Anarquismo, Contracultura, e o “movimento Hippie”

“Não há nada que possa eximir o homem da sua condição de ser livre – e…por                      conseguinte, da sua responsabilidade diante de seus atos”. (‘Jean-Paul Sartre’)

Embora Gerard Winstanley (The New Law of Righteousness, 1649) e William Godwin (Enquiry Concerning Political Justice, 1793) tenham sido os pioneiros — na exposição da filosofia anarquista — nos séculos 17 e 18 — foi somente na segunda metade do século 19 que o anarquismo emergiu como uma teoria coerente… com um programa desenvolvido.

Esta tarefa começou com Stirner (1806-1856) … Proudhon (1809-1865) … Bakunin (1814-1876)…e Kropotkin (1842-1921); visando combater toda…”injustiça social.  Dos trabalhadores…eles captaram suas esperanças e frustações as expressando no — “anarquismo, cujos ideais de igualdadejustiça          e liberdade, na prática, levaram à organização de cooperativas…e sindicatos, na luta diária contra        a injustiça … da exploração social.

Nascido na ‘atmosfera’ da filosofia romântica alemã, o anarquismo de Stirner (em…“The Ego and Its Own”) manifesta-se, numa forma extremada de individualismo, colocando    a unicidade pessoal acima de todas as coisas estado, propriedade, lei, ou obediência…O individualismo, porém, por definição, não sugere um programa concreto de “mudança social”. – Não obstante, suas ideias se constituíram na ‘pedra angular’ do ‘anarquismo‘. Ao atacar tanto o capitalismo como o estado socialista, foi atribuído a Stirner a fundação tanto do comunismo, quanto do anarco-individualismo. Sua proposta era uma “União dos egoístas”; associações de indivíduos que cooperavam como iguais, maximizando sua liberdade, e satisfazendo seus interesses (incluindo aqueles como asolidariedade“).

proudhon

Pierre-Joseph Proudhon, foi o 1º   a qualificar… abertamente – a si próprio como ‘anarquista’…Suas teorias…como ‘mutualismo‘, e ‘federalismo‘…exerceram uma forte influência…no crescimento do anarcomovimento de massas.

As ideias de Proudhon representam as bases imediatas do anarquismo individual e social, com ênfase nos diferentes aspectos do ‘mutualismo’.

Proudhon foi um revolucionáriomas a sua revolução não implicava revoltas violentas nem guerras civis…e sim uma transformação da sociedade, essencialmente de natureza moral. Para isso exigia a mais alta ética daqueles que buscavam a mudança. Ao afirmar que “propriedade é liberdade“, ele se referia àquilo produzido em coletividades – a propriedade coletiva de camponeses e artesãos – capaz de justificar pertences pessoais, habitação, ferramentas de trabalho, e o valor justo pela venda de seus produtos…Nesse sentido, para Proudhon…”a única fonte legítima de propriedadeé o trabalho“.

bakuninMichael Bakunin, figura central no desenvolvimento das ideias, e ativismo anarquista moderno, enfatizou o papel do coletivismo, da insurreição em massa, e ‘revolta espontânea‘…na conquista da liberdade de uma sociedade sem classes. Para isso, enfatizou a natureza social humana, rejeitando o individualismo abstrato do “liberalismo” – como oposto à liberdade.  Suas ideias prosperaram, no século 20 — em amplos setores do “movimento operário” … se identificando com o que, mais tardese chamou “sindicalismo“.

Em suas obras destacam-se “God and the State”… “The Paris Commune and                        the Idea of the State”, entre várias outras. “Bakunin on Anarchism”, editado                          por Sam Dolgoff… se trata de excelente coleção de seus melhores escritos.

Bakunin é considerado uma das figuras mais influentes do ‘Anarquismo’e um dos principais fundadores da tradição social anarquista‘. Seu enorme prestígio como              ativista o tornou um dos ideólogos mais influentes entre os radicais de toda Europa (Rússia inclusive). Articulando ideias básicas do sindicalismo com o anarquismo,          em 1844 foi a Paris então considerada um dos principais centros do pensamento progressista revolucionário europeuNessa cidade, se encontrou com o comunista            Karl Marx, e o anarquista Pierre-Joseph Proudhon. – Este último…com quem – de imediato estabelece fortes laços pessoaisEm 1868 Bakunin participa da seção em Genebra da “Primeira Internacional”, da qual segue muito ativo – até sua expulsão                por Karl Marx, e seus seguidores, no Congresso de Haia em 1872. As discordâncias          entre Bakunin e Marx, que resultaram na exclusão, ilustram a divergência entre as        seções “antiautoritárias” da Internacional que advocavam a ação e organização dos trabalhadores de forma a abolir o estado capitalista, e as seções social-democratas,          aliadas de Marx, assumindo a conquista do poder político pela classe trabalhadora.

piotr_kropotkinPeter Kropotkin, um cientista prático, elaborou uma análise anarquista, detalhada e sofisticada das condições modernas, sugerindo uma ponte para uma futura sociedade ‘anarco-comunista’, que continua sendo – a “teoria preponderante”  entre os anarquistas… Ele identificou a ‘ajuda mútua, como a melhor forma de evolução do indivíduo. São relevantes também suas análises da burocracia estatal, e sistema prisional.

Sua morte, em 1921, instaurou o derradeiro encontro anarquista em solo russo, que desde a revolução de 1917, se encontrava sob totalitário domínio bolchevique… As várias teorias apresentadas por Kropotkin não são mutuamente exclusivas…se interligando de muitas formas diferentes, entre os mais variados níveis de vida social. – O individualismo está estreitamente relacionado à maneira como conduzimos nossa “vida privadae, segundo ele, apenas pelo reconhecimento da individualidade e liberdade dos outros…é que somos capazes de proteger e maximizar nossa própria individualidade. – O mutualismo tem a ver com as relações coletivas – através do trabalho mútuo e cooperação. A produção no anarquismo seria coletivista…com as pessoas trabalhando juntas – para si próprias – e para o bem comum, em meio a diversificada “política social” estendida comunalmente.

O anarquismo é…pela sua própria natureza uma teoria em evolução, com mutos ativistas e pensadores diferentes uns dos outros. Dos muitos outros anarquistas que poderiam ser relacionados, mencionaremos aqui alguns:

Nos EUA…Emma Goldman e Alexander Berkman foram os principais ativistas e pensadores…Goldman uniu o ‘egoismo’ de Stirner… com o ‘comunismo’ de Kropotkin… resultando em uma apaixonada teoria.  Emma também teve o mérito de situar o anarquismo no centro da teoria ativista do feminismo (…ver “Red Emma Speaks”… e… “Anarchism and Other Essays”). Já Berkman – parceiro de longa data…produziu uma introdução clássica…às ideias anarquistas… – “What is Communist Anarchism?” … (“ABC of Anarchism”).  Ambos expulsos da Rússia para os EUA, a mando do governo pós-revolução. Voltairine de Cleyre também exerceu relevante função no ‘movimento anarquista norte-americano‘, com seus artigos e poemas. Entre suas obras estão alguns clássicos…como “Anarchism and American Traditions”…e ainda…”Direct Action”.

A Itália…em seu forte e dinâmico movimento anarquista, produziu alguns dos melhores de seus escritores…Errico Malatesta passou mais de 50 anos lutando, ao redor do mundo, pelo ‘Anarquismo’, e seus escritos estão entre os melhores da ‘teoria anarquista’. Conforme suas ideias, estes deveriam se organizar em sindicatos (a nível social, como trabalhadores, e a nível político como anarquistas). Já Luigi Galleani, idealizou um anarco-comunismo anti- organizacional, que proclamava o ‘Comunismo’… “como uma…’fundação econômica’ – na qual o indivíduo tem a oportunidade de…regular a si mesmo… e, executar suas funções” – Um outro nome de destaque … o professor de filosofia…Camillo Berneri – antes de ser assassinado pelos comunistas na Revolução Espanhola…ditava sua tradição crítica…pautada num ‘anarquismo pragmático’.

A Itália ainda é palco das aventuras de Giuseppe Garibaldi, uma das mais notáveis figuras da unificação italiana…projetada pela organização republicana. Também conhecido como herói de dois mundos devido à sua participação em conflitos na Europa e América do Sul, Garibaldi passou dez anos de sua vida a bordo de navios mercantes, chegando a obter licença de capitão, mas seus desejos de liberdade impediram de se submer à uma carreira. 

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Não há dúvidas de que o russo Leo Tolstoy é o mais famoso escritor vinculado ao ‘anarquismo religioso’… — tendo exercido maior impacto na disseminação das ideias espirituais e pacifistas, associadas com a sua tendência. Influenciando pessoas notáveis como Gandhi… e o “Catholic Worker Group” ligado a Dorothy DayTolstói interpretou o ‘cristianismo‘ de uma forma que implicava em ‘responsabilidade individual’… e ‘liberdade‘…em oposição ao autoritarismo, e à hierarquia que então caracterizam muitos dos fundamentos conservadores do “cristianismo”.

A obra de Tolstoy (por examplo “The Kingdom of God is within you”), como a de outros radicais libertários cristãos como William Blake (ver Peter Marshall…em “William Blake: Visionary Anarchist”) – tem inspirado muitos cristãos…em torno da “visão libertária” da mensagem de Jesus… – ideia que cresce nas igrejas…Este ‘anarco-cristianismo’ sustenta, como Tolstoy…que ‘o Cristianismo em seu verdadeiro sentido significa o fim do governo’.

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Recentemente, Noam Chomsky e Murray Bookchin  colocaram o movimento anarquista social como ponta de lança da análise e da teoria política… – Colin Ward emAnarchy in Action“, que de alguma forma atualiza “Mutual Aid“…de Kropotkin — expõe e documenta a “natureza anarquista” na vida diária sob o capitalismo.

Poderíamos nos estender mais; com muitos escritores que poderiam ser mencionados. – Mas, por trás deles, existem milhares de militantes anarquistas “comuns”, que nunca escreveram livros — mas cujo bom senso e atitudes alimenta o espírito da revolta … de dentro da sociedade, e ajudam a construir um novo mundo… na casca do velho. (texto base)(Aurélio Heckert, 2008)   *************************************************************************************

A “Contracultura”na contramão da história                                                              “Porque os únicos que me interessam são os loucos…loucos por viver… por falar… loucos por serem salvos, que desejam tudo ao mesmo tempo… e nunca bocejam ou dizem coisas clichês, mas queimam como rojões… pela noite adentro.”  (‘Pé Na Estrada’ – J. Kerouac)

A ‘contracultura‘ se relaciona com a cultura marginal…alternativa e underground, ao se posicionar contra a cultura capitalista dominante, num grande movimento de contestação de valores, que surge nos anos 50, com a Geração Beat… — tendo origem nos EUA…e se disseminando rapidamente por países da América Latina…e Europa. – Com a intenção de alertar a alienação de alguns valores disseminados pela indústria e meios de comunicação esta geração pioneira do movimento da contracultura…eram intelectuais que valorizavam a simplicidade, o amor, e a natureza…como forma de tornar a ‘liberdade‘…sua inspiração.

Com isso, buscava-se a libertação de uma sociedade que, sobretudo com o crescimento dos “meios de comunicação”, se sentia engolida em padrões e valores capitalistas, que faziam do consumo… “arma de opressão“. Alertava-se – em prosa e verso, que a “experiência interior” levaria à…’libertação do espírito’…em uma fraterna união.

por-do-sol

O SOL é dominante… feito uma TOCHA lá fora!…

Os jatos cruzam ao seu lado… – E os foguetes saltam… feito sapos…Os artistas pintam suas cores…vermelhas, verdes, amarelas!…A paz não mais preciosa. A loucura como lírios circula a volta do lago. Os poetas rimam sua solidão… — Músicos morrem de fome… Escritores erram o alvo. Mas não os pelicanos, não gaivotas. Estes mergulham e sobem arrepiados, quase mortos… com peixes radioativos em seus bicos… — E o céu, se acende nessa hora.              

As flores desabrocham como sempre – mas agora…cobertas de uma                                      fina poeira…sorvendo restos de gasolina, e cogumelos envenenados!
E… em milhões de alcovas…os amantes se entrelaçam… contínuos…
E doentes pela paz, sem poder mais acordar… Temos que continuar,                                    Amigos… e morrer… enquanto dormimos… 
(Charles Bukowski)  ***************************************************************

hippie

“A Contracultura não carece de justificativa, mas a Cultura a exige”. (Carlos Drummond)

Na sociologia, contracultura refere-se a um movimento libertário de contestação – que floresceu na década de 60 — impulsionado por músicos… artistas… e, jovens em geral, contestando os padrões conservadores, em seu poder econômico e militar. — Retratou um movimento de rebeldia…e insatisfação,  com caráter pacífico e teor social, artístico, filosófico e cultural… que rompeu padrões, ao contestar o comportamento do…’status quo’ de forma radical. Se posicionando…à época contra valores criados pelo mercado da indústria cultural… mudou tais valores, com reflexos no…comportamento social“.  Contra valores capitalistas conservadores, vivia-se a liberdade…até na prática sexual.

Essa inovação de valores se deu, principalmente, pela aproximação das religiões orientais (budismo e hinduísmo)… bem como de novos hábitos; por exemplo… o vegetarianismo, a preservação ambiental… a igualdade de direitos… a liberação sexual… e, do uso de drogas.

Eros, Marcuse…e a Civilização

No livro ‘Eros e Civilização, Herbert Marcuse se utiliza de conceitos psicanalíticos para uma melhor compreensão da “Repressão Sexual”…utilizada por nossa sociedade como um “mecanismo de auto-conservação…Por não acreditar no mundo da liberdade dentro do modo de produção capitalista … é fundamental a criação de condições para a libertação do homem da obrigação ao mundo do trabalho… por um tempo disponível… necessário à realização da liberdade e do prazer. Porém, nada disso acontecerá, segundo Marcuse, sem que o ser humano tenha interesse em tal propósito…de intervir para modificar a trajetória da história. – O mundo muda apenas criticamente – pelo desejo de uma nova consciência. 

marcuse

Nesse aspecto, para Marcuse, a filosofia é de importância fundamental…pela possibilidade de anunciar esse tipo de ‘libertação humana’…Se a filosofia não cumprir seu papel    de desenvolver um ‘homem analítico e crítico’ … capaz de entender a sua própria realidade histórica ele será uma eterna vítima…de seu próprio “mecanismo de alienação”.

Ao nomear essa sociedade como unidimensional‘, ou seja, sem dimensões e/ou diferenciações de valores – é como se tudo dentro dela não passasse de mercadoria, na condição de ‘objetos de consumo’. Também a identifica como sendoadministrada, isto é, carente de “liberdade de expressão”. Tudo que falamos, fazemos e pensamos, gostando ou não,    é controlado por uma“força invisível” maior; inatacável.

Marcuse fala também da “Super-Repressãocomo um conjunto de restrições e demandas  que auxiliam a “domesticação do Homem para o convívio em sociedade — indo além das exigências do ‘Princípio de Realidade para o Prazer de Freud, nos quais há simplesmente uma demanda de sobrevivência do indivíduo. Já na ‘Super-Repressão’, a finalidade não é simplesmente a conservação da integridade e existência do indivíduo…mas, da sociedade.  Quando Freud expõe a ‘Contenção ao Princípio de Prazer’, ele explica como: – “O homem vive em constantes angústia e penúria…assim devendo trabalhar – para sobreviver a esse desgosto”. – Com isso…não só a Libido é sublimada, e convertida em melhor rendimento, como também o prazer é protelado a fim de suportar eventuais angústias e frustrações.  Contudo Marcuse aponta que Freud não considerou um aspecto essencial desse contexto: a “desigualdade”. Assim, deve-se considerar que somos indivíduos com necessidades e capacidades diversas… — Além do que…há aqueles cuja penúria e angústia são resolvidas com a “condenação permanente” de outros – de diferentes classes sociais… e econômicas.

A “Super-Repressão”, além de fragmentar as condições existenciais desses indivíduos, quase que absolutamente, fragmenta também sua sexualidade.

Para que o trabalho seja aceito, como valor e virtude… – se faz necessária a ‘dessexualização’ e ‘deserotização’ do indivíduo, destruindo suas múltiplas zonas erógenas… — e afirmando que qualquer estímulo a elas é…imoral… perverso, e criminoso … reduzindo a sexualidade à mera cópula, com fins reprodutivos. Porém, tal “repressão” não visa à dominação por si só; mas  à uma “funcionalização” do homem, transformando o ‘trabalho’…que era virtude – numa ‘produção alienada’.

Sem satisfação, prazer e alegria…por meio de compensações sempre adiadas, nunca alcançadas… para que a Super-Repressão ocorra devidamente…é necessário que ela    esteja internalizada; e…para que isto ocorra, recorre-se à divisão do tempo e espaço, limitando-os em suas possibilidades… de propiciarem um momento de sexualidade.          E, para piorar, essa limitação não ocorre apenas com o sexo… mas também no lazer.      Essa problemática, com efeito, implica num terrível dilema: o tempo a ser dedicado          ao lazer é o mesmo para a sexualidade. A solução mais aplicada para esse dilema…é            a fusão de ambos – no consumo de motel…pornografia…casa de massagem, numa          ilusão de liberdade sexual. E assim, a ‘Super-Repressãose articula com o ‘Mercado sexual, determinando, segundo Marcuse, a forma contemporânea do princípio da realidade… — consumir para produzir, e produzir para consumir”. Com isso, o indivíduo sente-se humilhado…se não atinge as demandas de consumo e produção, impostas pela sociedade…e a identidade do indivíduo não depende mais da relação            [corpoconsciência; Naturezacultura], mas dos critérios de avaliação social.

Deixamos de ser autônomos quanto à sexualidade, e nossas próprias vidas,                      para sermos ‘heterônomos’… deixando de seguir nossas próprias leis, para                      sermos dominados por leis alheias … à nossa própria vontade. (texto base) ***********************************************************************

http://vivivieficou.blogspot.com.br/2011/07/os-hippies-dos-anos-60.html

O principal símbolo do movimento hippie foi adotado da “Campanha pelo Desarmamento Nuclear”  (Gerald Holtom, 1958)

O “movimento hippie”                        “faça amor…não faça a guerra” 

Baseado nesses objetivos… o movimento hippie teve seu auge… – na década de 70, questionando as ‘normas impostas’… – e propondo mudanças no comportamento, que levassem à liberdade de pensamento e ação (impulsionado por… movimentos culturais, artísticos, filosóficos e sociais) ao se engajar politicamente em uma luta de libertação daqueles valores vigentes…  conservadores e totalitários… A ideia era que o lema “paz e amor”… refletisse uma ‘vida comunitária’… – fraterna e pacífica.

A igualdade e justiça eram outros objetivos do movimento… – E assim, jovens deixaram o conforto de seus lares para viver em sociedades abertas (naturalistas) adotando um estilo de vida nômade. Os hippies defendiam o amor livre, e não-violência. O lema “Paz e Amor” sintetiza bem sua postura política — constituindo-se assimnum movimento por direitos civis, igualdade e antimilitarismo nos moldes de Gandhi e Martin Luther King; mantendo, mesmo desorganizadamente, postura mais anárquica, que anarquista…propriamente dita.

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A kombi, desde 1960, se tornou um dos símbolos de autonomia da contracultura.

Como grupo, os hippies passam a viver em comunidades coletivistas ou de uma forma nômade… — produzindo por conta própria, independente dos mercados formais…Com  comportamento avesso aos “modismos”, imposto pela…indústria cultural“, faziam        de sua aparência… – a mais livre evidência política de contestação, e igualdade sexual.  Muita gente não associada à contracultura, considerava isso uma ofensapela atitude iconoclasta… Foi quando a peça musical    ‘Hair’…”estourou” no…”circuito marginal”.

Indo parar na Broadway em 1968, a contracultura iniciava seu processo de ‘emergência underground’. Os Hippies continuaram a protestar contra a Guerra do Vietnã, cada vez mais engrossados pela massa dos soldados que regressavam do Vietnã…derrotados por uma cultura oriental. De toda essa experiência, outro modo de vida surgiu. (texto base*********************************************************************************

“A Contracultura na América do Sol”: (Patrícia Marcondes de Barros)
O Underground Brasileiro…na perspectiva de Luiz Carlos Maciel

Jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema, filósofo, poeta e escritor. Apesar de sua vasta atuação no cenário cultural brasileiro… Luiz Carlos Maciel é comumente lembrado por sua participação noPasquim, com a coluna Underground (1969-1971) quando então, escrevia artigos sobre movimentos alternativos que eclodiam no mundo…bem como manifestações anteriores que lhes serviram de base, como o ‘surrealismo’, o ‘existencialismo’ sartreano, a literatura ‘Beat Generation’, marxismo…entre muitos horizontes (re)descobertos na época.

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O trabalho de “difusão contracultural” lhe valeu o estereótipo…de – “guru da contracultura brasileira”…Entretanto, para Maciel – o “propósito central” da imprensa alternativa…comum a todas iniciativas…era o de combater o poder absoluto da mídia… – que se pretende imparcial de uma “realidade objetiva”, mas, que atende, inescrupulosamente, a…”estranhos interesses dominantes”.

O pensamento de Luiz Carlos Maciel, nos dá a lição … de que não podemos creditar à ação política ou a qualquer outro processo de natureza coletiva a função de construir uma vida melhor.

Só nos resta assim – o caminho da ‘experiência pessoal’…O de cada um inventar sua própria vida através de uma sanidade física e mental…para a formação de uma nova consciência (‘contracultural’), que nos livre da apatia do mundo da realidade virtual.

Lembrar a contracultura dos anos 60, para Maciel… pode ser mais que mero saudosismo; pode nos ajudar a tomada de consciência de uma decadência que parece inevitável… mas, não é historicamente necessária… – É sempre possível retomar os caminhos da liberdade. Não se trata de repetir a aventura de então…pois cada momento é único… Trata-se enfim, de tomar conhecimento de suas lições e reinventar novas formas de existência. texto base  ***********************************************************************************

A Eternidade…  (Arthur Rimbaud)

Foi encontrada!… Quem?… A eternidade.                      Ela é o mar… – que se mistura ao sol…

Minha alma imortal… cumpre a tua jura…                  Seja sob o sol frontal, ou à noite mais pura               

Pois tu…me libertas de humanas quimeras,                  Dos anseios vãos!…Tu livre…voas ao vento

Pois jamais há esperança…sem movimento                  Ciência é paciência…mas o suplício é lento.              

Que venha então a manhã, em suas brasas                De Satã…Pois o valor…é teu próprio ardor.  ****************************************

“REGRAS PARA SE SER HUMANO”…

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VOCÊ RECEBERÁ UM CORPO… Pode gostar dele ou detestá-lo, mas ele será seu durante toda esta rodada.

– VOCÊ APRENDERÁ LIÇÕES… matriculado numa escola informal de período integral chamada “VIDA“…. A cada dia nesta escola terá a oportunidade, ou infinitas possibilidades de aprender lições. – Você poderá gostar dessas lições… ou, considerá-las irrelevantes, estúpidas.

– NÃO EXISTEM ERROS OU FRACASSOS… SÓ RESULTADOSE LIÇÕES – O crescimento é um processo de tentativa e erro… As experiências que não deram certo também fazem parte do ‘processo de vida’.

– CADA LIÇÃO SERÁ REPETIDA ATÉ QUE SEJA APRENDIDA. – Cada lição será apresentada a você de diversas maneiras, até que a tenha aprendido…Quando isto ocorrer, poderá passar para a seguinte.

 O APRENDIZADO NUNCA TERMINA. – Não existe parte da VIDA                         que não contenha lições… — Se você está VIVO… há lições para aprender.

– “LÁ” NÃO É MELHOR DO QUE “AQUI” – Quando o seu “Lá”…se tornar “Aqui”, você simplesmente encontrará outro “Lá” que parecerá novamente melhor do que “Aqui”.

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– OS OUTROS SÃO APENAS, SEUS ESPELHOS (Reflexos)…Você não pode  amar ou detestar algo… em outra pessoa, a menos, que isso reflita algo – que você ama… ou, detesta em si mesmo.

– O QUE FIZER DE SUA VIDA – É RESPONSABILIDADE SUA Você tem todos os recursos de que necessita;  o que fará com eles, é responsabilidade sua. A escolha é sua. – Você… portanto, responde pelas escolhas que faz…

– AS RESPOSTAS ESTÃO DENTRO DE VOCÊ. – Tudo o que tem a fazer… é analisar, investigar, meditar, escutar… Sabendo, já é o suficiente… – VOCÊ SE ESQUECERÁ DE TUDO ISTO!!! – Por Ser Humano…!!!! (Autora… Twyla Nitsch, Anciã da tribo Iroquois)  ******************************(texto complementar)*********************************

ALTERPOIESE – A construção social do “indivíduo”                                                        “Homo Sapiens só se tornam pessoas quando acontece algo de novo entre eles”.

A “alterpoiese” aqui aventada não é um conceito substitutivo…ou complementar ao            de autopoiese. Embora, dependendo do curso das atuais investigações, talvez, não          venha a se tornar apenas isto, pode ser tomada como uma ‘metáfora’…para se dizer        que a sociedade, no caso, é uma outra criação. – Uma criação peculiar…porque não          está determinada pela sua origem; e não é totalmente dependente da sua trajetória.    Ainda que a interação social siga regularidades (ou leis) que podem ser observadas              em qualquer interação, há uma margem de “aleatoriedade” (ou de indeterminação) incomparavelmente maior (ou melhor, de uma outra natureza) na ‘interação social’            que ocorre entre seres humanos propriamente ditos, do que na interação que se dá,            em uma relação envolvendo outros organismos biológicos, e ecossistemas naturais.        Não que não haja organismos sociais (num sentido ampliado do termo organismo).            Mas que organismos sociais são de outra natureza (e, neste sentido, se pode firmar          que o social é uma outra criação). – Seres humanos propriamente ditos, quer dizer, pessoas, não são determinados por sua organização, ou por sua estrutura (interna),      como indivíduos. Do contrário…não haveria lugar para a liberdade…Parodiando            Tolstoi…’a liberdade é o único fundamento da aprendizagem tipicamente humana’.

singleton-hippie-flash-art1-1Mas a liberdade depende do modo como os seres humanos interagem. Por exemplo, se eles se isolam … ‘não pode haver liberdade’.  Se não se associam em um ‘projeto comum’ nascido de seus próprios desejos, não pode haver liberdade…E, ao não criar realidades sociais, a partir de tudo isso – também não pode haver liberdade… Mas, quando fazem tudo isso – os seres humanos não o fazem por ser necessárioe sim, geralmente, por ser desnecessário…O social é um campo que cria a si mesmo a partir da interação fortuita.

Toda aprendizagem tipicamente humana é social não biológica. – E, é desnecessária porque é invenção, criação coletiva, advento de algo, fora        do horizonte concebido de eventos. Criação de novas ‘realidades sociais’.

Esse ‘interativismo‘ como teoria da aprendizagem humana tem por base uma visão social da aprendizagem – onde… para entender a aprendizagem tipicamente humana,        não é suficiente  tentar explicá-la…descrevendo fenômenos que acontecem no sistema nervoso (ou imunológico) do indivíduo ‘Homo Sapiens’. É preciso sim, explicar como pessoas aprendem, descrevendo fenômenos que ocorrem nos emaranhados (sociais),        onde essas pessoas estão –  e são!… Por isso enquanto não investigarmos com toda profundidade a…”fenomenologia da interação social”, não poderemos construir uma          teoria da aprendizagem humana. Fenômenos que ocorrem da relação interpessoal,      não são completamente inferíveis dos fenômenos que ocorrem no nível molecular ou celular ou de partes do organismo de um ser vivo (mesmo que este seja o…Humano).

Porém, sobre esse ponto, cabe fazer mais algumas considerações – Assim como um          ser humano (definido como indivíduo da espécie ‘Homo Sapiens’) não é um agregado      de células, um sistema social também não é um agregado de organismos… – havendo      uma diferença fundamental entre o que é vivo, e o que é social…O ‘ser humano’ não é (apenas) vivo…é (também) social… A humanização do humano-biológico só acontece          na interação humano-social. É dessa ‘interação social’ que surgem as…”pessoas”.

A fenomenologia da interação social                                                                                        O fato de sistemas sociais serem compostos por seres humanos não significa que se            possa derivar das características do ser biológico humanizável, as características do              ser social que chamamos de “ser humano” (o ser humanizado pela interação social).

Mesmo que a investigação dafenomenologia da interação… avance… — a ponto de revelar características gerais que tanto se apliquem a seres biológicos complexos (como o humano) quanto a seres sociais complexos…como o da ‘civilização tecnológica’ — propriamente dita, mesmo assim, ficará faltando investigar algo, próprio à ‘fenomenologia da interação social’.

Lógico que existem leis gerais da interação que valem para ambos (seres vivos e sociais).    A “interação social”…todavia – tem características não encontradas na relação vivo/não-vivo, que podem mudar de comportamento em função da interação. A construção social    da pessoa não pode ser reduzida a uma espécie de epigênese…Estamos tratando de uma nova entidade, produzida por outra ordem de fenômenos…próprios da ‘interação social’.

A pessoa como nova entidade é um emaranhado social aberto, erigindo-se    ao longo de umahistória fenotípicasem contudo manter forçosamente invariâncias na sequência do DNA do organismo – como na…”epigênese”.

Não sabemos como se dá o surgimento dessa nova entidade…mas, já sabemos que a liberdade é um desses “fenômenos” que promovem a pessoa à condição de entidade,        não-reduzível aos processos que caracterizam o ‘mundo vivo’. Liberdade entretanto,        não é a condição de um indivíduo livre de toda ‘coerção’ — pois depende de relações comunicativas, isto é, interação. – Isso significa que só se alcança liberdade quando            se atua em grupo de modo que um certo tempo é necessário para sua organização.          Mas liberdade possui o ‘dom’ de alterar a continuidade inercial do passado, abrindo ‘caminhos inéditos’ para o futuro…Não é apenas uma condição de vulnerabilidade à mudança aleatória – mantendo-se fiel à organização … que detém os direitos a uma identidade de uma entidade, mas a capacidade de criar, mesmo, outras identidades.

Por isso, só no ‘mundo social’ pode haver a liberdade, que permite aos ‘seres humanos’ serem infiéis à sua origem social – coisa que não pode acontecer no ‘mundo vivo’…sob        pena de desconstrução da identidade, que caracteriza sua própria organização (a vida).      A liberdade, stricto sensu, é sempre a liberdade de desobedecer qualquer lei – criando novas ‘realidades sociais’ que não podem mais se submeter à disposições pregressas. Então, quando se diz que os seres humanos não podem alcançar autonomia pessoal, sem se associar a outros seres humanos, é necessário acrescentar que de fatosó se alcança tal autonomia…quando — da sua interação — surgem novas realidades sociais. 

Autonomia pessoal é a liberdade de criar o que não existe – vale dizer…que não está determinado por qualquer ordem já estabelecida. – O “processo criativo” estabelece            novos “mundos sociais” – enquando velhos mundos tendem a conservar padrões de organização e regulação aderentes a formalismos conceituais estratificados; e este é            o sentido da liberdade…A criação de novos mundos sociais representa…do ponto de          vista da aprendizagem individual – o surgimento de nova pessoalidade. (texto base) ****************************************************************************

Jean-Jacques Rousseau… o filósofo da suprema liberdade                                        “A liberdade não é nem um dom nem um estado passivo. Sob um ponto de vista      dinâmico – ela existe apenas na medida em que se está disposto a conquistá-la“.

Na história das ideias o nome do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) se liga inevitavelmente à Revolução Francesa; onde os mais apaixonados líderes da revolta      contra o regime monárquico francês, como Robespierre, o admiravam com devoção.  Todavia, havia mais desacordo que harmonia, entre Rousseau e demais pensadores iluministas que inspiraram os ideais da ‘Revolução Francesa’ (1789). Voltaire (1694-            1778), Denis Diderot (1713-1784) e seguidores exaltavam ‘razão’, e uma acumulação cultural ao longo da história da humanidade. – Rousseau, por seu lado… defendia a primazia da emoção, alegando que a civilização afastara o ser humano da felicidade.

Enquanto Diderot organizava a…”Enciclopédia” – a fim de sistematizar todo saber do mundo numa perspectiva “iluminista”, Rousseau pregava, em lugar da erudição, uma simples experiência direta intuitiva…embora, mesmo assim, tenha se encarregado do verbete sobre música, na obra enciclopédica. Ademais, rejeitava o ‘racionalismo ateu’,    por uma ‘religião natural’…onde cada um buscaria Deus em si mesmo…e na natureza.

O princípio fundamental de toda a obra de Rousseau, pelo qual ela é definida até os        dias atuais, é que… “o homem é bom por natureza, mas está submetido à influência corruptora da sociedade”. Um dos sintomas da falha civilizatória em atingir o “bem comum”, segundo o pensador…é a “desigualdade“, que pode ser de 2 tipos…aquela      devida às características individuais do ser humano, e a causada por circunstâncias      sociais. Nessas causas, Rousseau inclui…desde o surgimento do ciúme nas relações amorosas, até a institucionalização da ‘propriedade privada’ como pilar econômico.

O 1º tipo de desigualdade – para o filósofo… é natural; já o 2º                        deve ser combatido… – A desigualdade nociva… – aos poucos,                        teria excluído a liberdade individual, e em seu lugar restaram        artifícios; como o culto das aparências, e as regras de polidez.

Ao renunciar à ‘liberdade’, o homem…nas palavras de Rousseau…abre mão da própria qualidade que o define como ‘ser humano’… Ele não está apenas impedido de agir, mas privado do instrumento essencial para a realização do… “espírito”… – Para recobrar a liberdade perdida…nos descaminhos tomados pela sociedade – o filósofo preconiza um mergulho interior por parte do indivíduo rumo ao ‘autoconhecimento’. Mas isso não se    dá por meio da razão e sim da emoção, e traduz-se numa entrega sensorial à natureza.

rousseau- fraseUm pensamento rebelde da Razão

O pensamento de Rousseau pode ser visto como uma doutrina individualista, ou por uma denúncia de “falência da civilização”, mas não é bem isso… – O mito criado em torno da figura do bom selvagem… “o ser humano em seu estado natural … não contaminado por restrições sociais”, deve ser visto como uma…”idealização teórica“… – A obra de Rousseau não pretende negar ganhos da civilização – mas sim … sugerir caminhos para reconduzir a espécie humana à felicidade.

Não basta a via individual. Como a vida em sociedade é inevitável, a melhor maneira de garantir o máximo possível de liberdade para cada um é a democracia, concebida como    um regime em que todos se submetem à lei … porque ela foi elaborada de acordo com a ‘vontade geral’…Não foi por acaso que Rousseau, em 1762, escolheu publicar suas duas obras principais simultaneamente…”Do Contrato Social”, onde expõe sua concepção de ordem política, e “Emílio”…minucioso tratado educacional no qual prescreve o passo-a-passo da formação fictícia de um jovem – do seu nascimento…até aos 25 anos de idade.

Rousseau via o jovem como um ser integral, e não uma pessoa incompleta … e intuiu na infância várias fases de desenvolvimento, sobretudo cognitivo. Para Rousseau a criança devia ser educada em liberdade…e viver cada fase da infância na plenitude dos sentidos, mesmo porque – segundo ele – até os 12 anos o ser humano é praticamente só sentidos, emoções e corpo físico, enquanto a razão ainda se forma. – Nesse ponto…liberdade não significa a realização de seus impulsos e desejos – mas sim, uma consciência das coisas.

jean-jacques-rousseau-emilio

Método natural e educação negativa      “Vosso filho nada deve obter porque pede,      mas porque precisa – nem fazer nada por        obediência – mas sim… por necessidade”.

Um dos objetivos do livro … era criticar a educação elitista de seu tempo, que tinha        nos padres jesuítas, expoentes. Rousseau condenava os métodos de ensino, usados        até então, por se fixarem basicamente na repetição e memorização de…’conteúdos’, pregando sua completa substituição pela experiência direta por parte dos alunos,            a quem caberia conduzir o ‘aprendizado’,        de acordo … com o seu próprio interesse.

Rousseau desenvolve sua ideia de educação como um processo de evolução natural, com a mínima interferência possível na evolução do jovem até os 12 anos – quando, mesmo estudante ainda não pode contar com a razão. O filósofo denominou tal processo, de educação negativa, que não consiste em ensinar virtude ou verdade, mas em preservar o coração do vício e do erro. Assim, quando adulto, ele saberá se defender de tais perigos.

Pelas palavras de Maria Constança Peres Pissarra – professora de filosofia da… “Pontifícia Universidade Católica” de São Paulo…“O objetivo de Rousseau é formar – tanto o homem, como o cidadão. E portanto a dimensão política é crucial em seus princípios de educação”.  Não há escola em Emílio, mas a descrição em vaga forma de romance, dos primeiros anos de vida de um personagem fictício, filho de um homem rico entregue a um preceptor para que obtenha uma educação ideal… O jovem Emílio é educado no convívio com a natureza, resguardado ao máximo de coerções sociais. O objetivo de Rousseau, revolucionário para seu tempo é não só planejar uma educação com vistas à formação futura, na idade adulta, mas tem também o objetivo de propiciar felicidade à criança enquanto ainda é criança.

Por incrível que pareça, Rousseau, ao criar o mito do ‘bom selvagem’, acabou dando argumentos para negar a importância da educação. Afinal, esta é antes de tudo uma      ação intencional para moldar o homem de acordo com um modelo ideal; valorizado        pela sociedade…ou segmento dela. – A educação aceita a natureza…mas não a toma      como suficiente e boa em princípio. Se tomasse, não seria necessária…A sua ‘função clássica’, de fato, é introduzir a criança na sociedade. (J. J. Rosseau, “Nova Escola”)    ****************************************************************************

Sartre

Célebre retrato de Sartre caminhando nas dunas de Nida, na Lituânia, em 1965. Na imagem, vemos o filósofo projetando a sua sombra nas areias, representando a ideia existencialista de que é o homem, através da projeção da sua vontade no mundo, que constrói a si mesmo e o seu próprio caminho. (Foto: Antanas Sutkus)

Liberdadesegundo Jean-Paul Sartre 

Um dos conceitos fundamentais da filosofia existencialista sartriana… é o de “liberdade”, uma vez que, para o filósofo…o homem está condenado a ser livre…e toda sua existência decorre desta condição. – E assim…frente a uma decisão, o homem percebe seu terrível desamparo – pois nada existe para salvá-lo        da tarefa de escolher…em suma, nada pode salvá-lo de si mesmo. O ‘ser humano’ desse modo, com base na sua…”estrita liberdade”, é…a todo instante, compelido a se inventar, posto que são suas escolhas que constroem  sua essência. Nesse caso, só cabe a ele…por suas ações concretas… estabelecer critérios  que servirão de norte para as suas decisões.

“Escolher…ser isto ou aquilo…é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos. – Como nunca podemos escolher o mal…o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos”. 

“O que se poderia chamar de moralidade cotidiana exclui a angústia ética. Há angústia ética quando me considero em minha relação original com os valores. Estes, com efeito, são exigências que reclamam um fundamento. Mas fundamento que não poderia ser de modo algum o ser, pois todo valor que fundamentasse a sua natureza ideal, sobre o seu próprio ser deixaria por isso de ser valor e realizaria a heteronomia de minha vontade. Daí que, minha liberdade…é o único fundamento que justifica minha escala de valores”.

O existencialismo de Sartre…ao contrário das filosofias contemplativas, caracteriza-se por ser uma “doutrina de ação“…colocando sempre o compromisso como ‘fator indispensável’  à existência humana, uma vez que sem ele não há ‘projeto de ser’, e sem ‘projeto de ser’, o homem torna-se incapaz de conferir qualquer sentido à existência…Se intencionalidade é característica fundamental da consciência, ser livre é responsabilizar-se, comprometer-se.

filosofia-e-liberdadeDaí concluímos…não haver nada…que possa eximir o homem da sua condição de ser livre  e, por conseguinte…de sua responsabilidade diante de seus atos. – Barreiras psicológicas, históricas ou socioeconômicas … não podem ofuscar a liberdade referida por Sartre…pois são condições de existência, que permitem a escolha, onde toda existência se faz possível.

Toda condição é…por sua natureza, uma limitação – contudo, é também o que possibilita a existência de algo. Logo, para que a liberdade exista é necessário que existam as condições que possibilitem a sua existência – isto é… que possibilitem o “ato da escolher” – mas, que também – por outro lado…e, ao mesmo tempo… – limitem as possibilidades dessa escolha.

O homem é livre porque não é si mesmo, mas a presença de si…O ser que é                            o que é, não poderia ser livre. A liberdade é justamente o nada…que tendo                            sido no âmago do homem…obriga sua realidade a fazer-se, em vez de ser.

Liberdade – o risco da má-fée a angústia da decisão                                                  A minha liberdade me angustia, por ser um fundamento…sem fundamento dos valores, os  quais ao se revelarem em essência à liberdade não podem deixar de ser postos em questão.

BukowskiDiante da constante tarefade fazer-se; do desamparo, da falta de fundamentos e a responsabilidade que diante de si…e da humanidade carrega… a liberdade traz ao sujeito uma angústia existencial, que emerge da incapacidade em mudar sua própria condição existencial, tendo por vezes de escolher…entre o ruim e o pior, e tendo de arcar com as consequências dessa escolha – o sujeito – na incontornável tarefa de buscar na ‘subjetividade imanente’ de sua liberdade… os princípios que regerão tal escolha, terá de estar diante de seu próprio nada, isto é, do ‘princípio de sua angústia’.

A angústia ante os valores é o reconhecimento de sua…”idealidade”… – A liberdade, por exemplo, não possui uma realidade concreta; não possui uma essência, uma vez que ela própria é o fundamento de toda essência humana…à medida em que fundamenta o agir, possibilitando a projeção da vontade do homem na existência, e a construção do seu ser.  E, tendo em vista que – segundo a máxima sartriana… “a existência precede a essência”; primeiramente o homem é lançado na existência – e só depois…por meio de suas ações, pode representar-se como sendo… alguma coisa“… pois, a priori… “não era nada”.

Não há determinismos que possam eximir o homem – da sua condição ontológica de liberdade. Porém, na tentativa de livrar-se da angústia trazida pela responsabilidade,          que a liberdade carrega consigo, o homem refugia-se na “má-fé”… Sartre admite que      esta propriedade pode ser entendida como o ato de mentir para si mesmo, incluindo        aí, o atributo natural de negar-se a si próprio (um processo de constante, e frustrado esforço…pois, para se tentar fugir de algo que se faz presente na própria consciência,          é necessário que se pense constantemente nesse algo. Sendo, por absurdo, tal tarefa impossível de se realizar … a “má-fé” nunca se enquadrará em seu próprio objetivo).

Basicamente, podemos compreender a má-fé como a tentativa de transferir responsabilidades que concernem unicamente, às possibilidades de escolha                          do indivíduo; contudo, cabe somente a ele optar, por meio de sua liberdade,                    qual possibilidade lhe é mais adequada. – Aqui só existe a subjetividade do                  sujeito, para o seu próprio Nada do Ser…e qualquer tentativa de preencher                        este espaço vazio será denominada má-fé.  (J. P. Sartre – “Colunas Tortas”) **********************************************************************

Prefácio (editado) do livro “Primeira e Última Liberdade” (Krishnamurti)                ”O homem é um anfíbio que vive simultaneamente em dois mundos – o mundo da realidade – e o mundo simbólico…por ele próprio fabricado – em sua consciência”.

krishrevolutionQuando pensamos…fazemos uso de grande variedade de sistemas de símbolos: linguísticos, sociais, matemáticos, musicais, etc. Sem esses sistemas de símbolosnão teríamos arte – nem ciência…lei, filosofia…ou sequer, rudimentos de civilizaçãonoutras palavras, seríamos animais… Os símbolos, portanto… — são indispensáveis.

Porém, como fartamente demonstra a história de nossa época, e de todas as outras épocas, os símbolos também podem ser fatais Considere, por exemplo, de um lado o domínio da ciência, e do outro o domínio da política e religião…Pensando de acordo com um conjunto de símbolos … e agindo conforme a ciência … compreendemos e governamos, em modesta escala, as forças elementares da natureza. – Por outro lado… utilizamos essas forças como instrumentos de massacre e suicídio coletivo. No 1º caso, símbolos interpretativos, bem selecionados…foram submetidos a cuidadosa análise – e adaptados progressivamente aos fatos emergentes da existência física. No caso segundo…os símbolos, originariamente mal escolhidos…nunca foram submetidos a uma análise completa, e nunca reformulados para se harmonizarem com os fatos emergentes da existência humana Tais símbolos sempre foram tratados em toda parte com um respeito totalmente injustificável… – como se…por alguma razão misteriosa… – fossem mais reais… – do que as realidades a que se referiam.

Nos contextos da religião e política, palavras não são consideradas representações mais ou menos inadequados de coisas e fatos…mas,            coisas e fatos são consideradas ilustrações específicas de palavras.

unnamedAté agora — os símbolos só têm sido usados ‘realisticamente’ – nas esferas de atividades que não nos parecem de ‘suma importância’. Em todas as situações em que são atingidos nossos impulsos mais profundos – estamos habituados a empregá-los…não só de modo irrealmas até idolátrico e insano. – Como resultado…cometemos, a sangue-frio, e por largos períodos de tempo – atos irracionais.

Por empregarem e adorarem símbolos, tendem os homens a tornar-se idealistas, e assim, transformar a intermitente avidez animal – na ferocidade de um imperialismo planejado, pelo paroxismo do furor, do desejo ou do medo. – Por felicidade, são também capazes de transformar a dedicada ternura animal – numa compaixão de vida – de uma cooperação racional e persistente, que até hoje se tem provado forte o bastante, para salvar o mundo das consequências desastrosas e perversas de um arcaico idealismo inconsequente.  Nem o melhor livro de cozinha pode substituir o pior dos jantares O fato parece óbvio.  E, todavia, temos visto…através dos tempos…os filósofos mais eruditos, constantemente incidirem no erro de identificar aos fatos, suas meras construções verbais imaginando      os símbolos assim, mais reais do que as coisas que realmente representam. Tal estranho    e idolátrico exagero no ‘valor simbólico’ das palavras e emblemas perdurou irrefreado.

criseambientalE esse velho hábito de formular credos, e de impor          a crença – por meio de dogmas… tem subsistido          até entre os ateístas. Nos últimos anos, lógicos e semânticos procederam a uma ‘análise meticulosa’        dos símbolos — em função dos quais os homens desenvolvem o pensamento…A linguística tornou-          se ciência – estudando-se hoje inclusive a matéria            a que Benjamin Whorf chamou metalinguística.

Tudo isso constitui notável contribuição, mas não basta. A lógica: semântica, linguística e metalinguística são puras disciplinas intelectuais. Analisam as várias maneiras corretas e incorretas, significativas e não significativas … onde as palavras podem ser relacionadas com coisas, processos e fatos – todavianão oferecem qualquer orientação em referência ao problema mais fundamental das ‘relações humanas’ em sua totalidade psicofísica, cuja abrangência…simultaneamente…abarca dois mundos, a saber – dos fatos, e dos símbolos.  Em todos os países, e em todos os períodos da História, esse problema tem sido resolvido repetidas vezes, individualmente. Mesmo falando ou escrevendo, esses indivíduos jamais criaram sistemas pois sabiam que todo sistema representa uma tentação constante…de encarar os símbolos com excesso de seriedade, dando mais atenção às palavras do que às realidades…que supostamente representam…Nunca foi seu objetivo oferecer ‘explicações para uso geral’, e sim induzir as pessoas a diagnosticarem e curarem seus próprios males, de modo que…o problema humano e sua solução…se mostrem diretamente à experiência.

Segundo Krishnamurti, a única maneira pela qual tal problema humano                            pode ser resolvido – é pelo próprio indivíduoe em seu próprio benefício.                          Soluções coletivas, a que muitos se apegam com fé, nunca são adequadas.

“Para se compreender a miséria e a confusão existentes em nós mesmos, e portanto,          no mundo, temos de encontrar dentro de nós a clareza, que nasce do Pensar correto.          Tal clareza não se presta à organização – pois não podemos permutá-la entre nós. O pensamento de grupo organizado é puramente maquinalA clareza não é resultado          de asserção verbal, mas de intenso autopercebimento no correto pensar. Este, não é produto ou mero cultivo do intelectonem tampouco, conforme a qualquer padrão,        por mais digno e nobre que seja. Ele vem com o autoconhecimento” (Krishnamurti)

poluição

“O que se repete não é a verdade…pois esta não pode ser repetida.” A mentira pode ser ampliada, inventada, repetida … a verdade não. Quando se repete a verdade, ela deixa de ser verdade deixa de ter importância. É pelo autoconhecimento, e não na crença em símbolos alheios, que se pode chegar à realidade, onde se alicerça o próprio “Ser”.

A crença na perfeita eficácia, e no valor superlativo de qualquer sistema de símbolos não leva à libertação, e sim à repetição da História. A crença separainevitavelmente. Todas as “crenças organizadas”…baseiam-se na separação – ainda que preguem a fraternidade.

O homem que resolveu satisfatoriamente o problema de suas relações com seus 2 mundos; o dos fatos e o dos símbolos, é um homem sem crenças. Em relação aos problemas da vida prática – ele se serve de uma série de hipóteses operacionais…que correspondem aos seus fins – e, que não são levadas mais a sério – do que qualquer outra espécie de instrumento. Em relação aos seus semelhantes, e às suas realidades…tem ele o amor e da intuição. Mas, queremos resolver a crise do nosso tempo com (bastante precárias)fórmulas e sistemas.

É quase universal nossa submissão às fórmulas – o que é inevitável, pois nosso sistema de educação está baseado no que pensar, e não em como pensar…Crescemos como membros crentes e militantes de alguma organização; consequentemente, reagimos ao desafio, que é sempre novo, de acordo com um velho padrão; e por esse motivo, nossa reação não tem a correspondente eficácia, originalidade, frescor…Em conformidade com um pensamento padronizado, nossa reação é sem significado; “nossa nova religião é a idolatria do Estado”.

Se reagimos a um desafio segundo um antigo condicionamento – nossa reação não nos habilitará a entender o desafio novo…Em outras palavras: símbolos não deveriam ser elevados à categoria de ‘dogmas’ – e nenhum sistema ser considerado como nada além, do que um recurso provisório. A crença nas fórmulas… — e a ação, conforme tais crenças – não podem nos levar à solução de tal problema.

A educação que não nos ensina a pensar, mas só o que pensar, é uma educação que requer uma classe governante de pastores e senhores. — Ao homem que a exerce, a liderança traz a satisfação do desejo de poder; e aos que são guiados, a satisfação do desejo de segurança. Em um mundo livre dos dogmas consagrados, com os quais se justificam os piores crimes, e se racionalizam com perfeição consumada as maiores atrocidades…o ‘guru’ fornece uma espécie de ópio. — Mas então, afinal, o que – de fato…nos poderia oferecer Krishnamurti?  Não é…como já vimos, um sistema de crença, um catálogo de dogmas, ou um conjunto de ideais e noções para uso geral. Não é liderança, nem intercessão, ou orientação espiritual, nem exemplo sequer. – Não é um ritual, código, uma igreja, religião, nem uma espécie de lenga-lenga qualquer. Será autodisciplina? Não, porque, na verdade, a autodisciplina não  é a forma de resolver nosso problema Para encontrar a solução, deve a mente enfrentar    a evidência dos mundos exterior e interior…sem preconceitos ou restrições. Tornando-se disciplinada a mente não sofre modificação radical; é o mesmo “eu”, porém, sob controle. A autodisciplina, portanto, acrescenta-se à lista das coisas que Krishnamurti não oferece.

frases-william-blakePor que escolhemos?Por que não examinamos cada pensamento? – A escolha evidentemente,  ou baseia-se no prazer, no preenchimentoou é apenas uma reação do nosso “condicionamento”. Masquando muitas coisas nos interessam, por  que não incorporamos cada um?…Afinal, somos feitos de muitas máscaras conscientes, ou não.

Há uma transcendental espontaneidade da vida…uma “Realidade Criadora“, como a chama Krishnamurti, a qual só se revela como imanente quando a mente do observador está em estado de…”vigilia”. – O julgamento nos condena irrevogavelmente à dualidade. Só o “percebimento sem escolha” pode levar à não-dualidade, à conciliação dos opostos, numa compreensão total, libertadora. Esse percebimento, a cada momento, e em todas circunstâncias da vida, é a única meditação eficaz: “uma liberdade interior da realidade criadora”. – “Ela não é um dom”, tem de ser descoberta e experimentada. Na realidade,      é um “estado de ser” silencioso, em que não há…”vir a ser” onde há ‘existência plena’.

Essa potência criadora pode não buscar, necessariamente, expressão; não é manifestação externa. Não é dom, nem produto do talento. Pode ser encontrada quando o pensamento se liberta da ânsia pessoal de ser. – Perceber a si mesmo sem escolha, conduz à realidade criadora… – que se oculta debaixo de nossos próprios olhos. (Aldous Huxley…texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Anarquismo, Contracultura, e o “movimento Hippie”

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