O ‘Perspectivismo’ de Nietzsche, numa síntese epistemológica

“Na natureza…tanto quanto na história humana, a ordem ideal racional só pode prosperar… tendo como ‘pano de fundo’…o ‘fundamento impenetrável’ das paixões e pulsões irracionais.” (Schelling-‘Philosophical Investigations’)

Friedrich Nietzsche Aforismo

O cenário em que o experimento transcorre, trata-se de um “afrontamento” – entre duas interpretações… – a ‘interpretação mecânica do universo’… que repousa sobre o texto das ‘leis naturais‘, e uma arte de interpretação de propósitos opostos. – Pois a regularidade da natureza…da qual tanto se fala… subsiste apenas… – graças à nossa “interpretação

A teoria baseada na ‘vontade de poder‘ sabe de seu caráter…incontornavelmente interpretativo, e por isso não pretende ser texto contraposto à ‘apreciação física’       — que conduz à resignação, e submissão do saber e agir humanos — às leis naturais…

“Devemos ser o sentido da terra e superar a nós mesmos em nossa mediocridade,         para, quem sabe um dia vir à tona o…’além-do-homem’… – um tipo humano pelo         qual a terra se justifique”… Esta interpretação… fundada na ‘vontade do poder‘,     libera ilimitado horizonte de cognição e operacionalidade… capacitando à vontade humana o poder de imprimir sobre a natureza … o ‘selo‘ de sua própria legislação.

O fato do artista estimar mais a aparência do que a realidade, não constitui uma contradição, pois a aparência significa, em tal caso, a realidade repetida mais de             uma vez…selecionada, reforçada, corrigida. Como ‘vontade de poder’ a natureza                   só pode ser pensada como uma infinita multiplicidade de forças em relação, em                 um ‘campo de forças’, cuja essência consiste…a cada instante, em sua efetivação                 integral, num mundo visto a partir de dentro… através de seu caráter inteligível.

         “Vida é vontade de potência – Para cada alma pertence um mundo                 diferente — para cada alma… toda outra alma é um além-mundo.”

Para que o experimento seja conduzido adequadamente, faz-se necessário conceber             o ‘mundo inorgânico‘ como uma forma prévia…(a mais primitiva de vida)onde se encontra ainda englobado – numa poderosa unidade, tudo aquilo que…em seguida,             no processo orgânico se ramifica…e, se configura numa espécie de vida pulsional,            na qual todas ‘funções orgânicas‘ … — autorregulação, assimilação, alimentação, secreção, metabolismo, etc…permanecemsinteticamenteligadas entre si.

Se forem obedecidas todas as ‘prescrições metodológicas‘ presentes no experimento, então a universalização da hipótese da vontade de poder produziria o máximo grau de simplicidade, abstração e unidade em nosso conhecimento. Com ela estaríamos de posse de uma ‘interpretação global do mundo inorgânico e orgânico‘ – tendo…como ponto de partida – inversamente ao modo como poderíamos interpretar todo fenômeno natural, o ‘universo humano‘… conhecido através do complexo domínio de ‘nossos impulsos‘.

— ‘Na verdade, tudo não passa de uma invenção humana… As coisas sensíveis se           tornam inteligíveis pelas ideias. E a filosofia é tão somente, um modo de se viver’.

Trechos (livremente) extraídos dos livros…  “Nietzsche… – Para além do Bem e do Mal” de Oswaldo Giacoia Junior; e “Alma em Nietzsche” de Mauro Araujo de Sousa **********************************************************************************  “Tudo vai e volta…a roda da vida gira sem cessar…Tudo morre, tudo volta a florescer; correm eternamente as estações da vida… – Tudo se destrói… – Tudo se reconstrói…E, eternamente se edifica a mesma casa da existência…Tudo se desagrega, tudo se saúda   outra vez… – o anel da vida conserva-se… eternamente… leal a si mesmo. – A todos os momentos…a vida principia; ao redor de cada aqui, gira a bola acolá. – O centro está       em toda a parte… O caminho da eternidade é tortuoso.” (Nietzsche…”O convalescente’)  ******************************(O Eterno Retorno)*********************************  O Eterno Retorno é um conceito não acabado em vida pelo próprio Nietzsche, visto em vários de seus textos, comoAssim falou Zaratustra“; aforismo 341 deA gaia ciência“; aforismo 56 deAlém do bem e do mal“… e, trechos de fragmentos póstumos — que se encontram no livro “Nietzsche” da coleção “Os Pensadores”, da editora Abril Cultural.

Ele mesmo considerava este…como seu pensamento mais profundo e aterrador,       que lhe veio à mente, numa caminhada.

Um dos aspectos básicos do tema diz respeito aos ciclos repetitivos da vida — onde estamos sempre presos a um nº limitado de fatos, que se repetiram no passado…se dão no presente, e se repetirão no futuro.

O que é indispensável notar é que esta teoria não é uma forma de percepção do tempo – o Eterno Retorno não é um ciclo temporal que se repete indefinidamente… – na eternidade.

Quando no texto, abaixo transcrito, de A Gaia Ciência, o filósofo sugere a aparição do demônio portador da revelação do ciclo inexorável de repetições…ele não afirmou que aquilo seria exatamente o ‘Eterno Retorno’. Nos textos de Nietzsche sobre História… – com efeito – vemos que sua noção do Tempo não é cíclica.

Com o Eterno Retorno Nietzsche questiona a ordem das coisas. Indica um mundo não feito de pólos opostos e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma – múltipla… mas, única realidade. Logo… bem e mal… angústia e prazer… são instâncias complementares da realidade que se alternam eternamente. Como a realidade não tem objetivo, ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado)… a alternância nunca finda,     e, em algum momento futuro… – tudo se repetirá infinitas vezes… – indefinidamente

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse… ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes…  e, não haverá nela nada de novo  —  cada dor e cada prazer, cada pensamento e suspiro, e tudo que há de indivisivelmente pequeno e grande em tua vida há de te retornar…e tudo na mesma ordem e sequência…E do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, este instante, e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!’…  Não te lançarias ao chão, rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal em que lhe responderias “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!…”  Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti…assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse… a pergunta diante de tudo – e de cada coisa…“Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?”  pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo, e mesmo com   a vida, para não desejar nada mais do que essa última eterna confirmação e chancela?

returns to forever

Há sobre a linha reta um ‘eterno retorno‘, que não é mais dos indivíduos, dos mundos – mas, o dos acontecimentos puros … que o ‘instante deslocado’ não cessa de dividir em já passados, e ainda por vir…

O  eterno retorno… – enquanto devir da repetição, supõe um mundo – o da vontade de ‘potência’… em que todas as identidades prévias são abolidas, dissolvidas… – Então, assumimos a eternidade do nosso instante, sujeitos dinâmicos … que povoam mundos.   O “homem do acaso” existe… e reverbera… como possibilidade existencial!…

O eterno retorno indica uma repetição tal, que sendo necessariamente um acontecimento singular – é ao mesmo tempo diferente…e, a partir de sua diferença…produz sua própria identidade… — Como resultado dessa ‘divergência de séries’… forma-se não mais um mundo – mas um ‘círculo virtuoso’, cujo instante se faz acontecimento, e o porvir, eterna repetição.

Este é o ‘círculo do eterno retorno’ — o instante                           como acontecimento… o porvir como repetição.                               (O. F. Bauchwitz – ‘Nietzsche, Deleuze & Borges‘) ****************************************************

“Demasiado Humano”

Na tentativa de estabelecer a ‘verdade‘ numa esfera ‘transcendente’ à humanidade, a racionalidade falha porque, ao mesmo tempo, põe essa deusa (‘Veritas’) no campo do ‘humano, demasiado humano’, fazendo dela um joguete na mão de homens que nada   mais querem que encontrar justificação racional a suas convicções, crenças, e valores.

A Filosofia sempre será uma inquietação que problematiza, não para dar respostas conclusivas e agradáveis – mas, para ampliar os horizontes de uma humanidade mergulhada no ‘racionalismo‘… – o qual, fez de seus instintos, os vilões de nossa infelicidade.  (Jaya Hari Das/Rev. Filosofia) *********************************************************************

“Para além do Bem e do Mal”

“Criar dualismos como corpo e alma, é enganar o homem diante desta vida… Também       os instintos foram divididos em Bem e Mal… Daí a necessidade de irmos para além do   Bem e do Mal – o que não significa um ‘relativismo’, e sim…’perspectivismo‘ – pois,       a própria Vida é uma perspectiva rara.” (‘Alma em Nietzsche’, Mauro Araujo de Sousa)

“Tanto para Nietzche quanto para Foucault, o método ‘genealógico‘ de investigar a história – buscando a origem dos saberes… não tem por fim reencontrar as raízes de       nossa identidade, nem a destruição daquilo que somos… mas sim, transparecer toda descontinuidade que nos atravessa, como relações de forças que se entrecruzam.” (J. Nicolao Julião)****************************************************************

nietzsche - frase

“Cosmovisão em Nietzsche”    ( – Mauro Araujo de Sousa – )

O universo é finito… mas eterno,   e o que retorna…é o processo do vir-a-ser – como ‘devir absoluto’ da diferença…que permanece no infinito tempo do eterno retorno.

A ordem cosmológica só se realiza por ordens diversas. De uma para outra… – existe sempre o Caos… (inerente ao processo de organização).

O Cosmo e o Caos não passam de um grande jogo, onde o universo é um acaso;             o Caos – suas desorganizadas forças… enquanto o Cosmos é essa organização, em potência. – Dessa forma… ‘o universo é eterno’… – com tudo o que nele há de finito.  ******************************************************************************

Cosmologia e Genealogia  (Scarlett Merton)      

“O universo – no seu todo, e em sua pluralidade – não constitui um sistema…Tanto     quanto a vontade de potência, o mundo não é um ser. É, antes, um eterno processo,       onde as relações entre suas forças não se esgotam… – antes… se renovam.”

Nietzsche“O involuntário no Pensar”

Todo aparato do conhecimento é um aparato de abstração e simplificação… – dirigido não para o conhecimento, mas sim à apoderação das coisas.

O pensamento emerge – frequentemente se mistura – e… se obscurece… através de um aglomerado de pensamentos…

Nós o destacamos… daí… nós o depuramos, colocamo-lo sobre seus pés, e vemos como       ele anda – tudo muito rápido!..  O colocamos, então, em julgamento…

Pensar é um tipo de exercício de justiça, pois existe aí,                              também, interrogatório… – Mas, o que ele significa? 

O pensamento não é tomado como imediatamente certo, mas como signo (Zeichen), e interrogação (Fragezeichen)… Que todo pensamento é — antes de tudo — ambíguo, e oscilante (apenas um ensejo a múltiplas interpretações e determinações arbitrárias),       é uma constatação empírica de todo observador…  –  que não se detém na superfície.

A origem do pensamento nos é oculta – é de grande probabilidade que seja um sintoma de um estado bem amplo, igual a todo sentimento […];  para a consciência — todo pensamento é um estimulante, e nisso, tudo se expressa como algo de um estado global de signos.

            (Friedrich Nietzsche – ‘Escritos Póstumos’ -KSA 11)                                                                        ************************************************

“Permanecei fiéis à Terra, meus irmãos, com o poder de vossa virtude. Que vosso amor seja pródigo, que vosso conhecimento sirva ao sentido da terra. Eu vos imploro e vos conjuro a isso. Reconduzi à Ela, como eu fiz, a virtude desvanecida — ao corpo e à vida… — para que Ela lhes dê seu sentido… um sentimento humano!…”    ***** (Nietzsche ‘Also Sprach Zarathustra’) ***** 

*******************************(texto complementar)*********************************

“Penso que hoje, pelo menos, estamos distanciados da ridícula imodéstia de decretar, a partir de nosso ângulo, que somente dele pode-se ter perspectivas…O mundo tornou-se novamente infinito para nós… na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade deele encerrar infinitas interpretações”. [Nietzsche (1844-1900)…’Nosso novo infinito’]

Nietzsche

O Prespectivismo em Nietzsche

‘Perspectivismo’ é a designação corriqueira para a suposta ‘teoria do conhecimento‘ de Nietzsche…cuja ideia básica resume-se nas seguintes palavras… “não há fatos, apenas interpretações”…ou, “mutatis mutandis”… “isso é interpretação e não texto” … trecho de “Para além do bem e mal”.

Ao dizer que o perspectivismo é uma teoria do conhecimento – e…precisamente aquela que se desenvolve em Nietzsche, já…porém, tocamos em… – pelo menos … 2 problemas.

O 1º se consiste em saber se há algo como uma teoria do conhecimento, nos escritos     de Nietzsche. Em caso afirmativo, deparamo-nos com um 2º problema… – em que medida esta teoria pode se inserir como posição forte, num debate epistemológico contemporâneo. Um panorama sobre a visão atual do “perspectivismo”, pode lançar alguma luz na questão.

Perspektivismus” é…entre outras coisas – a afirmação de uma pluralidade de sentidos; uma polissemia irredutível…no limite a uma definição unívoca, não ambígua. A genealogia do termo antecede a Nietzsche. – Para uns, foi Leibniz o introdutor de seu uso em filosofia, no modelo ‘monadológico’… E, Kant o teria também utilizado na ‘filosofia transcendental‘.

A discussão atual acerca do ‘perspectivismo’ excede em muito os limites da Nietzsche, entretanto…é principalmente devido à sua influência, que         o termo se dissemina pela filosofia, e alhures…

O seu uso em Nietzsche, se torna motivo central nas discussões acerca de sua obra, sobretudo, a partir da década de 1960… – mesmo sem haver um mínimo consenso     acerca do seu significado… – Toda a investigação a respeito do tema…lida com um amontoado de fragmentos, peças soltas de um quebra-cabeça, cujas possibilidades               de interpretação são muitas… e, enquanto tais, constituem-se como reconstruções, peculiarmente criativas.

O quebra-cabeça do perspectivismo em Nietzsche é marcado por uma incompletude característica, que leva o intérprete a colher, em algum       lugar fora da imanência dos textos nietzschianos as peças que faltam.

Com relação ao perspectivismo, portanto, torna-se particularmente pertinente a ideia de que interpretar é criar. E são muitas as possibilidades de sua reconstrução – tantas…que retomá-las amiúde equivaleria a compor toda uma história da filosofia…desde Nietzsche, até os dias atuais. Contudo, ainda podemos “pôr as cartas na mesa”, mostrando quais os delineamentos básicos das posições em jogo… – E, justamente para isso…utilizaremos 5 linhas interpretativas centrais no debate acerca do perspectivismo nietzschiano; a saber:

salvador-dali-A Tentação de Santo Antônio

Salvador Dali – “A tentação de Santo Antônio

1.  Perspectivismo metafísico

Diversos intérpretes compreendem o ‘perspectivismo’ como uma ‘doutrina ontológica’…

O problema central com que têm de lidar tais intérpretes…deriva de que Nietzsche…ao atacar a ontologia e a metafísica… — parece não dissociar delas uma profissão de fé….

Ele afirma, por exemplo, que:

“A força inventiva, que tem poetado categorias, labora a serviço da necessidade, ou seja, da segurança, do entendimento rápido à base de sinais e sonidos, de reducionismos; não se tratam de verdades metafísicas nos casos de…“substância”…“sujeito”…“objeto”…“ser”, “devir”. Os poderosos é que, do nome de coisas, fizeram leis; e entre os poderosos, foram os grandes artistas da abstração que elaboraram as categorias”.

Dessa constatação fica difícil imaginar como se poderia interpretar o perspectivismo como uma espécie de ‘ontologia’. Os que defendem essa posição, no entanto, se servem de outras passagens de Nietzsche… – em que este suprime a possibilidade de uma ‘teoria do ser‘, em nome de uma ‘teoria do devir’… a que se refere em seus últimos escritos, com o conceito de ‘vontade de potência‘…“O mundo visto de dentro… – definido e designado conforme o seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’… e nada mais.”

Tratar-se-ia de uma ontologia da pluralidade, ao invés da unidade; da diferença, ao invés da identidade; da imanência, e não transcendência.

o problema da referência ao devir…

A questão que surge aí… é como se dá… – em Nietzsche… o acesso a essa realidade perspectivisticamente estruturada, e em que sentido o “perspectivismo ontológico”               não repõe aquilo mesmo que ele pretende negar. Essa é uma das questões cruciais,               a serem enfrentadas numa reconstrução do perspectivismo.

Heidegger enfrenta essa questão, ao elaborar uma interpretação que designamos aqui como ‘perspectivismo metafísico’…Diga-se de saída que se trata de uma ‘reconstrução desconstrutivista’, isto é, uma interpretação eminentemente crítica do perspectivismo. Para ele…a despeito de todo esforço crítico que possa ter realizado… o pensamento de Nietzsche é tão metafísico quanto o de Platão. – ‘A metafísica de Nietzsche seria o fim       da ‘tradição metafísica’, na medida em que atualiza e esgota todas suas possibilidades’.

nietzsche_Heidegger

A crítica que Heidegger dirige a Nietzsche é a mesma que ele opõe à tradição metafísica em conjunto: a filosofia nietzschiana seria, também ela, uma forma de esquecimento do ser.

Para Heidegger … o esquecimento do ser em Nietzsche… – se dá pela metafísica da vontade de potência: “a vontade de potência, é o caráter fundamental do ente enquanto tal, … é o caráter fundamental da vida. Vida para Nietzsche é ‘Ser’. Assim, todo ente… — por se essencializar como ‘vontade de potência’… — é perspectivista”.

Nesse contexto… o ‘perspectivismo’ surge… – como um dos aspectos da metafísica de Nietzsche. Heidegger o interpreta basicamente… à luz de um fragmento póstumo que diz que… “por meio de qual todo centro de força, e não apenas o homem – construiu, partindo de si mesmo … todo o resto do mundo… – quer dizer que o homem mede, apalpa, e aplaina o mundo segundo sua própria força”.

E desse modo, perspectivismo significa… “a constituição                                     do ‘ente’ … como ser que põe pontos de vista … e calcula”.

O perspectivismo é o caráter mesmo do ente…é a vontade de potência presente em cada ser, em particular, que lança sobre a totalidade do ente sua perspectiva para organizar a partir de si essa totalidade… – em função de seu interesse de conservação e crescimento. Como diz Heidegger…

“a vontade de potência é, em sua essência mais íntima, um contar com          as condições de sua possibilidade…condições que ela mesma as impõe”.

O perspectivismo seria metafísico precisamente porque para uma teoria perspectivista do conhecimento… não se trata de conhecer o ser, nem sequer o ente – mas de exercer poder sobre ele…Conhecimento é o processo por meio do qual o ser que conhece se apodera, em função de seus interesses vitais, do ser em geral…Na medida em que entende que esse ser que conhece é o sujeito a partir do qual se lançam as perspectivas Heidegger entende que   o perspectivismo é uma forma de subjetivismo:

“A vontade de potência se revela…como a subjetividade que se distingue       por pensar em termos de valor. Apenas se experimenta o ente enquanto     tal, no sentido desta subjetividade, ou seja… como vontade de potência”.

No ‘perspectivismo nietzschiano‘ se revela com toda clareza que o motivo fundamental da metafísica não é conhecer o ser…mas dominá-lo – ao explicitar que a relação entre sujeito e objeto é uma relação de poder, pensada em termos de ‘vontade de potência’… – E assim, a história da metafísica termina…e a ‘alienação do ser’ passa a se identificar com a técnica.

Entretanto, parece-nos que Heidegger comete um excesso ao ler o perspectivismo como uma forma de metafísica da subjetividade… pois uma das bases do perspectivismo está precisamente na crítica da noção moderna de ‘subjetividade’… – que Nietzsche entende como obra do processo de substancialização, resultante de nossa crença na linguagem.

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2. Perspectivismo fenomenológico                          

Heidegger exerceu, e ainda exerce… sobretudo na França, forte influência sobre os intérpretes de Nietzsche. No que diz respeito ao “perspectivismo”… – essa influência se faz sentir, principalmente na leitura fenomenológica de Jean Granier … ao nutrir-se do modo de pensar heideggeriano.

Granier entende que o conceito hermenêutico de Ser…de certo modo já estaria formulado em Nietzsche, que não o teria esquecido nem tampouco abolido…ao conceber que “todo Ser existe como ser-interpretado… Nesse sentido, para Granier, haveria o ‘perspectivismo fenomenológico’.

Segundo ele… “Em Nietzsche, o dualismo da aparência é definitivamente superado – cada aparência é uma manifestação real – e, não há nada a buscar além disso. – Contudo, ao afirmar o ‘perspectivismo do conhecimento’, Nietzsche defende, de fato, um ‘pluralismo ontológico’… – ao afirmar que o ‘Ser’…tem por essência mostrar-se, mas conforme uma infinidade de pontos de vista”.

A noção nietzschiana de perspectiva é assim… associada à de fenômeno, não no sentido fenomenalista kantiano, mas no sentido da ‘fenomenologia’. Cada perspectiva é uma “aparição”, uma manifestação da “coisa mesma”… – do ”real”…do Ser que se desvela de infinitas formas nas perspectivas…A noção de perspectivismo se imbrica com aquela de interpretação, de modo que introduzindo a noção de ‘interpretação, Nietzsche impõe a definição do Ser como “texto”…”O Ser é como um texto que precisaríamos da exegese“.

Assim, enquanto a ideia de perspectivismo enfatiza mais o caráter de desvelamento do Ser, a ideia de interpretação acentua seu ‘caráter equívoco’. Conforme Granier, Nietzsche teria defendido um “realismo pluralista” – uma ontologia da pluralidade, que pensa o ser como texto fundamental; o que significa a ‘vontade de potência’ transcrevendo um texto caótico, fragmentário, estruturado em múltiplas perspectivas…Granier chega inclusive a entender que essa seria uma “ontologia do caos”…

Apesar de jamais termos como esgotar uma multiplicidade de           possíveis interpretações do “texto do ser”… é o ser mesmo que                       perspectivamente se desvela… — nas diversas interpretações.

O principal problema em interpretar o perspectivismo como uma ontologia, ou metafísica como quer Heidegger… decorre de que encontrar em Nietzsche um ‘realismo’ – ainda que pluralista, se não é propriamente inviável, soa como algo forçado. – Nietzsche faz ataques diretos à postura realista… – parecendo, por vezes…oferecer o ‘perspectivismo’ como uma alternativa a essa forma de pensar.

Acresce a isso a dificuldade que a ideia da ‘vontade de potência’ como um texto fragmentário plural tem, ao enfrentar o problema de conciliar a ideia do “texto                   do ser”, com a tese central do “perspectivismo“… – que afirma haver apenas interpretações… – negando assim… que haja um “texto fundamental” sob elas.

3. Perspectivismo transcendental                                                                                       O perspectivismo seria uma resposta de Nietzsche à pergunta transcendental, pelas condições de possibilidade do conhecimento…e assim, uma superação de Kant – não     no sentido de uma ruptura, mas de uma reformulação neokantiana… na medida em     que teria situado tais condições de possibilidade dentro do próprio mundo’.

Se o perspectivismo não é uma ‘ontologia’, ou seja, não é uma descrição do mundo, mas em certo sentido uma epistemologia, isto é… – uma tentativa de descrição do que se passa no “plano do conhecimento”, então… uma questão reflexiva se impõe como ponto de partida para sua própria compreensão. – Trata-se de saber se a tese básica do perspectivismo seria retro-aplicável, ou seja, se ao enunciar a proposição “todo conhecimento é perspectivo” poderíamos acrescentar… — sem cair em contradição… — que… inclusive ‘p’ é perspectivo.

Ou seja … trata-se de investigar a possibilidade da ‘tese perspectivista’ ser consistentemente auto-referente, ou necessariamente, uma tese auto-refutável. Desse modo o “perspectivismo” suscita problemas do “relativismo”.

Tendo em vista esse “paradoxo do perspectivismo”, certos intérpretes propõem que se distinga entre diferentes níveis discursivos. – Assim, o perspectivismo seria um discurso de 2ª ordem que descreve, de modo não perspectivo os vários discursos de 1ªordem.

Postula-se, por assim dizer, a existência de 2 tipos de conhecimento…um 1º, direto ou imediato, de caráter perspectivista, que consiste nas várias descrições realizadas pelas ciências, arte, religião… etc. – através da aplicação de nossos esquemas conceituais ao mundo… – e um 2º … que seria indireto ou mediado, e de caráter não perspectivista…consistindo no discurso da ‘epistemologia’, ou da ‘teoria do conhecimento’; resultante       de uma reflexão acerca desses esquemas conceituais.

O perspectivismo transcendental seria o desdobramento da tradição epistemológica moderna – em especial…da filosofia de Kant. – Para Nietzsche, a estrutura cognitiva do homem, isto é, sua subjetividade transcendental… – estaria marcada por essa… “perspectividade“.

Baseado em uma passagem da “Gaia ciência” que diz…  Não podemos enxergar além de nossa esquina: é uma curiosidade desesperada querer saber que outros tipos de intelecto e perspectiva poderiam haver”…Volker Gerhardt afirma que… – “todo conhecimento está vinculado a perspectivas”. Segundo ele, Nietzsche tem consciência de que, dessa maneira, traz à expressão uma constituição do ‘conhecimento humano’ – que se aproxima bastante daquilo que Kant compreendia como condições transcendentais“não concebemos a realidade como ela é em si, mas apenas como ela ‘aparece’ para nós”.

Nietzsche pensava que a pergunta “o que posso saber?”… seria – como em Kant, precedida pela questão “o que é o homem?”… Entretanto, o homem surge em Nietzsche como um ser finito, natural e histórico em sua existência concreta no mundo. – Dessa forma…afirmar o pertencimento do homem ao mundo não significa negar que haja características humanas universais….pois esta perspectiva se situa na base de todas as demais.

Soul of Nietzsche

teoria metafísica da correspondência

Especialmente influente na literatura inglesa sobre Nietzsche é a reconstrução neokantiana do perspectivismo — elaborada por Maudemarie Clark. Segundo a autora, Nietzsche parte de uma crítica à “teoria metafísica da correspondência”… – para propor uma versão de neokantismo que, nesses termos, pode ser incluída sob a rubrica do ‘perspectivismo transcendental’.

Tal como vejo – diz Clark…Nietzsche concorda com Kant, no fato de que não conhecemos coisas em si… e, contrariamente a Descartes…pela verdade que somos capazes de revelar, não satisfazer a uma ‘teoria metafísica da correspondência‘.

Clark entende que o pensamento epistemológico de Nietzsche se desdobra em 2 fases. A 1ª…caracterizada principalmente por “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, denotaria uma espécie de ceticismo…decorrente da aceitação da noção de verdade como uma correspondênciairrealizável. Assim Nietzsche teria elaborado o que Clark chama de ‘tese da falsificação‘…segundo a qual, todos nossas sentenças falsificam e distorcem a realidade…

A verdade seria assim pressuposta… – como uma coisa em si                           incognoscível, da qual todo conhecimento seria a falsificação.

A ‘tese da falsificação’ é claramente auto-refutativa, pois…”se todo conhecimento é falso”, também o é a proposição que afirma isto. – E assim, Nietzsche abandona a ideia de uma “correspondência metafísica”, e consequentemente renuncia à “tese da falsificação”… ao aprofundar a crítica à coisa em si no momento de articulação do ‘perspectivismo’. Dessa maneira, na 2ª fase de seu pensamento…ele tem de retornar ao “correspondencialismo”.

A célebre passagem do “Crepúsculo dos ídolos em que Nietzsche afirma que… com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente é vista, nesse sentido, como         a proposição de uma da correspondência mínima. Haveria em Nietzsche portanto, um “realismo perspectivista”, para o qual a realidade manifestar-se-ia…sempre como real,     nas diversas perspectivas, isto é…nos diversos esquemas conceituais de que dispomos.

crep.dos ídolos

Com efeito, não é possível uma verdade absoluta, que corresponda – em sentido metafísico…ao equivalente     do “ponto de vista de Deus”… – mas seriam possíveis múltiplas verdades, diversamente correspondentes… porque baseadas em pontos de vistas…distintamente situados.

O problema da ‘teoria da correspondência’ não seria assim, a ideia de correspondência enquanto tal, que segue sendo o ‘modelo‘ — a partir do qual se pensa a verdade…mas, a imposição de uma correspondência única. O correspondencialismo entende ser possível estabelecer múltiplas relações, todas referidas a um mesmo referencial o qual porém é inconcebível fora     dos esquemas conceituais … de nossas perspectivas.

A maior dificuldade das reconstruções transcendentais do perspectivismo…deve-se a que Nietzsche rejeita, em diferentes momentos, uma distinção entre níveis discursivos. Nesse sentido, a principal ‘objeção perspectivista‘ ao kantismo – consiste em que este não pode justificar, senão por meio de uma hipótese, inspirada na crença no valor incondicional da verdade… – que… ainda que o conhecimento que temos do mundo seja “fenomênico”… o conhecimento que temos das condições de possibilidade do conhecimento do mundo, ou seja, o discurso de segunda ordem… – não seja fenomênico, mas ‘transcendental.

Com base nisso Kant distingue entre ‘quaestio facti’ e ‘quaestio juris’, e formula precisamente uma distinção que Nietzsche pretende repudiar.

No que diz respeito especificamente à abordagem de Clark…parece por demais forçosa a atribuição de um “correspondencialismo”… ainda que mínimo, a Nietzsche. Sua crítica à noção de verdade ganha radicalidade – quando a lemos como uma objeção frontal a esta vertente…E, com efeito, o perspectivismo parte da negação da existência de fatos…o que implica na impossibilidade do estabelecimento de relações correspondenciais…Portanto,     a teoria da verdade que melhor se ajusta a si é uma espécie de anticorrespondencialismo.  

E o perspectivismo assume assim uma postura anti-realista,                             sem exercer todas as concessões…que o realismo interno faz.

4. Perspectivismo semântico

Uma outra linha interpretativa do ‘perspectivismo’ – eminentemente lógico-analítica … é aquela articulada nos trabalhos de Steven Hales e Rex Welshon, que não apenas se valem de ferramentas analíticas para pensar o ‘perspectivismo‘ — como também se servem dele para dar respostas, e fornecer alternativas à ‘filosofia analítica’. Trata-se efetivamente, de um “perspectivismo semântico“…que aborda Nietzsche…com aporte na filosofia analítica contemporânea tendo como precursores A. Danto, M. Clark, P. Poellner; e companheiros de viagem… R. Schacht e A. Nehamas.

O ousado projeto em que esses analíticos nietzschianos se envolveram pode ser definido como uma tentativa de formular um ‘relativismo’, consistente com o padrão analítico de racionalidade, ou seja, propor um relativismo auto-referencialmente consistente… onde   as intuições de Nietzsche sobre o ‘perspectivismo’, são sua inspiração fundamental. Sua singularidade de fato não reside apenas em usar categorias analíticas para reconstruir o perspectivismo, mas em considerá-lo como uma posição forte, no debate analítico atual.

O problema da consistência do relativismo, com efeito, tão antigo quanto a própria filosofia, poderia – segundo Hales, ser colocado em outro patamar… – por meio da formulação de uma semântica perspectivista, baseada na relação entre osmundos possíveisde Saul Kripke, e as intrigantes perspectivas nietzschianas.

A “semântica perspectivista“…consiste na introdução de certos operadores na lógica modal – os “operadores perspectivísticos”.

Formular de um relativismo consistente nesses ‘termos’ – resulta em uma ampla reconstrução do perspectivismo a partir   de uma teoria perspectivista da verdade.

Tendo em vista… – o problema da auto-referência do perspectivismo (puzzle of perspectivism), Hales e Welshon propõem, pela ‘teoria perspectivista da verdade‘ uma reconstrução do “perspectivismo“…entendido como “tema unificador” das ‘reflexões de Nietzsche’… – que, dessa maneira…assume um caráter eminentemente “sistemático. Eles defendem, entre outras coisas que Nietzsche dispõe de uma ontologia anti-realista que culmina numa teoria dos feixes de objetos (‘bundle theory of objects’) – correlata a uma epistemologia contextualista.

O termo “perspectivismo” ganha assim, vários significados…podendo ser referido a uma lógica, uma ontologia, uma epistemologia, uma teoria da causalidade…ou, teoria da consciência, todas igualmente perspectivistas.

Assim, o perspectivismo semântico pode mostrar-se como um novo alento para uma tradição que ameaça soçobrar… Certamente, são muitos os méritos dessa sofisticada “versão semântico-modal” do perspectivismo. Seus efeitos e alcance, em especial, no debate analítico contemporâneo, porém… ainda dificilmente podem ser mensurados. 

5. Perspectivismo pragmático

Baseados no ‘pragmatismo’… — tanto o da tradição norte-americana… em especial o de William James, quanto em sua forma linguística mais recente…que deriva das posteriores reflexões de Wittgenstein — são vários os ‘intérpretes’ que propõem um tipo de ‘reconstrução do perspectivismo’… aqui designado como “perspectivismo pragmático.

A despeito de divergências específicas… — o livro “Nietzsche as philosopher”, de Arthur Danto, que adquiriu o status de “clássico”…continua sendo o modelo de leitura pragmática do ‘perspectivismo’.

No contexto pleno da filosofia analítica, Danto ousa reconstruir o pensamento de Nietzsche…em termos que fazem dele… — um precursor desse movimento. 

Segundo Danto… – “Nietzsche raramente foi tratado como filósofo, e nunca… – a partir da ‘perspectiva’…que compartilha, em certo grau, da filosofia analítica contemporânea. Ultimamente, muitos filósofos têm se preocupado com pesquisas em lógica e linguística, pura e aplicada…com efeito, não hesitei em reconstruir seus argumentos nesses termos. Nietzsche não pode ser visto apenas como uma influência sobre o ‘movimento analítico’ na filosofia, exceto de uma forma tortuosa e subterrânea. – Antes…cabe ao movimento reclamá-lo como predecessor”.

A principal razão para a então inusitada aproximação entre Nietzsche             e a filosofia analítica…Danto a encontra no tratamento terapêutico da linguagem minuciosamente elaborada … pelo famoso filósofo alemão.

“As afinidades de Nietzsche com a ‘filosofia analítica’ … não são tão evidentes em outra parte quanto em sua preocupação com a linguagem… – Seria um equívoco sugerir que Nietzsche antecipou as discussões que dominaram a filosofia nos anos recentes. – Mas, inquestionavelmente ele é um predecessor. – Vemos problema após problema atacado por ele, em referência ao que chama de “modos enganosos de expressão”, empregados em toda parte… – Pareceu-lhe evidente…que os homens são seduzidos pela gramática       da linguagem que falam…e implicitamente acreditam descrever o mundo… – quando       de fato, o mundo tal como concebem é apenas um reflexo da estrutura de sua língua”.

Nietzsche lidaria assim, com problemas clássicos da filosofia…não tendo em vista resolvê-los, mas dissolvê-los…torná-los destituídos de sentido – os revelando em uma “terapia da linguagem” como pseudo-problemas, cujo sentido estaria contido na frase do ‘Crepúsculo dos ídolos‘… “Receio que não nos livraremos de Deus, pois ainda cremos na gramática”.

Percebe-se aí, que uma leitura pragmática do perspectivismo… parte necessariamente de uma aproximação com Wittgenstein, segundo o qual… — “a filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento de nosso entendimento pelos meios da nossa linguagem”. É a sedução da linguagem, no dizer de Nietzsche, ou as ilusões gramaticais, nas palavras de Wittgenstein, o que nos leva a substancializar itens linguísticos… isto é – a crer o que “sujeito”, “objeto”, “ser” etc., seriam entidades substanciais”… – mais que meras funções da linguagem.

A relação entre Nietzsche e Wittgenstein (2ª fase) mostra-se fértil…para além da questão da terapia, sobretudo no que diz respeito ao pluralismo linguístico que ambos defendem. Perspectivas podem ser, de modo pertinente como “jogos de linguagem” – assim como as “formas de vida” de Wittgenstein… parecem “tipos nietzschianos”… — Em suma…ambos os autores desenvolvem uma abordagem da linguagem em ‘termos pragmáticos’ – como uma ‘práxis social‘…definindo o significado     e a verdade – em termos de “uso/utilidade”.

A proximidade entre perspectivismo e pragmatismo pode ser evidenciada também no que diz respeito à ‘teoria da verdade’. Segundo Danto, abandonando o ‘correspondencialismo’, Nietzsche adota um critério pragmático de verdade, ou seja: é verdadeiro e q é falso; somente se p funciona, e q não”. Desse modo não só há uma ‘teoria perspectivista da verdade’, afastando sua filosofia das formas mais cruas de ceticismo e relativismo… como tal teoria é ‘pragmática’, pois estabelece como critério de verdade a eficácia, desempenho; enfim, a utilidade.

É isso o que Nietzsche quer dizer quando define verdade como…“a espécie de erro sem o qual uma determinada espécie de seres vivos não poderia sobreviver”…Mas, é também a partir da problematização da noção de utilidade em Nietzsche, que as diferenças entre o ‘perspectivismo’ e o ‘pragmatismo’ podem ser concebidas… – Na “Gaia ciência, diz ele:

gaia ciência

“Não temos nenhum órgão para o conhecer… – para a “verdade” … nós “sabemos” (cremos…imaginamos)  exatamente – tanto quanto pode ser útil ao interesse da ‘espécie humana’…E, mesmo o que aqui se chama “utilidade“… é, afinal… apenas uma crença — uma imaginação… e, talvez… — precisamente…a fatídica estupidez da qual um dia pereceremos”.

Nietzsche não parece disposto a “comungar” … com a tendência utilitarista do ‘pragmatismo‘… – ainda que entenda que o critério de verdade, de alguma forma… se encontra na ‘utilidade‘. É que ele pensa a utilidade, como luta… “Útil no sentido da biologia darwiniana, isto é… que se revela propício na luta com os outros”.

A adoção de um critério pragmático de verdade no perspectivismo pressupõe assim que,   as perspectivas não são ‘incomensuráveis’, como os jogos de linguagem de Wittgenstein, mas que se estabelecem lutas entre perspectivas…relações de poder que constituem um espaço conflitual ‘interperspectivo’…em que cada perspectiva combate pela supremacia.

A “utilidade” é assumida por Nietzsche…como critério de modo ‘agonístico’, ou seja, trata-se do poder como critério pragmático-agonístico de verdade.

Assim, a leitura pragmática – tal como concebida até aqui, ao perder de vista que a relação entre verdade e poder é a base da epistemologia perspectivista, não é capaz         de perceber que o ‘perspectivismo’… se complementa… e esclarece – por meio de um ‘agonismo’ (espírito de competição). – Problema nada pequeno… na medida em que           esta seria…precisamente…a contribuição que uma reflexão sobre Nietzsche poderia trazer ao movimento pragmático. ############ (texto base) ############# *******************************************************************************

O “Perspectivismo transcendental” de Werner Krieglstein
Quando a humanidade reconectar-se com o resto do mundo físico,                                   inaugura-se uma ‘consciência cósmica’ — cuja relação entre suas                                         próprias individualidades… fazem parte de uma natureza maior.

Friedrich Nietzsche…dentro de seu ‘perspectivismo’… argumentou que nenhuma ciência, que seja objetiva ao extremo…pode existir – porque nenhuma ideologia … pensamento pode perdurar… fora da influência de uma “percepção individual”.

Considerando…que o produto de qualquer percepção individual é limitado – não somente…por sua existência física mas também em função de suas próprias ‘crenças’    e pressupostos (formados da cultura, e história únicas do sujeito), uma conclusão desse modo de pensar filosófico é que nenhuma ‘verdade absoluta’ (ou ‘transcendental’) pode existir… porque – para isso, precisaria transcender os limites (subjetivos) da percepção.

Relacionamento com o Outro
Para qualquer verdade dada…o objetivo de um “perceptor” é compreendê-la… – Em qualquer relação criada, essa verdade pode ser compartilhada com outro perceptor.

No sentido tradicional da realidade objetiva, uma verdade transcendental conhecida por um perceptor seria igualmente válida para o outro, porque transcende cada uma de suas percepções individuais. Esta relação porém, é desigual… — na medida em que a verdade transcendental sobrepõe-se à individual.

Desse modo, os donos de uma verdade transcendental são agraciados com uma autoridade única sobre os outros… – que não conhecem esta verdade.

No “Perspectivismo”… a ausência de qualquer verdade transcendental deixa o sujeito com uma verdade que só é válida a partir de sua própria perspectiva. Sua verdade então, torna-se arbitrária, e o outro se transforma em um mero objeto de formulações dessas verdades, só percebidas pelo próprio perceptor. – Isso levou Nietzsche a refletir sobre a justificativa de atitudes/situações como o autoritarismo; entrando em conflito com o ‘senso moral‘ de muitos filósofos.

O “Perspectivismo transcendental” argumenta que cada verdade é produto do perceptor; no entanto, se 2 perceptores compartilham uma verdade, então essa verdade transcende cada perceptor individual. Contudo, este fenômeno não se dá, pelo fato de um perceptor convencer o outro sobre a validade de sua verdade obtida, mas sim… pela união de duas verdades alcançadas por cada perceptor. Assim, a ‘percepção do outro’ desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de uma verdade transcendental.

Um dos principais aspectos do ‘Perspectivismo transcendental’… é que a transcendência de uma verdade não pode ser obtida à força…Ou seja, se uma verdade alcançada por um perceptor é forçada no outro…essa verdade não transcendeu então, a ambas percepções.

E a dominação do outro…não podendo produzir a aceitação de uma verdade a ser compartilhada, produz subjugação, pois a perspectiva do outro não estava envolvida em sua elaboração…e assim, essa verdade não é a verdade do outro.

O “perspectivismo transcendental”… é uma ‘filosofia híbrida’… que mistura o ‘Perspectivismo’ de Nietzsche…com os ideais utópicos do transcendentalismo. Desafiando a afirmação de Nietzsche… de que não há verdades absolutas, leva adiante sua própria observação… – de que toda verdade só pode ser conhecida no contexto da percepção de alguém…ou seja, através de um sentimento de ‘relação emocional’ entre 2 posições… (o “perceptor” e o “outro”).

Em suma, uma verdade transcendental só pode ser alcançada quando     dois ou mais indivíduos se dispõem a trabalhar juntos…na construção       de uma realidade justa, compartilhada… e verdadeira. (texto original)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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Uma resposta para O ‘Perspectivismo’ de Nietzsche, numa síntese epistemológica

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