Método Científico (da Grécia ao Maracanã)

“A ciência é um sistema de relaçõesde onde se extrai sua objetividade.                              Assim, ela nos faz conhecer… não a natureza das coisas… mas sim,                              das verdadeiras relações entre elas”. H. Poincaré — “O valor da Ciência”

Parthenon, Athens, Greece

“Parthenon” – Atenas, Grécia

Vamos nos permitir alguma liberdade criativa, e imaginar um ‘alienígena‘ … recém chegado à Terra… que – interessado em conhecer nossos costumes, decide ir ao ‘Maracanã’ assistir uma partida de futebol. – Certamente…no início da partida, o ‘ET‘ ficaria bastante confuso, vendo todos aqueles jogadores… – correndo atrás de uma bola – e muito intrigado…ao ver como as pessoas se tornam “tão sensíveis“, quando ela se aproxima daquelas redes — localizadas nas extremidades do campo… — Mas, ao longo da partida…vendo que alguns lances se repetem,  tendo sempre o mesmo desfecho…a partida é interrompida…sempre quando a bola sai dos limites traçados no campo), ele então…talvez formulasse algumas “hipóteses” sobre o jogo:

“Será que o objetivo é enviar a bola o mais distante possível?” … ele talvez pensasse, após assistir um infeliz chute de fora da área; “ou, quem sabe, o objetivo seja matar o humanoide que carrega a bola”, pensaria ao ver um zagueiro aplicando uma “tesoura voadora”…no pescoço de outro jogador.

É quase certo que, após algum tempo observando a partida; e depois de vários palpites errados, o visitante extraterrestre fosse capaz de compreender a maior parte das regras     do nosso futebol. – Pois bem, nós somos como este ‘alienígena’. – Estamos imersos no grande “jogo da natureza”…tentando entender suas ‘regrasSerá que tudo o que sobe desce?… Porquê coisas têm cor?… Será que a posição que os corpos celestes ocupavam, quando de nosso nascimento, afetam nossa personalidade?… Para Richard Feynmann:

 “Entender a natureza… – é como aprender a                                                          jogar xadrez…somente assistindo a partida”.

O Jogo da Natureza                                                                                                                      “A inteligência nos permite analisar fenômenos observados — e procurar ‘leis mecânicas da causalidade’. A intuição nos permite entender porque tais descobertas da inteligência estão integradas num conhecimento mais geral. Intuição e inteligência portanto não são opostas, elas se distinguem e se complementam”. (Henri Bergson…‘Le temps et la durée’)

prof. Ludovico (Walt Disney)

prof. Ludovico (Walt Disney)

Mas, ainda que nossa metáfora seja didática — não é completa, pois nela, o ‘ET’, passivamente, assiste o desenrolar dos lances na partida…e propõe hipóteses, que se considerarmos que se repitam … — serão verificadas. Porém… nós não somos meros expectadores da natureza, mas participamos dela, vivendo e interagindo – experimentando. 

Entretanto, a ideia de realizar um experimento para testar uma hipótese é muito recente (não mais de 500 anos), pois os filósofos gregos, que há mais de 2500 anos começaram a investigar o mundo de forma racional e sistemática – achavam que a natureza só poderia ser compreendida pelo uso da razão e do intelecto; desdenhando assim a…”experiência.

Já hoje em diasabemos que, antes de mais nada, para tentar compreender o “jogo da natureza, é preciso acreditar que há ‘regras’ a serem entendidas e cumpridas. Assim, como nosso visitante ET não podia ter certeza de que os jogadores não estavam ao acaso, correndo atrás da bola, ou que as regras não mudariam do 1º ao 2º tempo…nós também não temos certeza de que a natureza possua uma determinada ordem…e que esta ordem seja imutável Tudo o que temos são fortes evidências disto. Por exemplo, toda vez que encostamos algo quente em algo frioo frio esquenta, e o quente esfria. Tem sido assim desde que o homem é capaz de se lembrar… e em todos lugares do Universo aonde já foi capaz de estender sua visão… Mas nada garante à ciência que amanhã continue sendo assim; ou que seja assim em todo lugar desconhecido do Cosmo… Portanto, para existir,    o método científico parte-se do ‘princípio da imutabilidade‘ dos processos naturais; ou, segundo o filósofo Karl Popper…”princípio da uniformidade da natureza“; ou ainda segundo Albert Einstein… Deus pode ser malicioso, mas não maldoso“.

Admitindo-se – portanto… a existência de uma ordem universal e imutável,                          torna-se possível prever o comportamento da natureza – sendo este o mais                          importante passo do método científico no que concerne à experiência física.

http://adm-graduacao.blogspot.com.br/2012/06/introducao-pesquisa-cientifica-deducao.html

O “Método Indutivo”  Dedução é a forma de raciocínio — que extrai,              uma verdade particular                de uma “verdade geral”.

Ao observar que todo homem e toda mulher… — cedo ou tarde, morrem — pode-se estabelecer uma “regra geral… “todo ser humano é mortal”… Esta forma de raciocínio lógico, que extrai uma ‘verdade geral’, a partir de uma observação particular… é chamada “indução.

A partir desta ‘lei natural‘ estabelecida pela observação do mesmo resultado repetidas vezes…pode-se deduzir que…se Fulano é um ser humano…e todos seres humanos são mortais; então Fulano é mortal!…Note-se porém, que o método indutivo é totalmente apoiado na repetição da experiência…e na “crença” na “imutabilidade” dos processos naturais…e, nesse caso, apresentando portanto…uma limitação. – Ao estabelecermos    uma…”regra geral” – a partir de um certo número de observações… surge a pergunta:

Quantas observações serão suficientes para justificar esta regra?…            Cem, mil…milhões?…Como podemos saber, se temos o nº suficiente              de observações, e… em “condições suficientemente variadas“,            para poder então alegar que uma tal regra, seja de fato universal?

Este problema foi contornado por Karl Popper com o conceito de “falsificabilidade”, segundo o qual uma hipótese só é considerada científica se for ‘falseável’…isto é…se        por meio de algum experimento real ou imaginário for possível provar sua falsidade.

O “método de Popper”                                                                                                                “O problema da induçãoé que nunca argumentamos,                                                          passando… – ‘diretamente’ – dos fatos…para a teoria”.

A hipótese “Deus existe” não é uma hipótese que possa ser julgada pela ciência – pois não existe nenhuma experiência imaginável que possa provar que… “Deus NÃO existe”. Por outro lado, as hipóteses: “O tempo passa mais rápido em lugares altos”, e “O futuro pode ser previsto pela posição dos astros no céu”…são falseáveis, estando assim, dentro   do escopo da ciência… Qual a vantagem disto?… – Uma mudança de atitude. Em vez da ciência se basear em observações que reforçam uma teoria…passa a buscar observações que a falsifiquem. – Quanto mais a teoria sobrevive a esta busca, maior nossa confiança em sua veracidade. Ou seja, não mais existem teorias comprovadas…apenas teorias que ainda não foram derrubadas. E, provar que uma dada teoria está errada é o melhor que pode acontecer, pois só assim a ciência progride. Portanto, ao contrário do que muitos pensam… – o objetivo dos cientistas não é defender o “status quo“, ou proteger as leis científicas contra contestações. – Seu objetivo, é justamente, tentar contestar estas leis!

etapas-do-metodo-cientificoHipóteses… leis… e teorias…      “Quando uma hipótese reúne um nº considerável de evidências…obtidas por pesquisadores independentes – já pode então ser promovida à lei, e talvez – originar uma…nova teoria”. 

O ‘método científico‘ começa com a observação da natureza…Com base no “pensamento indutivo“…formula-se uma ‘hipótese‘…que nada mais é do que uma ‘crença‘  que se supõe ser verdadeira…A partir daí, deve-se ‘testar a hipótese‘ – ou seja, utilizá-la… para verificar o fenômeno que explica… e, mais importante…prever novos fenômenosPara testar a hipótese, costuma ser necessário um ‘experimentoque, em um ambiente controlado, possa quantificar o “fenômeno“. Independente do resultado, tal experimento só é válido…se puder ser reproduzido…nas mesmas condições“… Se a hipótese se confirma uma vezpode estar correta.  Se a hipótese se confirma um grande nº de vezesela deve estar corretaSe a hipótese não se confirmadeve ser reformuladapara ser testada outra vez.

Uma ‘lei‘, para a ciência… é um estatuto que explica de forma simples e concisa (por isso, geralmente é enunciada de maneira matemática) — sendo um fato bem estabelecido pela ciência, com hipóteses bem testadas e validadas… — Entre as leis físicas mais conhecidas estão a “Lei da Gravidade”, e as 3 “Leis de Newton”. — Já uma teoria’ é um conjunto de explicações sobre um certo tipo de fenômeno… ou, um grupo de fenômenos semelhantes.  Por exemplo…a ‘Lei da Gravidade é bem curtinha e simples — ela diz que os corpos se atraem com uma força — proporcional às suas massas… e, inversamente proporcional ao quadrado da distância entre si. Por outro lado, a “Teoria da Gravitação” é muito mais ampla e complexa, e faz uso desta lei para explicar fenômenos com atração gravitacional.

http://www.bulevoador.com.br/2012/11/o-conflito-criacionista-e-evolucionista-no-brasil/

A validade das leis físicas

É curioso que, como as palavras ‘teoria e ‘lei‘… têm no cotidiano, significados tão diferentes — as pessoas, normalmente, tendem a achar que teorias…são menos válidas que leis…Defensores do criacionismo (uma seita, que defende que a Terra…foi criada por Deus em 6 dias) dizem que   a ‘Teoria da Evolução é “só uma teoria, e assim…não pode ser ensinada nas escolas”… Não caia nesse truque retórico.

Uma teoria é tão consistente quanto uma lei. O que muda é só                          o escopo, e abrangência de cada uma; e não… sua “validade”. 

O que chamamos de “leis da natureza“…não são leis, no sentido usual da palavra…Veja a “Lei da Gravidade”, por exemplo. Alguém se equilibra sobre uma corda estendida entre 2 arranha-céus…e logo se diz que está “desafiando a lei da gravidade”…quando na verdade, não poderia fazer o que faz, se não fosse por ela. Leis da física não podem ser ‘desafiadas’, como as leis legisladas em nosso mundo. Uma lei física é um “estatuto“…do qual temos forte sensação de verdade – por, até o momento, não ser experimentalmente contestado.

Já quando diversas hipóteses servem para explicar o mesmo fenômeno…e prever mesmos  resultados, a ciência prefere adotar a hipótese mais simples. Neste caso, por mais simples, se entende a que usa o menor nº de suposições, ou introduzam o menor número de novas entidades na ciência… Afinal, quanto menor nº de suposições possíveis, é menos provável se descobrir mais tarde que uma delas estava errada (método da ‘Navalha de Ockham‘)

Conclusão: Se, por um lado, este estado das coisas assegura aos cientistas que nenhuma verdade está livre de contestação, por outro, nos impede de assumir qualquer saber como final e definitivo. Uma lei física, ou uma verdade científica, nada mais é, portanto, do que um ‘estado de repouso do conhecimento’…(o que é um pensamento um tanto pessimista). De qualquer modo, esta postura do método científico enraizada em sua própria definição, é o que nos faz garantir a contínua investigação do conhecimento humano… (texto base ***********************************************************************************

Epistemologia, Ontologia & Metafísica                                                                              Ontologia é o núcleo da Metafísica que se dedica a definir e categorizar o                            que é tratado tanto por ela (Metafísica)…quanto pela Ciência; bem como                        pesquisar os valores existenciais…ético e estético…daquilo que se estuda. 

pensadorA Epistemologia que de um ponto de vista mais amplo, pode equivaler a uma “Filosofia do Conhecimento“… — busca confirmar se as ‘assertivas’…postuladas   a respeito das ‘relações observadas’ nas formulações dos ‘conceitos ontológicos’ são válidas — e, por que critérios posso considerar que assim o sejam… Dentro    do contexto do “conhecimento”… e sua validade gnoseológica, a falseabilidade científica é ‘prescrição epistemológica’.

Ontologia é a parte da filosofia que se dedica ao estudo das características mais gerais do Ser… em sua essência – independente do modo pelo qual se manifesta. – Contudo, noções básicas… – como sistemas, campos, referenciais, movimento, interação, massa, carga, etc. são incluídas numa “Ontologia Física”…Bem como na Biologia… – temos as noções gerais de vida, organismo, indivíduo, etc… – como fazendo parte de uma…”Ontologia Biológica”.

De certa forma a ‘ontologia‘ procede a uma categorização da realidade, estabelecendo não só os limites dos conceitos…mas também verificando a que categoria de realidade estes se encaixam. E como categorias de realidade… tem-se a realidade física, abstrações e valores, o mundo psíquico, o social, o cultural…e até, o “sobrenatural”…que mesmo que não exista (se assim o for)…pode ser “categorizado” – pela consideração de sua hipotética existência.  Contudo, é preciso não confundir ideias e conceitos, referentes a entidades inexistente na natureza, ou no mundo social e cultural…com o fenômeno desconhecido… “sobrenatural”.

ser ou não ser2A Metafísica (incluindo Ontologia) é mais ampla. Trata-se do objeto de estudo…de tudo o que não se enquadre como algo natural em primeira instância (ciências naturais), ou segunda instância (ciências sociais)…Ética, Estética, Epistemologia, Ontologia, Lógica, Matemática e Geometria, por exemplo, são metafísicas; ao contrário de Astronomia, Geologia, Cosmologia, Física, Química, Biologia, Linguística, Psicologia, Economia, Política, História… e outras.

A Metafísica, na verdade, não se aplica apenas ao estudo de ‘entidades sobrenaturais’, mesmo que se ocupe de sua conceituação e existência. Ela estuda os fundamentos da realidade – por conceitos, valores e relações básicas. Não se pode dizer que seja uma ciência – não apenas pela generalidade de seus objetos de estudo…mas também pela “metodologia de abordagem”… Enquanto, mesmo ao serem abordadas teoricamente,        as ciências buscam, empiricamente validar suas proposições… a Metafísica não o faz,    pois suas proposições transcendem à verificação experimental. No entanto, o fato de trabalhar por meio do raciocínio e reflexão – não impede à Metafísica, de verificar a ‘validade‘, e ‘propriedade’ de suas proposições… muito em função de uma analise da consistência interna do próprio conjunto, e sua aplicabilidade à realidadetexto base *******************************************************************************

hasty generalizationA ‘Salvação’ pelo Método científico (set/2013)

Tudo o que pode ser considerado “ciência“, utiliza um “método científico”…um conjunto de atividades sistemáticas e racionais que culminam na aquisição de conhecimento válido e verdadeiro. – Tal método deve auxiliar as decisões dos cientistas, definindo o caminho certo a seguir, e os possíveis erros a evitar.

A utilização de um método científico não se restringe apenas à produção de conhecimento científico. Podemos (e devemos) usar tais métodos… em vários momentos de nossas vidas. Por exemplo, na 1ª vez que tentamos fazer um bolo de chocolate ele não fica macio. Lendo a respeito, descobrimos que uma das causas pode ser a falta de fermento…Na 2ª tentativa, aumentamos a quantidade de fermento (experimentação) e o bolo fica bom…Desse modo, qualquer problema – a qualquer momento…pode ser resolvido com o “método científico”.

O “método indutivo”                                                                                                                    Não há um só método científico…além do indutivo,                                                                      há o dedutivo, o hipotético-dedutivo… e o dialético.

Indução é um processo mental por intermédio do qual, partindo de dados particulares suficientemente constatados, infere-se uma verdade geral ou universal, não contida nas partes examinadas…Portanto, o objetivo dos argumentos indutivos é levar a conclusões cujo conteúdo é bem mais mais amplo … do que o das premissas nas quais se basearam.

Uma característica que não pode deixar de ser assinalada, é que o argumento indutivo,      da mesma forma que o dedutivo, fundamenta-se em “premissas“. No entanto, se nos dedutivos – premissas verdadeiras levam inevitavelmente à conclusão verdadeira; nos indutivos, só trazem ‘conclusões prováveis‘…por exemplo: vida em outros planetas.

Outro exemplo: Cobre conduz energia. Zinco conduz energia. Cobalto conduz energia.  Ora…cobre, zinco e cobalto são metais. – Logo (todo) metal conduz energia (sic).

Conclusões a respeito do “método indutivo”:

  1. de premissas com informações sobre casos ou acontecimentos observados — passa-se para uma conclusão com informações sobre casos ou acontecimentos não observados;
  2. passa-se…dos indícios percebidos – a uma realidade desconhecida…por eles revelada;
  3. o caminho de passagem vai do particular ao mais geral – dos indivíduos… às espécies;
  4. a extensão dos antecedentes verificados, é menor do que a da conclusão generalizada;
  5. quando descoberta uma relação constante entre 2 propriedades ou fenômenos, passa-se à afirmação de uma relação essencial, universal e necessária entre acontecimentos.

Leis, Regras e Fases do Método Indutivo

Toda indução realiza-se em 3 etapas fundamentais (fases). Como 1º passo, observamos atentamente certos fatos ou fenômenos. A seguir…o classificamos…agrupando os fatos ou fenômenos da mesma espécie… de acordo com a relação que se nota entre eles. – Para finalmente… – chegamos a uma generalização dessa relação…por nós então observada.

  1. observação dos fenômenos – nessa etapa, observamos os fatos/fenômenos,              e… os analisamos, com a finalidade de descobrir as causas de sua manifestação;
  2. descoberta da relação entre eles – na 2ª etapa, por comparação, tentamos aproximar esses fatos/fenômenos – buscando uma relação constante entre eles;
  3. generalização da relação – nessa etapa generalizamos a relação encontrada,      para todos os eventos semelhantes; muitos dos quais, inclusive…’inobserváveis’.

As etapas (fases) e as regras do método indutivo – repousam em                                        “leis” (determinismo) observadas na natureza, segundo as quais:

  1. “dentro das mesmas circunstâncias – mesmas causam… produzem mesmos efeitos”;
  2. “o que é verdade de muitas partes do sujeito, é verdade a todo esse sujeito universal”.

O “princípio do determinismo” da natureza…sobre o qual fundamenta-se    a indução… muito mais notável no domínio das ciências físicas e químicas, do que nas áreas biológica…psicológica    e sociais…é um problema da ‘filosofia das ciências’… — Sendo assim… cabe notar que a utilização daindução“, em conformidade com esse…”ponto de vista”, leva à formulação de 2 questões:

1. Como justificar inferências indutivas?

Temos expectativas de que exista certa regularidade nas coisas – e por issoo futuro … seria sempre como o passado.

2. Qual a justificativa para a crença de que o futuro será como o passado?

São, principalmente, as observações feitas no passado…Por exemplo: se o sol vem “nascendo” há milhões de anos, pressupõe-se que “nascerá” amanhã. Portanto, as observações repetidas, feitas no passado, geram expectativa de certa regularidade              no que se refere a fatos e fenômenos… – Dessa forma…analisando-se vários casos singulares do mesmo gênero (por constância das leis naturais) estende-se a todos              eles as conclusões baseadas nas observações iniciais (princípio do determinismo).

Formas de Indução

a) Completa ou formal, estabelecida por Aristóteles Não induz de alguns casos,          mas de todos, sendo cada um dos elementos inferiores comprovado pela experiência.
Exemplo: Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo têm 24 horas. Por serem dias da semana…todos os dias da semana têm 24 horas. Como esta espécie de indução não traz novos conhecimentos (é estéril)… não passando de um processo de colecionar coisas já conhecidas… e assim – sem importância ao progresso da ciência.

b) Incompleta ou científica, criada por Galileu e aperfeiçoada por Francis Bacon.      Não deriva de seus elementos inferiores…enumerados ou provados pela experiência,      mas permite induzir, de alguns casos observados (sob circunstâncias diferentes, sob        vários pontos etc.), e às vezes… de uma única observação – aquilo que se pode dizer (afirmar ou negar) dos restantes da mesma categoria. Portanto, a indução científica fundamenta-se na causa ou na lei que rege o fenômeno ou fato – constatada em um número significativo de casos (um ou mais) … mas não em todos. — Como exemplo:

Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão  não têm        “brilho próprio”… – Ora… Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão são planetas… – Logo…”todos os planetas não têm brilho próprio”.

Regras para uma indução incompleta:

  1. os casos particulares devem ser provados e experimentados na quantidade suficiente (e necessária) para que se possa dizer (ou negar)…tudo o que for legitimamente afirmado;
  2. com a finalidade de poder afirmar – com certeza…que a própria natureza da coisa (fato ou fenômeno) é que provoca a sua propriedade (ou ação) – além de grande quantidade de observações e experiências… é também necessário analisar/destacar a possibilidade de variações provocadas por ‘circunstâncias acidentais’…Quanto ao aspecto do método indutivo necessitar de muitos casos…ou de um só… segundo os filósofos Morris Cohen, e Ernest Nagel…autores do livro… – “Introduccion a La Logica y Al Metodo Cientifico”:

“Mesmo sabendo que nunca podemos estar totalmente seguros de que um caso verificado seja uma amostra imparcial de todos casos possíveis… em determinadas circunstâncias, a probabilidade de sua exatidão é bem alta (quanto mais homogêneo o objeto). Assim, pela representatividade da amostra, pode-se repetir poucas vezes o experimento”. (texto base) ***********************************************************************************

O método em debate — a necessidade (ou não) da prova…para certas teorias    Controvérsias no meio da física e da cosmologia, põem em questão o método científico. George Ellis e Joseph Silk criticam cientistas que deixam de lado a confirmação empírica, alegando que certas teorias só precisariam ser suficientemente elegantes e explicativas.

Será que os físicos precisam de evidência empírica para confirmar suas teorias?…Por tradição, a resposta deveria ser um “sim!” intransigente, dado que a ciência funciona através da confirmação experimental de ‘hipóteses’. – É como aprendemos o método científico na escola – uma hipótese sobre como funciona o mundo, por mais absurda          que pareça – se bem formulada, merece ser testada no laboratório – ou…no caso das ciências astronômicas…por meio de observações telescópicas. Mas é lógico que há nuances aqui. Por exemplo, podemos afirmar que teorias nunca são definitivamente “certas” – sendo descrições provisórias do que podemos aferir da natureza. Segundo          esse prismao papel da ciência é provar que teorias estão erradas – substituindo-as          por outras teorias que funcionem provisoriamente…De qualquer modo, sem o “teste empírico” fica impossível averiguar a “plausibilidade” de umahipótese científica.

hipótesePor mais de 400 anos, essa metodologia vem…”dando conta do recado”Porém, uma controvérsia nas fronteiras entre a física e cosmologia vem questionando o método científico, na elaboração dessas teorias, sugerindo que talvez, a questão não seja assim tão fácil…quanto parece.

No início deste ano, George Ellis e Joseph Silk 2 pesquisadores de renome internacional, publicaram um ensaio na “Nature” com o título “Método Científico: Defenda a Integridade da Física”. – Nele…os autores criticam alguns cientistas que vem deixando casualmente de lado a necessidade de confirmação experimental‘…no estudo de certas ambiciosas teorias cósmicas, alegando ser suficiente que essas teorias sejam “elegantes e explicativas”. Ellis e Silk alertam que, mesmo nas fronteiras do conhecimento, o trabalho desses cientistas está rompendo uma tradição filosófica de séculos, que define o saber científico como empírico.

E assim, Ellis e Silk expressam a preocupação de muitos cientistas. Afinal,    o método científico dá credibilidade à ciência. Sem ele, como garantir que hipóteses sobre a natureza não passam de ‘fantasias’?… – Como defender    a ciência em situações politizadas…como no caso do aquecimento global?

Como chegamos nesse impasse? De certo modo, a descoberta sensacional do bóson de Higgs 3 anos atrás por pesquisadores do ‘CERN’…trabalhando no ‘LHC’, marcou o fim      de uma era…Com a existência prevista em meados da década de 1960, o elusivo bóson        era a peça que faltava, naquilo que os físicos chamam de “Modelo Padrão” da física de partículasteoria matemática que descreve todas partículas de matéria conhecidas, e    suas interações através das 3 forças que agem sobre elas (eletromagnetismoe forças nucleares fraca e forte). Completando essa descrição, a 4ª força (gravidade) não entra.

Dificuldades no “Modelo Padrão”

Quando a possibilidade de uma ciência sem validação empírica, surge para assombrar a consciência dos físicos – é hora do “Modelo Padrão” se renovar – apesar de seu enorme sucesso. A verdade é que, por mais de meio século, cientistas tentam ir além do Modelo Padrão — criando teorias com o objetivo de unir a ‘gravidade‘ ao mundo das partículas. Apesar de uma busca vigorosa … por vários experimentos espalhados pelo mundo…seu sinal de evidência empírica, hoje se resume  a certas partículas exóticas…e no estudo do decaimento interativo do “bóson de Higgs”. 

A ‘supersimetria’: teoria matematicamente elegante, prima da “supercordas”, que até poderia solucionar a questão da…”matéria escura” – incluindo também uma possível contextualização dos “grávitons”, a qual muitos pesquisadores estavam confiantes de        ser confirmada assim que o LHC entrasse em funcionamento, afirmando mesmo que:        A natureza não perderia uma chance dessasaté o momentonão teve qualquer de        suas partículas – previstas por teoria, detetada. Se o LHC não achar ao menos a mais    leve delas – muitos cientistas jogarão a toalha – declarando a “supersimetria” (e, por extensão – sua prima “supercordas”) mais uma bela ideia na física que não deu certo.

Mas, mesmo assim, muitos não entregarão os pontos, optando por redefinir seus modelos, de forma que as massas dessas hipotéticas “partículas supersimétricas” sejam tão grandes, que escapariam à deteção no LHC, ou algum substituto em um futuro próximo. Todavia, a possibilidade de redefinição dos parâmetros que definem os modelos teóricos (comopor exemploa massa das partículas supersimétricas) leva a uma questão filosófica essencial: Como determinar a validade de uma teoria…se não podemos testá-la experimentalmente? Será que esta deve ser abandonada – simplesmente porque – com a tecnologia disponível em um determinado momento – é impossível encontrar “evidência empírica” a seu favor?

Nesse caso, quanto tempo devemos esperar por novas tecnologias                  antes de aposentar uma teoria?…Quando é que devemos parar de                  reajustar parâmetros… para tentar manter uma teoria viável?

O time contrário, no entanto, tem suas objeções Considere uma teoria que explica o que podemos detetar supondo a existência de entidades inobserváveis (como outros universos ou as dimensões extras das teorias das supercordas). Qual o status que devemos atribuir a essas entidades? Devemos considerá-las tão reais quanto as partículas do Modelo Padrão?   É bom lembrar dos “epiciclos”, os círculos imaginários que Ptolomeu propôs por volta de 150 d.C. para descrever o ‘movimento planetário’…Mesmo sem qualquer evidência de sua existência, epiciclos explicavam satisfatoriamente o que os astrônomos da “Grécia Antiga” observavam nos céus. Com isso, muitos os consideravam reais, e assim passaram-se mais de 1.500 anosaté que começassem a ser vistosnada mais do que uma ferramenta, que possibilitava o cálculo das órbitas planetárias. – Será que as ‘supercordas’ e o ‘multiverso’, frutos de algumas…”mentes brilhantes”…não passam de versões modernas dos epiciclos?

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College‘,          Hanover (EUA). – Este texto é uma versão ampliada do publicado pelo autor…em coautoria com o físico Adam Frank, no “The New York Times” jun/2020 (texto base****************************(texto complementar)*****************************

                            Navalha de Occam

“Pluralitas non est ponenda sine neccesitate”…ou…”pluralidade não deve ser colocada sem necessidade”…William of Ockham, filósofo (1285-1349).

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Assim como muitos Franciscanos – William de Ockham era um…minimalista – na sua própria vida. — Batendo-se a esse propósito com o Papa João XXII, como São Francisco, acabou sendo excomungado – respondendo a isso com um ‘Tratado’ – onde afirma ser o Papa, um herético. O que é conhecido como Navalha de Occam era um principio comum  na filosofia medieval… – não originado por Occam… – todavia, devido ao frequente uso do princípio‘…seu nome ficou “indelevelmente” ligado a ele… O uso deste – “principio da pluralidade desnecessária” ocorre pelo próprio Occam, em vários ‘debates medievais’.  Por exemplo, ao citar Aristóteles, Occam afirma que: “Quanto mais perfeita uma natureza; menos meios necessita, para a sua operação”. – Este princípio tem sido usado por ateístas, para rejeitar a hipótese de um Deus-Criadora favor da “evolução natural”… “Se um Deus Perfeito tivesse criado o universo, suas partes seriam muito mais simples”Occam porém, alegou que uma teologia natural é impossível: “Teologia natural usa a razão para entender Deus em oposto à teologia revelada, que se baseia nas revelações da sagrada escritura“.

De acordo com William de Ockham, a ideia de Deus não é estabelecida por evidências experimentais ou de raciocínio. Tudo que sabemos de Deus nos   é dado pela revelação. O fundamento de toda a teologia é, portanto… a fé.

Deve-se notar também que…enquanto alguns usaram a “navalha…eliminando todo “mundo espiritual”…Ockham não aplicou tal…”principio da parcimônia” aos artigos            da fé… Tivesse-o feito, e poderia ter reduzido a Trindade a uma única Pessoa. Com        efeito, Ockham em filosofia foi um tipo de minimalista, advogando o ‘nominalismo‘,        contra o “realismo“. E assim, propôs que…fora da mente, os universais não existem:

“Universais são só palavras…cujo significado usamos                                            para nos referir a… categorias – e suas propriedades”.

Os ‘realistas’ afirmavam que, não só há objetos individuais, e os nossos conceitos desses objetos, como também há os ‘universais‘… – Já Ockham achava que eram demasiadas pluralidades… “Não necessitamos de universais para explicar qualquer coisa”… – Para nominalistas e realistas existe Sócrates (o “individuo”)… – e, nosso conceito de Sócrates. Mas, para os realistas existem também ‘realidades’… – como a humanidade de Sócrates, sua animalidade, etc. Assim…qualquer qualidade que possamos atribuir a Sócrates, tem uma correspondente “realidade”, um “universal” ou ‘eidos’… – como Platão denominou.  Em relação aos…”universais”…Ockham pode ser considerado cético. Para ele…“Não são necessários para a lógica, epistemologia ou metafisica, portantopara quê assumir esta pluralidade desnecessária?”. Sendo assim, Platão e os realistas podiam ter razão. Talvez haja um eidos de realidades universais que sejam eternos modelos imutáveis de objetos individuais. Mas não precisamos postular tal explicação – a indivíduos, conceitos, ou ao nosso saber. O eidos de Platão é um peso (metafisico e epistemológico) desnecessário.

Pode ser argumentado que George Berkeley aplicou a ‘navalha de Occam’ para eliminar a “substância material” como uma pluralidade desnecessária… – “Só precisamos da nossa mente e nossas ideias para explicar tudo”.  No entanto, Berkeley era um pouco seletivo no seu uso da navalha… Lembrem-se que ele precisou de postular Deus como… “a Mente que ouve a árvore cair na floresta…quando ninguém está presente”… – Já os ‘Idealistas Subjetivos’ podem usar a navalha para se livrarem de Deus – supondo que tudo pode ser explicado pelas nossas mentes e ideias – caminhando assim…em direção ao “solipsismo“. 

O ‘princípio minimalista’                                                                                                          “Haicai não é síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo de palavras.                    É antes…a arte de… – com o mínimo… – obter o suficiente”. (Paulo Franchetti)

navalha-de-occamA “navalha de Occam” é também chamada “principio da parcimônia”. Hoje em dia é interpretada como: ‘a explicação mais simples é a melhor’; ou ainda … “não aumente hipóteses desnecessariamente”Ao longo de  sua prática … a Navalha é usada frequentemente fora da “ontologia”, por filósofos da ciênciano esforço    de estabelecer critérios à escolha de ‘uma‘, entre várias teorias de igual teor explicatorio.

Podemos postular o ‘éter‘ para explicar uma “ação à distância”,                      mas, não precisamos dele para explicar a existência do ‘vácuo‘.

Sendo a navalha de Occam algumas vezes chamada de “principio da simplicidade“,  alguns apressados argumentaram que ela podia ser usada para apoiar o ‘criacionismo‘ em detrimento da “evolução”…Contudo, Ockham não estava querendo dizer que quanto mais ‘simplória’ a hipótese…melhor… – ele se preocupava mesmo…era em reduzir as hipóteses.  O ‘principio original’ parece ter sido invocado no contexto de uma crença, na noção de que a…”perfeição“…é a ‘simplicidade’ (principio metafisico com origem na “filosofia grega“). Porém a maioria de nossas disputas, não são acerca de “princípios”, mas do que conta como necessário. – Assim, para os…“materialistas”…evitava-se multiplicarem-se “pluralidades” em vão…Para os “dualistas” – postular uma mente…bem como um corpo é necessário. Desse modo, para os…”ateístas” – postular Deus e algo sobrenatural é uma pluralidade desnecessária, enquanto para os “teístas“…postular Deus é uma necessidade.

Com efeito, talvez a “navalha de Occam” diga pouco para os teísta e ateístas na questão se…Deus é necessário…ou não – sendo nesse caso…de pouca utilidade. Por outro lado,    se a navalha de Occam significa que, quando uma pessoa racional é confrontada com 2 explicações… – uma implausível e outra provável…deva escolher a provável – então…o principio parece desnecessário, pois é óbvioPorém, se o principio é verdadeiramente minimalista, isso então parece implicar que quanto mais reducionismo melhor…Sendo assim, seu principal uso parece ser dilacerar a “ontologia” (metafisica que trata do Ser). 

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Método Científico (da Grécia ao Maracanã)

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