‘Perspectivismo’…a transcendência (imanente) em Nietzsche

“Na natureza…tanto quanto na história humana, a ordem ideal racional só pode prosperar… tendo como ‘pano de fundo’…o ‘fundamento impenetrável’ das paixões e pulsões irracionais.” (Schelling-‘Philosophical Investigations’)

luaNão existe, obviamente, um conceito único de ‘transcendente’…A palavra tem sido usada em vários sentidos, porém… sempre significando, literalmente… — “o que é…ou vai além” … Na filosofia medieval … chamavam-se “conceitos transcendentais“… aos mais ‘universais’… ou, àqueles além das diferenças entre categorias.

Já na idade moderna, designa o ‘supra-sensível’, além do “espaçotemporal”. Se acreditarmos que      o homem tem uma “relação essencial” com algo ‘supra-sensível’ … tal como nas ideias de Platão,  ou um Deus…para além do espaçotempo; então,    a denominaríamos ‘relação transcendental‘.

Hoje…duvidamos do ‘transcendente– como uma “região divina”…’extramundana‘. Muitos falam do metafísico neste mesmo sentido…e, quando dizem que a metafísica acabou, querem dizer que uma crença transcendente não mais se pode justificar. Mas,        o “transcendente” tem em 1ª instância um “sentido ontológico, ou seja, refere-se a    um ‘ente‘… e, também pode-se dizer que seu uso tem um “sentido antropológicoSomos uma espécie animal; mas isto não significa que nada nos diferencie dos outros animais. Existe, mas o ‘traço distintivo’ deve se entender de forma natural; surgido da ‘evolução’, assim como outras características surgiram. Esta é a postura ‘naturalista‘.

Nietzsche foi um dos filósofos mais importantes entre os que propuseram a doutrina naturalista…criticando, por consequência, o ‘transcendentalismo’. Segundo ele, já não temos boas razões, nem bons motivos para acreditar em Deus…Num célebre aforismo, descrito na ‘Gaia Ciência’… Nietzsche designa este fato como…a morte de Deus’.  Todavia, ele se distingue de outros naturalistas, pelo fato de ter levado muito a sério a característica humana de transcender…para algo. Com efeito, para a vontade humana parece ser necessário que todo querer seja entendido em relação a um sentido de vida.

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A ‘transcendência imanente’…                   ‘Ao invés de obedecer valores dados,                  o homem cria seus próprios valores’.

Aos clássicos, o ‘sentido da vida’ consistia na relação com o ‘transcendente sobrenatural’… ou seja, com Deus…Nietzsche afirma, porém, que já não podemos manter esta crença, pois nossa vontade mergulha primeiro num vazio. E a isto…Nietzsche denomina…”niilismo“.  Antes de nada querer, a vontade quer o nada

Para ele, o conceito do transcender humano – do ir além, adquire um sentido mais amplo. O conceito básico agora é – o de estar dirigido a um sentido de vida… e, o fato deste sentido consistir em algo supra-sensível é – somente, um conteúdo entre outros (um mero detalhe).

Nietzsche, por isso, viu sua tarefa numa reavaliação dos valores, segundo a qual os homens considerariam o sentido da vida na própria vida. Isso significa que a transcendência para o caso, voltar-se-ia para o interior do próprio ser humano… Poder-se-ia, então, falar de uma ‘transcendência imanente‘…quer dizer, de um ir além que, precisamente não seria um ir a algo além do natural… mas – um ir além do ‘ser do homem

Segundo Nietzsche… — se os valores da vida não nos são dados                       por Deus…então teriam que ser criados pelos próprios homens.

A ideia de ‘criação’ é central em Nietzsche…mas como entendê-la? Uma possibilidade aqui é a arte…Pode até soar muito convincente que a arte é o que dá sentido à vida… Nietzsche acreditava porém, que os valores morais, se não vindos da religião, devem ser vistos como fundamentados no ‘estético‘. No entanto, isto deveria ter uma base mais sólida… – Como devemos redefinir a vontade humana – se devemos entendê-la como sendo a base – tanto da moral como do estético?… – Sua resposta foi… “o Ser do homem (e…não só do homem, mas de todo ser vivo) tem que se entender como vontade de poder“.

Com este conceito… – vontade de poder“…Nietzsche acreditou responder a todas as perguntas que lhe teriam ficado abertas… Por um lado, acreditou poder interpretar toda arte como ‘expressão do poder’…por outro, o egoísmo seria a motivação básica de toda atividade do homem, inclusive, das atitudes morais… Além disso (e, isso para Nietzsche, era o aspecto central) – a ideia de “vontade de poder” podia cumprir com o requisito de “transcendência dentro da imanência“. A vontade de poder seria entendida como  “fonte de ação”…que, por si mesma, pressiona a um ir além… o que daria sentido à vida.

Dessa forma Nietzsche pensava afinal, ter encontrado a estrutura, não só do homem; mas, de todo ser vivo…e ainda de todo ser natural. Mas há, obviamente, uma série de objeções. – O problema mais grave é que Nietzsche nunca esclareceu, rigorosamente, sobre como se deve entender a palavra “poder“. Assim como ele a usa, misturam-se      dois sentidos. A princípio, significa ter poder sobre a vontade dos outros. Porém, ele também entende a palavra com um sentido de força e potência — de “capacidade“.

Antropologia filosófica                                                                                                              Somente com a palavra poder entendida no sentido de capacidade, é que Nietzsche é capaz de interpretar criação e arte como manifestação de uma ‘vontade de poder’.

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Naturalmente, o uso da palavra…”força” pode ter uma multiplicidade de sentidos. Pode…por exemplo, ter sentido de ‘força física’, como ‘poder dominador’…apesar de Nietzsche também a usar, no sentido de domínio de si mesmo.

Não obstante, ainda que admitíssemos que a motivação de toda ‘ação humana’ fosse egoísta…não parece plausível que     a meta de todo egoísmo seja o domínio   do outro… É isso que se pode contestar também contra a ideia de que … toda a ‘atividade biológica‘ visa a dominação.

Como os outros animais, evidentemente, não se relacionam com o problema do sentido da vida, não parece que com a tese de que…‘a vontade de poder é essencial para o conceito de vida, Nietzsche tivesse encontrado resposta à questão de como entender o biológico, em geral; nem como entender o especificamente humano – e… em particular, aquele traço de ‘transcendência imanente’… Nietzsche assim, perde o “fio condutor“…dado pela pergunta do…ir além… do “sentido da vida” – pois afinal, o que é essencial no ser do homem é uma pergunta a ser tratada pela ‘antropologia filosófica‘.

Esta, por sua vez, distingue-se da antropologia…enquanto etnologia (estudo de diferentes culturas humanas); sendo usada para designar o que é que distingue o homem…em geral, de outros animais. – O fato de que hoje pouco se conheça sobre essa disciplina entretanto, só pode ser explicado historicamente… – Apesar de toda filosofia – a partir de Platão…ter como núcleo a pergunta pelo modo como devemos entender a nós próprios — ou seja…”o que é o homem?“, na filosofia tradicional, a orientação para o “supra-sensível” fez com que… — se considerasse a “metafísica como a disciplina primária da filosofia.

No entanto, o que Nietzsche fazia, não era outra coisa senão antropologia filosófica.         Além disso, um pouco mais tarde, nos anos 20 (século XX), formou-se na Alemanha       uma corrente denominada ‘antropologia filosófica’, cujos principais representantes       foram Scheler, Plessner, e também Heidegger… – Por isso, pode-se então dizer        que a antropologia filosófica é a herdeira da metafísica, devendo assim, ser considerada a “filosofia primitiva” de hoje. Foi por esta razão que se estabeleceu tal disciplina na primeira metade do século passado. Mas, então, por que desapareceu?

Na Alemanha, o seu desaparecimento se deve à excêntrica filosofia de Heidegger, onde a pergunta pelo ser, supostamente, substituiu a pergunta pelo homem. Por outro lado, nos países anglo-saxônicos, a antropologia filosófica nunca chegou a estabelecer-se – porque ali, a filosofia se compartimentou em disciplinas tradicionais, como a  ‘teoria da ação’, ‘teoria da mente’, etc.

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O desafio de Nietzsche“O Homem é uma corda estendida por cima de um abismo entre o animal e o Super-homem.” 

Talvez Nietzsche tivesse razão, ao afirmar que quando prescindimos do sobrenatural, temos que seguir entendendo o Ser do homem como indo além, ou seja, como transcendental. Mas, ele poderia estar equivocado, ao entender esta ‘transcendência imanente‘ como “vontade de poder“. – Talvez a tarefa consistisse então, em retomar a problemática da antropologia filosófica, e repensá-la…dando ênfase justo à “transcendência imanente“.

No início do século XX – efetivamente – já havia surgido um novo sentido para a palavra “transcendência” na teoria do conhecimento. O problema parecia ser…como o sujeito sai de si mesmo, e chega ao conhecimento dos objetos da realidade?…Esta relação do sujeito com objeto foi chamada por alguns epistemólogos alemães da época de “transcendência” – o sujeito transcende a um objeto… Heidegger…porém, indicou…como Husserl já havia feito, que isso era um “falso problema“… O sujeito não existe primeiro dentro de si, para depois sair ao exterior – ele sempre já está em relação com objetos…“intencionalmente”,  como dizia Husserl…Entretanto, apesar de rechaçar este falso problema epistemológico,  Heidegger não consegue se livrar totalmente dessa terminologia. – Mantém a expressão “transcendência” para a “intencionalidade“…numa relação do ‘ser humano’ com ‘Entes’.

Ocorre porém que tal conceito de ‘transcendência imanente‘ não representaria uma alternativa à concepção de Nietzsche. O equívoco          na antropologia de Heidegger…se deve ao fato deste repudiar certos indispensáveis “conceitos tradicionais”. Segundo ele, o que os gregos tinham chamado de lógos – a “oração proposicional”… e, junto com            ela a racionalidade… – seria um termo derivado…não primordial.

Hoje em dia, pode-se considerar que Scheler e Plessner empreenderam um caminho mais produtivo…apesar de nunca terem chegado muito longe nos detalhes…Entre si, se indagavam… Como distinguir uma consciência humana, da dos outros animais?… Qual essa característica humana?… E a resposta era que — enquanto um animal encontra-se      no seu meio ambiente, e reage a ele… – no homem tem lugar uma ‘objetivação‘…ele objetifica o meio ambiente relacionando-se com coisas, como objetos, e assim também, objetifica-se a si próprio.

Este pensamento está em evidente contraste com o de Nietzsche…e, de outra maneira, também com o de Heidegger… — O contraste em relação ao pensamento de Nietzsche         deve-se ao fato de que este entende seu ‘naturalismo’ de uma maneira que a diferença   com os outros animais pareça secundária – o homem é movido pelo instinto de poder, tanto quanto os outros animais…Já em relação ao pensamento de Heidegger…porque    este se negou a entender o homem como animal; e não aprovando assim o método de explicá-lo comparativamente… recusou o conceito de ‘objeto’.

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‘pyramid technology’ (by maspix)

A linguagem transcendental‘…  Que consequências pode ter então, a ‘objetificação’ de Scheler e Plessner?

Em relação a Plessner – 2 aspectos são observados: , o fato de que o homem, ao confrontar-se com seu próprio “Ser”  (na “objetificação“) é logo conduzido a uma ruptura, que o obriga então… a se questionar…O que fazer?…como viver?  Este aspecto de ‘pôr-se em questão‘, por diversas razões…não está nem em Nietzsche… – muito menos em Heidegger.

E 2º… O homem não se encontra em equilíbrio nem consigo próprio, nem com o mundo. Portanto, tem de buscar um equilíbrio externo…em coisas que contrabalancem o peso do ‘desassossego que sente pela própria existência. – Nesse sentido… tal como Nietzsche,    Plessner enfatiza a significação da arte, e da criação para o ser humano. – Mas, enquanto Nietzsche tentou, com pouca plausibilidade, entender a criação como um ‘broto’ da fonte puramente subjetiva da ‘vontade de poder’…Plessner a viu – como a manifestação de seu desequilíbrio, e busca de ‘contrapesos’.

Em Nietzsche, a transcendência imanente consistia numa dinâmica de mero crescimento em direção a um além, que nunca deixa de ser puramente subjetivo. Já na ‘epistemologia’ a transcendência consiste numa relação estática entre sujeito e objeto…De igual maneira, fundamentalmente estática, foi a concepção heideggeriana de transcendência; a despeito de uma certa dinâmica na sua concepção de consciência…enquanto ‘desvelamento‘… Em Plessner, por outro lado, se estabelece um novo sentido de transcendência imanente, tão dinâmico quanto o de Nietzsche, mas que não é unilateralmente subjetivo – e, tampouco consiste numa mera relação sujeito-objeto…mas, num aprofundamento desta relação. O sujeito não pode se contentar com a superfície das coisas; e por isso tem que penetrá-las, tem que aprofundar sua relação com elas.

Assim, constitui-se um  “ir além“…uma ‘transcendência‘ – que não é, simplesmente, uma dinâmica de crescimento do poder – ou da capacidade do sujeito… – muito menos, como em Heidegger, uma relação entre homem e o ser; mas o transcender da aparência superficial em direção ao fundo das coisas. – Assim, pode ser que o tipo de “consciência humana” permita… em todas suas relações consigo, e com o mundo – dar vários passos    na direção deste fundo… — Mas, então…nesse caso…como deveríamos entender isso?…

Plessner, com sua ideia “objetificadora”… contenta-se em meras indicações superficiais;   enquanto que, aquela primitiva “antropologia filosófica” … simplesmente constata uma estrutura na qual o homem distingue-se dos outros animais – sem, ao menos…se perguntar como esta diferença pode ter-se desenvolvido no curso da evolução biológica.

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A estrutura proposicional linguística                  ‘Entende-se que a linguagem instrumental tem tido uma função biológica, estendendo sua estrutura, por toda a complexidade da vida humana’…

Nesse sentido…de ter que dar vários, e sempre mais passos… a um fundo das coisas — parece necessário encontrar uma nova base…para podermos entender melhor a “transcendência imanente”. – Na verdade,  Aristóteles já tinha dado uma resposta à pergunta de como se distinguem os homens dos animais, que parece mais produtiva como fio condutor…ao invés do conceito de ‘objetificação‘…e fez isso recorrendo à ‘linguagem’…Scheler e Plessner não a levaram em conta…e Heidegger dela nada falou – que fosse útil.

Aristóteles  por sua vez… diz que é característico da linguagem humana possuir uma estrutura proposicional…Enquanto a linguagem dos animais tem uma função segundo a qual reagem ao ambiente, a estrutura predicativo-proposicional proporciona ao homem      a possibilidade de se dizer coisas que independem da situação corriqueira… E, com isso, conecta-se o fato de que estes possam falar do bom…e do justo (esta reflexão encontra-    se no início da sua “Política”). E assim Aristóteles conclui que os homens podem formar grupamentos políticos, porque podem entender que algo é, mutuamente, bom para eles.

Em Aristóteles, tem-se que entender a motivação para o ‘bom’, em contraste com a motivação para o prazer… E, o que distingue a perspectiva do bom da do prazer é a deliberação. – O objeto formal da deliberação prática é o ‘bom’, enquanto que o             objeto da deliberação teórica é o ‘verdadeiro’. – A característica do homem é que            ele fala e pensa em proposições, tanto teóricas, quanto práticas… – sendo, por isso,          um ente deliberativo que se relaciona com o bom e o verdadeiro… Nenhum desses aspectos é encontrada nos outros animais.

Confrontado com uma proposição, o homem pode consentir ou negá-la; e, por isso, pode também pô-la em dúvida, questioná-la; e, por conseguinte, deliberar. Confrontar-se com algo dito, ou pensado na modalidade da deliberação – portanto… significa perguntar por razões; e, isso significa perguntar-se pelo que se pode dizer a favor, ou contra a asserção.

Nesta “tomada de distância” … — neste poder de tomar                           posição, a favor ou contra, estamos livre, temos opções.

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Joan Miró – ‘Characters and birds party for the night that is approaching’. 1968

Procurando ‘explicações causais’

Plessner insistia que o homem tem que se “pôr em questão”… por objetificar as coisas. Todavia, torna-se mais evidente justamente o contrário… – a razão pela qual o homem está objetificando coisas e, a si próprio é que se relaciona a tudo através de uma lógica proposicional. E, junto a esta linguagem proposicional… necessariamente, aparecem diferentes aspectos representando diversos lados da mesma moeda…’questões’, ‘razões’, proposições’, ‘deliberação’ e liberdade.

Quando Aristóteles diz que – para o entendimento humano, a linguagem proposicional (lógos) é essencial – isso significa que o homem é o animal racional, que pode perguntar por razões – ou seja…o ente deliberativo…’livre’. Confrontando com o que tínhamos visto em Plessner – trata-se de uma estrutura bem mais fundamental que a mera objetificação.

Um aspecto relevante dessa linguagem é a relação sujeito/predicado. Se o homem tem que falar das coisas, consequentemente, tem que objetificá-las…e deste modo, chega a ser também objeto para si próprio. – E, como tudo o que diz, ou pensa, pode ser colocado em questão, isso afeta também sua relação consigo próprio. Assim, pode-se entender por que razão – uma espécie com tal característica…desenvolveu-se tanto na evolução biológica…

Se, simplesmente assumirmos que o homem objetifica-se a si mesmo, isso é algo que não se pode explicar “funcionalmente“. Entretanto isto também acontece se dissermos, como no existencialismo, que o homem é essencialmente livre. Ser livre então seria algo sem função biológica compreensível…- Mas, se dissermos que a espécie tem capacidade de ‘se questionar por razões’…esta é uma nítida vantagem dentro da “evolução“…pois implica num novo ‘nível cognoscitivo’, que permitiu ao pensamento uma ‘evolução instrumental’ em larga escala. Assim, também o conceito de ‘transcendência imanente pode agora adquirir um ‘sentido mais nítido’… – Vimos que em Plessner…tal conceito se refere a um aprofundamento na maneira como nos relacionamos com objetos. — Este procedimento, porém, adquire transparência…quando o utilizamos por meio do conceito de dar razões.

Trata-se aqui da tensão entre ‘aparência’ e ‘verdade’…ou, na deliberação prática entre o bem aparente e o bem verdadeiro. A mera opinião seria a aparência, e ao invés desta, se podemos dar razões – e, sempre melhores razões…passamos então, de um nível a outro. Nisto consiste a “transcendência imanente”… que parece constitutiva do saber humano.

Erich FrommDe volta à Fenomenologia

É certo, que essa é uma matéria onde apenas podemos especular…  – Empiricamente, não sabemos como nossa espécie se desenvolveu, contudo…podemos, ao menos, elaborar uma hipótese que faça sentido. — Ao invés de nos confrontarmos diretamente com a questão… vamos considerar dois pensadores do século XX, que se encontram à margem da filosofia:  o psicanalista Erich Fromm, e a filósofa Iris Murdoch que muito têm contribuído no esclarecimento da questão… — Fromm não compartilha da preocupação dos antropólogos, de procurar uma ‘característica central’ que diferencie o homem dos outros animais…Com base numa concepção hegeliana, segundo a qual, todo o ser…e, em particular, o “humano” consiste numa “síntese de antíteses”…Fromm parte da pergunta pela “felicidade humana”.

Na ‘Fenomenologia do Espírito’, Hegel mostra que o homem não chega a satisfazer-se, se somente devora, ou domina o que encontra… O que pode satisfazê-lo só pode ser algo tão independente quanto ele; algo que tenha também autoconsciência e autonomia… A mera dominação dos outros não leva a satisfação alguma…Com isso, Hegel anteviu a refutação de Nietzsche… “Só no espelho do outro…e, de um outro igualmente autônomo, o homem chega a uma satisfação. E, a experiência assim se faz, na medida em que – no outro…sua afirmação tem significado”.

Toda Fenomenologia do Espírito” consiste…em graus sempre mais complexos, desta simetria…e, é esta concepção que Fromm aplica à psicologia, em sua busca pela felicidade. O homem encontra-se, segundo Fromm, em dicotomias…vê-se isolado e só pode chegar à felicidade, dando ao outro o peso que dá a si próprio. Fromm demonstra este princípio de simetria, particularmente, em 2 aspectos do comportamento humano … o ‘entendimento’, e o ‘amor’. No amor, forma-se uma convivência, cujo perigo é a ‘unilateralidade‘; ou cada parte quer dominar a outra, ou uma quer dominar – e a outra… submeter-se. Somente se cada um livremente aceita a igualdade do outro é que ambos podem chegar ao bem-estar.

Fromm constrói uma concepção análoga para o ‘entendimento’ — não podemos chegar a entender uma coisa ou pessoa se somos meramente passivos… ou reflexivos… – Para que possamos penetrar na realidade, além da superfície … temos que ativar o nosso “poder imaginativo“.

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Dimensões de profundidade   (…da ‘transcendência imanente’)

O peso e ativação do sujeito devem estar em concordância com o peso,   e respeito para com o objeto. Trata-se da ativação de nossas próprias capacidades, dirigida pelo respeito por tudo aquilo…com que lidamos.  Disso resulta – para Fromm…uma recusa total à…”ideia nietzschiana”, que confunde poder e potência. Segundo ele, relacionar-se “simetricamente com coisas      e pessoas, depende da ativação das próprias potências. O poderno sentido de domínio,    é uma perversão do poder no sentido de ‘potência‘ (capacidade de relacionar-se com o mundo).

Quanto à problemática da “transcendência imanente“, Fromm fala de profundidade da realidade das coisas e pessoas. Segundo ele…o “desejo de poder” nasce da incapacidade      do indivíduo para relacionar-se produtivamente com o mundo…Em suas ideias, vemos conceitos já encontrados em Plessner… – de “simetria na relação entre sujeito e objeto” (peso e contrapeso)…Há, porém, uma ‘diferença estrutural’ entre o que dizem Plessner, Fromm…e a filosofia de Aristóteles, pela qual na ‘estrutura proposicional a ênfase está    na razão. – Para eles, não obstante, há uma estrutura entre sujeito e objeto; sendo que, estas estruturas parecem… – “dimensões de profundidade“… – em diferentes sentidos.

Iris Murdoch, por sua vez, também usa o conceito de ‘transcendência’… mas o seu interesse é menos descritivo, e mais normativo. A pergunta é…como devemos ser?           Seu termo central é ‘atenção‘…termo tomado emprestado de Simone Weil, que a         tinha influenciado profundamente. A obrigação central do homem para Murdoch,               é desenvolver uma viva atenção para a ‘realidade‘…usada no sentido de verdade                das coisas. A verdade nunca está na superfície; por isso a atitude de atenção exige        esforço. Tal ‘atenção‘ se assemelha para Fromm a uma ‘compreensão equilibrada’.

Uma das preocupações de Murdoch é mostrar que o problema de abrir-se para a realidade das coisas é universal – igualmente constitutivo da estética e da moral.              É uma experiência de profundidade da realidade. — É como se dissesse diante de              uma obra de arte… “isso é mais real que o resto da realidade”…Assim, a palavra ‘realidade’ para ela, adquire um sentido correspondente ao conceito de ‘atenção’.

O deliberado poder funcional da arguição                                                                          A aprendizagem humana é diferente da aprendizagem de outros animais…O homem aprende a fazer bem alguma coisa, e encontra-se numa ‘escala de excelência’…em que pode avançar mais ou menos…Este seria o sentido não metafísico da transcendência”.

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“O desejo esmagador de um corpo humano por outro… é um dos maiores mistérios da vida.” (Iris Murdock)

Comparemos agora…a posição de Murdoch, com a de Nietzsche… – enquanto a “transcendência imanente”, e o “sentido da vida” em Nietzsche…consistia em um crescimento de si próprio, para Murdoch consiste no crescente abrir-se para a realidade, na aprendizagem de uma coisa boa. – Poder-se-ia imaginar um debate entre os dois, em que Nietzsche diria que todas estas ‘escalas de excelências’ seriam simplesmente, passos  de alguém… – para poder ‘desfrutar-se de si mesmo’.  Contudo, para Murdoch… ainda que seja certo que o homem ache satisfação quando faz bem as coisas…é notável que… – grande parte da ‘felicidade humana’, consista… – justamente… em “fazer coisas boas“.

Nesse caso… – um bom exemplo se encontraria…ao analisar o conceito de ‘amar uma pessoa’. Nietzsche tinha insistido no “aspecto possessivo” de todo amor… – e este aspecto inegável…está igualmente…em tudo o que queremos fazer bem…Mas, por outro lado, amar uma pessoa implica “ser tocado” pela profundidade de seu ser; para Murdoch…sua “realidade” — e…isto abre a possibilidade de preferir a felicidade desta pessoaa simplesmente ‘possuí-la’.

O conceito de “deliberação” é mais amplo…ou, segundo                                                        Platãoo conceito de bom“…está além do de ser“.

Mas daí então, o que devemos entender pela palavra “bom”?… – Com efeito, esta palavra refere-se a um comparativo de ‘preferência’, que assume uma pretensão de ‘objetividade’, ou pelo menos de ‘intersubjetividade’. Quando dizemos que uma coisa é melhor… – trata-se de uma ‘preferência‘… da qual se supõe não ser só minha. Já o conceito de preferência, remete a um ‘querer’… – e este, o temos em comum com outros animais. O que os outros animais não têm… – é a capacidade de compreender-se dentro de uma escala – em que a multiplicidade de coisas, ou ações… – são classificadas como melhores, ou piores.

Isto equivale a dizer que nos encontramos em “dimensões de profundidade“.

Sobre isso…ainda cabe esclarecer a ambiguidade na diferença de dimensão de profundidade… – a partir de Aristóteles…que é a ‘deliberação‘, e a dimensão de profundidade, como se apresentou    a partir de Plessner e Fromm… – uma dimensão entre ‘sujeito e objeto‘… que conduz à ideia de ‘simetria‘… – Estes dois tipos de ‘dimensões de profundidade’ são considerados diferentes…mas com origem comum… – Uma vez que surge uma ‘linguagem proposicional‘…surge – por um lado,    a pergunta por razões, e por outro a ‘objetivação de entes’, seja no mundo, seja no sujeito mesmo.

A volta de Murdoch às especulações de Platão, nos faz estender o conceito de “dimensões de profundidade” a esta característica humana na “evolução biológica”, que nos distingue dos outros animais, isto é…poder perguntar pelo que é ‘praticamente’ melhor…bem como indagar do conceito de deliberação sobre o que é bom, na busca do “melhor juízo”. – Esta capacidade de relacionar-se com o mundo – e consigo mesmo – teria a necessidade de se estender às demais atividades humanas.

Com a consciência de si e com o saber dos outros (que também tem uma consciência de si), necessariamente aparece a ideia de que os outros são como eu…e isso significa que, junto com o egoísmo surge a possibilidade de um altruísmo explícito…sem regras fixas. Ora, se Fromm tem razão, este altruísmo – especificamente humano…não é uma mera possibilidade abstrata. É, naturalmente, uma possibilidade real…e, como tal, faz parte do que é para os homens uma ‘vida boa‘. (Ernst Tugendhat)…artigo original (em PDF)  **********************************************************************************

O ‘Perspectivismo’ de Nietzche…numa “síntese epistemológica”

Friedrich Nietzsche Aforismo

O cenário em que o experimento transcorre, trata-se de um “afrontamento” – entre duas interpretações… – a ‘interpretação mecânica do universo’… que repousa sobre o texto das ‘leis naturais‘, e uma arte de interpretação de propósitos opostos. – Pois a regularidade da natureza…da qual tanto se fala… subsiste apenas… – graças à nossa “interpretação

A teoria baseada na ‘vontade de poder‘ sabe de seu caráter…incontornavelmente interpretativo, e por isso não pretende ser texto contraposto à ‘apreciação física’       — que conduz à resignação, e submissão do saber e agir humanos — às leis naturais…

“Devemos ser o sentido da terra e superar a nós mesmos em nossa mediocridade,         para, quem sabe um dia vir à tona o…’além-do-homem’… – um tipo humano pelo         qual a terra se justifique”… Esta interpretação… fundada na ‘vontade do poder‘,     libera ilimitado horizonte de cognição e operacionalidade… capacitando à vontade humana o poder de imprimir sobre a natureza … o ‘selo‘ de sua própria legislação.

O fato do artista estimar mais a aparência do que a realidade, não constitui uma contradição, pois a aparência significa, em tal caso, a realidade repetida mais de             uma vez…selecionada, reforçada, corrigida. Como ‘vontade de poder’ a natureza                   só pode ser pensada como uma infinita multiplicidade de forças em relação, em                 um ‘campo de forças’, cuja essência consiste…a cada instante, em sua efetivação                 integral, num mundo visto a partir de dentro… através de seu caráter inteligível.

         “Vida é vontade de potência – Para cada alma pertence um mundo                 diferente — para cada alma… toda outra alma é um além-mundo.”

Para que o experimento seja conduzido adequadamente, faz-se necessário conceber             o ‘mundo inorgânico‘ como uma forma prévia…(a mais primitiva de vida)onde se encontra ainda englobado – numa poderosa unidade, tudo aquilo que…em seguida,             no processo orgânico se ramifica…e, se configura numa espécie de vida pulsional,            na qual todas ‘funções orgânicas‘ … — autorregulação, assimilação, alimentação, secreção, metabolismo, etc…permanecemsinteticamenteligadas entre si.

Se forem obedecidas todas as ‘prescrições metodológicas‘ presentes no experimento, então a universalização da hipótese da vontade de poder produziria o máximo grau de simplicidade, abstração e unidade em nosso conhecimento. Com ela estaríamos de posse de uma ‘interpretação global do mundo inorgânico e orgânico‘ – tendo…como ponto de partida – inversamente ao modo como poderíamos interpretar todo fenômeno natural, o ‘universo humano‘… conhecido através do complexo domínio de ‘nossos impulsos‘.

— ‘Na verdade, tudo não passa de uma invenção humana… As coisas sensíveis se           tornam inteligíveis pelas ideias. E a filosofia é tão somente, um modo de se viver’.

Trechos (livremente) extraídos dos livros…  “Nietzsche… – Para além do Bem e do Mal” de Oswaldo Giacoia Junior; e “Alma em Nietzsche” de Mauro Araujo de Sousa **********************************************************************************  “Tudo vai e volta…a roda da vida gira sem cessar…Tudo morre, tudo volta a florescer; correm eternamente as estações da vida… – Tudo se destrói… – Tudo se reconstrói…E, eternamente se edifica a mesma casa da existência…Tudo se desagrega, tudo se saúda   outra vez… – o anel da vida conserva-se… eternamente… leal a si mesmo. – A todos os momentos…a vida principia; ao redor de cada aqui, gira a bola acolá. – O centro está       em toda a parte… O caminho da eternidade é tortuoso.” (Nietzsche…”O convalescente’)  ******************************(O Eterno Retorno)*********************************  O Eterno Retorno é um conceito não acabado em vida pelo próprio Nietzsche, visto em vários de seus textos, comoAssim falou Zaratustra“; aforismo 341 deA gaia ciência“; aforismo 56 deAlém do bem e do mal“… e, trechos de fragmentos póstumos — que se encontram no livro “Nietzsche” da coleção “Os Pensadores”, da editora Abril Cultural.

Ele mesmo considerava este…como seu pensamento mais profundo e aterrador,       que lhe veio à mente, numa caminhada.

Um dos aspectos básicos do tema diz respeito aos ciclos repetitivos da vida — onde estamos sempre presos a um nº limitado de fatos, que se repetiram no passado…se dão no presente, e se repetirão no futuro.

O que é indispensável notar é que esta teoria não é uma forma de percepção do tempo – o Eterno Retorno não é um ciclo temporal que se repete indefinidamente… – na eternidade.

Quando no texto, abaixo transcrito, de A Gaia Ciência, o filósofo sugere a aparição do demônio portador da revelação do ciclo inexorável de repetições…ele não afirmou que aquilo seria exatamente o ‘Eterno Retorno’. Nos textos de Nietzsche sobre História… – com efeito – vemos que sua noção do Tempo não é cíclica.

Com o Eterno Retorno Nietzsche questiona a ordem das coisas. Indica um mundo não feito de pólos opostos e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma – múltipla… mas, única realidade. Logo… bem e mal… angústia e prazer… são instâncias complementares da realidade que se alternam eternamente. Como a realidade não tem objetivo, ou finalidade (pois se tivesse já a teria alcançado)… a alternância nunca finda,     e, em algum momento futuro… – tudo se repetirá infinitas vezes… – indefinidamente

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse… ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes…  e, não haverá nela nada de novo  —  cada dor e cada prazer, cada pensamento e suspiro, e tudo que há de indivisivelmente pequeno e grande em tua vida há de te retornar…e tudo na mesma ordem e sequência…E do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, este instante, e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!’…  Não te lançarias ao chão, rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal em que lhe responderias “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!…”  Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti…assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse… a pergunta diante de tudo – e de cada coisa…“Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?”  pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo, e mesmo com   a vida, para não desejar nada mais do que essa última eterna confirmação e chancela?

returns to forever

Há sobre a linha reta um ‘eterno retorno‘, que não é mais dos indivíduos, dos mundos – mas, o dos acontecimentos puros … que o ‘instante deslocado’ não cessa de dividir em já passados, e ainda por vir…

O  eterno retorno… – enquanto devir da repetição, supõe um mundo – o da vontade de ‘potência’… em que todas as identidades prévias são abolidas, dissolvidas… – Então, assumimos a eternidade do nosso instante, sujeitos dinâmicos … que povoam mundos.   O “homem do acaso” existe… e reverbera… como possibilidade existencial!…

O eterno retorno indica uma repetição tal, que sendo necessariamente um acontecimento singular – é ao mesmo tempo diferente…e, a partir de sua diferença…produz sua própria identidade… — Como resultado dessa ‘divergência de séries’… forma-se não mais um mundo – mas um ‘círculo virtuoso’, cujo instante se faz acontecimento, e o porvir, eterna repetição.

Este é o ‘círculo do eterno retorno’ — o instante                           como acontecimento… o porvir como repetição.                               (O. F. Bauchwitz – ‘Nietzsche, Deleuze & Borges‘) ****************************************************

“Demasiado Humano”

Na tentativa de estabelecer a ‘verdade‘ numa esfera ‘transcendente’ à humanidade, a racionalidade falha porque, ao mesmo tempo, põe essa deusa (‘Veritas’) no campo do ‘humano, demasiado humano’, fazendo dela um joguete na mão de homens que nada   mais querem que encontrar justificação racional a suas convicções, crenças, e valores.

A Filosofia sempre será uma inquietação que problematiza, não para dar respostas conclusivas e agradáveis – mas, para ampliar os horizontes de uma humanidade mergulhada no ‘racionalismo‘… – o qual, fez de seus instintos, os vilões de nossa infelicidade.  (Jaya Hari Das/Rev. Filosofia) *********************************************************************

“Para além do Bem e do Mal”

“Criar dualismos como corpo e alma, é enganar o homem diante desta vida… Também       os instintos foram divididos em Bem e Mal… Daí a necessidade de irmos para além do   Bem e do Mal – o que não significa um ‘relativismo’, e sim…’perspectivismo‘ – pois,       a própria Vida é uma perspectiva rara.” (‘Alma em Nietzsche’, Mauro Araujo de Sousa)

“Tanto para Nietzche quanto para Foucault, o método ‘genealógico‘ de investigar a história – buscando a origem dos saberes… não tem por fim reencontrar as raízes de       nossa identidade, nem a destruição daquilo que somos… mas sim, transparecer toda descontinuidade que nos atravessa, como relações de forças que se entrecruzam.” (J. Nicolao Julião)****************************************************************

nietzsche - frase

“Cosmovisão em Nietzsche”    ( – Mauro Araujo de Sousa – )

O universo é finito… mas eterno,   e o que retorna…é o processo do vir-a-ser – como ‘devir absoluto’ da diferença…que permanece no infinito tempo do eterno retorno.

A ordem cosmológica só se realiza por ordens diversas. De uma para outra… – existe sempre o Caos… (inerente ao processo de organização).

O Cosmo e o Caos não passam de um grande jogo, onde o universo é um acaso;             o Caos – suas desorganizadas forças… enquanto o Cosmos é essa organização, em potência. – Dessa forma… ‘o universo é eterno’… – com tudo o que nele há de finito.  ******************************************************************************

Cosmologia e Genealogia  (Scarlett Merton)      

“O universo – no seu todo, e em sua pluralidade – não constitui um sistema…Tanto     quanto a vontade de potência, o mundo não é um ser. É, antes, um eterno processo,       onde as relações entre suas forças não se esgotam… – antes… se renovam.”

Nietzsche“O involuntário no Pensar”

Todo aparato do conhecimento é um aparato de abstração e simplificação… – dirigido não para o conhecimento, mas sim à apoderação das coisas.

O pensamento emerge – frequentemente se mistura – e… se obscurece… através de um aglomerado de pensamentos…

Nós o destacamos… daí… nós o depuramos, colocamo-lo sobre seus pés, e vemos como       ele anda – tudo muito rápido!..  O colocamos, então, em julgamento…

Pensar é um tipo de exercício de justiça, pois existe aí,                              também, interrogatório… – Mas, o que ele significa? 

O pensamento não é tomado como imediatamente certo, mas como signo (Zeichen), e interrogação (Fragezeichen)… Que todo pensamento é — antes de tudo — ambíguo, e oscilante (apenas um ensejo a múltiplas interpretações e determinações arbitrárias),       é uma constatação empírica de todo observador…  –  que não se detém na superfície.

A origem do pensamento nos é oculta – é de grande probabilidade que seja um sintoma de um estado bem amplo, igual a todo sentimento […];  para a consciência — todo pensamento é um estimulante, e nisso, tudo se expressa como algo de um estado global de signos.

            (Friedrich Nietzsche – ‘Escritos Póstumos’ -KSA 11)                                                                        ************************************************

“Permanecei fiéis à Terra, meus irmãos, com o poder de vossa virtude. Que vosso amor seja pródigo, que vosso conhecimento sirva ao sentido da terra. Eu vos imploro e vos conjuro a isso. Reconduzi à Ela, como eu fiz, a virtude desvanecida — ao corpo e à vida… — para que Ela lhes dê seu sentido… um sentimento humano!…”    ***** (Nietzsche ‘Also Sprach Zarathustra’) ***** 

*******************************(texto complementar)*********************************

“Penso que hoje, pelo menos, estamos distanciados da ridícula imodéstia de decretar, a partir de nosso ângulo, que somente dele pode-se ter perspectivas…O mundo tornou-se novamente infinito para nós… na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade deele encerrar infinitas interpretações”. [Nietzsche (1844-1900)…’Nosso novo infinito’]

Nietzsche

O Prespectivismo em Nietzsche

‘Perspectivismo’ é a designação corriqueira para a suposta ‘teoria do conhecimento‘ de Nietzsche…cuja ideia básica resume-se nas seguintes palavras… “não há fatos, apenas interpretações”…ou, “mutatis mutandis”… “isso é interpretação e não texto” … trecho de “Para além do bem e mal”.

Ao dizer que o perspectivismo é uma teoria do conhecimento – e…precisamente aquela que se desenvolve em Nietzsche, já…porém, tocamos em… – pelo menos … 2 problemas.

O 1º se consiste em saber se há algo como uma teoria do conhecimento, nos escritos     de Nietzsche. Em caso afirmativo, deparamo-nos com um 2º problema… – em que medida esta teoria pode se inserir como posição forte, num debate epistemológico contemporâneo. Um panorama sobre a visão atual do “perspectivismo”, pode lançar alguma luz na questão.

Perspektivismus” é…entre outras coisas – a afirmação de uma pluralidade de sentidos; uma polissemia irredutível…no limite a uma definição unívoca, não ambígua. A genealogia do termo antecede a Nietzsche. – Para uns, foi Leibniz o introdutor de seu uso em filosofia, no modelo ‘monadológico’… E, Kant o teria também utilizado na ‘filosofia transcendental‘.

A discussão atual acerca do ‘perspectivismo’ excede em muito os limites da Nietzsche, entretanto…é principalmente devido à sua influência, que         o termo se dissemina pela filosofia, e alhures…

O seu uso em Nietzsche, se torna motivo central nas discussões acerca de sua obra, sobretudo, a partir da década de 1960… – mesmo sem haver um mínimo consenso     acerca do seu significado… – Toda a investigação a respeito do tema…lida com um amontoado de fragmentos, peças soltas de um quebra-cabeça, cujas possibilidades               de interpretação são muitas… e, enquanto tais, constituem-se como reconstruções, peculiarmente criativas.

O quebra-cabeça do perspectivismo em Nietzsche é marcado por uma incompletude característica, que leva o intérprete a colher, em algum       lugar fora da imanência dos textos nietzschianos as peças que faltam.

Com relação ao perspectivismo, portanto, torna-se particularmente pertinente a ideia de que interpretar é criar. E são muitas as possibilidades de sua reconstrução – tantas…que retomá-las amiúde equivaleria a compor toda uma história da filosofia…desde Nietzsche, até os dias atuais. Contudo, ainda podemos “pôr as cartas na mesa”, mostrando quais os delineamentos básicos das posições em jogo… – E, justamente para isso…utilizaremos 5 linhas interpretativas centrais no debate acerca do perspectivismo nietzschiano; a saber:

Perspectivismo metafísico

Diversos intérpretes compreendem o ‘perspectivismo’ como uma ‘doutrina ontológica’…O problema central com que têm de lidar tais intérpretes, deriva de que Nietzsche, ao atacar a ontologia e a metafísica, parece não dissociar delas uma profissão de fé…Ele afirma, por exemplo, que:

salvador-dali-A Tentação de Santo Antônio

Salvador Dali – “A tentação de Santo Antônio

“A… força inventiva – que tem poetado categorias, labora a serviço da necessidade, isto é, da segurança, do entendimento rápido… à base de sinais e sonidos…de ‘reducionismos’.

Nos casos de…“substância”, “sujeito”, “objeto”, “ser”, “devir”, não se tratam de verdades metafísicas… Os “donos do poder” é que…do ‘nome de coisas’, fizeram ‘leis’ … e, entre os poderosos, os grandes artistas abstratos – foram os artífices de suas categorias”.

Dessa constatação fica difícil imaginar como se poderia interpretar o perspectivismo como uma espécie de ‘ontologia’. Os que defendem essa posição, no entanto, se servem de outras passagens de Nietzsche – em que este suprime a possibilidade de uma “teoria do ser”… em nome de uma ‘teoria do devir‘…a que se refere em seus últimos escritos, com o conceito de ‘vontade de potência‘…

“O mundo visto de dentro, definido e designado conforme seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’…e nada mais.”

O problema da referência ao devir                                                                                    “O mundo interior tratar-se-ia de uma ontologia da pluralidade, e não unidade;                da diferença… ao invés da identidade… – da imanência… e não transcendência’.

A questão que surge aí… é como se dá… – em Nietzsche… o acesso a essa realidade perspectivisticamente estruturada, e em que sentido o “perspectivismo ontológico”               não repõe aquilo mesmo que ele pretende negar. Essa é uma das questões cruciais,               a serem enfrentadas numa reconstrução do perspectivismo.

Heidegger enfrenta essa questão, ao elaborar uma interpretação que designamos aqui como ‘perspectivismo metafísico’…Diga-se de saída que se trata de uma ‘reconstrução desconstrutivista’, isto é, uma interpretação eminentemente crítica do perspectivismo. Para ele…a despeito de todo esforço crítico que possa ter realizado… o pensamento de Nietzsche é tão metafísico quanto o de Platão. – ‘A metafísica de Nietzsche seria o fim       da ‘tradição metafísica’, na medida em que atualiza e esgota todas suas possibilidades’.

Para Heidegger… o “esquecimento do ser” em Nietzsche…se dá pela metafísica da vontade de potência. Nesse contexto, o ‘perspectivismo‘ surge como um dos aspectos da metafísica de Nietzsche. – A crítica que Heidegger dirige a Nietzsche, é a mesma que opõe à ‘tradição metafísica’ em geral – a filosofia nietzschiana, também seria uma forma de “esquecimento do ser”…Heidegger a interpreta basicamente, à luz de um fragmento póstumo que diz que:

“Por meio de qual todo centro de força, e não apenas o homem – construiu, partindo de si mesmo… todo o resto do mundo… – quer dizer que o homem mede… – apalpa… – e aplaina o mundo… – segundo suas próprias forças”.

E desse modo, perspectivismo significa… – “a constituição do ‘ente‘… como ser que põe pontos de vista, e calcula”. O perspectivismo é o caráter mesmo do ente, é a vontade de potência presente em cada ser…em particular, que lança sobre a totalidade do ente sua perspectiva para organizar a partir de si essa totalidade…em função de seu interesse de conservação e crescimento. Para Heidegger…“a vontade de potência, essencialmente, é    um contar com as condições de sua possibilidade…condições que ela mesma as impõe”.

O perspectivismo seria metafísico precisamente porque para uma teoria perspectivista do conhecimento… não se trata de conhecer o ser, nem sequer o ente – mas de exercer poder sobre ele…Conhecimento é o processo por meio do qual o ser que conhece se apodera, em função de seus interesses vitais, do ser em geral…Na medida em que entende que esse ser que conhece é o sujeito a partir do qual se lançam as perspectivas Heidegger entende que   o perspectivismo é uma forma de subjetivismo:

“A vontade de potência se revela…como a subjetividade que se distingue       por pensar em termos de valor. Apenas se experimenta o ente enquanto     tal, no sentido desta subjetividade…ou seja…como vontade de potência”.

No ‘perspectivismo nietzschiano‘ se revela com toda clareza que o motivo fundamental da metafísica não é conhecer o ser…mas dominá-lo – ao explicitar que a relação entre sujeito e objeto é uma relação de poder, pensada em termos de ‘vontade de potência’… – E assim, a história da metafísica termina…e a ‘alienação do ser’ passa a se identificar com a técnica.  Entretanto, parece-nos que Heidegger comete um excesso ao ler o “perspectivismo” como uma forma de “metafísica da subjetividade” … pois uma das bases do perspectivismo está precisamente na crítica da noção moderna de ‘subjetividade‘… – que Nietzsche entende como obra do processo de “substancialização“… resultante de nossa crença na linguagem.

heidegger

Perspectivismo fenomenológico

Heidegger exerceu…e ainda exerce… sobretudo na França, forte influência sobre os intérpretes de Nietzsche. No que diz respeito ao “perspectivismo“, tal influência se faz sentir, sobretudo  na leitura fenomenológica de Jean Granier — baseada no modo de pensar heideggeriano.  Granier entende que o conceito hermenêutico de Ser, de certo modo já estaria formulado em Nietzsche, que não o teria esquecido nem tampouco abolido…ao conceber que…“todo Ser existe como ser-interpretado. Nesse sentido, para Granier haveria o perspectivismo fenomenológico. — Segundo ele… “Em Nietzsche, o dualismo da aparência é finalmente superado, como uma manifestação real…e, não há nada a buscar além disso…Contudo, ao afirmar o ‘perspectivismo do conhecimento‘… Nietzsche defende – de fato…um ‘pluralismo ontológico‘… – ao afirmar que o ‘Ser’ tem por essência mostrar-se, mas conforme uma infinidade de pontos de vista”.

A noção nietzschiana de perspectiva é assim… associada à de fenômeno, não no sentido fenomenalista kantiano, mas no sentido da ‘fenomenologia’. Cada perspectiva é uma “aparição”, uma manifestação da “coisa mesma”… – do ”real”…do Ser que se desvela de infinitas formas nas perspectivas…A noção de perspectivismo se imbrica com aquela de interpretação, de modo que introduzindo a noção de ‘interpretação, Nietzsche impõe a definição do Ser como “texto”…”O Ser é como um texto que precisaríamos da exegese“.

Assim, enquanto a ideia de perspectivismo enfatiza mais o caráter de desvelamento do Ser, a ideia de interpretação acentua seu ‘caráter equívoco’. Conforme Granier, Nietzsche teria defendido um “realismo pluralista” – uma ontologia da pluralidade, que pensa o ser como texto fundamental; o que significa a ‘vontade de potência’ transcrevendo um texto caótico, fragmentário, estruturado em múltiplas perspectivas…Granier chega inclusive a entender que essa seria uma “ontologia do caos”…

Apesar de jamais termos como esgotar uma multiplicidade de           possíveis interpretações do “texto do ser”… é o ser mesmo que                       perspectivamente se desvela… — nas diversas interpretações.

O principal problema em interpretar o perspectivismo como uma ontologia, ou metafísica como quer Heidegger… decorre de que encontrar em Nietzsche um ‘realismo’ – ainda que pluralista, se não é propriamente inviável, soa como algo forçado. – Nietzsche faz ataques diretos à postura realista… parecendo – por vezes…oferecer o ‘perspectivismo‘ como uma alternativa a essa forma de pensar.

Acresce a isso a dificuldade que a ideia da ‘vontade de potência’ como um texto fragmentário plural tem, ao enfrentar o problema de conciliar a ideia do “texto                   do ser”, com a tese central do “perspectivismo“… – que afirma haver apenas interpretações… – negando assim… que haja um “texto fundamental” sob elas.

Perspectivismo transcendental…                                                                                         O perspectivismo seria uma resposta de Nietzsche à pergunta transcendental, pelas condições de possibilidade do conhecimento…e assim, uma superação de Kant – não     no sentido de uma ruptura, mas de uma reformulação neokantiana… na medida em     que teria situado tais condições de possibilidade dentro do próprio mundo’.

Auto-Retrato-Escher-1935

Se o perspectivismo não é uma ‘ontologia’, ou seja, não é uma descrição do mundo, mas em certo sentido uma epistemologia, isto é… – uma tentativa de descrição do que se passa no “plano do conhecimento”, então… uma questão reflexiva se impõe como ponto de partida para sua própria compreensão. – Trata-se de saber se a tese básica do perspectivismo seria retro-aplicável, ou seja, se ao enunciar a proposição “todo conhecimento é perspectivo” poderíamos acrescentar… — sem cair em contradição… — que… inclusive ‘p’ é perspectivo.  Ou seja… trata-se de investigar a possibilidade da tese perspectivista ser consistentemente auto-referente ou necessariamente uma tese auto-refutável. Desse modo o “perspectivismo” suscita problemas do “relativismo”.

Tendo em vista esse ‘paradoxo do perspectivismo’… certos intérpretes propõem que se distinga entre diferentes níveis discursivos. Assim, o perspectivismo seria um discurso      de 2ª ordem, que descreve – de modo não perspectivo, os vários discursos de 1ªordem.  Postula-se…por assim dizer, a existência de 2 tipos de conhecimento…um 1º, direto ou imediato, de caráter perspectivista, que consiste nas várias descrições realizadas pelas ciências, arte, religião, etc. da aplicação de nossos esquemas conceituais ao mundo… e,     um 2º, que seria indireto, ou mediado…de caráter ‘não perspectivista’; consistindo no discurso epistemológico, resultante de uma reflexão sobre esses esquemas conceituais.

O perspectivismo transcendental seria o desdobramento da tradição epistemológica moderna – em especial…da filosofia de Kant. – Para Nietzsche, a estrutura cognitiva do homem, isto é, sua subjetividade transcendental… – estaria marcada por essa… “perspectividade“.

Baseado em uma passagem da “Gaia ciência” que diz…  Não podemos enxergar além de nossa esquina: é uma curiosidade desesperada querer saber que outros tipos de intelecto e perspectiva poderiam haver”…Volker Gerhardt afirma que… – “todo conhecimento está vinculado a perspectivas”. Segundo ele, Nietzsche tem consciência de que, dessa maneira, traz à expressão uma constituição do ‘conhecimento humano’ – que se aproxima bastante daquilo que Kant compreendia como condições transcendentais“não concebemos a realidade como ela é em si, mas apenas como ela ‘aparece’ para nós”.

Nietzsche pensava que a pergunta “o que posso saber?”… seria – como em Kant, precedida pela questão “o que é o homem?”… Entretanto, o homem surge em Nietzsche como um ser finito, natural e histórico em sua existência concreta no mundo. – Dessa forma…afirmar o pertencimento do homem ao mundo não significa negar que haja características humanas universais….pois esta perspectiva se situa na base de todas as demais.

Soul of Nietzsche

teoria metafísica da correspondência

Especialmente influente na literatura inglesa sobre Nietzsche é a reconstrução neokantiana do perspectivismo — elaborada por Maudemarie Clark. Segundo a autora, Nietzsche parte de uma crítica à “teoria metafísica da correspondência”… – para propor uma versão de neokantismo que, nesses termos, pode ser incluída sob a rubrica do ‘perspectivismo transcendental’.  Tal como vejo – diz Clark…Nietzsche concorda com Kant, no fato de que não conhecemos coisas em si… e, contrariamente a Descartes…pela verdade que somos capazes de revelar, não satisfazer a uma ‘teoria metafísica da correspondência‘.

Clark entende que o pensamento epistemológico de Nietzsche se desdobra em 2 fases. A 1ª…caracterizada principalmente por “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, denotaria uma espécie de ceticismo…decorrente da aceitação da noção de verdade como uma correspondênciairrealizável. Assim Nietzsche teria elaborado o que Clark chama de ‘tese da falsificação‘…segundo a qual, todos nossas sentenças falsificam e distorcem a realidade…

A verdade seria assim pressuposta… – como uma coisa em si                           incognoscível, da qual todo conhecimento seria a falsificação.

A ‘tese da falsificação’ é claramente auto-refutativa, pois…”se todo conhecimento é falso”, também o é a proposição que afirma isto. – E assim, Nietzsche abandona a ideia de uma “correspondência metafísica”, e consequentemente renuncia à “tese da falsificação”… ao aprofundar a crítica à coisa em si no momento de articulação do ‘perspectivismo’. Dessa maneira, na 2ª fase de seu pensamento…ele tem de retornar ao “correspondencialismo”.

A célebre passagem do “Crepúsculo dos ídolos em que Nietzsche afirma que… com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente é vista, nesse sentido, como         a proposição de uma da correspondência mínima. Haveria em Nietzsche portanto, um “realismo perspectivista”, para o qual a realidade manifestar-se-ia…sempre como real,     nas diversas perspectivas, isto é…nos diversos esquemas conceituais de que dispomos.

crep.dos ídolos

Com efeito, não é possível uma verdade absoluta, que corresponda – em sentido metafísico…ao equivalente     do “ponto de vista de Deus”… – mas seriam possíveis múltiplas verdades, diversamente correspondentes… porque baseadas em pontos de vistas…distintamente situados.

O problema da ‘teoria da correspondência’ não seria assim, a ideia de correspondência enquanto tal, que segue sendo o ‘modelo‘ — a partir do qual se pensa a verdade…mas, a imposição de uma correspondência única. O correspondencialismo entende ser possível estabelecer múltiplas relações, todas referidas a um mesmo referencial o qual porém é inconcebível fora     dos esquemas conceituais … de nossas perspectivas.

A maior dificuldade das reconstruções transcendentais do perspectivismo…deve-se a que Nietzsche rejeita, em diferentes momentos, uma distinção entre níveis discursivos. Nesse sentido, a principal ‘objeção perspectivista‘ ao kantismo – consiste em que este não pode justificar, senão por meio de uma hipótese, inspirada na crença no valor incondicional da verdade… – que… ainda que o conhecimento que temos do mundo seja “fenomênico”… o conhecimento que temos das condições de possibilidade do conhecimento do mundo, ou seja, o discurso de segunda ordem… – não seja fenomênicomas ‘transcendental.

Com base nisso Kant distingue entre ‘quaestio facti’ e ‘quaestio juris’, e formula precisamente uma distinção que Nietzsche pretende repudiar.

No que diz respeito especificamente à abordagem de Clark…parece por demais forçosa a atribuição de um “correspondencialismo”… ainda que mínimo, a Nietzsche. Sua crítica à noção de verdade ganha radicalidade – quando a lemos como uma objeção frontal a esta vertente…E, com efeito, o perspectivismo parte da negação da existência de fatos…o que implica na impossibilidade do estabelecimento de relações correspondenciais…Portanto,     a teoria da verdade que melhor se ajusta a si é uma espécie de anticorrespondencialismo.  

E o perspectivismo assume assim uma postura anti-realista,                             sem exercer todas as concessões…que o realismo interno faz.

Perspectivismo semântico

Uma outra linha interpretativa do ‘perspectivismo’ – eminentemente lógico-analítica … é aquela articulada nos trabalhos de Steven Hales e Rex Welshon, que não apenas se valem de ferramentas analíticas para pensar o ‘perspectivismo‘ — como também se servem dele para dar respostas, e fornecer alternativas à ‘filosofia analítica’. Trata-se efetivamente, de um “perspectivismo semântico“…que aborda Nietzsche…com aporte na filosofia analítica contemporânea tendo como precursores A. Danto, M. Clark, P. Poellner; e companheiros de viagem… R. Schacht e A. Nehamas.

O ousado projeto em que esses analíticos nietzschianos se envolveram pode ser definido como uma tentativa de formular um ‘relativismo’, consistente com o padrão analítico de racionalidade, ou seja, propor um relativismo auto-referencialmente consistente… onde   as intuições de Nietzsche sobre o ‘perspectivismo’, são sua inspiração fundamental. Sua singularidade de fato não reside apenas em usar categorias analíticas para reconstruir o perspectivismo, mas em considerá-lo como uma posição forte, no debate analítico atual.

O problema da consistência do relativismo, com efeito, tão antigo quanto a própria filosofia, poderia – segundo Hales, ser colocado em outro patamar… – por meio da formulação de uma semântica perspectivista, baseada na relação entre osmundos possíveis”… de Saul Kripke… – acoplado às ‘intrigantes perspectivas nietzschianas’.

A “semântica perspectivista“…consiste na introdução de certos operadores na lógica modal – os “operadores perspectivísticos”.

Formular de um relativismo consistente nesses ‘termos’ – resulta em uma ampla reconstrução do perspectivismo a partir   de uma teoria perspectivista da verdade.

Tendo em vista… – o problema da auto-referência do perspectivismo (puzzle of perspectivism), Hales e Welshon propõem, pela ‘teoria perspectivista da verdade‘ uma reconstrução do “perspectivismo“…entendido como “tema unificador” das ‘reflexões de Nietzsche’… – que, dessa maneira…assume um caráter eminentemente “sistemático. Eles defendem, entre outras coisas que Nietzsche dispõe de uma ontologia anti-realista que culmina numa teoria dos feixes de objetos (‘bundle theory of objects’) – correlata a uma epistemologia contextualista.

O termo “perspectivismo” ganha assim, vários significados…podendo ser referido a uma lógica, uma ontologia, uma epistemologia, uma teoria da causalidade…ou, teoria da consciência, todas igualmente perspectivistas.

Assim, o perspectivismo semântico pode mostrar-se como um novo alento para uma tradição que ameaça soçobrar… Certamente, são muitos os méritos dessa sofisticada “versão semântico-modal” do perspectivismo. Seus efeitos e alcance, em especial, no debate analítico contemporâneo, porém… ainda dificilmente podem ser mensurados. 

Perspectivismo pragmático

Baseados no ‘pragmatismo’…tanto o da tradição norte-americana de William James, quanto em sua forma linguística mais recente…derivada das posteriores reflexões de Wittgenstein — são vários os ‘intérpretes‘ que propõem um tipo de “reconstrução do perspectivismo”…aqui designado como “perspectivismo pragmático”. A despeito de divergências específicas… – o livro “Nietzsche as philosopher de Arthur Danto, que adquiriu o status de “clássico” – continua sendo o modelo de leitura pragmática do ‘perspectivismo’. No contexto da filosofia analítica, Danto reconstrói o pensamento          de Nietzsche…em termos que fazem dele… – um raro “precursor” desse movimento. 

Segundo Danto, Nietzsche raramente foi tratado como filósofo, e nunca … a partir da ‘perspectiva‘…que compartilha, em certo grau… da “filosofia analítica” atual. Muitos filósofos têm se preocupado com pesquisas em lógica e linguística, pura e aplicada – mas…Nietzsche não pode ser visto só como influência no ‘movimento analítico filosófico’ – mas, ‘predecessor’.

A principal razão para a então inusitada aproximação entre Nietzsche             e a filosofia analítica…Danto a encontra no tratamento terapêutico da linguagem minuciosamente elaborada … pelo famoso filósofo alemão.

“As afinidades de Nietzsche com a ‘filosofia analítica’…não são tão evidentes em outra parte quanto em sua preocupação com a linguagem. – Seria um equívoco sugerir que Nietzsche antecipou as discussões que dominaram a filosofia nos anos recentes…Mas, inquestionavelmente ele é um predecessor… Vemos problema após problema atacado por ele, em referência ao que chama de ‘modos enganosos de expressão’, empregados    em toda parte. – Pareceu-lhe evidente… que os homens são seduzidos pela gramática       da linguagem que falam… e, implicitamente acreditam descrever o mundo … quando       de fato, o mundo tal como concebem é apenas um reflexo da estrutura de sua língua”.

Nietzsche lidaria assim, com problemas clássicos da filosofia…não tendo em vista resolvê-los, mas dissolvê-los…torná-los destituídos de sentido – os revelando em uma “terapia da linguagem” como pseudo-problemas, cujo sentido estaria contido na frase do ‘Crepúsculo dos ídolos‘… Receio que não nos livraremos de Deus…pois ainda cremos na gramática”.

Percebe-se aí…que uma leitura pragmática do ‘perspectivismo‘ parte necessariamente de uma afinidade com Wittgenstein na qual…“a filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento de nosso entendimento pelos meios da nossa linguagem”…É a sedução da linguagem, no dizer de Nietzsche, ou as ilusões gramaticais…nas palavras de Wittgenstein, que nos leva    a substancializar itens linguísticos… isto é – a crer o que “sujeito”…“objeto”…“ser”… etc., seriam… – mais que meras ‘funções da linguagem’… – fiéis entidades substanciais”.

A relação entre Nietzsche e Wittgenstein (2ª fase) mostra-se fértil…para além da questão da terapia, sobretudo no que diz respeito ao pluralismo linguístico que ambos defendem. Perspectivas podem ser, de modo pertinente como “jogos de linguagem”…assim como as “formas de vida” de Wittgenstein… parecem “tipos nietzschianos”… — Em suma…ambos os autores desenvolvem uma abordagem da linguagem em ‘termos pragmáticos‘ – como uma ‘práxis social‘…definindo “significado” e “verdade” – em termos de “uso/utilidade”.

A proximidade entre perspectivismo e pragmatismo pode ser evidenciada também no que diz respeito à ‘teoria da verdade’. Segundo Danto, abandonando o ‘correspondencialismo’, Nietzsche adota um critério pragmático de verdade, ou seja: é verdadeiro e q é falso; somente se p funciona, e q não”. Desse modo não só há uma ‘teoria perspectivista da verdade’, afastando sua filosofia das formas mais cruas de ceticismo e relativismo… como tal teoria é ‘pragmática’, pois estabelece como critério de verdade a eficácia, desempenho; enfim, a utilidade.

É isso o que Nietzsche quer dizer quando define verdade como…“a espécie de erro sem o qual uma determinada espécie de seres vivos não poderia sobreviver”…Mas, é também a partir da problematização da noção de utilidade em Nietzsche, que as diferenças entre o ‘perspectivismo’ e o ‘pragmatismo’ podem ser concebidas… – Na “Gaia ciência, diz ele:

gaia ciência

“Não temos nenhum órgão para o conhecer… – para a “verdade” … nós “sabemos” (cremos…imaginamos)  exatamente – tanto quanto pode ser útil ao interesse da ‘espécie humana’…E, mesmo o que aqui se chama “utilidade“… é, afinal… apenas uma crença — uma imaginação… e, talvez… — precisamente…a fatídica estupidez da qual um dia pereceremos”.

Nietzsche não parece disposto a “comungar” … com a tendência utilitarista do ‘pragmatismo‘… – ainda que entenda que o critério de verdade, de alguma forma… se encontra na ‘utilidade‘. É que ele pensa a utilidade, como luta… “Útil no sentido da biologia darwiniana, isto é… que se revela propício na luta com os outros”.

A adoção de um critério pragmático de verdade no perspectivismo pressupõe assim que,   as perspectivas não são ‘incomensuráveis’, como os jogos de linguagem de Wittgenstein, mas que se estabelecem lutas entre perspectivas…relações de poder que constituem um espaço conflitual ‘interperspectivo’…em que cada perspectiva combate pela supremacia.

A utilidade é assumida por Nietzsche… como                                                      um critério do poder pragmático de verdade.

Assim, a leitura pragmática – tal como concebida até aqui, ao perder de vista que a relação entre verdade e poder é a base da epistemologia perspectivista, não é capaz         de perceber que o ‘perspectivismo’… se complementa… e esclarece – por meio de um ‘agonismo’ (espírito de competição). – Problema nada pequeno… na medida em que           esta seria…precisamente…a contribuição que uma reflexão sobre Nietzsche poderia trazer ao “movimento pragmático”. # (“Cadernos Nietzche”/2010 – Thiago Mota)*******************************************************************************

O “Perspectivismo transcendental” de Werner Krieglstein
Quando a humanidade reconectar-se com o resto do mundo físico,                                   inaugura-se uma ‘consciência cósmica’ — cuja relação entre suas                                         próprias individualidades… fazem parte de uma natureza maior.

Friedrich Nietzsche…dentro de seu ‘perspectivismo’… argumentou que nenhuma ciência, que seja objetiva ao extremo…pode existir – porque nenhuma ideologia … pensamento pode perdurar… fora da influência de uma “percepção individual”.

Considerando…que o produto de qualquer percepção individual é limitado – não somente…por sua existência física mas também em função de suas próprias ‘crenças’    e pressupostos (formados da cultura, e história únicas do sujeito), uma conclusão desse modo de pensar filosófico é que nenhuma ‘verdade absoluta’ (ou ‘transcendental’) pode existir… porque – para isso, precisaria transcender os limites (subjetivos) da percepção.

Relacionamento com o Outro
Para qualquer verdade dada…o objetivo de um “perceptor” é compreendê-la… – Em qualquer relação criada, essa verdade pode ser compartilhada com outro perceptor.

No sentido tradicional da realidade objetiva, uma verdade transcendental conhecida por um perceptor seria igualmente válida para o outro, porque transcende cada uma de suas percepções individuais. Esta relação porém, é desigual… — na medida em que a verdade transcendental sobrepõe-se à individual.

Desse modo, os donos de uma verdade transcendental são agraciados com uma autoridade única sobre os outros… – que não conhecem esta verdade.

No “Perspectivismo”… a ausência de qualquer verdade transcendental deixa o sujeito com uma verdade que só é válida a partir de sua própria perspectiva. Sua verdade então, torna-se arbitrária, e o outro se transforma em um mero objeto de formulações dessas verdades, só percebidas pelo próprio perceptor. – Isso levou Nietzsche a refletir sobre a justificativa de atitudes/situações como o autoritarismo; entrando em conflito com o ‘senso moral‘ de muitos filósofos.

O “Perspectivismo transcendental” argumenta que cada verdade é produto do perceptor; no entanto, se 2 perceptores compartilham uma verdade, então essa verdade transcende cada perceptor individual. Contudo, este fenômeno não se dá, pelo fato de um perceptor convencer o outro sobre a validade de sua verdade obtida, mas sim… pela união de duas verdades alcançadas por cada perceptor. Assim, a ‘percepção do outro’ desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de uma verdade transcendental.

Um dos principais aspectos do ‘Perspectivismo transcendental’… é que a transcendência de uma verdade não pode ser obtida à força…Ou seja, se uma verdade alcançada por um perceptor é forçada no outro…essa verdade não transcendeu então, a ambas percepções.

E a dominação do outro…não podendo produzir a aceitação de uma verdade a ser compartilhada, produz subjugação, pois a perspectiva do outro não estava envolvida em sua elaboração…e assim, essa verdade não é a verdade do outro.

O “perspectivismo transcendental”… é uma ‘filosofia híbrida’… que mistura o ‘Perspectivismo’ de Nietzsche…com os ideais utópicos do transcendentalismo. Desafiando a afirmação de Nietzsche… de que não há verdades absolutas, leva adiante sua própria observação… – de que toda verdade só pode ser conhecida no contexto da percepção de alguém…ou seja, através de um sentimento de ‘relação emocional’ entre 2 posições… (o “perceptor” e o “outro”).

Em suma, uma verdade transcendental só pode ser alcançada quando     dois ou mais indivíduos se dispõem a trabalhar juntos…na construção       de uma realidade justa, compartilhada… e verdadeira. (texto original)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para ‘Perspectivismo’…a transcendência (imanente) em Nietzsche

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