Uma Crítica da Realidade (por David Deutsch)

“Para enfrentar o desafio que se apresenta diante de nós nossas noções de                          cosmologia devem nos permitir uma explicação consistente da ‘consciência’.                      Mas…para podermos perceber sua relação com a realidade – nossas noções                            de consciência devem nos revelar o significado de seu conteúdo.” (D. Bohm)

sabedoriaLembro-me de me ser dito…quando criança, que – em tempos idos – ainda era possível a uma pessoa de muita instrução saber tudo o que se podia saber…Foi-me igualmente dito que, hoje em dia, sabe-se tanto, que não era concebível se saber… ainda que numa longa vida – mais do que uma ínfima fração disso.  Tal proposição me surpreendeu; não queria as coisas assim, e invejei os tempos antigos.

Não que eu quisesse memorizar todos os fatos que estavam arrolados nas enciclopédias do mundo – ao contrárioodiava memorizar fatos. Não era essa a expectativa do sentido que eu tinha – de que fosse possível saber tudo o que se sabia. Não teria ficado desapontado se me dissessem — que surgem mais publicações por dia… do que uma pessoa pode ler numa vida inteira – nem imaginava que um estudioso antigo…que supostamente sabia de tudo, teria de saber de todas as coisas. O que eu tinha em mente era uma ideia mais criteriosa do que se deve considerar como…”conhecido”. Por isto, eu queria dizer…”compreendido”.  A ideia de que uma pessoa possa compreender todo o compreensível…pode ainda parecer fantasiosa…mas, é claramente menos fantasiosa…do que a ideia de que uma pessoa possa memorizar todos os fatos conhecidos. Por exemploninguém consegue memorizar todos os dados observacionais do movimento planetário mas os astrônomos dominam esse fenômeno, pois compreender não é saber muitos fatos, mas obter conceitos, explicações e teorias certas… – Uma teoria comparativamente simples e abrangente, pode abarcar uma infinidade de fatos díspares.  A “relatividade geral” de Einstein é nossa melhor teoria do movimento planetário, suplantando – no início do séc. XX… as teorias de movimento e gravidade de Newton. Ela prevê corretamente (a princípio)…não só todos os movimentos planetários, mas também outros efeitos da gravidade nos melhores limites de exatidão.

Quando uma teoria prevê algo ‘em princípio’ – isso significa que as previsões se seguem logicamente da teoria – ainda que, na prática – a quantidade de computação necessária para gerar algumas das previsões é tão elevada – que não é tecnologicamente exequível;     ou, até tão elevada – que é fisicamente impossível levá-la a cabo no universo conhecido.  Previsões e descrições na física são muitas vezes expressas em fórmulas matemáticas. A ‘fórmula’ é mais fácil de recordar, porémencontrar um número nos arquivos pode ser ainda mais fácil do que calculá-lo a partir da fórmula Mas, ser capaz de prever coisas,    ou as descrever, por mais exato que isso possa ser, não é o mesmo que compreendê-las. 

Teoria-da-Relatividade    A verdadeira vantagem da “fórmula”é poder ser usada num número infinito de casos, podendo assim prever, por exemplo, o resultado de observações futuras…Pode também dar-nos posições históricas dos planetas com mais rigor…pois registros arquivados têm erros de observação. Entretanto, apesar de resumir um nº infinitamente maior de fatos, conhecê-la não significa a mesma coisa do que compreender o movimento dos planetas.

Os fatos não podem ser conhecidos…resumindo-os apenas numa fórmula,  ou numa memorização. Só explicando-os podemos então compreendê-los.

Felizmente – as nossas mais relevantes teorias incorporam profundas explicações, bem como rigorosas previsões… A ‘relatividade geral, por exemplo, explica a ‘gravidade’   em termos de uma ‘nova geometria’… “tetradimensional“… do ‘espaço e tempo curvos’,  onde esta geometria se relaciona com a ‘matéria. Tal explicação é o conteúdo da teoria; previsões do movimento planetário são algumas das consequências… que podemos daí deduzir… – O que torna a ‘teoria da relatividade’ tão importante…não é o fato de poder prever o movimento dos planetas … um tanto mais rigorosamente do que a de Newton, mas, antes… – o fato de revelar, e explicar aspectos antes insuspeitos da realidade…tal como a curvatura do espaço e do tempo… E, isto…é típico da “explicação científica”.

Todavia – a capacidade de uma teoria para explicar aquilo que experimentamos … não é o seu atributo de maior valor… Este, é a explicação da estrutura da própria realidade pois, mesmo em aplicações práticas, o ‘poder explicativo’ de uma teoria é fundamental, sendo o seu ‘poder previsível’, apenas complementar. Se isto parece surpreendente … imagine que um cientista extraterrestre tenha visitado a Terra, e nos deixado de presente um “oráculo”  que, sem qualquer explicação, previsse o resultado de toda experiência científica possível.

Anticítera (computador grego - 150 A.C.)

Anticítera
(computador grego – 150 A.C.)

De acordo com os ‘teóricos experimentais’, mal tivéssemos tal… ‘oráculo‘ – as teorias científicas não serviriam para nada, a não ser nos divertir. Mas será isto verdadeiro? Como seria o oráculo usado … na prática? Teria em si conhecimento suficiente para construir uma…”nave interestelar“… por exemplo… – E, como esse saber herdado, poderia…então, nos ajudar a construí-la?  Se lhe déssemos os planos de uma nave espacial – e…os pormenores de um voo experimental, nos diria do ‘desempenho’    da nave em tal voo – mas não poderia, a princípio – concebê-la (…seríamos nós!)

E, mesmo que previsse que a nave por nós concebida explodiria na descolagem…não poderia nos dizer como prevenir tal explosão…Nós teríamos que descobrir…E, antes          de podermos descobrir; antes de podermos sequer começar a melhorar os planos da      nave, teríamos de entender, entre outras coisas; como deveria funcionar. – Só então teríamos chance de descobrir o que poderia ter causado sua explosão na descolagem.

Assim, a previsão – mesmo que seja perfeita e universal,                                  não substitui, pura e simplesmente, a explicação. Afinal,                                    no “oráculo” deveria constar algum “manual prático”.

Por outras palavras já existe um oráculo desses, qual seja…o ‘mundo físico‘. Este nos diz o resultado de qualquer experiência científica possível — se fizermos a pergunta certa… na linguagem certa (se fizermos a experiência)… apesar de – em alguns casos, não ser prático introduzir uma descrição da experiência (isto é…construir – e operarmos o equipamento)Uma forma extrema de ‘empirismo‘ – chamada ‘positivismo‘ (ou “positivismo lógico”), sustenta que todas as afirmações, para lá das que descrevem ou preveem observações, são não apenas supérfluas…mas destituídas de sentido…Apesar do contra-senso, ainda assim, influenciou o conhecimento teórico científico… – ao longo da primeira metade do séc. XX. 

Uma razão de sua gradual perda de credibilidade é que, apesar da ‘previsão‘ não ser o propósito da ciência, faz parte de seu método.

O ‘método científico, com efeito, envolve postular uma nova teoria para explicar uma dada classe de fenômenos – fazendo depois um teste experimental crucial – uma inédita experiência científica em relação à qual a velha teoria prevê um resultado observável, e a nova teoria prevê outro. Nós rejeitamos, então, a teoria cujas previsões se revelam falsas.  Assim, o resultado final de um teste experimental…para decidir entre 2 teorias, depende, efetivamente, das previsões da teoria, e não, diretamente de suas explicações. – Daí vem a concepção errada de que nada mais há numa teoria científica; a não ser suas previsões.

Mas, testes experimentais não são – de modo algum…o único processo envolvido na evolução do conhecimento científico… – A grande maioria das teorias são rejeitadas, porque contêm ‘más explicações‘…e não porque fracassam nos testes experimentais. Rejeitamo-las sem nos darmos ao incômodo de as testarmos…(O que testamos…são           novas teorias que prometem explicar os fenômenos, melhor do que as que já temos)

lancamento-de-fogueteDizer que a previsão é o propósito de uma teoria científica…é confundir os meios com os fins. É como dizer que, o propósito de uma ‘nave espacial‘ é queimar combustível…quando isto é somente uma, das muitas coisas que a nave tem a fazer, para cumprir seu legítimo propósito — de transportar sua carga… com segurança — de um ponto a outro… – através do espaço.

Passar em ‘testes experimentais’ é apenas uma das muitas tarefas que uma teoria tem de cumprir para alcançar o verdadeiro propósito da ciência…”explicar o mundo”. E, estas explicações são sempre efetuadas em termos de coisas, que não vemos diretamente as     leis da natureza: átomos e forças – interior estelar – rotação galática – passado e futuro.  Quanto mais profunda uma explicação mais remotas – quanto à experiência imediata, são as entidades (não ficcionais) a que se referem; como parte da estrutura da realidade.

A compreensão tem origem em ‘teorias explicativas‘…e, devido à generalidade que tais teorias podem tera reprodução dos fatos não torna, necessariamentemais difícil compreender tudo o que se compreende. Contudo, a maior parte das pessoasdiria que não são só os fatos registrados que têm aumentado a um ritmo incrível — como também    o número e complexidade das teorias — por meio das quais… compreendemos o mundo.  Consequentementetenha ou não alguma vez sido possível…a uma só pessoa, entender tudo o que – a seu tempose compreendia, certamente isso não é possível agora, e está     se tornando cada vez mais improvável… Aparentemente, cada vez que se descobre uma nova explicação ou técnica relevante numa determinada área…incluímos outra teoria, à lista obrigatória de quem queira se atualizar. – Assim, quando o número de tais teorias,    em qualquer área técnico científica, se torna muito elevado…surge a “especialização.

A física, por exemplo, dividiu-se nas ciências da astrofísica, termodinâmica, física das partículas, teoria quântica de campos, e muitas outras. Cada uma delas baseia-se num enquadramento teórico, pelo menos tão complexo quanto a totalidade da física era há   pelo menos 100 anos atrás; e muitas já estão se fragmentando em sub-especializações.      Ao que parece, quanto mais descobrimosmais somos irrevogavelmente empurrados      para a era do especialista; e mais remota fica essa “hipotética era”em que o saber de    um indivíduo pudesse abranger tudo aquilo que era passível de compreensão.

Confrontado com este vasto menu (e, em rápido crescimento)…da coleção de teorias do gênero humano – pode-se duvidar que um indivíduo consiga saborear todas as receitas conhecidas, como talvez já tenha sido possível…Mas a explicação é um gênero estranho     de comida – onde uma porção maior, não é… necessariamente… mais difícil de engolir.  Uma teoria pode ser ultrapassada por outra … que explique mais coisas, de forma mais precisa, e mais fácil de entender; caso em que a teoria anterior se torna redundante, ao mesmo tempo em que – precisamos aprender menos assuntosdo que anteriormente.

copernico

Nicolau Copérnico (1473-1543)

Foi isto o que aconteceu…quando a teoria de Copérnico — “Terra viajando em torno do Sol” – ultrapassou o complexo sistema Ptolomaico – no qual a Terra era o centro do cosmosAssim, uma nova teoria pode ser a ‘simplificação’ de outra, já existente; como a notação árabe decimal ao superar os numerais romanos… – Ou… uma nova teoria pode também unificar 2 anteriores, dando-nos mais compreensão…do que as usarlado a lado, como ocorreu, quando Maxwell e Faraday unificaram as teorias da eletricidade e do magnetismo‘…numa então inédita teoria eletromagnética.

Mais indiretamente, explicações melhores em qualquer área, tendem a desenvolver as técnicas, conceitos e linguagem, que usamos para tentar compreender outras áreas, de modo que o nosso conhecimento…como um todo, apesar de aumentar, pode tornar-se, estruturalmente… mais compreensível. Mas – o que distingue a compreensão do mero conhecer?… – O que é uma explicação, em contraste com uma mera afirmação factual, como uma descrição perfeitamente correta… ou, uma previsão possivelmente factível?

Toda descoberta de uma nova explicação — e todo o ato de compreender  uma explicação, dependem da faculdade humana única do “pensamento criativo”. — “A criatividade é o motor do artista, e o processo de criação, quando gera uma novidade, faz com que tudo o que até então sabíamos,  deva ser reformulado… — para assim alcançarmos novos significados.”
(Bia Pupin — “A Arte Pública” — “Revista Filosofia” — nº. 77) 

Na prática, reconhecemos a diferença facilmente. Sabemos quando não compreendemos algo – ainda que o possamos descrever e prever com precisão… e também… quando uma explicação nos ajuda a compreendê-lo melhor. — Mas, é difícil dar uma definição precisa para ambos. Explicação e compreensão, a princípio, dizem respeito aoporquê, e não ao ‘como’…falam do modo de funcionamento das coisas…e não, ao que estas aparentam ser; às leis da natureza, e não…a aproximações empíricas…A “compreensão” é uma função superior da mente e cérebro humanos, sendo única. – Muitos outros sistemas físicos, tal como cérebros animais e computadores podem…assimilar fatos — e agir com base neles. Mas, a princípio, nada é capaz de compreender explicações – a não ser a mente humana.

De modo semelhante … quando digo que compreendo como a“curvatura do espaço e do tempo”…afeta o movimento dos planetas…mesmo noutros sistemas solaresdos quais posso nunca ter ouvido falar… – não estou invocando — a priori…a explicação de todos os pormenores das voltas e desvios de qualquer… “órbita planetária”. — O que quero dizer, é  que todo movimento desse planeta pode ser explicado pela relatividade geral de Einstein”.

quasar (representação)

Só compreendemos a “estrutura da realidade“, compreendendo teorias que a explicam… – Com uma teoria muito específica, o reconhecimento que esta elucida algum fenômeno – pode em si se tornar uma relevante descoberta…exigindo novas razões.  Os ‘quasares’…por exemplo, foram, durante décadas – um dos grandes mistérios astrofísicos… Pensava-se necessária uma ‘nova física‘… para explicá-los…mas, hoje vemos que a ‘relatividade geral’, e outras teorias já conhecidas — os podem explicar.

Hoje considera-se que ‘quasares‘ são formados por matéria quente caindo em buracos negros. – Contudo, para se chegar a esta conclusão foram precisos anos de investigação,  tanto observacional quanto teórica. E agora que pensamos ter alguma compreensão dos quasares…não pensamos que esta seja uma compreensão que já tínhamos… Explicá-los, ainda que por teorias já existentes… – deu-nos uma compreensão ‘genuinamente‘ nova.  Assim – apesar da nossa reserva de teorias conhecidasbem como de fatos registrados, estar de fato, aumentando como uma ‘bola de neve’ – isso não torna necessariamente, a totalidade da estrutura mais difícil de entender… – Pois mesmo considerando nossas “teorias específicas” mais numerosase pormenorizadas – elas estão continuamente se correlacionando – na medida em que sua compreensão é incorporada em novas teorias;  as quais mesmo sendo reduzidas em número…  se tornam mais profundas…e gerais.

Por mais ‘geral’…digo que cada uma delas nos mostra mais – sobre maior                          diversidade de situações do que antes nos diziam várias teorias diferentes.                            Por mais ‘profunda’… quero dizer que cada uma delas explica mais (inclui                            mais compreensão), do que a combinação de suas diversas predecessoras.

Há vários séculos…se alguém quisesse construir uma grande estrutura, como uma        ponte ou catedral, teria contratado um ‘mestre-de-obras’. Ele saberia basicamente,            do que é preciso para dar a uma estrutura força e estabilidade, com um mínimo de        gasto e esforço. Não teria sido capaz de exprimir grande parte deste conhecimento              na linguagem da matemática e física, como fazemos hoje. Em vez disso apoiava-se, principalmente, numa coleção complexa de…intuições…hábitos…e “aproximações empíricas”, que herdara do seu mestre, e que talvez…depois tenha corrigido – por estimativas, e muita experiência. – Mas, mesmo assim, essa coleção de princípios,              na verdade, eram teorias…explícitas ou subjacentes…com ‘genuíno conhecimento’            das áreas…que hoje em dia conhecemos… – como ‘engenharia‘ e ‘arquitetura

Era tido como certo que a inovação se arriscava a ser ‘catastrófica’;                                        por isso… os construtores raramente se afastavam muito de certas                                          técnicas seculares…que tinham sido validadas pela longa tradição.

Hoje em dia, é bem raro que uma estrutura, mesmo muito diferente da que                      antes se construía caia … devido a uma concepção deficiente. Tudo o que                        um antigo ‘mestre-de-obras’…poderia ter construído seus colegas atuais                          podem construir melhor – e com um esforço humano muitíssimo menor.

space station concept art

Podem também, construir estruturas que – dificilmente poderiam ter sido, sequer sonhadas, como arranha céus, e “estações espaciais”… – (concepção artística… ao lado); usando materiais nunca antes vistos… tais como ‘fibras de carbono’… – ou ‘cimento armado’.

O progresso que nos conduziu, até o nosso estado atual de conhecimento,  não foi alcançado, acumulando mais teorias… – como o ‘mestre-de-obras’ fazia… Nosso saber – tanto explícito, quanto implícito … — além de muito maior … é estruturalmente diferente.

Teorias modernas são menos numerosas — porém…mais abrangentes e profundas… Para cada situação que o mestre-de-obras enfrentava, quando construía algo do seu repertório, ao decidir – digamos… quão espessa deveria ser uma parede estrutural, dispunha de uma intuição… ou aproximação empírica bastante específica… – a qual, porém…poderia dar respostas erradas, perante novas situações…Hoje, deduzimos tais coisas de uma…teoria, suficientemente geral, para que se possa aplicá-la a todo materialem qualquer situação.

A razão da “universalidade” dessa teoria – é que ela se baseia em  explicações profundas de como materiais e estruturas funcionam.

Por exemplo…para descobrir a espessura apropriada de uma parede… a ser feita de um material pouco conhecido… – os cálculos começam com valores de “parâmetros”… como: “elasticidade” e “tensão” do material. Por issoapesar de saber incomparavelmente mais do que um… “mestre-de-obras” antigo o “arquiteto moderno” não precisa de uma formação mais longa…ou árdua. – Uma teoria do currículo atual…pode ser mais difícil de entender do que qualquer das aproximações empíricas do “mestre-de-obras” … mas, o nº  de teorias modernas é menor – com seu…poder explicativo…abrangendo propriedades (como lógica interna) e conexões com outras áreas, que as fazem mais fáceis de aprender.

http://diegotoscano.wordpress.com/2012/11/30/a-arquitetura-moderna/arquitetura-moderna-2/

Sabemos hoje — que algumas das antigas aproximações empíricas estavam erradas, ao passo que outras, são verdadeirasou boas aproximações à verdade, e sabemos por que razão… isso acontece. – Algumas ainda são usadas…mas já nenhuma delas    é a fonte da nossa compreensão – do que  faz uma “estrutura” ficar de pé… – Ainda assim – não nego que a…”especialização” ainda ocorraem muitas áreas do saber; incluindo mesmo…a própria arquitetura.

A ciência da medicina…é talvez, o caso mais frequente citado da especialização crescente que parece seguir-se, inevitavelmente, do crescimento do conhecimento…à medida que se descobrem novas curas e melhores tratamentos para mais doenças. – No entanto, mesmo na medicina, a tendência unificadora também está presente, e – tornando-se mais forte.  Certamente, que muitas funções do corpo são ainda mal compreendidas … assim como os mecanismos de muitas doenças… – consequentemente…algumas áreas do “conhecimento médico” ainda consistem em fatos registrados no tratamento… transmitidos por gerações.  Grande parte da medicina, por conseguinte, ainda está na era da aproximação empírica, e quando novos achados são descobertos há realmente mais incentivo para a especialização. Contudo … à medida que a investigação médica e bioquímica desenvolve explicações mais profundas dos processos de doença (e saúde) no corpo… – a compreensão também cresce. 

Conceitos gerais estão substituindo outros mais específicos à medida que se descobrem mecanismos moleculares subjacentes, comuns a doenças diferentes, em diferentes partes do corpo… Por outro lado, os médicos que se deparam com uma doença pouco conhecida, ou uma complicação rara, podem apoiar-se cada vez mais em teorias explicativas, e então aplicar uma teoria geral para estabelecer o ‘tratamento correto’…tendo a expectativa de que este seja eficaz… ainda que nunca tenha sido usado. – A questão de se estar tornando mais difícil ou fácil entender tudo aquilo que se tem a entender depende de um equilíbrio entre 2 efeitos opostos do crescimento do saber: a abrangência de nossas teorias…e sua maior profundidade. A abrangência torna-as mais difíceis; a profundidade, mais fáceis.

FreudDevagar … mas sem hesitações… — a profundidade ganha terreno… – Não estamos nos afastando de um estado, em que alguém pode alcançar – tudo o que é compreensível… – mas antes, nos aproximando dele…Não acredito que estejamos pertoou que alguma vez cheguemos a estar de entender  tudo o que há…O que proponhoé a possibilidade de se compreender sua estrutura, mais do que seu conteúdo.

Mas, é lógico que a estrutura do nosso conhecimento – se pode ou não ser                            exprimível em…”teorias harmônicas”…num todo compreensível, depende,                          efetivamente, de como é a…”estrutura da realidade“, como um “todo”.

Para que nosso conhecimento possa continuar seu ‘crescimento aberto’, e ainda assim nos aproximarmos da possibilidade de uma “compreensão total” da realidade, a profundidade das nossas teorias tem de continuar crescendo…suficientemente rápido. Mas, isso só pode acontecer se a “estrutura da realidade” for em si mesma, muitíssimo unificada, de modo a que possamos compreendê-la cada vez melhor…à medida que cresce nosso conhecimento. E, se isso acontecer, nossas teorias tornar-se-ão tão gerais…profundas…e integradas entre si…que, para todos efeitos, se unificarão numa única “teoria estrutural da realidade“; que ainda não explicará todos aspectos da realidade – isso é inalcançável. Mas, abrangerá todas explicações conhecidas — aplicando-se a toda estrutura da realidade compreendida.

Enquanto todas teorias anteriores se relacionavam com áreas particulares, esta seria uma teoria de todas áreas… Não meramente uma ‘teoria de tudo’ que alguns físicos de partículas tentam descobrir — ou seja — uma “teoria unificada” de todas conhecidas forças físicas básicaseletromagnetismo,  gravidade e forças nucleares. Mas sim, uma autêntica…’Teoria de Tudo‘.

Descreveria todos os tipos de partículas sub-atômicas e suas propriedadestais como, massa, spin, carga elétrica, etc. e, como interagem entre si… — Dada uma descrição – suficientemente precisa, do estado inicial de qualquer ‘estado físico isolado’, iria, em princípio, prever o seu comportamento futuro. – Nos casos em que a exatidão fosse…intrinsecamente imprevisível…(princípio da incerteza),  descreveria todos os…comportamentos possíveis do sistema estudado…através da “probabilidade” … de suas variáveis.

Com efeito, na prática, os ‘estados iniciais de tais sistemas não podem, frequentemente, ser estabelecidos com muita precisão e…além disso…exceto nos casos mais simples, o cálculo de previsões seria demasiado complicado para que fosse levado a cabo…  Porém, mesmo assim… — tal teoria unificada das partículas e das forças… juntamente com uma especificação do estado inicial do universo quando do Big Bang… conteria, em princípio, informação bastante para prever tudo que pode ser previsto. Mas ‘prever não é explicar’.

O que motivaria, então, o uso do termo “teoria de tudo” para                   um pedaço de conhecimento tão restrito, ainda que fascinante?

Penso que é outra perspectiva equivocada da natureza da ciência, auto-sustentada por muitos críticos da ciência, e (lamentavelmente) – com aprovação de muitos cientistas, nomeadamente, que a ciência é, essencialmente, reducionista. O que significa que a ciência explicaria as coisas… analisando-as em componentes. – Tal concepção conduz, naturalmente, a uma classificação de objetos e teorias numa ‘hierarquia‘, em função      de quão próximas estão das teorias previsíveis conhecidas do ‘nível mais baixo’. Nesta hierarquia…lógica e matemática formam o ‘leito rochoso’ em que a ciência se constrói.

A primeira pedra seria uma teoria redutiva de tudo…a ‘teoria universal’ das partículas, forças, espaço e tempo embutida na ideia do que era o “estado inicial” do universo…O resto da Física forma os primeiros andares. Astrofísica e química, estão em um nível mais elevado… com a geologia, ainda mais acima…e assim por diante… A construção ramifica-se em muitas torres…com áreas de níveis cada vez maiores como bioquímica, biologia genética. Por fim, em instáveis      “telhados estratosféricos” – se encontram “empoleiradas“, áreas como… – teoria da evolução’ – economia… – psicologia,    computaçãoe demais… – “noções afins”.

Não só pressupomos que a explicação consiste sempre em analisar um sistema, através  de outros sistemas mais simples e menores como também que toda explicação se faz em termos de eventos posteriores, explicados por anteriores. O único modo de explicar algo    é formulando suas causas… – Em termos didáticos… – isto implica que…quanto maior a anterioridade dos acontecimentos… “melhor é a explicação” – de modo que…no fim das contas, as melhores de todas…são em termos do ‘estado inicial do universo‘. — Uma teoria de tudo que exclua uma especificação do ‘estado inicial do universo’, não é uma descrição completa da realidade física, porque fornece apenas ‘leis do movimento‘…e leis do movimento, por si só, fazem apenas ‘previsões condicionais‘…nunca dizendo, categoricamente, o que acontece, apenas o que poderá acontecer num dado momento, sabendo-se… “previamente” — o que estava acontecendo… noutro momento anterior.

Apenas no caso de se fornecer uma especificação completa do estado inicial, pode uma descrição completa da realidade física, a princípio, ser deduzida.

Acontece que as teorias cosmológicas atuais não fornecem uma especificação completa do estado inicial, nem sequer – a princípio, apenas afirmam efetivamente, que o universo era inicialmente muito pequeno, muito quente…e que tinha uma estrutura bastante uniforme. Sabemos porém, que não pode ter sido ‘perfeitamente uniforme’…pois seria incompatível, segundo a teoria – com a distribuição das galáxias que observamos…hoje em dia nos céus.  Variações iniciais de densidade (“granularidade) teriam sido incrementadíssimas pela “agregação gravitacional (regiões relativamente densas, teriam atraído mais matéria, tornando-se ainda mais densas) de modo que para o Universo não colapsar, teriam de ser muitíssimo rápidas inicialmente (superluminares)…Mas, por mais ligeiras que tenham sido, são da maior importância em qualquer descrição reducionista da realidadeporque  quase tudo que vemos ao redor – é consequência dessas variações físicas fundamentais.

Ou seja…para que nossa precária descrição reducionista abranja algo além das características mais incompletas do universo observado, precisamos de uma teoria que especifique estes“desvios fundamentais” da uniformidade.

hqdefaultEntretanto, independente das limitações  à previsibilidade… impostas pela ‘teoria quântica‘ – as leis do movimento…para qualquer sistema físico, não fazem senão ‘previsões condicionais’; sendo, portanto, compatíveis com todas estórias possíveis desse sistema. – Por exemploas leis do movimento que regem a bala…disparada de um canhão…são compatíveis…a todas trajetórias possíveis – na direção para as quais, o canhão poderia estar apontando.

Matematicamente, as ‘leis do movimento‘ podem ser expressas como um conjunto de equações, chamadas equações do movimento. Estas, têm muitas soluções diferentes, descrevendo cada uma delas…uma trajetória possível. Para especificar qual das soluções descreve a ‘trajetória efetiva‘, temos de fornecer dados complementaressobre o que efetivamente acontece…Uma maneira de fazer isso é especificar o estado inicial; neste caso, a direção em que o canhão apontava. Mas, também há outras formas. Por exemplo, poderíamos, igualmente, especificar o estado finala posição e direção do movimento da bala no momento em que cai no chão. Ou ainda, poderíamos especificar a posição do ponto mais alto da trajetória… – Não importa quais dados complementares informemos, desde que escolhida uma solução particular das equações do movimento. A combinação    de um desses dados complementares com as ‘leis do movimento‘…equivale a uma teoria, que descreve tudo o que acontece à…bala de canhão… – entre o “disparo”, e o “impacto”.

De modo similar, as leis do movimento para a realidade física, como um todo, teriam muitas soluções cada uma das quais, correspondendo a uma história distinta. Para definir a “descrição”…teríamos de especificar qual história de fato ocorreu, incluindo suficientes “dados adicionais” – que resultassem numa das diversas soluções de suas equações do movimento. Pelo menos nos ‘modelos cosmológicos simples’…um modo          de fornecer esses dados é especificar o ‘estado inicial‘ do universo. – Mas, também poderíamos especificar seu ‘estado final‘, ou o estado em qualquer outro momento;          ou ainda, alguma informação do ‘estado inicial’, alguma do ‘estado final’ – e também,      dos estados intermédios. Uma combinação suficiente de ‘dados complementares’,          com ‘leis do movimento’ … equivaleria a uma descrição completa da ‘realidade física’. 

Para a bala de canhão, uma vez especificado o estado final, é simples calcular o estado inicial, e vice-versa…de modo que não há diferença prática entre vários métodos de especificar “dados complementares”.          Mas…para o universo…a maioria desses cálculos são “intratáveis“.

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Inferimos a existência de “granularidade” nas condições iniciais do universo, partindo de observações de hoje. Mas, isto é um caso excepcional. – A grande parte da percepção complementar do que ‘realmente’ acontece,  é na forma de “teorias de nível elevado” sobre “fenômenos emergentes“…que é, por definição, inexprimível em termos práticos como afirmações sobre o ‘estado inicial‘ do sistema…Por exemplo…na maior parte das soluções das “equações do movimento“… o ‘estado inicial do universo’ … não possui as propriedades adequadas ao surgimento da vida. – Logo, nosso conhecimento de que a vida evoluiu “efetivamente”… – é uma parte significativa desses ‘dados complementares’. 

Podemos nunca saber o que esta restrição implica, especificamente, sobre a estrutura pormenorizada do Big Bang – mas, podemos retirar, diretamente, conclusões a partir    dela. Com efeito, a mais antiga estimativa precisa da idade da Terra foi feita com base      na teoria biológica da “evolução” – contradizendo a melhor física da época. – Só um “preconceito reducionista” poderia fazer-nos pensar que esta foi uma forma de algum      modo menos legítimo de raciocínio… Ou, que em geral… é mais fundamental teorizar    sobre o… “estado inicial” – do que sobre as “características emergentes” da realidade.

Mesmo no domínio da física fundamental, a ideia de que as teorias do ‘estado inicial’ contêm nosso conhecimento mais profundo – é falsa!… Uma das razões para isso…é excluir logicamente, a possibilidade de explicar o próprio estado inicial. — Por que o estado inicial foi o que foi apesar das explicações para muitos de seus aspectos?            Além do que, nenhuma teoria do tempo jamais poderá explicá-lo em termos de          algo anteriormesmo que tenhamos explicações profundas da natureza do tempo          em termos da teoria da ‘relatividade gerale ainda mais, da ‘teoria quântica‘. 

Consequentemente, o caráter de muitas das nossas descrições, previsões e                            explicações da realidade, não tem qualquer semelhança com a imagem do                          “estado inicial + leis do movimento”… a que o reducionismo nos conduz.

'beautiful pictures'Fenômenos emergentes são fenômenos dos níveis mais elevados — cujos fatos, não são simplesmente dedutíveis das teorias de níveis mais baixos…A razão pela qual áreas de níveis mais altos podem ser estudadas é que o comportamento…”prodigiosamente” complexo de vastos números de partículas, em circunstâncias especiais…se decompõe em simplicidade…e compreensibilidade. A isto chama-se emergência…a simplicidade do nível elevado, emerge da complexidade dos mais baixos. O propósito das “ciências de nível elevado”, é permitir-nos entender “fenômenos emergentes“… – como ‘vida‘,  e “redes sociais“. A “complexidade” nos impede de usar a física fundamental, para fazer previsões a nível elevado … de modo que em vez disso, estimamos as previsões. 

A ‘emergência‘ permite-nos fazê-lo com sucesso – tratando-se assim, por suposto, daquelas ciências de nível mais complexo.

Tanto a teoria quântica quanto a relativística não têm qualquer privilégio em relação a outras teorias sobre ‘propriedades emergentes‘. Nenhuma delas pode jamais apropriar-se das outras. – Cada uma tem implicações lógicas para outras…mas, nem todas implicações podem ser formuladas – pois trata-se de propriedades emergentes de seus domínios. Não obstante, não há razão para depreciar as ‘teorias de nível elevado’… – De fato, os próprios termos nível elevado e nível inferior são enganadores. — As leis da biologia, por exemplo, são consequências emergentes de níveis elevados de leis físicas. — Logicamente, porém … algumas dessas leis sãoinversamente — consequências “emergentes” das leis biológicas. Poderia até ser que…entre elas – as leis que regem os…fenômenos biológicos, além de outros fenômenos emergentes, definissem totalmente leis fundamentais da física. Entretanto, quando 2 teorias se relacionam logicamente…a lógica não dita qual delas que determina, no todo ou em parte, a outra…Isso depende das ‘relações explícitas’ entre elas.

As teorias verdadeiramente ‘privilegiadas’, não são as que se referem a qualquer escala particular de dimensão ou complexidade, nem aquelas          que se situam em qualquer nível particular da “hierarquia presumível”,  mas sim…as teorias que contêm as…”explicações mais profundas“.

Tanto para ‘reducionistas’ quanto para ‘empiristas’, a base da hierarquia de previsibilidade da física é por definição a “teoria de tudo”. Mas, o saber científico consiste basicamente, de explicações…e, a estrutura destas não reflete a “hierarquia reducionista”. – Há explicações em todos os níveis da hierarquia… – Muitas delas são ‘autônomas‘… referindo-se apenas a conceitos desse nível particular. Outras envolvem deduções na direção oposta à explicação redutiva. Isto é, explicam coisas não as analisando em partes menores e mais simples, mas encarando-as aspectos de coisas maiores e mais complexas, sujeitas a ‘teorias explicativas’.

A expectativa é que uma ‘teoria de tudo‘ herde praticamente toda              sua estrutura explicativa: conceitos físicos, linguagem, formalismo matemático, e a forma das suas explicações… das atuais teorias do “eletromagnetismo” … “forças nucleares” … e…”gravidade“.

Dessas teorias há 2 na física que são consideravelmente mais profundas, que todas as outras. A primeira é a teoria geral da relatividade, nossa melhor teoria do espaço tempo, e gravidade. A outra…a teoria quântica…é ainda mais profunda. Estas duas  teorias fornecem o quadro de referência explicativo e formal pormenorizado…dentro          do qual, todas as outras teorias da “física moderna” se expressam… – além de conter princípios físicos de alcance geral – aos quais…todas as outras teorias se conformam.

A unificação da teoria geral da relatividade…com a teoria quântica…fornecendo umateoria quântica da gravidade… tem sido um expressivo projeto dos físicos teóricos,    desde há várias décadas – sendo que…graças à extensão de suas ramificações – para      além da física, a teoria quântica é considerada a mais profunda; por isso é uma das 4 linhas principais, que compõe a nossa compreensão atual da ‘estrutura da realidade’.

Esta, por suposto, não consiste apenas de ingredientes reducionistas como espaço, tempo, partículas; mas, também de…pensamento, informação, vida e outras coisas às quais essas explicações se referem. O que torna uma teoria mais fundamental – e, menos derivativa…não é sua proximidade da base supostamente previsível da física – mas…sua proximidade das nossas teorias explicativas mais profundas…A teoria quântica é uma dessas teorias.  Mas as outras 3 linhas principais de explicação…através das quais tentamos compreender a estrutura da realidade, são todas, do ponto de vista da física quântica, de nível mais alto. 

São elas…”teoria da evolução” (organismos vivos); “epistemologia” (conhecimento);  e “teoria da computação“. Descobrimos conexões tão profundas e diversificadas entre os ‘princípios básicos’ destas 4 aparentemente independentes áreas, que ficou impossível chegar à melhor compreensão de cada uma delas, sem que se compreendesse as outras 3.  Todas elas…tomadas conjuntamente…formam uma estrutura explicativa coerente – com um alcance tão grande e abrangendo parcela tão importante da nossa compreensão do mundo…que a consideramos…apropriadamente, a primeira genuína “Teoria de Tudo“.

richard-dawkins1Assim, chegamos a um momento da história das ideias, em que o domínio do nosso saber passa a ser plenamente universal…com suas explicações formuladas sob o extenso “pano de fundo” da ‘universalidade’, e todas novas ideias tendendo a iluminar não apenas uma área particular… mas – em graus diferentes, todas as áreas… – possíveis…e, imaginárias.

Não é apenas a física…ou mesmo…a ciência que está aqui sendo unificada – e explicada; são também…potencialmente…os domínios    da filosofia…lógica…matemática…política… ética…e estética tudo mais compreendido hoje e talvez… muito mais… do que ainda nem tivemos a oportunidade… de conhecer.

Sendo assim…concordaria em rejeitar a – ‘proposição inicial de que o crescimento do conhecimento está tornando o mundo cada vez menos compreensível, mesmo pensando que a questão realmente importante — não é se o que a nossa espécie particular entende, pode ser compreendido por cada um dos seus membros. – Mas, antes…se a estrutura da realidade em si, é mesmo unificada e inteligível...E, há todas as razões para crer que sim.

David Deutsch, do livro “The Fabric of Reality”, 1997                                                                  (Tradução Desidério Murcho) fev/2012 (texto base                                    ***************(texto complementar)***************

“Teoria da Informação Quântica”                                                                                        A teoria quântica poderia mostrar a interface entre a matemática e o mundo físico.

qubit

Quantificando QUBITS… Uma unidade de informação quântica (qubit) pode ser representada como um ponto em uma superfície esférica. Os ângulos formados pelo raio da esfera para este ponto podem ser usados para calcular as probabilidades do qubit ao ser medido se tornar 0 ou 1.

A ‘mecânica quântica’ surgiu na década de 20 para descrever o comportamento ‘bizarro‘ dos átomos e elétrons… – Já a ‘teoria da informação’ só foi aparecer 2 décadas depois… No coração da ciência da “informação quântica”…se encontra, embutido um modelo de representação da informação conhecido como ‘qubit‘.

Ele é análogo ao 1 e 0, processados por computadores comuns… os ‘bits‘. Mas um qubit está dentro do ‘universo quântico‘, por isso pode ser 1 e 0…ao mesmo tempo. Essa “superposição” de identidade dá à “informação quântica” um efetivo “poder extraordinário”.

Quebrar códigos envolve solucionar o complicado problema matemático…de encontrar fatores primos de um nº enorme…com centenas de dígitos. Mas, como descobriu Peter Shor, em 1994… algoritmos do computador quântico conseguem solucionar isso – e as implicações são enormes; como afirma o físico John Preskill… Fatoração é um difícil problema clássico, mas os ‘algoritmos de Shor’ provam que, quanticamente… é fácil”.

Em outras palavras, o processamento de informações quânticas revela algo sobre a relação matemática com a ‘realidade física’ – algo antes não imaginado…Porém, alguns problemas matemáticos são difíceis, até quanticamente. – Entendê-los poderia nos dar uma noção do tipo de “computação matemática” – possível no “Universo Físico”. E um desses problemas  que está sendo estudado pelo cientista Scott Aaronson – é a “tese de Church-TuringEla, em suma, indica que qualquer coisa que possa ser computada por um sistema físico…pode também ser computada por um computador universal…chamado “máquina de Turing“.

“Essa entretanto, é uma falsa afirmação sobre as leis físicas. Ela                  expressa a crença de que…se estas leis forem como um código de computador, então…qualquer linguagem de programação para                  leis da natureza poderia emular qualquer outra lei”. (Aaronson)

Mas, as ideias de Shor atestam que os computadores quânticos poderiam fazer coisas que uma máquina de Turing não conseguiria. – Nesse caso, ou a computação quântica é irreal (o que não parece muito provável), ou a tese de Church-Turing… – no que tange o mundo físico está incorreta… (a não ser que exista uma forma do computador comum…simular a física quântica)… – Ninguém provou isso…mas seria uma incrível descoberta matemática.

Uma descoberta igualmente incrível seria identificar o princípio físico que exige que a realidade obedeça às regras da mecânica quântica. No começo, os pioneiros quânticos visualizaram a matemática que funciona, e que exige o estranho conceito de múltiplas realidades possíveis. Mas, a questão do porquê matemática tão bizarra funcionava tão   bem era deixada de lado. – Porém ultimamente, a aventura em busca de um princípio físico pelo qual a mecânica quântica funciona tem ganho força…e indubitavelmente, a informação quântica tem sido o motivador desse fenômeno. (texto base) abr/2012  ********************************************************************************

A “Teoria do Construtor” (jul/2013)                                                                                Quando se fala em solucionar mistérios do Universo – normalmente se pensa em achar a melhor resposta para uma pergunta…Mas, e se estivermos fazendo as perguntas erradas?

Um pioneiro na computação quântica, David Deutsch, da Universidade de Oxford, passou grande parte de sua carreira, buscando novos modos de fazer perguntas sobre o Universo.  Sua perspectiva para esta tão esperada ‘Teoria de Tudo‘, que tem a pretensão de descrever a natureza da realidade — une ideias em…cosmologia…filosofia…computação…e evolução.  Argumenta-se que essa… — tão esperada teoria… — poderia solucionar vários mistérios fundamentais, como por que o tempo flui apenas em uma direção – uma propriedade que não é exigida pela maior parte das leis físicas…já tendo sido até mesmo demonstrado, por exemplo, que…eventos quânticos independem do espaço e do tempo. E, agora, Deutsch acaba de publicar um aperitivo, mostrando o gosto que essa sua teoria poderá ter quando completa, abrindo um “livro de receitas”…que pode apontar para um novo rumo da física.

“Regras de transformações”                                                                                                    Se a “Teoria Construtor” puder mostrar quais transformações são permitidas…e            quais não são, isto poderia explicar os próprios fundamentos da mecânica quântica.

De acordo com Deutsch – o problema com as teorias atuais – é que elas não explicam adequadamente por que algumas transformações entre “estados de ser” são possíveis,          e outras não Nós sabemos, por exemplo, que a tinta pode se dissolver na água, mas          não se junta espontaneamente de novoo que não sabemos é por que deve ser assim.  Deutsch propõe uma estrutura construída sobre as próprias transformaçõesem vez        de focar nos componentes em transformação. Chamado “Teoria Construtor”, este modelo define um construtor — como algo que cause transformações em sistemas físicos sem que ele próprio seja alterado; algo parecido com um ‘catalisador químico’.

O pesquisador então pergunta, quais transformações devem                          ser descartadas — para que se consiga atingir determinado                resultado‘, independentemente do construtor que as causou. 

Para Vlatko Vedral, colega de Deutsch em Oxford … essa visão pode ser considerada uma generalização da segunda lei termodinâmica. Esta lei abrange a propriedade da ‘entropia’, que estabelece que a ordem leva à desordem em um sistema fechado. A entropia, por sua vez, implica que não podemos “voltar no tempo” … porque isso implicaria que a “matéria desordenada” … poderia se mover em direção à ordem. – A “chave” da Teoria Construtor, seria descobrir por que tal transformação é proibida… Segundo Vedral, ao fazer esse tipo de pergunta, Deutsch parece querer aplicar a noção de que, para todas leis físicas, alguns estados…simplesmente são inacessíveis, a partir de outros Para Deutsch, fundamentar tais bases poderia explicar por exemplo por que as leis da mecânica quântica são tão rigorosas de modo que, pequenas variações em sua descrição…podem levar a enormes contradições, como à violação da velocidade da luz… — Diz ele: “Tão logo modificamos a mecânica quântica, algo dá errado; por que isso?”Mas Vedral sabe bem disso, já tendo proposto uma “recriação mútua” entre a Física Quântica e Matrixalém de ter estudado implicações práticas, do tipo que define que… deletar dados pode resfriar computadores.

O que Deutsch parece buscar…é uma teoria que vá além de uma visão computacional  do Universo – analisa Seth Lloyd físico e engenheiro mecânico do ‘MIT’ (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), ele próprio coautor da hipótese formulada junto com Deutsch, de que ‘máquinas do tempo do futuro’ podem ser detetadas hoje. (texto base********************************************************************************

“Imaginação Artificial”(“Aprendizado de captura zero”)                                          “Não se pode depender dos olhos, quando a imaginação está fora de foco” – Mark Twaininteligência-artificial

A inteligência artificial depende de dados de treinagem para desenvolver sua capacidade de reconhecer objetos, mas não consegue ainda, como os seres humanos, intuitivamente deduzir a classificação provável para um objetoque não estava em seu banco de dados.

Mas isso pode estar começando a mudar…Projetado para aprender a desviar-se das informações conhecidas…um algoritmo de imaginação para inteligência artificial mostrou-se capaz de identificar objetos antes ocultos a partir de descrições escritas.            O algoritmo assim, abre caminho para uma ‘imaginação artificial’ e a automatizada classificação de novas espécies de plantas e animais. Sobre isso, Mohamed Elfeki (‘Universidade Central da Flórida’) e Mohamed Elhoseiny (“KAUST”) comentaram:

“A imaginação é uma das principais propriedades da inteligência                    humana, que permite não apenas gerar produtos criativos, como                  arte e música…bem como também, entender o…mundo visual“.

A ideia dos 2 pesquisadores foi estabelecer o contato com o ‘desconhecido’ por meio de        uma descrição escrita, embora a expectativa seja que, no futuro, a inteligência artificial possa “imaginar” por meio da inferência ao ver algo semelhante a um objeto conhecido.    O resultado atual é uma versão do chamado algoritmo ZSL (“Zero-Shot Learning”), ou aprendizado de captura zero; referência ao aprendizado de máquina, sem treinamento.  Segundo Elhoseiny: “Nós modelamos o processo de aprendizado visual para categorias ‘não vistas’, relacionando o ZSL à criatividade humana, observando que o ZSL lida com reconhecer o invisível … enquanto a criatividade lida com criar um invisível agradável”.  Na criatividade…algo novo – agradável ou “desejável” – deve ser diferente de uma arte anterior, mas não tão diferente que seja irreconhecívelDa mesma forma, o algoritmo modela um sinal de aprendizado que incentiva indutivamente o desvio, em relação às classes já vistas, mas não vai tão longe a ponto da classe imaginada se tornar irreal, ou perder a transferência de conhecimento das classes já vistas. Como explicou Elhoseiny:  “Uma das aplicações possíveis dessa abordagem … é na identificação de desconhecidas espécies. A ‘inteligência artificial’ baseada nessa tecnologia…pode relatar avistamentos      de espécies sem fotos, apenas usando descrições linguísticas”. (texto base) jan/2020 *******************************************************************************

Inteligência artificial…”gerando hipóteses

Há décadas…computadores têm ajudado cientistas a armazenar, processar e analisar dados…De modo  crescente … no entanto, a explosão de novos dados e instruções…tem mudado o “panorama científico”. Com o contínuo avanço tecnológico…ampliando o poder computacional … estes poderão passar — de simples analisadores de dados…a formuladores de hipóteses…área até então…exclusiva aos humanos.

Assim, já sendo úteis para armazenar, manipular e analisar dados, o progresso tecnológico está deixando os computadores prontos para darem o próximo passo…Para James Evans e Andrey Rzhetsky, da Universidade de Chicago, EUA — os computadores brevemente serão capazes de gerar hipóteses sem dependeremou dependendo muito pouco da ajuda dos humanos. E, de fatoos computadores estão se tornando cada vez mais independentes.  Com técnicas da inteligência artificial os programas computacionais seguem integrando conhecimento com os dados experimentais…localizando padrões e relações lógicas … para assim, permitir o surgimento de novas hipóteses … com muito pouca intervenção humana.

Esse passo (de libertação) poderia ser dado, profetizam os pesquisadores, dentro de 10 anos, quando poderosas ferramentas entrarão em cena, para automaticamente gerar hipóteses e conduzir experimentos maiores e mais complexos, com grande impacto em inúmeras áreas da ciência – tais como física…química…biomedicina e…ciências sociais.

Muitos pesquisadores defendem que o grande volume de dados gerados por experimentos científicos como a genética, a biologia, ou as colisões de partículas, está deixando obsoleto o mecanismo de geração de hipóteses, e seus testes experimentais. A explosão de dados em ‘experimentos de alto rendimento’ … faz os cientistas se depararem com sistemas cada vez mais complexos, fazendo com que ‘algoritmos de mineração’ se tornem adequados, na captura de padrões – dentre terabytes de dados. E assim, questões igualmente numerosas e complexas serão indispensáveis pois sem consistente informação sobre seu ambiente, o mais provável, é que os dados sejam classificados incorretamente. (texto base) jul/2010

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
Esse post foi publicado em física, filosofia e marcado , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Uma Crítica da Realidade (por David Deutsch)

  1. Cesarious disse:

    *******************(2 vídeos c/legendas)********************************

    1) ‘our place in the cosmos‘ (ted/talks)
    David Deutsch coloca a física teórica em ‘banho-maria’ para discutir um assunto mais urgente: a sobrevivência de nossa espécie. O primeiro passo para resolver o aquecimento global, diz ele, é de admitir que há um problema. http://www.ted.com/talks/david_deutsch_on_our_place_in_the_cosmos

    2) A new way to explain explanations (ted/talks)
    Durante dezenas de milhares de anos, nossos ancestrais entenderam o mundo através de mitos, e o ritmo das mudanças era glacial. A ascensão do entendimento científico transformou o mundo em um período de poucos séculos. Porque? O físico David Deutsch propõe uma resposta sutil. 
    http://embed-ssl.ted.com/talks/lang/pt-br/david_deutsch_a_new_way_to_explain_explanation

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