologia descritiva’…mas sim, numa ‘filosofia transcendental‘… – Desde então, o domínio autêntico da “fenomenologia”… não é mais a ‘imanência psíquica’ – mas sim…a ‘imanência pura‘. – Nesta, se incluem não só as vivências – mas também as essências…e todos os correlatos constituídos pela consciência. E assim, o ‘objeto emergente‘ passa a ser entendido por uma “dupla chave“… – como transcendente aos conteúdos inatos, mas imanente, em sentido puro. Essa ampliação do “campo da fenomenologia” possibilita a Husserl solucionar várias questões… inclusive, o status do “objeto intencional“, agora definido como…“o idêntico de múltiplas aparições, motivadas de modo coerente”.

Ele não é nem a soma das aparições, nem algo por trás destas…e muito      menos algo destas realmente separado, mas apenas algo que as unifica.

Com a defesa do “primado” da ‘consciência’ em relação ao ser transcendente, Husserl rejeita a doutrina de Locke que prega a existência…de – ‘qualidades secundárias’ (cor, som, cheiro) pois, as ‘qualidades primárias’ (solidez…extensão…inércia…)  não teriam privilégios…frente àquelas… – E assim, também rejeita a ideia de que o objeto da intuição seja ‘signo’ do objeto físico… – Mas então… qual seria a relação entre ambos?

Husserl oferece uma solução para este problema a partir da concepção de que o objeto da física é constituído a partir de ‘operações noéticas’ realizadas sobre o objeto da percepção. Isto é, o portador das determinações sensíveis será concebido como idêntico ao portador das determinações físicas, de modo que, do ponto de vista transcendental, não se poderá afirmar que a coisa física é algo que exista por detrás do objeto sensível, que é sua ‘causa’.

Se o objeto físico fosse uma causa escondida por trás do objeto que aparece, teríamos como consequência, uma teoria dos dois mundos, na qual haveria uma “realidade fenomênica” — e, por detrás desta… uma “realidade física”.

É verdade que o objeto da física possui atributos que não são dados no objeto tal qual    este se manifesta na experiência direta, e vice-versa…mas isso não é problema, já que          é preciso distinguir entre o portador das determinações, e as próprias determinações.         O portador é o mesmo, já as determinações de um e outro variam, conforme o tipo de       ato e sentido com o qual é intencionado. E isso não significa uma ausência de relação       entre as determinações físicas, e as percepcionadas. O objeto, enquanto portador das determinações sensíveis, tal como dado na intuição original…possui, não só primazia epistemológica, mas também ontológica frente ao objeto da física. Este por sua vez, é constituído no processo de idealização operado sobre a objetividade dada na intuição. 

As próprias…”determinações físicas”… – se anunciam…                                     antes de qualquer teoria… em suas ‘condições sensíveis’.

Em suma…todo conhecimento científico teórico encontra sua raiz na intuição originária. Essa ideia irá culminar, na posição amplamente desenvolvida por Husserl nos ‘anos 20’, de que diferentes domínios das ciências teóricas encontram sua raiz no ‘mundo externo’,  aquilo que ele… — posteriormente irá denominar de… — “mundo da vida”… (texto base) *****************************(texto complementar)*********************************

fenomenologia-ideiaLições fundamentais de fenomenologia

Edmund Husserl é o pai da “fenomenologia”, filosofia que – partindo da matemática… e da psicologia … faz a ruptura com o pensamento moderno, abrindo as portas a um novo modo de raciocínio. Esta ciência…preocupa-se com    o estudo dos ‘fenômenos’ – do modo estes se apresentam ao sujeito… Imaginação…espaço, tempo e empatia – são dados ao sujeito…por meio de uma ‘consciência’…que os apreende.

Em sua obra — “A Ideia da Fenomenologia“… Husserl preocupa-se em apresentar as “raízes” da sua reflexão filosófica, dividindo o trabalho metodologicamente em 5 lições, pronunciadas em 1907…na cidade de Göttingen – como uma nova perspectiva em sua linha de pensamento.

No resumo a seguir (1ª e 2ª lições)… Husserl – além de apresentar as definições básicas da fenomenologia, também se preocupa em analisar a essência do conhecimento, ou seja, que métodos utilizar para torná-la acessível.

Na 1ª lição, Husserl mostra a diferença entre ‘atitude espiritual natural’, da qual provém a ‘ciência natural’…e ‘atitude espiritual filosófica’ (fonte da ‘ciência filosófica’). – A primeira,
não se atém à ‘crítica do conhecimento’, portanto…não é capaz de atingi-lo – pois todas as coisas presentes no mundo tornam-se… de alguma forma, objeto da ‘investigação natural’. Nesta atitude… – as coisas estão no mundo… – e caem, “naturalmente” sobre a percepção.

Desse modo, as ciências naturais podem ser da própria natureza, assim como de natureza psíquica, ciências do espírito, e ciências matemáticas.

Na atitude intelectual filosófica, Husserl mostra que ela é esclarecida em seus propósitos, pela percepção de um mistério acerca da possibilidade do conhecimento…Dessa forma, a essência do conhecimento se apresenta como um problema… – isto é… um mistério a ser investigado… – É desse mistério sobre a busca da essência do conhecimento, que surge a atitude intelectual filosófica. – E é assim… que Husserl busca fundamentar a essência do conhecimento e sua possibilidade.

Pode-se então dizer que o ‘conhecimento’ é uma “vivência de natureza psíquica“, pois o homem busca ter consciência de seu próprio conhecimento. E dessa afirmação… têm-se que o ‘saber’ é uma das formas de vivência do sujeito, o qual se dá na consciência. Desse modo então, somente os ‘fenômenos’ são vinculados diretamente ao cognoscente, e esta    é justamente a conexão de suas vivências.

Diante dos ‘problemas’ relativos à correlação conhecimento… sentido… e objeto… – cabe à “teoria do conhecimento” – ou… à “crítica da razão teorética” solucioná-los. — Sua tarefa é de aspecto crítico… – “refutar teorias sobre a essência do conhecimento”… pois, segundo o próprio Husserl… “Só a reflexão gnosiológica separa a ciência natural da prática filosófica”.

       As ciências naturais do ser não são ciências definitivas do ser.                         É preciso uma “ciência do ente”… – e esta … é a “metafísica“.

Finalizando a 1ª lição, Husserl apresenta a definição de ‘fenomenologia’… – como sendo   uma ciência, ou conexão de disciplinas científicas, sobre o estudo do ‘fenômeno‘ … (tudo aquilo que se manifesta…e se revela à consciência)… – E assim sendo, a ‘fenomenologia’ designa um método (filosófico), e uma atitude intelectual filosófica… propriamente dito.

Seguindo com sua reflexão, já na 2ª lição, Husserl afirma que… – ao iniciar uma crítica ao conhecimento, o importante é submeter o índice de questionabilidade da natureza física e psíquica do mundo, ao próprio ‘ser humano’, assim como às ciências que dizem respeito a essas realidades. Tudo isso é colocado em questão…Logo, o conhecimento é um problema de difícil compreensão. Sua obscuridade crítico-cognitiva faz com que não se compreenda que sentido exista em um ser em si…que assim seja compreendido – atestando o mistério na apreensão do conhecimento.

descartes_frasesEdmund Husserl faz uma referência à meditação de Descartes quanto à ‘dúvida hiperbólica’ citada em suas “Meditações Metafísicas“. – Ele diz que, mesmo que se duvide de tudo – da maneira mais cética, é impossível de se duvidar da existência, à medida que se duvida…isto é, nem tudo pode ser duvidoso… — pois, ao afirmar isto, seria absurdo manter uma dúvida universal. E este argumento, como se pode ver, vale para todos atos do cogito.

Husserl compara a “percepção intuitiva” com a “imaginação” … Ele dá pouca importância ao fato de ser verdadeiro ou não o que se percebe… pois o que importa é a verdade da sua percepção. Para isso, ele propõe uma nova ciência da ‘crítica do conhecimento’… a fim de elucidar sobre sua essência. – Com efeito… apesar de questionar o saber, Husserl mostra que não se deve colocar em questão, tudo aquilo que transcende a experiência intuitiva e imanente do “eu percebo” … na tentativa de recuperar algo exterior…”transcendental”.

A transcendência segundo Husserl é o problema inicial e guia da crítica do conhecimento, isto é…é o enigma que bloqueia o caminho do conhecimento natural… – constituindo assim… o ‘impulso’… para as novas investigações.

O conhecimento é uma coisa distinta do seu objeto – ou seja… o conhecimento está dado, mas o objeto não… Assim, apesar do conhecimento ser questionado… isso não implica na negação de sua possibilidade. Não se pode interrogar o que é conscientemente percebido, uma vez que este, enquanto possível objeto transcendente, já fora repudiado pela dúvida.  Dessa forma… – ao tratar da “redução gnosiológica“… – Husserl conclui sua 2ª lição.

Nessas lições, Husserl se propõe trabalhar como é, em geral, possível o conhecimento, e o que pode ser conhecido (seu objeto)… – Pode-se concluir… a partir da leitura dessas duas primeiras lições que fenomenologia é a ciência de tudo aquilo que se manifesta e se revela à consciência. – Consistindo num método que se deriva de uma atitude sem pressupostos, tem por objetivo dar bases sólidas a uma ciência, que busque alcançar a ‘coisa’ como ela é.

Para Husserl…consciência é ‘intencionalidade’, uma vez que toda consciência é consciência de algo… e sendo assim… constitui uma atividade formada por atos (…imaginação…e percepção) dispostos num “feixe vivencial”.

Enquanto um transcender em direção à outra coisa — a intencionalidade é um ‘modo de ser’ da consciência .

A consciência não está no mundo, é transcendental… De tal modo,              que só é possível definir o objeto em relação à consciência, ou seja,                o objeto só é objeto… se referenciado a algum determinado sujeito.

Mesmo diante do que Descartes e outros filósofos já disseram…Husserl vai além das ideias destes, ao propor uma reflexão científica sobre o conhecimento, tornando a fenomenologia não apenas atitude intelectual natural, mas atitude intelectual filosófica … ao colocar todas as coisas, enquanto fenômeno da consciência… de tal modo que se pode interrogar, como é possível que… – tudo o que está em torno de um sujeito…exista somente em relação à ela…

Para que a verdade filosófica se torne permanente… é preciso que a consciência alcance as coisas do modo como estas à ela se mostram.              A filosofia assim, deve buscar alcançar a essência do conhecimento.

Esta obra de Husserl é essencial para uma compreensão filosófica…principalmente no que diz respeito ao pensamento contemporâneo. É dirigida a todo público que se sente admirado pelo saber… pelo conhecimento… – mas, principalmente, para quem deseje pesquisar a contemporaneidade – pois Husserl está entre os que mais influenciaram        este período(texto base)

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Husserl, e o poder fenomenológico da ‘Percepção’

A capacidade de apreensão das coisas, por meio dos sentidos é fundamental na formação do conhecimento. Mas, como garantir o saber objetivo e erigir uma teoria do conhecimento … se a percepção envolve “objetos subjetivos”?

Conhecemos o mundo ao redor por meio dos órgãos sensoriais, onde a “percepção sensível, isto é… — nossa capacidade de assimilação das coisas, através da visão, audição, tato… olfato     e paladar… – desempenha um importante papel na formação das nossas crenças, e portanto no conhecimento… Por isso, a percepção tem sido discutida, desde a antiguidade… — com inúmeros problemas filosóficos girando em torno dela.

Podemos entendê-la como uma relação entre aquele que percebe… e o que é percebido, isto é, entre um organismo com capacidades sensoriais, como o humano, e os objetos e eventos do mundo… Na percepção, a pessoa informa-se sobre esses objetos ou eventos, essa informação porém, deve ser percebida pela pessoa para que se possa dizer que ela   teve uma experiência.

Desse modo, a fenomenologia envolve uma percepção das ‘qualidades sensíveis’ das experiências que surgem à consciência do sujeito… e que, em ‘Filosofia da Mente‘, denominamos caráter fenomênico. Em outras palavras, o que é experienciado pelo indivíduo quando vê, ouve, etc. – Tomemos um exemplo: ao ver um tomate maduro…         a cor vermelha aparece à minha consciência de determinada forma…ou seja, com uma característica qualitativa por mim apreendida subjetivamente. – Assim, quando tenho         a experiência visual do tomate maduro, meu estado mental tem um caráter qualitativo     que aparece de certo modo à minha consciência. Essa é a ‘consciência fenomênica‘.

Já determinado o escopo da “Fenomenologia” … surge a questão sobre o ‘caráter fenomênicodas percepções… – Na concepção ordinária, que se refere à nossa visão comum de mundo – é a ‘característica’ de um objeto, considerando que o ‘emergente’ à consciência diz respeito ao objeto externo.

reflexão Contudo, existem ‘argumentos filosóficos’ que defendem que as qualidades sensíveis comumente atribuídas aos ‘objetos’ – não são suas propriedades, mas propriedades intrínsecas das ‘percepções’… – existindo somente no sujeito…                                         Nesse sentido…a cor vermelha do tomate não está nele, o que implica que o tomate não é realmente ‘vermelho’…  –  uma vez que sua cor está na ‘mente’ de quem o vê.

Em contrapartida, outros pensadores defendem qualidades sensíveis como propriedades dos ‘objetos externos‘… se aproximando assim, da concepção comum de “percepção“.

Portanto, de um lado estão aqueles para os quais o caráter fenomênico das experiências perceptivas é explicado por propriedades subjetivas. – De outro…aqueles que procuram explicá-lo por referência a propriedades objetivas. E, em consequência, não se tem uma explicação consensual e satisfatória sobre o que é esse caráter fenomênico, e assim, não sabemos … com total certeza, qual a verdadeira natureza das “experiências perceptivas”.

O objetivo deste artigo é apresentar o debate travado dentro, da Fenomenologia, entre subjetivistas e intencionalistas por meio das 2 teorias filosóficas que representam estas concepções perceptivas, e mostrar como o que é evidente ao senso comum… — pode ser posto em xeque… Ao longo do texto, veremos como elas convergem e divergem entre si,   e da concepção ordinária de percepção.

a) Subjetivismo

A concepção subjetivista tem predominado na Filosofia desde o século XVII e, de forma geral, defende que a percepção sensível envolve algo mental e privado, isto é… acessível somente por quem tem a experiência. Segundo Hilary Putnam, desde então, esse “algo”     foi concebido de diferentes modos, com denominações tais como ideias, impressões, sensum, etc. – Nesta concepção de percepção, as qualidades sensíveis dos objetos não seriam propriedades objetivas do mundo, mas subjetivas, e intrínsecas às experiências.

Um dos principais expoentes desta teoria foi Bertrand Russell (1872-1970). Russell fazia parte do grupo de filósofos que batizou de “dados dos sentidos”… – àquilo que aparece à consciência de uma pessoa numa ‘percepção sensível‘…De forma geral, esses teóricos     os consideram objetos mentais… não físicos – que dariam à experiência perceptiva a sua qualidade aparente…Sendo, portanto… isso o que explicaria a fenomenologia das nossas percepções. Em defesa dessa teoria é comum utilizar- se o argumento da alucinação:

arvoreJoão está tendo uma experiência visual de uma árvore – com caule marrom, e folhas verdes, porém … nada assim existe diante dele. Conclui-se então…que ele está tendo uma alucinação… – de uma árvore … com certas características.

Ora, se não existe nenhum objeto diante de João… – assim como aquele, que aparece à sua ‘consciência‘, os objetos de sua visual experiência não lhe são externos…portanto, deve existir algo interno mental que explica os objetos e propriedades…que ele imagina.

No 2º passo desse argumento, devemos observar que percepções inverídicas podem ser qualitativamente indistinguíveis das verídicas, e que o caso de João é um desses. Por isso, quando João imagina a árvore — ele não consegue discriminá-la de uma visão real.

Se a alucinação de João é introspectivamente indiscriminável de uma percepção genuína, deve existir algo que essas experiências perceptivas têm em comum… – Dessa maneira, o “subjetivista” defende que essas experiências têm a mesma fenomenologia… quer dizer… compartilham do mesmo caráter fenomênico… – E então… – os dados dos sentidos…que caracterizam o que aparece à consciência de um sujeito nos casos perceptivos verídicos e inverídicos, são objetos mentais, individuais.

Isso implica que a Fenomenologia envolvida na percepção de                   João seria diferente… se os dados dos sentidos fossem outros.

Se em toda experiência perceptiva existem dados dos sentidos do qual João é consciente e nem sempre os objetos externos estão presentes – tal como acontece na alucinação, diz-se que João é diretamente consciente de objetos mentais…Logo, na percepção genuína, ele é ‘indiretamente‘ consciente dos objetos externos que vê – pois existem dados dos sentidos mediando a relação perceptiva de João com o mundo exterior. Assim, é como se existisse uma tela interior na qual os objetos que vemos…são sempre objetos projetados nesta tela.

Uma vez que, percepções inverídicas indiscerníveis das verídicas               são caracterizadas pelos mesmos dados dos sentidos…conclui-se                   que a natureza dessas experiências é a mesma.

Por meio do argumento da ‘alucinação’… a teoria coloca em xeque a concepção ordinária de percepção em dois sentidos: 1) Enquanto o senso comum atribui a objetos externos as qualidades sensíveis das nossas experiências…a ‘teoria filosófica subjetiva’ as explica por meio de dados dos sentidos, propriedades intrínsecas da experiência, cujas existências e naturezas dependem da consciência de quem tem uma percepção sensível… e; 2) Contra   o que é usual pensar-se, existiria uma espécie de interface entre nós e o mundo exterior.

fenomenologia-husserl-fraseb) Intencionalismo

Muitos filósofos a afirmam que as teorias perceptivas … que se baseiam em objetos mentais – tais como ‘dados dos sentidos’, não logram explicar a Fenomenologia da Percepção satisfatoriamente. Neste grupo estão os ‘intencionalistas’…que entendem as ‘experiências perceptivas’ … através de um conteúdo intencional…representando de certo modo objetos/eventos do mundo.

Para Gilbert Harman, um dos representantes da teoria – esse ‘conteúdo intencional’ seria suficiente para explicar o caráter fenomênico das percepções. Em seu entender, dizer que nossa experiência visual possui conteúdo é afirmar que ela representa as coisas de certo modo. E, sendo assim, o conteúdo representacional de uma experiência fica definido por referência aos objetos percebidos. Desse modo, ser representacional é ser intencional, pois a experiência é sempre acerca de algo. – E, como a experiência perceptiva requer um conteúdo intencional… – o que é percebido é tratado como um “objeto intencional“.

Harman visa mostrar a inadequação da teoria subjetivista à Fenomenologia da Percepção, revisitando o argumento da alucinação…e o confrontando com a tese da transparência da experiência, pela qual… — na ‘experiência perceptiva’ não nos tornamos conscientes de nada além do que nossos estados mentais representam. Nessa tese – ele defende que o subjetivismo se equivoca ao tomar as ‘propriedades‘ representadas como “intrínsecas” da experiência.

No exemplo anterior, segundo Harman…João está vendo uma árvore, então, o conteúdo da sua experiência visual é a árvore, que é representada de certa maneira para João, por exemplo, contendo caule marrom e folhas verdes. Seja nas percepções verídicas, ilusões      ou alucinações, a árvore que João percebe apresenta-se para ele estando no mundo. Ou seja, quando João tem sua experiência visual, está consciente de uma árvore com certas características, e que está a certa distância dela…Desse modo, o conteúdo representado,    é uma árvore, suas propriedades e seu entorno.

“Assim, a representação mental de uma experiência                                          representa algo no mundo … — não algo na mente”.

representação mentalHarman defende que nada na experiência visual de João…lhe revela as propriedades intrínsecas da experiência, em virtude das quais possui o conteúdo que possui… – Se somente propriedades representadas nos vêm à percepção… nenhum objeto mental  individual… – que daria à experiência sua qualidade sensível… – nos será revelado…

Se o que nos é revelado for apenas o ‘conteúdo representacional‘… – é esse conteúdo que determina o caráter fenomênico envolvido na percepção, seja ela verídica ou não… Nesse sentido, não são requeridos objetos externos para a determinação da Fenomenologia. Se    a percepção individual for verdadeira, seu conteúdo também é verdadeiro … e, tendo em vista que os objetos da experiência são ‘objetos no mundo’, com suas propriedades… seu próprio “caráter fenomênico” é dado por referência a propriedades de “objetos externos”.

Desse modo, contrariamente ao subjetivismo, os objetos da experiência nos casos verídicos não são objetos mentais… – Se a pessoa estiver alucinando…o conteúdo representado em sua experiência perceptiva é falso, muito embora possa parecer-            lhe o contrário. Uma vez que ter experiência requer conteúdo representado, e não existência de objetos externos…explica-se assim também — a ‘fenomenologia das alucinações indiscrimináveis‘.

O intencionalismo de Harman se aproxima então da concepção ordinária perceptiva,      na medida em que as qualidades sensíveis envolvidas nos casos verídicos se explicam    com base em propriedades objetivas. – A diferença… no entanto… é que, nesta teoria,      o que determina o caráter do fenômeno perceptivo… é seu conteúdo representacional,        e não os próprios instrumentos da percepção… – tratados como ‘objetos intencionais’.

imagem 3DContraponto a Harman

Vimos… como a “tese da transparência” utilizada por Harman contra o “argumento da alucinação” objeta a existência de dados dos sentidos em nossas percepções. Porém, o filósofo Christopher Peacocke…questiona a transparência dessas experiências visuais, ao nos apresentarem apenas “propriedades representacionais”… Peacocke entende que o conteúdo representado nas experiências, não apreende as qualidades sensíveis – logo… não explicaria seu caráter fenomênico. – Assim… além de representarem as propriedades dos objetos, as experiências perceptivas apresentam também suas aparências, e portanto, devem existir propriedades não representacionais.

Isso contrapõe a tese de que o conteúdo representacional seria suficiente para explicar o…”caráter fenomênico”… – subentendido nas ‘percepções’.

Retrospecto inconclusivo

Nessa perspectiva, assim como objeções pesam contra a teoria dos dados dos sentidos, a teoria de Harman não explica a fenomenologia satisfatoriamente…As nossas percepções parecem nos colocar em contato direto e imediato com o mundo, ao nosso redor, porém, um dos motivos para desconfiarmos delas… – é que podemos tomar um caso perceptivo inverídico por uma percepção genuína, e nos enganarmos a respeito do que percebemos.

O que a nossa experiência perceptiva nos mostra pode não existir no mundo…tal como acontece nos casos alucinatórios…Isso dá margem à ‘teoria subjetivista’, que defende a existência de objetos mentais, privados e não físicos em todas as percepções … e assim, apreenderíamos o mundo de forma indireta, uma vez que existiria uma interface entre quem percebe e o que é percebido. Entretanto, por meio da ‘tese da transparência’…os intencionalistas argumentam que as experiências nos mostram somente seu conteúdo representacional, e assim o subjetivista se equivoca – posto que, nas percepções… não estaríamos conscientes de “objetos mentais”.

Além dessa objeção, o ‘subjetivismo’ traz consigo o problema de justificar nossas crenças do mundo a partir de objetos teóricos mentais específicos. 

Mas eliminar objetos mentais da Fenomenologia da Percepção não é tarefa fácil. Isso foi mostrado por Peacocke ao argumentar que o conteúdo intencional não é suficiente para explicar o que aparece à consciência individual… – Desse modo, mediante os problemas levantados contra suas próprias teorias filosóficas… ainda não há explicação satisfatória para o que seja o ‘caráter fenomênico‘ das percepções… e, por conseguinte, sobre qual a natureza das experiências perceptivas.

Serão estas constituídas por aspectos da realidade exterior… – apreendidos por nossos sentidos, como quer a concepção ordinária?…Serão as qualidades sensíveis explicáveis por objetos não físicos ou por referência a propriedades objetivas?…Responder a essas questões é fundamental para uma ‘teoria da percepção’ que se pretenda filosófica, pois esta não pode prescindir do que é vivenciado pelo sujeito, com consciência fenomênica.

Uma 3ª via

Embora subjetivistas e intencionalistas discordem sobre o ‘caráter fenomênico’ das experiências … eles concordam que as ‘alucinações de percepções verídicas’ compartilham a mesma fenomenologia.

Esses filósofos – portanto, consideram que o ‘experienciado’ pelo sujeito… – é suficiente para que se atribua…mesmo caráter fenomênico à elas…Contra isso, surgiu a corrente filosófica ateísta do… “disjuntivismo fenomênico“, tendo Michael Martin como seu principal representante.

No entender de Martin…a experiência de alguém não o autoriza a afirmar que o caráter fenomênico é o mesmo nos casos alucinatórios indiscerníveis dos verídicos. Assim, não decorre que – de experiências parecerem iguais à pessoa…que tenham algo em comum.    O que abre espaço teórico ao argumento de que estas situações sejam…’absolutamente’ distintas, ainda que pareçam fenomenicamente indiscrimináveis…Daí a denominarem uma disjunção…ou a pessoa viu algo, de fato…ou pareceu-lhe ver esse algo… Ou seja, alucinações indiscrimináveis de percepções verídicas serem ‘experiências perceptivas‘,      de naturezas diversas. Essa forma permite a Martin defender que, nos casos verídicos:

“os objetos são constituintes da experiência, ou que suas reais                          naturezas determinam o caráter fenomênico da experiência”.

Por conseguinte… retorna-se à concepção comum de “percepção”, ao tratar os objetos da experiência perceptiva nos casos verídicos como objetos no mundo… e não como objetos mentais, ou intencionais. Mas o que dizer do que aparece à consciência de quem alucina?

Para Martin… a única caracterização à experiência                          alucinatória… é o seu caráter de ‘indiscernibilidade’.

Não existiriam dados dos sentidos, conteúdos intencionais falsos, ou outra coisa que a caracterizasse ‘fenomenicamente’, isto é, o que se pode falar sobre a fenomenologia da alucinação é a propriedade de ser “indistinguível” das percepções genuínas… Contudo,      o principal problema enfrentado por Martin é negar que alucinações indiscerníveis ao sujeito, compartilhem do mesmo caráter fenomênico das ‘percepções verídicas’…pois:

“o que mais pode existir para o caráter dos estados conscientes da mente, que a pessoa, por si mesma, possa discernir quando reflete sobre eles?”…

Assim… essa teoria é desafiada a demonstrar que em percepções verídicas existe uma diferença experiencial em relação às alucinações — mesmo que esta seja subjetivamente ‘indiscriminável’ de um caso verídico. (texto base) **********************(texto complementar)****************************

                             A fenomenologia ‘positivista’ de Husserl                                                “Perdemos o mundo, para o ganhar de um modo mais puro… retendo o seu sentido. A fenomenologia põe fora de circuito a realidade da natureza… – do céu e da terra…dos homens e animais, do próprio eu…e do eu alheio, mas retém…por assim dizer, a alma,      o sentido de tudo com o qual estou imediatamente em contato, de modo que os objetos assim considerados não só estão presentes, mas brotam de mim mesmo”. (J. Fragata)

Do ponto de vista metodológico, a  fenomenologia de Husserl adota uma… ‘suspensão de juízo‘… em relação à existência do mundo… para recuperá-lo na ‘consciência plena’ da expressão do fenômeno. Segundo Husserl… é um método especificamente filosófico – cuja estratégia consiste no alcance de um grau máximo de ‘evidência’… — durante uma ‘suspensão de juízo’ sobre a existência das coisas. Tal exercício permite a ‘redução fenomenológica’, recuperando as coisas, em sua ‘significação pura’, como ‘objetos de pensamento’… pela consciência.

Enquanto o programa positivista para o estudo humano, do ponto de vista metodológico, deixa-nos confinados a uma ‘lógica indutiva‘… – segundo a qual conhecer consiste em descrever, segundo uma observação positiva dos fatos – sua ‘regularidade’, a abordagem fenomenológica nas ciências humanas convida-nos a um ‘esclarecimento’ sobre o que há de mais fundamental em um objeto de pesquisa… — deslocando-nos a atenção, dos fatos contingentes… para o seu sentido originário – indissociável de uma vivência intencional.

Tal abordagem consolida uma espécie de ‘conversão filosófica’, que nos faz passar de uma visão ingênua do mundo — para um modo de consideração das coisas no qual o mundo se revela, em sua totalidade, como “fenômeno”.

O ‘ideal husserliano’ exprime-se pela determinação em dar uma fundamentação rigorosa à filosofia…e assim, a todas as demais ciências…Tomado por sua ânsia de rigor absoluto, em  um ímpeto próprio de sua formação matemática… no início do século XX… Husserl estava convencido de que a fundamentação da filosofia deveria implicar necessariamente…numa plena racionalidade da mesma — através de uma clarificação do sentido íntimo das coisas, por meio de uma reflexividade radical, que daria consistência inclusive, à própria filosofia.

A partir daí…Husserl não se contentaria com algo que não se revelasse,      em seu sentido próprio à consciência… – como um dado absolutamente evidente. — À fenomenologia caberia pois, promover uma investigação rigorosa…do incomensurável campo da “subjetividade transcendental“.

A atitude fenomenológica consiste numa atitude reflexiva e analítica… a partir da qual se busca fundamentalmente elucidar, determinar e distinguir o sentido íntimo das coisas, a coisa enquanto objeto de pensamento – tal como se mostra à consciência. Analisar o seu sentido atualizado no ato de pensar…explicitando intuitivamente as significações que se encontram ali virtualmente implicadas em cogitos…bem como seus diferentes modos de aparecimento na consciência intencional.

Explorar a riqueza deste universo de significações que a coisa (cogitatum) nos revela no ato intencional, é o que é próprio da atitude fenomenológica.

Para Husserl, tanto a consciência do senso comum quanto a consciência das ciências ditas “positivas”…encontram-se, ainda que de modos distintos, mergulhadas na atitude natural, expressa na relação entre uma “consciência espontânea (empírica ou psicológica) e o ‘mundo natural’, revelado empiricamente à consciência, em suas “circunstâncias factuais”.

Fiel ao seu projeto filosófico de constituição da filosofia como uma… ‘Ciência de Rigor’, Husserl sabe que as tais ‘evidências incontestáveis’…necessárias para a fundamentação      da própria filosofia – não poderiam ser extraídas do ‘plano empírico-natural’…pois por mais perfeita que seja uma percepção empírica, será sempre a percepção de um “ponto    de vista”, e enquanto tal, somente poderá revelar “aspectos” ou “perspectivas” da coisa percebida. – Com efeito, a crença acerca do que percebemos empiricamente, vai muito além daquilo que a percepção empírica efetivamente nos revela. Desse modo, pode-se dizer que empiricamente observar um objeto será sempre um misto de visto/não visto.    E, toda evidência extraída do ‘plano empírico-natural’, onde a consciência se relaciona com o mundo, será sempre uma ‘evidência perspectivista’ (existencial)…isto é, parcial.

Como nos diz Husserl…“dos fatos…não podemos extrair evidências absolutas” (as coisas do mundo não são inquestionáveis… pois não          excluem a possibilidade delas duvidarmos, ou de sua inexistência).

Eis um 2º motivo para não podermos, na visão de Husserl…extrair evidências plenas de nossa percepção empírica do mundo – pois…a julgar pelo que a…”experiência sensível” nos revela… jamais poderíamos eliminar, por completo – a possibilidade de dúvida, sobre a existência das coisas que se nos apresentam…e neste sentido, estaríamos sempre prestes a corrigir as nossas percepções… — do que havia sido estabelecido com base na experiência sensível. Assim, para Husserl…seria impossível traçar uma filosofia, que pudesse se apresentar como uma “ciência rigorosa”, baseada apenas no ‘ente mundano’.

Como estratégia metodológica para o alcance de ‘evidências incontestáveis’…condição para    a fundamentação da filosofia como…”ciência rigorosa”, Husserl optou pelo exercício de uma ‘suspensão de juízo’ (epoché) em relação    à questão da primordial da ‘existência das coisas no mundo’. E assim, por consequência:

a fenomenologia prescindirá de tecer considerações acerca desta questão, para então, direcionar sua atenção aos ‘fenômenos’, tais como se revelam, na pureza irrefutável da auto-reflexão de sua consciência transcendental.

De um lado, deparamo-nos com um modo de consideração das coisas… a partir do qual o mundo se revela para a nossa ‘consciência espontânea’ como o domínio empírico-natural dos fatos…do que se encontra submetido a uma dimensão espaço-temporal… Trata-se do modo de consideração do mundo próprio das ciências positivas em geral…Paralelamente, como um recurso metodológico ao alcance das evidências irrefutáveis, o exercício epoché de redução promoverá o salto ao modo “transcendental fenomenológico“, fazendo agora com que o mundo se revele em ‘consciência pura como um ‘horizonte de sentidos‘.

Se esta consciência pura não pode ser tomada em termos de dados empíricos…cabe-nos apenas concebê-la a partir de sua relação intencional com seu objeto, que em sua versão reduzida (enquanto ‘objeto de pensamento’) nada mais é do que “conteúdo intencional”  da consciência.  – Trata-se com tal redução de fazer o mundo reaparecer na consciência como um horizonte de idealidades meramente significativas – que se revelam como um dado absoluto e imediato à consciência pura, que o apreende e constitui intuitivamente.

consciência críticaA mesma consciência que intuitivamente apreende o objeto em sua versão reduzida…como “fenômeno puro”… – é também ‘responsável’ pela constituição desse mesmo objeto … — agora — no pensamento, sendo atualizado como uma… ‘unidade de sentido‘.

O objeto…sem ser pensado – precisamente porque inconcebível… (enquanto umcogitatum“)… exige uma doação de sentido que só pode vir através dos atos intencionais da consciência … subentendendo portanto, que as “unidades sensíveis” pressupõem uma “consciência doadora” (…”de sentidos”…).

Como consequência, deparamo-nos com 2 atitudes – a “natural” e a “fenomenológica”, das quais decorrem 2 modos distintos de abordagem. Se no 1º modo de consideração o mundo nos é revelado na lógica e certeza de sua ‘facticidade’; no 2º… – o mundo se revela no puro significado de uma consciência transcendental, isto é, em sua totalidade como ‘fenômeno‘.

Pode-se então dizer…que no exercício da ‘epoché (uma técnica de eliminação da dúvida inerente a toda posição do contingente, concebido como um recurso metodológico para o alcance de um grau máximo de evidenciação) somos colocados frente a frente, com o que Husserl considerou a mais radical de todas as ‘diferenciações ontológicas‘. – De um lado,  o “ser transcendente” (‘mundo exterior’ que transcende a consciência… – para o qual nos encontramos naturalmente orientados, e sobre o qual a epoché será exercida) e, de outro, o ser como um “dado imanente, presença absoluta, in-existindo sob o modo de “coisa pensada”…apreendida e constituída intuitivamente na “consciência transcendental“.

A fenomenologia transcendental será então…uma fenomenologia da consciência constituinte (pode-se dizer que em Husserl…”ser evidente é ser constituído”). Exercer a epoché é reduzir o objeto à consciência transcendental… Tal redução, na medida em    que não desfaz a relação ‘sujeito/objeto’…põe em evidência uma nova dimensão dessa correspondência… – impedindo que a verdadeira e autêntica objetividade desapareça.

Segundo Husserl  — toda ciência pressupõe um quadro de essências. Todavia, ao tomar um fato como o ‘objeto’ de uma observação sistematizada…procurando descrever a sua regularidade…o cientista positivista ignora o quadro de essências que sua investigação pressupõe, almejando… com o exercício da indução inferir uma lei geral. Para Husserl, tal lei, nada mais é que uma generalização, com validade empírica… ou circunstancial.  “Essência” segundo ele deve ser entendida, não como uma “forma pura”…que subsiste por si mesma – à revelia do modo como se mostra à…”consciência intencional”… mas sim…o que permanece do pensamento em uma ‘redução fenomenológica’… – como o ‘núcleo invariante’ da coisa pensada… – mesmo à vista das variações arbitrárias, às quais submeto minha imaginação…

O caráter ‘necessário’ do objeto idealmente considerado define a ‘essência’ daquilo que se mostra na… e para a consciência intencional, revelando-se em sua dimensão originária na intuição vivida, onde dela se experimenta.

A “atitude fenomenológica” concentra-se em um processo inverso daquele adotado pelas ciências positivas, na descrição (ou análise) de essências. Nos termos de Husserl, trata-se de um ‘processo dinâmico‘…uma atitude reflexiva e analítica, cujo intuito central passa a ser o de promover a elucidação do sentido originário que a coisa expressa, em sua versão reduzida, independentemente da sua posição de existência… Engana-se quem pensa que, com a “estratégia metodológica” adotada pela fenomenologia, Husserl estaria negando a existência do mundo. Antes estaria renunciando a um modo ingênuo de consideração do mesmo, para viabilizar com o exercício da redução fenomenológica, o acesso a um modo ‘transcendental‘ de consideração do mundo.

Em sua versão reduzida, o mundo se abriria então, enquanto campo fenomenal, na/para uma ‘consciência intencional’ como um “horizonte de sentidos”… Sem negar a existência do mundo factual, renunciamos pela epoché à ingenuidade da atitude natural, para reter    a “alma do mundo” em sua pura significação… A redução fenomenológica faz reaparecer, na própria camada intencional do vivido, a verdadeira objetividade… pela qual o objeto, enquanto conteúdo intencional do pensamento é constituído/apreendido intuitivamente. Daí o próprio Husserl dizer que…

“Se por ‘positivismo’ entendemos o esforço de fundar as ciências sobre o que é suscetível de ser conhecido de modo originário…nós é quem somos os verdadeiros positivistas!…”

Se as ciências positivas não deixam de considerar a relação entre subjetivo e objetivo… – em termos da dicotomia interioridade/exterioridade, concebendo o objetivo como algo que nos remete sempre a uma realidade ‘exterior e independente‘… — para a qual transcende mesmo a vivência do mundo, a redução fenomenológica permite-nos…ao nos lançar para o “modo transcendental” de consideração do mundo, recuperar sua autêntica ‘objetividade’ – na própria subjetividade transcendental… – domínio último e definitivo, sobre o qual deve ser…segundo Husserl, fundada toda e qualquer filosofia radical – unindo, dessa maneira… – o “objetivo”… com o “subjetivo”.

Nos termos de Husserl… (Paris/1929)…trata-se de uma exterioridade objetiva na pura interioridade, unindo com isso objetivo e subjetivo“.

A adoção do ‘programa positivista‘ nas ciências humanas dá à consciência a atitude natural de um ‘realismo ingênuo’ ao aceitar o mundo como uma realidade dos fatos, acerca da qual o ‘saber‘ se torna uma possibilidade inquestionável. Utilizando generalizações empíricas – a partir da sistematização do comportamento humano, em relação ao meio no qual este se insere, o programa confunde ‘leis do pensamento’ com leis causais da natureza… e assim… ‘sujeito do conhecimento’ com ‘sujeito psicológico’. – Do ponto de vista metodológico, nos confina à ‘lógica indutiva’…segundo a qual, conhecer consiste em descrever a regularidade dos fatos, buscando a partir de casos particulares inferir leis gerais, que por não passarem de ‘generalizações empíricas’, mantêm seu caráter circunstancial, casual…e probabilístico. Tais generalizações não são leis no sentido exato…já que não possuem um valor apodítico.

Já a abordagem fenomenológica nas ciências humanas convida-nos a uma reflexão acerca do “quadro de essências” dos fatos que investiga (estabelecido por variações imaginárias), ao recuperar a intuição daquilo que se toma como objeto de investigação… – Convida-nos assim, a uma atitude reflexiva e analítica sobre o ‘sentido íntimo‘ daquilo que se investiga, tanto o que se atualiza no pensamento, quanto as significações ali virtualmente presentes – bem como seus diferentes modos de “revelação”… – na camada intencional do “vivido”.

Tal abordagem fenomenológica convida-nos enfim, para uma ‘iluminação’ sobre o que há de mais fundamental no mundo que estamos e vivemos – deslocando-nos a atenção dos fatos contingentes para o seu sentido originário, indissociável da intencionalidade, consolidando com isso uma espécie de ‘conversão filosófica’ que nos faz passar de uma visão ingênua do mundo…ao “puro ver das coisas”…no qual o mundo se revela em sua totalidade como fenômeno. Um convite da fenomenologia à todas ciências. (texto base)

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“Licença poética”

Longe da técnica e das complicações formais da arte poética… Cesar Pinheiro faz poesia, com a naturalidade de quem respira… Qualquer preocupação teórica seria uma forma de corrupção em seu trabalho.           Em alguns pontos altos a pureza é arrebatadora … fazendo a poesia simplesmente existir… em seu próprio “estado natural”  (L.C.Lisboa)

1º ato1º ATO

Mergulha a pedra para o fundo d’água e de uma nuvem opaca desabam mágoas servis… Visto o meu terno de giz, manchado de batom…assim como um aprendiz, a descobrir qual é o tom. Sonho um sonho solitário…(editado à luz neón)…Até tropeçar no cenário…e investir meu salário, em um rolo de fita crepom.

arte do temperoA ARTE DO TEMPERO

Recolha o tempo perdido em potes de cristal                                    Recite um improviso para o vento no quintal                                         Aqueça a mexa a rotina nas brasas de uma paixão,                          Temperando a dor repentina num agridoce molho                            de emoção…Despeje na panela, uma janela aberta                          pro céu… Misture os sonhos na realidade…E (des)                      cubra a saudade, com gotas de mel.

quinta-dimensãoAO TEMPO DAS COISAS

No fundo da noite estrelada…
Nada e tudo se misturam em coágulos, Tentáculos de mundos a se emaranhar

Jogos de vida & espaço…Corpos, Brinquedos… sonetos, e abraços                      Girando ao compasso da sorte e azar                                                                                          Caminhos…vindo por todos os lados…                                                                                       Soma infinita de laços…a se entrelaçar

Começo de eras… pretextos, arpejos, quimeras…                                                                        Em segredos no ar, aguardam o momento exato,                                                                              O Instante do fato de seu mais pronto despertar.

florAPENAS UM GESTO          

E seria preciso apenas, um olhar sem                                  pudor…  –  Uma brisa que passasse…                                    Trazendo consigo um perfume de flor              

Apenas um gesto… – por certo seria                                        Um atalho para meus pés descalços    

Um resto de festa, em uma fresta de                                    sorriso… – Chegaria como um aviso, de que a brincadeira começou…     

E eu me entregaria com prazer para me perder no jogo,                                                                E eu seria fogo… – Mágico louco … – do circo de lona…     

 E você seria a dona do meu coração.

armadilhaARMADILHA 

Pensamento,                                                              Consciência…                                                              Moral   

Discernindo entre o Bem e o Mal

O Homem, esse ser racional                                Torna-se um pobre, cego… Indefeso animal            Preso na falsa realidade … das Luzes da sua cidade… de consumo.

ARTÉRIA ESTELAR                                                 

Arte, matéria… Artéria estelar… Do ar que respiro… Ao lento pulsar… artéria estelarNave navega…      Em seu próprio mar…O mundo sedento… Ao seu tempo e lugar

A parte que é minha…caminha pra ser… Uma parte que sua… Como a lua e o vento, no meu pensamento    Não há que se ater…

O Todo é tudo… e em tudo se faz…  Muito embora, à sombra das horas    A minha verdade escorra pra trás…

Já o Todo que é Nada… – nada de mal me traz…                                                                              A não ser, uma infinita saudade, por tudo aquilo                                                                        Que hoje… – Já não existe mais…

b.atômicaATMOSFERA SOLAR

Atmosfera solar                                        Da tarde sem dono                                    Ardendo seu sono                                    Seu sonho impossível,                              A guerra…a terra…o míssil                      A fome serena, terrena, terrível            A lua minguante,                                   

Ventos cortantes                                        De algum precipício. 

à portaBATENDO À PORTA 

A porta acorda de um sono tardio,                  No trono vazio, manchado do riso                Que não se escondeu                                        A porta se abre em pétala e espinhos            E procura caminhos que não sabe se            viveu…                                                                  A porta se fecha…por brechas e ruídos        De mundos e abismos … que o destino esqueceu;                                                            E, em sonhos mal-dormidos…se entorpece de sentidos, por tudo aquilo que se perdeu.   

cenário barrocoCENÁRIO BARROCO   

Peixes no aquário                                            Repousam tranquilos                                      Por entre abismos                                            De um cenário barroco

Mar morto                                                        De um porto sombrio                                      Revive seus gritos                                            Entre grutas e penhascos

A praia dos sonhos                                          Esconde tesouros                                            Em submersas escunas,                                  Sob brumas e espadas          

O ouro e a prata                                              Das grandes conquistas,                                Das lutas vividas                                              Em naves piratas.  

CÉU & INFERNO

sol

Quero pensar… – pois pensar me faz sentir que não sou eterno  E assim… — poder sonhar um sonho… — que me prenda nos… subterrâneos de seu mundo interno….Pois, depois de pensar…    e sonhar…tantos mistérios… — quem não irá… — para sempre queimar dentro das… “profundezas“… de seu próprio inferno?

CHORO UM CHORINHO 

Choro um chorinho… um choro pequenino                                                                            chorinhoMolhando pandeiro e tamborim… – Choro              um chorinho de saudades sem fim…
                                                                                          Pelos tempos de outrora,                                            Pelas luzes da aurora…                                                Em serestas de verão 

Choro um chorinho … de flauta e clarineta,            Cavaquinho e violão … que vai como quem            Não quer nada, se insinuando pela calçada  Driblando as dores do meu coração.

                                                                                    COISA & TAL

playa-del-sol-jessilyn-parkOlhos pairam, pensamentos voam…          Aves sobrevoam seus ninhos…                  Caminhos se bifurcam num até breve

Uma onda leve… – desaba no porto…        Uma longa saudade habita meu corpo

Um resto de sol nas nuvens ao vento,      No mar… na cidade… – E nas loucas verdades do meu pensamento.  

COQUETEL DE EMOÇÕES 

coquetelFelicidade, palavra translúcida,                                            Coquetel de emoções…                                                             Reabro porções … de “espectros de vida”                            Deixando surgir mentiras da existência…     

A essência precisa da forma… — Mas,                                    E se a forma for austera ou submissa?

É quando lemas e brasões voam pelo quarto                      Me envolvendo em seus múltiplos sentidos…                       

Busco o sentimento de um ‘grito no ar’ ao resgatar sonhos perdidos                                         Me sincronizo com estrelas cadentes…por entre camadas de ozônio                 

Abro as portas do telhado…E, me julgo um SUPER-HOMEM!                                                     Procuro no dicionário a forma correta para “EXPECTATIVA”

Aí está o xis do problema!…

fundo do baúDO FUNDO DO BAÚ

Quero calar minha voz para que em silêncio                                    Ela penetre na… tênue atmosfera… dos dias                                          Em que não nos sentimos sós…

Pois talvez das alturas dessas noites escuras,                                  Salpicadas de estrelas… – pontilha de sóis…                                         Enfim, percebamos…  –  nossa solidão atroz.

EFERVESCÊNCIAS

efervescênciasFervilham sons e ideias… Quimeras e ilusões
Visões apaixonadas… – paixões de toda sorte
Mais forte, fecunda…

Cometas brilhando sua luz vagabunda 

Jogos de carta… mapas… magia
Orgia de astros e estrelas vadias

Espaços abertos… Em multi-sinfonias                    Revistas da moda…Cantigas da roda…                  Que gira … na mais perfeita harmonia.

elegiaELEGIA (à Ribeiro Couto)

À noite, no refúgio em que me faço… num véu de nuvens…me descubro, me disfarço 

Lanço palavras…  –  tontas pelo espaço…  Tantas… – que delas – logo me desfaço…    Em todo verso que converso com o acaso

E a cada momento em que atravesso o tempo… Por um lento murmúrio do mar…        Ventos profanos me envolvem de enganos…em ritos ciganos de lamentos mortais.

enigmaENIGMA

Resiste… Às vezes tão dócil… Às vezes tão fria                       Revelando à luz do dia… — Sua magia estelar

Repleta de horizontes… — Que por fim se escondem           Atrás de montes… onde a vista já não pode alcançar

Insiste, buscando caminhos que o tempo não viu… Ou não soube passar                          Procurando liberdade… – que aos nervos afronte… Nos guiando sempre                            Para mais longe… Em seu doce balançar.

À espera do alento…Momento de se revelar…Num canto…                                                      Um tanto quanto qualquer… Enquanto puder…assim ficar                                                  Imaginando um lugar. Na pele e no ar… Na carne do olhar.

exílioEXÍLIO 

Decretei morte ao sentido da perda                                        Decretei corte, ao arame da cerca…                                         Gritei forte… Descartei sorte e azar

Decretei livre pensar!                               

Esperei minha hora, me apagando da memória,                      Vendo a chuva passar…E já quase indo embora  

Me enredei nas teias da história… E abracei minha glória… com emoção                          Banindo os meus sonhos mortos…pros caminhos tortos do meu coração.

sobrados_noite

FANTASMA CLANDESTINO

Luzes de um sobrado na noite fria… – Inspiram elegias que minh’alma padece, quando o tempo esmaece… E a alegria permanece… 

‘Presa por um fio’ 

Torpor de uma aurora… – que de tão distante…  Vagueio errante … por seus inúmeros cômodos,                                                                      Entre assombros… – biombos… – e escombros do destino,                                                          Como o sonho inquietante… de um ‘fantasma clandestino’.

féFÉ PROFUNDA 

Indo, nesta vasta vida boa                                                                  Sem nada… – ou ninguém                                                                    Que talvez me faça um bem,                                                                Ou também me beije a boca                              

Mesmo quando a vida…                                                                      Tão corrida… – tão a toa…                                                                                                                Nas esquinas com neblina,                                                                                                                  Me ultrapasse feito louca…

Num canto qualquer… – uma fé profunda,                                                                                  Vem e me barafunda… Me alivia, abençoa.             

floração

FLORAÇÃO

Nas bordas de um céu…cor de mel e algodão                De dentro da terra… – sob um sol primavera,                Numa tarde de verão. – Uma flor se abre em              

Pétalas de botão…

Que se encobrem de espinhos…                                          Que se escondem nos caminhos,                                        Que se espalham pelo chão…

FRAGMENTOS 

Eclipse SolarNa estrada que corre solta…Em                                      volta da mata…envolta na noite

De onde o vento grita, agita…açoita                                Durante a breve madrugada escura, 

Pedras da lua… Entre nuvens de estrelas refletem  Sombras vermelhas… que brilhantes escorrem do céu… Pelo anel que tu me deste… – Que era vidro,        e se quebrou.

INTERSTÍCIO

PSSAROUm velho sentado…numa cadeira de palha… Lentamente se embala de memórias e sorrisos no cair da tarde de sol… Ao som de pássaros amigos… 

Por tudo o que aconteceu de mais real relembra o preço de um ideal    E empresta um tom cordial ao tempo que lento… e até o final… – escorreu por entre seus dedos … em torno de seu umbigo.  

sertaoINVENTÁRIO                              

Por isso me invento… – com o vento levando meus passos… – para o lado contrário do espelho … Em busca de um objetivo… – “objeto ativo”… cuja imagem…se faz na ação… – No chão, paisagem deserta  –  solidão sempre alerta, em contida emoção…Quando então, a paixão proibida se sente, na disputa da serpente com a maçã… – como um mito e talismã… – pela culpa…e o perdão.

lado proibido

LADO PROIBIDO

Naturalmente… — algo urgente…
Pra me fazer lembrar — do que já                                Não se diz, nem se pode imaginar

Quando por pensamentos… – palavras e atos
Abstratos ou concretos… – O amanhã…se faz            Incerto…disperso em tantos encantos do mar

E o silêncio, solto… ecoa… um sopro que ao vento revoa…por um tempo infindo demais… Enquanto                                                                          A vida palpita espremida num beco banco de trás;

Portas de estradas, emperram… – Fogueiras derrubam milharais
Janelas opacas… – se fecham… – Em sombras … ondas e cristais.            

linha da vida

LINHA DA VIDA 

Existe um sinal… — ao final de uma estrada          Anunciando a pousada… onde minh’alma…        descansará…Para lá levarei, para esse porto distante…A única lei, que por tudo o que sei        Se tornou dominante… – E na luz cintilante        da madrugada lunar, que jamais esquecerei,        Envolto numa túnica e um turbante…Nesse      Altar deslumbrante … Desaparecerei…

farol noturnoLUSCO-FUSCO

Por trás de arranhacéus põe-se o sol,            De dentro da noite… — pisca pisca…                Luz de farol 

Enquanto na beira da praia… Castelos de areia… Sonham ao luar… – Nas dunas ao vento, o tempo se espalha…em correntes      de ar 

E assim…  —  como se para sempre…                Fosse o mundo acabar…Suave, macia          Das ondas se anuncia… A leve…breve vadia… brisa do mar.

MAIO DE 68

liberdadeLiberdade, no berço da paixão…A idade da razão, incompreensivelmente se manifesta … Liberdade, a saudade do ser…que Nada no mundo das bocas caladas                                    

Liberdade, a louca palavra… que                                        Abre grades das grandes cidades    

Liberdade… – verdade sombria – de muros e utopias,    Espaços futuros de noites vazias, num belo pôr de sol.

ventos

MEMÓRIA DOS VENTOS

De onde vens vento viageiro                                        Me envolver por inteiro…                                              Em teu perfume volátil?

Quantas terras hás cruzado,                                        Quantos mares navegado…                                          Em tua missão secular?

Diga por tua linguagem cifrada — peregrino da esperança,                                                  Onde desemboca a encruzilhada do futuro e da lembrança,                                                      Da vida e do destino… — Mas, se não puderes responder…                                                            Ou se não for eu capaz de entender teu ensino… Segue teu                                            Caminho pelo ar… — Até encontrar… um olhar de menino.

sunsetMETAMORFOSE (1979)

Quando as estrelas tímidas, forem      surgindo… – na ‘luz do crepúsculo’      Quando… — os músculos do corpo        Forem se relaxando … — um a um,        Enquanto que os pássaros livres… Seguirem cantando … sem motivo        algum…

Como se um sonho imenso abraçasse a realidade e passasse a existir… Como se a vida inteira se abrisse para tudo aquilo que se possa sentir… Como se a própria razão…escondida do mundo…perdesse o medo de viver; Como se o homem cansado de tanto sofrer pudesse afinal entender o que diz seu coração.

O JULGAMENTO   

justiçaSenhoras e senhores, aqui estamos reunidos nesta ocasião      À espera da inapelável sentença… – desta respeitosa corte,      Na mui digna presença do meritíssimo juiz…  —  Mais alta        figura que representa a justiça em nosso país… 

Levantem-se, por favor, pois o veredicto                                    Vai ser dado…  —  Incontestemente… 

A CORTE DECLARA QUE O RÉU É                                                CULPADO… DE SER INOCENTE!…

muroO MURO E O ABISMO

No azar ou na sorte da vida e da morte,                Quando em vez…  –  surge um corte…                        Que nos precipita … no escuro vazio…

De onde um muro sombrio… que limitava              O caminho…Observa abismos…Guardado            em espinhos.

O PULO DO GATO                             

O pulo do GatoRefresco a memória…nas horas em que existo,  E avisto entre sombras e conjecturas… rastros,  Pegadas… passadas e futuras  

Na estrada estreita, que a poeira atravessa        Com a pressa de um caracol (…de bobeira)     

O anzol na fruteira, e a maneira de ser o gesto  Em um ato de pura destreza…Do pulo do gato  Ao prato na mesa. Miséria, riqueza…tranquila beleza…Pros olhos do gato…em cima da mesa.

OS 7 SENTIDOS 

Da minha boca à sua, existem luas velozes,                                                                              Gritos ferozes, gemidos…Canções de ninar

esferaCanções de acordar os 7 sentidos…

Paixões secretas, janelas encobertas                  Por cortinas… sem fundo, e sem fim                    Dragões de rapina, que à toda razão                    contamina; visões de bagulhos afim;      

Que, sem maior garantia…                                    Incendeiam palavras frias,                                    Cujas larvas propicia atroz                                    regalia… nesses banquetes                                    regados a pedaços de mim.

aquárioOCEANO IMAGINÁRIO

Uma gruta se esconde do mar        E o mar bate nas pedras…que        Se desmancham em areia…

Na areia… à noite… se deitam homens sonhando com a vida,  Que, feita de dores, encobre o prazer que se espalha na terra    Quando se espelha no mar…  

O sol que alimenta a terra… é o mesmo que aquece o ar…E do horizonte de uma fria madrugada…No oceano de uma praia deserta e imaginada… agora vai DESPERTAR.

OS FRUTOSfloresta                                      

O sol na cabeça, e os sapatos                      Pela estrada de barro… onde                      Frutos maduros, caem pelo mato              Em meio a um regato tranquilo… 

O sol no regato, e os frutos caídos pelo mato… – Por um tempo esquecidos ao longo da estrada…Embrenhada na mata – onde correm esquilos… 

 O sol pelo mato…e a mata que resta, pelo fogo – comida                                                           Da floresta só…sobraram memórias – sementes de vida.

utopiaPAISAGEM DISTANTE

Sangra dos meus olhos… – em cores dissonantes…  Uma paisagem distante, onde à beira do horizonte,  Em selvagem nostalgia, sonhos se fazem realidade,  Numa perpétua calmaria… – E utopias constroem Misteriosos portais — para tornar seus problemas mais banais … navegando na rotina … do dia a dia.  

PENSAMENTOS AMBULANTES

Por entre vôos de pássaros, em rotas tortas e oblíquas                                                            Fora do compasso, assim como um laço em desalinho                                                          Cravei na terra submersa… a linha aberta do caminho 

pensamentosPor entre setas e pedras,                                                Desmarquei linhas retas                                                      E atento — sigo sozinho,                                                  Sonhando um tempo…                                                        De um próprio destino

Do que não mais sentia,                                                 Recusei seus carinhos…                                                        E engoli suas verdades, 

Guardando as sobras do dia                                                  No meu bolso de saudades.

RELÓGIO DE ESPUMAS

15 para as 4 no relógio de espuma da parede de cristal15 minutos

15 para as 4 nas teclas do piano… Onde                                    A voz do cantor se debruça apaixonada 

15 minutos para o fim da festa…                                                15 minutos é tudo o que resta para toda                                Sorte de convites, todo acerto de contas

15 minutos para a dama e o rapaz                                              15 minutos… — E nada mais…

RESTINGA restinga

Existe um céu, por detrás das ruínas, onde o véu da neblina já não pode alcançar. Céu de um azul, cor de tempo esquecido … que aquece os sentidos, e me faz recordar… De um mar na restinga, onde o vento se vinga Sem parar de soprar…suas memórias para dentro de conchas… que pronto se põem a sonhar, sonhos brotando d’água cristalina, Sonhos que batem… — nas pedras do mar.

significadoSIGNIFICADO

Vagueia no ar… — no altar das coisas sem nome,                        Um olhar inconstante de tonalidade multiforme                      Que varia conforme…  —  sua própria sutileza… 

Seus tons são “clarões”… – que incendeiam meus                      nervos…E se chego a tocá-los, nos limites da pele,                                                                      Sua presença mais leve…  —  Se traduz em desejo.

SINO DE BRONZE

Pelo trabalho do corpo na inércia do mar…se faz passar da água ao vinho…Pelos rumos da vida…retorcida ao vento… – Se surpreende o momento em que não se está mais sozinho… 

sinoMultiplicam-se os pães,                                                                        … entorna-se o vinho…                                                                   

A mesa é farta… – A palavra…                                                          Um hino… O sino… de bronze                                                            E o teto… destino… Brilhando                                                            lá fora … por detrás da aurora,                                                        Através de um longo caminho.       

SONHO SELVAGEM 

É quando as luzes se apagam… e as promessas se pagam… em beijos de despedida, que    vejo em teus olhos refletida… – minha vida passageira… – de estrangeiras realidades… 

sonhoE me atrai a vontade… de tê-la em meus braços,    Pelo espaço de um segundo, de pura eternidade 

Até que o mundo desabe por onde ninguém ainda mais sabe… – De onde ninguém… jamais voltou… 

Mergulhado em coragem, talvez então me desperte,    imerso em um vazio reconfortador… – preso de um infinito sonho selvagem… Perdido, e louco de amor.

TRAJETÓRIA 

Longe, tão longe… Correndo contra o vento… por um vago sentimento, insano e insaciável… – Morre…morre lento… – O sol magento… Celebrando mais um dia                de sua insondável passagem…

trajetória.pngMovendo sua luz… – ‘reflexo’ da paisagem,              Escorre, feito pus… – sua sombria imagem              Anunciando noites de lua…que… em carne              crua, assim também flutua, sua pálida face              de aço, d’esplendor/sobressalto. Enquanto              Lá…no mais que Alto…vazado, vazio…Caio              em soluços, por laços absurdos, dos braços macios… – Aos teus lábios frios de orvalho.

TRILHA DO BONDE         

bondinhoPor onde flutua… – na noite escura                  A lua e a rua … na minha ou na sua                  Imagem solar?

Por onde se esconde a trilha do bonde,            A fruta do conde… A curva do monte…            A linha do horizonte; na terra ou no ar?  

Por onde vagueia minha vida passageira,        Repleta de certas infindas brincadeiras…                                                                                  Vivendo à beira da paisagem do sonhar?

liberdade

UM INSTANTE, LIBERDADE

Rebusco na estante…Um instante, liberdade,                Rabisco folha em branco em brancas nuvens                de saudade… — Deixando os sonhos soltos…

Voarem pelos ares…

Aposto corrida, com a vida que me cerca…                    Qual a regra a ser cumprida, quantas ilhas,                  quantos mares?…

São os ossos do ofício… Artifícios, tempestades      Mentiras, quase verdades… — Que como vícios              Nos distraem… Por entre os 4 cantos da cidade.

VELEIRO 

veleiroVelejo um barco… – que os mares invade                                    Cortando águas tranquilas no crepúsculo                                  da tarde

Viajo com o rumo voltado para um lugar,                                    A ilha de liberdade… onde almejo chegar

Ventos sopram brisas…que inflam a vela                                  presa no mastro … E a saudade, então se                                  agita … pelas ondas dessa vida… — indo                                    em busca de seu rastro. Até que a noite chegue, e o barco assim veleje,                                    No silêncio dos astros. 

relâmpagoVESTÍGIOS

Qualquer gesto … qualquer olhar… Pra surpreender (ou imaginar) o prazer que vier de um verso qualquer… Na noite estelar…Noite a pulsar, fazendo vibrar, pelo vasto teto solar…Teias de veias carnais… Sintonizando ondas, Onde oficinas siderais, carentes de um mundo a sonhar transmitem o arrepio… de um relâmpago fugidio… Que TRANSPASSA o AR…                                                                                **************************(texto complementar)*******************************

sempreSEMPRE

Jamais se saberá com que meticuloso trabalho        Veio o ‘Todo’… – e apagou os vestígios de tudo               E quando nem mais suspiros havia, Ele surgiu            de um salto…Vendendo súbitos “espanadores”            De todas as cores. (M. Quintana)                                                                 

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