Racionalismo / Empirismo…Imanência & Percepção

“Podemos sempre provar que uma teoria está errada – mas, nunca sua certeza… – Assim, estamos sempre tentando provar nossos erros… pois   esta é a única forma de evoluir” (R. Feynman – ‘Sobre as leis da Física’)

 EMPIRISMO x RACIONALISMO 

A ideia de que todo conhecimento é proveniente da experiência aparece pela primeira vez, embora pouco definida – nos filósofos sofistas – que acreditavam na visão particular e relativista do mundo, sintetizada na máxima de Protágoras – ao definir o conhecimento do mundo pela experiência individual…

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Historicamente… — a doutrina do empirismo foi, pela 1ª vez explicitamente definida … pelo filósofo inglês John Locke, no século XVII.

Locke considerou que a mente seria, a princípio…um ‘quadro em branco’ (tabula rasa) sobre o qual é gravado o conhecimento – e, cuja base é a sensação… – Ou seja…todas as pessoas, ao nascer – o fazem sem saber de absolutamente nada… – sem qualquer impressão… sem conhecimento algum.

‘Todo o processo do conhecer – do saber… e do agir                                            é apreendido pela experiência…da tentativa e erro.’

A filosofia socrática de certa forma ofuscou o brilho original do empirismo. Ao combater o ‘relativismo’ dos sofistas… Sócrates e Platão viam os sentidos como – verdadeiramente – incapazes de apreender a realidade… – e tentaram racionalmente captar das coisas seus conceitos absolutos, num processo que converge na ‘teoria platônica do mundo das ideias‘.

O ‘empirismo assim, se opõe – desde o berço, à escola posteriormente conhecida como racionalismo, descendente das teorias platônica e pitagórica, segundo a qual o homem nasceria com certas ‘ideias inatas… – as quaisaflorando à consciência…passariam a constituir a ‘verdade absoluta’ acerca do Universo. A partir dessas ideias, o Homem teria   a possibilidade de compreender os fenômenos particulares…apresentados pelos sentidos.

‘Para o racionalismo – o conhecimento da verdade – ao                                 contrário do ‘empirismo’ … independe dos sentidos físicos’.

No século XVIII…George Berkeley desenvolve o ‘empirismo’ de Locke, porém – não admitindo a passagem do conhecimento… (pelos dados da experiência) …ao conceito abstrato de… — “substância material“…

Berkeley afirma que uma substância material não pode ser conhecida em si mesma…O que se conhece de fato, resume-se…às qualidades reveladas no processo perceptivo… Assim, tudo que existe nada mais é que um ‘feixe de sensações‘.

Com efeito, para fugir desse ‘subjetivismo individualista(pois tudo o que existe, somente existiria para a mente individual de cada observador)Berkeley postula a existência de uma mente cósmica universal — e, superior à mente dos homens. Deus é essa mente, e tudo o mais seria percebido por Ele…de modo que a existência         do mundo exterior à mente individual estaria garantida.

Apesar de sua existência, no entanto, o mundo seria impossível de ser verdadeiramente conhecido pelo homem, pois esse conhecimento só é acessível a Deus. Ao assumir esse empirismo radical, Berkeley cria a corrente conhecida como… ‘idealismo subjetivo‘.

Levando ainda mais adiante o pensamento de Berkeley… o escocês David Hume rejeita a ideia de ‘causalidade’, ao afirmar que – ‘só podemos conhecer aquilo que…imediatamente percebemos’. Para Hume o simples fato de um fenômeno ser sempre seguido de outro faz com que eles se relacionem entre si de tal forma, que um é encarado como causa do outro.

Causa e efeito…enquanto impressões sensíveis – não seriam mais do que um evento seguido de outro…Assim, a noção de causalidade seria uma criação humana – mera acumulação de hábitos desenvolvidos em resposta às ‘sensações‘… E a crença nessas verdades pretensamente inabaláveis, que dariam ao mundo uma aparência estável… – ‘mera ilusão‘.

Dessa forma, muitas das verdades científicas seriam apenas relações de ideias — impossíveis de se confirmar … pois não existiriam na realidade.

Muitos cientistas e filósofos consideram exagerado o empirismo de David Hume, que nega as verdades racionais obtidas a partir da observação. Mas seu pensamento serviu de alerta às pretensões de uma ciência exclusivamente empírica…sujeita aos impasses do idealismo.

Exageros à parte, graças à valorização das experiências e do conhecimento científico, o homem passou a buscar resultados práticos, buscando o domínio da natureza. A partir do empirismo surgiu a ‘metodologia científica’. (Empirismo e Teoria do Conhecimento)

LÓGICA & REVOLUÇÃO 

a) filosofia de Karl Poper           “A atividade científica não parte da observação, ou experimento; e sim, dos problemas”  ….  (Alberto Oliva)

De acordo com a teoria de Popper, por ele denominada… “teoria do holofote”… – a existência de um problema é o ponto de partida — para a aprendizagem; sendo que…as observações são secundárias às hipóteses, teorias, e… expectativas. E, é com essas hipóteses que… – “aprendemos que tipos de observações devemos fazer…para onde devemos dirigir nossa atenção – e, onde termos interesse…Elas são nossas guias que iluminam a realidade, nos indicando para aonde dirigir nossa atenção.”

Para Popper, o conhecimento humano cresce por um processo de tentativa e eliminação de erros… – “Desde uma ameba até Einstein … o crescimento do conhecimento é o mesmo – tentamos resolver problemas… e obter, por eliminação, algo que melhor se ajuste, em nossas soluções experimentais”.

Portanto, podemos dizer que o ‘método crítico‘ racional…consiste em deixar que nossas hipóteses morram, em vez de nós…A aquisição de um novo conhecimento sempre aparece  como resultado da modificação de conhecimentos prévios – e…é a ‘crítica racional‘, em oposição ao dogmatismo, que possibilita o avanço do conhecimento.

Nesse sentido, a função argumentativa da linguagem criou o que é, talvez, o mais poderoso ‘instrumento de adaptação biológica’ que já apareceu no curso da evolução orgânica. 

O conhecimento científico que sobrevive ao presente momento… até poderá – no futuro… ter que ser substituído por outro que melhor explique os fatos; contudo isto só acontecerá, se a pressão seletiva de nossa crítica aumentar… demonstrando que o conhecimento atual não está adaptado à realidade.

Na verdade, essa concepção epistemológica é muito antiga, remetendo a Platão, ou mais recentemente a Descartesentre outros. – Ela é conhecida na história da filosofia como intelectualismo, ou racionalismo. Contudo, contrariamente aos outros racionalistas, que acreditavam que o conhecimento assim produzido era indubitável, certo e verdadeiro, Popper enfatiza o caráter falível, e corrigível do mesmo. Destaca a necessidade da crítica, e a necessidade de confronto com a realidade das ciências empíricas.

Podemos assim dizer que o ‘racionalismo crítico‘ é fundamentalmente, uma atitude de disposição a ouvir argumentos críticos e aprender com a experiência, ou seja, uma atitude de admitir que…“eu posso estar errado, e vocês podem estar certos… e — por um esforço conjunto…podemos nos aproximar da verdade”.

Em suma, a atitude crítica racionalista é muito semelhante à crença de         que, na busca da verdade, precisamos da cooperação — e, com a ajuda     da argumentação, poderemos atingir algo… – como a “objetividade“.

b) Crítica ao ‘Historicismo’ e ao ‘Holismo’… em nome do ‘Evolucionismo’

piratePara o ‘historicismo‘… a função das ciências sociais deveria ser a de captar as ‘leis de evolução da história humana’ a fim de que se possa prever o seu desenvolvimento posterior.

Mas, Popper sustenta que tais profecias não têm nada a ver com as predições da ciência. E, sendo assim… — o historicismo só é capaz de profecias políticas ‘pretensiosas’… — não percebendo que:

I) Desdobramentos imprevistos da ciência impossibilitam tais exercícios proféticos;

II) A velha crença de que se pode captar a lei de desenvolvimento da história humana baseia-se em flagrante equívoco metodológico entre leis e tendências;

III) A história humana não tem nenhum sentido, exceto o sentido que nós lhe damos;

IV) Consequentemente, a história não nos justifica, mas nos julga.

Por outro lado… o ‘holismo‘ é a concepção…segundo a qual seria possível captar a totalidade de um objeto, de um acontecimento, de um grupo, ou de uma sociedade;            para, do ponto de vista prático – ou político…transformar tal totalidade. Contra tal concepção holística, Popper observa que:

i)  É grave erro metodológico pensar que podemos compreender a totalidade – até do menor e mais insignificante pedaço do mundo — visto que, todas as teorias captam, e não podem captar mais do que aspectos seletivos da realidade; sendo – por princípio, sempre falseáveis, e infinitas em número.

ii)  Do ponto de vista prático e operativo, o holismo se resume ao utopismo – no que       se refere à tecnologia social; e ao totalitarismo – no que se refere à prática política.

c) Construção, e validade do conhecimento científico                                   Teorias científicas não são sínteses de observações, mas sim conjecturas, que se  submetem ao crivo dos fatos; e são eliminadas, caso entrem em choque com eles.”   (Alberto Oliva)

Segundo Popper, o progresso da ciência se faz em 3 etapas…a colocação de um problema; a apresentação de soluções provisórias; e a tentativa de refutar essas conjecturas… — Essa concepção é radicalmente oposta ao ‘raciocínio indutivista‘…que se atém às etapas de observação; generalização dos resultados observados em leis, e confirmação de leis gerais.

“Todo conhecimento, em especial o científico vem da experiência individual;  e… sendo assim – não pode ser verificado por meio do raciocínio indutivo”.

Popper argumentou que a ‘teoria científica‘ será sempre conjectural e provisória. Não é possível confirmar a veracidade de uma teoria… pela simples constatação de que resultados de uma previsão efetuada com base nessa mesma teoria se verificaram. Esta, apenas gozará do estatuto de uma teorianão (ou, ainda não) contrariada pelos fatos.

O que a experiência, e as observações do mundo real…podem – e…devem tentar fazer… é encontrar provas da falsidade daquela teoria… Este aspecto é primordial para a definição de ciência; conforme sua própria definição…“Científico é apenas aquilo que se sujeita a este confronto direto com a realidade dos fatos… – ou seja…só é científica aquela teoria que possa ser falseável (refutável). Caso contrário, será…no máximo, uma especulação metafísica”.

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os “Pilares da Criação” – Hubble/NASA

d) filosofia (gestáltica) de Thomas Kuhn

Em 1963 — Thomas Kuhn publicou o livro…       ‘A estrutura das revoluções científicas‘, frisando que a formação da verdade científica     se dá através da aceitação de um…’sistema de teorias’, que Kuhn denominou ‘paradigma‘.

Em suma…postos diante de anomalias, cientistas perdem confiança na teoria que haviam abraçado – e essa perda se expressa no recurso à discussão filosófica sobre seus fundamentos, e metodologia.

Esses são os sintomas da crise, que cessa, quando, daquele período de pesquisa desarrazoada…que é a ‘ciência extraordinária‘… consegue emergir um novo paradigma, sobre o qual se articula novamente a ‘ciência normal‘, que – por seu turno… depois de um período de tempo…talvez, bastante longo – levará a novas anomalias…e, assim por diante.

Kuhn descreve essa passagem a novo paradigma (astronomia ptolomaica à copernicana… por exemplo) como uma ‘reorientação gestáltica… Quando abraça novo paradigma, a comunidade científica manipula o mesmo número de dados que antes… mas inserindo-os em relações diferentes…E assim, a passagem de um paradigma a outro é o que para Kuhn constitui uma ‘revolução científica‘.

Dessa maneira… – nos é apresentada uma concepção inteiramente original…acerca do conhecimento científico, e seu progresso. Contra uma ‘concepção evolucionista‘ da ciência é contraposta uma ‘revolucionária’. Negando possibilidade a um conhecimento linear (evolutivo) – toda pesquisa científica será sempre orientada por ‘paradigmas‘.

A emergência de um novo paradigma, provocada por meio de revoluções científicas, significa o abandono daquele que o precedia para o surgimento de uma nova tradição científica, chamada por Kuhn deciência normal‘.

Paul Feyerabend

Paul Feyerabend (1924-1994)

e) Críticas às Ideias de Thomas Khun

Paul Feyerabend “Nos anos de 1960 e 61, quando Kuhn era membro do departamento de filosofia da UCLA/Berkeley pude discutir com ele vários aspectos científicos.  –  Essas discussões me foram enormemente valiosas,   e — a partir de então … passei a olhar para a ciência de uma nova maneira.

Entretanto, enquanto tentava compreender  certos aspectos da ciência, para os quais ele me chamara a atenção, senti-me incapaz de concordar com sua ‘teoria da ciência‘…e, estava ainda menos preparado para aceitar     a ‘ideologia geral‘ – que supus constituir a base do seu pensamento…

… Parecia-me que essa ideologia só poderia proporcionar conforto ao mais presunçoso tipo de ‘especialismo’, pois tenderia a inibir o progresso do conhecimento…aumentando fatalmente, as ‘tendências anti-humanitárias’; uma característica tão inquietante de grande parte da ciência pós-newtoniana”.  

Todas as vezes que leio Kuhn, perturba-me a seguinte pergunta – estamos aqui diante de prescrições metodológicas que dizem ao cientista como há de proceder; ou diante de uma descrição… isenta de qualquer elemento avaliativo… – das atividades rotuladas de “científicas”?… Parece-me que os escritos de Kuhn não conduzem a uma resposta clara e direta…sendo ambíguos no sentido de que são compatíveis com ambas as interpretações, e… a ambas dão apoio. – Ora, essa ambiguidade… – de restringir críticas especulativas a um número reduzido de teorias ‘autocompreensivas’, criando assim uma ciência normal que as tenha por ‘paradigma’, tem tido um efeito definido e relevante sobre seus leitores.

Segundo Kuhn, a ‘ciência normal‘ é uma…pressuposição necessária das revoluções, exercendo efeitos de longo alcance…  –  não só sobre o conteúdo de nossas ideias… mas também sobre sua substancialidade…Tal atividade conduz a um rigoroso ajustamento entre teoria e realidade, precipitando o progresso“. O paradigma assim aceito orienta     o cientista, pois a natureza é tão complexa, que não pode ser estudada…nem no limite       do acaso.

Contudo, a tentativa de criar conhecimento necessita de orientação; não pode começar do nada… mais especificamente – necessita de uma teoria; um ponto de vista que permita ao pesquisador separar o relevante, do irrelevante… e, lhe mostre as áreas em que a pesquisa será mais proveitosa.

A fim de obter essa resposta precisamos de mais do que de uma coleção de fatos reunidos a esmo… (mas, também precisamos de mais do que de uma discussão interminável de ideologias divergentes) … O que precisamos, de fato, é a aceitação de uma teoria, e a tentativa – inexorável – de ajustar a natureza ao seu padrão.

A defesa de Kuhn é aceitável, contanto que as revoluções sejam desejáveis, e que o modo particular com que a ciência normal conduz às revoluções também seja desejável. – Ora, só não vejo como a ‘desejabilidade‘ das revoluções … possa ser estabelecida por Kuhn. 

“As revoluções ocasionam uma mudança de paradigma”… seguindo porém, o relato feito por Kuhn dessa mudança – ou ‘transferência de gestalt’como ele assim denomina, é impossível dizer que elas conduzam, necessariamente a algo melhor… pois os paradigmas pré e pós-revolucionários são – frequentemente… incomensuráveis.

Ora, se a ‘ciência normal’ é de fato tão monolítica quanto o quer Kuhn, de onde vêm as teorias concorrentes?… E, se estas efetivamente surgem, por   que haveria Kuhn de levá-las a sério… – permitindo que provoquem uma mudança do estilo argumentativo científico (solução de enigmas), para     o filosófico (escolha de paradigma)?

Lembro-me muito bem de Kuhn criticar David Bohm (ver “Interpretação de Bohm“) por este haver perturbado a uniformidade da ‘teoria quântica contemporânea’. Einstein, por seu lado, teve permissão para tal… (talvez por sua teoria estar mais bem entrincheirada  que a de Bohm). Tudo isso nos conduz à questão derradeira, a saber, à suspeita de que a ciência normal ou ‘madura’…tal como descrita por Kuhn, não é sequer um fato histórico.

Imre-Lakatos (1922-1974)

TENACIDADE x PROLIFERAÇÃO        “O compromisso cego com uma teoria não é uma virtude intelectual… – mas, um crime.”

Imre Lakatos (1922-1974) – foi importante filósofo da matemática e ciência, mesmo não sendo muito conhecido. – Sua epistemologia baseava-se na “Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica”… — a qual pretendia usar como explicação lógica para o trabalho científico … conforme a ‘História da Ciência’.

Na verdade – para ele, apenas poderia ser considerado ciência uma metodologia que pudesse ser falseada e, aprimorada… para gerar uma nova metodologia.

Lakatos denominou “estrutura fina da transição” ao conjunto de elementos capaz de nos revelar situações as quais não desejamos tolerar… Tais elementos nos forçariam – a priori, a considerar maneiras diferentes de provocar uma revolução… — Dessa forma, é perfeitamente possível abandonar um paradigma por efeito da frustração  –  e, não por argumentos contrários. (Aqui, com efeito, lidamos com um problema metodológico.)

a) Considerações de Lakatos sobre temas de Kuhn

Ciências Auxiliares –  O que conta… e, o que não conta… – como evidência relevante, geralmente depende da teoria…bem como de outros temas, que podem ser denominados “ciências auxiliares (teorias que servem como ‘pedra de toque’na acertada expressão de Lakatos)… – Tais ciências auxiliares podem funcionar como ‘premissas adicionais’ na derivação de ‘enunciados testáveis’… – como também… contaminar a própria linguagem prática… fornecendo conceitos, em cujos termos se expressam resultados experimentais.

Princípio da Tenacidade Teorias básicas e assuntos auxiliares estão muitas vezes em desacordo. Em decorrência disso, obtemos instâncias refutadoras que não indicam se uma nova teoria está fadada ao fracasso…mas, apenas que não se ajusta, por enquanto, ao resto da ciência. Sendo esse o caso, os cientistas devem desenvolver métodos que lhes permitam reter suas teorias em face de fatos refutadores…evidentes e sem ambiguidades – ainda que não sejam eminentes explicações testáveis. 

O princípio da tenacidade é um primeiro passo na construção de tais métodos.  Diferentes pesquisadores estão sujeitos a cometer erros diferentes; e é preciso, geralmente, que se passe um longo tempo, antes que todas experiências sejam     reduzidas a um denominador comum.

Princípio da ProliferaçãoTendo adotado a ‘tenacidade’, já não podemos empregar fatos recalcitrantes para remover uma teoria, ainda que estes sejam tão evidentes e diretos quanto a própria luz do dia. – Daí que… sendo nossa finalidade a mudança de paradigmas, devemos estar preparados para introduzir, e expressar alternativas à essa teoria – ou seja, precisamos estar preparados para aceitar um ‘princípio de proliferação’.  

Proceder de acordo com esse princípio é um “método racional de precipitar revoluções“; mas, será este o método que a ciência realmente usa? Ou cientistas se mantêm fiéis aos seus paradigmas até o fim?… E, o que será que acontece ao fim de um período normal?  

Thomas Kuhn (1922-1996)

Thomas Kuhn
(1922-1996)

b) Recapitulando Kuhn

Relembremos o que – até aqui… deduzimos ter sido afirmado por Kuhn. Inicialmente que as teorias não podem ser refutadas… — a não ser… com a ajuda de alternativas. A seguir – afiançou que a ‘proliferação’  também desempenha papel histórico… na ‘quebra de paradigmas‘…“estes têm sido derrubados pela forma com que estas ‘alternativas’ têm ampliado as anomalias existentes”.

Finalmente, Kuhn mostrou que as anomalias existem em qualquer ponto da história de um paradigma…A ideia de que as teorias são inatacáveis, por décadas, e, mesmo durante séculos … até surgir uma grande refutação que as derrube … não passa de um mito”.

Ora, se isso é verdade… por que não damos início imediatamente à  ‘proliferação’, e nunca permitimos que uma ‘ciência normal’ (…pressuposição necessária das revoluções) venha a existir? Será excesso de otimismo esperar que períodos normais…se alguma vez existiram, não tenham durado por um longo tempo; e, tampouco, se estendido por campos extensos?

Um rápido olhar dirigido ao último século, mostra que este parece ter sido, efetivamente o caso… – No 2º terço deste século existiam… – pelo menos 3 paradigmas diferentes… – e… “mutuamente incompatíveis”… – São eles…

(1) o ponto de vista mecânico – que encontrou expressão na astronomia, na teoria cinética, nos vários modelos mecânicos da eletrodinâmica; assim como nas ciências biológicas (Helmholtz);

(2) o ponto de vista ligado à uma ‘teoria do calor‘ independente e fenomenológica (termodinâmica)  –  que,  afinal…  se revelou incompatível com a mecânica;

(3) o ponto de vista implícito na eletrodinâmica de Faraday e Maxwell,                         desenvolvido e libertado dos seus ‘concomitantes mecânicos’ por… Hertz.

Esses diferentes paradigmas estavam longe de ser ‘quase independentes’. Com efeito,       foi a ativa interação deles… que acarretou na futura ‘obsolescência‘ da ‘física clássica’. 

As dificuldades que levaram à teoria especial da relatividade … não surgiriam sem a tensão que existia entre a teoria de Maxwell de um lado, e a mecânica de Newton, de outro…Em mais um exemplo, pesquisas que prepararam o terreno da descoberta do quantum de ação’, juntaram disciplinas incompatíveis – ou, até incomensuráveis… como a ‘mecânica cinética’ (usada na derivação de Wien da sua ‘lei da radiação’), a ‘termodinâmica’ (o princípio da igual distribuição de energia, por todos os graus de liberdade, de Boltzmann), e a ‘ótica ondulatória’…e elas teriam sofrido um colapso, houvesse sido a ‘quase independência’ desses assuntos, respeitada por todos cientistas.

c) Em defesa do Hedonismo

Podemos concluir assim…que a interação entre ‘tenacidade e ‘proliferação que descrevemos em nosso pequeno ‘conto de fadas metodológico‘ se trata também… de um traço essencial do desenvolvimento da ciência… Ou seja…não seria a atividade da solução de problemas…a responsável pelo crescimento do nosso conhecimento; mas, uma ativa interação de várias concepções, sustentadas com… ‘tenacidade‘.

Além disso… a invenção de novas ideias, e a tentativa de assegurar-lhes um lugar digno na competição, conduzem inevitavelmente, à queda de velhos e conhecidos paradigmas. Essa atividade inventiva ocorre o tempo todo…mas só ganha atenção… – durante as revoluções.

Nessa mudança de atenção, não se reflete nenhuma mudança estrutural profunda… apenas mudança de interesse e publicidade. Elas enobrecem   seu objeto… – mas, também… o afastam do terreno da discussão crítica.

Entretanto…por que haveria a existência desse “produto do engenho humano” de impedir-nos de formular essa, que é a pergunta mais importante de todas… – Até quanto aumentou a felicidade dos seres humanos?… – Afigura-se que a felicidade, e o pleno desenvolvimento de um ser humano é … como sempre foi seu valor mais elevado… – Com base nesse valor… desejamos um conjunto de metas – que nos permitam perder o mínimo possível … de tudo que somos capazes de fazer… – e nos obriguem, o mínimo possível a desviar-nos de nossas implicações naturais… – Estaremos assim… de ‘pleno acordo‘ com nossos maiores desejos.

Dessa forma, ‘proliferação’ agora significa que não há necessidade de suprimir nem o mais estranho produto do cérebro humano… – Todos podem seguir suas inclinações, e a ciência – concebida como um ‘empreendimento crítico’… aproveitará essa oportunidade. Tenacidade, por sua vez… passa a significar um estímulo à pessoa, não apenas seguir suas inclinações, mas também… com a ajuda crítica, erguê-las a um nível mais elevado de expressão, e consciência.

E assim…a interação ‘proliferação/tenacidade’ importa na continuação de um novo nível do desenvolvimento biológico da espécie — podendo mesmo ser o único meio possível de tentar impedir sua mais completa estagnação.

d) Modelo da mudança científica de Lakatos

No livro

Neste livro de 1978, Lakatos procura dar continuação às ideias de seu livro anterior, relacionando matemática e filosofia científica, bem como História da Ciência, aos conceitos da metodologia dos programas de pesquisa. Além disto, comenta também os critérios de demarcação da pseudociência com relação à ciência real. (resumo bibliográfico)

Apresento agora, a imagem da ciência que no meu ver… representa a síntese da relação citada acima. Contém a descoberta de Popper… de que a ciência avança pela ‘discussão crítica‘ de vias alternativas, bem como a ideia de Kuhn…da função tenacidade; expressa erroneamente, ao postular sua existência periódica… – A ‘síntese consiste na afirmação de Lakatos (em seus comentários sobre Kuhn)… – de que…proliferação e tenacidade não pertencem a períodos sucessivos da história da ciência — pois estão sempre co-presentes.”

Portanto, de acordo com Lakatos… pode-se concluir que a ciência não possui um método objetivo e seguro de ser feita… pois o próprio método…é uma variação de uma outra forma  antiga de se fazer.

As teorias consistentes aos métodos científicos  não são isentas de erros… o que vai influenciar na descoberta de ‘evidências‘ que falseiem as teorias, sem chegar, no entanto, a modificá-las … e sim as fazendo evoluir – como assim demostra Lakatos.

Além do mais, a ‘história da ciência‘ é também a dos ‘programas em concorrência‘… As chamadas “Revoluções Científicas” são feitas… na verdade, por um modo racional de superação… – de um programa por outro.

Lakatos concorda com Popper na crença de que a ciência procura aumentar o conteúdo empírico e preditivo de suas teorias…e que esse aumento não deve ser degenerativo. Ao contrário de Kuhn – que considera a revolução científica como um ‘processo irracional’, Lakatos afirma que a passagem de um programa de pesquisa para outro é um ‘processo racional’…

‘A superação de um programa de pesquisa ocorre quando um programa rival possui maior conteúdo progressivamente preditivo, ou seja, prediz tudo que o programa confrontado prediz – e…algo mais’…  (texto base)  ********************************************************************

“Como detetives investigando a realidade, somos livres para usar todo tipo de pista. Mas como juízes tentando verificar se uma teoria…de fato, descreve a realidade… precisamos testá-la empiricamente… – Isto… é o que torna a ciência bem sucedida”.  (Carlos Rovelli) ^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^(texto complementar)^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

O INFINITO TRANSCENDENTE                                                                                          O conhecimento que a geometria almeja é o do eterno… – e não do perecível e efêmero; assim, ela cria o espírito da filosofia, elevando a alma até à verdade – erguendo para o alto, o que tem uma infeliz tendência a cair.” [Platão, ‘A República’ (Sócrates e Glauco)]

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A descoberta dos “incomensuráveis”, por Pitágoras gerou – além da ruína total de sua escola, uma grande reviravolta na ordenação matemática do Cosmos…e no modelo do ‘universo grego. Isto ocorreu ao a ‘incomensurabilidade’ dar lugar ao infinitoe as civilizações antigas não sabiam ainda lidar com este conceito.

Buscando uma nova compreensão do mundo na qual o infinito pudesse ser desprezado, Parmênides passou a distinguir … aquilo que era objeto puramente da razão… o que chamou de ‘verdade‘ – daquilo que era dado pela ‘observação dos sentidos – que denominou opinião. A partir desta oposição entre a razão e a opinião – feita na época   por Parmênides, que teve início – historicamente…o grande debate sobre a verdadeira fonte do conhecimento, que ainda hoje repercute no meio científico:

As relações entre razão e experiência – entre teoria                                             e prática – assim como… idealismo e materialismo.

Ao ‘existente’… comprovado através da razão… – Parmênides reconhece as seguintes características… – unidade, homogeneidade, continuidade, imobilidade e eternidade (relegando ao que é dado pela opinião, todos os outros atributos contrários). A partir dessas concepções, e do fenômeno da ‘incomensurabilidade’, Zenão de Eléa postula           a “impossibilidade do movimento” – ou seja … a ocorrência da incomensurabilidade implicando o infinito…o que, paradoxalmente, implicava também na ‘imobilidade‘.

Por outro lado, Heráclito…contemporâneo de Parmênides, afirmava que tudo no Universo é movimento, nada permanece imóvel – tudo muda, se transforma.

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Atrelados ainda à concepção materialista do Cosmos — os esquemas de Parmênides – e Heráclito… não conseguiram explicar o sensível através do sensível… (o material através do material),  o que provocou grande perplexidade entre os gregos…no que diz respeito à sua “concepção do Universo”.

Platão, finalmente, revoluciona tudo: enfrentando o problema da realidade e aparência; da unidade ou pluralidade do ser, e partindo da teoria do Eleata (Parmênides), consegue dar novo rumo à questão da inteligibilidade do universo, pela “imaterialidade do supra-sensível“… Dessa forma, estabelece a existência de 2 ‘planos do ser‘ – um fenomênico, visível – e outro, invisível…captável apenas mentalmente…puramente inteligível. Com isso…com a distinção entre esses 2 planos – o sensível e o inteligível… – a antítese entre Parmênides e Heráclito foi superada definitivamente… – o que significava que:

‘A verdadeira causa que explica tudo não é algo sensível…mas inteligível‘… Platão chamou essa causa de natureza não física de ‘Ideia’ que (…literalmente) significa ‘forma’.

A ciência e a filosofia na Grécia – lendo na cartilha de Platão, impuseram-se então…no transcurso do século V para IV a.C, duas limitações fundamentais – a rejeição do devir como base de uma explicação racional do mundo… e, a rejeição do manual e mecânico, para além do domínio cultural.

Estas 2 limitações vão pesar duramente sobre a possibilidade da construção científica do ‘Cosmos’ pelos povos gregos…pois, além da matemática – que banindo o infinito de seus estudos, impossibilitou o tratamento dos ‘sistemas dinâmicos de movimento’, também a física, ao banir a experiência sensível de sua metodologia, fez impossível um tratamento objetivo e preciso do devir.

Na matemática grega, a ausência da ideia do infinito gerou ainda a total geometrização de seus fundamentos; prova disso é a obra Os Elementos.

noite estrelada

Com efeito… é óbvio que o motivo do desprezo dos gregos pela experiência estava na sua falta de habilidade em tratar com o infinito… — daí… como consequência…sua incapacidade em desenvolver a ‘ciência física’.

Somente com Galileu… introduzindo o ‘método científico’, e com Newton, que criou o cálculo infinitesimal’ … se torna possível obter um adequado tratamento científico aos ‘processos infinitos‘…e, consequentemente… aos ‘sistemas dinâmicos‘.

Atualmente… – a física moderna enfrenta grande dificuldade na construção de uma teoria que consiga combinar “gravidade com mecânica quântica. Nesta empreitada, o infinito é ‘grande vilão’.

Os cálculos das ‘flutuações do estado fundamental’ (menos energético) – nos campos de Maxwell… e no de elétrons, tornam, aparentemente, massa e carga do elétron infinitas;   contrariando as observações. No enfrentamento do problema, a física passou a utilizar vários tipos de simetria… — a fim de cancelar os infinitos resultantes dessas flutuações.

Assim, é surpreendente constatarmos que esse problema com o infinito – o mesmo que obrigou os antigos gregos a revolucionar sua abordagem do Universo, também é hoje, fundamental na ‘teoria da grande unificação’; e deverá novamente, obrigar o Homem     a mudar radicalmente suas ideias do Universo… bem como, sobre seu próprio mundo.

‘Lógica e Revolução’ # ‘Infinito e a Pesquisa Científica’ ‘Filosofia e Apologética’ # ‘Paradoxos do Infinito’  ********************************************************************************************************

Intuicionismo & Formalismo

Sobre quais fundamentos está baseada a convicção de uma exatidão incontestável das leis matemáticas – tem sido, por séculos, objeto de investigação filosófica;  e, 2 pontos de vista podem ser distinguidos:  O ‘intuicionismo’ (predominantemente francês), e o ‘formalismo’ (predominantemente alemão).

Em muitos aspectos estas 2 vertentes têm se tornado, mais e mais opostas entre si – mas recentemente, passaram a concordar num aspecto…sobre a validade exata das leis matemáticas – como leis da natureza.

Já a questão sobre a existência da exatidão matemática é respondida de maneira diversa pelos 2 lados; o intuicionista diz… no intelecto humano; já o formalista afirma…no papel.

Em Kant — temos uma antiga forma de intuicionismo‘… hoje, quase totalmente   abandonada – na qual tempo e espaço são considerados como formas de concepção inerentes à razão humana. Para ele, os axiomas da aritmética e geometria são juízos sintéticos a priori, independentes da experiência, e não suscetíveis de demonstração analítica. Refutar a possibilidade de tais leis, experimentalmente, seria inconcebível.

Diametralmente oposto, é o enfoque do ‘formalismo‘… — o qual mantém, por exemplo que a razão humana não tem à sua disposição imagens exatas de linhas retas… e – por conseguinte…tais objetos geométricos não possuem existência em nossa concepção de natureza – mais do que, na própria natureza.

Para os formalistas … a exatidão consiste, simplesmente, no método de desenvolver ‘séries de relações’ – sendo independente do “significado” que possamos atribuir, a tais relações, ou aos objetos relacionados – formando assim, o que se denomina ‘lógica simbólica.

Enquanto os intuicionistas aderiam à teoria de Kant… parecia que o desenvolvimento da matemática – no século XIX – os colocava numa posição cada vez mais fraca, com respeito aos formalistas… E, sobre isso, o mais sério golpe para a teoria kantiana foi a descoberta da ‘geometria não-euclidiana‘… — uma consistente teoria, desenvolvida a partir de um conjunto de axiomas – diferindo da geometria elementar euclidiana, apenas em relação ao ‘axioma das paralelas‘ (substituído por sua negação).

Quão fraca parecesse ser a posição intuicionista – após este período de desenvolvimento matemático, recobrou forças…abandonando o apriorismo espacial kantiano – ao mesmo tempo que, aderindo de maneira resoluta ao ‘absolutismo temporal‘ em juízos sintéticos   a priori… Além disso, em relação à ‘teoria dos conjuntos’…reconhece (apenas) conjuntos enumeráveis…  —  conjuntos cujos elementos possam ser colocados em correspondência biunívoca com os elementos de um número ordinal finito ou com aqueles de um número ordinal transfinito. (do livro ‘Lógica e fundamentos da matemática’, Carnielli & Epstein)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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Uma resposta para Racionalismo / Empirismo…Imanência & Percepção

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