Epistemologia da Complexidade (Bachelard & Morin)

“A existência de algo que não podemos penetrar; a percepção da mais profunda razão,   e da radiante beleza do mundo à nossa volta – que apenas nas formas mais primitivas nos são acessíveis… é esse conhecimento/emoção que constitui a legítima religiosidade. Nesse sentido…e só nesse… sou um homem profundamente religioso”. (Albert Einstein)globalização

A humanidade vive um complexo processo de transformações — atuando em escala global e local…integrando e conectando comunidades,    e as pessoas que as compõem… – em inéditas combinações de espaço e tempo…redefinindo as identidades, compreensões, e o ‘papel‘ dos indivíduos…Tal conjunto de mudanças, pode ser bem definido como… – globalização“;  fenômeno contemporâneo “multicultural“, resultado da tensão, entre a exigência de um reconhecimento da diferença e da igualdade.

Fomentada pela globalização — e, pelo multiculturalismo – brota uma nova reflexão acerca da filosofia e do papel que esta exerce sobre a ciência revisando seus fundamentos…e, mais que isto, seu dever  social — como garantia desta nova ordem.            Tal reflexão conduz às teorias de Gaston Bachelard e Edgar Morin…Seus estudos              sobre epistemologia, analisam os rumos da história…ao mostrar que, numa verdade circunstancial…a intersubjetividade, e a consensualidade… não asseguram a certeza.

A pretensão do presente estudo está voltada à ‘problematização’ do pensamento científico, e para tal, buscar-se-á a visão de ciência e construção do saber nos escritos desses autores,  uma vez que suas teorias convergem em muitos sentidos, dentre eles, à crítica de aspectos obsoletos da ciência clássica, e à afirmação de urgência, da construção de um pensamento complexo para a ciência… com um novo posicionamento do indivíduo diante da realidade.

O projeto de Bachelard consiste em ‘dar às ciências a filosofia que elas merecem’. Neste intento, o presente trabalho revisita sua epistemologia, preocupando-se com as temáticas e categorias fundamentais…principalmente discutindo a produção do conhecimento… e a descontinuidade da ciência em seu ‘processo de ruptura’… – o ‘racionalismo aplicado‘.  Edgar Morin, por sua vez… propõe uma ‘epistemologia da complexidade‘… ou seja, uma epistemologia adequada ao ‘pensamento complexo‘, que rompendo com a matriz moderna, propõe um ‘novo posicionamento’ do indivíduo diante da realidade, numa nova forma de saber, a qual opõe-se diretamente à ciência moderna, que para ele se funda num ‘paradigma da simplificação’, tendo como princípios, a disjunção, a redução, e a abstração.

O QUE É EPISTEMOLOGIA?…        Reflexões atuais, sobre diversas questões do saber, têm-se voltado à epistemologia, pois nela ciência e filosofia se encontram.

O termo ‘epistemologia’ provém do grego “episteme”… que significa ciência, e logos (teoria). Já o conceito, designa a gênese e estrutura das ciências — seja de ‘natureza filosófica’…ou ‘naturais‘…como objeto de investigação – no intuito de reagrupar…a ‘crítica’ do conhecimento científico…com a ‘filosofia’… — e, a ‘história das ciências’.

Por ‘Teoria do Conhecimento entende-se… a disciplina filosófica que tem por objeto, estudar os problemas levantados da relação entre sujeito cognoscente e objeto conhecido. Neste sentido – incluem-se aí a Epistemologia, que trata da natureza do conhecimento científico; bem como o empirismo lógico, que vê a ‘linguagem física’ como ‘paradigma’ para todas as ciências…e, onde só pode ser reconhecido como conhecimento, o científico.

Percebe-se que a epistemologia é ‘multiforme‘…pois de acordo com o contexto, pode se classificar como lógica, filosofia do conhecimento, sociologia, psicologia… história – mas, sempre possuindo como questão central, estabelecer se o conhecimento se reduzirá a um puro registro…pelo sujeito (de modo autônomo) dos dados já anteriormente organizados no mundo exterior – ou, se o sujeito intervirá ativamente… no conhecimento dos objetos.  Assim…ainda se encontra em aberto a questão acerca de qual seria seu domínio de saber.

BACHELAR: UMA NOVA EPISTEMOLOGIA                                                                    “Prova-se o valor de uma lei empírica, fazendo dela a base de um raciocínio.                        Legitima-se a um ‘raciocínio’… – fazendo dele… a base de uma experiência”.                 

“Captar o pensamento científico na sua dialética, realçar o carácter inovador da ciência contemporânea, com o espírito de síntese que a anima” – tal é o propósito de Bachelar. Para isso…sugere uma epistemologia não-cartesiana que apreenda o ritmo alternativo entre… realismo e positivismo… descontínuo e contínuo… racionalismo e empirismo…próprio da história científica. Bachelard então, assume a Epistemologia como uma filosofia das ciências que trata da relação entre sujeito cognoscente e objeto conhecido, adequada às “ciências contemporâneas”…Não aceita a ‘filosofia’ como uma síntese dos resultados gerais do ‘pensamento científico’ voltada às primeiras verdades, acabadas e definitivas, propondo um modelo aberto não dogmático… para vencer seus obstáculos.

bachelar

A cientistas… Bachelard mostra a necessidade de uma reforma subjetiva‘, pois…“o pensamento científico transforma…os próprios princípios do conhecimento“.  Aos filósofos, ele propõe considerar…o conhecimento      como evolução de um espírito, que permite variaçõesPropõe uma “epistemologia filosófica” não submetida      ao sistema clássico…mas, com ‘instrumentos teóricos’ próprios à cultura científica contemporânea de modo        a conciliar, o discurso filosófico, ao científico…Avalia      ele que, para o cientista…‘a filosofia é um resumo dos resultados gerais do pensamento científico prático’; e quanto ao filósofo; que filosofia da ciência tem por finalidade articular princípios da ciência… aos de um pensamento desinteressado dos problemas práticos.

Tais posicionamentos são ‘obstáculos epistemológicos’ que limitam o pensamento…de um lado…valorizando o geral; e de outro…o imediato. Para isso, propõe operar dialeticamente os “valores experimentais” e os “valores racionais”… característica da contemporaneidade, onde…o ‘empirismo’ precisa ser compreendido; e o ‘racionalismo’ – precisa ser aplicado”. 

O empirismo sem leis claras, coordenadas e dedutivas, não                            pode ser pensado/ensinado; já o racionalismo sem provas                        palpáveis…e aplicação imediata – não convence plenamente.

Na dialética dos conceitos construídos e reconstruídos pelo pensamento científico, nada é definitivo e imutável – assim… a ‘filosofia da ciência assume um pluralismo filosófico, capaz de servir tanto à experiência quanto à teoria… Utilizando um ‘perfil epistemológico, Bachelard adota um realismo ‘empírico-racional’, ao propor que o conhecimento pode vir de uma filosofia particular…porém, não pode fundar-se em uma ‘filosofia única’, pois seu progresso implica aspectos filosóficos variados… Defendendo uma razão livre e evolutiva, contrária à ‘razão imutável’, Bachelar entende como objetivo primordial do racionalismo, refletir sobre o atual ‘conhecimento científico’… – por meio de uma dialética do racional/ experimental. – Para isso, propõe que o “vetor epistemológico“… – ao tratar do saber científico, sempre caminhe do racional ao real… (nunca em sentido contrário).

Os pressupostos epistemológicos de Bachelard fundam-se em uma nova Filosofia da Ciência, cujo papel é intervir junto à ciência quando esta produz conceitos; pensando         a produção do saber científico… oferecendo “instrumentos teóricos para superar suas dificuldades… – salientando as ‘rupturas epistemológicas’ necessárias à verificação da descontinuidade existente entre o conhecimento comum, e o conhecimento científico;        estabelecendo assim – os “conceitos fundamentais”… para uma “nova epistemologia”.

MORIN: O MÚLTIPLO INDIVIDUAL                                                                                  “O ‘conhecimento científico clássico’ – usando do ‘rigor matemático’,                                  desintegrou a realidade… e, para poder quantificá-la, separou-a em                                    disciplinas. Ao negar a multiplicidade dos fenômenos, anulando sua                                  diversidade…fez da simplicidade… o paradigma científico moderno”.

Tal como Bachelard…Edgar Morin também afirma que o “método determinista, próprio da ciência moderna, era justificado pela ‘necessidade de um mundo ordenado       e regulado… afastando a desordem, a incerteza e o erro… que também estão presentes    nos fenômenos’… Tal método tem como fundamento a divisão entre filosofia e ciência, visando a redução do complexo ao simples, para uma ordem universal dos fenômenos.

frase-morin

Paradigma da Simplicidade

Um…”paradigma“…põe ordem no universo, reduzindo-se a uma lei, um princípio. A simplicidade quer o uno e o múltiplo mas não vê que o “Uno” pode, ao mesmo tempo…também ser Múltiplo“.  Então, a simplicidade como paradigma, nem separa o que está ligado (‘disjunção’);    nem unifica o que está disperso (‘redução’). Percebe-se assim, que ao tratar do tema, Morin reconhece os grandes avanços da ciência; tais avanços porém, ao reduzirem o complexo ao simples – levaram às consequências nocivas percebidas no século XX…        “A ‘compartimentalização’ da realidade provocou a cegueira em relação ao global.”

Em consonância com as ideias de Bachelard de uma epistemologia integral e regional, Morin busca uma unidade das ciências…as quais teriam como objeto, não fragmentos estanques da realidade, mas sua “totalidade. Para Morin, a ideia da necessidade de    uma… “unidade da ciência“… é incompatível com o quadro atual de fragmentação;  contudo, possível… – dentro do campo transdisciplinar de uma ‘physis generalizada’.  Nesse sentido… Morin prega a necessidade de uma “epistemologia da complexidade”,    que possa convir ao conhecimento do homem. Em seus escritos evidencia uma busca concomitante da “unidade da ciência” – e de uma teoria subjacente da complexidade humana. Entende ele que…“a ciência humana não possui um princípio que enraíze o fenômeno humano no ‘universo natural‘ — nem método apto a apreender a extrema complexidade — que o distinga de um outro qualquer fenômeno natural conhecido”.

METODOLOGIA x EPISTEMOLOGIA                                                                                     “O pensamento muda com novas experiências, e estas                                                            estão … sempre … atualizando o conjunto das teorias”.

Tradicionalmente…parece não haver nada em comum entre Metodologia e Epistemologia, visto que a 1ª trata do estudo dos ‘métodos científicos, enquanto a 2ª representa o estudo crítico dos princípios, hipóteses e resultados das diversas ciências; no entanto, percebe-se que o estudo sobre estes princípios…deve levar em conta o método empregado por aquela.

O ‘empirista lógico‘ coloca epistemologia e metodologia em          planos diferentes. – Já aos “analíticos“…estas possuem a mesma concepção no que se refere ao rigor na produção do conhecimento.

Como a racionalização da experiência metodológica é a sua “epistemologia“, esta seria o campo teórico onde se produz o saber sobre o objeto da metodologia…Assim, nesse caso, a metodologia, ao refletir histórica e criticamente a produção do saber científico, analisa     os fundamentos da ciência, e suas produções, pois o método delimita os parâmetros da realidade onde o objeto será construído – sendo então… validado pela ‘epistemologia‘.

Bachelard, em sua filosofia da ciência, não especifica as duas disciplinas…Admite que o racionalismo, permanentemente almejado…exige multiplicação e mudança constante  de métodos… – tornando a ciência cada vez mais “metódica“. Observa também…que o conhecimento científico deve ser dinâmico, portanto…todo pensamento científico deve mudar diante de uma nova experiência”… – Por essa razão… não há ‘métodos perenes’,    e discursos sobre tais princípios (racionalismo aplicado)…serão sempre circunstanciais.

Nessa mesma linha… Morin pretende conduzir um discurso não acabado – situado em movimento, num pensamento complexo que liga teoria à metodologia, epistemologia e até ontologia – permitindo a passagem de níveis…do físico ao biológico – e deste ao antropológico, descrevendo numa metodologia específica…’unidades complexas‘.

POR UMA “EPISTEMOLOGIA HUMANA”

Uma ‘epistemologia integral‘, tem por objeto o conhecimento científico em geral … com todos problemas específicos setoriais. Mas ocorre que, embora os objetos das ‘ciências regionais’ sejam específicos…não cabem a uma ciência específica. Daí, portanto…vem a seguinte questão… – Vista como um todo…a epistemologia não dependeria basicamente… – das…”ciências humanas“?…

De acordo com o…”empirismo lógico“… – a epistemologia é entendida como análise lógica das ciências, ou seja, sua linguagem é limitada    ao que pode ser captado objetivamente – já as “ciências humanas” atêm-se ao conhecimento    de fatos situados no campo do espaço e tempo.

Bachelard, partindo da ‘psicanálise do conhecimento objetivo’, relaciona epistemologia e ciências humanas… – destacando o valor da história das ciências e psicologia na reflexão sobre a reprodução do saber, onde… — “É preciso um incessante construir e reconstruir dialético da história passada…e da história sancionada pela ciência atual”… – E assim, desta ‘contextualização epistemológica’ surgem noções como obstáculo epistemológico e atos epistemológicos – essenciais à dialética proposta por Bachelard na compreensão do desenvolvimento científico… – Nesta compreensão, a “epistemológica bachelardiana” se configura como uma reflexão…que ocorre pela constante volta ao passado – a partir das certezas do presente; segundo um contínuo processo de “retificação” do saber científico.

Neste movimento contínuo… – Bachelar se utiliza da ‘psicologia do conhecimento objetivo’ para desvelar o ‘processo de conhecimento’.

Gaston Bachelard (1884-1962)

Gaston Bachelard (1884-1962)

a) Epistemologia de GASTON BACHELARD

Gaston Bachelard nasceu na região de Champagne, na França, em 1884. De origem humilde…trabalhava, enquanto estudava… Pretendia formar-se engenheiro, até que veio a 1ª Guerra Mundial… e impossibilitou a conclusão deste projeto. – Após o conflito, leciona no curso secundário as matérias de…”física” e “química”.

Aos 35 anos, inicia seus estudos de filosofia… Suas 1ªs teses foram publicadas em 1928…  —  ‘Ensaios sobre o conhecimento aproximado’ e ‘Estudo sobre a evolução do problema físico da propagação térmica dos sólidos’Seu nome passa a se projetar, e é convidado, em 1930, a lecionar na Faculdade de Dijon. Mais tarde, em 1940, vai para a Sorbonne, onde passa a lecionar cursos… que são muito disputados pelos alunos…devido ao espírito livre, original e profundo deste filósofo que, antes de tudo, sempre foi um professor. – Bachelard ingressa em 1955 na Academia das Ciências Morais e Políticas da Françae em 1961 é laureado com o ‘Prêmio Nacional de Letras‘. – Bachelard morre em 1962…Dentre suas obras diurnas, destacam-se…“O novo espírito científico”, de 1934; “A formação do espírito científico”, de 1938; “A filosofia do não”, de 1940; “O racionalismo aplicado”, 1949 … e “O materialismo racional”, de 1952.

Dentre as obras noturnas destacam-se “A psicanálise do fogo”, de 1938;      “A água e os Sonhos”…de 1942 – “O ar e os sonhos”…de 1943 – “A terra        e os devaneios da vontade”, de 1948 – e “A poética do espaço”…de 1957.

japiassu
‘introducao-ao-pensamento-epistemologico’

Objetivosnormas… – e “instrumentos teóricos”  Tanto o “empirismo” de tradição baconiana, quanto o ‘racionalismo idealista’ são incapazes de dar conta da efetiva prática científica – para tanto…o filósofo deve    presenciar a ciência, em seu caráter histórico e social.

Tendo lançado as bases do chamado…”racionalismo aberto“, Bachelard é considerado um dos fundadores      da… “epistemologia contemporânea” — que tem como característica histórica, uma renovação científica, pela  crítica da epistemologia tradicional… — Em sua teoria,    ele desenvolve “instrumentos teóricos“… — tais como: ‘psicanálise do conhecimento objetivo’…’racionalismo aplicado’…e ‘materialismo técnico’… — para trabalhar com certas noções fundamentais à sua epistemologia;  tais como…corte epistemológico’… ‘descontinuidade’; obstáculos, perfil e região epistemológica; elaborando      um novo racionalismo…que como diz Hilton Japiassu,    em Para Ler Bachelar“…“Se constrói instaurando uma ‘ruptura‘ entre o saber comum        e o conhecimento científico… – Não há verdades primeiras…mas  sim, erros primeiros. Quando se apresenta à cultura científica, o espírito nunca é jovem, pois tem a idade de seus preconceitos… Ao espírito científico, todo conhecimento responde a uma questão.    Se não há questão esse saber não pode existir, porque nada é dado. Tudo é construído”.

Em sua obra “Conhecimento Comum e Conhecimento Científico” Bachelard coloca esta ruptura nítida e evidente… Entre o conhecimento comum e o conhecimento científico, a ruptura parece tão nítida, que estes tipos de saber não poderiam ter a mesma filosofia”.

O empirismo é a filosofia que convém ao conhecimento comum, encontrando aí sua raiz, suas provas, seu desenvolvimento. O conhecimento científico ao contrário…é solidário com o racionalismoque reclama fins científicos. Com efeito, pela atividade científica o racionalismo exerce uma atividade dialética exigindo constante extensão de seus métodos.

O método histórico doconhecimento aproximado”                                                        “O crescimento é um processo de tentativa e erro… – As experiências                                  que não deram certo (como lições) também fazem parte do processo”.

Em 1927, Bachelard lança sua teoria acerca do ‘conhecimento aproximado…na qual usa o conceito de ‘aproximação‘ em vez de identidade…ao referir-se à apreensão da realidade.  Afirma ele que o “saber científico” constrói-se a partir de retificações, que o aproximam sucessivamente do real. É a ‘filosofia do trabalho‘…da ‘tentativa e erro‘; de onde Bachelar  aprimora a ideia de que a abordagem do objeto científico deve se fazer pelo sucessivo uso de diversos ‘métodos’ – um superando outro, para uma possível ‘evolução intelectualA esta constante superação, chamou de proximacionismo…conceito fundamental em sua epistemologia… Para ele…o “espírito científico” é essencialmente uma “retificação    do saber”…um alargamento do conhecimento, que julga o seu passado…condenando-o. A sua estrutura é a consciência dos…”erros históricos”… – o que faz sua epistemologia…tão flexível quanto o…”saber científico” – que se constrói…a partir de constantes retificações.

Na teorização de sua “razão aberta“, Bachelard propõe uma evolução em consonância com o saber científico. Para isso, cria a noção de “história recorrente“, que permite à epistemologia uma projeção sobre o passado das ciências, a partir das luzes do presente, de modo que a filosofia evolua…nos mesmos moldes compatíveis ao “espírito científico”.  O pensador assim, busca fundamentos à sua epistemologia… nas mais diversas áreas da química, matemática, e em especial, na física relativística e quântica…as quais, ao tratar    de conceitos como ‘espaço’…’tempo’, e ‘causalidade’, confirmam a ideia de que a ciência avança com rupturas epistemológicas (paradigmas). Daí, Bachelard faz uma subdivisão;    a princípio focando em problemas específicos, para depois, elaborar a proposta de uma “filosofia evolutiva da ciência” – nos moldes críticos… de uma “epistemologia histórica”.

“A razão deve obedecer à ciência… A doutrina tradicional de uma razão absoluta, imutável…nada mais é que filosofia obsoleta. Tendo o espírito estrutura variável, o instrumento para a investigação científica não é a lógica (‘neopositivista’), mas história…Todo conhecimento é histórico”.

O autor penetra no mundo da descoberta científica como uma atividade filosófica nova, que se propõe a acompanhar a evolução do conhecimento científico. Para tal, parte dos conceitos atuais, e faz uma releitura da história científica buscando os conceitos que se mantêm, e aqueles que são ultrapassados.

gaston-bachelardOs obstáculos epistemológicos

Se o conhecimento científico avança por sucessivas rupturas epistemológicas … a busca da verdade… nada mais é, que um constante aproximacionismo“… onde a “função da ciência” se faz presente… em uma constante “retificação“. – Isso porque, ao buscarmos as condições psicológicas do “progresso científico”…chegamos logo à convicção de que o “problema do conhecimento” deve ser colocado em termos de obstáculos a serem superados. E estes não são externos;    a lentidão e as disfunções, por exemplo, surgem dentro do próprio ‘ato cognoscitivo’. E é    aí, nestas causas de estagnação e repressão, que vamos achar aquelas “causas de inércia”.  Em termos simples, poder-se-ia dizer que tais obstáculos epistemológicos são ideias que impedem ou bloqueiam outras ideias, pois implicam uma parada do pensamento…isto é, um ‘contra-pensamento’. – Afirma Bachelard, que é através deles que se analisam as condições psicológicas do “progresso científico“. – “O ato de conhecer, dá-se contra um (incompleto) conhecimento anterior…reconstruindo conhecimentos mal estabelecidos”.

Um exemplo destas ideias-obstáculo são os ‘dogmas ideológicos‘… – que                          sustentam, e legitimam o discurso científico. Tais empecilhos proliferam-se                      nas formas de pensamento do ‘racionalismo idealista’, e ‘realismo ingênuo’.

Para superar os obstáculos das ciências…toma-se a ideia de ‘racionalismo aplicado‘ para designar a ciência trabalhada pela inteligência, se opondo ao puro formalismo, ao convencionalismo, e ao idealismo abstrato, do positivismo, pragmatismo, e empirismo. Assim, Bachelar propõe como método, para identificação e remoção de obstáculos que bloqueiam o desenvolvimento do ‘espírito científico’ – a ‘psicanálise’ do conhecimento científico, que baseada numa epistemologia própria, rompe com a tradicional ideia da ‘filosofia da ciência’…que procurava estabelecer conhecimentos universais e absolutos.

Para Bachelar, é na ‘historicidade das ciências‘ que emerge o ‘saber científico’, retificando-se constantemente… numa profícua dialética do já constituído – com o          ‘a constituir-se’… – “O conhecimento vulgar é feito de respostas, já o conhecimento científico… – vive mergulhado na enorme agitação, dos seus próprios problemas”.

Edgar_Morin_big[1]

b) Epistemologia de EDGAR MORIN                    “Conhecer não consiste necessariamente em construir sistemas sobre…’bases pré-determinadas’… – trata-se, sobretudo… – em manter um diálogo com a incerteza”. 

Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, nasceu em Paris em 8 de Julho 1921 – é sociólogo e filósofo francês de origem judaico-espanhola (sefardita); pesquisador emérito do CNRS (“Centre National de la Recherche Scientifique”).

É considerado um dos principais pensadores sobre a complexidade. Autor de dezenas de livros… entre eles: O método(6 volumes); ‘Introdução ao pensamento complexo’; ‘Ciência com consciência’… ‘Os 7 saberes necessários à educação do futuro… — No mesmo viés de Bachelard, a palavra complexidade para Morin exprime nosso embaraço e incapacidade em definir as coisas de maneira simples…por ideias claras. E, é justamente sobre ela  não como ‘chave’, mas como desafio do pensamento na visão da complexidade, à que Morin se dedica, com 2 observações necessárias…uma, a título de “conceituação”, outra…”ressalva”.  Quanto à ‘conceituação‘… Morin define “complexidade” como aquilo que não se pode resumir a uma ‘palavra mestra‘… – o que não pode reduzir-se a uma lei, ou a uma ideia simples…Portanto…’complexidade‘ é uma “palavra problema“…e não, uma solução.

Sua ideia fundamental é denunciar a “metafísica da ordem”…como um princípio do pensamento que ‘julga o mundo’…e não, como deveria ser:  um imprevisível princípio revelador da rara essência oculta do mundo. 

E, Morin ainda argumenta existir ‘ressalvas’ a serem feitas quanto à necessidade de se dissipar 2 ilusões: A é crer que a complexidade conduz à supressão da simplicidade.    Na verdade, a complexidade aparece somente onde o pensamento simplificador falha; enquanto este, desintegra a complexidade do real; o pensamento complexo integra os diferentes modos simplificadores de pensar… o melhor possível. – A … é confundir complexidade, com ‘completude‘. O pensamento complexo aspira ao conhecimento multidimensional, em todas as suas variáveis…e não em sua final totalidade…ou seja:      complexidade não é a chave do mundo, mas o desafio a ser enfrentado.”

E…considerando que o pensamento complexo busca revelar, e por vezes ultrapassar o desafio…a epistemologia do pensamento complexo rompe com a “matriz moderna”… propondo novo posicionamento do indivíduo diante da “realidade”…e, portanto… – uma nova forma de ver o mundo.

Para tratar da ‘epistemologia‘… Morin faz uma retomada às circunstâncias do século XIX, dizendo que os físicos ensinavam o princípio da desordem tendente ao mundo, a arruinar qualquer coisa organizada… enquanto os historiadores e biólogos pregavam um princípio das coisas organizadas. – Assim… parece haver um “contraponto” entre as ciências… – se umas tendem à ‘decadência’…outras, ao “progresso”. – Dessa forma, o autor se questiona acerca de como seria possível associar essas 2 visões sobre a mesma realidade – e, sugere que esta não seja fragmentada… – mas as leituras que se fazem dela…é que são limitadas.

inquietacoes

Ao separar o sujeito pensante (‘ego cogitans’)  da coisa extensa (“Res extensa“)…e pôr como princípio da verdade…o próprio ‘pensamento disjuntivo’, a filosofia cartesiana rompe com  a concepção de ciência moderna. O resultado é… a “compartimentalização/especialização”. E, neste viés…a ciência moderna fragmenta a realidade, visando a ‘universalização de suas leis.

Na leitura de Morin, o ideal do conhecimento científico clássico era descobrir a ordem perfeita escondida por detrás da simplicidade aparente dos fenômenos. Tal concepção    leva a uma inteligência cega, pois…“destrói o conjunto das totalidades, isolando todos objetos daquilo que os envolve… – As ‘realidades chaves’ são desintegradas, passando entre as fendas que separam as disciplinas” – Para o autor, de fato…tal leitura não é condizente com a necessidade de unir ciência com complexidade humana… Afinal, de    que serviriam todos saberes parciais – senão, para formar uma configuração capaz de responder a nossas expectativas…nossos desejos – nossas interrogações cognitivas?…  (E…para isso é preciso uma nova epistemologia!)

c) EPISTEMOLOGIA DA COMPLEXIDADE                                                              Trata-se, portanto, de…reintegrar o homem entre os ‘seres naturais’,                                 para distingui-lo neste meio… mas, não… para reduzi-lo a este meio.

Morin parte da ideia de que a própria necessidade do tipo de pensamento complexo que sugere, exige a reintegração do observador em sua observação. Desse modo, a ciência do homem não possui um princípio que enraíze o fenômeno humano no universo natural – nem um método apto a apreender a extrema complexidade… que o distinga de qualquer outro fenômeno natural conhecido. É preciso assim desenvolver uma teoria, uma lógica, uma “epistemologia da complexidade” … conveniente ao “conhecimento humano”.      Portanto, o que se busca aqui é a ‘unidade da ciência‘  em termos de uma “teoria da complexidade humana”, onde esta ciência encontre seus fundamentos…no consenso do conflito…se desenvolvendo livremente, baseada em seus 4 elementos interdependentes:

a racionalidade … o empirismo … a imaginação … e a verificação.

Racionalidade e empirismo‘ são antagônicos – à medida que as descobertas empíricas destroem e atualizam as construções racionais; ao passo que ‘imaginação’ e ‘verificação’    se adicionam…“A complexidade científica…é representada na presença do observador”. Esta imbricação entre científico e não-científico, entre elementos demonstráveis, e não demonstráveis…acarreta que a ciência nunca chega ao objeto que procura. Para Morin:

“Há…com efeito – não apenas níveis e escalas…há igualmente os ângulos de visão, o ponto de vista do observador, além dos níveis de organização; dos quais emergem, algumas propriedades características desses níveis”.

dora maar

Picasso – “Dora Maar” (1941)

Do delírio da lógica…à “hipercomplexidade”  “Enquanto a ciência de inclinação cartesiana…trata  ‘mui logicamente — o complexo, como ‘simples’…o ‘saber científico contemporâneo’, tenta encontrar o ‘pluralismo’ … imerso numa identidade cartesiana”.

A razão não é um dado a priori, podendo autodestruir-se por ‘processos internos’…da própria racionalização. Este é o ‘delírio da lógica’, de uma coerência que deixa de ser controlada pela realidade empírica. Daí brota a racionalidade ‘incomunicável’, num diálogo irracional. A essência da ‘complexidade‘, está na impossibilidade de se homogeneizar, reduzir. Nesse sentido Bachelard  defende a necessidade…na ciência… de uma ‘teoria da complexidade’ – mais apta às… “necessidades atuais”.  

Tal racionalidade é profundamente tolerante aos mistérios. Porém, a humanidade vive uma época de transição na concepção de espaço e tempo…antes, parâmetros fixos, que permitiam a ‘ideia de certeza’ das ciências – mas, agora…’complexos‘… exigindo uma nova “perspectiva dimensional“. O espaço e o tempo não são mais entidades absolutas, independentes. Não só falta base empírica simples como também uma base lógica com noções bem definidas, em realidade não contraditória, para formar o “substrato físico”.

Wladimir Kush - 'On this way'

Wladimir Kush – ‘On this way’

Resulta daí uma consequência capital: o ‘simples’ (categoria da “física clássica” – modelo de qualquer ciência), não é mais fundamento de todas coisas — mas uma passagem, da complexidade microfísica,        à macrocósmica. Assim, a nova conduta adequada à nova realidade…é, não mais       negar — o que não pode ser classificado, simplificado… — mas o reconhecimento       da ‘realidade complexa’…buscando uma “complexidade” ainda mais profunda.

Noutros termos, o conhecimento científico deve evoluir, não do simples ao complexo, mas para uma complexidade cada vez maior… — uma ‘hipercomplexidade‘… onde o ‘simples‘ não passa de um “aspecto momentâneo“, entre várias complexidades.

d) AO FINAL DAS CONTAS                                                                                            A “idade de ferro planetária” indica que entramos na era planetária, onde todas as culturas e civilizações estão doravante…em uma interconexão permanente. – E, ao mesmo tempo, na barbárie total das relações entre raças, culturas, etnias e nações.

Considerando uma tendência à “complexificação” crescente, pelo desenvolvimento da ‘autorganização’ (autonomia, individualidade, criatividade etc.) chegamos ao ‘cérebro humano’, onde se dão os fenômenos mais complexos. – Para Morin… “a humanidade    vive um contraponto, entre o processo global…e a consciência individual”. O mundo    vive a idade de ferro planetária, enquanto o espírito humano vive sua pré-história, no início do plano consciente, na transição entre o fim de uma era…e a esperança noutra.

Nesse sentido o presente estudo deixa evidente, que uma das principais marcas de ‘congruência’ entre os autores estudados — é o fato de ambos criticarem o pensamento científico do ponto de vista clássico, por uma ideia de “complexidade” na ciência…Tratando a ‘epistemologia‘ como uma reflexão crítica na história da produção de conhecimento científico, tanto Bachelard como  Morin propõem uma ‘abertura’ do pensamento filosófico, visto que nos moldes modernos, este está enraizado em “sistemas fechados” – com a pretensão de traçar limites do “saber científico”.

Enquanto Bachelard critica no pensamento moderno, uma leitura simples e absoluta, em que a ‘natureza dos elementos‘ se encontra desvinculada das relações com outros objetos; propondo evidenciar, ao invés da epistemologia cartesiana…o ideal de “complexidade da ciência contemporânea, numa ruptura epistemológica; Morin destaca que o “pensamento determinista, quantitativo, mecanicista”… isola e fragmenta o saber, apenas permitindo a especialistas alcançarem alto desempenho – dentro de áreas muito específicas da ciência;  distanciando-se da “realidade social”…e dos seus problemas; perdendo a ‘visão global’ do contexto planetário – e da real “complexidade”…dos infindáveis “problemas humanos”. 

Diante disso…os 2 defendem que o discurso filosófico precisa estar vinculado ao discurso científico – onde…cada ciência teria a sua própria filosofia. – Em conformidade com este raciocínio, a cada problema do pensamento científico devem existir diferentes elementos de reflexão filosófica; de modo que, cada problema, ou experiência – exigiria sua própria filosofia…com a necessidade do pensamento científico trabalhar numa realidade coletiva.

Assim, ao criticar o método da ‘individualização mecânica’, que trata seu objeto como individual, separado e distinto, os autores propõem que o pensamento cientifico deva      ser percebido, definido e agrupado. Nesta nova perspectiva, em última análise, Morin          e Bachelard propõem uma ruptura no conhecimento científico, de modo a atender ao conjunto de mudanças exigidas por um multiculturalismo global. (texto base) (2008)

 textos p/consulta… ‘Contribuições de Bachelard à Epistemologia da Ciência’                         O fenômeno Criador na Poesia  # Edgar Morin (“Educando os Educadores”)  ]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]]](texto complementar)[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[[

Sistemas Complexos e o Caos Determinístico (trecho adaptado)                                  A dinâmica gerada pelo modelo, exibia uma característica não usual – 2 pontos a            uma ínfima distância, seguiam rotas temporais muito divergentes. Tal observação          levou Lorenz a concluir que a previsão do tempo a longo prazo, não seria possível”.

Até recentemente, segundo o padrão de variação no tempo das grandezas que caracterizam seus estados…os sistemas dinâmicos eram classificados em 3                  categorias: a) estáveis, convergindo para um valor fixo; b) periódicos, com                  oscilações regulares; e… c) imprevisíveis, indicando ‘flutuações irregulares’.

Porém, em 1963, Edward Lorenz, enquanto estudava um modelo de previsão do tempo,   fez uma descoberta que surpreendeu o mundo. Seu modelo seguiu um curso que não se enquadrava como randômico, periódico…ou convergente, exibindo um comportamento muito complexo, embora definido somente por poucas, e simples equações diferenciais.

Sistemas como o de Lorenz … são ditos “caótico determinísticos”…pois embora exibam um comportamento aperiódico, imprevisível…sua dinâmica complexa é  resultado de algumas simples equações  “diferenciais determinísticas“. – A divergência observada…em rotas muito próximas…nos “sistemas de Lorenz”…é uma das principais características…dos sistemas complexos c/ resposta caótica. Seu efeito, de… ‘sensibilidade crítica às condições iniciais’…tem como exemplo básico o conhecido efeito borboleta, onde… “pequenas flutuações no ar causadas pelo bater de asas de uma borboleta podem produzir consequências nunca antes imaginadas”.

A “sensibilidade crítica às condições iniciais” é a característica fundamental… que difere   os ‘sistemas complexos caótico determinísticos’ dos sistemas que apresentam ‘respostas randômicas ou estocásticas’. Para estes sistemas (randômicos ou estocásticos), a mesma condição inicial pode conduzi-los a estados bastante distintos – em pequenos intervalos   de tempo… – o que, definitivamente, não ocorre nos sistemas “caótico-determinísticos”.

Quando se mede um sinal temporal discreto, sempre se deseja encontrar as equações que governam a dinâmica deste sistema. Se este sinal for caótico…deseja-se determinar se o sistema é caótico determinístico, ou randômico… – No caso de um ‘sistema caótico-determinístico’ descreve-se sua dinâmica em um conjunto finito de equações diferenciais.

Sendo o sistema ‘randômico’, este seria descrito por funções probabilísticas… devido ao seu elevado “grau de liberdade”.

Atualmente… a ‘Teoria do Caos‘ é utilizada como uma “ferramenta de observação” de fenômenos previamente mal compreendidos do ponto de vista determinístico, tais como fenômenos meteorológicos, turbulência em fluidos, fluxo de calor…ritmos biológicos… e geológicos… – movimentos econômicos – e astrofísicos…etc. (texto base) * agosto/2001

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
Esse post foi publicado em epistemologia e marcado , . Guardar link permanente.

2 respostas para Epistemologia da Complexidade (Bachelard & Morin)

  1. SOLANGE disse:

    Adorei a reflexão, continue.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s