‘Universo’…um processo Fractal…’Autorganizado’

Um novo enfoque do velho problema da ‘gravidade quântica’… retorna à questão básica do espaçotempo, em uma auspiciosa alternativa à transitada autopista da física teórica.

o universo

quântico

Como surgiram… o espaço e o tempo?… Como se formou o comum vazio regular tetradimensional que serve de fundo ao nosso mundo físico?… E, como será que eles funcionam…à “microdistâncias“?… Estas questões…se encontram na última fronteira da ciência contemporânea…na procura por uma teoria…que unifique a relatividade geral com a teoria quântica.

Pela ‘relatividade’ de Einstein, o espaçotempo pode assumir a escala macroscópica… em um sem nº de formas diversas…Esta plasticidade é percebida como uma força… a ‘gravidade.

Em contrapartida, a teoria quântica descreve as leis da física…conforme escalas atômicas e sub-atômicas, evitando efeitos gravitacionais.

Toda teoria da gravidade quântica se propõe a descrever a natureza do espaçotempo a escalas mais reduzidas (do vazio entre as menores partículas elementares conhecidas) através das leis quânticas… e, com sorte… explicar essa natureza em termos de algum   tipo de ‘componente fundamental’… – Para uma nova teoria…essa receita é simples… pegue alguns poucos ingredientes básicos, junte-os conforme os princípios quânticos,     agite bem, deixe um pouco ‘de molho’… e assim se obtém um ‘espaçotempo’ quântico. (‘Um computador portátil pode executar a simulação’.)

Noutras palavras, se imaginarmos o espaçotempo tão vazio quanto uma substância imaterial, consistindo num grande número de pequenas peças sem estrutura; e…se           em seguida…deixarmos que estes microscópicos blocos constituintes interajam, de   acordo com simples normas da gravidade, e da teoria quântica… eles se ordenarão           por si mesmos, espontaneamente, em um conjunto que… sob muitos aspectos… se     parece com o universo observado (na forma com que moléculas se autorganizam…           em sólidos cristalinos, ou amorfos).

O “espaçotempo” se pareceria assim… – mais um                                           “refogado de verduras”, do que um “bolo nupcial”.

Além disso…diferentemente de outros enfoques da gravidade quântica… nossa receita é muito consistente. Esta palavra, “consistência”, conforme o uso habitual na matemática,   se refere a situação em que, ao variarmos detalhes nas simulações, apenas o resultado é alterado… Tal solidez nos dá motivos para crer que estamos num bom caminho. – Se os resultados fossem influenciados pela colocação de cada peça no conjunto desse enorme tabuleiro, seria como criar, para cada uma delas, uma refinada canção de estilo barroco, onde, a priori…todas teriam a mesma probabilidade de serem ouvidas… – de modo que, assim perderíamos o poder explicativo… do por quê o universo é… tal como ele é.

A propósito… – em física, biologia e outros campos da ciência … não são desconhecidos mecanismos de auto-regulação. Um ótimo exemplo disso, são as enormes ‘revoadas em bando’ de estorninhos.

Cada pássaro apenas interage com um ‘nº reduzido’ de aves próximas, nenhum ‘líder’ lhes diz o que fazer. No entanto a revoada mantém sua conformação … se movendo como um todo… Eles têm ‘propriedades coletivas’ … que se evidenciam no comportamento de cada ave… a essas propriedades coletivas, chamamos “emergentes”.

Uma breve historia da gravidade quântica

As tentativas anteriores ​​de explicar a estruturação quântica do espaçotempo através de propriedades emergentes só obtiveram um sucesso limitado… Eram fundamentadas na ‘gravidade quântica euclidiana’; programa de investigação iniciado ao final dos anos 70   do século XX, e divulgado no livro de Stephen Hawking “Uma breve história do tempo”.

Qualquer objeto, seja clássico ou quântico, se encontra em um certo estado caracterizado, por exemplo, por sua posição e velocidade. No entanto… enquanto o estado de um objeto clássico pode ser descrito por um conjunto de nºs, o estado de um objeto quântico é bem mais variado. Se constitui na soma, ou superposição, de todos estados clássicos possíveis.

Uma bola de bilhar se move ao longo de uma trajetória única, com uma posição e velocidade bem definidas…a cada instante… Já não poderíamos dizer o mesmo, por exemplo, do movimento de um elétron…descrito pelas leis quânticas (podendo existir…simultaneamente, em uma ampla gama de posições e velocidades).

Quando um elétron se desloca do ponto A ao ponto B, na ausência de forças externas – sua trajetória não se limita a uma linha reta entre A e B, mas abarca todos os caminhos disponíveis, de uma só vez.

Essa figura de imagem… que agrega todas trajetórias possíveis dos elétrons, se traduz na regra matemática da ‘superposição quântica’, formulada por Richard Feynman, e que consiste em uma média ponderada de todas as variadas possibilidades… – Com essa formulação … se pode calcular a probabilidade de se localizar o elétron, em um intervalo qualquer de posições e velocidades… – ainda que esta escolha caia fora do caminho reto que esperaríamos, se os elétrons obedecessem as leis da mecânica clássica.

O comportamento dessas partículas se torna quântico…pelos desvios de uma trajetória única pré-definida, os quais se denominam “flutuações quânticas”. Quanto menor for o sistema físico considerado, maior importância estas flutuações adquirem. A ‘gravidade quântica euclidiana‘ utiliza o princípio de superposição para todo universo. Neste caso,      a superposição não consiste em diferentes trajetórias de partículas, mas nas diferentes maneiras pelas quais o universo inteiro poderia evoluir no tempo – em particular…nas várias formas possíveis do espaçotempo. “Cosmologia quântica e Criação do Universo”.

A gravidade quântica euclidiana deu um grande salto técnico, já nos anos 80 e 90, quando da aplicação de poderosas simulações computacionais. Nestes modelos informatizados, as ‘geometrias curvas‘ do espaçotempo são representadas através de diminutos blocos…que, por conveniência são triangulares. Isto porque tais malhas triangulares se adaptam muito bem às superfícies curvas… e por isso é comum que sejam empregadas nestas simulações.

No caso do espaçotempo… o bloco constituinte elementar é uma generalização tetradimensionaltriangular…o “quadri-simplex”             (tetraedros tridimensionais gerando espaço tetradimensional.)

Os pequenos ‘blocos constituintes’ carecem de significado físico próprio. – Se pudéssemos examinar o ‘espaçotempo’ real, com poderosíssimo microscópio… não veríamos pequenos triângulos… eles não são mais do que artifícios teóricos. – A única informação fisicamente relevante, provém do comportamento coletivo desses grãos… – ao se aproximarem de um tamanho nulo…Nesse limite, o formato desses blocos já não importa. Essa insensibilidade aos pormenores de seu aspecto…em ‘supermicroescala’… tem o nome de “universalidade”.

Se trata de fenômeno bem conhecido da mecânica estatística, no estudo do micromovimento de líquidos, e gases.

O comportamento individual das moléculas é muito parecido…seja         qual for os tipos de seu ‘conjunto’.

A “universalidade“… – associada às propriedades internas de correlação     de sistemas, com grande número de componentes … se manifesta a uma escala muito maior… do que aquela       de seus constituintes individuais.

Na analogia com a revoada de estorninhos… a cor, tamanho, envergadura e idade dos pássaros integrantes do grupo, na hora de determinar o voo global do bando, não têm importância… — Só uns poucos detalhes microscópicos…se infiltram na macro-escala.

Universos em simulação

Com seus ‘programas de simulação’ … os teóricos da gravidade quântica começaram a explorar os efeitos de sobrepor formas do espaçotempo que a relatividade clássica não pode incluir na teoria; justamente aquelas curvadas… – em micro-escalas de distância.

Esse “regime não-perturbativo” é o que mais interessa aos físicos, mas resulta inacessível  aos habituais “cálculos a mão”… E, na prática, as simulações colocaram em evidência que falta um ingrediente básico à gravidade quântica euclidiana, em alguma parte. A verdade,   é que … as superposições não-perturbativas de universos tetradimensionais são instáveis.

As flutuações quânticas da curvatura a micro-escalas, que caracterizam os diferentes universos superpostos, que contribuem para a média, não se cancelam entre si…para produzir, a grandes escalas, um suave universo homogêneo clássico. – Pelo contrário,       se reforçam mutuamente, de modo que o espaço se enruga…até se converter em uma minúscula bola, com um número infinito de dimensões.

Em tal espaço, a distância medida entre qualquer arbitrário par de pontos é irrisória, independente do seu volume de espaço… – Em certos casos, a conformação espacial         vai para o outro extremo… o espaço se torna mais fino e extenso, ao máximo… como         um polímero químico muito ramificado. Nem um caso nem outro se parece, nem de     longe, com o nosso universo.

Antes de reexaminar as hipóteses que levaram a este “beco sem saída”, verifiquemos um aspecto curioso deste resultado. Os componentes têm         4 dimensões, ainda que, coletivamente…resultem num espaço com um número infinito de dimensões (universo enrugado)…ou, com apenas 2 (universo polimérico).

genio.jpgUma vez que o gênio (Steve Hawking) saiu da garrafa, e permitiu as grandes flutuações quânticas de ‘espaço vazio’, até mesmo o conceito mais básico, de dimensão se tornou mutável. Não era possível prever esta conclusão apenas     a partir da gravitação clássica, onde o     nº de dimensões…é dado de antemão.

Nesse ponto, os aficionados da ficção científica poderiam sentir-se contrariados com uma das consequências…Há estórias que fazem uso dos “warmholes“… – estreitas passagens interligadas ao universo, que forneceriam acesso direto entre regiões inacessíveis entre si. Estes ‘fenômenos’ são apaixonantes, por prometerem viagens no tempo, e transmissão de sinais mais rápidos que a luz… — Mesmo que nunca observados… tem-se especulado que talvez se encontrassem justificativas para tal, na ainda desconhecida ‘gravidade quântica’. Porém, tendo em vista os resultados negativos das simulações para o tipo ‘euclidiano’… a viabilidade dos ‘buracos de minhoca’ parece ser agora, altamente improvável…

Eles surgem nas simulações com tão grande intensidade… que tenderiam a dominar a “superposição”, e a desestabilizariam… de modo que, o universo quântico nunca cresceria, muito além do tamanho de um pequeno pacote… mesmo que super-interconectado.

Mas então, onde está o erro?… Em nossa busca por lacunas e cabos soltos no enfoque euclidiano, demos de cara por fim, com a ideia fundamental, o ingrediente necessário   para que o “refogado” fique bom… – o universo deve incluir a ‘causalidade’; ou seja, o vazio espaçotempo precisa ter uma estrutura que permita distinguir a causa do efeito;     parte integrante das teorias clássicas da relatividade especial e geral… Donde conclui-       se… que a gravidade quântica euclidiana não se baseia em uma noção de causalidade.

O termo “euclidiano” indica que o espaço e tempo recebem o mesmo tratamento… Os universos que entram na superposição euclidiana têm 4 direções espaciais, em vez de     uma temporal e 3 espaciais. Tendo em vista que, os universos euclidianos carecem de     uma noção de tempo ficam privados de uma estrutura que ordene os acontecimentos.

Hawking e outros… que seguiram este enfoque disseram que “o tempo é imaginário”, tanto no sentido matemático como no sentido coloquial. Sua esperança era que a causalidade emergisse como uma propriedade…a grandes escalas…de micro-flutuações quânticas, sem ordem causal; mas as simulações negaram essa esperança…

Em vez de descartar a causalidade ao juntar os universos individuais… e esperar por sua volta, graças à intuição coletiva da superposição, nós decidimos incorporar a “estrutura causal”…em uma fase muito mais inicial.

Em nosso método de “triangulações dinâmicas causais”, atribui-se inicialmente, a cada simplex, uma seta do tempo, do passado ao futuro.

Fazemos então, cumprir normas do ‘vínculo causal‘… 2 simplex devem se unir, mantendo suas setas apontadas na mesma direção. — Os simplex devem compartilhar uma noção de tempo que evolui de maneira constante na direção dessas setas, e nunca parar nem voltar atrás… – O espaço assim… deve conservar sua forma a medida que o tempo avança… sem quebrar-se em pedaços desconectados, ou criar os mui famosos ‘buracos de minhoca’.

Depois de formular esta estrategia, em 1998…demonstramos, com modelos muito simplificados… que regras causais de ’juntada’ dão lugar — em larga escala…à forma bem diversa… da que gera ‘gravidade quântica euclidiana’.

Resultava alentador, mas ainda não demonstrava que essas regras fossem suficientes para estabilizar um universo de 4 dimensões…Por isso, estávamos “no ar” … quando…em 2004, nosso computador (…a bordo) se mostrou disponível para efetuar os primeiros cálculos de uma enorme superposição quadri-simplex…Será que esse espaçotempo, cosmicamente, se mostraria como um objeto extenso de 4 dimensões, e não como uma bola de gude…ou um polímero?…

Imaginem a nossa alegria quando o número dimensional revelou-se quatro (mais precisamente, 4,02 ± 0,10)… – Pela 1ª vez, o número observado de dimensões foi deduzido dos dados iniciais. – Até hoje… acrescentar causalidade nos modelos de gravidade quântica é a única cura conhecida das instabilidades das geometrias de espaçotempo sobrepostas.

espaçotempo

Espaçotempo em larga escala

Esta simulação foi a primeira, de uma série de experimentos informatizados em andamento … dos quais tentamos comprovar propriedades geométricas e físicas do…”espaçotempo quântico”, com programas computacionais.

Nosso passo seguinte foi simular a possível forma desse espaçotempo     a distâncias cosmológicas, e assim verificar que coincidem com a realidade, ou seja… com as predições da ‘relatividade geral’. Esta prova é um verdadeiro desafio em modelos não-perturbativos da gravidade quântica, por estes não assumirem uma forma pré-determinada do espaçotempo.

De fato, a dificuldade é tão grande, que a maioria das tentativas de se obter gravidade quântica (incluindo a ‘teoria das cordas’) – exceto em casos excepcionais … não estão suficientemente avançadas. Para que nosso modelo, então funcionasse… tivemos que considerar desde o início, a presença de uma constante cosmológica (entidade etérea,     que permeia o espaço, mesmo na ausência total de outras formas de matéria/energia).

Esta exigência é uma boa notícia, porque as observações cosmológicas levam a supor que esse tipo de energia existe…Além disso, o espaçotempo emergente possui uma geometria De Sitter … a solução das equações de Einstein para um universo que não contenha nada além da constante cosmológica.

É na verdade surpreendente… que na montagem dos microscópicos blocos primordiais, de uma forma, para todos os efeitos, aleatória… – independentemente de qualquer simetria… ou estrutura geométrica preferencial, se obtenha um espaçotempo que, em escala cósmica, assuma a forma altamente simétrica do universo de De Sitter…

Este surgimento de um universo dinâmico de 4 dimensões… – com a esperada aparência física a partir dos princípios básicos…é o truque central da nossa abordagem. O caminho lógico de investigação a seguir é saber se é possível entender este resultado … em termos das interações de “átomos fundamentais” do espaçotempo.

Uma vez certos de que o nosso modelo de ‘gravitação quântica’ superava uma série de testes clássicos, era a hora de mudar para um outro tipo de experimento, que pesquisasse a estrutura quântica do espaçotempo, não permitida pela teoria clássica de Einstein.

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Uma das simulações que realizamos é o processo de ‘difusão‘…que consiste em experimentarmos uma…”gota d’água”… caindo numa sobreposição de universos, para ver como se dispersa… – e como as flutuações quânticas as transportam, de     lá para cá…Medindo o tamanho da gota d’água… — depois de um certo tempo… checamos o nº de dimensões do espaço.

O resultado varia… – o número de dimensões depende da escala. Em outras palavras, se deixarmos que a difusão avance apenas por um curto período de tempo…o espaçotempo parece ter um número diferentes de dimensões, do que quando deixamos correr por um tempo maior… Mesmo aqueles que se dedicam à gravidade quântica, não podem sequer imaginar como o espaçotempo poderia gradualmente mudar de dimensão em função da resolução do microscópio que o observe. Assim então, ficou claro… que um “microbjeto” experimenta o espaçotempo… de modo completamente diferente de outro objeto maior.

Universo Fractal                                                                                                                   Para escalas microscópicas…o universo representa um tipo de ‘estrutura fractal’.

Um fractal é um estranho tipo de espaço, onde o conceito de tamanho não existe. É auto-semelhante… parece o mesmo em todas as escalas…Não existem regras, ou elementos de um tamanho característico, que possam servir como um padrão de medição…Mas, o que significa “pequeno”?…Para um tamanho de cerca de 10e -34 metros, o universo quântico ainda é bem descrito pela tetradimensional geometria clássica de De Sitter … apesar das flutuações quânticas estarem ganhando um interesse crescente.

Que se possa confiar numa abordagem clássica a distâncias tão curtas… é bastante surpreendente… – Tem implicações importantes para o universo, tanto no seu início, quanto no futuro distante. Em ambos extremos… para todos os efeitos… o universo estava/estará vazio.

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No princípio… – as flutuações quânticas gravitacionais seriam tão grandes, que a matéria, ‘pequena balsa num oceano em fúria’, apenas deixaria pegadas…

Daqui a muitos bilhões de anos, devido à rápida expansão do universo… a matéria se diluirá tanto…que não desempenhará mais qualquer função… – Nosso método explica o espaço… nessas duas situações.

A escalas muito curtas … — as flutuações quânticas do espaçotempo se tornam tão fortes…que as clássicas noções intuitivas da geometria desmoronam. — O número de dimensões cai… das clássicas 4… para um valor próximo a 2… No entanto, pelo que sabemos… – o “espaçotempoainda é contínuo semburacos de minhoca“.

Não é tão selvagem quanto o físico John Wheeler, e muitos outros teóricos haviam imaginado… não é um espaçotempo de espumas borbulhantes. A geometria do espaçotempo obedece regras que não são clássicas, nem comuns… porém, o conceito de distância segue valendo.

Agora…nos encontramos em um processo de pesquisar escalas ainda menores… — Uma possibilidade é que nesse caso o universo se converta em auto-semelhante (fractal) para todas as escalas menores que determinado valor… E… se assim for… o espaçotempo não consistirá de ‘cordas’, ou de ‘grãos’…mas sim de um monótono infinito…a estrutura que     se observe por debaixo do umbral apenas simplesmente repetirá a si mesma em escalas cada vez menores… ad infinitum.

É difícil de se imaginar… como físicos poderiam progredir com menos ingredientes e ferramentas técnicas do que as que utilizamos para criar um universo quântico…com propriedades tão realísticas. Todavia, ainda há muitos experimentos a serem feitos…       por exemplo, entender como a matéria se comporta, e influencia a forma do universo.

O objetivo principal desse trabalho, ou de qualquer outro que deseje melhor descrever a gravidade quântica, é a predição de consequências observáveis, deduzidas da estrutura quântica microscópica. Este será o critério último para decidir se o nosso modelo atual,   é, realmente, a teoria correta da gravidade quântica. ******** (texto original) ********  

“O Universo Fractal Autorganizado”                                                                                 O diâmetro do “Aleph” seria de 2 ou 3 centímetros…mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho…digamos) era infinitas coisas… – porque eu a via claramente, de todos os pontos do universo”. (J. L. Borges)

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A “Teoria do Caos” é identificada ao nível macro, tendo como base a física newtoniana. A ‘física quântica’ é uma teoria a nível micro, e … apesar de sua base científica ser clássica, seus desdobramentos vão além… e ajudam a compor, junto à ‘teoria da relatividade’, uma nova física. Articular o caos como fenômeno quântico pode parecer inviável… Entretanto, novas teorias…  –  ainda que “especulativas”, permitem avançar nessa inédita confluência.

A “gravidade quântica” é um dos grandes desafios da ciência contemporânea, pois visa uma peculiar conciliação entre a teoria quântica, e a relatividade geral. A “triangulação dinâmica causal“… – teoria criada em 2008 por Ambjorn, Jurkiewics e Loll propõe um modelo de ‘gravidade quântica’ em que ínfimas partículas individuais do espaçotempo     se auto-organizam, semelhante a moléculas num cristal. A partir daí, pode emergir um espaçotempo tetradimensional… bem semelhante ao nosso.

O curioso é que o desdobramento teórico levou os pesquisadores a um rumo inusitado… ou seja, ‘o universo é auto-similar‘…com estruturas fractais em micro-escala; e uma turbulência quântica, com características caóticas.

As mônadas de Leibniz

O filósofo Gilles Deleuze (1925 – 1995) relaciona as ‘mônadas‘ de Leibniz…com os fractais de Mandelbrot, e o divulgador da ciência James Gleick, também argumenta…que o conceito de auto-semelhança dos ‘fractais’ tem seu ‘berço’ na filosofia de Leibniz. – Já o médico Stuart Hameroff , por sua vez…equivale o conceito de ‘Redução Objetiva’ (OR) de Roger Penrose (versão da “vindoura” gravidade quântica para o ‘colapso de onda’ da interpretação de Copenhague da física quântica) com o conceito de mônada.

Segundo Leibniz (1646 – 1716) a mônada é feita de substância simples…sem partes – que não teme a dissolução…nem começa naturalmente…ou seja, apenas se recombina; sendo totalmente fechada, todas diferentes entre si, cada uma muda continuamente, a partir de um princípio interno.

Leibniz, criticando os cartesianos, observa que, apesar de as mônadas não terem partes, possuem uma multiplicidade, pois na mudança gradativa, algo muda (percepção…que é inexplicável por razões mecânicas), e algo permanece… São também um ‘espelho vivo e perpétuo do universo, pois o que acontece em uma delas, o universo inteiro se ressente.

As multiplicidades dos ‘pontos de vista’ de cada mônada para Leibniz, são integradas pelo ‘Todo’…que é único e perfeito, e teria feito cada porção de matéria divisível ao infinito.

perspectivismo

Aqui nasce um conceito importante em filosofia da diferença, o perspectivismo. Gabriel Tarde (1843…1904) traz alguns acréscimos à conceituação de “mônada”.   A principal diferença para sociólogo…é que as mônadas são abertas…tendem à simetria, e a se juntar.

Seus desdobramentos são muitos…Tarde inclui as ‘mutações‘ no “evolucionismo”,       onde… “os tipos são apenas freios, as leis apenas diques” (ao devir). Já Deleuze vai         unir as 2 versões de mônadas… – incluindo ‘dois andares’… – o de cima, fechado e ressoante… – e o debaixo aberto… com cordas vibrando com o universo.

Lembremos que a proposta de gravidade quântica é uma possibilidade de articulação da física quântica com a Teoria da Relatividade Geral, o que envolve um mesmo constructo teórico para as grandes e pequenas escalas. Ora, uma teoria que dê conta dessas escalas,   e que envolva fractais, também pode permitir o preenchimento do gap que existia entre relacionar a mônada…com conceitos do micro (quântico)…e do macro (Teoria do Caos).

A ‘máquina abstrata’                                                                                                             “Essas relações nos remetem a quê?… O que poderíamos avançar a partir de tais aproximações?… – Primeiramente, ganhamos elementos para pensar o universo como um grande processo de auto-organização”.

manuel de landa

O filósofo Manuel De Landa publicou o livro “A Thousand Years of Nonlinear History” (1997) … onde critica o nosso “chauvinismo orgânico” … – ao afirmar que os processos geológicos, biológicos…e a linguagem, funcionam através de uma mesma “máquina abstrata“…constituída pelos “atratores estranhos“… conceito da ‘teoria do Caos‘.

A “máquina abstrata” é um conceito de Deleuze e Guattari, que diz que “processos de transformação” … acontecem em vários níveis de realidade, no espaço e no tempo. Diferente da máquina mecânica … a ‘máquina abstrata’ é comparável às ‘espécies vivas‘.

O termo “atrator estranho” foi cunhado na década de 70 por Ruelle e Takens, a partir de observação de redemoinhos de fluidos dentro de redemoinhos… – indefinidamente – até chegar na viscosidade do fluido… não se identificando mais redemoinhos. Os autores transformaram números em imagens através da representação em gráficos de ‘espaço de fase’, fornecendo uma visualização para a turbulência.

“Os pontos vagueiam tão aleatoriamente, a configuração surge tão etereamente, que é difícil lembrar que a forma é um atrator. Não é apenas uma trajetória qualquer de um sistema dinâmico. É a trajetória para a qual convergem todas as outras trajetórias. É por isso que a escolha das condições iniciais deixa de ter importância.” (James Gleick)

A utilização peculiar que De Landa faz destes conceitos é a de afirmar que fluxos de magmas e pedaços de granito se organizam em estruturas geológicas maiores como montanhas… – fluxos de genes se organizam em espécies… – e fluxos de dialetos se organizam numa linguagem, sendo que todas as etapas destes processos coexistem.     Nesse sentido, De Landa se coloca entre os pensadores que não separam natureza e cultura, chegando a afirmar… – que o advento do ‘osso’ é uma nova etapa geológica           da Terra, e que as cidades são um ‘exoesqueleto’ do ser humano.

Poderíamos expandir essa máquina abstrata para o universo inteiro,     tanto no nível micro como no macro. O universo inteiro, em todas as       suas escalas… – seria auto-similar (“fractal”) … e “auto-organizado”.

Universo emaranhadofractal e auto-organizado                                                              Mohammad Ansari e Lee Smolin falam de um universo auto-organizado na teoria           dos “loops quânticos” … essa ‘auto-organização’ – porém… não é do tipo “atrator”.

O conceito de quintessência de Brian Greene, que seria uma instância aceleredora da expansão do universo envolvendo a “energia escura“, também sugere algo de auto-organizável, já que essa suposta aceleração… – não desintegrando átomos, permite a continuidade da vida no universo.

Suavemente espalhada por todo o Cosmo, a energia escura (“agente antigravitacional”… da aceleração cósmica) parece beneficiar a vida, impedindo o colapso do universo.

Além disso, com um pouco mais, ou menos de “energia escura” no universo … não haveria material estelar necessário  –  para a vida surgir…

O ‘problema’ porém, será…se este processo se manter acelerando — até… à desintegração dos átomos.

Contudo, um universo auto-organizado, à luz da física quântica, não parece tão estranho, se agregarmos o conceito de “emaranhamento quântico”… a característica das partículas estarem relacionadas simultaneamente em qualquer lugar do universo… – Um universo “emaranhado” poderia ter características de organização…a distâncias incomensuráveis.

A filosofia de Bergson                                                                                                              A física, muito pouco preocupada com a subjetividade, afirma que a intuição humana sobre tempo… – e sua desconexão com o espaço … é uma limitação de nossa cognição’.

De acordo com as ideias de Bergson… – ‘o presente é o que passa‘…e o passado e futuro seriam a coexistência na totalidade do tempo. O que Bergson faz a partir de sua crítica à teoria da Relatividade é, de certa forma, compatibilizá-la com nossa experiência comum,     o “sistema de referência adotado”… – Bergson afirma que o tempo coexiste, e o presente funda nossa experiência do aqui e agora… O tempo que coexiste … é a memória‘.

A propósito, o filósofo já considerava, desde seu primeiro livro em 1889 que o tempo era uma 4ª dimensão. – O que o filósofo fez…foi criar um modelo de consciência compatível com esta ideia… – O cérebro procura uma imagem no tempo…para atuar no presente da melhor forma possível… – preparando o  ‘sensório-motor’  para alguma específica tarefa.

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“Cone da memória” (Bergson)

O ponto “S” é o presente, que contrai no virtual toda a multiplicidade da duração…então experimentada pela consciência. É preciso lembrar que “consciência” aqui não é a de um indivíduo…sujeito…mas uma ‘relação‘, um “campo” entre sujeitos, concebido a posteriori da relação…(Os segmentos… AB, A’B’ e A’’B’’ mostram o processo de contração…ainda no virtual.)

Podemos entender a relação do virtual ao real…como uma espécie de “energitismo“… onde o aumento de densidade é inversamente proporcional ao acréscimo de velocidade.

Como aplicação teórica, podemos assim, relacionar o ponto “S” de Bergson com a mônada em Leibniz, ou seja … a mônada como um ‘intensivo bergsoniano’… – Aqui então o fractal é o intensivo, e o “colapso” de onda é a passagem do virtual ao atual (a formação da função de onda seria justamente o inverso).

Um dos fenômenos que Bergson explica a partir dos conceitos que envolvem o cone é a experiência de déjà vu. Para ele, o déjà vu (ou paramnésia) ocorre quando a lembrança     do presente é muito colada ao presente… – como um papel de um personagem, ao ator.

Seria a “realidade” um controle do imaginário?… Será possível… (no intensivo do cone) dela ser contraída…em formas até então inéditas…ou “impossíveis”?… E, com tudo isso, como ficaria a autorganização?…Quais os seus desígnios…qual a sua Ética? (texto base) *******************************(texto complementar)******************************

Teoria do Caos & Fractais

Contrariamente aos postulados científicos tradicionais que tomam os seres humanos e a natureza como ‘objetos individuais’…a ‘teoria do caos’ sugere um mundo fluído e interconectado, concebido como um todo, onde…assim como na arte… tudo tem um valor intrínseco; o que se deve aos efeitos não-lineares de retro-alimentação.

Os planetas do sistema solar, por exemplo, não podem ser considerados como se seus ‘efeitos gravitacionais‘…não pudessem se acumular ao longo do tempo… — em uma interdependência não-linear. – Se a fraca atração entre um planeta e outro começa a se retro-alimentar… e acumular, com o tempo, alguns planetas poderiam mudar sua órbita… – e até lançados para fora do sistema solar. 

Sob a teoria dos caos, eventos acontecem ao acaso; condições iniciais são determinantes, mas o seu produto… – por ser dinâmico e complexo…implica um resultado imprevisível.

Os fractais representam a geometria da natureza…sistemas dinâmicos         de infinitas retro-alimentações, que não podem ser medidos em termos euclidianos. – Um ‘fractal’… em síntese… – é um modo de ver o infinito.

Apesar do esforço por caracterizar os fractais geometricamente, não há muito progresso na compreensão de sua “origem dinâmica“. – Temos a tendência de pensar que o universo se forma a partir de “estruturas estáticas”, porque a dinâmica que forma estas estruturas tem uma escala maior do que o período de observação… – que pode ser uma ‘vida humana’. Os terremotos que observamos, por exemplo…duram poucos segundos, e a formação da falha parece estática, mas…na verdade…se constrói durante milhões de anos. 

A origem dos fractais é mais um problema dinâmico que geométrico. Suas leis físicas       são locais…mas os fractais nunca se organizam a maiores distâncias – a não ser que sejam… “absolutamente deterministas”… – assim como o …Fractal de Mandelbrot“.

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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Uma resposta para ‘Universo’…um processo Fractal…’Autorganizado’

  1. Heliete Campos disse:

    Magnífico!!!

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