Nietzsche – A origem da ‘lógica’, e o significado do ‘conceito’

A filosofia de Nietzsche, ao invés de se encaminhar para uma grande síntese, se encaminha para a criação…e a liberdade. – A aliança com a arte é fundamental para a compreensão do “pensamento vitalista” porque com ela é possível sair da pretensão da verdadee do ser, e alcançar o triunfo da…”potência do devir” ou seja… o triunfo da “vontade de potência”.

nietzsche187aPara que o homem pudesse prosperar, ele necessitou de crenças estáveis; daí que o mundo verdadeiro não pode ser um mundo do devir … mas de identidade. A identidade é o pressuposto…que haja casos idênticos no mundo que a realidade se mantenha idêntica; é    o “pressuposto da lógica”. Logo… para que a lógica instrumentalize o pensamento humano, é necessário que aconteça essa falsificação…que, efetivamente, se simulem identidades. Nietzsche, em ‘A Gaia Ciência’, explica a origem da lógica – argumentando que deve ter havido um tempo onde homens eram dominados pelo… ilógico… – e, portanto – em que realizavam inferências — muito distintas das que hoje são feitas.

Ocorre que – nessa época… – quem não soubesse com maior frequência distinguir o ‘igual’ frente aos alimentos ou predadores – isto é…fosse demasiadamente lento ou resistente no processo de submissão do múltiplo ao umteria menor probabilidade de sobrevivência,  do que aquele outro, para quem era fácil ver igualdade em todas as coisas. Para Nietzsche:

“A tendência predominante de tratar o que é semelhante como igual – uma tendência        ilógica … pois nada é realmente igual — foi o que criou todo o fundamento da lógica”.

Do mesmo modo, foi assim que se processou a criação do conceito de substância, também indispensável à lógica – embora inexista correspondência para ele no real. De acordo com o ‘pensamento nietzschiano’ — as coisas não se comportam regularmente segundo regras; nem tampouco sob a coação de uma necessidadeFoi preciso que se fechasse os sentidos para o que de havia de mutável nas coisas…uma vez que tal ‘fluxo’ tinha menos vantagens diante da sobrevivência dos que viam tudo fixo ou estável. Daí Nietzsche dizer que: “Todo elevado grau de cautela ao inferir…toda propensão cética — já constitui um grande perigo à vida. Nenhum ser humano teria se conservado caso a tendência oposta de afirmar antes que adiar o julgamento…de errar e inventar, antes que aguardar…aceitar antes que negar, de julgar antes que ser justo  não tivesse sido cultivada…com uma força extraordinária”.

O curso do pensamento e inferências lógicas em nosso cérebro atual corresponde a um processo de luta entre impulsos, que tomados separadamentesão todos bem ilógicos.      O homem e por conseguinte a filosofia tradicional têm antipatia com a aparência, com      a mudança, com a dor, com a morte, com o corpo, com os sentidos…buscando por isso, acreditar em um conhecimento verdadeiro. Para tal, confiaram nos conceitos de modo incondicionalPara Nietzsche, o impulso ao conhecimento é algo tão forte no homem,  que, diz ele: “A afirmação de que a verdade existe, e se pode acabar com a ignorância é uma das maiores seduções que há. – O conhecimento transformou-se numa arbitrária ficção, alcançada no destaque de um elemento, com subtração de todos os demais, em preparação à sua inteligibilidade”. Descobrir e solucionar fizeram-se imprescindíveis’.

conhecimento

O significado do ‘conceito’                                  O conceito é um produto antropomórfico, e como  tal, não corresponde jamais à natureza das coisas.

De acordo com Nietzsche, o ‘conceito’ é apenas uma ‘representação’…uma sombra… – imagem ilusória própria de limitações antropomórficas;  sendo o ‘intelecto’ o mestre da dissimulação. Dessa maneira, toda definiçãoé um esquema simplificado … como diria Henri Bergson: “um simples aspecto…de uma realidade — que flui”.    

Ao operar cientificamente, acreditamos apreender uma realidade, enquanto que, de fato, estamos limitados às suas sombras e sua recomposição artificial. A ‘atividade conceitual’    é a de generalização … da formação original de conceitos, tornando comum um domínio particular. Devido à extensão que lhe atribui, o conceito é uma deformação — posto que uma propriedade representada num conceito…perde o horizonte do seu objeto. Noutras palavras, a generalização conceitual implica o afastamento da realidade, em sua própria diversidade, numa abstração em busca da estabilidade, subtraindo a multiplicidade, e o movimento próprios das coisas. Mata-se assim a vida em seu devir, cuja novidade passa    a ser vista como o que deve ser refutado ou diminuído em favor da crença na identidade.

Os sentidos, o devir, a história deixam de ser fonte da vida … para serem fonte de ilusão, contraposta ao racional, afastando o homem do ‘mundo’.

O trabalho do intelecto é o de classificação/nomeação no esforço de abstração que requer    a formação de conceitos. Dessa forma, em função de nossa necessidade intelectual e de seu modo específico de operar, nos distanciamos da atividade própria da vida. E sendo assim, o conhecimento não se desconecta do mundo a conhecer. Segundo Foucault: “não há, no fundo, nenhuma semelhança, nenhuma afinidade prévia, entre o conhecimento, e as coisas que se fariam necessário conhecer”. Seguindo esse raciocínio, para Nietzsche: “Todo conhecer é um refletir…em formas perfeitamente determinadas – que inexistem a priori. A natureza não conhece nenhum conceito, nenhuma grandeza. Imersa no infinito,    a natureza não possui nenhum limite … em parte alguma… — Só para nós existe o finito”. 

Em suma, o conceito é uma prática intelectual de limitação das coisas… uma pretensão humana, embora a própria natureza não tenha nada a ver com isso. A razão humana se desespera diante do infinito, e só consegue se comunicar e conhecer se fizer tal infinito        se passar por finito…classificando num termo geral um horizonte de mil possibilidades.

Olhando através da condição caótica do mundo                                                              A inteligência não quer (nem pode) obter conhecimento metafísico do real.                            O que ela visa é dele se servir em seu benefício…e por isso, o deixa escapar.

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Cyberpunk 2077 [Xbox Series X/Reprodução]

Muitas coisas escapam ao olhar humano; pois, como diz Nietzsche…o sujeito vive,                graças ao caráter superficial do seu intelecto, numa ‘ilusão perpetua’. – O homem, efetivamente, crê ter ultrapassado a…condição caótica do mundo, tal como dada                pelos antigos gregos – ao se imaginar diante de coisas e fatos isoladosindivisos                  e refratários a todas as outras coisas que existem no mundo; e que compõem essa              corrente contínua e reverberante…que é a vida. Contudo, ao realizar tal ‘operação                mental’, ele se vê prisioneiro desse ‘mundo esquemático’ que, ao se tornar mais                  seguro, se sobrepõe ao mundo das múltiplas impressões, do qual será regulador.

A imobilidade é uma necessidade do sujeito, e quanto mais ele conseguir representar o mundo por estes pressupostos, melhor acredita que o compreende. Daí que o quer que    vigore como verdadeiro, precisa ter o caráter do que é constante e fixo. Quanto mais se estabelece o estável, maior a suposição de triunfo na compreensão da natureza. Assim,      de invenção em invenção – com a certeza de que a experiência lhe dá razãoele pensa        em repouso, segurança e coerênciaonde práticas do conhecimento poderiam afastar        o sentimento de atordoamento diante do infinito da vida, e colocá-lo a salvo no abrigo      do intelecto. – Contudo, as forças heterogêneas da vida não param de exercer pressão,        enquanto o homem acredita poder se abrigar nas ficções do intelecto. O problema é      que desse modo, ele estará condenado à perpétua ilusão da inverdadeainda que viva      na crença da ‘verdade alcançável’…se aproximando dela de modo confiável. — Ou seja, viveria um engano constante – uma vez que a natureza lhe segreda tudo, até mesmo o    seu próprio corpo – o qual só conhece por meio de uma “consciência fantasmagórica”.

Como a ciência necessita que seu objeto seja estável (caso contrário não poderá realizar sua base sólida de operação conceitual), o ‘espírito humano’ em sua atividade ordinária, está sempre representando estados e coisassubstituindo o contínuo pela descontínuo,  mobilidade pela estabilidade…a mudança pelos pontos fixos. – Tal modo de proceder é absolutamente necessário ao ‘senso comum’… à linguagem … à vida prática … à ciência.    Se abandonarmos as estruturas finitas e nos encaminharmos para o infinito, perdemos        o determinismo, a previsibilidade, os fins, a funcionalidade, que são o apoio do homem    do conhecimento. A grande tarefa do filósofo do futuro e dos artistas é se manter de pé sem esse apoio. A questão é que todo saber é sempre um ponto de vista do finito, o que nada mais é… que uma ilusão…Como diz Paul Klee: “Em todo universo, o que se dá é o movimento… O repouso que tem lugar na Terra, não passa de um entrave ocasional da matéria. – Considerar essa ‘estaticidade’ como um ‘estado primordial’… é um engano”.
Se abandonarmos as estruturas finitas…e nos encaminharmos ao infinito, veremos que        no tempo infinito e espaço infinito não existem fins; o que está lá…está lá eternamente,        sob qualquer forma que seja…Qual mundo metafísico haveria – é impossível de prever.      E… é justo essa…a inquietude da imprevisibilidade — que o homem moral não suporta.

O homem do conhecimento                                                                                                      O ‘homem do conhecimento’ estabeleceu um mundo próprio ao lado de outro, um              lugar que considerou firme o bastante para…a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante, e se tornar seu senhor…acreditando no conceito, como…’verdade eterna’.            Mas Nietzsche vê essa ambição…como “digna em si de uma gargalhada homérica”.

kaosmosO pensamento clássico sempre acreditou no poder da razão porque compreendia que a capacidade de abstração era uma capacidade de apreensão da essência das coisasNunca se viu a ‘generalidade’ como um afastamento da vida…mas, um processo altamente sofisticado de ‘conhecimento’Por isso Nietzsche fala de uma forma superior de vidana qualforças de arte prodigiosas, são necessárias  para eliminar o ilimitado instinto do saber”. Para ele, o regresso à arte é o regresso à vida…Não é no saber, mas na criação…que está nossa salvação!

Para fins de designação, no uso do entendimento, o homem fabrica ‘convenções ficcionais’, ao introduzir nas coisas, como algo ‘em si’, um mundo de signos…agindo mitologicamente. Nos conceitos de causa e efeito, por exemplo…que Nietzsche diz não existir, o que se passa é que o homem…tendo diante de si um ‘continuum’, isola algumas partes. Causa e efeito são fruto de uma divisão, que vista como contínuoseu conceito seria de pronto rejeitado.  Dessa forma, todas explicações que pretendem estabelecer as leis da natureza, não são, de fato, uma realidade – mas, uma arrumaçãouma distorção do mundo, feita em razão dos interesses humanos, e portanto, apenas uma ‘interpretação’…bastante debilitada, frente à excepcionalidade da vida. – A natureza é desmedidamente pródiga, mas indiferente a nós, sem intenção, consideração, justiça…ou misericórdia. – Daí Nietzsche dizer que o homem vive em uma ‘falsificação simplificada’ – tornado artificial tudo o que está à sua volta.

“Nosso entendimento é uma força superficial, que trabalha por meio de conceitos;              nosso pensar é guiado por um classificar, um nomear – logo… representando algo              que diz respeito ao arbitrário humano, não atingindo assim a coisa propriamente”.

O homem racional, conduzido pela inteligência, martiriza-se com seus conceitos, e não consegue atingir a felicidade com suas abstrações…Ou seja, é um esforço de atenção ao sujeito…e não às coisas. Servindo a si próprio, dista-se da essência das coisas; de modo que, no domínio do intelecto, vivemos numa eterna ilusão. E mesmo contando com outras forças, toda filosofia que faz apologia do conhecimento…desconsidera tal noção.

O homem do conhecimento quis cunhar sobre o caos formas reguladoras. O caos grego é o fosso, o imensurável, que não tem suporte ou fundamento; não é a desordem, mas aquilo cuja ordem está velada…cuja lei não conhecemos imediatamente (Heidegger). O Caos é o mundo da vontade de potência: força da imensidão que não se consome, só se transforma; que é de imutável grandeza…cujo devir não conhece nenhum tornar-se satisfeito, nenhum cansaço. – É…portanto…o mundo que cria e destrói a si mesmo, eternamente. (texto base************************************************************************************

Nietzsche – numa ‘síntese epistemológica’                                                                        “Como ser humano falível…sobrevivo numa espécie de…’elogio da loucura‘… – e na sua possível sublimação…sou o instrumento do meu resgate… – E, como o que nega alguma coisa também afirma outra verdade… espero por um momento inusitado de iluminação. Acredito que a poeira de estrelas que nos envolve possa harmonizar-se… através do ímã que existe na natureza, e integrar-se, como um farol…E assim, aos nossos olhos vire luz, como em toda reconstrução do caos dos mundos da nossa identidade ou de tudo que se restaura… humilde e firmemente… depois de um Big-Bang“. (Ivan Wrigg Moraes) 

Friedrich Nietzsche Aforismo O cenário em que o experimento transcorre… trata-se de um… “afrontamento” – entre duas interpretações… a ‘interpretação mecânica do universo’, que repousa sobre o texto das “leis naturais“, e uma “arte de interpretação“, de propósitos opostos. Pois a regularidade da natureza – da qual tanto se fala … só subsiste graças à nossa “interpretação“… – A teoria com base na vontade de poder sabe de seu caráter…eminentemente ‘interpretativo‘, e por isso não pretende ser texto contraposto à apreciação que leva à resignação…submissão    do saber… – agir humanos às…’leis naturais’.

“Devemos ser o sentido da terra e superar a nós mesmos em nossa mediocridade,         para, quem sabe um dia vir à tona o…’além-do-homem’… – um tipo humano pelo         qual a terra se justifique”… Esta interpretação…fundada na ‘vontade do poder‘,     libera ilimitado horizonte de cognição e operacionalidade… capacitando à vontade humana o poder de imprimir sobre a natureza … o ‘selo‘ de sua própria legislação.

       “Vida é vontade de potência. Para cada alma pertence um mundo                                               diferente — para cada alma … toda outra alma… — é um ir além.”

O fato do artista estimar mais a aparência do que a realidade, não constitui uma contradição, pois a aparência significa, em tal caso, a realidade repetida mais de             uma vez…selecionada, reforçada, corrigida. Como ‘vontade de poder’ a natureza                   só pode ser pensada como uma infinita multiplicidade de forças em relação, em                 um ‘campo de forças’, cuja essência consiste…a cada instante, em sua efetivação                 integral, num mundo visto a partir de dentro… através de seu caráter inteligível.

“Na verdade, tudo não passa de uma invenção humana… As coisas sensíveis se tornam inteligíveis pelas ideias, e a filosofia é somente um modo de se viver. – Criar dualismos como corpo e alma, é enganar o homem desta vida. Também instintos foram divididos em Bem e Mal. Daí a necessidade de irmos além do Bem e do Mal – o que não significa um ‘relativismo’, e sim ‘perspectivismo‘, pois a própria Vida é uma perspectiva rara.” 
Trechos (livremente) extraídos dos livros…  “Nietzsche… – Para além do Bem e do Mal” de Oswaldo Giacoia Junior; e “Alma em Nietzsche” de Mauro Araujo de Sousa **********************************************************************************  “Tudo vai e volta…a roda da vida gira sem cessar…Tudo morre, tudo volta a florescer; correm eternamente as estações da vida… – Tudo se destrói… – Tudo se reconstrói…E, eternamente se edifica a mesma casa da existência…Tudo se desagrega, tudo se saúda   outra vez… – o anel da vida conserva-se… eternamente… leal a si mesmo. – A todos os momentos…a vida principia; ao redor de cada aqui, gira a bola acolá. – O centro está       em toda a parte… O caminho da eternidade é tortuoso.” (Nietzsche…”O convalescente’)  ******************************(O Eterno Retorno)********************************* 

retornoUm dos aspectos básicos do tema diz respeito aos ciclos repetitivos da vida — onde estamos sempre presos a um nº limitado de fatos, que se repetiram no passado…se dão no presente, e se repetirão no futuro… O que é importante notar aqui, é que esta teoria não é uma forma de percepção do tempo… O “Eterno Retorno” não é um…”ciclo temporal”… – que se repete indefinidamente…na eternidade… – Quando no texto abaixo transcrito (A Gaia Ciência), o filósofo sugere a aparição do…”demônio” – portador da revelação do ‘ciclo inexorável’ de repetições – Ele não era o… ‘Eterno Retorno.

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse… ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes…  e, não haverá nela nada de novo  —  cada dor e cada prazer, cada pensamento e suspiro, e tudo que há de indivisivelmente pequeno e grande em tua vida há de te retornar…e tudo na mesma ordem e sequência…E do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, este instante, e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!’…  Não te lançarias ao chão, rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal em que lhe responderias “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!…”  Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti…assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse… a pergunta diante de tudo – e de cada coisa…“Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?”  pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo, e mesmo com   a vida, para não desejar nada mais do que essa última eterna confirmação e chancela?”  ***********************************************************************************

O Eterno Retorno pretende superar todo o niilismo que insiste em atribuir um valor        para o mundo…e à existência – afastando de si toda teleologia – para reintroduzir o homem de volta a natureza. Natureza aqui deve ser entendida como uma totalidade dinâmica para o qual a… “força propulsora”… é a chamada… “vontade de potência”.

O universo não segue uma ordem, nem possui fins ou etapas sucessivas, não possuindo nenhum sentido objetivo, tal qual o positivismo apontou. Sendo a quantidade de forças contraditórias e a quantidade de energia finita, um processo sem fim.  A caoticidade do mundo não almeja nenhuma ordem que a domine ou a direcione, em suma, o mundo é apenas mundo, e uma ordem do mundo – é somente o desejo do homem…em dominar      o indominável enquanto tal, mas que pode se transformar em sentido ou transportado      até certo nível, que transforme o homem, num ente com a possibilidade da ‘infinitude’.

O Eterno Retorno não é só a concepção pela qual pensamos o mundo retornando no          fim de cada ciclo cósmico… ao caos primitivo… A questão também envolve questões complexas – como o tempo… e a relação Homem…História. (Otávio Santana Vieira)  ******************************************************************************    “Tanto para Nietzche quanto para Foucault, o método genealógico de investigar a história buscando a origem dos saberes, não tem por fim reencontrar as raízes de       nossa identidade nem a destruição do que somos, mas transparecer toda ruptura            que nos atravessa…como relações de forças que se entrecruzam.” (Nicolao Julião)  ***************************************************************************** 

returns to forever Há sobre a linha reta um ‘eterno retorno‘, que não é mais dos indivíduos, dos mundos – mas, o dos acontecimentos puros … que o ‘instante deslocado’ não cessa de dividir em já passados…e, ainda por vir… – O ‘eterno retorno‘ … — enquanto devir da repetição, supõe um mundo da vontade de “potência”, onde as ‘prévias identidades’…são abolidas, dissolvidas… – Para então… – assumirmos    a eternidade do instante… – como ‘sujeitos dinâmicos’, que povoam mundos… – O homem do acaso existe, e reverbera como… — possibilidade existencial!

O eterno retorno indica uma repetição tal, que sendo necessariamente um acontecimento singular – é ao mesmo tempo diferente…e, a partir de sua diferença…produz sua própria identidade… — Como resultado dessa ‘divergência de séries’… forma-se não mais um mundo – mas um ‘círculo virtuoso’, cujo instante se faz acontecimento, e o porvir, eterna repetição.

Este é o ‘círculo do eterno retorno’ — o instante                           como acontecimento… o porvir como repetição.              (‘Nietzsche, Deleuze & Borges‘ – O. F. Bauchwitz) ****************************************************

O Eterno Retorno é um conceito não acabado em vida pelo próprio Nietzsche, visto em vários de seus textos, comoAssim falou Zaratustra; aforismo 341 deA gaia ciência“; aforismo 56 deAlém do bem e do mal … e, trechos de fragmentos póstumos – que se encontram no livro “Nietzsche” da coleção “Os Pensadores”, da editora ‘Abril Cultural’.

Com o Eterno Retorno Nietzsche questiona a ordem das coisas. Indica um mundo não feito de pólos opostos e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma… múltipla, mas única realidade. — Logo, bem e mal… angústia e prazer… são instâncias complementares da realidade que se alternam eternamente…Como realidade não tem objetivo ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado)… a alternância nunca finda,     e…em algum momento futuro… – tudo se repetirá infinitas vezes… – indefinidamente.

Para que haja alguma validade, o Eterno Retorno de todas as coisas exige um pensamento de absoluta imanência…exige uma recusa radical da pretensa finalidade do universo. – Só sobre um plano de forças em composição e livre disposição…é que ele pode ser formulado. Sem hierarquia, ou transcendência, há ‘Vontade de Potência‘, e nada mais. (Rafael Lauro)  **********************************************************************************

Demasiado Humano”                                                                                                                Na tentativa de estabelecer a ‘verdade‘ numa esfera ‘transcendente’ à humanidade, a racionalidade falha porque, ao mesmo tempo, põe essa deusa (‘Veritas’) no campo do ‘humano, demasiado humano’, fazendo dela um joguete na mão de homens que nada   mais querem que encontrar justificação racional a suas convicções, crenças e valores.

René Magritte O terapeuta 1941

René Magritte O terapeuta 1941

Nietzsche questiona “modismos” de sua época, buscando situar uma ligação… entre o passado bárbaro da humanidade…e o estado em que se encontra o pensamento filosófico…científico e religioso do século XIX, procurando hipóteses de um progresso pós-moderno ao ser humano.
Humano, demasiado Humano” … é um livro para espíritos livres… como diz Nietzsche, ele que vivia em conflito consigo mesmo, e com a sociedade. Abaixo…alguns trechos dessa obra:

“Não se pode desvirar todos os valores?…E bom é talvez mau?…E Deus…invenção e refinamento do diabo?…É talvez tudo no último fundo falso?  E, se somos os enganados… não somos também enganadores?…Tais pensamentos…conduzem e seduzem cada vez mais além. A solidão o rodeia e enrodilha – cada vez mais ameaçadora… mais sufocante apertando cada vez mais seu coração”.

O indivíduo quer geralmente, por meio da opinião dos outros, certificar e fortalecer diante de seus olhos a opinião que tem de si…mas o poderoso respeito pela autoridade – respeito tão antigo quanto o homem – leva muita gente a apoiar na autoridade – sua confiança em si própria, acreditando mais no critério alheio do que no seu modo de pensar. André Assis 

A Filosofia sempre será uma inquietação que problematiza, não para dar respostas conclusivas e agradáveis – mas, para ampliar os horizontes de uma humanidade mergulhada no ‘racionalismo‘… – o qual, fez de seus instintos, os vilões de nossa infelicidade.  (Jaya Hari Das/Rev. Filosofia) *********************************************************************

Convicções são prisões.                                                                                                                  Os céticos são os verdadeiros representantes da história da filosofia.

O filósofo é um artista que aceita o desafio de pensar, mas sabe que o pensamento é um risco, justamente por pressupor o afastamento de uma condição propriamente humana, com todos os seus hábitos, organizações e certezas. Daí o super-homem de Nietzsche, o homem do porvir. Apenas a inspiração do artista pode libertar o sujeito das aparências,      do erro, não encaminhando-o para o modelo ideal, a forma correta de pensar, mas para      a desconstrução da ideia de modelo… de verdade… para compreender a própria vida.

“A arte nos foi dada para impedir-nos de morrer da verdade”.

Nietzsche propõe uma estética da criação, onde a aparência não significa a negação do real, mas sim sua afirmação. A arte é um estimulante da “vontade de potência”isto é, uma forma de afirmação da vida, de descobrir/inventar novas possibilidades. O artista         é aquele que não se deixa aprisionar por imagens, ou “verdades”. (Cosmo & Contexto********************************************************************************

Nietzsche“O involuntário no Pensar”                   Pensar é um tipo de exercício de justiça,      pois existe aí, também, interrogatório…  Mas… – “o que” … afinal… ele significa?

Todo aparato do conhecimento, é feito de abstração e simplificação, dirigido não ao conhecimento, mas sim à apoderação das coisas. – O pensamento, frequentemente, emerge…se mistura…e se obscurece…por um ‘aglomerado‘ de pensamentos. Nós o destacamos, daí o depuramos; colocamo-lo sobre seus pés e vemos como ele anda; tudo muito rápido!… Então, o colocamos em julgamento. O pensamento não é tomado como imediatamente certo…mas um ‘signo’ (Zeichen), e interrogação (Fragezeichen). Ser todo pensamento…antes de tudo, ambíguo    e oscilante; representa um ensejo a múltiplas interpretações e determinações arbitrárias; sendo uma constatação empírica, para todo observador…que não se detém na superfície.

A origem do pensamento nos é oculta…é de grande probabilidade que seja                      sintoma de um estado bem amplo, igual a todo sentimento…À consciência,                          todo pensamento torna-se estimulante…e isso tudo se expressa como algo                                de um ‘estado global’ de signos. (Friedrich Nietzsche, ‘Escritos Póstumos’)  *********************************************************************

Cosmologia e Genealogia  (Scarlett Merton)                                                                          “O universo – no seu todo, e em sua pluralidade – não constitui um sistema…Tanto            quanto a vontade de potência, o mundo não é um ser. – É sim, um ‘eterno processo’,          onde as relações de suas forças são renovadas antes mesmo de poderem se esgotar.”

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Cosmovisão em Nietzsche”  

O universo é finito – mas eterno,   e o que retorna… é o processo do vir-a-ser … como ‘devir absoluto’ da diferença…que permanece no infinito tempo do eterno retorno.  Ordem cosmológica só se realiza no Caos determinístico, sempre vivo, ao processo de organização. 

Para que o experimento seja conduzido adequadamente, faz-se necessário conceber             o ‘mundo inorgânico‘ como uma forma prévia…(a mais primitiva de vida)onde se encontra ainda englobado – numa poderosa unidade, tudo aquilo que…em seguida,             no processo orgânico se ramifica…e se configura numa espécie de vida pulsional,            na qual todas … ‘funções orgânicas — autorregulação, assimilação, alimentação, secreção, metabolismo, etc…permanecemsinteticamenteligadas entre si.  

Se forem obedecidas todas as ‘prescrições metodológicas‘ presentes no experimento, então a universalização da hipótese da vontade de poder produziria o máximo grau de simplicidade, abstração e unidade em nosso conhecimento. Com ela estaríamos de posse de uma “interpretação global do mundo inorgânico e orgânico” – tendo… como ponto de partida – inversamente ao modo como poderíamos interpretar todo fenômeno natural, o ‘universo humano‘ … conhecido através do complexo domínio de ‘nossos impulsos‘.

CosmoCaos não passam de um grande jogo – onde o universo é um acaso;    o Caos…suas forças desorganizadas – já o Cosmos, em potência … é essa organização.        E assim, ‘o universo é eterno‘…com tudo o que nele há de finito. (Mauro de Sousa)  *****************************(texto complementar)*****************************

Nietzsche, e o caos como “caráter do mundo” Leonardo Mees (PPGF-UFRJ)          “É bem a ausência de um centro, de uma consciência pessoal – que se explica o fato              do inconsciente se nos apresentar caótico, irracional, incompreensível”. (Carl Jung)

jogo-dadosEm “A gaia ciência”…Nietzsche define o caráter geral do mundo como caos. Para o filósofo…este caos não se encontra em um momento ancestral do mundo…anterior à ordem; não ficou lá atrás na…”primordial cosmogonia”, nem deve ser subentendido como oposição às causasaos finse aos propósitos. Na verdadeao invés de uma exceção, um acidenteou quebra nas leis necessárias do mundo, seria tal como um jogo de dados…dependendo de uma nova interpretação do próprio acontecimento    do mundo para subsistirSeus acasos e “lances do destino”…resguardam uma necessidade da… “composição inventiva”, aguardam bons jogadores (intérpretes) que saibam contemplar a vida…como um jogo. Desta maneira, Nietzsche apresenta-nos sua própria ‘compreensão do mundo’:

“O caráter geral do mundo é o caos por toda a eternidade, não no sentido de ausência de necessidade — mas na ausência de ordem, divisão, forma, sabedoria, e como quer que se chamem tais antropomorfismos estéticos”.

Num primeiro momento … o filosofar histórico-apologético do “Humano demasiado humano” de Nietzsche recobra toda beleza e sublimidade emprestada ao mundo como propriedade e testemunho do homem. Tudo que presenteamos ao mundo, como ordem, forma, beleza, sabedoria – não são propriedades dele … mas nossos “antropomorfismos estéticos”…nossas metáforas e similitudes conceituais de um mundo desigual. O caráter      do mundo não está estigmatizado por tudo aquilo que lhe concedemos, como presentes      de nossa magnânima liberalidade. Do ponto de vista da ‘filosofia metafísica’, entretanto, inexiste tal distinção … para ela, conceitos e palavras carregam o “real saber” do mundo.

O “mundo metafísico”

Desde os tempos mais remotos, o mundo sempre se mostrou como enganoso e instável. Para a metafísica, o ‘mundo verdadeiro’ é “outro”, “ao menos, devia de ser!” A oposição estabelecida pelos conceitos … aqui-lá…certo-errado…bom-ruim…verdadeiro-aparente, seduz a ‘filosofia metafísica’ – insinuando existir um lado diametralmente oposto à sua relação aqui e agora de mundo…onde o mundo verdadeiro está fora, para além deste mundo. Segundo Nietzsche, a crença fundamental dos metafísicos se faz nas oposições    dos valores; ponto de partida que não é discordado por “eles”…de um lado um “mundo aparente”, e de outro um “mundo verdadeiro”. Mas, para “eles”, o “mundo verdadeiro”    não pode derivar…“desse mundo fugaz, enganador, sedutor e mesquinho, turbilhão de insânia e cobiça!”; sua origem deve advir de algo imperecível, da ‘coisa em si’, de Deus.

Seguindo esquemas e metas dadas na linguagem, a metafísica afasta-se da possibilidade de reconhecer os limites da conceituação do mundo, e de estabelecer – numa experiência com o ‘desigual’ pelos conceitos — uma direção de união das sensações e estímulos do…”mundo aparente”. – Se o caráter do mundo não é algo metafísico…além de todo dimensionamento humano demasiado humano, como então este pode ser visto, desde seu próprio devir?Se não está fora da possibilidade humana de relação no mundonão sendo antropomorfismo estético, ou qualquer adequação conceitual do homem … então qual o “caráter do mundo”?

Somente aquele que se fortalece nas relações de valoração do mundo…somente o “forte”, segundo Nietzsche, pode ver e perspectivar este caráter. Do ponto de vista “fortalecente”, que reconhece em toda conceituação de mundo uma “metáfora”…um “antropomorfismo estético”…a decadência e a fraqueza não são defeitos do próprio mundo, mas momentos de experimentação humana ‘demasiado humana’ dos limites de uma valoração histórica    de mundo. — O ‘fortalecente’ não se fecha no casulo do juízo preconceituoso sobre o seu estado decadente, não reage de modo imediato…anti-higiênico, condenando a si mesmo, ao mesmo tempo em que condena a fraqueza e a decadência no mundo, e vice-versa. Os rótulos e as etiquetas, que o comércio conceitual do mundo procura impingir sobre toda decadência – não colam – não grudam mais… – na pele curtida do…”corpo fortalecente”.

A convalescença requer lentidão de reaçãorequer melhor orientação de composição das sensações e impulsos, melhor elaboração das partes antes do salto compositor do caráter do todo‘. Neste sentido, o fortalecente se deixa arrastar à margem dos cursos conceituais,  se extravia dos esquemas e metas usuais … para a valoração solitária e criativa de mundo; padece o jogo persuasivo e transformador dos… “acasos do espírito“. – Medita sobre o alcance das palavras – sobre limite das igualações conceituais das ciênciase da filosofia.

Caos…o “caráter do mundo”                                                                                                    A 1ª relação entre…caos e mundo…que encontramos na literatura ocidental,                            nos foi transmitida na forma de poema, no início daTeogoniade Hesíodo.

Caos é o caráter do mundo. Mas este caráter não é uma generalidade conceitual…é uma marca pontiaguda, um estigma, um estilo pontiagudo e afiado, que marca todas as suas junções e conjunções das coisas. Quando Nietzsche diz que: “o caos é o ‘caráter geral’, a marca estilística que estigmatiza tudo que pertence ao mundo”, ele não quer atribuir ao “caos” uma ordem de mundo – baseada em uma nova “teoria matemática” sobre o caos. Normalmente entendemos caos como uma desorganização – bagunça – um desarranjo, confusão geral que nos impede de achar as coisas no mundo todo. Contudo, este uso de caos é derivado e posterior, talvez de “origem estoica“. Na “Teogonia”, Hesíodo recua a ascendência dos deuses até o princípio do mundo, até o… “Caos” — em geral entendido comoa personificação do vazio primordial, anterior à criação, no tempo    em que a ordem ainda não tinha sido imposta … aos elementos do mundo.

Contudo o verbo grego para expressar este momento inaugural do mundo…não corresponde só à nossa representação de “vazio” ou falta de ordem, simplesmente. Em sua origem grega, Caos não significa “bagunça” ou “confusão”. Kháos deriva do verbo khaínein, significa o entreabrir-se de algo, um hiato…o abrir-se da boca, num bocejo – a ‘alvorada matinal’ entre céu e a terra. Essa “abertura caótica” de mundo tem algo de um gosto inocente, lembra aquela vontade de ficar deitado.

Mas, se reporta também ao levantar de “Nhô Augusto”, lembra A hora e a vez de Augusto Matraga, o momento sem autoacusação…a hora inocente em que ele não se sente culpado, por fumar ou deixar de fumar como magistralmente descreve o autor… — Guimarães Rosa. 

Podemos ler, em Rosa, a descrição do momento inaugural de um sentido positivo de Caos: “E, uma vez, manhã, Nhô Agusto acordou sem saber por que era que ele estava com muita vontade de ficar o dia interior deitado, e achandoao mesmo tempo, muito bom levantar. Então, depois do café, saiu para a horta cheirosa, cheia de passarinhos e verdes, e fez uma descoberta: por que não pitava?! Não era pecado. Devia ficar alegre, sempre alegre, e esse era um gosto inocente…que ajudava a gente a se alegrar.“ (Guimarães Rosa – “Sagarana”).

O bocejo matinal do caos espreguiça o olhar para ver, no lusco-fusco da manhã,                    a aurora de uma possibilidade inocente. “De repete” uma sensação se aproxima                    de uma imagem nova, um conceito antigo se embate com novas percepções…se        avizinhando entre si, nos deixando perplexos da configuração que se apresenta.

“Um jogador” (DOSTOIEVSKI)                                                                                                        “Um cavalheiro de verdade não deve ficar nervoso — mesmo no caso de                              perder toda a fortuna… — O dinheiro…deve ficar abaixo da condição do                                    cavalheiro, de tal modo que não valha que a pena preocupar-se com ele”.

Todas as “advertências”, todos os 7 “guardemo-nos” em ‘A gaia ciência’, são botes falhos, lances malogrados de igualação conceitual do mundo desigual. Para Nietzsche, o caráter geral do mundo é Caos. No entanto, a generalidade deste caráter geral não lhe dá uma amplitude genérica. O caráter geral do mundo é um caráter seletivo, um caráter que recolhe, concentra e acumula os dados do mundo. Nietzsche relaciona o caráter geral do mundo com um jogo de dados. Neste sentido, somente aqueles que possuem a atitude seletiva de jogador, aqueles que bocejam, e se espreguiçam diante da fenda da sorte que      então se lhes abre, são capazes reconhecer o “momento oportuno” do…”jogo do mundo”.

jogadorQuem se apressa em catar seus pontos, na avidez de lucrar com a situação caótica, acaba perdendo tudo no jogo. Dostoievski narra, em “Um jogador que existem basicamente dois modos de se jogar com os dados da sorte: como “cavalheiro” ou como ‘plebeu’, “repassado pela avidez do lucro”… Os plebeus jogam de forma vergonhosa, cometem furtos dos mais vulgares, dão um trabalho insano aos ‘crupiês’, que fiscalizam e pagam as apostas. Alongam seus braços se apropriando daquilo ganho pelo outro…provocam assim discussões e gritaria em pleno jogo…Mas, o cavalheiro não se norteia pelos cálculos e artimanhas dos “pulhas da banca”, ele age como se todos ao seu redor fossem ricaços e cavalheiros como ele… jogando apenas por divertimento e desfastio… — “Somente naturezas aristocráticas” … narra Dostoievski, “desconhecem totalmente a realidade a sua volta… e veem as pessoas – em torno da mesa de jogo de modo deveras inocente — encarando o jogo como divertimento, e puro prazer”.

No jogo do mundopreocupar-se excessivamente com os golpes malogrados,                        nos quais perdemos os valores conceituais até então imensamente estimados,                  significa não se nortear pelo caráter geral do mundo… significa não possuir a                    atitude de “homem superior”, de “cavalheiro” para bocejar diante do acaso, e                          da sorte. Para Nietzsche, o caráter caótico do mundo não se encontra numa                      origem ancestral, não ficou lá atrás numa “cosmogonia primordial” – o vazio                original não foi locupletado de coisas; nem a abertura trancafiada com entes.

Numa anotação póstuma à época de…”A gaia ciência” – Nietzsche afirma que: “constantemente o caos ainda trabalha em nosso espírito: conceitos, imagens,          sensações são jogadas de modo acidental…um ao lado do outro, como dados”.                      O Caos ainda atua em nosso espíritoquando, de repente, somos tomados de        perplexidade diante de relações acidentais que nos acontecemsejam elas do                      tipo ‘sensação’; quando percebemos coisas inusitadasseja do tipo ‘imagens’,            quando diferentes configurações se nos apresentam – ou, do tipo ‘conceito’,              quando não entendemos bem uma coisaque pensávamos ter entendido. De            repente os lances podem mudar os nossos planos… – novos dados podem ser            jogados e combinados mudar por completo nossa forma de ver o mundo.

Caos & acaso no mundo                                                                                                              “Quando vocês souberem que não há propósitos, saberão que não há acaso – pois          apenas em relação a um mundo de propósitos … esta palavra tem sentido. – São os        ‘mestres da finalidade da existência’, que sempre de novo observam finalidades em              tudo que necessariamente, e por si sempre acontece sem nenhuma finalidade”.

Até hoje, “acaso” e “caos” ainda são mal-entendidos na filosofia – como oposição às          causas, fins e propósitos. – No entanto, acasos, acidentes, quebrasetc. somente são compreendidos como oposição porque previamente uma finalidade já se estabelecera    nos acontecimentos – ou seja…tais acontecimentos já estavam projetados para serem considerados de forma teleológica, seja pela ontologia substancial…ou pela sistêmica.

teoria-do-caos1O caos pode se mostrar nos acasos e despropósitos… quando uma ordem de mundo se quebra… – quando um hiatofaz entrever o espaço de jogo do mundo… Todavia… Caos não é um sinônimo de acidente, acaso, ou quebra de sistema. Mas justamente, são os acidentes ‘acasos fortuitos’, despropósitosas quebras, os bugs; em suma — todos os momentos que evidenciam limites de uma…ordem conceitual do mundoque vão nos despertar desse “cochilo dogmático” de antever os ‘acontecimentos’ — de um modo substancial…ou sistêmico.

Os mestres da moralização da vida entram em cena sempre que surgem acasos, e inserem um propósito neste acontecer… Não são capazes de rir dos acasos, como rir de si mesmos. O ‘caos do mundo’ depende de uma nova interpretação do próprio acontecimento de jogo, depende de uma ontologia que não o entenda como exceção, um acidente…ou um quebra na ordem cotidiana. Nietzsche apresenta em ‘Assim falou Zaratustra’ uma concepção redentora do caos: o “super-homem”(“libertador do acaso”). “E como suportaria eu ser homem se este não fosse também poeta e decifrador de enigmas e redentor do acaso! […] Como poeta e decifrador de enigmas vindo para redimir os homens do acaso ensinei-lhes  a criar o futuro e redimir de maneira criadora tudo o que foi”. (Nietzsche, “Da redenção”)

O jogo do “super-homem”                                                                                                        O super-homem é o homem “fortalecente”, “higiênico”, que não entende os momentos de ruptura e de quebra dos propósitos e fins metafísicos da existência como uma limitação ou defeito do mundo…Ama todo aquele que vive no ocaso, pois está a caminho do outro lado”.

Para Nietzsche, o “super-homem” aspira…‘juntar e compor em unidade o que é fragmento e enigma e horrendo ocaso’. Nos acasos e fragmentos da ordenação conceitual, ele vê uma possibilidade de superação da leitura decadente dos metafísicos. — A redenção dos acasos acontece como uma experiência própria de direcionamento, de norte, de encontro de uma estrela no anunciar da aurora. — “Eu vos digo é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante… E, eu vos digo… há ainda caos dentro de vós”.  Numa anotação póstuma do inverno de 1883-1884…Nietzsche enumera algumas das suas inovações teóricas até então, e entre elas, encontramos a sua “Teoria do acaso: “Quem consulta os mestres da finalidade da existência… quando surgem acasos e despropósitos, quem logo quer realimentar de informações os sistemas de finalidades quem tenta logo reparar quebras no funcionamento dos sistemas modernos não tem tempo para agir de forma ativa no caos. A alma, como um ser seletivo e que se alimenta de si, extremamente inteligente e continuamente criativa (compreendida apenas como passivas), geralmente    é ignorada!). Reconheci a força criativa entre acasos, numa colisão de impulsos criativos”. 

As metas e finalidades racionais da existência tornam-se apenas uma valência entre as demais não havendo necessidade racional para as ações. Tudo lhe é necessário para aquele que joga criativamente com os dados do mundo. Neste sentido diz Günter Abel:

“O caos é a necessidade irracional, ou invertendo a formulação: o caráter geral do mundo absolutamente necessário em suas realizações…é o caos”. 

flor-na-calçada

O Caos do mundo depende de uma nova interpretação do próprio acontecimento,    uma ontologia, que não o entenda como exceção – acidente… ou quebra nas suas leisCom sua própria necessidadepor      seu próprio acontecer, por todo um jogo      de dados de mundo. Podemos então nos    aproximar do seu necessário ‘acontecer’, enquanto entendemos a… “necessidade” dentro de um jogo… Na verdade, este se constitui de “viradas” – lances decisivos,  que determinam todo o seu…acontecer.

A “hora da virada”                                                                                                                    Em verdade… cada lance da partida é um partir um sequenciar… que                                partilha de uma parte passada, nas rodadas anteriores…mas, ao mesmo                            tempo, parte ousada rumo à criação e construção das próximas rodadas.

A virada necessária de um jogo é o momento determinante da fortuna do jogo… a hora        da verdade, o lance da sorte, quando uma simples carta, um simples dado, um simples lance decide a partida. ‘Os jogadores de carta’ conhecem bem o ‘momento da virada’, todas apostas estão concentradas neste momento. Durante todas as rodadas, juntando, descartando e combinando cartas, o jogador aguarda este momento com apreensão…e,    ao mesmo tempo…com temor. A virada justificaráfazer jus às combinações de cartas        dos jogadores…ela irá se encaixar“como uma luva”…na mão de um jogador porém,    ao mesmo tempo fechar a mão… o sequenciamento… e o prosseguimento de outro.

Desta forma, a necessidade é aquilo que o próprio jogo requer e carece, como justificativa de todas partidas e seguimentos…A necessidade, por      um lado… – é tudo o que falta para satisfazer o sequenciamento de um  jogo – e por outro, aquilo que propriamente dá sentido a toda partida.

Apenas na hora da virada se decide a necessidade do jogo: a direção que revela e concede, ao mesmo tempo – a fartura e a “faltura”…de uma composição criativa. Mas, no jogo, a necessidade mesmanão é nem pobre nem rica. Depois da virada podemos interpretá-la como aquilo que decide a sorte de um e o malogro de outro. — Mas a necessidade mesmo se retém no fundo do momento inventivo e criativo de composição de cada jogador Ela, não é propriamente a pobreza nem riqueza, decididas por um lance; ela é, de certa forma também isso… mas é – principalmente… – aquela última possibilidade… – aquele último elemento criador… retentor do lance decisivo. – Esta espécie de necessidade do jogo está exemplarmente caracterizada naqele provérbio popular: “A necessidade faz o artista”.

os jogadoresNo quadro de Paul Cézanne intitulado “Os jogadores de cartas”, o pintor retrata a simultaneidade de tudo envolvido no momento decisivo da virada. Totalmente absortos, nesse sequenciamento do jogo, com seus olhos baixos voltados para a mão de cartas, os jogadores contemplam o arranjo que melhor traduz…aquilo que foi apresentado dos lances anteriores…e, que pode (ou não) ser determinante na sua próxima “compra”…ou “descarte”.

Do ponto de vista do jogo, a virada necessária é aquela que não              pode ser outra, aquela que deve ser a justificação derradeira de                uma plena consequênciaou de uma inconsequência definitiva.

Temos a impressão que é por causa desta necessidade – que se retém em todo lance de jogo – e que se retrai como última instância de todo acontecer…que os jogadores ficam fascinados pelo jogo, ou até mesmo viciados nele. Sua necessidade envolve o próprio jogador no acontecimento do jogo, nos transformando em jogadores … do aqui e agora,      nos remetendo ao movimento criativo…do próprio acontecer de nós mesmos. – Parece possuir algo em seu encaminhamento, que normalmente não conseguimos ver na vida.

Na vida parece que o lance decisivo já foi dado de forma inalterável e inexpugnável, enquanto que no jogo parece que ainda podemos mudar – ou, ao menos, lutar para        alterar o sequenciamento…Nietzsche parece ter percebido este caráter inventivo da necessidade do jogo e, de forma similar, compreendido o…”jogo de caos do mundo”.            Acasos e lances de dados do mundo resguardam a necessidade de uma composição inventiva – aguardando os… “bons jogadores” – que contemplam a vida como uma provocação de jogo… — Neste sentido… Zaratustra nos provoca a sermos jogadores,            no jogo do mundo… — com as seguintes palavras Para que a vida seja boa de se contemplar, seu jogo deve ser bem jogado: mas, para isso… requer bons jogadores”.

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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2 respostas para Nietzsche – A origem da ‘lógica’, e o significado do ‘conceito’

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