A “realidade transcendente” (em perspectiva)

“O ‘aprendizado humano’ é diferente da aprendizagem de outros animais… – O                homem aprende a fazer bem alguma coisa, numa — ‘escala de excelência’ — em                    que pode… avançar ou recuar… – em um sentido ‘imanente’ de transcendência”.

lua11Não existe, obviamente, um conceito único de ‘transcendente’…A palavra tem sido usada em vários sentidos, porém… sempre significando, literalmente… — “o que é…ou vai além” … Na filosofia medieval … chamavam-se “conceitos transcendentais”… aos mais ‘universais’… ou, àqueles além das diferenças entre categorias.

Mais tarde, passou a designar o ‘supra-sensível’, além do espaço-temporal…Se acreditarmos que      o homem tem uma “relação essencial” com algo ‘supra-sensível‘ … tal como nas ideias de Platão,  ou um Deus…para além do espaçotempo, então,    a denominaríamos ‘relação transcendental‘.

Hoje…duvidamos do ‘transcendente– como uma “região divina”…’extramundana’. Muitos falam do metafísico neste mesmo sentido…e, quando dizem que a metafísica acabou, querem dizer que uma crença transcendente não mais se pode justificar. Mas,        o ‘transcendente’ tem em 1ª instância, um “sentido ontológico, ou seja, refere-se a    um ‘ente‘… e, também pode-se dizer que seu uso tem um “sentido antropológico.  Somos uma espécie animalmas isto não significa que nada nos diferencie dos outros animais. Existe um ‘traço distintivo’…surgido da evolução…que se entende de forma natural, assim como outras características surgiram. – Esta é a postura ‘naturalista‘.

Nietzsche foi um dos filósofos mais importantes entre os que propuseram a doutrina naturalista…criticando, por consequência, o ‘transcendentalismo’. Segundo ele, já não temos boas razões, nem bons motivos para acreditar em Deus…Num célebre aforismo, descrito na “Gaia Ciência“… Nietzsche designa este fato como…”a morte de Deus“.  Todavia, ele se distingue de outros naturalistas, pelo fato de ter levado muito a sério a característica humana de transcender…para algo. Com efeito, para a vontade humana parece ser necessário que todo querer seja entendido em relação a um sentido de vida.

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Umsentido de vida”                                   ‘Ao invés de obedecer valores dados,                  o homem cria seus próprios valores’.

Aos clássicos, o ‘sentido da vida’ consistia na relação com o ‘transcendente sobrenatural’… ou seja, com Deus…Nietzsche afirma, porém, que já não podemos manter esta crença, pois nossa vontade mergulha primeiro num vazio. E a isto… Nietzsche denomina… “niilismo“:  Antes de nada querer, a vontade quer o nada. 

Para ele, o conceito do transcender humano – do ir além, adquire um sentido mais amplo. O conceito básico agora é – o de estar dirigido a um sentido de vida… e, o fato deste sentido consistir em algo ‘supra-sensível’…é somente, um conteúdo entre outros (um mero detalhe).

Nietzsche…por isso, viu sua tarefa numa reavaliação de valores, segundo a qual os homens considerariam o sentido da vida na própria vida… – Isso significaria uma “transcendência” voltada para o interior do próprio ser humano. Nesse caso, poder-se-ia então, falar de uma ‘transcendência imanente‘…cujo ir além…não seria algo “sobrenatural”…mas “um ir além do Ser do homem”. Para Nietzsche…se os valores da vida não nos são dados por um Deus, devem ser criados pelos próprios homens”. Com efeito, a ideia de ‘criação’ é central em sua obra, e a melhor forma de compreendê-la é pela arte. Pode até soar convincente que arte é o que dá sentido à vidaporém, Nietzsche acreditava que os valores morais, se não vindos da religião, devem ser vistos como fundamentados no estético…Mas, como devemos redefinir a ‘vontade humana’…se devemos entendê-la como sendo a base, tanto da moral como do estético?… – Sua resposta foi “o Ser do homem (e não só do homem, mas de todo ser vivo) … tem que ser compreendido – como uma … vontade de poder“.

Com este conceito… vontade de poder“… – Nietzsche acreditou responder a todas as perguntas que lhe teriam ficado abertas… Por um lado, acreditou poder interpretar toda arte como ‘expressão do poder’…por outro, o egoísmo seria a motivação básica de toda atividade do homem, inclusive, das atitudes morais… Além disso (e isso, para Nietzsche, era o aspecto central) – a ideia de “vontade de poder” podia cumprir com o requisito de “transcendência dentro da imanência“. A vontade de poder seria entendida como  “fonte de ação”…que, por si mesma, pressiona a um ir além… o que daria sentido à vida.

Dessa forma, Nietzsche afinal pensava ter encontrado a estrutura, não só do homem; mas de todo ser vivo…e natural. Mas há obviamente uma série de objeções. A mais grave delas é que Nietzsche nunca esclareceu…rigorosamente, sobre como se deve entender a palavra ‘poder‘… Assim como a usa, misturam-se 2 sentidos. A princípio, significa poder sobre a vontade de outros, mas as palavras força e potência também podem denotar ‘capacidade’.

Antropologia filosófica                                                                                                            Somente com a palavra poder entendida no sentido de capacidade, é que Nietzsche é capaz de interpretar criação e arte como manifestação de uma ‘vontade de poder’.

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Naturalmente, o uso da palavra…”força” pode ter uma multiplicidade de sentidos. Pode…por exemplo, ter sentido de ‘força física’…como ‘poder dominador’; apesar de Nietzsche também a usar, no sentido de um ‘domínio interior’… de si próprio.

Não obstante, ainda que admitíssemos que a motivação de toda ‘ação humana’ fosse egoísta…não parece plausível que     a meta de todo egoísmo seja o domínio   do outro…É isso que se pode contestar, também contra a ideia de que … toda a ‘atividade biológica‘ visa a dominação.

Como os outros animais evidentemente não se relacionam com o problema do sentido da vida, não parece que com a tese de que “a vontade de poder é essencial para o conceito de vidaNietzsche tivesse encontrado resposta à questão de como entender o biológico, em geral; nem como entender o especificamente humano — e, em particular, aquele traço de ‘transcendência imanente’. Nietzsche perde assim o ‘fio condutor’ dado pela pergunta do    ir além…do “sentido da vida” – pois o que é essencial no ser do homem é uma pergunta a ser tratada por uma disciplina própria, que já se concretizava em ‘antropologia filosófica‘.

Esta, por sua vez, distingue-se da antropologia, enquanto ‘etnologia’ (estudo de diferentes culturas humanas)…sendo usada para designar o que é que distingue o homem…em geral, de outros animais… Entretanto, o fato de que hoje pouco se conheça sobre essa disciplina, só pode ser explicado…”historicamente”. – Apesar de toda filosofia a partir de Platão…ter como núcleo a pergunta pelo modo como devemos entender a nós próprios — ou seja…”o que é o homem?“…na filosofia tradicional, a orientação para o ‘supra-sensível’, fez com que… — se considerasse a “metafísica como a disciplina primária da filosofia.

Além disso, um pouco mais tarde, nos anos 20 (século XX) formou-se na Alemanha       uma corrente denominada ‘antropologia filosófica‘, cujos principais representantes,    foram Scheler, Plessner, e também Heidegger… – Por isso, pode-se então dizer        que a antropologia filosófica é a herdeira da metafísica, devendo assim, ser considerada a “filosofia primitiva” de hoje. Foi por esta razão que se estabeleceu tal disciplina na 1ª metade do século passado…Já o seu desaparecimento se deve – em    grande parte, à influência da excêntrica filosofia de Heidegger – onde a pergunta metafísica pelo Ser… supostamente… substituiu a pergunta concreta pelo ‘homem’.

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O desafio de Nietzsche…                          “O Homem é uma corda estendida por cima de um abismo, entre o animal e o Super-homem.” 

Talvez Nietzsche tivesse razão, ao afirmar que quando prescindimos do sobrenatural, temos que seguir entendendo o Ser do homem como indo além, ou seja, como transcendental. Mas ele poderia estar equivocado ao entender esta ‘transcendência imanente‘ como “vontade de poder“. – Talvez a tarefa consistisse então, em retomar a problemática da antropologia filosófica, e repensá-la, dando ênfase justo à…”transcendência imanente“… No início do século 20, efetivamente, já havia surgido um novo sentido para a palavra…”transcendência“…na teoria do conhecimento.

O problema parecia ser… – Como o sujeito sai de si mesmo,                            e…pode alcançar o conhecimento dos objetos da realidade?

Esta relação – do sujeito com objeto… foi chamada por alguns epistemólogos alemães da época de “transcendência“…o sujeito transcende a um objeto. Heidegger porém, indicou, como Husserl já havia feito, ser esse um ‘falso problema’. – O sujeito não existe primeiro dentro de si, para depois sair ao exterior… – ele sempre já está…intencionalmente“…em relação com objetos. (entretanto, apesar de rechaçar este falso problema epistemológico,  Heidegger não consegue se livrar totalmente dessa terminologia. — Mantém a expressão “transcendência” para a “intencionalidade”, numa relação do “ser humano” com ‘entes’).

Ocorre porém, que tal conceito de transcendência imanente não representaria uma alternativa à concepção de Nietzsche. – Hoje em dia… pode-se considerar que Scheler e Plessner empreenderam caminho mais produtivo, apesar de fraco em detalhes. – Entre    si, eles se indagavam: Como distinguir uma ‘consciência humana’ da de outros animais?  Qual seria a característica humana?…E a resposta era que – enquanto o animal se situa  imerso no seu meio ambiente, reagindo a ele; no homem tem lugar uma ‘objetivação‘;    ele objetifica o meio – relacionando-se com objetos… e assim, objetifica-se a si próprio.

Este pensamento está em evidente contraste com o de Nietzsche…e, de outra maneira, também com o de Heidegger… — O contraste em relação ao pensamento de Nietzsche         deve-se ao fato de que este entende seu ‘naturalismo’ de uma maneira que a diferença   com os outros animais pareça secundáriao homem é movido pelo instinto de poder, tanto quanto outros animais. Já Heidegger, se negando a ver o homem como ‘animal’, desaprovava o método de explicá-lo evolutivamente, recusando o conceito de ‘objeto’.

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‘pyramid technology’ (by maspix)

A linguagem transcendental  

Em relação a Plessner…2 aspectos são relevantes: : o fato de que o homem, ao confrontar-se com seu próprio ‘ser’  (na “objetificação”) é conduzido a um ‘pôr-se em questão’ que não está nem em Nietzsche…ou em Heidegger…:    O homem não está em equilíbrio nem consigo, nem com o mundo…Por isso, busca equilíbrio externo – ao peso do ‘desassossego’ de seu próprio existir.

Nesse sentido, tal como Nietzsche…Plessner enfatiza a significação da ‘arte’ e da ‘criação’ para a harmonia do ‘ser humano’. – No entanto, enquanto Nietzsche tentou…com pouca plausibilidade, entender a ‘criação’ como um ‘vislumbre subjetivo’ da ‘vontade de poder’, Plessner a viu, como uma manifestação de seu desequilíbrio…na busca de “contrapesos”.

Se em Nietzsche, a transcendência imanente consiste numa dinâmica de crescimento,  em direção a um ir alémque não deixa de ser puramente subjetivo – na “epistemologia”, consiste numa relação estática sujeito/objeto. De igual modo, fundamentalmente estática, foi a concepção heideggeriana de…”transcendência”…a despeito de certa dinâmica na sua concepção de consciência…enquanto “desvelamento”. – Já em Plessner, a transcendência imanente se estabelece num novo sentido… tão dinâmico quanto o de Nietzsche, mas não unilateralmente subjetivo…e tampouco consistente com uma mera relação sujeito-objetomas em um aprofundamento desta relação O sujeito não pode mais se contentar com a superfície das coisas… – tem que penetrá-las… aprofundando assim sua relação com elas.

Essa transcendência de “ir além“…não é simplesmente uma dinâmica de crescimento do poder, ou da capacidade do sujeito… – muito menos, como em Heidegger, relação entre o homem e o Ser – mas, um transcender da “consciência humana”…em todas suas relações consigo, e com o mundo…rumo ao “fundo das coisas”. – Mas, como deveríamos entender isso? Plessner, com sua ideia “objetificadora” – contenta-se em indicações superficiais;   enquanto que…aquela primitiva…”antropologia filosófica” – simplesmente constata uma estrutura na qual…o homem distingue-se dos outros animais – sem, ao menos, se perguntar como esta diferença pode ter-se desenvolvido no curso da “evolução biológica”.

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A “estrutura proposicional linguística”

Entende-se que a ‘linguagem instrumental’ tem tido uma função biológica…estendendo sua estrutura, por toda a complexidade da vida humana… Nesse sentido… – de ter que dar vários… – e, sempre mais passos… a um fundo das coisas — parece necessário encontrar uma nova base…para podermos entender melhor a “transcendência imanente”. – Na verdade,  Aristóteles já tinha dado uma resposta à pergunta de como se distinguem os homens dos animais, que parece mais produtiva como fio condutor…ao invés do conceito de ‘objetificação‘…e fez isso recorrendo à ‘linguagem’…Scheler e Plessner não a levaram em conta…e Heidegger dela nada falou – que fosse útil.

Aristóteles, em sua filosofia…diz que é característico da linguagem humana possuir uma estrutura proposicional…Enquanto a linguagem dos animais tem uma função segundo a qual reagem ao ambiente, a estrutura predicativo-proposicional proporciona ao homem      a possibilidade de se dizer coisas que independem da situação corriqueira… E, com isso, conecta-se o fato de que estes possam falar do bom…e do justo (esta reflexão encontra-    se no início da sua “Política”). E assim Aristóteles conclui que os homens podem formar grupamentos políticos, porque podem entender que algo é, mutuamente, bom para eles.

Em Aristóteles, tem-se que entender a motivação para o ‘bom’, em contraste com a motivação para o prazer… E, o que distingue a perspectiva do bom da do prazer é a deliberação. – O objeto formal da deliberação prática é o ‘bom’, enquanto que o             objeto da deliberação teórica é o ‘verdadeiro’. – A característica do homem é que            ele fala e pensa em proposições, tanto teóricas, quanto práticas… – sendo, por isso,          um ‘ente deliberativo’… Nenhum desses aspectos é encontrada nos outros animais.

Confrontado com uma proposição, o homem pode consentir ou negá-la; e, por isso, pode também pô-la em dúvida, questioná-la; e, por conseguinte, deliberar. Confrontar-se com algo dito, ou pensado na modalidade da deliberação – portanto… significa perguntar por razões; e, isso significa perguntar-se pelo que se pode dizer a favor, ou contra a asserção.

Nesta… “tomada de distância” – neste poder de tomar                           posição…a favor ou contra, somos livre, temos opções.

Plessner insistia que o homem tem que se “pôr em questão”… por objetificar as coisas. Todavia, torna-se mais evidente justamente o contrário… – a razão pela qual o homem está objetificando coisas e a si próprio, é que se relaciona a tudo, através de uma…lógica proposicional“.  E junto a esta linguagem proposicional, necessariamente…aparecem diferentes aspectos, representando diversos lados da mesma moeda…’questões’…’razões’, ‘proposições’, ‘deliberação’ e liberdade.

Ser “livre” é…

Quando Aristóteles diz que – para o entendimento humano, a linguagem proposicional (lógos) é essencial – isso significa que o homem é o animal racional, que pode perguntar por razões – ou seja…o ente deliberativo…’livre’. Confrontando com o que tínhamos visto em Plessner – trata-se de uma estrutura bem mais fundamental que a mera objetificação.  Um aspecto relevante dessa linguagem é a relação sujeito/predicado. Se o homem tem que falar das coisas, consequentemente, tem que objetificá-las; e deste modo, chega a ser também objeto para si próprio. – E…como tudo o que diz ou pensa pode ser colocado em questão, isso afeta também sua relação consigo mesmo. Assim pode-se entender por que razão…uma espécie com tal característica, desenvolveu-se tanto na…’evolução biológica’.

Se…simplesmente assumirmos que o homem objetifica-se a si mesmo,            isso é algo que não se pode explicar ‘funcionalmente’. Entretanto isso também acontece se dissermos – assim como no “existencialismo“,        que o homem é um ser… – “essencialmente livre“…(por natureza)

Ser livre então, seria algo sem função biológica compreensívelMas, se dissermos que a espécie tem capacidade de sequestionar por razões‘ – essa é uma nítida vantagem dentro da “evolução“…pois implica num novo “nível cognoscitivo”… – que permitiu ao pensamento uma “evolução instrumental” em larga escala. – E, dessa forma…também o conceito de ‘transcendência imanente pode agora adquirir um ‘sentido mais nítido’.  Vimos que, em Plessner, tal conceito se refere a um “aprofundamento” no modo de nos relacionarmos com objetos. Este procedimento porém, adquire transparência quando o usamos através do conceito de dar razõesTrata-se aqui da tensão entre ‘aparência’ e ‘verdade’, ou na deliberação prática entre o bem aparente, e o bem verdadeiro… A mera ‘opinião’ seria a aparência, e se podemos dar sempre melhores razões, passamos de um nível a outro. Isso seria a… ‘transcendência imanente‘ – constitutiva do ‘saber humano‘.

Erich FrommDe volta à…”Fenomenologia”

É certo, que essa é uma matéria onde apenas podemos especular…  – Empiricamente, não sabemos como nossa espécie se desenvolveu, contudo…podemos, ao menos, elaborar uma hipótese que faça sentido. — Ao invés de nos confrontarmos diretamente com a questão… vamos considerar dois pensadores do século 20, que se encontram à margem da filosofia:  o psicanalista Erich Fromm, e a filósofa Iris Murdoch que muito têm contribuído no esclarecimento da questão… — Fromm não compartilha da preocupação dos antropólogos, de procurar uma ‘característica central’ que diferencie o homem dos outros animais…Com base numa concepção hegeliana, segundo a qual, todo o ser…e, em particular, o “humano” consiste numa “síntese de antíteses”…Fromm parte da pergunta pela “felicidade humana”.

Na ‘Fenomenologia do Espírito’, Hegel mostra que o homem não chega a satisfazer-se, se somente devora, ou domina o que encontra…O que pode satisfazê-lo só pode ser algo tão independente quanto ele; também com autoconsciência e autonomia. A mera dominação do outro não leva a satisfação alguma. Com isso…Hegel anteviu a refutação de Nietzsche:

“Só no espelho do outro… e, de um outro igualmente autônomo,                        o homem chega a uma satisfação. E, a experiência assim se faz,                    na medida em que – no outro…sua afirmação tem significado”.

Toda Fenomenologia do Espírito” consiste…em graus sempre mais complexos, desta simetria…e, é esta concepção que Fromm aplica à psicologia, em sua busca pela felicidade. O homem encontra-se, segundo Fromm, em dicotomias…vê-se isolado e só pode chegar à felicidade, dando ao outro o peso que dá a si próprio. Fromm demonstra este princípio de simetria, particularmente, em 2 aspectos do comportamento humano … o ‘entendimento’, e o ‘amor’. No amor forma-se uma convivência, cujo perigo é a ‘unilateralidade‘…ou cada parte quer dominar a outra, ou uma quer dominar… e a outra – submeter-se. Somente se cada um livremente aceita a igualdade do outro é que ambos podem chegar ao bem-estar.

Fromm constrói uma concepção análoga para o ‘entendimento’ — não podemos chegar a entender uma coisa ou pessoa se somos meramente passivos… ou reflexivos… – Para que possamos penetrar na realidade, além da superfície … temos que ativar o nosso “poder imaginativo“.

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“Dimensões de profundidade”   

A ativação de nossas “capacidades”, dirigida pelo respeito por tudo com que lidamos, resulta…para Fromm, numa recusa à “ideia nietzschiana” de poder e potência Segundo ele, relacionar-se ‘simetricamente com coisas e pessoas… depende de cada um. Poder no sentido de domínio é uma perversão deste mesmo poder no sentido de potência (significando aqui a capacidade de relacionar-se com o mundo).

Quanto à problemática da ‘transcendência imanente’…Fromm fala de profundidade da realidade das coisas e pessoas. Segundo ele, o “desejo de poder” nasce da incapacidade      do indivíduo para relacionar-se produtivamente com o mundo. Em suas ideias, vemos conceitos já encontrados em Plessner… – de ‘simetria na relação entre sujeito e objeto’ (peso e contrapeso). Há porém, uma ‘diferença estrutural‘ entre o que dizem Plessner, Fromm, e a filosofia de Aristóteles; pela qual, na estrutura proposicional a ênfase está      na razão. – Para os dois primeiros, há uma estrutura entre sujeito e objeto; sendo que,  esta estrutura – em diferentes aspectos… mais parece… “dimensões de profundidade”.

Essa ambiguidade na diferença entre esses 2 tipos de…’dimensão de profundidade’:  ‘Deliberação‘…a partir de Aristóteles – e uma dimensão entre ‘sujeito e objeto‘,  conduzindo à ideia de ‘simetria‘; como se apresentou a Plessner e Fromm, se deve            a uma ‘origem comum’. Isso porque…quando surge umalinguagem proposicional‘,        traz perguntas por ‘razões’…e ‘objetivação de entes’ – seja no mundo, ou no sujeito.

Iris Murdoch, por sua vez, também usa o conceito de ‘transcendência’, mas num sentido menos descritivo, e mais normativo… – A pergunta é…como devemos ser?“… Seu tema central é atenção“…termo pego emprestado de Simone Weil…que muito a influenciou.  A ‘obrigação central’, para Murdoch… – é desenvolvermos uma viva atenção à realidadecomo sentido de verdade das coisas. De acordo com suas ideias a verdade nunca está na superfície, e por isso…a “atitude de atenção” exige um equilibrado esforço de percepção.

Uma das preocupações de Murdoch é mostrar que o problema de…‘abrir-se                          para a realidade das coisas’…é universal, tanto parte da estética quanto da                          moral…‘uma experiência de se aprofundar na realidade’…Como se dissesse                          diante de uma obra de arte… “isso é mais real do que o resto da realidade”.                          Assim, a palavra realidade adquire sentido similar ao conceito de atenção.

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“O desejo esmagador de um corpo humano por outro é um dos maiores mistérios da vida.” (Iris Murdock)

Murdoch, Nietzsche, Fromm & Platão

Comparemos agora a posição de Murdoch…com a de Nietzsche…Enquanto a “transcendência imanente” e      o “sentido da vida” em Nietzsche consistia em um crescimento de si próprio, para Murdoch, significava um crescente abrir-se para a realidade…na aquisição        de uma coisa boa. – Poder-se-ia imaginar um debate entre os dois, em que Nietzsche diria que todas estas ‘escalas de excelências’ seriam simplesmente, passos    de alguém – para poder… ‘desfrutar-se de si mesmo’.  Contudo, para Murdoch… ainda que seja certo que o homem ache satisfação quando faz bem as coisasé notável que… – grande parte da ‘felicidade humana’, consista… – justamente, em… “fazer coisas boas“.

Nesse caso, um bom exemplo se encontraria ao analisar o conceito de amar uma pessoa.  Nietzsche havia insistido no “aspecto possessivo” de todo amor… e este aspecto inegável, está igualmente em tudo o que queremos fazer bem. – No entanto, por outro lado, amar uma pessoa implica ‘ser tocado’ pela “profundidade” de seu ser – o que…para Murdoch, seria sua “realidade”… – E isto então, abre a possibilidade de preferir a felicidade desta pessoa, a simplesmente ‘possuí-la’… nos situando em uma “dimensão de profundidade”.

Segundo o conceito deliberativo de Platão … O “bom” está além do de “ser”.

A palavra “bom” refere-se a um comparativo de ‘preferência’, que assume uma pretensão de ‘objetividade’, ou pelo menos de ‘intersubjetividade’… Quando dizemos que uma coisa  é melhortrata-se de uma preferência da qual se supõe não ser só minha. Já o conceito de “preferência” remete a um “querer”…e este – o temos em comum com outros animais. O que outros animais não têm…é a capacidade de compreender-se dentro de uma escala, em que a multiplicidade de coisas, ou ações…são classificadas como melhores, ou piores.  A volta de Murdoch às especulações de Platão, nos faz estender o conceito de dimensões de profundidade a esta característica humana na “evolução biológica”, que nos distingue dos outros animais, isto é, poder perguntar pelo que é ‘praticamente’ melhor; bem como indagar do conceito de “deliberação” sobre o que é bom… – na busca do…”melhor juízo”.

Com a consciência de si e com o saber dos outros (que também tem uma consciência de si), necessariamente aparece a ideia de que os outros são como eu…e isso significa que, junto com o egoísmo surge a possibilidade de um altruísmo explícito…sem regras fixas. Ora, se Fromm tem razão, este altruísmo – especificamente humano…não é uma mera possibilidade abstrata. É, naturalmente, uma possibilidade real…e, como tal, faz parte do que é para os homens uma ‘vida boa‘. (Ernst Tugendhat)…artigo original (em PDF)  **********************************************************************************  “Penso que hoje, pelo menos, estamos distanciados da ridícula imodéstia de decretar, a partir de nosso ângulo, que somente dele pode-se ter perspectivas…O mundo tornou-se novamente infinito para nós… na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade dele encerrar infinitas interpretações”. [Nietzsche (1844-1900)…”Nosso novo infinito”]

Nietzsche

O “Perspectivismo” em Nietzsche

Perspectivismo é a designação corriqueira, para a suposta teoria do conhecimento de Nietzsche, cuja ideia básica resume-se nas seguintes palavras… não há fatos, apenas interpretaçõesou… “mutatis mutandis”: “isso é interpretação e não texto” – trecho de… Para além do bem e mal.  Ao dizer que perspectivismo é precisamente aquela teoria do conhecimento que se desenvolve em Nietzsche…já tocamos em, pelo menos    2 problemas 1º) saber se há algo do tipo teoria do conhecimento, nos escritos de Nietzsche… 2º) como tal teoria poderia se inserir num debate epistemológico atual.

“Perspektivismus”, no limite a uma definição unívoca, não ambígua, significa a afirmação de uma…”pluralidade irredutível de sentidos”. – A genealogia do termo, antecede a Nietzsche Para alguns, foi Leibniz o introdutor de seu uso no modelo “monadológico“. E Kant o teria também usado na “filosofia transcendental“.              A discussão contemporânea sobre o ‘perspectivismo’excede em muito os limites de Nietzsche, porém é sobretudo graças à sua influência que o termo se dissemina          pela filosofia, e alhures…O seu uso em Nietzsche, se torna o centro das discussões        acerca de sua obra; sobretudo a partir da década de 1960 mesmo sem haver um        mínimo consenso sobre o seu significado. – Toda investigação a respeito do tema,          lida com um amontoado de fragmentos; peças soltas de um ‘quebra-cabeça’ cujas        muitas possibilidades de interpretação … constituem-se “criativas reconstruções”.

O quebra-cabeça do perspectivismo em Nietzsche é marcado por uma                          incompletude característica, que leva o intérprete a colher, em algum                                    lugar fora da imanência dos textos nietzschianos as peças que faltam.

Com relação ao perspectivismo, portanto, torna-se particularmente pertinente a ideia de que interpretar é criar. E são muitas as possibilidades de sua reconstrução – tantas…que retomá-las amiúde equivaleria a compor toda uma história da filosofia…desde Nietzsche, até os dias atuais. Contudo, ainda podemos “pôr as cartas na mesa”, mostrando quais os delineamentos básicos das posições em jogo… – E, justamente para isso…utilizaremos 5 linhas interpretativas centrais no debate acerca do perspectivismo nietzschiano; a saber: 

a)Perspectivismo metafísico”                                                                                              “O mundo visto de dentro, definido e designado conforme seu ‘caráter                                inteligível’ – seria justamente… ‘vontade de potência’ … e nada mais.”

Diversos intérpretes compreendem o ‘perspectivismo’ como uma ‘doutrina ontológica’. O problema central com que têm de lidar, deriva de que Nietzsche, ao atacar a ontologia e a metafísica, parece não dissociar delas uma profissão de fé…Ele afirma, por exemplo, que:

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Salvador Dali – “A tentação de Santo Antônio

“A… ‘força inventiva‘…  que tem recriado categorias…labora a serviço da necessidade, isto é, da segurança, do entendimento rápido … à base de sinais e sonidos, de ‘reducionismos’.

Nos casos de…“substância”, “sujeito”, “objeto”, “ser”, “devir”, não se tratam de verdades metafísicas… Os “donos do poder” é que…do ‘nome de coisas’, fizeram ‘leis’ … e, entre os poderosos, os grandes artistas abstratos…foram os ‘bons artífices’ de suas categorias”.

Dessa constatação fica difícil imaginar como se poderia interpretar o perspectivismo como uma espécie de ‘ontologia’. Os que defendem essa posição, no entanto, se servem de outras passagens de Nietzsche – em que este suprime a possibilidade de uma “teoria do ser”… em nome de uma teoria do devir, referida em seus últimos escritos, por “vontade de potência”.

A questão que surge aí… é como se dá… – em Nietzsche… o acesso a essa realidade perspectivisticamente estruturada, e em que sentido o “perspectivismo ontológico”               não repõe aquilo mesmo que ele pretende negar. Essa é uma das ‘questões cruciais’              a serem enfrentadas numa reconstrução do perspectivismo…Heidegger a enfrenta,            ao elaborar uma interpretação designada aqui como… “perspectivismo metafísico”;    interpretação eminentemente crítica do ‘perspectivismo’ – na qual, apesar de todo      esforço crítico, o pensamento de Nietzsche é visto tão metafísico como o de Platão:

“Por meio de qual todo centro de força … e não apenas o homem – construiu,                      partindo de si mesmo… – todo o resto do mundo… – quer dizer que o homem                        mede, apalpa e aplaina o mundo, segundo suas próprias forças”. (Nietzsche)

Heidegger considera o “perspectivismo” como metafísico, porque para uma teoria perspectivista, segundo ele, não se trata de conhecer o ser, nem sequer o ente…Na      medida em que entende que esse ser que conhece … é o sujeito a partir do qual, se        lançam as ‘perspectivas’. Heidegger o entende como uma forma de subjetivismo:            “Vontade de potência se revela…como a subjetividade que se distingue por pensar                o ente enquanto tal … no sentido desta subjetividade – como vontade de potência”.

No ‘perspectivismo nietzschiano‘ se revela com toda clareza que o motivo fundamental da metafísica não é conhecer o ser…mas dominá-lo – ao explicitar que a relação entre sujeito e objeto é uma relação de poder, pensada em termos de ‘vontade de potência’… – E assim, a história da metafísica termina…e a ‘alienação do ser’ passa a se identificar com a técnica.  Entretanto, parece-nos que Heidegger comete um excesso ao ler o “perspectivismo” como uma forma de “metafísica da subjetividade” … pois uma das bases do perspectivismo está precisamente na crítica da noção moderna de ‘subjetividade‘… – que Nietzsche entende como obra do processo de “substancialização“… resultante de nossa crença na linguagem.

b) “Perspectivismo fenomenológico”                                                                            Apesar de jamais termos como esgotar uma multiplicidade de possíveis interpretações do texto do ser, é o ser mesmo que aparentemente se desvela, em várias interpretações.

Ernst Mach

L’auto-portrait de Ernst Mach

No que diz respeito ao…perspectivismo…a influência na leitura fenomenológica de Jean Granier se faz sentir, sobretudo fundamentada no conceito hermenêutico do Ser, de certo modo já formulado em Nietzsche, que não o teria abolido, ao conceber que: “todo Ser existe, como  Ser-interpretadoSegundo Granier“Em Nietzsche, o ‘dualismo da aparência’ é superado como manifestação real… – Ao afirmar o perspectivismo do conhecimento, ele defende um pluralismo ontológico, onde o Ser tem por essência – mostrar-se…sob vários pontos de vista”.

A noção nietzschiana de perspectiva, é assim associada  à de fenômeno, não no sentido fenomenalista kantiano, mas no sentido da fenomenologia. Cada perspectiva é uma “aparição”, uma manifestação da “coisa mesma”, do ”real”, do Ser que se desvela de infinitas formas. A noção de perspectivismo se imbrica com a de “interpretação“, de modo que assumindo esta última noção, Nietzsche impõe a definição do Ser como “texto”…“O Ser é como um texto que precisaríamos da exegese.

Assim, enquanto a ideia de perspectivismo enfatiza mais o caráter de desvelamento do Ser, a ideia de interpretação acentua seu ‘caráter equívoco’. Conforme Granier, Nietzsche teria defendido um “realismo pluralista” – uma ontologia da pluralidade, que pensa o ser como texto fundamental – ou seja… ‘vontade de potência’ transcrevendo um texto fragmentário, estruturado em múltiplas perspectivas… – Segundo Granier…uma “ontologia do caos”.

O principal problema em interpretar o perspectivismo como uma ontologia, ou metafísica como quer Heidegger… decorre de que encontrar em Nietzsche um ‘realismo’ – ainda que pluralista, se não é propriamente inviável, soa como algo forçado. – Nietzsche faz ataques diretos à postura realista… parecendo – por vezes… oferecer o ‘perspectivismo’ como uma alternativa a essa forma de pensar. Acresce a isso a dificuldade que a ideia da “vontade de potência” como um texto fragmentário plural tem, ao enfrentar o problema de conciliar a ideia do “texto do ser”… com a tese central do “perspectivismo“… – que afirma haver apenas interpretações… – negando assim… que haja um…“texto fundamental”… sob elas.

c) “Perspectivismo transcendental”                                                                                     O perspectivismo seria uma resposta de Nietzsche à pergunta transcendental, pelas condições de possibilidade do conhecimento… e assim, uma superação de Kant — na medida em que…situaria tais condições de possibilidade, dentro do próprio mundo’.

Auto-Retrato-Escher-1935

Se o perspectivismo não é uma ‘ontologia’, ou seja, não é uma descrição do mundo, mas em certo sentido uma epistemologia, isto é… – uma tentativa de descrição do que se passa no “plano do conhecimento”, então…uma questão reflexiva se impõe como ponto de partida para sua própria compreensão. – Trata-se de saber se a tese básica do perspectivismo seria retro-aplicável, ou seja, se ao enunciar a proposição “todo conhecimento é perspectivo” poderíamos acrescentar… — sem cair em contradição… — que… inclusive ‘p’ é perspectivo.  Ou seja… trata-se de investigar a possibilidade da tese perspectivista ser consistentemente auto-referente ou necessariamente uma tese auto-refutável. Desse modo o “perspectivismo” suscita problemas do “relativismo”.

O perspectivismo transcendental seria o desdobramento da tradição epistemológica moderna – em especial…da filosofia de Kant. – Para Nietzsche, a estrutura cognitiva do homem, isto é, sua subjetividade transcendental… – estaria marcada por essa… “perspectividade“.

Baseado em uma passagem da “Gaia ciência” que diz… – Não podemos enxergar além de nossa esquina: é uma curiosidade desesperada querer saber que outros tipos de intelecto e perspectiva poderiam haver”…Volker Gerhardt afirma que… – “todo conhecimento está vinculado a perspectivas”. Segundo ele, Nietzsche tem consciência de que, dessa maneira, traz à expressão uma constituição do ‘conhecimento humano’ – que se aproxima bastante daquilo que Kant compreendia como condições transcendentais“não concebemos a realidade ‘exatamente’ como ela é em si… — mas apenas… — como ela ‘aparece’ para nós”.

Nietzsche pensava que a pergunta “o que posso saber?”…seria – como em Kant, precedida pela questão “o que é o homem?”…Entretanto, o homem surge em Nietzsche como um ser finito, natural e histórico em sua existência concreta no mundo. – Dessa forma…afirmar o pertencimento do homem ao mundo não significa negar que haja características humanas universais – pois esta… “perspectiva transcendente”… se situa na base de todas as demais.  A maior dificuldade das reconstruções transcendentais do perspectivismo… deve-se a que Nietzsche rejeita, em diferentes momentos, uma distinção entre níveis discursivos. Nesse sentido, a principal ‘objeção perspectivista‘ ao kantismo consiste em que este não pode justificar, senão por meio de uma hipótese, inspirada na crença no valor incondicional da verdade que…ainda que o conhecimento que temos do mundo seja… fenomênico“… o conhecimento que temos das condições de possibilidade do conhecimento do mundo…ou seja, o discurso de segunda ordem… – não seja fenomênico… mas ‘transcendental‘.

kybalion2.gifd) “Perspectivismo semântico”

Uma outra…”interpretação lógico-analítica” do ‘perspectivismo’ é aquela articulada por Steven Hales e Rex Welshon, que não se valem apenas          de…”ferramentas analíticas”… — para pensar o ‘perspectivismo, como também se servem dele      frente à filosofia analítica contemporânea…Tal projeto se definiria na tentativa de formular        um consistente…relativismo auto-referencial,        conforme ao…”Perspectivismo”…de Nietzsche.

O problema da consistência do relativismo, com efeito, tão antigo quanto a própria filosofia… poderia – segundo Hales – ser colocado em outro patamar…por meio da formulação de uma semântica perspectivista baseada na relação entre osmundos possíveis”… de Saul Kripke – acoplado às…’intrigantes perspectivas nietzschianas’.          Esta semântica consiste na introdução de certos operadores nalógica modal‘, de      maneira que…formular um ‘relativismo’ consistente, significaria empreender uma          ampla reconstrução a partir de uma “teoria perspectivista da verdade” como unificação das reflexões de Nietzscheque assumem um “caráter sistemático.

Tendo em vista o problema da auto-referência do perspectivismo (puzzle of perspectivism)… – Hales e Welshon defendem que Nietzsche dispõe de uma                        “ontologia anti-realista”…que culmina numa ‘epistemologia contextualista‘.

O termo “perspectivismo” ganha assim, vários significados, podendo ser referido a uma lógica, uma ontologia, uma epistemologia, uma teoria da causalidade, ou atéteoria da consciência, todas igualmente perspectivistas. Desse modo o perspectivismo semântico surge como um novo alento para uma tradição em extinção. Certamente, são muitos os méritos dessa sofisticada versão semântico-modal perspectivista. Seus efeitos e alcance    no debate analítico contemporâneo porémainda dificilmente podem ser mensurados. 

e) “Perspectivismo pragmático”

Baseados no ‘pragmatismo’…tanto o da tradição norte-americana de William James, quanto em sua forma linguística mais recente…derivada das posteriores reflexões de Wittgenstein — são vários os ‘intérpretes‘ que propõem um tipo de “reconstrução do perspectivismo”…aqui designado como “perspectivismo pragmático”. A despeito de divergências específicas… – o livro “Nietzsche as philosopher de Arthur Danto, que adquiriu o status de “clássico” – continua sendo o modelo de leitura pragmática do ‘perspectivismo’. No contexto da filosofia analítica, Danto reconstrói o pensamento          de Nietzsche… em termos que fazem dele – um raro…”precursor” desse movimento. 

pragmatismoSegundo Danto, Nietzsche raramente foi tratado como filósofo … e nunca, a partir da ‘perspectiva‘…que compartilha, em certo grau… da “filosofia analítica” atual. Muitos filósofos têm se preocupado com pesquisas em lógica e linguística, pura e aplicada – mas…Nietzsche não pode ser visto só como influência no ‘movimento analítico filosófico’, mas – ‘predecessor’.

As afinidades de Nietzsche com a ‘filosofia analítica’ não são tão evidentes em outra parte quanto em sua preocupação com a linguagem. Vemos problema após problema… atacado por ele, em referência aos…’modos enganosos de expressão’ – empregados em toda parte. Pareceu-lhe uma natureza dos homens serem seduzidos pela ‘gramática falada’  e assim, implicitamente acreditarem descrever o mundo – quando o mundo tal como concebido é apenas reflexo da estrutura de sua linguagem. – Assim, Nietzsche lidaria com problemas clássicos da filosofia; não tendo em vista resolvê-los – mas dissolvê-los numa “terapia da linguagem” como pseudo-problemas cujo sentido estaria contido na frase do ‘Crepúsculo dos ídolos’ “Receio que não nos livraremos de Deus … pois ainda cremos na gramática”.

Percebe-se aí…que uma leitura pragmática do ‘perspectivismo’ parte necessariamente de uma afinidade com Wittgenstein na qual…“a filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento de nosso entendimento pelos meios da nossa linguagem”…É a sedução da linguagem, no dizer de Nietzsche, ou as ilusões gramaticais, nas palavras de Wittgenstein, que nos leva    a substancializar itens linguísticos – isto é… a crer o que “sujeito”…“objeto”…“ser” … etc, seriam… – mais que meras ‘funções da linguagem’… – fiéis entidades substanciais.

Nietzsche e Wittgenstein‘Utilitarismo pragmático’ & ‘critério de verdade’  Perspectivas para Nietzsche podem ser como “jogos de linguagem” assim como “formas de vida” de Wittgenstein parecem ‘tipos nietzschianos’. Ambos desenvolvem a abordagem linguística como práxis social, definindo significado/verdade, em termos de uso/utilidade.

A proximidade entre perspectivismo e pragmatismo pode ser evidenciada também no que diz respeito à ‘teoria da verdade’. Segundo Danto, abandonando o ‘correspondencialismo’, Nietzsche adota um critério pragmático de verdade, ou seja: p é verdadeiro e q é falso; somente se p funciona, e q não”. Desse modo não só há uma ‘teoria perspectivista da verdade’, afastando sua filosofia das formas mais cruas de ceticismo e relativismo… como tal teoria é ‘pragmática’, pois estabelece como critério de verdade a eficácia, desempenho; enfim, a “utilidade”… E, é isso o que Nietzsche quer dizer, quando define verdade como:

“a espécie de erro sem o qual uma determinada                                               espécie de seres vivos não poderia sobreviver”.

Segundo Heidegger… — de uma forma resumida — a pretensa ‘verdade do conhecimento’ consiste… ou reside… na sua utilidade para a vida…“O verdadeiro é o que projeta uma utilidade prática … e somente segundo o ‘grau de utilidade’, pode-se avaliar a verdade do verdadeiro… – A verdade não éde modo algum, algo que seria por si só avaliado – pois consiste – justamente… no caráter avaliável de uma utilidade … capaz de ser alcançável”.

É também a partir da problematização da noção de utilidade em Nietzsche, que diferenças entre ‘perspectivismo’ e ‘pragmatismo’ podem ser concebidas… NaGaia ciênciadiz ele:

gaia ciência

“Não temos nenhum órgão para o conhecer…para a “verdade” … nós “sabemos” (cremos… imaginamos)  exatamente, tanto quanto pode ser útil ao interesse  da espécie humana. E, mesmo o que aqui se chama “utilidade“… é, afinal, somente uma crença…uma imaginação… e, talvez… – precisamente…a fatídica estupidez da qual um dia certamente pereceremos”.

Nietzsche não parece disposto a “comungar” … com a tendência utilitarista do pragmatismo… – ainda que entenda que o critério de verdade – de alguma forma, se encontra na ‘utilidade’. É que ele pensa a utilidade, como luta… Útil…no sentido da biologia darwiniana, isto é – que se revela propício na luta com os outros”.

A adoção de um critério pragmático de verdade no perspectivismo pressupõe assim que,   as perspectivas não são ‘incomensuráveis’, como os jogos de linguagem de Wittgenstein, mas que se estabelecem lutas entre perspectivas; ‘relações de poder’ que constituem um espaço conflitual ‘interperspectivo’…em que cada perspectiva combate pela supremacia.      Todavia, a leitura pragmática ao perder de vista que a relação entre verdade e poder é a base da ‘epistemologia perspectivista’, não é capaz de perceber que o perspectivismo se complementa… e se esclarece… por meio de um ‘agonismo (“espírito de competição”)

Problema nada pequeno, na medida em que esta seria a contribuição que                            uma reflexão sobre Nietzsche poderia trazer ao “movimento pragmático”.

Uma “teoria metafísica da correspondência”                                                                Não é possível uma ‘verdade absoluta’ que corresponda em sentido                          metafísico ao equivalente do “ponto de vista de Deus”…mas seriam                                    possíveis – “múltiplas verdades” … diversamente correspondentes,                                    porque baseadas em… “pontos de vistas” – distintamente situados.

Notadamente influente na literatura sobre Nietzsche é a reconstrução neokantiana do perspectivismo, elaborada por Maudemarie Clark. Segundo a autora, Nietzsche parte de uma crítica à “teoria metafísica da correspondência“…para propor uma versão de neokantismo que, nesses termos…pode ser incluída sob a rubrica do “perspectivismo transcendental“…“Tal como vejo”, diz Clark… “Nietzsche concorda com Kant, no fato    de que não conhecemos coisas em si…e, contrariamente a Descartes – pela verdade que somos capazes de revelar ao não satisfazer a uma teoria metafísica da correspondência”.      Clark entende que o “pensamento epistemológico” de Nietzsche se desdobra em 2 fases. Uma denotaria uma espécie de ceticismo, decorrente da aceitação da noção da verdade, como…correspondência irrealizável…Nietzsche teria assim criado o que Clark chama tese da falsificação, segundo a qual todos nossas sentenças falsificam e distorcem a realidade. A verdade seria portanto, pressuposta, como uma ‘coisa’ em si incognoscível,    da qual todo conhecimento seria sua falsificação…Tal tese é claramente auto-refutativa, pois: “se todo conhecimento é falso”, também o é a proposição que afirma isto. E assim, Nietzsche abandona a ideia de uma correspondência metafísica…renunciando à tese da falsificação, ao aprofundar a crítica à coisa em si quando da criação do ‘perspectivismo’. 

Haveria em Nietzsche um…realismo perspectivista…para o qual sempre a realidade manifestar-se-ia como real, nas diversas perspectivas dos vários esquemas conceituais      de que dispomos. Assim, o problema da teoria da correspondência não seria a ideia de ‘correspondência’ enquanto tal, que segue sendo o ‘modelo’ a partir do qual se pensa a verdade; mas a imposição de uma correspondência única“…O correspondencialismo entende ser possível múltiplas relações…todas vinculadas a um mesmo referencial – o  qual – contudo… é inconcebível fora dos esquemas conceituais de nossas perspectivas.

No que diz respeito especificamente à abordagem de Clark…parece por demais forçosa a atribuição de um “correspondencialismo”… ainda que mínimo, a Nietzsche. Sua crítica à noção de verdade ganha radicalidade – quando a lemos como uma objeção frontal a esta vertente…E, com efeito, o perspectivismo parte da negação da existência de fatos…o que implica na impossibilidade do estabelecimento de relações “correspondenciais”… Assim,    o perspectivismo assume uma postura “anti-realista”…  sem exercer todas as concessões que o “realismo interno” faz. (texto base…”Cadernos Nietzsche”…2010…Thiago Motta)   **********************************************************************************      “Permanecei fiéis à Terra, meus irmãos…com o poder de vossa virtude. Que vosso amor seja pródigo, que vosso conhecimento sirva ao sentido da terra. – Eu vos imploro, e vos conjuro a isso. Reconduzi à Ela, a virtude desvanecida (ao corpo e à vida)…para que ela lhes dê seu sentido… Um sentimento humano!…” (Nietzsche ‘Also Sprach Zarathustra’)      ******************************(texto complementar)*******************************

O ‘Perspectivismo transcendental’, de Werner Krieglstein
Quando a humanidade reconectar-se com o resto do mundo físico,                                   inaugurar-se-á uma ‘consciência cósmica’ cuja relação entre suas                                         próprias individualidades fazem parte de uma natureza maior.

Perspectivismo

Friedrich Nietzsche, dentro de seu ‘perspectivismo‘, argumentou que, nenhuma ciência que seja objetiva ao extremo, pode existir … porque nenhuma ideologia pode perdurar  à revelia da… influência … de uma simples … “percepção individual“.  Considerando que … o produto de qualquer percepção individual… é limitado – não somente – por sua existência física; mas também em suas próprias crenças e pressupostos, formados da cultura e história únicas do sujeito; a conclusão dessa reflexão filosófica é que nenhuma ‘verdade absoluta’ (ou transcendente)   pode existir, pois… para isso, precisaria transcender os limites (subjetivos) da percepção.

No sentido tradicional da realidade objetiva, uma verdade transcendental conhecida por um perceptor seria igualmente válida para o outro, porque transcende cada uma de suas percepções individuais. Esta relação porém, é desigual… — na medida em que a verdade transcendental sobrepõe-se à individual. Assim, donos de uma ‘verdade transcendental’ são agraciados com uma autoridade única sobre outros, que desconhecem esta verdade.

No “Perspectivismo”… a ausência de qualquer verdade transcendental deixa o sujeito com uma verdade que só é válida a partir de sua própria perspectiva. Sua verdade então, torna-se arbitrária, e o outro se transforma em um mero objeto de formulações dessas verdades, só percebidas pelo próprio perceptor… – Isso fez Nietzsche refletir sobre a justificativa de situações comuns ao autoritarismo – conflitantes com o ‘senso moral’ de muitos filósofos.

Para qualquer verdade dada… o objetivo de um “perceptor” é                            compreendê-la. – Em qualquer relação criada…essa verdade                        pode ser compartilhada solidariamente com outro perceptor.

O ‘Perspectivismo transcendental’ argumenta que cada verdade é produto do perceptor; no entanto se 2 perceptores compartilham uma verdade, então essa verdade transcende cada perceptor individual. Contudo, este fenômeno não se dá, pelo fato de um perceptor convencer o outro sobre a validade de sua verdade obtida, mas sim… pela união de duas verdades alcançadas por cada perceptor. Assim, a ‘percepção do outro‘ desempenha um “papel fundamental”… – no desenvolvimento de uma… – “verdade transcendental“.

Um dos principais aspectos do “Perspectivismo transcendental”…é que a transcendência de uma verdade não pode ser obtida à força… Ou seja, se uma verdade alcançada por um perceptor é forçada no outro…essa verdade não transcendeu então…a ambas percepções.    E a dominação do outro, não aceitando uma verdade compartilhada, produz subjugação.

O “perspectivismo transcendental”… é uma ‘filosofia híbrida’ – que mistura o ‘Perspectivismo’ de Nietzsche…com os ideais utópicos do transcendentalismo. Desafiando a afirmação de Nietzsche… de que não há verdades absolutas, leva adiante sua “própria observação” — de que toda verdade só pode ser – de fato conhecida… no contexto da percepção, com a possibilidade de um sentimento recíproco entre os envolvidos na troca (o “emissor”… – eo “receptor”).

Em suma, uma verdade transcendental só pode ser alcançada quando                                    dois ou mais indivíduos se dispõem a trabalhar juntos…na construção                                    de uma realidade justa, compartilhada…e verdadeira. (texto original******************************************************************

O ABSURDO DE SER HUMANO                                                                                              O ser humano as vezes só parece humano, pela sua capacidade de se apegar a          absurdos presos nos delírios da menteque só fazem sentido à vida da nossa            espécie, ao passar pela experiência de existir numa forma orgânica, naquilo a                    que chamamos razãoA natureza do bicho homem parece indecifrável. Uma        fantástica hipérbole de tudo… ou uma grande perturbação onde a natureza                      então se transmuta – ao pleno…”absurdo“…que a humanidade faz das coisas.

A natureza das coisas é fluente, sem encanações, sem entraves, sem comparações. Ela simplesmente flui em sua essência; mesmo as mortes apenas fluem na natureza. Uma estrela findando sua vida, uma “supernova”, vulcões em erupção, explosões estrelares    não passam por nenhum júri antes de acontecerem…Acontecem, sempre parte de um processo maior, e ninguém lhes aponta dizendo se isso é bom ou ruim. Não há o dedo      de um Deus julgador na natureza, o Deus da natureza apenas flui com ela, fluidez que    essa característica intrínseca do homem parece não conseguir admitir e tomar para si.  Criamos teias imensas de complexidades nas entrelinhas… – E, só nos desesperamos, quando percebemos a impermanência das coisas…quando notamos a não linearidade      de tudo, transitando… numa dança infinita… de um polo a outro. – Não conseguimos apenas aceitar, contemplar. Criamos estratégias, para fugir do ritmo cósmico natural.

the_garden_of_earthly_delights_by_boschHieronymus Bosc (“Jardim das Delícias Terrenas – O Inferno”)

A humanidade é…”absurda”. Uma das maiores questões filosóficas e antropológicas é justamente a que indaga sobre o entendimento… de onde se dá o limite entre natureza e cultura…que pode ser lida como  o ato de pintar tudo que é natural, na tonalidade hiperbólica própria do absurdo, à qual o homem é tão apegado… — Onde a natureza das coisas … passa a ser transmutada, em direção à…’incompatibilidade’  que a Humanidade faz das coisas.

A mente e a racionalidade são ferramentas essenciais para auxiliar essa caminhada em busca do saber. Mas elas também podem criar armadilhas, que nos colocam em estado        paranoico de pânico e confusão. – Porque, as vezes, querer ser capaz de entender tudo, antes de se jogar na experiência pura de existir, pode ser a maior “auto-sabotagem” de todas. Há muito mais no universo, que o sistema ‘bem e mal’, criado e seguido por nós.    Há muito a ser apreendido através de ferramentas que saem um bocado dos limites da cognição lógica e racional … presa nesse sistema tão falho, e tão nosso… de perceber, e interpretar o mundo. Há muito mais ligação entre as coisas que existem em todo lugar         da vida e do universo do que nossa percepção lógica é capaz de conceber e interpretar.

É por isso que devemos estar cientes das armadilhas da nossa mente. Quando julgamos alguém por aquilo que aparenta ser…dentro do limite de nossas concepções individuais, estamos reduzindo nosso potencial de uma consciência mais plena das coisas… Quando    só alocamos nosso pensamento em polos extremos, quando confundimos “auto estima” com egocentrismo, e nos auto depreciando… depreciamos o mundo… – negamos nossa capacidade de ser um pouco mais simples, e menos complexos… do que meros mortais.  Quando temos a capacidade de olhar para dentro…e encontrar o mundo, e olhar para o mundo e encontrar em tudo um pedaço de nós, experimentamos um tipo de divindade. Não a do Deus humano julgador, mas do Deus fluindo da natureza. Da consciência que existe e interliga tudo o que há. – Quando temos essa simples possibilidade, de apenas contemplar, entramos um pouco mais em sintonia com o universo, mesmo que jamais deixemos de cair no… “abismo da existência“… de sermos humanos demais. (Obvious*********************************************************************************

krishnamurti

O Eu(por Alan Moore) 

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu… – estamos inevitavelmente, cumprindo com a vontade do universo — no qual  cada alma — é a alma do ‘Todo‘. 

Nessa tradição mística… já os alquimistas buscavam a ‘coisa interior’, por trás do intelecto, do corpo, e sonhos… Nosso ‘dínamo interior’ é a coisa mais importante que podemos ter… – o conhecimento do verdadeiro ‘Eu’. Contudo, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas, que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu…mas também, parecem ter a urgência por obliterarem-­se a si próprias… Isto é horrível, mas pode-se entender o desejo de sumir com essa ‘consciência‘… – pela enorme responsabilidade de possuir tal coisa tão preciosa, como uma ‘alma‘…Não seria melhor acalmá-­la, destruí-­la, para não viver com a dor de lutar por ela – e tentar mantê-­la inocente?…Talvez por isso as pessoas mergulham em qualquer dos vícios que nos fazem engolir, numa tentativa deliberada de destruir toda “conexão pessoal”…que nos possibilite a responsabilidade de alcançar um…”Eu superior”.

Estudando a história dopensamento mágico“…e o ponto em que tal caminho começa a dar errado, me parece que este ponto é o “monoteísmo”…Ou seja, ao olharmos a história da ‘magia’, vemos suas origens nas cavernas, suas origens no ‘Xamanismo’…’Animismo’;  na crença de que tudo o que nos rodeia…cada árvore, cada rocha, cada animal, foi (ou é) habitado por algum tipo de essênciaou espíritocom o qual podemos nos comunicar.

E, ao centro, você tinha um xamã…um visionário – que seria o                       responsável por canalizar as ideias úteis para a sobrevivência.

No momento em que se chega às ‘civilizações clássicas’ – até certo ponto…tudo isto foi formalizado.  O “xamã” atuava somente, como intermediário entre as pessoas e os espíritos… – Sua posição…na aldeia…imagino ter sido… assim como um ‘encanador espiritual’.  Cada um no grupo – tinha a sua função… — O melhor na caçada, tornava­-se “caçador“… Já quem melhor falasse com os espíritos,  talvez…por ser um pouco louco, então – tornavam-­se… “xamã“.

Eles não seriam mestres de uma arte secreta – mas os que espalhariam sua                    informação pela comunidade…pois se acreditava que isto era útil ao grupo.

Quando vemos o surgimento das culturas clássicas…tudo isso se formalizou para que houvesse panteões de deuses, e cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes    que, até certo ponto, atuariam como intermediários…instruindo na adoração a estes deuses. Então, a partir daí…a relação entre homens e seus deuses…que pode ser vista       como a relação entre humanos e seus ‘Eus‘ superiores, passa para um modo indireto.

Quando chega o cristianismo…monoteísta – de repente, surge uma casta sacerdotal movendo­-se entre o adorador e o objeto de adoração. Esta casta…converte­-se então,        numa espécie de gerência intermediária entre a humanidade e a divindade que está            se buscando…Já não se tem mais uma relação direta com os deuses…Os sacerdotes,    necessariamente, não têm uma relação com Deus. – Eles só têm um livro… que fala      sobre gente que viveu há muito tempo, e teve relação direta com a divindade… Mas,        para isso – não é preciso ter visões milagrosas…nem deuses falando contigo… – Na verdade… – se isso acontece… você é… – “realmente“… – considerado… – “louco“.

Já no mundo moderno, as únicas pessoas as quais se permite falar com os deuses, e unilateralmente, são os ‘sacerdotes’. E assim, o Monoteísmo me parece uma grande simplificação. Mesmo a “Cabala” tendo uma grande variedade de deusesacima da              escala da…”Árvore da Vida”…há outra esfera que é “Deus Absoluto”a “Mônada“;              algo indivisível, de onde todos os outros deuses…e tudo o mais no Universo é um        tipo de emanação. Até aí, tudo bem…mas, quando esse único Deus, lá está a uma      altura inalcançável da humanidade – se está limitando… e simplificando o assunto.

Eu tendo a pensar o Paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem…É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma forma  de significado, certa sutileza de ideias…enquanto o Monoteísmo é só uma vogal onde tudo está reduzido a uma simples nota…que quem emite, nem sequer a entende. ‘texto original’

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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2 respostas para A “realidade transcendente” (em perspectiva)

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