Nietzsche… (numa ‘síntese epistemológica’)

“Na natureza…tanto quanto na história humana, a ordem ideal racional só pode prosperar… tendo como ‘pano de fundo’  o  ‘fundamento impenetrável’ das paixões e pulsões irracionais.” (Schelling-‘Philosophical Investigations’)

Nietzsche

O cenário em que o experimento transcorre… trata-se de um afrontamento entre 2 interpretações… – a saber, a ‘interpretação mecânica do universo‘ – que repousa sobre o texto das leis naturais…e uma ‘arte de interpretação‘, de propósitos opostos… — Pois… aquela ‘regularidade da natureza‘ … da qual se fala com tanto orgulho, subsiste apenas — graças à interpretação

A teoria baseada na ‘vontade de poder‘ sabe de seu caráter…incontornavelmente interpretativo…e por isso não pretende ser texto contraposto à ‘apreciação física’ que conduz à resignação e submissão do saber e agir humanos às leis naturais.

A interpretação – fundada na ‘vontade do poder‘, libera um ilimitado horizonte de cognição e operacionalidade; ela capacita à vontade humana o poder de imprimir sobre a natureza – o selo de sua própria legislação”.

Como ‘vontade de poder’…  –  a natureza só pode ser pensada…  como uma infinita multiplicidade de forças em relação, ou seja, um campo de forças, cuja essência consiste – a cada instante, em sua efetivação integral…em um mundo visto a partir           de dentro… determinado por seu caráter inteligível.

“Devemos ser o sentido da terra; devemos superar a nós mesmos, em nossa mediocridade, para quem sabe, um dia vir à tona o ‘além-do-homem’ – um                     tipo humano pelo qual a terra se justifique.”

O fato do artista estimar mais a aparência do que a realidade, não constitui uma contradição, pois a aparência significa, em tal caso, a realidade repetida mais de             uma vez – só que selecionada, reforçada, corrigida.

Para que o experimento seja conduzido adequadamente, faz-se necessário conceber o ‘mundo inorgânico’ como uma forma prévia — a mais primitiva de vida — na qual se encontra ainda englobado, numa poderosa unidade, tudo aquilo que – em seguida …     no processo orgânico se ramifica – e, se configura numa espécie de vida pulsional,    na qual todas  as  funções orgânicasautorregulação, assimilação, alimentação, secreção, metabolismo, etc…permanecem  sinteticamente ligadas entre si.

         “Vida é vontade de potência – Para cada alma pertence um mundo                 diferente — para cada alma…  toda outra alma é um além-mundo”

       ‘Na verdade, tudo não passa de uma invenção humana… – As coisas              sensíveis se tornam inteligíveis pelas ideias. A filosofia é tão somente,            um modo de se viver’.

Se forem obedecidas todas as ‘prescrições metodológicas‘ presentes no experimento, então a universalização da hipótese da vontade de poder produziria o máximo grau de simplicidade, abstração e unidade em nosso conhecimento. Com ela estaríamos de posse de uma ‘interpretação global do mundo inorgânico e orgânico‘ – tendo…como ponto de partida – inversamente ao modo como poderíamos interpretar todo fenômeno natural, o ‘universo humano‘… conhecido através do complexo domínio de ‘nossos impulsos‘.

Trechos (livremente) extraídos dos livros…  “Nietzsche… – Para além do Bem e do Mal” de Oswaldo Giacoia Junior; e “Alma em Nietzsche” de Mauro Araujo de Sousa **********************************************************************************

“Tudo vai e volta; a roda da vida gira sem cessar… Tudo morre, tudo volta a florescer; correm eternamente as estações da vida…   Tudo  se  destrói…   —   tudo se reconstrói… eternamente se edifica a mesma casa da existência… Tudo se desagrega, tudo se saúda outra vez  —  o anel da vida conserva-se… eternamente… leal a si mesmo. — A todos os momentos… a vida principia; ao redor de cada aqui, gira a bola acolá. – O centro está em toda a parte. O caminho da eternidade é tortuoso.” (Nietzsche – “O convalescente’) 

“Tanto para Nietzche quanto para Foucault, o método ‘genealógico‘ de investigar a história – buscando a origem dos saberes… não tem por fim reencontrar as raízes de       nossa identidade, nem a destruição daquilo que somos… mas sim, transparecer toda descontinuidade que nos atravessa, como relações de forças que se entrecruzam.” (J. Nicolao Julião)  *******************(O Eterno Retorno)**************************

O Eterno Retorno é um conceito não acabado em vida pelo próprio Nietzsche, visto em vários de seus textos, comoAssim falou Zaratustra“; aforismo 341 deA gaia ciência“; aforismo 56 deAlém do bem e do mal“… e, trechos de fragmentos póstumos — que se encontram no livro “Nietzsche” da coleção “Os Pensadores”, da editora Abril Cultural.

Ele mesmo considerava este… como seu pensamento mais profundo e aterrador,     que lhe veio à mente…numa caminhada.

Um dos aspectos básicos do tema diz respeito aos ciclos repetitivos da vida — onde estamos sempre presos a um nº limitado de fatos, que se repetiram no passado…se dão no presente, e se repetirão no futuro.

O que é indispensável notar é que esta teoria não é uma forma de percepção do tempo – o Eterno Retorno não é um ciclo temporal que se repete indefinidamente… – na eternidade.

Quando no texto, abaixo transcrito, de A Gaia Ciência, o filósofo sugere a aparição do demônio portador da revelação do ciclo inexorável de repetições…ele não afirmou que aquilo seria exatamente o ‘Eterno Retorno’. Nos textos de Nietzsche sobre História… – com efeito – vemos que sua noção do Tempo não é cíclica.

Com o Eterno Retorno Nietzsche questiona a ordem das coisas. Indica um mundo não feito de pólos opostos e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma – múltipla… mas, única realidade. Logo… bem e mal… angústia e prazer… são instâncias complementares da realidade, que se alternam eternamente.

Como a realidade não tem objetivo, ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado), a alternância nunca finda. Ou seja, considerando-se o tempo infinito e as combinações de forças em conflito que formam cada instante finitas, em algum momento futuro tudo se repetirá infinitas vezes… Assim… vemos os mesmos fatos retornarem, indefinidamente.

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse… ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes…  e, não haverá nela nada de novo  —  cada dor e cada prazer, cada pensamento e suspiro, e tudo que há de indivisivelmente pequeno e grande em tua vida há de te retornar…e tudo na mesma ordem e sequência…E do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, este instante, e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!’…  Não te lançarias ao chão, rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal em que lhe responderias “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!…”  Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti…assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse… a pergunta diante de tudo – e de cada coisa…“Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?”  pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo, e mesmo com   a vida, para não desejar nada mais do que essa última eterna confirmação e chancela?

returns to forever

Há sobre a linha reta um ‘eterno retorno‘, que não é mais dos indivíduos, dos mundos – mas, o dos acontecimentos puros … que o instante deslocado…não cessa de dividir em já passados, e ainda por vir.

O  eterno retorno… – enquanto devir da repetição, supõe um mundo – o da vontade de potência…  em que todas as identidades prévias são abolidas… e dissolvidas.  

Assumimos então a eternidade do nosso instante — como sujeitos dinâmicos que povoam mundos… – O homem do acaso existe, e reverbera, como possibilidade existencial!…

O eterno retorno indica uma repetição tal…que sendo necessariamente um acontecimento singular – é ao mesmo tempo diferente… e, a partir de sua diferença, produz sua própria identidade.    

Como resultado dessa ‘divergência de séries‘, forma-se não mais um mundo; mas, um ‘círculo virtuoso‘ – cujo instante se faz acontecimento – e,  o porvir…  eterna repetição.

Este é o ‘círculo do eterno retorno’ — o instante                           como acontecimento… o porvir como repetição.                               (O. F. Bauchwitz – ‘Nietzsche, Deleuze & Borges‘) ****************************************************

“Demasiado Humano”

Na tentativa de estabelecer a ‘verdade‘ numa esfera transcendente à humanidade, a racionalidade falha porque, ao mesmo tempo, põe essa deusa (Veritas) no campo do ‘humano, demasiado humano’,  fazendo dela um joguete na mão de homens que nada mais querem senão encontrar justificação racional para suas convicções… crenças, e valores.

A Filosofia sempre será uma inquietação que problematiza, não para dar respostas conclusivas e agradáveis – mas, para ampliar os horizontes de uma humanidade mergulhada no ‘racionalismo‘… – o qual, fez de seus instintos, os vilões de nossa infelicidade.  (Jaya Hari Das/Rev. Filosofia) *********************************************************************

“Para além do Bem e do Mal”

“Criar dualismos como corpo e alma, é enganar o homem diante desta vida… Também os instintos foram divididos em Bem e Mal.  Daí a necessidade de irmos para além do Bem e do Mal – o que não tem nada a ver com relativismo, e, sim, com perspectivismo – pois, a Vida é uma perspectiva rara.”               (“Alma em Nietzsche” – Mauro Araujo de Sousa) **********************************************************************************

nietzsche - frase

“Cosmovisão em Nietzsche”    ( – Mauro Araujo de Sousa – )

O universo é finito… mas eterno, e o que retorna… é o processo do vir-a-ser – como ‘devir absoluto’ da diferença…que permanece no infinito tempo do eterno retorno.

A ordem cosmológica só se realiza por ordens diversas.       De uma para outra, existe sempre o Caos… – inerente ao processo de organização.

O Cosmo e o Caos não passam de um grande jogo, onde o universo é um acaso;             o Caos – suas desorganizadas forças… enquanto o Cosmos é essa organização, em potência. – Dessa forma… ‘o universo é eterno’… – com tudo o que nele há de finito.  ******************************************************************************

Cosmologia e Genealogia  (Scarlett Merton)      

“O universo – no seu todo, e em sua pluralidade – não constitui um sistema…Tanto     quanto a vontade de potência, o mundo não é um ser. É, antes, um eterno processo,       onde as relações entre suas forças não se esgotam… – antes… se renovam.”

Nietzsche“O involuntário no Pensar”

Todo aparato do conhecimento é um aparato de abstração e simplificação… – dirigido não para o conhecimento, mas sim à apoderação das coisas.

O pensamento emerge – frequentemente se mistura – e… se obscurece… através de um aglomerado de pensamentos…

Nós o destacamos… daí… nós o depuramos, colocamo-lo sobre seus pés, e vemos como       ele anda – tudo muito rápido!..  O colocamos, então, em julgamento…

Pensar é um tipo de exercício de justiça, pois existe aí,                              também, interrogatório… – Mas, o que ele significa? 

O pensamento não é tomado como imediatamente certo, mas como signo (Zeichen), e interrogação (Fragezeichen)… Que todo pensamento é — antes de tudo — ambíguo, e oscilante (apenas um ensejo a múltiplas interpretações e determinações arbitrárias),       é uma constatação empírica de todo observador…  –  que não se detém na superfície.

A origem do pensamento nos é oculta – é de grande probabilidade que seja um sintoma de um estado bem amplo, igual a todo sentimento […];  para a consciência — todo pensamento é um estimulante, e nisso, tudo se expressa como algo de um estado global de signos.

            (Friedrich Nietzsche – ‘Escritos Póstumos’ -KSA 11)                                                                        ************************************************

“Permanecei fiéis à Terra, meus irmãos, com o poder de vossa virtude. Que vosso amor seja pródigo, que vosso conhecimento sirva ao sentido da terra. Eu vos imploro e vos conjuro a isso. Reconduzi à Ela, como eu fiz, a virtude desvanecida — ao corpo e à vida… — para que Ela lhes dê seu sentido… um sentimento humano!…”   (Nietzsche ‘Also Sprach Zarathustra’)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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