5 poemas (e alguma prosa) do meu querido primo Chico Ayres

“A ciência moderna sugere que o espaço é infinito… em sua geometria plana. — Este é, realmente, um conceito perturbador ao extremo – pois… se o universo é infinitamente grande, nós somos infinitamente pequenos“ (Paul Halpern – ‘Fronteiras do Universo’)

“o Homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras)

Medida.

o núcleo é o homem
interseção
nó górdio
entre o infinitesimal
e a dimensão cósmica 
origem dos "deuses metafísicos"
da multiplicidade das lógicas
e das irracionalidades abissais
núcleo observante do todo,
de percepção limitada

luz e sombras
no vislumbre dos paradoxos -
a emergência da ponta
de fios que se emaranham
no desconhecido

http://aerteslasendadelheroe.blogspot.com.br/2011/01/sisifo.html

SÍSIFO

núcleo é o homem
qual?
o que vivencia
o jogo (de dados?)
ou
o inconsútil (mas fragmentário)
que supomos?
 
contruir/des-
construir
trabalho de Sísifo
o que somos                                                            

Tangran, o cubo chinês                                                                                                                            Musicores
Música é interseção de esferas,
Chuva num lago… Matemática emotiva,
Hábil manipulação de artefatos
                                                                                  Música é interseção entre humanos afetos.

CUBO

1. o físico teórico chinês medita
em posição de lótus 
e incerto visualiza 
o quanta, o tao e a trama
e fugaz ali 
um vago universo

2. medita na luz interna, 
sob a pálpebra cerrada vislumbra o caos...
criação e perda lucidez difusa... 

- que o confunde com a teia...

3. o físico chinês vê contido no mínimo ponto                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     
a energia imensurável...dragão violento comprimido  
no ponto composto da paz... a que atenta.
ft1

Dragões talvez sejam uma das primeiras manifestações culturais da humanidade, com provável origem mitológica nos fósseis de dinossauros. A palavra é originária do termo grego drakōn, usado para definir grandes serpentes. Presença comum no folclore de povos chineses, assumem função e simbologia diversas; de fonte sobrenatural de força e sabedoria, a feras destruidoras…sendo reverenciados como deuses, responsáveis pela criação do mundo – nas pinturas rupestres de aborígines na Austrália, desde 40 mil a.C.

   O “torcedor desvairado”                      (Em nome do contra-desaparecimento)

É da fugacidade  que se nutre… a paixão… 

O que hoje tripudia…

Ontem/amanhã
estará entrevado 

Em pouco se esquece o pouco que temos

Fico com a felicidade                                              que no tempo se esvaiu…

Mas que é minha ainda                          

O tempo nos ludibria…                                             Sendo sempre passado.

***********************rabiscos de boteco************************                                        “Sim… Temos uma noção de tempo… Lembramos de um pretérito; e                                        projetamos um futuro indeterminável. Daí provém toda ansiedade”.

Conforme o prometido, no elevador ontem, envio estes rabiscos de boteco, onde abordo      o assunto de que então tratávamos. Todavia, relendo as notas, percebo que se trata da desconexão da arte… e das pessoas o que me preocupa… — Porque, de certo modo, uma implica a outra…já que a arte, em sua lógica, é sempre o resgate da experiência humana,    em um novo patamar. Uma condição, digamos, para que ela se reconheça (diversa, mas igual a si mesma) e se eleve além da farsa embutida nas intenções, por mais nobres que    se possam crer…E além da farsa – o ridículo que nos torna o que somos, seres sofríveis; grandeza na miséria/ miséria na grandeza.

Quando transformamos… arte — em puro entretenimento,                          estamos nos rebaixando a uma totalizante inconsequência. 

A conexão humana é internacional! Ninguém é só. Blogs, twitter, face, whatsapp…Tudo circula de imediato. Sexo, política, arte e egolatrias… Toda gama do pensamento circula ininterrupta… – Um conto há muito lido… – de ficção-científica… – teria como enredo:     

terrasaturno7

A Terra… vista de Saturno!…

Navegantes espaciais chegam a um planeta … onde fora detectada vida inteligente. Se deparam no entanto, com uma… estranha forma de vida. Talvez vegetaisou corais, não me recordo bem — Não àquilo a que costumamos atribuir inteligência.

Como não tinham como pesquisar suas reações – lentas demais para serem percebidas, decidem colher amostra para estudos posteriores.

Retornam pela imensidão do espaço, viajando não me lembro por quais processos – o que, na verdade, não importa muito. – Deverá a imaginação suprir as falhas do argumento, em nome da possibilidade narrativaRecebem uma comunicação via sintomas (parcialmente delirantes).

Percebem então, que estão em contato com toda a população do planeta abandonado. Através daquele único espécime, pois toda a vida inteligente era uma única vida, uma mente coletiva. Arrancado um só pedaço da colônia de pólipos, este pedaço, por mais distante que estivesse da colônia… – era a própria colônia… em sua… “cumplicidade”.

Este conto está perdido em minha memória. Quase certamente as transformações são maiores que as correspondências com o texto original. Mas como tudo que se perde – assim como o nosso próprio passado pessoal, será sempre uma recriação do presente.

Houve certamente um ingênuo encantamento ao término da leitura.              Era então… uma ideia totalmente nova para mim… e por isso talvez,              seu núcleo… ou caroço pôde sobreviver em minha lembrança. ***************************************************************

Nos tempos de Philip K Dick                                                                                                    Prezado Chico, ao ler este artigo não pude deixar de lembrar quando você me apresentou “O homem do Castelo Alto”…lido (ao som do Gênesis), com muito espanto…lá na casa da vovó.

Philip K. Dick: p/ além do Império (Nelson Job, abr/2021)                                              “A Teoria modifica a realidade que descreve” … (Philip K. Dick)

levon-vardanyan-lnMpo_rhjxs-unsplash“Em um mundo louco…são os loucos que sabem o que está havendo”…assim brada Philip K Dick em sua obra “Vozes da Rua”. Sendo esta uma das raras ‘ficções’ de sua autoria que não é ‘sci-fi’ … o romance é o mais autobiográfico – e…é justamente lá, por ironia – que podemos encontrar esta chave de toda sua obra. Seus textos, com efeito, são muito relevantes a ponto de fazer compreendermos nosso mundoÉ dele provavelmente, a mais fina reflexão sobre essa louca realidade que nos cerca.

Philip Dick (1928–1982) talvez seja o principal autor, de um quase perfeito relacionamento a temas tão variados          e profícuos quanto…Plotino, Spinoza, Leibniz, Bergson, Taoismo…”estados múltiplos de consciência”…Mecânica Quântica…universos paralelos e arte!

Philip Kindred Dick teve uma vida conturbada, casando-se várias vezes, usando drogas pesadas…alucinógenas…desdobrando em surtos esquizofrênicos. Estudou na ‘Berkeley University’… – onde mais se dedicou a estudos sobre Pitágoras, Parmênides, Heráclito, Hume, Spinoza, Leibniz, Bergson, entre outros. Ele próprio se considerava um ‘filósofo ficcional’. – Pode-se dizer ser sua obra uma versão beat da ficção científica até então (década de 1950) “bem comportada”…cujos nomes mais famosos eram Arthur Clarke e Isaac Asimov. Philip Dick é um dos maiores nomes da Nova Onda da “sci fi”, onde já      se mostravam influências da contracultura dos anos 1960. Em seus contos e romances, Dick tinha como temas a realidade e seus simulacros — incluindo as relações natureza-cultura, principalmente a explicitada na questão homem-máquina“…e um recorrente questionamento acerca de ‘Deus’…Seus personagens, em geral, eram homens da classe média baixa, deprimidosmuitas vezes usuários de drogase seus cenários futuristas, retratavam um lado sombrio … sem muitos fetiches com naves, alienígenas, lasers, etc.

Pode-se considerar Philip Dick como o maior precursor da cultura cyberpunk, cujo maior expoente no cinema é o filme “Matrix” (1999)…que, literalmente, tende ao ‘underground’.  Várias são as adaptações cinematográficas de suas obras – e dentre elas“Blade Runner” (Ridley Scott, 1982), “Vingador do Futuro” (“Total Recall”, Paul Verhoeven, 1990), assim como “Minority Report” (Steven Spielberg, 2002)são as mais conhecidas. Mas, em seu torpor afetivo-existencial entre humano e replicante(típica paranoia philipdickeana), “Blade Runner” segue sendo o mais esplendoroso exemplo de um ‘filme artístico de ação’.  Já no conto “A Formiga Elétrica (1969)…que podemos comparar com “A Metamorfose”, de Kafka, o personagem Garson Poole acorda num hospital depois de sofrer um acidente,    e lá é revelado que ele é uma formiga elétricaandroide programado para se achar um ser humano). A partir daí Poole faz uma série de experimentos com sua ‘fita de memória’ (análoga ao cérebro humano) … nos quais o personagem volta no tempo … e “se desliga”.

No ato de sua morte ele pergunta à sua secretária se ela vai deixar de existir, pois o mundo dele poderia ser falso … enquanto ele realmente começa a desaparecer… e só… “os ventos continuam soprando”.

A_FORMIGA_ELETRICANesse, que é um dos maiores contos da ficção científica, Philip Dick nos traz uma abordagem de transformação    da percepção onde o humano…para o androide…é memória; e o androidepara o próprio androide, seria humano … pelo menos, até a imposição humana de sua nova condição. A partir daí, o antigo humano, para os humanos, se torna androide. No mundo desteem sua morte – todo um mundo morre…Será sua secretária só uma memória implantada? E neste caso, ela seria real?      A memória falsa teria um estatuto de “realidade”?…E    ele próprio…seus sentimentos; suas vivências íntimas?

Em outro romance de Dick “O homem do castelo alto(1962), que se tornou minissérie no ‘streaming’ conhecemos uma realidade alternativa onde os alemães ganharam a 2ª Guerra, e os EUA eram habitados por vários japoneses que formavam sua elite econômica. Tem-se então notícia de um ‘livro pirata’ (confiscado) — cujo autor joga o oráculo taoísta “I Ching” para tomar decisões sobre cada personagem de uma realidade alternativa, onde os aliados venceram. — Além disso, o autor também nos diz que seu livro foi escrito com o auxílio do “I Ching”, e nos sugere jogá-lo para saber sobre fatos e coisassupostamente inexistentes. Tal como o filósofo chinês Chuang-tse, conhecido por não saber se sonha com a borboleta, ou se esta é que sonha com ele…K Dick estabelece uma relação intrínseca entre universos!

No livro “VALIS” (2007), Philip Dick nos apresenta o personagem, que se mostra um delírio dele…“personalidade falsa”, cuja revelação divina o leva lentamente à loucura.        O próprio autor é narrador e personagem do romance. ‘VALIS’ é conceituado logo no início do livro como: “uma perturbação no campo da realidade no qualum vórtice negentrópico automonitorador se forma…de um modo espontâneo, tendendo a incorporar seu próprio ambiente de informações”. Numa obra que combina ‘teoria            da informação’ e teologia, Jung, Spinoza, Heráclito, T. S. Eliot, ‘dupla hélice’ (Crick e Watson), animismo e números de Fibonacci K. Dick nos leva a uma jornada, onde        não sabemos o limiar de…ficção e realidade – loucura e sanidade – ciência e religião.

Sabendo-se que o autor realmente comenta que teve uma visão divina          em 1974, e a relata em um manuscrito até hoje mantido parcialmente inédito chamado ‘Exegesis‘ (2011)…tal qual o personagem de “VALIS”, Philip Dick introduz o leitor … em seu próprio universo – para assim,      partilhar de suas angústias em relação a Deus, realidade, morte, etc.

Usando pensamentos oriundos…sejam da ciência, filosofia ou religião, Dick nos põe a pensar sobre a problemática da realidade com consistência filosófica. Se no magistral artigo…How to Build a Universe That Doesn’t Fall Apart Two Days Later(1978) ele relaciona a disparidade entre Heráclito (tudo muda) e Parmênides (tudo permanece),      afirmando que a realidade não existe…poderíamos amenizar um pouco esta paranoia dizendo que a realidade é múltipla. Para Dick “realidade é tudo que continua quando    você deixa de acreditar nela”. Por outro ladoo filósofo Maurice Blanchot vai definir          o escritor em geral em relação à realidade da seguinte maneira A irrealidade começa com tudo… O imaginário não é uma estranha região situada além do mundo;          é o próprio mundo, mas o mundo como conjunto, como o todoSobre essa questão, Gilles Deleuze diz: “Pecar por excesso de realidade, ou imaginação, é a mesma coisa”.

Em um conto chamado “A fé dos nossos pais” (1967),      Dick nos mostra um empregado do governo que recebe      uma dose de medicamento anti-alucinógino, e a seguir, começa a perceber que o líder nacional é um monstro,      sem uma forma definida. Mais tarde, junto a um grupo subversivo, descobre que outras pessoas, que tomam o medicamento, veem o líder de variadas formas, e que a    água do país foi contaminada por alucinógenos. – Para Philip, nesse caso, a verdadeira realidade é múltipla; o controle da realidadeno entanto – é empregado para  torná-la única e, a partir daímanipular as pessoas.

Em sua “Exegesis…o autor considera esse conto, ao lado de seu romance “A penúltima verdade” (1964) – que descreve uma população inteira no subsolo da Terra convivendo com imagens falsas feitas pelo governo, nas quais se vê uma Terra devastada a Terra porém, está intacta sendo desfrutada por uma elite – o melhor exemplo em sua obra    da solução dos problemas da realidade. Com base nos filósofos David Hume e Henri Bergson, ele afirma que o tempo é múltiplo…coexistente — e que as relações de causa e efeito são falsas, ou seja – o problema e a solução acontecem simultaneamente – então, para alcançar a solução – seria uma questão de refazer o problema…recriar a realidade.

Em “Os 3 estigmas de Palmer Eldritch” (1964), nosso autor relaciona mais uma vez o questionamento da realidade, e de Deus, junto às drogas. Nesse livro, o personagem Palmer Eldritch vende a droga Can-d com o seguinte slogan: “Deus promete vida eterna nós cumprimos a promessa”. Aqui é apresentada uma noção de realidade que se aproxima do pensamento de Bergson: “A luz é a base do jogo de fenômenos que chamamos realidade”.

K. Dick é um dos escritores que mais faz ressoar … ontológica e epistemologicamente,      vários níveis de realidade – fazendo-os coexistir. Se apreendemos o cosmos como um      nível infinito de…”modulações vibracionais” cujas restrições são domesticadas por convenções, o autor denuncia tais convenções, e convoca nossa vida a uma existência, ainda que angustiada, mas tomada pelos múltiplos afetos e “acontecências” possíveis.      Em uma de suas obras-primas: “Fluam minhas lágrimas, disse o policial” (1974) Dick      nos apresenta Jason Taverner, que acorda num mundo … onde ele mesmo não existe.    Sua namorada, amigos etc. não o reconhecem e não existe qualquer registro de sua existência. O enigma se resolve pelo uso da droga KR-3, alterando ontologicamente a percepção cerebral do espaço. Segundo Dick, um fato similar aconteceria depois com      ele, evidenciando mais uma vez sua ‘experiência VALIS’, e a coexistência dos tempos.

O tema das drogas volta mais intensamente em “O Homem Duplo” (1977)…Nele, Dick conta a história de um policial infiltrado, cujo disfarce toma a sua vida, viciando-se na Substância D (de ‘death’, morte). O livro se baseia em experiências do próprio escritor,        e seus amigos. A duplicidade do personagem ecoa na mente cindida entre efeitos da droga e o mundo convencional. Em depoimento ao final da obra, o autor escreve uma homenagem aos citados amigos… “Esses camaradas que tive não existem melhores.    Eles continuam em minha mente, e o inimigo nunca será perdoado o erro cometido      em brincar. Que todos brinquem de novo de outro modo, e sejam felizes”. (texto base*****************************(texto  complementar)******************************

O jogo da memória em “A Idade do Serrote”; Gabriel da Cunha Pereira (UFJF)  “Uma das minhas manias era querer ver o sono, o exato milésimo de segundo em que adormecia, o traspasso da vigília ao sono. – Absurdo…sei, por isso mesmo fascinante”. 

murilomendesMais do que o entendimento que Murilo Mendes tem da memória, como um processo de reconstituição … voluntária ou involuntária, de um passado … ele a percebe como parte integrante de um ‘fluxo contínuo do saber’… — A importância que o escritor mineiro dá…à atividade memorialistaé concernente com o seu método criativo,  uma vez que ela funciona, como mais uma ferramenta para chocar passado, presente e futuro… Indo mais além, deseja-se provar que a reconstituição do passado é um instrumento para transformá-lo, subvertê-lo, relê-lo criticamente. Através do relato memorialístico Murilo revive o passado… — livrando-o de uma definição acabada.

O tempo em “A Idade do Serrote” está em constante movimento,                  não havendo, assim, como delimitar passado, presente e futuro.

O uso que é feito da colagem… da reunião e aproximação de objetos e forças a princípio distantes, do deslocamento desses últimos de seu contexto original para reorganizá-los, num contexto diverso (tal como acontece na atividade surrealista dos sonhos)…sempre acompanhou a escrita muriliana…seja ela poética ou em prosa, adquirindo significados novos, impensados anteriormente. O escritor relembra que, o fragmento é relevante no momento em que transparece também a presença e o fascínio pelo absurdo … presente      em Murilo, e que lhe é mais caro – quando surge em sua obra como estratégia de um novo discurso… – parte integrante de um pensamento menos opressor – e mais amplo.

O absurdo constitui, portanto, mais uma estratégia de fuga contra um dos pontos sobre    os quais o escritor discutia abertamente: a prepotência da razão. Para o grupo surrealista, era preciso subverter uma realidade repressora – que tem como instrumentos de poder o racionalismo, o positivismo, as normas sociais pré-estabelecidas…A imaginação, o desejo,  e o absurdo… – são as armas que esse movimento de vanguarda dispõe… para escapar da alienação que lhe está sendo imposta – para que se possa ver o que não se enxerga – sem antes desbanalizar a vida real… — “Movido por um instinto profundo… sempre procurei sacralizar o cotidiano, desbalanizar a vida real, criar ou recriar a dimensão do feérico”.

O que se nota é um único movimento entre passado, presente e futuro, estabelecido no momento em que a memória é acessada…e o passado, irrealizado como…”circunstância”, abre-se para a aquisição de novos significados…se atualizando…ganhando força…se tornando presente.

evandro-schiavone

“Música onírica” Evandro Schiavone

A Idade do Serrote” se estrutura ao aproximar épocas… pessoas…e lugares, ampliando fronteiras de espaço-tempo.  Uma outra concepção de…tempo … em Murilo Mendes…começa a surgir já em sua infância. As palavras ‘antigamente’, ‘naquele tempo’, ‘outrora’…’há séculos’, o impressionavam muito. — Ele queria saber se seria possível colar os tempos, uns nos outros; se o tempo era vertical ou horizontal… Tendo mais presente a ideia de tempo que a de espaço, talvez por isso…desde cedo se ligou à música.

Essa memória recriada adquire importância…uma vez que, ao ser transformada, modifica também a realidade, abrindo-se à realização futura da utopia, que a rigor, é simplesmente passado resgatado, visto por um observador, noutro tempo e espaço. A importância dessa obra se revela quando, nessa memória reinventada … infância e adolescência mostram-se como precursoras de ideias e concepções que se estabelecerão futuramente…O que então, se pretende estabelecer é um elo entre passado, presente e futuro, num único movimento.

O futuro é assim, a realização do passado que existia apenas como uma projeção anterior do futuro…visto como um campo de possibilidades aberto a múltiplos devires. Pelo devir concretizado se explica a origem – sem que se possa fixá-la como acabada. O passado e a memória são lidos criticamente, tornado-se mais uma fonte de significados; e o universo pode ser reduzido a uma grande metáfora…plástica, musical e científica. Todas as coisas implicam intersigno, alusão, mito, alegoria. Em ‘A Idade do Serrote’, pela reconstituição da memória…o escritor, numa “transubstanciação do real”… mostrará que a imaginação, principalmente no período da infância… é um processo comum a todos nós. (texto base)    **********************************************************************************

O sonho (Clarice Lispector)

Sonhe…com aquilo que você quer ser…porque você possui apenas uma vida, e nela só          se tem uma chance de fazer aquilo que quer. — Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte… Tristeza para fazê-la humana… – E…esperança suficiente para fazê-la feliz… As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades … que aparecem no caminho. — A felicidade aparece para aqueles que choram…que se machucam…que buscam…e tentam sempre.        Para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passaram por suas vidas.

criança

Aldeia “Porteira” da etnia Xerente no estado de Tocantins. Foto: Mauro Vieira/MDS.

Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, íntima doçura e vontade de chorar; criança dormindo
É minha pátria… Por isso, no exílio — assistindo dormir meu filho… — Choro de saudades.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi: Não sei. De fato, não sei…Como, por que e quando a minha pátria. Mas sei que é a luz, o sal e a água…Que elaboram e liquefazem a minha mágoa, em longas lágrimas amargas. Vontade de beijar seus olhos… De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…Sem sapatos e sem meias – pátria minha…Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho Pátria…semente que nasci do vento. Que não vou e não venho. Eu, que permaneço em contato com a dor do tempo…elemento de ligação entre ação/pensamento; fio invisível no espaço de todo adeus. Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido de flor; tenho-te como um amor morrido,  a quem se jurou… Tenho-te como uma fé sem dogma… Tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito. – Nesta sala estrangeira com lareira… E sem pé-direito […] — Mais do que a mais garrida a minha pátria tem uma quentura, um querer bem… Um “libertas quae sera tamem”… Que um dia traduzi num exame escrito: “Liberta que serás também”…E repito!

Ponho no vento o ouvido, e escuto a brisa, que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha…e perfuma o teu chão. Que vontade de adormecer-me entre teus              doces montes…Atento à fome em tuas entranhas, e ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha…Teu nome é pátria amada – é patriazinha
Não rima com mãe gentil… Vives em mim como uma filha, que és… Uma ilha                      de ternura: a Ilha Brasil, talvez… – Agora chamarei a amiga cotovia, e pedirei                    que peça ao rouxinol do dia… – Que peça ao sabiá… Para levar-te presto, este                avigrama: — “Pátria minha, saudades de quem te ama… (Vinicius de Moraes)    

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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2 respostas para 5 poemas (e alguma prosa) do meu querido primo Chico Ayres

  1. Cesarious disse:

    Hino Brasileiro para 6 Pianos (ao vivo)…Wagner Tiso, Arthur Moreira Lima, João Carlos de Assis Brasil, Nelson Ayres, Amilton Godoy e Antonio Adolfo (Engenhão/2011)

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