‘Echoes’ de Pink Floyd em Salvador Dali

“Tudo leva a crer que existe um certo ponto do espírito de onde…a vida e a morte, o real    e o imaginário…o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável … cessam de ser vislumbrados contraditoriamente”… *****(André Breton – Manifesto Surrealista)***** 

Sonhos, fantasias, devaneios, inconsciência, ausência de lógica… formaram as bases das criações do… – “movimento surrealista“. Fundado em Paris em 1924 o “Surrealismo” engrossou os movimentos de vanguarda do início do século XX… tendo como principal porta-voz André Breton… que naquele ano, lançou o… – “Manifesto Surrealista

Entre seus mais marcantes expoentes…nas ‘Artes Plásticas’ se incluem – Salvador Dali (1904/1986), Max Ernst (1891/1976), René Magritte (1898/1967), Joan Miró (i Ferrà) (1893/1983) e, André Masson (1896/1987).

Alguns críticos e autores da arte associam ao movimento o nome de Frida Kahlo, contudo a própria artista … mais interessada em suas tragédias pessoais… não se considerava uma ‘surrealista’.

Os artistas ligados a esse movimento rejeitavam os valores e os padrões impostos pela sociedade burguesa, seguindo a exploração dadaísta de tudo o que fosse subversivo na arte… influenciados – principalmente… pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud.

Como parte do seu processo artístico, exploravam o imaginário dos sonhos como um atributo inquietante e bizarro da vida diária, descrevendo experiências oníricas como   uma forma de produção. Assim… os surrealistas concebiam o inconsciente, como um     meio de imaginação, onde formas e imagens não poderiam prover da razão – mas de impulsos e sentimentos irracionais e surreais.

Os artistas desse movimento se diferenciavam quanto ao estilo adotado. Enquanto as fortes formas e linhas de Masson provinham de ‘pincelados livres‘… – Magrite e Dalí tinham imagens realistas criando ‘cenas oníricas’.

A obra…”A persistência da Memória” (Salvador Dali, 1931) é uma das mais representativas desse movimento. — Na tela, encontram-se representados 3 relógios marcando diferentes horas tendo como fundo… – a paisagem de ‘Porto Lligat‘…localizado no norte da Espanha…(…memória de infância)…

Segundo o próprio autor, a solução formal dos relógios… deriva de um queijo camembert que Dalí mirava enquanto pintava…Ele os via como exatos instrumentos normalizados, que traduziam de forma objetiva a passagem do tempo. – O fato de os dotar de formas orgânicas, remete-os para a dimensão fugaz do tempo … com base no sentido de ambiguidade que a evolução temporal introduz, ao cruzar a percepção da realidade… – com a casualidade e inexplicabilidade da memória.

Esta pintura traduz o interesse do pintor pelas conquistas da ciência moderna…invocando teorias mais abstratas da física, nomeadamente a relatividade de Einstein, que colocou em causa a ideia de interrelação, entre espaço e tempo… – além das pesquisas de Freud sobre inconsciente, e o fenômeno dos sonhos.

Não há uma data que determine o fim do ‘Surrealismo’…pois influencia       até hoje, artistas de todo mundo. (texto base) (Liane Carvalho Oleques) *******************************************************************

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“Maçã borboleta” de Vladimir Kush

Surrealismo…(significado)

O “Surrealismo” é um movimento artístico e literário… de origem francesa, caracterizado por se expressar o pensamento…de maneira espontânea e automática… com base apenas em impulsos subconscientes, desprezando a lógica e renegando os padrões estabelecidos de ordem moral e social.

A origem do termo “surrealismo”, criado por Apollinaire, data de 1917, com o sentido de… “o que está acima do realismo”. Apesar disso, enquanto movimento artístico e literário…só surgiu em França na década de 1920… tendo como objetivo ultrapassar os limites, criados pelo pensamento burguês … à “imaginação“.

O movimento surrealista evoluiu, apesar de todos os riscos, incluindo manifestações dos anarquistas, afirmando não seguir os propósitos do surrealismo…Mas, mesmo com todo clima de tensão, o surrealismo prosperou…e influenciou o pensamento humano, porque criou uma nova concepção do mundo e do ser humano…bem como no processo artístico.

Alguns estudiosos afirmam que o surrealismo esteve em processo de gestação até 1924, quando surgiu o Manifesto do Surrealismo’, da autoria de Breton… Em substituição ao sistema de valores que pretendiam abolir, os dadaístas e os 1ºs surrealistas recorreram     às teorias psicanalíticas, então surgindo… para formular um novo pensamento poético.

Surrealismo na Literatura

Os surrealistas defenderam uma ótica particular para interpretar o mundo da Natureza       e das ações humanas. Esta ótica também explicava a função da poesia e da arte, de uma forma totalmente liberta do predomínio da razão. – Como exemplo… as obras literárias   Os Cantos de Maldoror“… do Conde De Lautréamont – e o poema “Le Bateau Ivre de Rimbaud, são apontadas como as principais obras que antecedem o ‘surrealismo‘…pois exploram com intencionalidade o sonho e o inconsciente.

Os precursores do surrealismo foram…L. Aragon, Ph. Soupault, P. Éluard, B. Péret…e, sobretudo, André Breton, após o fim do grupo dadaísta, que era liderado por T. Tzara. Este grupo tinha como missão abolir as regras tradicionais estéticas e éticas… porque acreditavam que estas tinham contribuído para o início da “I Guerra Mundial”.

“o pensador” de Salvador Dali

Surrealismo na Arte

No âmbito da arte…o pintor catalão Salvador Dalí é um dos nomes mais conhecidos do ‘surrealismo’… Na 1ª fase do movimento, foram seguidas noções do dadaísmo – como os pré-julgamentos … que criaram objetos fora do contexto — ou, surrealistas.

Muitos artistas empregavam meios técnicos tradicionais da pintura… e representavam sonhos… fábulas…e mitos, seguindo as normas, criadas em 1924 por Breton.

Algumas delas exaltavam processos oníricos da imaginação…bem como demonstrações da paixão erótica, e do ‘humor corrosivo’ – contrárias à cultura tradicional burguesa…e aos ‘valores morais’, daquela sociedade.

A Galerie Surrealiste (Galeria Surrealista) foi fundada por um grupo em 1926 e a partir de 1930, o surrealismo começou a se propagar para além da França… Importantes exposições foram organizadas, onde foram reveladas obras de artistas de 22 países… — Neste período, novos membros se juntaram ao movimento; entre eles Salvador Dali e Giacometti. — Uma importante exposição internacional do surrealismo foi organizada em Paris… no ano 1947, ocasião em que os membros mais importantes se reencontraram.

Surrealismo no Brasil

No Brasil, noções surrealistas começaram a surgir entre 1920 e 1930, por elementos do Movimento Modernista do Brasil… Alguns dos artistas brasileiros surrealistas (ou com tendências surrealistas) mais conhecidos são Tarsila do Amaral, Maria Martins, Cícero Dias, Ismael Nery, Jorge de Lima, Murilo Mendes, e outros. ****** (texto base) *******   ***************************(texto complementar)**********************************

Ferreira Gullar, poeta brasileiro

Ferreira Gullar, poeta brasileiro

Entrevista de Ferreira Gullar ao JB (30/10/2005)

JB. Se a poesia desse o sustento necessário… você faria só isso?

FG. – Não. Escrevo pouco. A poesia nasce do espanto. O mundo é absolutamente incompreensível – então… inventamos uma serie de compreensões  –  e vivemos dentro desta cadeia lógica de explicações – que não é gratuita, nem absurda… tendo a ver com a realidade, sem esgotá-la… – Quando esse tecido conceitual se rompe… – nem tudo está explicado.

JB. Está explicado mas não compreendido, e a poesia é uma maneira de compreender.

FG. Nem está explicado, a realidade é maior que qualquer explicação, mesmo porque a realidade muda… – Vivo uma coisa extraordinária… que quero contar para as pessoas… Então eu conto aquilo.

E o pior é que é impossível contar. Como traduzir perfume em palavras?… O poema não é a tradução do perfume em palavras, mas a criação de um artefato que pretende transmitir para o outro a experiência que senti ali. Trata-se de uma grande confusão… ‘A verdade da poesia é o que comove, não o que se comprova.’ ********************************************

Tarsila-do-Amaral

“Sol poente” – Tarcila do Amaral

DO LADO PROIBIDO

Naturalmente, algo urgente…pra me fazer lembrar   Do que já não se diz… – nem se pode imaginar…

Quando, por pensamentos…                               Palavras, e atos… abstratos                                               Ou concretos…O amanhã se faz incerto…         Disperso em…tantos…cantos do mar

Ecos de um passado… Solto ao sopro da brisa
Palpitam horas restritas, Num beco banco de trás

E se espalham feito nuvens ao vento em teu olhar sereno, inacabado                                   Que por um tempo infindo… – Se fez escravo… para nunca mais…

E me invade, arrebata… – Pela avenida aberta de estradas,
Por sob sete setas embriagadas…Entre sombras de cristais.                                                  (Cesar Augusto Pinheiro)

O Homem Público N. 1

Tarde aprendi…bom mesmo é dar a alma como lavada. Não há razão pra conservar este fiapo de noite velha. — Que significa isso?…Há uma fita que vai sendo cortada …deixando 1 sombra no papel. Discursos detonam… — Não sou eu que estou ali de roupa escura, sorrindo ou fingindo ouvir. No entanto, também escrevi coisas assim para pessoas que nem sei mais quem são; de uma doçura venenosa… de tão funda.  (Ana Cristuna C.)

“Manifesto do Surrealismo” (André Breton – 1924) (1ª parte)   

“Acredito na resolução futura destas condições aparentemente contraditórias de sonho e realidade… numa espécie de ‘realidade absoluta’, se assim se pode dizer…”surrealidade”. Após a conquista, no entanto, aspiro a certeza de não alcançá-los…então despreocupado com minha morte… – apenas para não pesar as alegrias de tal posse”. 

Tamanha é a crença na vida… – no que a vida tem de mais precário… bem entendido – a “vida real”, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de uso habitual… e, que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou, pelo menos… não lhe repugnou tomar sua decisão (…o que ele chama de decisão!…).

Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou pobreza, para ele não valem nada, quanto a isso continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito… lhe é indiferente. Se conservar alguma lucidez… não poderá senão recordar sua infância — que lhe parecerá repleta de encantos – por mais massacrada que tenha sido, com a atenção dos ensinantes.

Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido, lhe dá a perspectiva… de levar diversas vidas ao mesmo tempo…e se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas.

Todas as manhãs… — crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes… Os bosques são claros,     ou escuros… — nunca se vai dormir.

Mas é verdade que não se pode ir tão longe… não é uma questão de distância apenas. Acumulam-se as ameaças… – desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar… – Esta imaginação, que não admitia limites…agora só se lhe permite atuar, por leis de uma “utilidade arbitrária”…ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao 20º ano… – prefere…em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.

Procure ele mais tarde… daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver, incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, qual seja o amor, muito dificilmente o conseguirá… É que doravante ele pertence de corpo e alma a uma necessidade prática imperativa, que não lhe permite ser desconsiderada. – Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a suas ideias…

De tudo que lhe acontece…e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte…perdido. Ele     fará sua avaliação em relação a um desses acontecimentos…menos aflitivo que outros,     em suas consequências… – E não descobrirá aí… – sob pretexto algum, sua “salvação”.

Só o que me exalta ainda é a única palavra – liberdade… Eu a considero apropriada para manter indefinidamente…o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima… — Entre tantos infortúnios por nós herdados… deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela.

Reduzir a imaginação à servidão… fosse mesmo o caso de ganhar o que costuma se chamar ‘felicidade’ — é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação… dá conta do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que — sem receio… eu me entregue a ela.

Para o espírito, a possibilidade de errar não é… antes – a contingência do bem? “Fica a loucura… — que é encarcerada”.

Todos sabem, com efeito…que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes atos, sua liberdade (…o que se vê de sua liberdade) não poderia ser ameaçada…Que eles sejam, numa certa medida, vítimas de sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais     o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber.

Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginação… e apreciam seu delírio o bastante – para suportar que só para eles seja válido. E, de fato…alucinações e ilusões são fonte de gozo nada desprezível.

As confidências dos loucos… passaria minha vida a provocá-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso               Colombo partir com loucos para descobrir a América. – E essa loucura durou…

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear                                       a meio-pau… – a bandeira da imaginação. (texto base)

Que caminhos seguir na música popular brasileira?…  (maio de 1966)

CAETANO VELOSO…A questão da música popular brasileira vem sendo posta ultimamente em termos de fidelidade e comunicação com o ‘povo brasileiro’. Quer dizer…sempre se discute se o importante é ter uma visão ideológica dos problemas brasileiros… e,     se a música é boa; ou se devemos retomar e apenas aceitar “música primitiva brasileira”… – (o livro do Tinhorão, defende a preservação do analfabetismo como uma única salvação da mpb). Por outro lado,     se resiste a esse… “tradicionalismo”… — ligado ao analfabetismo defendido por Tinhorão…com uma modernidade de ideia, ou de forma imposta como ‘melhoramento qualitativo’.

Ora, a música brasileira se moderniza e continua brasileira à medida que toda informação é aproveitada (e entendida), da vivência e da compreensão da realidade cultural brasileira. Realmente… o mais importante no momento é a criação de uma “organicidade” da cultura brasileira, uma estruturação que possibilite o trabalho em conjunto, inter-relacionando as artes e os ramos intelectuais.

Para isto, creio que nós da música popular devemos partir da compreensão emotiva e racional do que foi a música popular brasileira até agora…gerando uma possibilidade seletiva como base de criação. Se temos uma ‘tradição’ e queremos fazer algo de novo dentro dela, não só teremos de senti-la… mas conhecê-la. E é este conhecimento, que       vai nos dar a possibilidade de criar algo novo e coerente com ela.

Só a retomada da ‘linha evolutiva’ pode nos dar uma organicidade para selecionar…e ter um ‘julgamento de criação’. Dizer que samba só se faz com frigideira, tamborim, e violão sem sétimas e nonas não resolve o problema…Paulinho da Viola me falou há alguns dias da necessidade de incluir contrabaixo e bateria em seus discos. Tenho certeza que, se ele puder levar essa necessidade ao fato – terá contrabaixo e terá samba… assim como João Gilberto tem contrabaixo, violino, trompa, sétimas, nonas e tem samba.

Aliás, João Gilberto para mim é exatamente o ‘momento em que isto aconteceu… — a informação da modernidade musical utilizada na recriação, na renovação…no dar um passo à frente da música popular brasileira. Creio mesmo que a retomada da tradição       da música brasileira deverá ser feita… na medida em que João Gilberto fez. Apesar de artistas como… – Edu Lobo, Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia… Gal Costa sugerirem esta retomada, em nenhum deles ela chega a ser inteira, integral.

Não me considero saudosista, nem proponho uma volta no tempo, mas sim uma retomada das melhores conquistas (mais ‘profundas’) desse momento. Maria Bethânia cantando “Carcará” sugere esta retomada. É a estridência, o ‘grito’.

GUSTAVO DAHAL: Há um momento bem sintomático nas discussões, em que se fala de ‘estridência’. – Considero este um dado real. – Ou vivemos num mundo de sons, e fúrias… ou o “iê-iê-iê” é uma manobra de propaganda… – Mas não acho que se deva botar a culpa exclusiva do seu sucesso nas manobras de marketing. Culpar o mercado, por uma arte que se consome… e produz… ‘universalmente’, é a principal contradição do artista moderno.

Tenho notado que algumas músicas de sucesso são boas… ( – O que não impede de existir músicas excelentes que não façam sucesso). Admito que exista um relativo mecanismo de alternância. Vejo a “bossa-nova”…por exemplo, como um tipo de alternância. Os próprios ‘Beatles’ alternam coisas de grande gritaria com coisas mais românticas. No entanto noto uma progressão muito maior na ‘estridência’…e isto me leva a crer que, verdadeiramente, ela exprima o “mundo moderno”… – é uma ‘fatalidade’… da qual não poderemos escapar.

Quanto ao sucesso de certas músicas engajadas, atribuo mais à qualidade musical — do que ao teor de engajamento dessas músicas (justamente por aparecerem numa época de decadência… da chamada “música alienada”).

CAPINAN: Inclusive não se discute se o iê-iê-iê é válido ou não no Brasil. O que devemos manter como ponto de comum atitude… é a resistência a que ele seja aceito como cultura brasileira… ‘resposta necessária da atual conjuntura’. A forma como o capital estrangeiro participa de nossa economia faz com que a maior parte de nossos problemas se confunda com os problemas exteriores, de nações bem mais aparelhadas para enfrentá-los… e bem mais responsáveis por esses problemas.

E assim como os problemas, a nossa arte que está ligada a eles tende             a ser um falso produto… – motivada por procedimentos estranhos, e       numa linguagem que nada tem a ver com nossa cultura. 

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A nossa música pode apreender do iê-iê-iê muita coisa, mas não ser substituída por ele. Quando, por exemplo… Drummond, e os melhores poetas, se utilizam de recursos de uma poesia, que os antecedeu… eles colocam estes recursos em um outro nível ao transformar … as informações anteriores em uma atitude crítica diante delas. Não fazer assim para mim é deformação.

GUSTAVO: É evidente que o problema da importação de padrões, é uma característica constante da sociedade subdesenvolvida… e só poderá ser resolvido politicamente. – O público de Drummond, no caso, é sensível às suas críticas. Mas, tenho minhas dúvidas     de que o público que consome iê-iê-iê seja sensível às críticas que desejaríamos que os compositores do iê-iê-iê brasileiro fizessem sobre ele.

NARA LEÃO: Não acho que o iê-iê-iê faça concorrência à bossa-nova. Os discos de música brasileira continuam a vender… – tenho certeza disto… O que há realmente é muito pouca produção de discos de bossa-nova. Os meus, por exemplo…continuam vendendo a mesma coisa que vendiam antes do ‘iê-iê-iê’. Entretanto nunca venderam mais do que os Altemar Dutra ou Orlando Dias… – Roberto Carlos nunca vendeu mais disco do que Orlando Dias.

Dizem também que as fábricas não querem gravar música brasileira. Isto não é verdade; como também não é verdade que só querem divulgar iê-iê-iê…Toda vez que vamos a um programa de rádio nossas músicas são tocadas…Enquanto Roberto Carlos vai a todos os programas, todos os dias, o pessoal da música brasileira, talvez por comodismo, não vai.

Existe até certo preconceito…quando vou ao programa do Chacrinha,         os ‘bossanovistas’ me picham … achando que é ‘decadência’ ir para lá.

CAETANO: Constantemente as “ondas publicitárias” têm sido o sintoma dos aspectos negativos da realidade. A alienação também é um dado real…é coisa definida, e talvez     seja o conceito que melhor defina a realidade brasileira… Eu não tenho dúvida de que muitos dos grandes sucessos se servem dela, servindo-a.

O fato de saber que correspondem a exigências da realidade; não me obriga a compactuar com eles. Pelo contrário, é exatamente criando uma cultura correspondente à necessidade que começam a ter os jovens brasileiros, que encontro minha única possibilidade…justa… de estar integrado nela.

Sei que a arte que faço agora, não pode pertencer totalmente ao povo. Sei também que a Arte não salva nada nem ninguém, mas é 1 de nossas faces.

Me interessa que o que faço corresponda à posição tomada por mim diante da realidade brasileira… — Por mim e por todos da “classe-média”, que estudam nas faculdades, e se interessam em lutar contra a alienação… E que já são uma verdade tão intensa, que têm possibilitado ‘ondas publicitárias’ – não tão grandiosas quanto o ‘iê-iê-iê’, mas bastante sintomáticas… com slogans e tudo… – Bossa-nova… – Cinema Novo… – Nara Leão…

FERREIRA GULLAR…O ‘iê-iê-iê’ é um fenômeno da internacionalização da cultura. Ninguém pode deter que essas ‘formas internacionais’ de música invadam os países do mundo – e muito menos os países subdesenvolvidos.

Impedir que uma música como o iê-iê-iê penetre no Brasil é impossível – a menos que se fechasse o país… cercasse-o, e desligasse-o do mundo — o que impediria também a entrada de coisas muito mais necessárias ao ‘desenvolvimento brasileiro’.

Espero que no próprio processo de desenvolvimento da civilização brasileira possa se opor uma barreira a coisas muito mais graves que penetram no país do que o iê-iê-iê. Mas, qual é o modo de evitar o malefício que a ‘cultura de massa’ internacional traz para nosso país?

Meu ponto de vista é que só há um modo de lutar contra isso… Não deve ser o de se fechar, mas ter uma atitude crítica diante desses fenômenos; atitude crítica de combate no mesmo nível que isso se coloca; quer dizer: “combate cultural“…Se trata de um fenômeno cultural, e temos de combatê-lo culturalmente… – Entendê-lo… e criticá-lo.

Com essa visão crítica eu influencio as pessoas que produzem música popular. O debate as influencia, chama a atenção dessas pessoas para uma série de fenômenos, faz com que elas entendam o que está acontecendo e a natureza da própria influência exterior que domina o mercado da música. – E pode…como resultado – fazer com que os compositores procurem dentro da própria cultura brasileira, nos elementos populares da música brasileira, a fonte de uma nova criação que possa… – realmente…fazer frente a essa… “onda internacional“.

Na minha opinião é esta a única maneira possível de enfrentar o problema. – No caso da ‘música popular brasileira’, o caso não é     tão desastroso, ao meu ver. Das formas de arte brasileira… – é a música, talvez a que esteja mais entranhada ao povo brasileiro…     é a que tem mais capacidade de enfrentar a ‘influência externa’.     Existe um consumo de “música popular brasileira” ‘gigantesco’.

Não se pode dizer que é desligada da vida brasileira…como se diz da pintura brasileira… – pertence à ampla camada da elite…dentro da vida cultural brasileira.

Em suma o fenômeno internacional da cultura tem aspectos positivos e negativos. O fenômeno capitalista é esse mesmo…o que o caracteriza é a sua expansão indefinida, indeterminada, até morrer…Vai devorando todas as tradições populares, ao mesmo tempo que vai implantando o progresso, e o desenvolvimento.  **** (texto base) ****

Manifesto Antropofágico da raça Pau-Brasil (trechos)

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“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo, bárbaro e nosso… formação étnica rica. Riqueza vegetalMinério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança. Toda história bandeirante, e a história comercial do Brasil… – O lado doutor, o lado citações… o lado autores (des) conhecidos. […]

O lado doutor… — Fatalidade do primeiro branco aportado — e, dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel; não podemos deixar de ser doutos…Doutores… – País de dores anônimas, de doutores anônimos… “O Império foi assim“… Eruditamos tudo… Esquecemos o “gavião de penacho”… A nunca exportação de poesia… A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria…Nas lianas da saudade universitária.

Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam           tudo se deformaram como borrachas sopradas… Rebentaram. […]

A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha. A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem. Tinha havido a inversão de tudo… — a invasão de tudo — o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais… — A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos … de homens de lei, gordos e dourados como “Corpus Juris“. — Ágil o teatro, filho do saltimbanco…Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança. […]

trem caipiraTendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela… – do rotativo desvio em que estais… O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino. Contra o ‘gabinetismo‘, a prática culta da vida… — Engenheiros, em vez de jurisconsultos … perdidos como chineses na genealogia das ideias. – A língua, sem arcaísmos, erudição… natural, neológica.

A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos. Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros. Uma única luta… a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil…exportação. […]

Houve um fenômeno de… “democratização estética“… nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo… – Copiar… – Quadros de carneiros, que não fosse lã mesmo,   não prestava. A interpretação no dicionário oral das “Escolas de Belas Artes” queria dizer reproduzir igualzinho. Veio a ‘pirogravura’. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica… com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa,   e da misteriosa genialidade de olho virado – o artista fotógrafo. […]

Só não se inventou uma máquina de fazer versos… já havia o poeta parnasiano. – Ora… a revolução indicou apenas que a arte voltava           para as elites… – E as elites começaram desmanchando. […]

O Brasil doutor… – E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil. – Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos…

A síntese

O equilíbrio

A invenção

A surpresa

Uma nova perspectiva

Uma nova escala.

Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. (Poesia Pau-Brasil)

O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico… contra a cópia – pela invenção e surpresa.

Uma nova perspectiva.

Era uma ilusão ética. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência… — ‘Reação à cópia’… — Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.

Uma nova escala:

A outra…a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros… crianças nos colos. O redame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros. Laboratórios e oficinas técnicas… Vozes, e tics de fios… e ondas… e fulgurações… – Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. – O correspondente da surpresa física em arte.

A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de ideias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente… um pavor sem sentido. – Nossa época anuncia a volta ao sentido puro. Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.

A ‘Poesia Pau-Brasil’ é uma sala de jantar domingueira…com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente…Nenhuma fórmula para a “contemporânea expressão do mundo”. Ver com olhos livres.

Temos a base dupla e presente: floresta,   e escola… — A raça crédula e dualista, e   a geometria, a álgebra, e a química logo depois da mamadeira, e do chá de erva-doce… Um misto de “dorme nenê que o bicho vem pegá”… — e de ‘equações’.

Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos…nas turbinas elétricas…nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Obuses             de elevadores, cubos de arranha-céus…e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval.             A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade           dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.

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O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional. — Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro, em sua época. – O estado de inocência substituindo o estada de graça…que pode ser uma atitude do espírito… O ‘contrapeso’ da originalidade nativa…para inutilizar a adesão acadêmica.

A reação contra todas as indigestões de sabedoria. – O melhor de nossa tradição lírica… O melhor de nossa demonstração moderna. Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.

Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil.       A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança.       A vegetação. Pau-Brasil.” (texto base)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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