Racionalismo x Empirismo…Imanência & Percepção

Teorias científicas são conjecturas que se submetem ao crivo dos fatos, sendo            eliminadas…caso entrem em choque com eles. A atividade científica, portanto,              parte dos problemas – para então… – serem experimentados.” (Alberto Oliva)

protagoras

A ideia do conhecimento como proveniente da “experiência”…  embora pouco definida…surge,  pela 1ª vez… com os filósofos sofistas…que acreditavam na visão particular…relativista do mundo sintetizada na máxima experimental de Protágoras ->  

Historicamente… a doutrina do empirismo foi pela 1ª vez, explicitamente definida, pelo filósofo inglês John Locke no século XVII. Para ele a mente seria, a princípio um quadro em branco… “tábula rasa” na qual o conhecimento se grava, e cujo substrato é a sensação.

“Todas as pessoas ao nascer o fazem sem saber de absolutamente nada;                          sem qualquer impressão, sem conhecimento algum…Todo o processo do                            conhecer e do agir…é apreendido pela experiência…na tentativa e erro”.

RACIONALISMO x EMPIRISMO                                                                                            “Para o ‘racionalismo’… – o conhecimento da verdade – ao                                                        contrário do ‘empirismo’ … independe dos sentidos físicos”.

A filosofia socrática de certo modo ofuscou o brilho original do empirismo. Ao combater o ‘relativismo’ dos sofistas… Sócrates e Platão viam os sentidos como – verdadeiramente incapazes de apreender a realidade – e tentaram…’racionalmente‘, captar das coisas, seus conceitos absolutos, num processo que converge à “teoria platônica” do mundo das ideiasO ‘empirismo‘ – por sua vez, se opõe desde o berço, à escola mais tarde conhecida como racionalismo, descendente das teorias platônica e pitagórica…segundo a qual o homem nasceria com certas ‘ideias inatas– as quais… aflorando à consciência… passariam a constituir a ‘verdade absoluta‘ acerca do Universo. A partir dessas ideias, o Homem teria   a possibilidade de compreender os fenômenos particulares…apresentados pelos sentidos.

No século XVIII…George Berkeley desenvolve o ‘empirismo’ de Locke, não admitindo, porém…a passagem do conhecimento … (pelos dados da experiência)… ao ‘conceito abstrato’ de substância material. Berkeley afirma que este ‘conceito’, não pode ser conhecido em si mesmoO que    se conhece de fatoresume-se às qualidades percebidas. Assim, tudo que existe é um ‘feixe de sensações‘.

Com efeito, para fugir desse ‘subjetivismo individualista(pois tudo o que existe, somente existiria para a mente individual de cada observador)…Berkeley postula a existência de uma mente cósmica universal” – superior à mente dos homens. Deus é essa mente, e tudo o mais seria percebido por Ele…de modo que a existência         do mundo exterior à mente individual estaria garantida… – Apesar de sua existência,        contudo… o mundo seria impossível de ser verdadeiramente conhecido pelo homem,    pois tal conhecimento só seria acessível a Deus. Assumindo esse empirismo radical, Berkeley cria então a corrente, que ficou conhecida como… “idealismo subjetivo“.

Levando ainda mais adiante o pensamento de Berkeley…o escocês David Hume rejeita a ideia de ‘causalidade’, ao afirmar que “só podemos conhecer, aquilo que imediatamente percebemos”. – Para Hume, o fato de um fenômeno ser sempre seguido de outro, faz com que eles se relacionem entre si de tal forma, que um é considerado como a causa do outro.  Causa e efeito… – enquanto impressões sensíveis…não seriam mais do que…um evento seguido de outro. Por conseguinte, a noção de causalidade seria uma ‘criação humana’; mera acumulação de hábitos desenvolvidos em resposta às ‘sensações’. E a crença nessas verdades pretensamente inabaláveis, dariam ao mundosua ilusória ‘aparência estável’.

Muitos cientistas e filósofos consideram exagerado o empirismo de David Hume, que nega as verdades racionais obtidas a partir da observação. Mas seu pensamento serviu de alerta às pretensões de uma ciência exclusivamente empírica…sujeita aos dilemas do ‘idealismo’.  Exageros à parte, graças à valorização das experiências…junto ao conhecimento científico, o homem passou a buscar ‘resultados práticos’, buscando o domínio da natureza…A partir do “empirismo“…surge a “metodologia científica”. (Empirismo e Teoria do Conhecimento)

O método racional de K. Poper

Segundo a teoria de Popper — por ele chamada “teoria do holofote”, a simples existência de um problema é ponto de partida à aprendizagem. Observações assim, se subordinam às hipóteses, teorias e expectativas. Com hipóteses‘…aprendemos que tipos de experimentos fazer – para onde dirigir nosso maior interesse.

As hipóteses são nossas guias iluminando a realidade…nos indicando para onde dirigir nossa atenção… – Para Popper… o “conhecimento humano” crescepor um processo de tentativa e eliminação de erros. Como ele assim explica… “Desde a ameba… até Einstein,    o crescimento do conhecimento é o mesmo… – tentamos resolver problemas… e obter – por eliminação – respostas que melhor se ajustem… – à nossas soluções experimentais”.  Conforme seu ‘método crítico racional’, devemos…‘deixar que nossas hipóteses morram, em vez de nós’…A aquisição do novo conhecimento sempre surge como um resultado da alteração de conhecimentos prévios – como uma crítica racional ao dogmatismo – que possibilita o avanço do saber. — Nesse sentido, a função argumentativa da linguagem criou – o que é talvezo mais poderoso instrumento de adaptação biológica surgido no curso da evolução orgânicaO conhecimento científico atual, até poderá, no futuro, ter que ser substituído por outro que melhor explique os fatostodavia, isto só acontecerá,    se nossa pressão crítica seletiva mostrar que o saber atual já não se adapta à realidade.

Essa antiga concepção epistemológica é “racionalista,                                    nos remetendo a Platão, e mais recentemente, Descartes.

Mas, ao contrário dos outros ‘racionalistas’… que acreditavam que o conhecimento assim produzido era indubitavelmente, certo e verdadeiro…Popper enfatiza seu caráter falível e corrigível, ao destacar a necessidade da crítica no confronto com a realidade das ‘ciências empíricas’. E assim, podemos dizer que o “racionalismo crítico“… fundamentalmente, representa uma atitude de abertura a argumentos críticos, ao admitir que “eu posso estar certo, ou vocês estarem certos… – e assim, juntos… podemos nos aproximar da verdade”.

Em suma, a atitude crítica racionalista é muito semelhante à crença de                              que, na busca da verdade, precisamos da cooperação – e…com a ajuda                                da argumentação, poderemos atingir algo…como a “objetividade“.

Construção…e validade do “conhecimento científico”                                              “Todo conhecimento científico vem da experiência individual;                                                    não podendo portanto ser verificado pelo raciocínio indutivo”.       

Segundo Popper, o progresso da ciência se faz em 3 etapas: a colocação de um problema,    a apresentação de soluções provisórias, e a tentativa de refutar essas conjecturas. – Essa concepção é radicalmente oposta ao raciocínio indutivista…que se atém às etapas de observação… – generalização desses resultados em leis… – e confirmação de ‘leis gerais’.  Popper argumentou que a teoria científica será sempre ‘conjectural‘ e ‘provisória‘. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria pela simples constatação de que resultados de uma previsão efetuada com base nessa mesma teoria se verificaram. Esta, apenas gozará do estatuto de uma teoria…não (ou…ainda não) contrariada pelos fatos.    O que a experiência e as observações do mundo real…podem – e devem tentar fazer – é encontrar provas da falsidade daquela teoria Este aspecto é primordial à definição de ciência  conforme sua própria descrição: “Científico é somente o que se sujeita a este confronto direto com a realidade dos fatos… – ou seja…só é científica aquela teoria que possa ser falseável (refutável). – Senão, no máximoserá uma especulação metafísica”.

thomas-kuhnA filosofia de Thomas Kuhn

Em 1963… Thomas Kuhn (1922-1996) publicou o livro… – “A estrutura das revoluções científicas“, acentuando que a formação da verdade científica ocorre pela aceitação de um “sistema de teorias ao qual Kuhn resolveu denominar “paradigma”. — Ou seja, diante de certas anomalias, perde-se a confiança na ‘teoria abraçada’ … e isso resulta numa discussão filosófica sobre seus fundamentos e metodologia. Esses sintomas da crise cessam quando de um período de pesquisa desarrazoada (ciência extraordinária) emerge novo paradigma, sobre o qual se articula novamente a ciência normal, que por seu lado, após certo período, levará a novas anomalias, e assim por diante…Ad infinitum.

Kuhn descreve essa passagem a novo paradigma (astronomia ptolomaicaà copernicana, por exemplo) como uma ‘reorientação gestáltica… Quando abraça novo paradigma, a comunidade científica manipula o mesmo número de dados que antesmas inserindo-os em relações diferentes…E assim, a passagem de um paradigma a outro é o que para Kuhn constitui uma “revolução científica”Dessa forma, nos é apresentada uma concepção inteiramente original acerca do…”conhecimento científico” e de seu inerente progresso.

Contra uma concepção evolucionista da ciência é contraposta uma revolucionária. Negando possibilidade a um ‘conhecimento linear evolutivo’ — toda pesquisa científica será sempre orientada por… ‘paradigmas‘… — A emergência de um novo paradigma, provocada por revoluções científicas significa o abandono daquele que o precedia para        o surgimento de uma nova tradição científica…chamada por Kuhn de “ciência normal“.

Thomas Khun y Cambios de ParadigmaO ciclo de Kuhn

Relembremos o que – até aqui…deduzimos ter sido afirmado por Kuhn… Inicialmente, que as teorias não podem ser refutadas… — a não ser, com a ajuda de alternativas. A seguir, afiançou  que a proliferação também desempenha papel histórico… na ‘quebra de paradigmas‘… os quais são derrubados pelo modo em que estas alternativas ampliam as anomalias existentes.

Finalmente, Kuhn mostrou que anomalias existem em qualquer ponto da história de um paradigma… A ideia de que as teorias são inatacáveis, por décadas, e, mesmo durante séculos… — até surgir uma grande refutação que as derrube … não passa de um mito”.  Ora, se isso é verdade, por que não damos início imediatamente à proliferação…e nunca permitimos que uma “ciência normal(pressuposição necessária das revoluções) venha      a existir?…Será excesso de otimismo esperar que ‘períodos normais’…se é que existiram, não tenham durado por um longo tempo e tampouco se estendido por diversos campos?

Um rápido olhar dirigido ao século XIX mostra que no 2º terço deste século existiam      pelo menos 3 paradigmas diferentes… e “mutuamente incompatíveis”… — São eles…

(1) o ponto de vista mecânico – que encontrou expressão na astronomia, na teoria cinética, nos vários modelos mecânicos da eletrodinâmica; assim como nas ciências biológicas (Helmholtz);

(2) o ponto de vista ligado à uma ‘teoria do calor‘ independente e fenomenológica (“termodinâmica”) – que, afinal… – se revelou incompatível com a mecânica;

(3) o ponto de vista implícito na eletrodinâmica de Faraday e Maxwell,                         desenvolvido e libertado dos seus ‘concomitantes mecânicos’ por… Hertz.

Esses diferentes paradigmas estavam longe de ser ‘quase independentes’. Com efeito,       foi a ativa interação deles… que acarretou na futura ‘obsolescência’ da ‘física clássica’.      As dificuldades que levaram à teoria especial da relatividade…não surgiriam sem a tensão existente entre a teoria de Maxwell de um lado e a mecânica de Newton,      de outro. Num outro exemplo, pesquisas que prepararam o terreno da descoberta do quantum de ação’, juntaram disciplinas incompatíveis – ou, até incomensuráveis, como a ‘mecânica cinética‘ … usada na derivação da ‘lei da radiação‘ de Wien; a ‘termodinâmica’ (o princípio da igual distribuição de energia… por todos graus de liberdade — Boltzmann), e a ‘ótica ondulatória‘…e elas teriam sofrido um colapso, tivesse sido a quase independência desses assuntos… respeitada por todos cientistas.

Paul Feyerabend

Paul Feyerabend (1924-1994)

As críticas de Feyerabend à Kuhn

Paul Feyerabend: “Durante os anos 1960/61, quando Kuhn era membro do Departamento de filosofia da UCLA/Berkeley, pude discutir com ele…vários aspectos científicos. — Estas discussões me foram extremamente valiosas,  e, a partir de então…passei a ver a ciência de um novo modo. Todavia… enquanto tentava compreender certos aspectos…para os quais ele me chamara a atenção, senti-me incapaz de concordar com sua…’teoria da ciência‘  e, estava ainda menos preparado em aceitar  a “ideologia geral” – que supus constituir a base do seu pensamento. — Parecia-me que ela só proporcionaria “conforto”, a um tipo presunçoso de especialismo…pois, tenderia    a inibir o avanço do conhecimento humano”.

“Todas as vezes que leio Kuhn… perturba-me saber se estamos diante de prescrições metodológicas, ou diante de uma isenção de qualquer elemento avaliativo das atividades rotuladas de “científicas”. Parece-me que os escritos de Kuhn não conduzem      a uma resposta direta, sendo ambíguos, no sentido de serem compatíveis com ambas interpretações, e a ambas dando apoio. Ora, essa “ambiguidade”… de restringir críticas especulativas a um nº reduzido de “teorias auto-compreensíveis”…criando uma ciência normal que as tenha por paradigma… causa um ‘efeito paralisante’ sobre seus leitores”.

Segundo Kuhn, a ‘ciência normal é uma pressuposição necessária das revoluções, exercendo efeitos de longo alcance…não só sobre o conteúdo das ideias…mas, em sua ‘substancialidade’ – conduzindo a rigoroso ajustamento… – entre teoria…e realidade, precipitando assim o progresso. – Nesse sentido, a aceitação do paradigma serve de orientação ao cientista – pois a natureza é tão complexa… que não pode ser estudada,    nem no limite do acaso. Contudo, criar conhecimento necessita de orientação – mais especificamente…necessita de uma teoria; um ponto de vista que permita separar…o  relevante do irrelevante; mostrando as áreas em que a pesquisa será mais proveitosa.

A fim de obter essa resposta precisamos de mais do que de uma coleção de                      fatos reunidos a esmo … de mais do que de uma discussão interminável de                        ideologias divergentes. – O que precisamos, de fato…é a aceitação de uma                          teoria… – e a tentativa…inexorável – de ajustar a natureza ao seu padrão.

A defesa de Kuhn é aceitável, contanto que as revoluções sejam desejáveis, e que o modo particular com que a ciência normal conduz às revoluções também seja desejável. — Ora, só não vejo como a “desejabilidade” das revoluções … possa ser estabelecida por Kuhn.  “As revoluções ocasionam uma mudança de paradigma”…seguindo porém o relato feito por Kuhn dessa mudança…ou ‘transferência de gestalt’, como ele assim denomina, é impossível dizer que elas conduzam, necessariamente a algo melhor, pois os paradigmas pré e pós-revolucionários são – frequentemente…incomensuráveis… – E, se a ‘ciência normal’ é de fato tão monolítica quanto o quer Kuhn, de onde vêm teorias concorrentes?  E se estas efetivamente surgem, por que haveria Kuhn de levá-las a sério, e permitir uma mudança do estilo científico (solução de enigmas)…ao filosófico (escolha de paradigma)?

Considerações de Lakatos sobre temas de Kuhn

Ciências Auxiliares –  O que conta… e, o que não conta… – como evidência relevante, geralmente depende da teoria…bem como de outros temas, que podem ser denominados ‘ciências auxiliares’ (teorias usadas como pedra de toque). Estas teorias funcionariam como premissas adicionais na derivação de…enunciados testáveis… – contaminando a linguagem prática de conceitos, em cujos termos se expressam resultados experimentais.

Princípio da Tenacidade Teorias básicas e assuntos auxiliares…estão muitas vezes em desacordo… – Por isso, não temos certeza se uma nova teoria está fadada ao fracasso, mas, apenasque não se ajusta por enquanto, ao resto da ciência. Sendo esse o caso, devem-se criar métodos, que permitam reter estas teorias – em face de fatos refutadores, evidentes e sem ambiguidades – ainda que não sejam eminentes explicações testáveis. O “princípio da tenacidade” é um 1º passo na obtenção destes métodos. Pesquisadores diferentes estão sujeitas a erros diferentes sendo preciso então, que se passe um longo tempo, até que todas as experiências possam ser reduzidas a um “denominador comum”.

Princípio da Proliferação – Tendo adotado a tenacidade‘… já não podemos empregar fatos recalcitrantes para remover uma teoria, ainda que estes sejam tão evidentes e diretos quanto a própria luz do dia. – Daí que… sendo nossa finalidade a mudança de paradigmas, devemos estar preparados para introduzir…e expressar alternativas à essa teoria – ou seja, precisamos estar preparados para aceitar um ‘princípio de proliferação’ como um “método racional de precipitar revoluções”… – Mas será este o método que a ciência realmente usa? Ou será que cientistas se mantêm fiéis a seus paradigmas até o fim de um período normal?

lakatosA “mudança científicaem Lakatos

Já a epistemologia do filósofo matemático Imre Lakatos (19221974) se baseia em uma presunção de ciênciacomo um tipo único de… metodologia… que depois de ‘falseada’…e ‘aprimorada’ – gerasse outra.

Lakatos denominou “estrutura fina da transição“, ao conjunto de elementos capazes de nos revelar situações as quais não desejamos tolerar… Tais elementos nos forçariam a priori, a considerar maneiras diferentes de provocar uma “revolução“… – Dessa forma, é perfeitamente possível abandonar um “paradigma” por efeitos de frustração; e não por argumentos contrários. (Aqui, com efeito, lidamos com um problema metodológico.)

A interação entre ‘tenacidade e ‘proliferação‘…no desenvolvimento da ciência, se trata também de um “traço essencial”. – Ou seja, não seria a solução dos problemas a única responsável pela “evolução” do nosso saber… – essa ação, também se deveria a    uma ativa interação entre as suas várias concepções… A invenção de novas ideias, e a    tentativa de assegurar-lhes lugar digno na competição…conduzem inevitavelmente à queda de velhos conhecidos paradigmas… — E, essa “atividade inventiva” … ocorre o tempo todo… – entretanto, só ganha a devida atenção… – no “tempo das revoluções”.

A imagem da…ciência – que abarcaria então a síntese da descoberta de                        Popper, de que a ciência avança pela ‘discussão crítica’ de vias alternativas,                      bem como a ideia de Kuhn da funçãotenacidade (expressa erroneamente,                          ao postular sua existência periódica) se dá na afirmação de Lakatos de que:

“proliferação e tenacidade não pertencem a períodos sucessivos                            da história da ciênciapois nela – se encontram sempre juntas.

Portanto – para Lakatospodemos concluir que a ciência não possui um método objetivo e seguro de ser feita…pois o próprio método é uma variação de uma outra forma antiga de se fazer ‘conhecimento’. As teorias consistentes aos métodos científicos não são isentas de erros, o que influencia na descoberta de ‘evidências’ que falseiem as teorias … sem chegar, porém, a modificá-las, e sim – as fazendo evoluir…Além do mais, a ‘história da ciência‘ é também a dos ‘programas em concorrência’. – As “Revoluções Científicas” são feitas, na verdade, por um modo racional de superação de um programa por outro…Assim, Lakatos concorda com Popper na convicção de que a ciência tem por meta… aumentar o conteúdo empírico e preditivo de suas teorias, e que esse aumento não deve ser ‘degenerativo’. – Ao contrário de Kuhn, que considera a “revolução científica” um processo irracional, Lakatos afirma que a passagem de um programa de pesquisa a outro é um processo racional onde:

‘A superação de um programa de pesquisa ocorre quando o programa                            rival possui maior conteúdo progressivamente preditivo, ou seja, prediz                            tudo que o programa confrontado prediz – e… algo mais’…  (texto base)  ********************************************************************

pinturas-3D2O “plano virtual” da “imanência”  “Há grande diferença entre os virtuais que definem a imanência do “campo transcendental”, e as formas possíveis que os atualizam… – Imanência é essa vertigem filosófica” … (Gilles Deleuze)

Para Bergson, o princípio de Matéria e Memória traça um plano – que corta o caos. – Ao mesmo tempo…movimento infinito de uma matéria que não pára de se propagar, e imagem de um pensamento, que não pára de fazer proliferar por toda parte uma pura consciência… A univocidade do ser,    e pensamento – o filtro…um grande crivo. O ‘plano de imanência‘ que não é sujeito nem objeto. Mas aquilo que em torno de cada objeto percebido organiza um mundo marginal;    campo conceitual de potencialidade, dono da pré-existência do mundo. Claudio Ulpiano  ************************************(texto base)***********************************

A ‘percepção’ de Bergson, sobre a relação“imanente/transcendente”              Imanência é a uma visão vinculada estritamente ao…’plano material’, sendo portanto…uma vivência que se completa no plano físico… A ‘transcendência‘,                por sua vez, ultrapassando este planonos remete à dimensão da consciência”.

Embora Henri Bergson (1859-1941) talvez não seja muito comentado nas filosofias contemporâneas, trata na sua obra… “Matéria e memória” de um dos principais problemas – a ser enfrentado pela filosofia – qual seja – a contraditória relação do “transcendente” com o “imanente”. Privilegiando a ‘memória’ – segundo o autor:          “uma ponte na compreensão dessa relação”…e, evidenciando a função do corpo na      seleção e representação de imagens…Bergson não conceitua a matéria como algo misterioso, transcendente à representação humana…Segundo ele, esta poderia ser entendida como um conjunto de imagens…que observadas, são interpretadas pelo cérebro… A partir do pressuposto de sua cognoscibilidade, a seleção de imagens          começa no próprio…’corpo humano’…para então se descobrir … num intercâmbio,        entre estímulos extrínsecos… e movimentos executados… De acordo com Bergson:

“O corpo é uma imagem que atua como todas as outras no mundo material.                      Contudo, é uma imagem que se difere das demais…por poder desenvolver o                        que recebe… — E assim… causar mudanças nas imagens que o circundam”.

É possível que Bergson ao defender este ponto de vista, esteja enfatizando a dimensão da ‘racionalidade humana’… Tanto, que faz uma distinção do conceito de memória… entre a memória pura entendida como atividade espiritual, e a memória-hábito de essência mecânica e material…Enquanto uma conscientiza cada indivíduo sobre a importância do passado, a outra tem como função primar pela adaptação dos comportamentos humanos em seu ambiente de vida. Arraigado à totalidade do conceito ‘memória’, Bergson ressalta    a importância do cérebro, que segundo o autor…não é – de modo simplistao “órgão da memória”… – mesmo porque…Bergson acha inválidauma “teoria das localizações“.

Realismo+e+idealismoAssim fica perceptível que um dos papéis do cérebro é selecionar – conduzir – ou inibir o corpo a movimentos. Mas, também são de sua responsabilidade as ‘percepções‘, visto que estas dependem dos…”nervos cerebrais” (centrípetos e centrífugos) cujas funções são respectivamente o impulso de estímulos para o centro…e, sua filtração e absorção na razão. Note-se daí que percepções humanas dependem da ‘matéria’…como da ‘memória’.

Partindo do pressuposto bergsoniano do corpo como centro de toda matéria…e se admitirmos vários corpos, poderíamos dizer que, cada um deles…ao relacionar-se        consigo mesmo, estaria ‘influenciando’ o comportamento de outros corpos, numa      relação de causa e efeito. Mas, nesse caso, como então explicar imagens similares, simultaneamente, em sistemas diversos. Um, onde cada imagem varia em função própria…e outro — onde todas variam em função de uma única…”perspectiva“?

Trata-se de uma…problemática bergsoniana‘, acerca da seleção das imagens. Bergson tenta combater essa dualidade entre ‘idealismo‘ (matéria da memória)…e ‘realismo        (memória da matéria) considerando o primeiro…se voltado para o subjetivismo, como aquele que tenta fazer com que a ciência seja causa da consciência…e o segundo, como        a separação desta causalidade. Como consequência a problemática da dualidade assim consegue ser decifrada… entendendo que…simplesmente…um tenta deduzir o outro.

O realista, apesar de partir do universo de imagens, de certa forma negando a centralidade de cada ser humano…é obrigado a constatar o ‘centro’…ao lidar com as percepções… – Daí parte o idealista…centralizando as imagens a partir de si. – Se ele quiser voltar ao passado, ou programar o futuro, terá que abandonar a ideia de corpo como centro de imagens, para deixar que a estrutura corpórea viva em função das demais matérias… – Porém, pensando desta forma…poderíamos concluir que ambos os pensamentos idealista e realista… bastar-se-iam por si próprios… – Percebe-se então que estas 2 doutrinas exigem, sobretudo, uma “percepção” … a qual, para Bergson, é então entendida como… “conhecimento puro”.

Memóriae “função perceptiva”                                                                                    “Para que o corpo se movimenteé necessário que o cérebro conheça cada                      movimento a seu devido tempo; isso independente de conhecer a estrutura                      corpórea em sua totalidade…Para que a percepção se fite na imagem total,                          é necessário que o ‘sujeito cognoscente’ faça críticas ao objeto cognoscível”.

memc3b3ria-e-percepcc3a3oEsta argumentação se fundamenta, a partir do pressuposto de que o cérebro; na função de se comunicar…capta o que percebe. Ora, se uma ação pensante for…’indeterminada’, pode ser justificada por erro de percepção do cérebro. E considerando que percepção, implica em lembrança…para uma coisa ser percebida, é preciso ao cérebro remeter-se  ao passado. — Assim, ‘percepção’ seria um modo de explicar o presente, pelo passado. 

Mas é justo contra este tipo de argumentação, que em “Matéria e MemóriaBergson propõe ao cognoscente (no ato da seleção de imagens), que não se trabalhe apenas com a percepçãono sentido de remeter-se ao passado, mas com a “percepção pura“, capaz de apreender, sobretudo…o “presente”…do “fenômeno” – o “momento”, do “ato intelectivo”.  Ainda com relação à percepção…ao discorrer sobre a relação “corpo/espírito”, a partir da seleção de imagens, Bergson define conceitualmente…uma percepção consciente…de outra inconsciente. E aí, na ‘visão bergsoniana’ sobre ‘percepção consciente’ há, para o autor…um grande “empobrecimento”…quando esta perspectiva vislumbra um “exterior”, descartando a parte material – nele contida; na qual … em termos, estaria sua “essência”.

E, já quase fundamentando seu pensamento acerca da função do corpo na seleção das imagens, Bergson tenta desmistificar a possível confusão psicológica entre memória  e percepção pura. Referindo-se à percepção da matéria, pressupõe que os ‘sentidos humanos’ carecem de arraigada educação…para discernir entre memória e percepção.

Considerando que nenhum sentido consegue perceber imediatamente as coisaschega-se  à conclusão de que somente com uma educação evoluída é que estes conseguirão perceber cada objeto em sua totalidade. – E assim… “percepção e matéria não devem simplesmente ser pos­tos em paralelo”. Ao contrário, cérebro e matéria devem ter uma relação intrínseca, pois de outra forma…não haveria como classificar sequer o corpo como matéria, visto que para esta ser entendida e a seguir classificada, de antemão deve ser percebida. (texto base**********************************************************************************

“A Evolução Criadora”… de Henri Bergson (por Felipe Pimenta)                                    “Se a Metafísica é possível, isto se deve a uma ‘visão’, e não à dialética…Esta, apenas nos conduz a filosofias opostas. Apenas uma ‘intuição transcendente’, isto é…uma percepção da realidade metafísica admitiria sua ‘síntese constitutiva’. Fundando-se na inversão do percurso natural do pensamento…o ‘método intuitivo’ – indo da realidade aos conceitos, se coloca – imediatamente – na coisa em si.” (H. Bergson – ‘O Pensamento e o Movente’)

Evolução criativaHenri Bergson foi uma grata surpresa…quando o li pela primeira vez, falando sobre como a ciência só percebe a imobilidade da matéria… – Para ele, a vida é móvel, e a evolução um processo criador, que a ciência dificilmente demonstrará… – Essas coisas… – apenas o instinto as poderia encontrar.

A inteligência é despertada no ser humano – pelo ato de organizar o sólido inorganizado, pois o que existe de fluido na natureza, e de vital no ser vivo, segundo Bergson… – lhe escaparão inteiramente. Nossa inteligência só se representa claramente, à imobilidade…diz ele. Então, como o ‘ser humano’ se sente mais à vontade com as… ‘coisas imóveis’, Bergson demonstra…como ficamos espantados e maravilhados com a mobilidade do ser vivo, e do misterioso mecanismo… de sua própria evolução.

Neste livro, Bergson faz uma famosa analogia do…”saber humano” — com o método do cinema…Da mesma forma como esta última invenção da inteligência humana, à época do nosso filósofo, o conhecimento que temos da matéria viva é feito de diversas “fotografias” da imobilidade postas em sequência…para com isso dar uma aparência de movimento tal como é feito no cinema…“a ciência não é capaz de observar o devir constante da matéria”.  E o erro está em pensarmos que o conhecimento é feito de uma coleção de ‘imobilidades’.    Se acreditarmos nisso…diz Bergson…cairemos no antigo sofisma de Zenão de Eléia. Esse filósofo grego nos deu o seguinte paradoxo: – Se atiro uma flecha do ponto A ao ponto B, então eu poderia afirmar que a flecha nunca atingirá seu alvo; pois estará sempre imóvel.

Mas, para Bergson isso é um absurdo. Ele explica que, no fundo, a ilusão provém do fato de que – uma vez efetuado, o movimento depositou ao longo do percurso uma ‘trajetória imóvel’, na qual podemos contar tantas imobilidades quanto quisermos… – Portanto… o movimento, efetuando-se em cada instante, deixou atrás de siuma posição com a qual coincidia. Supor que o móvel está em um determinado ponto desse trajeto…é isolar esse ponto, substituindo a trajetória única – dada de início… por 2 trajetórias…É distinguir 2 atos sucessivos (antes e depois) onde, por hipótese, há um só. Enfim, é admitir, a priori,    o verdadeiro absurdo de que… “o movimento poderia coincidir com o imóvel“.

A ciência moderna ainda está impregnada pela metafísica dos antigos, para quem a realidade está dada desde a eternidade… – Nosso pretenso empirismo cai por terra, quando vemos que – a física, a química e a biologia… só estudam a “matéria inerte”.    Todas essas ciências, segundo Bergsontêm dificuldade em admitir uma realidade    criadora… Com um estilo que lembra o de Schopenhauer — quando lemos Bergson, entendemos o porquê de seu prêmio Nobel (1927). O livro é espetacular! texto base ****************************************************************************Metodo_cientifico  

A ciência não se constitui em seu programa de trabalho – de algo pronto…acabado.         Apesar disso – seus vários segmentos … notadamente no que se refere às “ciências exatas”, encontram-se rigorosamente formalizados. – Sua investigação a ser feita é formulada por “hipóteses“, cuja elaboração requer um saber específico. Leônidas Hegenberg, professor aposentado do ‘Instituto Tecnológico de Aeronáutica’ (ITA), procura alcançar uma visão abrangente destes procedimentos — em algumas teses pulicadas em seu livro… – Uma delas é uma crítica ao ‘bom senso’, assim expressa:

“As pessoas vivem em comunidades onde as coisas ao redor têm nomes, instruídas por ‘sentenças declaratórias’ – que… interpretando as circunstâncias em que vivemos, são transmitidas de geração em geração pelas tradições orais…em salas de aula… e livros, formando uma “intrincada rede” … à qual nos habituamos – tendo ou não consciência disto. – Um traço notável de boa porção das informações adquiridas pela experiência,    é o de que, ainda quando a informação – dentro de certos limites, se torne precisa, ela raramente é acompanhada de razões…sobre porque os fatos são – como se diz serem”.

É pelo desejo de se obter explicaçõesao mesmo tempo sistemáticas e controláveis, pela evidência factual, que a ciência é gerada…Constitui um de seus alvos…a organização e classificação dos fenômenos, com base em princípios explanatórios…em ‘tessituras cada vez mais densas – abrangendo um número crescente de eventos. Mas pesquisa científica não se realiza no…’vácuo intelectual’. Quando se observa…experimenta, ou quando se investiga, há uma ideia básica a nortear a pesquisa — a qual denominamos…’hipótese’.    Além disso…de tempos em tempos surge a necessidade de confrontar uma hipótese com outra, anteriormente aceitaEste trabalho é governado por um tipo especial de atitude científica‘…A hipótese deve atender a requisitos mínimos: ser adequada, isto é, estar de acordo com evidências recolhidasser passível de submeter-se a testes – e, consistente, vale dizer – compatível com outras hipóteses que não se deseja de pronto abandonar.  Conclui-se então que afirmações irrefutáveis não fazem parte da ciência, mas dos mitos.

Segundo o princípio da ‘refutabilidade’, a ciência enfrenta o risco de ver abandonadas as soluções que propõe…Seu sucesso deve-se, grande parte, à condição de propor ‘soluções específicas’ a ‘questões específicas’, submetendo-as sem cessar, ao crivo da crítica. Gera-    se assim progresso; já a “incontestável verdade imbatível”, gera estagnação. (texto base**********************************************************************************

A anarquia científica de Paul Feyerabend (Existe mesmo algum método científico?)   Muito embora as inúmeras… diversificadas… e ancestrais tentativas de definir… “ciência”, possam discordar em suas especificidades – elas compartilham a premissa comum… – de um conjunto concreto de “princípios imutáveis” caracterizando a atividade científica.

A leitura de um texto base de metodologia da ciêncianos dá    a impressão, de uma estrutura lógica… – muito bem definida, implícita no processo científico:  Inicia-se em uma “observação”,  desenvolve-se uma…”hipótese”, consistente a teorias existentes, faz-se um “experimento”…para testá-la…e coleta-se resultados.

Se as descobertas correspondem ao modelo, temos uma teoria. Caso contrário, refinamos a hipótese, recalibramos os instrumentos, e repetimos o experimento…até que isso aconteça. Mas será que todo esse procedimento efetuado, pode refletir – com precisão – a realidade?

O filósofo da ciência Paul Feyerabend discorda dessa ideia. – Para ele…o estabelecimento de princípios para nortear a investigação científica – não é apenas fútil… – mas prejudica ativamente seu desenvolvimento ao restringir sua liberdade de ação. Tal modo de pensar    é explicitado em seu livroContra o método“, publicado originariamente em 1975. – Para ele“o único princípio que não inibe o progresso na ciência é o…vale tudo”. – Ao melhor estudarmos a intransigência desta noção, é útil tratarmos do contexto onde se desenrola:

Desafiando o “positivismo”                                                                                                    A narrativa convencional é que o arco da ciência progride cumulativamente ao longo do tempo, construindo uma compreensão cada vez melhor do mundo. E isso…logicamente, levanta a “questão epistemológica”do que significa uma teoria ser melhor que a outra.

A partir do final da década de 1920, o movimento ‘lógico positivista’ começou a ganhar força ao supor que afirmações científicas só seriam significativas, quando baseadas em observações empíricas. – Assim…os defensores dessa ideologia tentaram esquematizar termos teóricos (como elétrons)conforme a modelos — os relacionando a fenômenos diretamente observáveis (como um feixe, em um tubo de raios catódicos), na tentativa      de estabelecer uma base empírica para conceitos abstratos. Com base nisso, pode-se pensar num padrão objetivo para comparar 2 teorias, em conformidade a observações:  Uma teoria é tanto melhor – quanto maior seu grau de precisão em prever fenômenos. ​​

paul-feyerabend

“Precisamos de um mundo de sonhos, para descobrir as características do ‘mundo real’, que acreditamos habitar”. (Paul Feyerabend)

Feyerabend  junto ao filósofo Thomas Kuhn, desafiou essa ideia, alegando que o significado de um ‘termo observacional’…intrinsecamente unido a seu contexto teórico – varia segundo a teoria subjacente Ou seja, um mesmo termo, em sucessivas teorias, poderia se referenciar a “conceitos divergentes”inviabilizando assim, uma comparação direta … (como nos modelos clássico e quântico do elétron) Isso denota a ideia de uma incompatibilidade conceitual em função de uma transformação nas ‘hipóteses observacionais‘…usadas ao testar as teorias.

A introdução de um novo paradigma é frequentemente seguida por uma feroz batalha entre os defensores da velha ordem, e os‘revolucionários’ – que geralmente termina      em um empate frustrante, com acusações de ambos os lados. — Tudo isso, porque são incapazes de uma mudança no significado dos termos em discussãoCom base nisso, Feyerabend atacou a ‘premissa’…de que uma nova teoria deve ser lógica e consistente      com teorias bem estabelecidas e confirmadas…Segundo ele, como toda teoria traz um grande nº de pressupostos implícitos…uma nova teoria ao questionar uma presunção      não fundamentada é…frequentemente, forçada a se expressar — pressupondo termos anteriormente “desprezados”levando a um conflito inevitável com a teoria anterior.

Feyerabend também rejeitou a exigência de que uma nova teoria deva ser consistente    com resultados observacionais estabelecidos. – Igualmente ao argumento anterior…a    ideia é que ‘evidências observacionais’ não são puramente objetivas, por dependerem        de alguma teoria para sua interpretação… Na ausência de teorias alternativas prévias,      tal íntima conexão entre teoria e observação, dificulta a percepção de certos fatos. Os resultados aí são frequentemente encontrados, não por análise, mas por comparação.

“O 1º passo em nossa crítica a conceitos e procedimentos já estabelecidos, o 1º passo em nossa crítica aos “fatos”, deve portanto, ser uma tentativa de romper o círculo. Devemos inventar um novo sistema conceitual, que se choque com os resultados experimentais mais cuidadosamente estabelecidos, confundindo os princípios teóricos mais plausíveis,    e introduzindo percepções que não possam fazer parte do ‘mundo empírico’ existente”.

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A proposição “todos os cisnes são brancos” pode ser provada como falsa e, portanto, uma afirmação falsificável, já que a evidência de cisnes negros prova que ela é falsa – e tais evidências podem ser fornecidas. Contudo, se uma tal afirmação, de fato, pudesse ser verdadeira, seria difícil prová-la.

Contradições da “falseabilidade”

Outra ideia popular … entre filósofos da época, era a noção defalseabilidadede Karl Popper, que afirmou a necessidade    de qualquer hipótese ser“falsificável”, para ter algum valor científico. Noutras palavras…deve haver alguma “empírica observação” que possa contradizê-la.      Por exemplo, a afirmação de que ‘todos cisnes são brancos’ é falsificável pois pode ser refutada — pela descoberta de (apenas) um cisne negro. Feyerabend afirmou que: nenhuma teoria sempre admite todos os fatos de seu domínio   Isto significa quealgumas teorias são amplamente aceitas – mesmo diante        de algumas “evidências contraditórias”.

Essas contradições estão agrupadas em 2 classes principais…qualitativa e quantitativa. Discordâncias numéricas quantitativas são fáceis de explicar. Elas são frequentemente atribuídas à falta de precisão, instrumentos defeituosos, e outros erros de medição, ou cálculo. A outra classe é mais interessante de se considerar. Discrepâncias qualitativas    são limitações da teoria que aparecem à margem do domínio em consideração… Esses casos extremos que contradizem a teoria são muito complexos – e, geralmente exigem conhecimento muito especializado para serem revelados. A solução comum para esses tipos de problemas é a invenção de hipóteses ad-hoc que compensam essas anomalias.

Um exemplo famoso é a adição da ‘constante cosmológica’ de Einstein            à sua teoria da relatividade geral, a fim de manter o universo estático.

Popper atacou a hipótese ad-hoc como ilegítima e não científica … pois esta imunizava a teoria de ser falsificada. Feyerabend, por outro lado…a defendeu como parte essencial      no desenvolvimento de novas teorias. – Nenhuma teoria está totalmente completa…e as teorias que exploram novas áreas, frequentemente lidam com muitas incógnitas ocultas.    A hipótese ad-hoc atua aqui como uma…”brecha” para salvar as partes úteis da teoria, enquanto continua a crescer nossa compreensão do desconhecido. Feyerabend contudo, alertou que essas hipóteses nos levam a um falso senso de adequaçãoe nos dá a noção ilusória de que a ciência… como a conhecemos… é perfeitamente capaz de explicar tudo.

galileu-galilei-frasesO grande “Galileu Galilei”

Ao examinar a história da ciência, Feyerabend gostava de ressaltar que esta era muito menos racional – do que popularmente se imaginava. Ele relativizava a importância de ‘argumentos empíricos’ … sugerindo que critérios estéticos, fatores sociais e pessoais são um fator bem mais decisivo na história da ciência…do que aponta a historiografia tradicional. Em seu livro “Contra o método” – ele se concentrou      em sondar criticamente o ‘herói da revolução científica’…que longe de um racionalismo estrito, se utilizou de truques de retórica e propaganda…para apoiar o “heliocentrismo”.

Evidências de observações telescópicas foram cruciais para tais argumentosNo entanto, é preciso ter em mente que o telescópio na época era um instrumento relativamente novo, não muito bem estudado. Relatos de corpos celestes, observados através de um telescópio eram bastante inconsistentes, e por vezes contraditórios. Seus esboços da superfície lunar são, para os padrões atuais, totalmente inadequados…Sem um preciso padrão óptico, não era fácil explicar a variação das medidas ou, provar a precisão empírica do instrumento.  Na falta de evidências concretas, Galileu recorreu à propaganda, ao explorar o sucesso do seu telescópio em ampliar objetos terrestres distantes — promovendo suas ideias celestes. Ele costumava exibir o aparelho a pessoas influentes organizando eventos amplamente divulgados para a elite italiana…o que provou ser um lucrativo negócio. – A venda desses telescópios para alguns ricos comerciantes contribuiu para um razoável…“pé-de-meia”.  Ocasionalmente, Galileu também confiava em…”princípios estéticos”, ao justificar certos aspectos de suas teorias…Ao apresentar a ideia de que só o ‘movimento relativo’ agia nos corpos celestes uma ideia revolucionária na época…ele especulou sobre a existência de grande unidade entre fenômenos terrestres e celestessem evidências empíricas sólidas.

É importante observar que Feyerabend não condena Galileu por usar esses métodos, um tanto o quanto inescrupulosos para promover suas ideias. Ele via tais táticas justificadas ao orquestrar uma mudança de paradigma…e combater uma visão fortemente arraigada.  Em seu trabalho, Feyerabend chegou à conclusão anarquista epistemológica de que não existem regras metodológicas úteis e coerentes dirigindo o…’caminho da ciência’ – ou, o desenvolver do conhecimento…Explorando limitações dessas regras, ele tentou mostrar que não havia um princípio divino inviolável destinado a orientar o progresso científico.

imperialismo científicoUma natureza “autocontraditória”

Ele também adverte contra o imperialismo científico de acreditar na ciência … como o único ‘meio de conhecimento’ – criticando um setor da sociedade de hoje que trata os cientistas como uma “classe sacerdotal”, dona do ‘monopólio exclusivo da verdade’.

Feyerabend via rigidez e ortodoxia como as maiores ameaças à ciência livre. De certo modo, uma ameaça ainda maior que a…“pseudociência”. Através de seu trabalho, ele tentou combater esse “conservadorismo conceitual”…incluído numa tendência em se apegar a certas formas de pensar que pudessem vir a representar verdades absolutas.    Para ele quebrar as regras era necessário – ao desafiar um paradigma estabelecido.

É fácil subestimar o trabalho de Feyerabend – o designando como defensor de alguma posição do tipo relativismo, ou liberalismo intelectual. Mas, não acho que era esse seu objetivo pois mesmo estes insuspeitos conceitos podem se imbricar em definições rígidas. Ciente de sua natureza autocontraditória, de ser dogmaticamente anti-dogma, Feyerabend se deleitava com a ironia de sua posição. Durante uma entrevista, quando pressionado a se posicionar sobre algum assunto, ele teria dito…”Não tenho posição!”.        E, essa aversão a rótulos … é também evidente em declarações sobre seu próprio livro:

“Um dos motivos para escrever “Contra o Método” foi libertar as pessoas da tirania filosófica de conceitos abstratos como “verdade”, “realidade” ou “objetividade”, que restringem a visão das pessoas, e as formas de estar no mundoFormulando o que      tomei por minhas próprias atitudes e convicções, infelizmente acabei introduzindo conceitos semelhantes de rigidez … como – “democracia”, “verdade”, ou “tradição”.        Agora, ciente disso me pergunto como aconteceu – Talvez, o desejo de explicar        minhas ideias – não somente como uma história, mas por um…”relato sistemático”,        seja…realmente, meio perigoso”. (Vasuman Ravichandran – texto base, mai/2020)    ***************************(texto complementar)******************************

henri-poincareA “INTUIÇÃOcomo método filosófico 

1. Premonição: Embora, inicialmente, esteja associada ao “sobrenatural“… a psicologia vê a premonição como o “pressentimento“…de que alguma coisa boa ou ruim está para acontecer.

Tal sensação é bem mais associada à ‘emoção’,    do que à ‘razão’, e diretamente à ‘intuição’. Ao avaliar seus pressentimentos, o sujeito achará algum aspecto dessa ‘sensação‘ – em sua vida.

2. Intuição: Compreensão global e instantânea de uma verdade, de um objeto, de um fato. Nela… de uma só vez, a razão capta todas relações que constituem a realidade, e a verdade da coisa intuída… – É um ato intelectual de discernimento e compreensão. Os psicólogos se referem à intuição, usando o termo insight ao descreverem o momento    em que temos a compreensão total, direta e imediata de alguma coisa…ou percebemos, num relance, um caminho para a solução de um problema científico, filosófico ou vital.

3. Método intuitivo e método discursivo                                                                              Todas pessoas são intuitivas, mas a maioria prefere racionalizar                                      pensamentos e sentimentos – tomando decisões … com base no                                      julgamento do certo, ou errado…desprezando seus sentimentos.

Descartes foi o primeiro filósofo moderno, que se utilizou da ‘intuição primária’, para reconstruir todo sistema filosófico, fazendo desse método, o principal de sua filosofia. Outros filósofos – posteriores a Descartes…também fizeram amplo uso da intuição, e ainda hoje vale ressaltar que a intuição é largamente utilizada nos estudos filosóficos.

A intuição consiste num único ‘ato do espírito’, da onde se obtém um conhecimento imediato, que vai diretamente ao objeto (“método direto”)… – Por outro lado… há o “método discursivo”…que atinge o conhecimento – através da formulação de várias      teses a serem aprimoradas…até atingirem a realidade completa do objeto… isto é, o conceito. Trata-se de um “método indireto”, para atingir “conhecimento mediato”.

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4. A intuição sensível

Existem vários tipos de intuição, e um deles, a ‘intuição sensível‘…é o exemplo mais típico de intuição, praticada sempre que percebemos os objetos. É pois, uma intuição imediata – o que significa… uma relação direta… entre sujeito e objeto. Todavia,  essa ‘modalidade de intuição’ não costuma ser empregada pelo ‘filósofo’ em sua procura do conhecimento…por 2 motivos: a) só podemos aplicá-la a objetos (“sensíveis”) passíveis de serem captados pelos sentidos. b) por seu caráter individual…nega a ‘universalidade‘ dos objetos (“objetivo da filosofia”).

5. A intuição espiritual                                                                                                          Por referir-se à forma, e não ao seu conteúdo das coisas…a ‘intuição                                    do espírito’ tem sempre como objeto uma relação de ‘caráter formal’. 

Outra modalidade de intuição é a ‘intuição espiritual’, que ao contrario do conhecimento discursivo, e assim como o ‘princípio da contradição’, não precisa de demonstração, pois se trata de uma visão direta do ‘espírito‘…diferenciando objetos sensíveis. Assim como a ‘intuição sensível’…a ‘intuição espiritual’ não é suficiente à construção de uma “doutrina filosófica…isto porque, não há como se penetrar na essência da realidade das coisas, só por meio de ‘formalismos‘. Para isso, há a intuição real; objetivando o ‘espírito‘ da coisa.

6. A “intuição real”…(intelectual, emotiva e volitiva)

A intuição real pode dividir-se em 3 categorias. Numa intuição intelectual, a qual terá no objeto… seu exato correlato, predominam as faculdades intelectuais do filósofo. Essa intuição consiste em captar a essência de um objeto…seu “éidos“, por meio de um    ato direto do espírito… Quando predominarem motivos de caráter emocional, teremos a intuição emotiva, também com correlato no objeto, mas tendo seu próprio “valor”.  Uma 3ª espécie é a intuição volitiva, em que nessa, os motivos derivam da ‘vontade‘.  Manifesta-se mediante a realidade material do objeto, e a existência arbitrária do ‘ser‘.

Como representantes, a intuição intelectual (pura) é encontrada na Antiguidade… em Platão – e na época moderna em Descartes… – e nos idealistas alemães. A ‘intuição emotiva‘… – por sua vez…é encontrada na Antiguidade em Plotino, e depois em Santo Agostinho;  já entre os pensadores modernos, há Spinoza com sua ‘intuição mística‘; e Hume, para quem a existência de um mundo exterior, não passa de uma crençaum ato de… Por fim, a ‘intuição volitiva‘ é representada por Fichte, a quem a existência do ‘eu‘ representa um ato da vontade, pois a realização da vida… ao superar obstáculos… – é a base de todo “sistema filosófico“.

Na “filosofia contemporânea“, há um leque variado de modalidades em que a intuição se apresenta, onde cada filósofo utiliza um sistema, no qual aplica cada um dos 3 métodos de intuição no estudo do ser… — Classificaremos a seguir … suas três principais correntes:

a) intuição” (metafísica) de Bergson                                                                                      “Desordem e Nada, designam uma presença… a presença de uma coisa, ou de                uma ordem, que, de imediato…não nos interessa.” (‘Introdução à Metafísica’) 

Acredita Bergson que o método intuitivo é o único que se deva empregar no estudo filosófico. Isto porque, contrapõe a “atividade intelectual”… que consiste em tornar as coisas estáticasestudando assimsomente oaspecto superficial da realidade‘…à “atividade intuitiva”…que busca por meio de “metáforas“; opondo-se à atividade do intelecto, conhecer e explicar uma realidade em movimento… – que…”flui no tempo”.

“Muito antes da existência de uma filosofia (ou ciência)…a função da inteligência já era a    de fabricar instrumentos…e orientar a ação de nossos corpos, sobre corpos circundantes.    A ciência levou esse trabalho da inteligência para bem mais longe… mas, não mudou sua direção…tornar-nos senhores da matéria, pois matéria e inteligência modelaram-se uma    a outra. Nossa inteligência é a continuação de nossos sentidos. É impossível supormos o seu mecanismo…assim como o progresso da ciência, sem chegarmos à conclusão de que entre inteligência e matéria, há efetivamente…simetria, concordância, correspondência”. 

‘Toda análise é tradução, desenvolvimento em símbolos e representação                            do objeto que estudamos, em relação a outros, que supomos já conhecer.                          Numa ciência que desenha a “configuração exata” da matéria … nossa                              inteligência reencontra assim, necessariamente…sua própria imagem.”                              (trechos do livro…O Pensamento e o Movente…de Henri Bergson)   

b) intuição (volitiva) de Dilthey

Para Dilthey a intuição a ser utilizada nos estudos filosóficos deve ser a volitiva… e, assim como Bergson, acredita que os métodos que se utilizam apenas do intelecto são suficientes para o estudo da filosofia. A existência das coisas – para ele…consiste em percebermo-nos como agentes que possuem vontades, e portanto…esbarram em dificuldades. Ao lutarmos contra essas dificuldades… as transformamos em “existências” (“filosofia existencial“).

c) intuição (intelectual) de Husserl

Husserl aplica a intuição fenomenológica ao estudo filosófico… – a relacionando ao pensamento platônico…e também cartesiano… – a partir de ‘representações singulares’. Eliminando de nossa contemplação suas particularidades, chega à “essência” do objeto.

Ao tratarmos das construções intelectuais que não se preocupam com a origem… ou essência do objeto – como as ciências matemáticas, físicas, biológicas, jurídicas e sociais,  o método mais eficiente será a “intuição fenomenológica“. Contudo, ao tentar captar aquilo que for pré-intelectual…é necessário descobrir a própria vivência do homem, a qual se depara com resistências e obstáculos… – que se tornam existências, para então transformarem-se em essências… a serem assim, estudadas pelo intelecto. (texto base**********************************************************************************

escuridão“Uma luz na escuridão”                                          Com os experimentos de Pisa“, Galileu desferiu um golpe mortal na teoria aristotélica…lançando as bases de uma… — dinâmica revolucionária.

Galileu Galilei (1564-1642), fundador do método científico, partindo da observação, ao deixar cair simultaneamente 2 objetos do alto de uma torre, concluiu que a ‘teoria aristotélica‘ estava errada. Ele assim constatouque independente de seus pesos… esses objetos atingiam o chão…juntos.

Galileu continuou aplicando o seu método científico … realizando uma série de novos experimentos. Ao fazer medidas sobre o movimento dos corpos em planos inclinados, descobriu que: a) o movimento é uniformemente variado; b) quanto mais inclinado o plano, maior é a aceleração. — Diante desses resultados experimentais…concluiu que,      no vácuo…independente do pesotodos os corpos caem com a mesma aceleração.

Como possível contraste com sua versão empirista, a física galileana apresenta uma forte influência pitagórico-platônica. Mas a verdade, é que Galileu foi influenciado e motivado profundamente por suas convicções copernicanas. — Note-se que, desde o início, a teoria copernicana sofria importantes objeções astronômicas e mecânicas – além das religiosas, por parte dos opositores. O compromisso de Galileu com essas ideias, o fez enfrentar tais objeções…e sua teoria do movimento (“queda dos graves“) desempenhou um importante papel na confutação de argumentos mecânicos contra o movimento da Terra. Mas, o que teria levado Copérnico, Galileu e Keplera ver o Sol, e não a Terrao centro do mundo?

Um nova ordem para o universo                                                                                    Galileu reservou a posição central – ao seu astro                                                                      mais importante – fonte da luz e da vida – o Sol.

A nova ordem do universoinstituída por Copérnico, demonstrava sua insatisfação        com a astronomia ptolomaica, mas não justificava a origem da hipótese heliostática.            Ou seja, o Sol está no centro por uma razão ‘trans-empírica’, que denota, ao lado do pressuposto de que a matemática é imprescindível à compreensão do mundouma herança da “metafísica pitagórica” (platônica e neoplatônica) na obra de Copérnico.            O De revolutionibus orbium coelestium, derradeiro livro de Copérnico, publicado          em 1543 foi um fantástico produto, inspirado por essa metafísica. Segundo ele:

“No meio de todos assentos, o Sol está no trono. Neste belíssimo templo poderíamos colocar esta ‘luminária’noutra posição melhorde onde iluminasse tudo ao mesmo tempo? […] O Sol assim senta-se como num trono real governando seus filhos…os planetas que giram à volta dele”.

sistema solarContrariamente ao ditame da ‘epistemologia empirista’…há uma indubitável inspiração metafísica na gênese do heliocentrismo. Kepler (1571-1630) também manifestou razões metafísicas para situar no Sol … “as causas do movimento dos planetas”. A influência neoplatônica é bem ilustrada pela passagem de um de seus textos“Em primeiro lugar,      a menos que talvez um cego possa negá-lo perante ti – dentre todos corpos do universo,      o mais notável é o Sol – cuja essência integral nada mais é que a mais pura das luzes…a ‘fonte da visão’… o ‘pintor de todas as cores’…’rei dos planetas’, e coração do mundo”.

Para os platônicos e neoplatônicos … o Sol tem a mesma função no universo das coisas visíveis – do que a ideia do bem no “universo das ideias”. – Por conferir luz, vitalidade, crescimento e progresso às coisas visíveis – o Sol deve ocupar o status mais elevado na ordem das coisas da naturezaCertamente nenhuma posição inferior no espaço ou no tempo podia ser compatível com toda sua dignidade – e extraordinária função criativa. 

Um dos dogmas do empirismo, exacerbado na versão do positivismo lógico do “Círculo    de Viena”, é que…ciência se faz sem metafísica, a qual, por não ter fundamentação empírica – suas ideias são consideradas como carentes de significado cognitivo – pelos “positivistas lógicos“. – Entretanto, além das fontes imediatas de Copérnico…serem neoplatônicas, Galileu nunca soube qual o valor da aceleração de “queda livre”de um único corpo … muito embora costumasse afirmar que todos corpos caem com a mesma aceleração no vácuo (em sua época discutia-se se realmente era possível existir vácuo!)

Com efeito, a teoria dos movimentos de Galileu foi fortemente motivada                                  por um problema teórico…qual seja…o de dar suporte mecânico à teoria                          copernicana. — Os alegados experimentosquando ocorreram, tiveram                            uma função bem diversa – daquela propugnada pela ‘história empirista’.

O experimento de Michelson-Morley                                                                                    O éter devia ser um meio sutil…através do qual, os planetas e demais astros                podiam se mover livremente — e…de forma paradoxal…também apresentar                      características de sólido elástico, ao propagar ondas luminosas transversais.

O experimento de Michelson-Morley derrubou a física clássica — com seu sistema de referência absoluto…(de Newton), para o espaço … e o tempo, mostrando por um viés empiristaa inexistência do éter. Forneceu assim,  sustentação teórica à “relatividade especial” de Einstein, contribuindo para promover sua ‘ampla aceitação’.

Robert Millikan, prêmio Nobel de 1923, assim sintetizou a suposta gênese empírica da teoria da ‘relatividade restrita’“A teoria da relatividade restrita pode ser considerada basicamente uma generalização a partir do experimento de Michelson“. Descartando todas concepções a priori sobre a natureza da realidade … Einstein tomou como ponto      de partida fatos experimentais cuidadosamente testados”. Tal realização experimental      [de Michelson-Morley]…com extraordinária habilidade e refinamento…deu a resposta definitiva…que não existe nenhuma velocidade observável da Terra em relação ao éter.

Mas, a verdade é que a ‘relatividade restrita’ teve como consequência não-intencionada      a explicação dos resultados negativosde experimentos que visavam detetar efeitos do movimento do sistema de referência, sobre a velocidade de propagação da luz. Todavia, historicamente é inverídico que o ‘experimento de Michelson-Morley’, ou antes dele, as medidas de “aberração estelar”, tenham sido cruciais para derrubar a velha física. Há várias explicações para falhas em detetar o vento de éter, sem descartar a física clássica.

A teoria da relatividade restrita, de fato, foi motivada por um problema teórico: resolver uma inconsistência entre a mecânica e o eletromagnetismo. Os resultados negativos dos experimentos de Michelson-Morley apesar de justificados teoricamente pela teoria de Einstein, não foram cruciais para a “física clássica” e particularmente para Michelson, não se constituíram – basicamente … em uma definitiva refutação da “hipótese do éter”.

Teoria da “relatividade restrita” de Einstein e o “positivismo lógico”                      Positivismo designa várias doutrinas filosóficas caracterizadas pela valorização                    de um método empirista/quantitativo, tendo a experiência sensível como fonte                    do conhecimento, que recusa admitir valor cognitivo à “investigação filosófica”.

michelson-and-morleyA concepção empirista-indutiva da ciência, que ainda hoje se encontra fortemente disseminada…no ‘meio acadêmico’… – fundamentalmente concebe a “relatividade restrita” como uma resposta teórica correta e objetiva ao famoso “experimento de Michelson-Morley” (…de 1987).

Geralmente a divulgação de cunho mais popular da produção do conhecimento científico veicula um contexto de desenvolvimento linear e cumulativo fortalecendo ainda mais a proliferação da concepção empirista. Segundo argumenta o historiador da ciência Gerald Holton, o quadro eminentemente positivista em que se situam as ideias de Einstein — no começo do século passado … acabou fomentando uma forte ligação entre a sua teoria da relatividade restrita…e os experimentos de Michelson-Morley. – Em tais circunstâncias, parece inevitável que, na década seguinte ao trabalho de Einstein de 1905se desse uma união simbiótica didática — entre o… “enigmático experimento“… — e a “incrível teoria”.

O indubitável resultado dos experimentos de Michelson era visto como uma base experimental para a compreensão da…”relatividade“…que parecia contrária ao            próprio senso comum — mas, podendo fornecer uma explicação experimental do        resultado de Michelson de forma natural … ou ad-hoc, fundamentada na suposta contração de Lorentz…O que, com efeito, provou ser umcasamento duradouro“.

A vinculação didática da teoria da relatividade ao experimento de Michelson-Morley parece ter desempenhado à época, importante papel para sua aceitação por parte de cientistas, estudantes e público em geral. O próprio Einstein considerava isso; o que, porém, não promove o experimento a uma gênese da relatividade. Com efeito, em        seu famoso artigo de 1905… — Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, Einstein não faz qualquer menção ao experimento. Em sua 1ª frase, lê-se o seguinte:

“Como é sabido, a eletrodinâmica de Maxwell, tal como hoje se                    concebe – conduz, na sua aplicação a corpos em movimento, a                      ‘assimetrias‘… — que não parecem inerentes aos fenômenos”.

“Relatividade restrita” – a gênese da teoria                                                                      “A frase inicial explica a motivação para o artigo de 1905…Einstein foi levado                          à teoria da relatividade restrita, principalmente por motivos estéticosisto é,                    por argumentos de simplicidade”. (Abraham Pais, biógrafo de Einstein)

Sabemos agora que a ciência não pode se desenvolver apenas a partir do empirismo;        isso porque, em sua construção, precisamos de ‘invenções livres’, que só a posteriori    podem ser confrontada com a experiência…para se conhecer sua utilidade. Este fato      pode ter escapado às gerações anteriores … para as quais a “criação teórica” parecia desenvolver-se indutivamente – a partir do empirismo…sem a criativa influência de      uma livre construção de conceitos…Quanto mais primitivo fosse o estado da ciência,     mais rapidamente viveria o cientista… – a ilusão de ser um… – “empirista puro“.

Para Einstein, as bases axiomáticas da física não podem ser obtidas              a partir da experiência, pois nenhum caminho lógico pode conduzir,        das percepções – aos princípios de uma teoria, pois os fundamentos            de uma teoria científica são…livres criações…do espírito humano.

À luz dessa concepção epistemológica segundo o seu próprio idealizador … pode-se        então afirmar que a relatividade restrita não foi uma resposta teórica aos resultados negativos do ‘experimento de Michelson-Morley’…O projeto inicial de Einstein com a ‘teoria especial da relatividade‘ (1905), era o de criar uma mecânica, consistente    com o “eletromagnetismo“. Não obstante, com a implementação da relatividade      geral (1916) o conflito da relatividade restrita com a gravitação newtoniana fica então resolvido (nenhuma informação pode se propagar, com velocidade superior a da luz).

Ainda segundo Einstein, em suas Notas Autobiográficas‘, a gênese de sua relatividade restrita, achava-se em 2 vertentes diferentes: a) Ele percebera… ainda estudante… que surgem contradições, quando se aplicam as ‘transformações de Galileu’…a ‘fenômenos eletromagnéticos’…O experimento mental da perseguição do raio de luz é um exemplo disto…Imagine-se viajando junto a uma onda eletromagnética. Vê-se então um campo elétrico e um campo magnético – que variam no espaço… “senoidalmente”… mas, que      são constantes no tempo. — Entretanto, segundo as ‘equações de Maxwell(‘lei de Faraday’ e ‘lei de Ampére‘)…em relação ao vácuo não podem existir tais campos.

De fatoa teoria da relatividade restrita se originou das equações de                                  Maxwell do campo eletromagnético. Se o princípio da relatividade de                                Galileu for aplicado à esta eletrodinâmica – originam-se assimetrias                                  que não parecem ser inerentes aos fenômenos pois as “equações de                                  Maxwell” são ‘invariantes’…frente às “transformações de Lorentz”.

b) Einstein aceitou as críticas que Ernst Mach (1838-1916) então havia proposto à “mecânica clássica” em especial…às ideias do espaço e tempo absolutos. Ou seja, acreditava que a mecânica clássica tinha problemas insanáveis. Sua maior dificuldade era conciliar a ‘inexistência’ do movimento absoluto com estudos da eletrodinâmica. — Pensava ele…que talvez assim, fosse possível … entender melhor o alcance da “experiência de Michelson”…em função de sua teoria.

Embora tenha sido inegável a influência da filosofia positivista de Mach (concepção que eliminava todas as noções científicas não verificáveis, direta ou indiretamente, através da experiência sensível)…como Einstein ressaltou em suas…”Notas Autobiográficas” … mais tarde ele percebeu tais insuficiências. Isto é, Mach não chegou a reconhecer devidamente    a natureza essencialmente construtiva e especulativa de todo pensamento, sobretudo, do pensamento científico. A rejeição da hipótese atômica por Mach é seu melhor exemplo, pois ao não aceitar a presença dos “não observáveis” (átomos, moléculas, etc), condenou    pontos onde o caráter especulativo é indiscutível…tal como na “teoria cinética dos gases”. 

O espectro de emissão, e a teoria atômica de Bohr                                                          A explicação dos espectros de emissão por Bohr não foi adhoc,                                              isto é… sua teoria não foi criada com o objetivo de explicá-los.

Para Bohr, a análise espectral era uma evidência inconteste da estabilidade intrínseca      das configurações eletrônicas dos átomos. Por isso, ele considerava que a estabilidade macroscópica da matéria um reflexo de sua estabilidade em nível microscópico…Mas,    Bohr não via como compatibilizar a estrutura interna dos sistemas atômicos‘…com a        física clássica. — A analogia com a dinâmica do “sistema solar” é insustentável — pois quando um corpo desse sistema é perturbado — não há retorno a seu ‘estado original’.        Já o “átomo” de um elementoadmite grandes transformações (mudanças de estado      físico da matéria, por exemplo) permanecendo (em geral) o mesmo. – Por outro lado,      do ponto de vista da teoria eletromagnética…uma partícula carregada emite radiação.    Dessa maneira o átomo de Rutherford não poderia existir por mais do que 10e-9 s.

A chave para a solução de todo esse dilema está no…”quantum elementar de ação,              de Planck. Sua existência, a rigor, expressa uma nova faceta da individualidade dos processos físicosdesconhecida das leis clássicas da mecânica e eletromagnetismo,    restringindo a validade destas leis basicamente aos fenômenos que envolvem ações compatíveis ao coletivo de muitos quanta. — Estas condições, embora amplamente satisfeitas nos fenômenos da experiência física comum – não são – de modo algum aplicável ao comportamento dos elétrons nos átomos…onde — a rigor — somente a existência de um…”quantum de ação“…impede a fusão dos elétrons ao ‘núcleon‘,  gerando um ‘corpúsculo’ neutro massivo — de extensão praticamente infinitesimal.

É com Bohr, que o átomo de Rutherford é sujeito a novas — e nunca antes imaginadas condições, que o tornam ‘estável’. Os elementos precursores da revolucionária construção de Bohr, foram … o conceito de… “estado estacionário”  onde o “equilíbrio dinâmico” se faz…regido pelas leis da mecânica clássica; e o postulado da “quantização do momento angular”, usado para determinação desses estados. — A conservação da energia então…determinaria a relação entre a “energia (emitida ou absorvida), e a “frequência da radiação”, quando da passagem de um “estado estacionário”… a um outro “estado estacionário”. 

O reconhecimento dessa situação sugeriu a descrição da ligação de cada elétron no campo ao redor do núcleo por uma sucessão de processos individuais…pelos quais o átomo passa de um de seus chamados “estados estacionários” para outro desses estadoscom emissão de energia liberada sob a forma de um único quantum de ‘radiação eletromagnética’. Esse modelo, intimamente similar à exitosa interpretação einsteiniana do efeito fotoelétrico,  e, tão convincentemente corroborado pelas pesquisas de Franck e Hertz sobre a excitação das linhas espectrais pelo “salto” dos elétrons nos átomos com efeito … não só forneceu uma explicação imediata às intrigantes “leis gerais” das linhas espectrais – estudadas por Balmer, Rydberg e Ritz – como também, com o auxílio de provas espectroscópicas, levou gradativamente a uma classificação sistemática dos tipos de ligação estacionária, de todo  elétron num átomo – fornecendo completa explicação das relações … entre propriedades físicas e químicas dos elementos, tal como expressas na tabela periódica de Mendeleiev.

O “positivismo lógico” (em questão)                                                                                          “É a teoria que decide o que podemos observar”, diz Einstein a Heisenberg.

Não há dúvida que experimentos, observações, resultados de medidas são importantes para o conhecimento científico. Contudo, a relação empírica com a teoria é muito mais complexa do que assim se pode julgar. Estes resultados de observações e experimentos desempenharam um papel bem diferente daquele propugnado pelos lógico-empiristas,  nunca se constituindo numa “base indutiva” para se alcançar qualquer teoria. — Como consequência a produção do conhecimento científico não pode ser entendida por meio      de uma…”epistemologia empírica”, muito menos descrita (ad hoc) como consequência      da aplicação de um… – “método científico”… – a partir de seus próprios resultados.

imagesPor não conseguir reconhecer que os cientistas muitas vezes inventam e especulam, a ‘história empírica’ geralmente se cala sobre as ideias  que não se mostraram bem sucedidas. Apenas aquelas que logram sobreviver ao escrutínio    do tempo … merecem um lugar nesta história. Mas, por conseguinte como alguém que segue        o método científico poderia incorrer em erro?

Alguns filósofos da ciência do século 20…entre eles Gaston Bachelard (1884-1962) e Karl Popper (1902-1994), destacaram o ‘erro’ como um constituinte intrínseco ao processo de construção do “conhecimento científico” – considerando sua evolução pela retificação de seus erros. – Não por acaso, a epistemologia de Lakatos, é historicamente fundamentada numa metodologia contextual dos programas de pesquisa científica. – Nessa perspectiva, também deve-se notar…que Galileu – antes de chegar à proporcionalidade da velocidade com o tempo – num movimento retilíneo com aceleração constante, pensava existir uma proporcionalidade entre velocidade e distância para o mesmo movimento. E, quanto aos trabalhos de Bohr (1913), a ênfase empirista em relação ao modelo com séries de Balmer    e Rydberg…ao postular a não emissão de radiação pelo elétron em “estado estacionário”, desconsidera toda riqueza de uma construção teórica, se colocando em contradição com      o eletromagnetismo de Maxwell. E assim, o programa de pesquisa de Bohr entrou numa fase regressiva, caracterizada pelo atraso do crescimento teórico em relação ao empírico.

Do ponto de vista didático, a filosofia da ciência contemporânea abre imensas e ainda pouco exploradas vias…para uma interpretação mais realista e humana da história do saber científico. Em termos educacionais…na perspectiva de estratégias que busquem      uma mudança epistemológica em direção a uma concepção empirista compatível com        o fazer científico é fundamental a…contextualização histórica…do conhecimento.

Fernando Lang da Silveira Instituto de Física UFRGS (texto base) abr/2006

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Racionalismo x Empirismo…Imanência & Percepção

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