E a ciência brasileira foi para o Espaço!…

“Astronauta libertado…minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça… Dei um grito no escuro, sou parceiro do futuro, na reluzente galáxia” (Tom Zé)

A viagem do astronauta Marcos Pontes colocou o Brasil – pela 1ª vez, no espaço. Apesar do grande alvoroço da mídia…ela recebe críticas contundentes – como as do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão…(Jornal Folha Dirigida, 12/04/2006) Bruno Aires

Criador, e primeiro diretor do ‘Museu de Astronomia e Ciências Afins’… (localizado no Centro do Rio) e autor de mais de 75 livros, Ronaldo Mourão defende que esta foi uma viagem precipitada que poderia aguardar até 2009 quando seria feita gratuitamente, considerando ainda a necessidade de investimentos para o projeto espacial brasileiro.

Mesmo com tantas críticas…Mourão admite que a viagem de Marcos Pontes abriu o precedente para que a Astronomia ganhasse espaço em escolas. Atualmente, alunos       de todo o país estão interessados em descobrir mais  –  sobre os mistérios do espaço.

Em entrevista à “Folha Dirigida”, Ronaldo Mourão lamenta os poucos investimentos, e a ínfima atenção que se dá ao projeto espacial brasileiro, bem como ao ensino científico no país… Veja a entrevista abaixo:

Qual a importância que a viagem do astronauta Marcos Pontes teve para a Ciência brasileira?  

Ronaldo Mourão – Para a Ciência brasileira não é muito importante. A não ser algumas experiências… como uma que estuda proteínas, e é interessante  –  ou outra que utiliza até vagalumes… Porém, acredito que estas experiências poderiam ser feitas em 2009, quando o Brasil poderia mandar…gratuitamente, outro astronauta, desde que cumprisse o acordo firmado anterior de construir as peças da estação espacial internacional.

Que acordo é este?

Mourão – É um acordo segundo o qual o Brasil é uma das 16 nações que colaboram com a ‘estação espacial internacional’ … e teria de construir algumas peças que seriam usadas na estação.  Pelo acordo,  o astronauta Marcos Pontes iria de graça, sem a necessidade de pagar US$10 milhões. E isso seria só depois, não agora.

Acho mais importante para o Brasil investir no seu programa espacial… e o próprio Pontes tem noção disso.  –  Ele mesmo disse que espera que agora sejam destinadas mais verbas à pesquisa espacial. Obviamente, esta viagem tem um lado muito interessante, pois estimula os jovens a se entusiasmarem pela pesquisa espacial. Mas o governo tem que dar incentivo e verbas maiores na pesquisa.

O nosso projeto começou na mesma época que os projetos da Índia e da China.  Isso foi em 1961, com Jânio Quadros, há mais de 40 anos. A China já conseguiu colocar um astronauta no espaço por conta própria, e a Índia tem a sua sede lançadora de satélites.

O Brasil ainda não conseguiu construir um lançador, que seria ainda de combustível sólido, enquanto todos os outros países já estão com líquido. Agora… eles vão reformar todo o projeto… — e usar combustível líquido.

O Brasil está muito atrasado, mas isso não é culpa do governo Lula, mas sim, de todos os governos anteriores…O lançamento de Marcos Pontes só iria acontecer em outubro, mas como neste mês já teriam acontecido as eleições, o Lula forçou a antecipação. Ele fez um acordo… pagando a viagem. – Tanto que a NASA não colocou o brasileiro como parte da tripulação que vai colaborar na construção da estação espacial. (É um acordo comercial entre Brasil e Rússia.)

O senhor afirmou que a viagem de Marcos Pontes não tem tanta importância para a Ciência brasileira… Acredita que nossos cientistas não poderão aproveitar nada das experiências desenvolvidas pelo astronauta?

Mourão – Acho que seria mais importante para a Ciência brasileira desenvolver um programa de pesquisa espacial em que universidades participassem — estimulando a formação de astronautas e de pessoal técnico, influenciando também a construção de   uma infra-estrutura necessária para lançamentos.

…Isso provocaria o desenvolvimento eletrônico no campo de diversas indústrias e o comércio de transporte espacial, que é o que está sendo         feito agora, de forma muito lucrativa.

Acho que o mais interessante que houve até hoje no Brasil foi no governo Sarney/Funaro, quando 2 ministros da Ciência e Tecnologia conseguiram verba para o programa espacial muito maior do que foi conseguida neste período todo.

Vejo com preocupação essa viagem, pois ela pode ser apenas uma viagem…que não trará recursos depois…Precisamos nos tornar independente, pela importância sobre o aspecto comercial e industrial. Um bom exemplo é a França… onde o programa espacial cresceu, com o objetivo de incentivar a indústria eletrônica.

A ‘Corrida à Lua’ era, no fundo, um meio de desenvolver a eletrônica. A China também usou as pesquisas espaciais como meio de desenvolver a Ciência.

O senhor possui restrições quanto à relação custo-benefício desta viagem?

Mourão –  Tenho. Inegavelmente, não precisávamos gastar com esta viagem. Deveríamos aguardar… Às vezes, a pesquisa espacial é vista pelas pessoas como coisa sem importância. Não vejo assim…pois acho muito importante – inclusive lucrativa. Mas, o importante dela, sem dúvida, é que chama a atenção para a questão espacial.

Como o senhor avalia a forma com a Ciência é transmitida nas escolas brasileiras?

Mourão – Não é boa…Quando houve a crise dos Sputniks nos Estados Unidos, houve um inquérito e um levantamento para verificar como fariam para rever o ensino de Física e de Matemática, ou seja, o ensino científico nas universidades e nas escolas secundárias. Tudo isso foi revisto por causa de uma crise…pois eles verificaram que o ensino estava atrasado. Deveria haver – no Brasil… uma reforma do ensino secundário – como houve nos EUA.

Acredito que o Brasil já deveria ter feito uma ‘Comissão Parlamentar         de Inquérito’ para verificar a razão pela qual estamos tão atrasados             na pesquisa espacial.

O senhor acredita que há incentivo nas escolas para que as crianças busquem o conhecimento científico?

Mourão –  Tenho a impressão que há pouco incentivo. No  Brasil  deveria  haver  mais museus de Ciências, mais museus técnicos. A gente tem muitos campos na Biologia que não são explorados. Um hospital abandonado poderia ser transformado num museu da História da Medicina, por exemplo…Em um hospital desativado, com seu equipamento abandonado, não há aquela ideia de conservar a nossa história científica.

Essas iniciativas seriam muito boas…porque incentivariam os                         alunos a visitarem museus, para terem uma formação melhor. 

A última vez que a atenção nacional voltou-se para a questão espacial no Brasil foi quando houve o acidente na Base de Alcântara (MA), em 2001.

Mourão – Falaram que houve sabotagem…mas o que houve – realmente…foi uma sabotagem do governo, que retirou todo os recursos, e os técnicos de Alcântara não   tinham condições necessárias para o trabalho… As razões do acidente foram cortes           na pesquisa – que, aliás, depois de 20 anos, já tinha um projeto obsoleto.

Falando especificamente da Astronomia, ela é pouco abordada nas escolas brasileiras?

Mourão – É pouco explorada… Há 40 anos havia na ‘Geografia Física‘ um espaço maior para a Astronomia. O problema é que o ensino da Astronomia foi ficando de lado. A gente vem tentando incentivar, dando aulas nos colégios. No Museu da Ciência, nós oferecemos conferências aos colégios com este objetivo.

Eu mesmo já dei conferências no Rio para escolas secundárias, e acho que isso é muito interessante, porque você estimula e explica qual é o sentido da pesquisa espacial. Isso       é importante, não só para estimular a formação de astrônomos…mas para uma melhor formação dos políticos brasileiros.

… — Os políticos não entendem a importância da                                                   pesquisa espacial, acham que é uma coisa menor.

É realmente difícil convencer um brasileiro dessa importância…como aconteceu na China. Hoje, a China é uma potência! E nós poderíamos ser uma China… Se desse nos jornais do Brasil o espaço para a Ciência que se dá ao futebol, seríamos um país diferente.

Aqui, se a gente perder a Copa vai ser uma crise…Todos vão querer saber o que aconteceu. Já com o acidente de Alcântara, ele passou e todo mundo esqueceu. Morreram 21 técnicos e engenheiros. Mas, se o Brasil perder a Copa será pior.

A questão do ensino também inclui os professores. O senhor acredita que os professores de Ciências estão capacitados e atualizados para passar o conhecimento necessário aos alunos?

Mourão – Os professores têm dificuldade de se atualizar. O salário de professor é muito baixo no Brasil. O salário do professor primário, então, é vergonhoso. Eles não podem se atualizar porque os livros são caros… Os colégios também não estão preparados. Deveria haver mais informática nas escolas… E, além disso, se vê uma grande falta de bibliotecas nos colégios.

Como esta viagem ao espaço pode ser um bom momento para que os professores envolvam os alunos com a Ciência?

Mourão – O professor tem que falar com um certo sentido crítico para mostrar que estamos atrasados na pesquisa espacial… – e já deveríamos estar mais adiantados. É   preciso mostrar também a importância das ‘telecomunicações‘…que hoje é toda feita através de satélites.

O senhor acredita que falta também uma questão prática mais forte nas escolas?   Muitas vezes, as aulas de Ciências são apenas teóricas, quase sem a parte prática.

Mourão – De fato, falta a parte de ‘laboratório instrumental’ nas escolas. Isso, tanto na Física, quanto na Química, como na própria Matemática. — Poderíamos fazer um ensino muito mais direto e didático. Sendo que, para isso, também é necessária uma reciclagem dos professores. – Mas… o maior problema dos professores – sem dúvida … é o salário.

E… também – enquanto não houver o ensino integral, onde o             professor acompanhe os estudos, o Brasil não vai para frente.

O problema não é o ensino público ou o privado…O ensino no Brasil tem que ser melhor. Quatro horas por dia é muito pouco. O aluno sai da escola e, muitas vezes, nem lembra o que foi dito. As escolas deveriam ter um semi-internato…  –  Isso deveria ser obrigatório.

Além do que, o ensino deveria ser financiado pelas empresas dos pais, através de um imposto. Apesar deste ser um programa que, no Brasil,           não funcionaria — mesmo sabendo que ele funciona em outros países.

O problema no Brasil é o desvio do dinheiro. Se o dinheiro fosse realmente aplicado no setor para o qual foi arrecadado… teríamos um país melhor.  –  Nossas universidades e instituições de pesquisa estão hoje em crise… porque não recebem o quanto deveriam.

Ronaldo_Mourão_Astrônomo

Muitas crianças têm o sonho de se tornar astronauta…porque é uma profissão que gera um certo fascínio… – apesar de ser arriscada… Afinal… o que existe de tão especial no espaço?

Mourão – Se trata do mesmo fascínio que a Aviação tinha no início… A aventura, porque o espaço é uma esperança. Logicamente, é o mesmo que já aconteceu nas ‘Navegações’… 

Agora, é a vez da Astronáutica. – Só que isso passa… – mas eu espero… mesmo assim – que algo segmentado permaneça… Este é o lado positivo. E, também espero, que agora o governo tome consciência de que tem que investir no projeto espacial brasileiro. (texto base)

outras fontes:  ‘O caso do Programa Espacial Brasileiro’ (Roberto Amaral /2009)  Brasil desistiu de ser país desenvolvido (Agostinho Rosa /2011) *************************(texto complementar)********************************

Perspectivas astronômicas…  Por Jacques Lépine (10/08/2007)

http://www.abc.org.br/~jacques

O contexto internacional deve ser visualizado para um melhor entendimento das perspectivas da astronomia   no Brasil… A astronomia ganhou enorme impulso nas últimas 2 ou 3 décadas… em consequência de grandes investimentos… da ordem de bilhões de dólares para cada grande projeto.

Os resultados científicos esperados para o próximo decênio são muitos, e extremamente diversificados. Abrangem – desde a ‘descoberta de planetas’ com condições para vida … a observação da formação         das primeiras galáxias, a natureza das explosões           de raios gama (gamma-ray bursts)…bem como identificação da origem dos raios cósmicos de altíssima energia…e até mesmo, observação de ondas gravitacionais.

Mas…principalmente – as verdadeiras descobertas                                             serão feitas…aquelas descobertas mais inesperadas.

Ao abordar a astronomia nacional, vamos primeiro quantificar os recursos humanos. A Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) conta com 520 membros, sendo 320 doutores. As principais instituições que realizam pesquisa são o IAG-USP (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas), os órgãos do governo federal (MCT)…ON, Inpe, LNA, universidades federais (do norte para o sul, UFRN, UFMG, UFRJ, UFSC, UFRGS)…uma universidade estadual em Ilhéus, e universidades privadas…Mackenzie, Unicsul…e ‘Vale do Paraíba’…ou UNIVAP (sendo que essas 2 últimas são recentes…tendo seus cursos de pós-graduação em astronomia sido aprovados pela Capes em 2007.)

O fato de universidades privadas se envolverem com astronomia demonstra uma nova percepção a respeito desta área; que conta         ainda, com os grupos de astrônomos amadores.

A produção científica em termos de artigos… e a formação de mestres e doutores, têm crescido de forma regular – elevando o ranking internacional do Brasil… A realização       no país de cerca de uma dezena de simpósios internacionais com a chancela da União Astronômica Internacional (IAU) nesta última década, assim como a programação da Assembléia Geral da IAU…evento que reuniu cerca de 3 mil astrônomos em 2009 no     Rio de Janeiro, são ao mesmo tempo causa e consequência de nossa maior inserção e visibilidade.

Outro investimento de grande importância… é a participação brasileira no ‘Gemini. Mesmo tendo apenas…2,5% do tempo, como são 2 telescópios…Norte e Sulisto representa cerca de 15 noites.

Os astrônomos brasileiros estão fazendo ‘bom uso’ do tempo do Gemini… com um nº de publicações maior que o dos parceiros internacionais  —  em termos relativos ao tempo disponível…

O fato do astrônomo brasileiro ter acesso ao ‘Gemini’ e ao ‘Soar’ … já se constitui em um grande incentivo para os pequenos grupos de pesquisa.

Existem outras colaborações internacionais bem sucedidas… com participação brasileira.   O observatório internacional Pierre Auger, para ‘chuveiros de raios cósmicos’ produzidos pela chegada de partículas de altíssima energia que incidem na atmosfera terrestre…com uma rede de detetores cobrindo uma vasta área na Argentina…está colhendo os seus 1ºs resultados… (A participação brasileira é liderada por pesquisador da Unicamp)

O Satélite francês ‘Corot’ … que conta com participação basileira  —  coordenada por pesquisador do IAG, foi lançado em dezembro de 2006 por um foguete russo Soyuz.         O sinal do satélite é recebido em parte pela estação rastreadora de Alcântara (MA).         – A missão do satélite é estudar sismologia estelar (estudo de vibrações de estrelas)       que permite analisar a estrutura interna das mesmas.

(…Outro objetivo é detetar planetas fora do sistema solar)

O Brasil está dando seus primeiros passos na área de astronomia espacial. Em 2004, foi lançado com sucesso, o experimento em balão ‘Masco’ do Inpe, com detetor imageador     de raios X…A experiência obtida com o ‘Masco, antes mesmo de seu lançamento…deu origem a um projeto de satélite liderado pelo Inpe… o Monitor e Imageador de Raios-X  ‘Mirax‘ – projeto em colaboração com vários centros do exterior.

Na área de radioastronomia… os projetos de interferômetro solar BDA (Brazilian Decimetric Array), desenvolvido pelo Inpe em Cachoeira Paulista, com forte apoio da Índia…o telescópio solar submilimetrico, instalado pelo CRAAM (Mackenzie) em ‘El Leoncito’, Argentina, e o experimento GEM, também do Inpe, mapeando a radiação galática em diversas frequências … são mais exemplos de interações internacionais.

Frente à evolução da astronomia mundial em torno de grandes investimentos, parece evidente que há pouco espaço para pequenos projetos nacionais…e que a inserção em grandes colaborações internacionais é o melhor caminho para se manter competitivo.

SOAR

Nesse sentido, nosso país acaba de dar um grande passo, com a inauguração em 2004     do telescópio Soar, de 4,1 m de diâmetro, em Cerro Pachón, Chile. – Temos direito a     31% do tempo de observação – tempo considerável…para a eficiência do instrumento.

Os parceiros no Soar são a Universidade de Carolina do Norte, a Universidade Estadual de Michigan e o Observatório Nacional dos EUA (NOAO)… O telescópio possui ‘óptica ativa’ (atuadores no espelho principal)… e, ainda – um 1º estágio, para correção de flutuações atmosféricas, que é o movimento tip-tilt do refletor secundário.

—  O tempo brasileiro é administrado pelo                                               Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA).

Nossa descrição dos projetos em execução parece indicar que tudo está no melhor dos mundos… No entanto as dificuldades existem…O aspecto com o qual não devemos ter preocupação é a qualidade, e criatividade de nossos cientistas… As reuniões anuais da ‘Sociedade Astronômica Brasileira’ demonstram a existência de inúmeras iniciativas.

Porém, essa criatividade se encontra frustrada pela falta de oportunidade para os jovens. Alguns institutos, como o IAG, por exemplo, vêem seus quadros envelhecerem, podendo   se passar uma década sem nova contratação. Os jovens doutores, assim… são forçados a migrar para pequenos grupos — onde passam o tempo construindo a infra-estrutura, e batalhando para instalar uma ‘cultura de pesquisa’  –  em lugares onde muitos acham que professor tem que dar aula, e nada mais.

Outro problema…é que não há no país uma ‘instância representativa‘…junto ao governo,   que pense nos rumos da ciência. A ‘SAB promove debates, mas não tem poder de decisão. Existe uma distância enorme entre o governo…e os responsáveis por projetos, ou mesmo entre pesquisadores e agências financiadoras. Os cientistas, na maioria, não têm vocação para lobby junto ao governo.

Mesmo assim, tomam iniciativas, a nível nacional/internacional…e conseguem auxílios pontuais de agências de fomento…No entanto, trocas de governo, ou de prioridades em agências de fomento podem pôr tudo a perder…

Por exemplo, a decisão da Fapesp, há poucos anos, de suspender qualquer importação por um prazo de mais de 1 ano teve forte impacto negativo no desenvolvimento do instrumento ‘Soar Integral Field Spectrograph’ — em construção para o telescópio Soar…Tudo aconteceu sem qualquer diálogo.

Como outro exemplo…o Brasil foi candidato a hospedar o maior projeto de radiotelescópio da atualidade, o SKA. Provavelmente ninguém no governo federal tomou conhecimento do que esse projeto representaria realmente. Seria útil que o ministro de Ciência e Tecnologia, e também, os diretores científicos das ‘agências financiadoras’ estabelecessem o hábito de receber uma vez por ano uma delegação de representantes de cada área de ciência.

Lançar um projeto de um pequeno satélite astronômico – por exemplo,         é uma operação mais fácil do ponto de vista técnico  —  do que político.

câmara- soar

Uma câmera fabricada no Brasil, que está sendo instalada no ‘Telescópio SOAR’… no Chile  —  fará imagens do céu com nitidez sem precedentes…   [Imagem: IAG/USP]

Após o sucesso do envolvimento no ‘Soar‘ e no ‘Gemini‘, parece ter havido uma parada nos projetos atuais…Porém, esses 2 projetos representam uma participação modesta, em consórcios internacionais, e novas parcerias deveriam ser procuradas. – Já se passou 1 década desde que decisões sobre esses projetos foram tomadas.

Por outro lado, existe uma assimetria entre o desenvolvimento da astronomia óptica e da radioastronomia. Esta última, embora tenha à disposição o radiotelescópio de 13.7 m em Atibaia, oferecido pelo Inpe ao uso da comunidade, não conta com o apoio – no estilo de um laboratório nacional… como acontece com o LNA para a astronomia óptica.

O ‘radiotelescópio’ é bastante antigo, e o Brasil não participa de projetos internacionais de radioastronomia…com distribuição de tempo por um comitê nacional. – Seria oportuno o país ingressar como sócio no projeto SKA – para garantir um melhor acesso futuro a um instrumento muito competitivo.

Finalmente, a construção de instrumentos para a astronomia é uma consequência natural do envolvimento em projetos do tipo Soar e Gemini…  com benefícios tecnológicos para o desenvolvimento científico, de modo geral.  Embora a construção de instrumentos  tenha feito progressos consideráveis com o ‘Sifs’ e com o ‘Steles’ (Soar Telescope Spectrograph), ambos projetos inovadores pela tecnologia envolvida…avaliados e aprovados por comitês internacionais, percebe-se que muitas dificuldades emperram esse desenvolvimento. Em particular, a falta de uma estável equipe técnica de apoio.

Jacques Lépine é professor do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da Universidade de São Paulo             (IAG-USP)… texto base…  ‘Perspectivas na área de Astronomia’ (ComCiência)  ^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

A Odisseia Espacial Brasileira

O que isso quer dizer? Quer dizer que o espaço não é só ciência; pode também ser um negócio. O Brasil já atentou para isso quando iniciou o desenvolvimento do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Afinal, dali é mais barato lançar satélites, do   que em qualquer outro ponto do globo terrestre.

Isso acontece por que a Terra  –  literalmente… “dá um empurrãozinho extra” no foguete, permitindo economia de combustível e rendimento superior. Não é tão difícil de imaginar como isso ocorre. – Imagine o planeta girandoSe você estiver exatamente sobre o pólo geográfico Sul, no meio da Antártida, apenas girará sobre si mesmo…sem sair do lugar.

Entretanto, quanto mais você se aproxima da linha do equador, maior a “volta” que você dá junto com a Terra… Mas, não importando em que faixa esteja…você completaria uma volta no mesmo tempo. Afinal, o planeta gira como um todo coeso, num mesmo período.

Moral da história: quanto mais perto do Equador, maior é a sua distância percorrida junto com a Terra… embora o tempo seja igual…  –  Uma forma mais simples de dizer isso é que sua velocidade (distância dividida pelo tempo) é maior… – Ou seja, quanto mais perto da linha do Equador você lançar um foguete, mais “velocidade inicial“, de um ponto de vista de fora da Terra, ele terá.

alcântara.jpg

Alcântara está a apenas 2 graus da linha do Equador. Seu principal concorrente é o Centro de Lançamento de Kourou, instalação européia localizada na Guiana Francesa…que está a 3 graus do Equador — só um pouquinho mais longe…  Então, por que ninguém construiu uma base exatamente na linha do equador ainda?…

Porque nem só disso vive um centro espacial – é preciso que a localização cumpra uma série de pré-requisitos para a segurança dos vôos (mar por perto é altamente desejável, baixa densidade populacional nos arredores, boas condições climáticas na maior parte     do ano, para os lançamentos… só para citar alguns dos fatores).

A única base que atendeu a esses requisitos…e conseguiu fazer decolagens de foguete da linha do equador é o chamado ‘Sea Launch’, antiga plataforma de petróleo oceânica que   foi convertida em centro de lançamento por um consórcio internacional.  –  Ao precisar lançar algo, a plataforma se desloca como uma balsa até a linha do equador, e dispara o foguete.

O único problema é que a manutenção do Sea Launch é tão cara que ele em raras ocasiões pode tornar seus serviços competitivos com os do ‘Kourou’… ou… Alcântara – quando a base brasileira começar a funcionar para valer.

Tudo bem, então, já vimos que o investimento em Alcântara pode ser bem interessante, do ponto de vista comercial. Mas, não estamos esquecendo de nada, não? Ah, é, além da base, para fazermos lançamentos comerciais precisamos também dos foguetes e satélites. Pois é, são 2 coisas que o Brasil ainda não tem.

No campo dos foguetes, o país desenvolve por conta própria o seu VLS (Veículo Lançador de Satélites) – também nascido nos anos 1980…que até hoje não conseguiu fazer nem um vôo bem-sucedido. É importante prosseguir nessa “teimosia aeroespacial” por uma razão: num caso de urgência, se precisarmos lançar um satélite ao espaço, não podemos nos dar ao luxo de não ter a quem pedir. O VLS é pequeno demais pra lançar satélites comerciais.

A solução encontrada pelo governo, para ativar futuros lançamentos comerciais foi fazer uma parceria com a Ucrânia, que herdou a tecnologia dos foguetes da antiga URSS, mas não tem uma base boa para fazer o negócio sozinha. Resultado: Brasil e Ucrânia criaram uma companhia binacional para usar o foguete Cyclone 4 na base de Alcântara.

Segundo Sergio Gaudenzi…presidente da ‘Agência Espacial Brasileira’, o 1º lançamento da joint-venture ‘Alcântara Cyclone Space’ deve acontecer por volta de 2010 — mas eu não colocaria minha mão no fogo por isso, a considerar o ritmo letárgico … em que essas coisas caminham neste país.

— Ainda há dúvidas, entre os especialistas se o Cyclone 4 é uma opção para o mercado de satélites ‘suficientemente boa’, sobretudo na competição com gigantes como o Ariane 5, que serve a base de “Kourou”  –  e, lança 2, ou 3 satélites de uma só vez na ‘órbita de ouro’ das telecomunicações…a famosa  ‘órbita geoestacionária.

Mas  –  o fato é que… com um empurrãozinho extra da Terra em Alcântara… – o ‘Cyclone 4’ consegue levar um satélite  —  até de médio porte  —  à órbita geoestacionária.

Dependendo do custo de operação, seu uso pode se tornar economicamente interessante para os potenciais clientes…  —  Legal…  se tudo isso der certo, poderemos ter a base e o foguete em 2010…Contudo, ainda vai faltar o que talvez seja o principal: satélites para lançar.

O Brasil tem seu programinha de satélites científicos e tecnológicos…mas só essa demanda não justificaria o investimento no projeto Alcântara Cyclone Space. Como eu disse antes, o negócio aqui é ganhar dinheiro, e para isso, o esforço tem que angariar clientes comerciais e internacionais.

E aí… esbarramos num problema  —  entre os satélites comerciais… pelo menos 80% deles possuem peças americanas, ou são inteiramente fabricados por companhias ianques.  –  O que significa que, para lançá-los, temos de ter autorização por escrito do governo dos EUA, que teme que sua preciosa tecnologia espacial vá parar na mão de países  —  como o nosso.

Existe uma solução para o impasse… para isso, precisamos de um acordo de salvaguardas tecnológicas. É basicamente um documento que diz… “podem lançar seus satélites daqui que a gente promete que não vai espiar o que tem dentro deles”.

Durante o governo FHC, esse acordo chegou a ser redigido e acertado com os americanos, mas tinha uma série de cláusulas que feriam a soberania… a mais grave delas é a de que o dinheiro ganho em Alcântara não poderia ser empregado no desenvolvimento dos nossos próprios foguetes.

Embora a exigência fosse inócua para nós (fontes então no MCT diziam que o dinheiro ganho em Alcântara ia para um “bolo” e de lá ficaria impossível rastrear o que foi gasto onde), ela era essencial para que o acordo fosse aceito pelo Congresso americano… que   tem por princípio o esforço de não-proliferação de ‘mísseis balísticos intercontinentais’     (a versão militar dos lançadores de satélite).

Ainda assim, a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva achou que era muita prepotência dos americanos nos dizer onde devíamos gastar o nosso dinheiro, e derrubou aquele acordo, logo no início de seu primeiro mandato. Desde então, o Brasil tem tentado sentar à mesa com os americanos para renegociar esse acordo… — que emperra qualquer chance de sucesso comercial em Alcântara…mas, o esforço ainda não resultou num outro texto aceitável para ambas as partes.

Disso, sobretudo, depende o futuro da base brasileira. Não de instalações, não de tecnologias, não de clientes…Para variar, o grande entrave para o sucesso, ontem, hoje e sempre é a burocracia. (Salvador Nogueira – 2007) **********************************************************************

Na área espacial… Brasil continua com os pés no chão  (16/12/2010)                       O Brasil é classificado como um dos competidores menos atuantes no cenário internacional devido à carência de investimentos e formação de especialistas.                     A conclusão foi realizada pelo ‘Conselho de Estudos e Avaliação Tecnológica’,             órgão técnico-consultivo da Câmara dos Deputados.

Política Espacial Brasileira

O órgão é responsável pela elaboração de estudos críticos…e especialização técnica ou científica. O Conselho também faz análises de viabilidade e impactos — em relação às tecnologias, políticas ou ações governamentais de alcance nacional… A publicação “A Política Espacial Brasileira” incorpora o resultado de conferências… e reuniões com autoridades e especialistas do setor.

O trabalho aponta que… embora o Brasil seja um dos pioneiros na área espacial, hoje não dispõe de recursos adequados para o desenvolvimento do setor… – Apenas 4 anos após o lançamento do satélite Sputinik I pelos russos, considerado o marco zero da exploração espacial, o Brasil instituiu um grupo para ingressar nesse seleto clube…(O clube continua seleto, mas o Brasil ainda não faz parte dele.)

Investimentos esquecidos

No período de 2005 a 2014…os investimentos previstos no ‘Plano Nacional de Atividades Espaciais’ eram de R$ 3,12 bilhões. Mas os recursos efetivamente gastos até dezembro do ano passado somam somente R$ 502,36 milhões.  —  Para se ter uma ideia… somente em 2008, apenas em atividades civis, a China investiu 1,3 bilhão de dólares (cerca de R$ 2,25 bilhões) conforme o estudo. Este valor é praticamente o mesmo… do aplicado pela Rússia no mesmo ano… 1,31 bilhão de dólares. — Maior potência em tecnologia espacial, os EUA destinaram 18,9 bilhões de dólares (R$ 32,68 bilhões) à NASA naquele ano.

Devido à carência de investimentos e planejamento – além de problemas como falta de formação de especialistas, o Brasil hoje é classificado como um dos competidores menos atuantes no cenário internacional.

Projeto de lei espacial

Com base nas conclusões do estudo, o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) apresentou o Projeto de Lei 7526/10 – que institui incentivos para as indústrias espaciais, e recomendações ao Poder Executivo para atuar na área…  —  A proposta concede uma série de benefícios fiscais para as indústrias espaciais.

A proposta assegura redução de 100% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na comercialização de bens… produtos e serviços do setor espacial — e a isenção do PIS/ PASEP, por exemplo. Mesmos benefícios aplicam-se à venda ou importação de soluções     de informática (softwares) destinados à área espacial. Segundo Rollemberg…

o total previsto de desoneração dará novo impulso ao setor industrial  espacial… que hoje vive — praticamente — de contratações da União“.

Como contrapartida, as empresas beneficiadas deverão investir anualmente pelo menos 5% de seu faturamento bruto anual em pesquisa e desenvolvimento realizados no País. O autor do projeto ressalta que o orçamento público além de escasso, vai majoritariamente para institutos executores do programa, “restando pouquíssimos incentivos à indústria“.

Ainda conforme o projeto, nas compras por órgãos e entidades da administração pública   e nos financiamentos por entidades oficiais de crédito – as empresas brasileiras do setor espacial… e, os bens considerados de fabricação nacional – terão prioridade. A proposta também prevê a criação de linhas de crédito especiais para pesquisa, e desenvolvimento tecnológico da área.

Outra fonte de recursos destinados ao setor, prevista na medida é a transferência de 15%, no mínimo… da arrecadação com a ‘contribuição de intervenção no domínio econômico’  (Cide) para o ‘Fundo Setorial Espacial’. O estudo do conselho mostra que hoje, o fundo é insignificante, pois significa menos de 1% dos recursos destinados ao programa espacial; cerca de R$ 9,6 milhões entre 2000 e 2009.

Já por meio da Indicação 6480/10, Rollemberg sugere ao Executivo, entre outras medidas, a substituição do Conselho Superior da Agência Espacial Brasileira pelo Conselho Superior de Política Espacial  —  vinculado diretamente à Presidência da República… Na opinião do parlamentar, a Agência Espacial Brasileira também deve ser reformulada…adquirindo um quadro próprio de servidores, e autonomia orçamentária.  ‘texto base’  ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Brasil terá nova política espacial com participação privada – 08/12/2011

O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e a Agência Espacial Brasileira (AEB) elaboraram o modelo da nova política espacial brasileira. O objetivo é estimular     a produção nacional de satélitese o domínio de tecnologias consideradas críticas pelo governo para o desenvolvimento de satélites de comunicações, de observação espacial,     e meteorológica.

A nova política estará na Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que o governo planeja lançar ainda neste ano. A proposta ainda inclui a criação do Conselho Nacional de Política Espacial vinculado à Presidência da República, e um novo modelo de governança para projetos de satélite. 

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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Uma resposta para E a ciência brasileira foi para o Espaço!…

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