“Falsa neutralidade” & “Desenvolvimento sustentável”

“A tecnologia é facilmente controlada pela indústria e governo. — Mas a ‘ciência pura’…a ciência pela ciência…enquanto curiosidade — que pode levar a qualquer lugar… e deafiar qualquer coisa, essa é outra história”. (Carl Sagan, “O mundo assombrado por Demônios”)

image_preview“Tudo que conhecemos sobre a Natureza está no mesmo barco…para afundar…ou, navegar junto” (Alfred North Whitehead)

Ciência e tecnologia estão longe de ser “politicamente neutras” — e…as novas descobertas — necessariamente … não correspondem a “progressos”… para a sociedade … – segundo o professor da ‘Universidade de Quilmes’, Argentina.

Muito embora – para Fernando Tula Molina…façam parte do ‘senso comum’, as noções de “neutralidade científica“…e “determinismo tecnológico” – representam um obstáculo para uma…”ciência democrática”…capaz de desenvolver a sociedade. – Ideias como esta, foram expostas por Molina entre agosto e dezembro de 2008, no 15º Seminário Internacional de Filosofia e História da Ciência…realizado pelo “Instituto de Estudos Avançados” da “USP”.

Doutor em filosofia pela “Universidade de Buenos Aires”, Molina abordou o tema “Controle, rumo e legitimidade das práticas científicas”…Para avaliar as implicações científicas e sociais das práticas tecnológicas o professor propõe uma      distinção entre “eficácia”, e “legitimidade” dessas práticas… buscando elementos conceituais para a justa compreensão das origens culturais dessa distinção… e da complexidade dos diferentes atores envolvidos…De acordo com o próprio Molina:

“Essa compreensão abrirá caminhos… que levem ao acordo requerido por                        políticas científicas, nos espaços de diálogo das instituições democráticas”.

Agência FAPESPUma das ideias centrais, desenvolvidas pelo senhor durante o seminário realizado no mês passado em São Paulo é a de que a ciência não pode ser dissociada da política… De que maneira então essa questão foi tratada nos debates?

Fernando Tula Molina – As discussões tiveram origem num Projeto Temático apoiado pela FAPESP… dirigido pelo professor Pablo Mariconda, do Grupo de Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do IEA, responsável pelo seminário. — Esse projeto discute gênese e significados da tecnociência, envolvendo questões históricas, filosóficas e sociológicas… – mas, no fundo…tudo está virando uma área importante…ligada à política. Tentamos problematizar 2 ideias hoje muito fortes em nossa cultura… – a neutralidade da ciência,determinismo tecnológico. Essas 2 noções estabelecem no ‘imaginário popular’ uma ideia de que a ciência é neutra, desprovida de política…quando, na verdade,  a ciência – e, sobretudo, a tecnologia – têm muita política.

george orwell

Como esse aspecto político se manifesta?

Molina – Uma das linhas que está sendo desenvolvida, é que essa política pode ser vista com clareza – por exemplo…no dito ‘código técnico‘…Esse gravador digital que você está utilizando… – por exemplo, possui um design que encerra em si todo  contexto de sua concepção…e está ligado a determinadas estratégias… que representam interesses – no caso de uma sociedade capitalista…interesses corporativos… que têm a ver com o “consumismo tecnológico”.        O projeto do gravador já prevê quando ele sairá de linha…isto é, carrega consigo uma estratégia de obsolescência programada. Para que você consuma mais…é preciso que          na sua cabeça a aquisição de novos ‘produtos tecnológicos’…seja entendida como um progresso. Você acredita que é melhor com um aparelho moderno de última geração.    Mas, eventualmente aparelhos mais antigos tinham mais qualidade. – Isso é política.

Agência FAPESPEssa é a ideia do determinismo tecnológico? Uma crença de que o produto que acaba de ser lançado é necessariamente melhor, mais eficiente e desejável?

Molina – Sim. É uma estratégia de consumo que se baseia na novidade. – O produto é um bem cultural que se vale do valor simbólico que tem a ‘eficácia‘ na nossa cultura, levando a pessoa a pensar na ‘falácia‘ de que os produtos desenvolvidos atualmente são os melhores. O seminário teve portanto a tarefa central de instalar uma discussão, e conscientizar sobre alguns erros comuns. Muitos desses erros, como o “individualismo”, têm origem filosófica.

FAPESPComo o individualismo é tratado nessa discussão?

Molina – Quando a lógica predominante é a de que alguém só consegue ganhar quando os demais perdem… – o resultado é que as pessoas passam a achar que podem ser livres, apenas de ‘portas fechadas’. – O que gostaríamos de opor a essa ideia individualista…é a possibilidade de pensar que ainda hoje, apesar das desigualdades capitalistas…podemos aprender a nos organizar de um jeito diferente, e reaprender a conviver… A ‘convivência’    é o ponto central da política – num sentido muito antigo… – do qual já falava Sócrates…

“Como todos atores… tão diferentes, podem conseguir felicidade e                                        plenitude, no espaço restrito da pólis?”… A ideia democrática que                                        está por trás desse seminário é mais profunda que uma noção de                                        igualdade… Na verdade, é a ideia de que somos todos diferentes.

determinismo-tecnolgico.jpgFAPESPQual o efeito desse contexto, dominado pelo ‘individualismo’, sobre o desenvolvimento tecnológico/científico?

MolinaFalando do conjunto ciência e tecnologia (tecnociência) se as pessoas acreditam que o investimento em ciência e tecnologia leva…’automaticamente’ – o país a crescer… melhorando assim a vida da população… – temos odeterminismo tecnológico… – Então, como o resultado seria necessariamente bom para todos – o investimento poderia ser feito … sem a preocupação maior com a “coletividade”, dentro de um… “contexto individualista”.

FAPESPEntão, sem a participação da coletividade, nas decisões científicas e tecnológicas, os avanços do conhecimento não chegam a beneficiar a sociedade?

Molina… Acho que é por isso que temos que combater o ‘determinismo tecnológico’. Por essa lógica, o investimento não volta diretamente à população, mas para as ‘corporações’.  Os investimentos públicos formam técnicos… especialistas… e recursos humanos…para a universidade…e para o sistema tecnológico. Contudo, essas pessoas poderão desenvolver tecnologias que melhorem as corporações – não necessariamente o país. Assim, se nossa sociedade tem base tecnológica e capitalista… mesmo que se possa desenvolver a melhor tecnologia… – ela irá se limitar a desenvolver tecnologia com um melhor custo-benefício. Tudo o que está envolvido nessa tecnologia, será avaliado do ponto de vista quantitativo, porque estará orientado pela “produtividade“…Incluindo as relações com trabalhadores.

Esse tipo de modelo tecnológico tenderia então a agravar o quadro de “exclusão social”?

Molina – Acredito que sim…A tecnologia orientada pela ‘produtividade’ só é acessível a quem tem determinado poder de consumo…As distâncias sociais que deveriam diminuir por conta da tecnologia…começam a crescer. O aumento das diferenças sociais, agrava a violência. Enfim, a tecnologia que poderia realizar a inclusão, acaba fazendo o contrário.

Tecnologias sociais seriam um possível modo de contornar esses problemas?

Molina – O Brasil tem uma rede muito boa de tecnologia social… com 700 organizações – a maioria não-governamentais, sendo 400 muito ativas. Todas pensam em confrontar essa ideia da “tecnologia capitalista” associada à corporação. – Nesse modelo fundamentado na produtividade, não se pode acessar o conhecimento – que deve ser patenteado… O usuário não é dono do meio onde essa tecnologia vai se produzir – e não se pode decidir para onde vai o benefício do desenvolvimento.

Essas tecnologias teriam então mais legitimidade?

Molina – Tecnologias sociais têm papel importante na democratização do conhecimento, mas elas não chegam a garantir a legitimidade da forma como a entendemos… – É preciso distingui-la da eficácia. A tecnociência tem eficácia…mas não tem legitimidade social. Esses 2 conceitos, muitas vezes, são confundidos no próprio discurso do desenvolvimento tecnológico; que está baseado na ideia de “controle“. Mas, uma coisa é poder controlar a matéria ou a partícula (como pode a nanotecnologia…no espaço e no tempo)… — Esse é o “controle científico”…que é necessário, e desejável… Mas, não suficiente. – Outra coisa…é poder dar legitimidade a esse controle.

E como dar mais legitimidade ao controle das práticas científicas?

Molina – Para mim, a legitimidade não está no conteúdo das decisões sobre os rumos tecnológicos, mas no jeito como essas decisões são tomadas. Se a decisão foi tomada de maneira coletiva e democrática, e daí gerou os rumos e decisões – isso a legitima…”não pelo conteúdo, mas pela forma coletiva“…O que temos que pensar é quais são os atores      em cada âmbito que deveriam participar democraticamente, sendo reconhecidos como diferentes e igualmente importantes no rumo mais democrático da enorme capacidade tecnológica que já temos. Mas se não conseguimos emprestar um ‘caráter democrático’, então esse rumo será tecnocrático e corporativo. É nossa responsabilidade… A palavra-chave é “participação“.

E há propostas para melhorar essa participação?

Molina – O ‘controle tecnológico’ – voltado para o controle da matéria… no espaço e no tempo – não tem… em si, nenhuma legitimidade. – Propomos 2 novos eixos para pensar essa legitimidade – o ‘tempo da educação‘… e o ‘espaço da participação política‘.  Para melhorar essa participação, temos que gerar um espaço de protagonismo social em que os outros atores possam interagir com os cientistas…O especialista tem uma função consultiva importante de indicar possibilidades…mas não a prerrogativa de ditar rumos. Isso daria ao leigo a possibilidade democrática de decidir o futuro… – Mas não acontece.

paulfreire

FAPESPE quanto ao tempo assim destinado à educação?…

Molina – Levamos tempo … para educar alguém a se tornar “crítico” com a tecnologia e a compreender sua própria capacidade de decisão, e autonomia de criatividade…Essa é a dimensão do tempo educacional. Temos de introduzir essa discussão na escola de base, porque lá, crianças já têm celular, videogames, e tantas outras possibilidades tecnológicas.  Seria importante começar a combater cedo a ideia introjetada, de que a ciência é apolítica. Ao superar as ideias de neutralidade, e determinismo do desenvolvimento tecnocientífico, só restará a possibilidade do desenvolvimento democrático… – com “participação cidadã”.

Ainda estamos muito distantes da formação desse cidadão crítico?

Molina – Talvez nem tanto… Podemos pensar no que aconteceu com a ‘cultura ecológica’. As crianças e as novas gerações já colocam o problema ecológico de forma mais prioritária. Isso ocorreu entre outras causas, porque a ecologia começou a ser apresentada às crianças de forma muito forte, desde a “escola primária“… – Acho que poderia acontecer o mesmo com o “problema tecnológico“. — Para isso temos que começar a refletir com mais clareza sobre…’lixo tecnológico’, ‘obsolescência planejada’, ‘qualidade e durabilidade tecnológica’; tecnologias sustentáveis para o futuro, adequadas aos problemas do consumo em massa… e tecnologias customizadas, que nos impõem uma única solução para variados problemas.

Fábio de Castro texto base (jan/2009) p/consulta: (Relação entre cientistas e jornalistas)    *********************************************************************************

“Desenvolvimento sustentável”(O conceito em debate) 

O “desenvolvimento sustentável”  é comumente definido — como a possibilidade de se preservar um crescimento econômico — com a conservação simultânea, de seus ‘recursos naturais’…Tal conceito de desenvolvimento sustentável, embora questionado por muitos especialistas da ‘área ambiental’, foi elaborado em 1983…durante os debates sobre meio ambiente  e… desenvolvimento – na ONU.

Trata-se de uma perspectiva de ‘conservação’ dos elementos da natureza … com a preocupação latente de manter a busca pelo atendimento das necessidades básicas da população mundial.

O debate sobre a questão da sustentabilidade em todo mundo está diretamente ligado à forma com que os diferentes países se desenvolveram. Diante desse panorama, há duas necessidades principais a serem atendidas… a) diminuir o elevado nível de consumo, e exploração selvagem de recursos naturais por países ricos – extremamente devastador;
b) garantir que os países pobres também se modernizem, mas sem atingir os níveis de agressão ao ambiente – promovidos pelas principais potências econômicas do planeta.

O sistema capitalista precisa, de alguma forma, frear a busca incessante pelo lucro… sem medição de consequências, e para isso é preciso haver uma gestão ambiental para conter    a exploração dos recursos, e manter um nível econômico socialmente justo, uma vez que    a proliferação da pobreza, e desigualdade – também pode ser considerada um problema para a contenção da poluição…e, do uso indiscriminado dos meios naturais. (texto base) **********************************************************************************

Desenvolvimento sustentável…é possível no capitalismo?                                          “Se em seus primórdios o movimento ambientalista era crítico, contrário a qualquer modo de produção (socialista ou capitalista), hoje está em curso uma…”mudança de paradigma”. As ideias que vigoram, mais uma vez…são as que vêm das cidades avançadas…metrópoles globalizadas – de onde surgem essas…’noções ambientalistas’ – de se resgatar a natureza”.

O Capitalismo é um sistema econômico que visa à acumulação de capital, onde suas empresas produzem…com o objetivo principal de obter o maior lucro possível. Esse crescimento tem como consequência…o “uso indiscriminado” dos recursos naturais disponíveis no planeta. O “desenvolvimento sustentável” busca metas…para que tal crescimento não esgote os…”recursos naturais” – de modo a suprir as necessidades          atuais, sem comprometer a capacidade de atender a demanda das futuras gerações, levando em conta – a finitude dos recursos, e… a taxa de crescimento populacional.

Com o avanço da medicina, esse aumento populacional cresce ainda mais, trazendo consigo, necessariamente, o aumento diário do consumo. Mas o grande problema é         que esse consumo tem sido demasiadamente desperdiçado. A inovação tecnológica,        por exemplo, nos propicia uma maior…”facilidade de vida”…porém, os produtos se    tornam ultrapassados…em intervalos cada vez menores; se tornando ‘descartáveis’,        com o objetivo de maximizar uma acumulação de lucro. Diante desse quadro, será      então possível alguma maneira de conciliar o crescimento econômico desenfreado,          com desenvolvimento sustentável?… – Há quem acredite que ‘sim’ – mas… isso só        seria possível se certas características desse sistema capitalista deixarem de existir.

‘Capitalismo’ e ‘Desenvolvimento Sustentável’ serão 2 vertentes sempre em                        conflito. Porém, o que se mostra agora é uma incompatibilidade entre os 2                        lados da moeda. E, esta durará…até que se veja a verdadeira importância                          do meio ambiente… — A terra do espaço… ainda é azul… mas até quando?  

De acordo com o professor Roberto José Moreira – do Programa de Pós-Graduação          de “Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade”… da ‘UFRRJ’, a formulação das ‘Nações Unidas‘ para… “desenvolvimento sustentável” … é vaga o bastante para não ferir os interesses hegemônicos de nações, corporações nacionais            e transnacionais, de classes sociais, de domínios territoriais e tecnológicos. Para ele:

“O que ganha status é um conceito hegemônico, adequado à lógica dos mercados globalizados. – Nesse contexto, como obter consenso político para construir-se o            futuro que consideramos mais adequado, se o que impera é a lógica da dinâmica            capitalista; sempre da maior lucratividade no menor espaço de tempo possível?”.empreendedor

Na verdade, não se trata apenas de uma questão de discurso…mas, de domínio –              numa relação de poder…o que acontece hoje em dia é que essas questões sobre o              que fazer…empurram, cada vez mais, para decisões de curto prazo, de um maior imediatismo. – As elites nacionais, que já se organizaram em torno da produção                de culturas específicas ao longo dos grandes ciclos econômicos do país…cana-de-      açúcar, borracha, cacau, café, algodão, e até o ouro, vão continuar pressionando                    o governo por políticas específicas para seu produto…ou, interesses econômicos específicos. – Para Moreira, esse exercício de poder reflete a construção de uma                certa visão de mundo, de uma determinada realidade, que se torna hegemônica.

“Os que pensam que o desenvolvimento sustentável vai resolver os problemas de desigualdade e exclusão social em nosso país estão equivocados… O ‘capitalismo’                  é capaz de transformar o ecossistema em mercadoria; mantendo seu status quo”.

Para tornar sua ideia mais clara, ele explica que…sem negar a existência da ‘propriedade privada’, ou do lucro maximizado, essa ‘ecologia capitalista‘ apóia-se numa utopia de mercado que pressupõe a igualdade de todos. Ou seja, um mercado livre e perfeito. Mas, na realidade da globalização e da ordem transnacional contemporânea…no domínio dos oligopólios e das multinacionais, isso não existe. Esse discurso mascara os fundamentos sociais e políticos da desigualdade, e esconde assimetrias de poder… – Até o conceito de sustentabilidade…que pressupõe satisfazer-se as necessidades do presente, sem arriscar    as necessidades das futuras gerações  traz contradições. E daí o professor faz sua critica:

“Queremos garantir às gerações futuras o mesmo padrão de vida que temos hoje?…Mas isso não equivale a manter as diferenças e exclusão social dos atuais padrões de vida?…Ademais, como conciliar tempo de acumulação e rotatividade do capital, com tempo da biosfera?…Vamos esperar um eucalipto crescer por 20 anos?…Ou uma floresta em 50?”.

Para Moreira, a sustentabilidade das sociedades humanas estaria associada à capacidade de conhecer e aceitar os limites a partir dos quais o crescimento populacional deveria ser zero, para não haver degradação dos recursos. “O que também é utopia”, diz o professor. Limites ecológicos à lógica capitalista exigiria regulamentar direitos de propriedade e de uso de recursos. Mas esse é um campo de interesses sociais onde a eficiência econômica      de recursos naturais não renováveis…demandas de justiça social à distribuição de renda      e bem-estar e a prudência ecológica pela conservação da biodiversidade são conflitantes.

teiaSome-se a isso…o fato de que a ciência clássica pressupõe o…’saber científico’ como responsável em revelar as…”leis imutáveis da natureza”…Essa visão de ciência nos faz acreditar que a técnica por ela legitimada é o melhor meio de    se orientar decisões e ações humanas. Mas, essa crença obscurece a própria dinâmica do conhecimento científico,  relativo ao tempo histórico de quando gerado – e ao cientista observador … que é um ser humano com sua própria individualidade, reconhecida hoje pela ciência contemporânea.  Seguindo tal lógica, os usos sociais e ambientais do ecossistema emergem das demandas da lógica de mercado. Assim, desenvolvimento sustentável torna-se apenas uma questão do funcionamento lógico de regulações políticas, legitimadas em acordos internacionais.

Moreira questiona ainda…a autonomia brasileira…ao utilizar seu território vinculado às demandas externas…Como já aconteceu nos ciclos econômicos da cana-de-açúcar ou da borracha, ainda hoje, continuamos produzindo para o mercado externo – quando nossa cultura de plantação (soja) desmata florestas, para alimentar o gado estrangeiro. – Para Moreira, ao se pensar na complexidade contemporânea, o enfoque de “sustentabilidade ambiental” deveria incorporar toda a ‘multiplicidade’ dos aspectos econômicos…sociais, culturais etc. Do outro lado dessa luta por essa preservação da biodiversidade, se fazem presentes interesses de resistência…Eles envolvem movimentos indígenas, ecológicos e artísticos na busca de valores culturais alternativos, na luta pela proteção da natureza e contra essa visão hegemônica. – Resta ver…que forças vão prevalecer. (texto 1) (texto 2**********************************************************************************

Há alternativas ao conceito de desenvolvimento sustentável?…                          “Se não criarmos uma teoria que ajude a sustentar a crescente população mundial, e seguirmos com essas taxas de consumo e disperdício…o que vai acontecer conosco?”

El_bien_comun_de_la_humanidad

A utopia do ‘desenvolvimento sustentável’ foi tema do debate…que reuniu cientistas, escritores e até a presidente da República, na ‘2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura’, em Brasília. Numa das mesas de debate o escritor moçambicano Mia Couto criticou uma ideia de controle natural sustentável.  O escritor (e biólogo) avalia que ideias de ‘desenvolvimento’, trazem uma ‘negação’.  “Estamos retirando o ‘núcleo central’ … o ambiente… numa negação da ‘identidade cultural’ … daqueles povos expropriados”.

Povos cujos modos de vida poderiam inspirar uma relação do homem com a natureza, que seja baseada no respeito, e não na compreensão de que a natureza pode ser vista como um recurso natural… – Para Couto, é preciso localizar as razões pelas quais o mundo enfrenta, hoje…uma profunda crise ambiental…

“Esse sistema não está mal porque não anda bem. Está mal                        porque produz miséria… desigualdade… causando ruptura                              em modos de vida… que aí sim, poderiam ser sustentáveis”.

Dramani Mahama – presidente de Gana, historiador e especialista em uso de tecnologia para a agricultura…alertou para a urgência de uma mudança comportamental dos ‘seres humanos’… ao destacar que a população joga fora diariamente a mesma quantidade que consome de alimento, enquanto falta alimento a boa parte da população – e questionou:  “Se não criarmos uma forma…que nos ajude a sustentar a crescente população mundial,    e continuarmos com essas taxas de consumo/desperdício; o que será da raça humana?”. 

“A tecnologia e inteligência humana devem ser usadas, desde já, como ferramentas para a superação da crise atual – por uma mudança de paradigma… que conduza a outra relação com a natureza; mostrando que o ambiente é tudo, dentro e fora de nós. Estamos falando de uma situação que poderá ser catastrófica…numa espécie de fabricação permanente da desigualdade e miséria – o que aliás, já acontece para 2/3 da humanidade, sob fome e/ou guerra permanente”… e, dessa forma, concluiu Mia Couto. ## (texto base) ## abril/2014  ***************************(texto complementar)***********************************

crescimentosustentávelA reinvenção do capitalismo (dezembro/2008)

Passadas várias décadas … desde o lançamento do relatório “Limites do crescimento”…em 1972, pelo “Clube de Roma” (grupo de industriais/cientistas), a discussão sobre ‘sustentabilidade’ avançou, pelo menos, no que diz respeito ao reconhecimento do fracasso do “modelo atual”… de desenvolvimento. Ainda que represente o caminho mais óbvio para conciliar benefícios…econômicos…ambientais…e, sociais – realizar todas mudanças, que viabilizem    o desenvolvimento sustentável… segue sendo um desafio para as lideranças globais. – Martin Lees, secretário-geral do Clube de Roma, sugere que essa transição se dará por ‘destruição criativa do próprio capitalismo de mercado; como ressaltou:

“Há certos setores da economia como o de energia e petróleo que sofrerão conseqüências à medida que avançarmos para uma economia de baixo carbono. No entanto, haverá muitos outros que serão muito beneficiados e também a sociedade como um todo…E há exemplos práticos disso… – No Canadá… a 3ª maior indústria… é a de bens e serviços ambientais. A  crença indiscriminada na… “mágica do mercado” – levou-nos aos problemas atuais. Mas a crise financeira reforça as fragilidades desse pensamento … envolvendo o mundo na busca por novas estratégias. Estamos de fato entrando em uma era de desafios e oportunidades”.

A tese de Lees assemelha-se à proposta original do conceito de… “destruição criativa“, desenvolvida pelo economista Joseph Schumpeter…onde, novas tecnologias e estruturas de produção à medida que são introduzidas no mercado, ao mesmo tempo que destroem, também criam. O progresso é portanto consequência desse processo destruidor/criativo.  Em recente visita ao Brasil para participar do “Diálogos da Terra”…evento realizado pela “Green Cross International” – e Governo do Estado de Minas Gerais… – o representante de um dos 1ºs movimentos a propor a revisão da lógica de crescimento econômico sob a perspectiva da sustentabilidade, concedeu entrevista exclusiva à repórter Juliana Lopes:

Juliana: 30 anos após a divulgação do relatório “Limites do Crescimento” pelo              “Clube de Roma”… qual a sua avaliação sobre a discussão do desenvolvimento sustentável?…Em que pontos avançamos, e em quais não tivemos progressos?

Martin Lees: Tivemos alguns progressos, principalmente, porque tem-se compreendido    os riscos de um crescimento insustentável. Também, por haver um movimento cada vez maior de empresas e governos para tornar suas atividades mais sustentáveis. Todavia, a triste constatação… é que… em termos de gestão dos assuntos sobre…”desenvolvimento sustentável”, não avançamos muito… – Basta olhar 2 aspectos em particular…um deles, diz respeito às “mudanças climáticas”, e o outro aos “ecossistemas”. A humanidade está empregando, ao menos 130% dos recursos do Planeta…a cada ano, o que é, obviamente insustentável… – Esse perigo é real… – imediato…  e, hoje… – muito mais preocupante.

Juliana: Precisaremos desenvolver novos mecanismos que                                                  considerem… as “externalidades” da atividade econômica?

Martin: A economia clássica apresenta 3 limitações. – A 1ª diz respeito ao reconhecimento das externalidades. Para ela, aquilo que não se consegue mensurar, não tem impacto. Essa não é uma boa regra para conduzir negócios…por excluir aspectos importantes que afetam a vida humana e o Planeta. – Em 2º lugar, há o que chamamos…propriedade comum dos recursos da humanidade… A atmosfera ou um rio pertencem a todos – por isso, ninguém poderia poluir tais recursos sem arcar com algum ônus…E a economia não tem sido eficaz, em lidar com bens comuns… – A questão das “mudanças climáticas” é um ótimo exemplo.  Segundo Nicholas Stern (autor de um relatório sobre custos econômicos do “aquecimento global”), ela representa o maior fracasso da “economia de mercado” na história civilizada.

capitalismoO 3º item está relacionado ao pensamento de curto prazo, característico da economia de mercado… Por longo período de tempo, priorizou-se – a…maximização do lucro, onde – as consequências e oportunidades, no longo prazo – para as gerações futuras, foram subestimadas… — A maneira como pensamos o crescimento…e as estratégias econômicas precisam ser revistas…E, isso tem se tornado – cada vez mais ‘evidente’, sobretudo depois de…”crises financeiras”. O “capitalismo selvagem” virou pesadelo, por isso devemos criar uma…”alternativa nova” ao…”desenvolvimento econômico”.

Juliana: Mecanismos econômicos‘ – como  taxação empregados contra o aquecimento global poderiam conduzir a sociedade para padrões…um pouco mais… “sustentáveis”?

Martin: Mecanismos econômicos são muito poderosos e podem ser bastante úteis se forem oferecidos incentivos às pessoas – com o intuito de conduzir o desenvolvimento na direção correta…A precificação (de preços) no uso de recursos escassos, ou a taxação de ‘atividades poluidoras’ – por exemplo, podem ser muito úteis, mas precisam ser aplicadas no contexto correto. Não se pode simplesmente privatizar a água de modo que o preço se torne tão alto que pessoas mais pobres não tenham acesso a esse recurso. No caso do carbono, por outro lado…vemos que as pessoas continuam lançando CO2 na atmosfera indiscriminadamente, e não há incentivos suficientes para que parem. O sistema de taxas é uma forma de fazê-lo.

Outra forma, seria impor metas de redução. Somente quando começarmos                          a precificar seriamente o carbono, as pessoas entenderão a necessidade de                      reduzir emissões. Nesse cenário, o papel do governo deve ser assegurar os                        direitos comuns no país…enquanto o mercado, deve promover a inovação.

Juliana: Os anúncios recentes de G. Brown e Barack Obama, em criar empregos                  no setor verde para recuperar a economia podem ser um sinal de que lideranças        públicas se envolverão…”mais ativamente”…com a questão da sustentabilidade?

Martin: Desde a década de 80…quando ganharam espaço as políticas de Reagan e Thatcher, as pessoas vêm desacreditando o papel dos governos. Esse pensamento          tem resultado nos problemas atuais. Por isso…devemos corrigir as deficiências do    modelo atual, e desenvolver outro que equilibre o papel do Estado e dos negócios.                E acredito que governos ocuparão um ‘papel central’, nesse processo de transição. 

Além disso, para combater questões complexas como o aquecimento global, precisamos agir em diferentes níveis: local, regional e globalmente. Precisamos de um engajamento, no qual todos os atores participem. E os governos – na sua posição… são os agentes que mais têm condições de articular esse acordo. O que Gordon e Obama querem dizer com      o anúncio da criação de empregos no setor de energias renováveis…é que o crescimento econômico, e o uso responsável das energias e recursos naturais, não são contraditórios. 

Juliana: A crise financeira, assim como as sociais e ambientais que vivenciamos            hoje, está…de alguma maneira – relacionada à falta de ‘lideranças globais’…que            possam promover a… “sustentabilidade“… como ‘modelo de desenvolvimento’?

Martin: O poder dos líderes, especialmente governantes tem limites. Tip O’ Neill (político democrata dos EUA) há muitos anos atrás disse…“Toda política é local”. Desse modo, um líder é eleito…não por ser um gênio em mudanças climáticas, mas sim porque entende as preocupações dos cidadãos da comunidade da qual faz parte…Em um mundo totalmente interdependente, é difícil para os líderes conciliarem demandas de sua comunidade, com questões mundiais. Mas há outro fator importante…As pessoas, muitas vezes, estão além de seus políticos.  Nos EUA, por exemplo, há uma preocupação crescente de boa parte da população quanto ao aquecimento global. Essa tomada de consciência, no entanto, ainda não tem se refletido em ‘políticas federais‘…Por isso, os problemas atuais requerem uma ação integrada de líderes dos diferentes setores no mundo. – A questão é… ‘organizações internacionais’…como a “ONU”…têm condições de catalisar esse movimento… para criar agendas e soluções globais?… – Novos mecanismos institucionais são necessários… – As mudanças climáticas estão acelerando, e a comunidade internacional simplesmente não terá tempo de sobra para se organizar e fazer algo…Teremos que agir, de uma forma, ou    de outra. – Poderemos reagir no desespero, quando os problemas atingirem proporções tão graves – que não teremos qualquer escolha… ou então… – agir a tempo. (texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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3 respostas para “Falsa neutralidade” & “Desenvolvimento sustentável”

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