Linde x Hawking…(a “Batalha Cósmica da Criação”!)

“Uma Teoria de Tudo jamais se estabelecerá com sucesso sem levar em conta a interação entre realidade e observador…incluindo aí, a presença de uma consciência como fator de construção do universo”… (Andrei Linde)

A batalha é – na verdade… uma “discordância científica” entre o  renomado professor de física da Universidade de Stanford/EUA, Andrei Linde…e o emérito físico Stephen Hawking (Cambridge).

O motivo (…ou pretexto) – é uma nova teoria referente à origem do universo — recém-anunciada por Hawking… e seu colega N. Turok.

Nessa teoria…eles propõem que o universo começou como um ‘instanton‘, ou seja, um coquetel de espaço, tempo, matéria e energia (do tamanho de uma ervilha) que, ao ‘explodir’, se tornou um universo infinito, que se expande para todo o sempre.

Já Linde, defensor da teoria do ‘caos quântico‘, utiliza os efeitos do ‘tunelamento‘ para contestar, e complementar a teoria cosmológica, com a possibilidade do universo gerar a si próprio. — Essa discussão entre as ideias de ‘Tunelamento‘ (Linde) e ‘Confinamento‘  (Hawking/Turok), pode nos dar a chave para a singularidade – semente cósmica que germinou o que conhecemos como Big Bang.

Como tudo começou

Em 14 de março, Turok escreveu no diário londrino “The Telegraph” a possibilidade sobre o que eles consideravam – uma descoberta muito interessante a cerca do início do nosso universo, a qual nos levará para muito perto de uma teoria de tudo”… Contudo, Linde não se convenceu. Ele achava que alguns dos cálculos matemáticos tinham sido aplicados de forma incorreta…e que o método empregado geraria, portanto…a criação de universos vazios – com tanta escassez de matéria e energia, que impossibilitaria a formação de vida.

Durante as semanas seguintes  —  através da Internet… a troca de críticas e contra-argumentos entre Linde, Hawking e Turok se intensificou, na forma de ensaios de artigos… – que aguardam publicação nos periódicos de física.

Cientistas, frequentemente, têm esse tipo de debate, quando da validade de novas teorias. É um de seus mecanismos favoritos para descobrir erros — e desenvolver explicações…as melhores possíveis, para uma grande variedade de fenômenos. Mas, 2 aspectos tornam o debate Linde X Hawking excepcional. Um deles é o assunto: nada menos que a origem e   o destino do universo. O outro, é a cobertura da mídia.

Impulsionado pelo status de celebridade de Hawking, o ‘London Telegraph’, a revista ‘Science’, e o ‘Manchester Guardian’ ofereceram a seus leitores um vislumbre dessa apaixonada disputa — que acabou chegando a Stanford…
 
Stephen Hawking's home page

[Stephen Hawking’s home page]

A  convite de Linde, em uma palestra a 23 de abril, Hawking descreveu a sua … (e de Turok) proposta. Usando um sintetizador de voz, ele assim resumiu       suas ideias, em um superlotado Auditório Central:
 

Nos últimos 40 anos…a maior parte dos cientistas passou a aceitar a ideia de que o universo começou há cerca de 14 bilhões de anos — em uma uniforme ‘sopa primordial’ de energia…que, imediatamente, começou a se espandir, no assim chamado modelo ‘Big Bang’

À medida que se espalhava – a sopa esfriava, permitindo que, da energia surgisse matéria, se aglutinando em estrelas e galáxias…

Essa argumento explica – satisfatoriamente, a atual evidência astronômica de expansão do universo. E, também pode explicar a constatação observacional de que o céu está… – totalmente preenchido – com um brilho uniforme em microondas…o ruído fóssil deixado por um período inicial, quando o universo era muito mais quente…ou seja, a ‘radiação cósmica de fundo…E, além disso…a teoria do big bang também é capaz de prever — com exatidão…a abundância relativa do hidrogênio, deutério, hélio e lítio – os elementos estáveis mais leves na natureza…

Muitos cientistas, simplesmente, assumiram que o universo contém…exatamente, a quantidade certa de matéria, de forma a que sua atração gravitacional seja grande o suficiente para desacelerar…e, eventualmente, interromper a expansão do Universo, resultando, em consequência, num universo plano…

Isso equilibra o universo precisamente entre 2 diferentes tipos de destinos. Um pouco mais de matéria e o universo seria fechado (um objeto viajando em linha reta, por fim, retornaria ao ponto de partida). – Tal universo expande-se até um ponto, para então, invertendo o rumo, começar a se contrair…

Um pouco menos de matéria, por outro lado, e o universo é aberto…ou seja, ilimitadose expandindo para sempre…

Hoje… — fortes evidências astronômicas sugerem que     o universo contém, apenas, cerca de 1/5 da quantidade de matéria necessária para neutralizar sua expansão…     E eu pensei por muitos anos, que… – simplesmente… algo havia sido ignorado…ou seja, que havia matéria suficiente para estabilizar o universo”, confessou Hawking.

Em 1983, Hawking colaborou com James Hartleda Universidade da Califórnia, para desenvolver um método alternativo para a origem do universo. Eles chamaram a teoria   de proposta sem fronteiras“…porque retrata o universo como emergindo, com um tamanho finito…do espaçotempo imaginário. Contudo, a abordagem foi amplamente ignorada, provavelmente, porque estivesse limitada a ‘universos fechados’.

Assim, Hawking se interessou quando Turok sugeriu que havia uma maneira diferente de se abordar a sua proposta, que poderia produzir universos abertos, em vez de fechados. A chave para esta nova abordagem é uma outra ideia cosmológica…denominada ‘inflação.

http://comunidade.sol.pt/blogs/jmfc/archive/2012/12/04/Um-antes-do-Big_2D00_Bang.aspx

teoria inflacionária de Guth

Proposta simultaneamente em Moscou e EUA… – a teoria inflacionária postula que…na 1ª fração de segundo em sua existência o universo teria passado   por um período de fantástica expansão. Tal período teria surgido, devido a condições que propiciaram à força de gravidade agir de modo repulsivo, ao invés     de atrativo… – Tal reversão causaria uma expansão incrivelmente rápida…com grandes quantidades de matéria e energia criadas consequentemente.

A ‘teoria inflacionária‘ ajuda na explicação de algumas características importantes do universo atual… incluindo sua extrema uniformidade. Se você pegar um pedaço muito pequeno de um objeto – mesmo muito heterogêneo…e expandi-lo até que ele se torne muito grande, ele se tornará também muito homogêneo.

Do mesmo modo, a uniformidade extrema da radiação de fundo observada, pode ser explicada se…inicialmente, o conjunto de todas partes do universo visível … estivessem suficientemente perto — para se comunicarem entre si.

A  inflação também pode dar conta das ondulações“… necessárias para explicar como a estrutura do universo atual poderia ter surgido, a partir de um concentrado perfeitamente uniforme de energia. Estas ondulações eram ‘flutuações quânticasmicroscópicas…que se expandiram até o tamanho de galáxias.

Inicialmente… a inflação foi relacionada a uma condição chamada ‘falso vácuo‘. – Esta é uma condição em que o espaço vazio adquire uma carga extra de energia…Linde, no entanto, libertou o modelo inflacionário desta limitação, mostrando que ela pode ser produzida apenas pela presença de um tipo especial de campo, chamado ‘campo escalar‘… o qual, físicos de partículas têm usado para explicar o surgimento da massa de partículas.
 

Hawking e Turok aplicaram uma destas técnicas em sua teoria…Isto permitiu-lhes aplicar o processo “instanton” para produzir um minúsculo “universo bolha” que,         sob a ação inflacionária, se expandiria para sempre.

“Este é um desenvolvimento lógico da ideia de Andrei… Eu não sei             ainda se ele concorda… – mas suponho que sim” disse Hawking. 

Andrei Linde's home page

[Andrei Linde’s home page]

Linde…por sua vez…numa palestra que proferiu a um grupo teórico da universidade de Stanford, na sexta-feira anterior, elogiou Hawking… mas, com ressalvas. Para ele a abordagem Turok/Hawking tende a produzir universos… praticamente vazios de matéria e energia.

Para resolver o problema, eles utilizam o famoso princípio antrópico”… considerando apenas universos capazes de abrigar vida… – o que lhes permite então, ignorar os universos vazios… em função daqueles com matéria…  —  Como assim explicou Linde:

“Mesmo se beneficiando do princípio antrópico, Hawking e Turok prevêem para o universo…uma densidade de matéria pelo menos 20 vezes menor do que dizem as observações”.

Hawking e Turok, por seu lado, afirmam que serão capazes de ajustar a sua abordagem para a produção de universos mais massivos… Entretanto, Linde também questionou a forma como foram utilizadas as equações Hartle-Hawking…a base da ‘proposta sem fronteiras’. Segundo ele:

Estas equações não representam a probabilidade do surgimento de um determinado tipo de universo… Em vez disso, elas descrevem a condição de estado fundamental do universo, a qual é como estivesse completamente vazio. Stephen tem muita confiança nessa abordagem matemática básica…a qual ele tem usado várias vezes com grande eficácia…Mas, é preciso ter certeza de que a matemática está aplicada corretamente. Neste caso, minha intuição diz que isso não foi feito.

Linde defende… — para a origem do universo…uma abordagem diferente, chamada “hipótese de tunelamento. Apesar de ser muito semelhante … à abordagem ‘Hartle-Hawking’, utiliza um método diferente – no cálculo da probabilidade de criação do universo.

Para Linde… o método pode ser útil na produção de uma ampla gama de universos abertos, e inflacionários…   E, afirma ele… — “Minha conclusão     é que o método antigo para a criação de um “universo aberto”… — ainda é o melhor”

Na opinião de Hawking, por outro lado, a ‘hipótese de tunelamento‘… – “ou não é bem definida, ou fornece as respostas erradas, criando multiversos onde pequenas flutuações levariam, inevitavelmente, a universos instáveis”.

Essa disputa deve levar um bom tempo antes de ser resolvida. – O mecanismo de Turok e Hawking prevê um padrão específico de flutuações no fundo cósmico de microondas, que poderá ser detetável por meio de 2 satélites … – a serem lançados nos próximos anos – a Sonda da NASA de Anisotropia de Microondas, em 2000… e o telescópio em microondas Planck, da Agência Espacial Européia, com lançamento previsto para 2006.

“Considero Stephen meu amigo – e, espero que possamos continuar amigos depois que tudo isso acabar. Ele várias vezes chegou a conclusões surpreendentes que, a princípio, pareciam erradas, porém, em vários casos estavam certasSó temos que esperar para ver qual será o resultado dessa vez” … concluiu Linde. ## ‘texto base’ ## (29/04/1998) 

p/ consulta: ‘The Universe from a Pea’ # ‘O Fim do Mundo’ # ‘Wormhole Emaranhado’  **********************(texto complementar)***************************************

Gênese & Apocalipse…                                                                                                                  “O universo não pode ter existido para sempre. Sabemos que deve ter havido um começo absoluto em um tempo finito no passado”. (Paul Davies)

O ‘Apocalipse’ pode ser comparado ao livro do ‘Gênesis’. Neste, lemos que ao ajuntamento das águas, Deus chamou Mares (Gn 1.10). No Apocalipse lemos que o mar já não existe (Ap 21.1). No Gênesis, a velha terra foi punida por um dilúvio (Gn 7.12). No Apocalipse… a nova terra será purificada pelo fogo (Ap 21.1; cf 2P 3.6-12). No Gênesis a 1ª casa do homem ficava às margens de um rio (Gn 2.10). No Apocalipse, a eterna casa do homem ficará às margens de um rio… — “E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal que procedia do trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22.1). No Gênesis, Satanás aparece para atormentar o homem por algum tempo (Gn 3.1)… — No Apocalipse, Satanás desaparece… ele próprio sendo atormentado para sempre (Ap 20.10).

O estoque de energia disponível no universo é finito — e não pode durar pela eternidade. Isso é exemplo da chamada ‘2ª lei da termodinâmica’…a qual aplicada ao cosmos inteiro, prediz que ele está travado em um declive unidirecional de degeneração e decomposição, rumo a um estado final de entropia máxima, ou de desordem. – Uma vez que esse estado final ainda não foi alcançado…deduz-se que o universo não tenha existido por um tempo infinito.

Mesmo que essa dificuldade fosse ‘ciclicamente’ evitada, um universo oscilando desde a eternidade passada exigiria um ajuste infinitamente preciso das condições iniciais, para conseguir persistir ao longo de um nº infinito de recuperações sucessivas. Um universo ricocheteando de uma contração única e infinitamente longa é… se a entropia aumenta durante a fase de contração, termodinamicamente insustentável, e incompatível com a baixa entropia da condição inicial da nossa fase de expansão.

Postular a diminuição da entropia durante a fase de contração apenas para escapar desse problema exigiria que postulássemos condições de baixa entropia inexplicáveis durante a fase de recuperação de um universo infinitamente evolutivo… — Em ambos os casos, um universo assim envolveria um ajuste fino radical de tipo especialíssimo … — no qual as condições iniciais estão estabelecidas a priori.

Linde e a Inflação Caótica                                                                                          Modelos inflacionários representam a tentativa de explicar a incrível homogeneidade, e isotropia em larga escala do universo… – Na maioria desses modelos, ao se extrapolar o retrocesso no tempo para antes da Era Inflacionária, o universo continua a encolher até uma singularidade cosmológica inicial’.

A teoria inflacionária, apesar de criticada por alguns como “metafísica”, é aceita de modo geral entre os cosmólogos… No Modelo ‘Inflacionário Caótico’ de Linde, a inflação nunca  termina — cada domínio inflacionado do universo… ao alcançar certo volume, dá origem, via inflação, a outro domínio, e assim por diante, ad infinitum.

inflacao-caotica

Modelo inflacionário caótico. O universo mais amplo produz, via inflação, domínios separados que continuam a perder-se um do outro à medida que o universo mais amplo se expande.

O modelo de Linde tem portanto, um futuro infinito. Porém, Linde preocupa-se com a possibilidade de um ‘começo absoluto‘… e diz:

“O aspecto mais complicado do problema não é a existência da singularidade em si … mas sim,   a questão sobre … o que existia antes dela… Um problema que jaz na fronteira da metafísica.”

Por isso, ele propôs que a inflação caótica… — não somente não tem fim … como também não tem começo. Cada domínio no universo é produto da inflação de outro domínio de modo que a singularidade é evitada, e com isso, evita-se também a questão acerca do que veio antes (ou, mais precisamente…do que a causou).

Talvez fosse possível contornar o aspecto singular do universo observável – postulando-se uma regressão infinita de domínios inflacionários anteriores. Mas, em 1994, Arvind Borde e Alexander Vilenkin mostraram que um universo eternamente inflacionário, caminhando para o futuro, não pode ser geodesicamente completo no passado… — o que significa dizer que é indispensável que tenha existido uma singularidade inicial em algum ponto passado.

Eles argumentaram que… – um modelo no qual a fase inflacionária não tem fim, leva naturalmente à pergunta… – seria possível estender também esse modelo ao passado infinito, evitando-se assim o problema da singularidade inicial?… – Isso…na verdade,     não é possível em espaços-tempos inflacionários de futuro eterno, uma vez que estes obedecem a algumas condições físicas razoáveis; tais modelos têm obrigatoriamente        de possuir singularidades iniciais. O fato dos espaços-tempos serem preteritamente incompletos força que se lide com a questão acerca do que (‘exatamente’) veio antes.

Em 2001, Borde e Vilenkin, em cooperação com Alan Guth, conseguiram fortalecer esse teorema, elaborando um novo, independente da chamada hipótese “condição de energia fraca”, que os partidários da ‘inflação eterna’ teriam negado…em esforço para salvar sua própria teoria…O novo teorema, nas palavras de Vilenkin… “parece fechar totalmente a porta”.

Assim, espaços-tempos inflacionários com futuro eterno não podem ter passado eterno, tendo de envolver limites iniciais, e um começo absoluto do universo… Vilenkin explica:

“Costuma-se dizer que argumento é aquilo que convence homens racionais… e, prova é o que consegue convencer até o homem irracional. Com a prova, agora os cosmólogos não podem mais se esconder atrás da possibilidade de um universo com passado eterno. Não há como fugir do problema de uma origem cósmico”.

Viagens para outros universos

Em busca de uma alternativa, alguns teóricos têm especulado que, no futuro o universo deverá passar por um tunelamento quântico que levará a um estado radicalmente novo. Por exemplo, se atualmente o universo estivesse em estado de ‘falso vácuo‘, sofreria no final um efeito de ‘tunelamento‘ para um “estado de vácuo”…com mais baixa energia.

fig4

Se for achado atualmente em estado de falso vácuo, o universo passará posteriormente por um efeito túnel que o levará a um estado de vácuo verdadeiro, o que resultará em metamorfose da natureza.

Na passagem por essa ‘fase de transição’, todas as constantes físicas mudariam de valor, e surgiria um universo totalmente novo.

Talvez fosse possível levantar a hipótese de que, caso tal transição ocorresse em algum ponto do passado finito… – após um lapso infinito de tempo … isso daria ao universo sua atual aparência energética…

Porém… mesmo que essa transição tivesse acontecido, a probabilidade dos valores de todas constantes se reduzirem…à variação estreitamente ‘inimaginável‘… – acessível à existência da vida é quase nula (…ajuste fino cósmico).

Por isso, é altamente improvável que a constelação de constantes físicas que permitem a existência da vida seja o resultado acidental de uma ‘fase de transição’ de um estado de vácuo com nível mais alto, cerca de 14 bilhões de anos atrás.

Com efeito, ainda que existisse qualquer probabilidade diferente de zero de um estado metaestável tunelar para um estado de vácuo real — então … considerando-se o tempo passado infinito…isso já deveria ter ocorrido num passado infinitamente distante, não somente 13,8 bilhões de anos atrás; tornando-se assim, mais uma vez inexplicável por   que o universo ainda não estaria morto.

Especulações sobre as possibilidades de nosso universo gerar futuros “universos-filhos” também são levantadas nas discussões cosmológicas. Conjectura-se que talvez os buracos negros sejam portais de buracos de minhoca através dos quais bolhas de energia de vácuo podem tunelar para desovar novos universos em expansão, cujos cordões umbilicais para nosso universo sejam rompidos futuramente quando os buracos de minhoca se fecharem, deixando o ‘universo-filho’ existir independentemente… em espaço-tempo.

universo-ilha

Um universo-filho desovado pelo seu universo-mãe torna-se depois um espaço-tempo desconectado e causalmente isolado.

Talvez seja possível imaginar que nosso “universo observável” seja apenas um, desses descendentes recém-nascidos, de um universo pré-existente… – na eternidade.

A conjectura da possibilidade de nosso universo gerar filhos… por meio desse mecanismo foi o alvo de uma aposta entre Hawking, e James Preskill… em razão da qual – em 2004…Hawking finalmente admitiu, em evento bastante divulgado pela mídia, que tinha perdido. A conjectura requer que a informação trancada em um ‘BN’…perca-se totalmente para sempre ao escapar para outro universo.

Hawking, de fato, finalmente concordou que a teoria quântica exige que a informação seja preservada na formação e evaporação do ‘BN’… As implicações?…ele comentou… “Não há qualquer universo-filho se ramificando como se pensou anteriormente. A informação se mantém firmemente em nosso universo. Lamento desapontar os fãs de ficção científica, mas, sendo a informação preservada, não há possibilidade de usar os ‘buracos negros’ em viagens para outros universos”.

Hereditariedade cósmica

Mesmo que Hawking estivesse errado sobre o tema, a pergunta persiste… – seria possível tal cenário ser extrapolado com sucesso para o passado, de modo que nosso universo seja um dos universos-filhos desovados pela matriz… ou por uma série infinita de ancestrais?

Parece que não, pois…embora esses universos-filhos pareçam buracos negros aos observadores no universo-mãe, o observador no próprio universo-filho verá o big bang como um buraco branco jorrando energia…o que está em gritante contraste           com nossa observação do big bang, como um evento de baixa entropia… — numa   estrutura geométrica altamente comprimida.

E, mais uma vez…não está claro o que salva a sequência infinita de descendentes cósmicos da consequência da 2ª lei da termodinâmica. Uma vez que essas conjecturas especulativas não conseguem esclarecer o problema… — parece que somos deixados com a conclusão de que o universo não é eterno…

E que o big bang representa o começo absoluto do universo, exatamente como se dá em seu ‘modelo padrão’… — e a “baixa entropia” representa, simplesmente, uma ‘condição inicial’.

De fato, a termodinâmica pode oferecer boas razões para ratificar a realidade da origem singular do espaço-tempo postulada pelo modelo padrão… – Como diz Roger Penrose:

“Cheguei gradualmente à visão de que é realmente equivocado requerer que as ‘singularidades’ do espaço-tempo da relatividade clássica devam desaparecer – quando as técnicas da teoria do “campo quântico” forem  aplicadas. — Pois…se a singularidade cosmológica inicial for removida, então perderíamos, o que me parece…a melhor possibilidade que temos para explicar o mistério da 2ª lei da termodinâmica”.

O mistério da baixa entropia

O que Penrose tem em mente é o fato notável que… – à medida que se retrocede no tempo, a entropia do universo decresce invariavelmente…O quanto isso é incomum pode ser visto na fórmula “Bekenstein-Hawking” para a entropia de um buraco negro estacionário… — A entropia total observada do universo é calculada em 10e88. Considerando-se que há cerca de 10e80 bárions no universo, a entropia observada por bárion tem de ser muito pequena.

Por contraste, em um universo em desintegração a entropia perto do final seria 10e123. A comparação desses 2 números revela quão absurdamente pequeno é 10e88 em relação ao que deveria ter sido inicialmente… – Nesse sentido…a estrutura do big bang deve ter sido gravemente reprimida para que essa termodinâmica tenha aumentado exponencialmente.

Portanto, como é possível explicar essa condição inicial especial?…De acordo com Penrose, precisamos da singularidade cosmológica inicial para fornecer a coerção sobre a geometria inicial…cujo efeito produz um estado de entropia muito baixa. – Em comparação com uma teoria simetricamente temporal, e livre de singularidade… deveríamos ter buracos brancos jorrando material… — o que está em contradição… — tanto com a 2ª lei da termodinâmica, quanto com a observação. Penrose apresenta a seguinte figura para ilustrar essa diferença:

bigs

Contraste do universo como o conhecemos (considerado fechado) com um universo mais provável. Em ambos os casos, o big crunch é singularidade com entropia alta (~10e123), não comprimida. Na figura à esquerda, o big bang é singularidade inicial com entropia baixa (<1088), altamente comprimida, ao passo que a imagem à direita mostra um big bang não comprimido e muito mais provável. As “estalactites” representam as singularidades dos buracos negros, e as “estalagmites” representam as singularidades dos buracos brancos.

A agulha no palheiro                                                                                                               Se removermos a singularidade cosmológica inicial … estaremos de volta ao                       ponto em que estávamos em nossas tentativas de entender a origem da 2ª lei’.

Poderia a geometria especial inicial ter surgido bruscamente por acaso na ausência de uma singularidade cósmica?… A resposta de Penrose é decisiva… — ele calculou que… visando a uma fase espacial, cujas regiões representam várias configurações possíveis do universo, “a precisão do Criador” teria de ser de uma parte em 10e10e(123)… para a existência do nosso universo. E ele comenta:

“Não me lembro de ter visto na física nada cuja precisão conhecida              se aproxime, nem mesmo remotamente… de uma cifra como esta”. 

Nesse caso, a singularidade cosmológica inicial talvez tenha uma necessidade termodinâmica virtual. – A consequência disso, nas palavras de Paul Davies, é que,       com base nas propriedades termodinâmicas cósmicas…somos obrigados a afirmar,         que a condição de entropia baixa do universo foi…de algum modo… simplesmente “introduzida” na criação como uma condição inicial (a priori).

Antes da criação, diz Davies, o universo simplesmente não existia. Essa conclusão tem implicações metafísicas profundas, porque o começo do universo é o ponto em que ele literalmente passou a existir… O universo não foi uma transição do nada, para alguma coisa… – antes, ao contrário… passou a existir ‘absolutamente’.

No entanto… se existe uma impossibilidade metafísica, é a de algo…passar a existir absolutamente — sem uma causa.

Existência procede apenas de existência… Portanto, é indispensável…haver uma causa “extramundana“… para o universo.

Tal causa deve transcender o espaço físico e o tempo…e, portanto, ser abstrata…(como números), e também plausível com a certeza de que… — a causa que criou o universo…também criou seu próprio cenário apocalíptico de iminente destruição.

Em suspensão…num vácuo metaestável

Já mencionei antes… que o universo está atualmente suspenso em falso estado de vácuo metaestável — portanto… em algum ponto no futuro, ele será inevitavelmente ‘tunelado’ para um estado mais baixo de energia, acarretando em uma completa metamorfose da natureza.

Por ser uma fase de transição quântica indeterminada, esse tunelamento     é imprevisível…e poderia acontecer, nas palavras de Adams e Laughlin… “praticamente a qualquer momento”.

Nessas regiões de transição, o vácuo verdadeiro começará a formar-se por todos os lugares do universo, semelhante ao modo como o gelo se forma na superfície de uma lagoa, exceto que nesse caso, as regiões de vácuo verdadeiro se deslocarão através do universo com uma velocidade absurda, próxima à da luz. — Esse ‘apocalipse cósmico‘ é descrito por Adams e Laughlin, da seguinte forma:

“Silenciosamente, e sem aviso de qualquer tipo, ele chegou…Toda estrutura cósmica devastada por ele quedou-se desincorporada e desfigurada no seu rastro. A destruição foi pavorosa…tanto por sua terrível velocidade, como pela sua devastação total.”

Assim, os valores das constantes físicas, as potências das forças fundamentais e as massas das partículas elementares mudaram…E o velho universo – com sua antiga versão das leis físicas, simplesmente deixou de existir… – Pois, dentro do novo universo…com suas novas leis físicas e novas possibilidades de complexidade e estrutura decorrentes, surge um novo recomeço. (William Lane Craig) (texto base) (livre adaptação)

Anúncios

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
Esse post foi publicado em cosmologia, física e marcado , , . Guardar link permanente.

9 respostas para Linde x Hawking…(a “Batalha Cósmica da Criação”!)

  1. Alemão disse:

    Desde quando comecei a ler sobre astronomia e astrofísica, aos 17 anos, me veio a idéia de que um buraco negro em nosso universo teria um quasar correspondente a ele num universo paralelo e vice-versa. E se o Big Bang fosse um gigantesco quasar oriundo de um também gigantesco buraco negro em algum universo paralelo, que acabou criando o nosso? Abraços.

    Curtir

    • Cesarious disse:

      olá Franz, olha, eu também acho que a “grande resposta” está se encaminhando nessa direção, citada por você, mas existem algumas considerações a fazer.
      Os quasares, ao que tudo indica, são objetos formadores de galáxias, e não de universos; agora, já existe uma teoria (do Nikodem Poplawski – físico polones), da qual eu concordo plenamente, identificando inclusive um limite (de 3.000 massas solares) para um superburaco negro colapsar num Big Bang…
      Portanto, você não está sozinho nessas suposições. Um grande abraço. (http://cienciaseadjacencias.blogspot.com.br/2011/03/o-que-havia-antes-do-big-bang-um-buraco.html).

      Curtir

  2. mirian disse:

    Muito bom!
    Suas contribuições teóricas Cesarious, são claras e instigante, mesmo para mim, apenas uma curiosa que associa a Física com a Psicanálise, como Freud o fez em sua época, ao explicar a Teoria da Pulsão de Vida e Pulsão de Morte. Penso se ele (Freud) tivesse tempo para acompanhar a evolução da Física, como estaria a Psicanálise hoje? Ao trabalhar a Sindrome de Pânico, imagino o paciente na época paleolítica. Penso no sentimento do homem pré-histórico, olhando o céu. O pânico sentido ao “ver” e “ouvir”, trovões e raios; por não entender o que se passa… Supõe-se que justificavam ser fruto de “espíritos malignos”… Desde então, o que é enígma e mistério cada vez mais deixa de ser entendido como “espíritos malignos”, cada vez mais deixa de “ser espírito” e muito menos “maligno”… O conhecimento apazigua… Contudo, nossas teorias, por mais fundamentadas que sejam, me parece são finitas mas suas fontes são infinitamente inesgotáveis. Penso que, segundo o que seja “o antes”, “o nada”, ‘o caos”, seja apenas mais uma “grandeza”(energia) a ser descoberta para esclarecer e apaziguar as inquietações da humanidade. O que a Física vem, desde sempre, esclarecendo.

    Curtir

    • Cesarious disse:

      Mirian, quando você diz “nossas teorias, por mais fundamentais que sejam, são finitas, mas suas fontes, inesgotáveis”, creio que essas fontes a que você se refere sejam fontes vitais, ou seja, a energia em comunicação (e compreensão), assim como estamos fazendo agora.

      Curtir

      • mirian disse:

        Me refiro a essa (comunicação) e à todas as fontes das quais as teorias se alimentam, porque elas são infinitas como o Universo, como sua matéria comprova… Sempre é possível compreender o incompreensível e de forma fundamentada, como o faz a Física. Bj.

        Curtido por 1 pessoa

  3. reginaldo disse:

    o que deu a briga do dois cientistas? quem está certo?

    Curtir

  4. Cesarious disse:

    essa briga me parece aquela entre Einstein e Bohr…na verdade, depende do ponto de vista, ou melhor, do tipo de abordagem, ou ainda, da amplitude do sistema. Se você quiser saber como o ‘nosso universo’ surgiu, eu recomendaria a ideia de Hawking (mesmo considerando a nossa ignorância sobre energia e matéria escuras)… mas , se numa visão mais ampla, nossa imaginação for capaz de visualizar um mecanismo de formação de universos, eu recomendaria a tese de Linde… (vale a pena também ler o texto complementar)

    Curtir

  5. Jane disse:

    This is a topic which is close to my heart… Best wishes!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s