As Múltiplas Histórias de Richard Feynman

“Realidade…é a multiplicidade das multiplicidades”   (Alain Badiou… ‘O Ser e o Evento’ )

feynman-300

Nascido em 1918 no Brooklyn, Nova York, Richard Feynman estudou no “Massachusetts Institute of Technology”…(MIT), obtendo seu PhD sob a supervisão de John Wheeler em 1942 na Universidade de Princeton, e lecionando em Cornell, e no Caltech…’Instituto de Tecnologia da Califórnia’. Além de um físico excepcional, era conhecido pela forte personalidade…e por suas brincadeiras nos laboratórios de ‘Los Alamos’, EUA decifrando códigos ‘ultra-secretosSua curiosidade sem fim pelo mundo… estava em sua própria essência – ativando seu “sucesso científico“… em façanhas incríveis… tal como ser o pioneiro na idealização do “computador quântico”…em 1981.

Nos anos posteriores à 2ª Guerra, Feynman desenvolveu uma nova maneira poderosa de pensar sobre a mecânica quântica…a qual o levou a ganhar o Prêmio Nobel, em 1965. Ele desafiou o ‘pressuposto clássico’… – de que cada partícula possui uma história particular. Em vez disso, ele propôs que as partículas se deslocassem de um local a outro… ao longo de todas as trajetórias possíveis no espaçotempo. Para cada trajetória Feynman associou 2 números…um para a amplitude de onda, e outro para a fase (no máximo…ou mínimo).

A probabilidade de uma partícula passar de A para B é encontrada… – somando-se as ondas associadas a cada trajetória possível que passe por A e B. Contudo, no dia-a-dia … percebe-se que os objetos … seguem uma trajetória única, entre sua origem – e seu destino final … o que corresponde à ideia das histórias múltiplas de Feynman, pois para ‘objetos macroscópicos’ a regra de somar as trajetórias – assegura que… todas elas (exceto uma)…anulam a si mesmas, quando suas contribuições se combinam. Aos movimentos macroscópicos só uma trajetória vale…a que vem das ‘leis clássicas’ de Newton.

BREVE BIOGRAFIA

Qual o cientista mais notável da história? Difícil dizer. Mas qual o mais notável nascido nos EUA?… – Há quem diga que foi Richard Feynman…  Quem?…  Richard Feynman?? Ninguém nunca ouviu falar nesse cara…como pode ter sido o cientista mais notável dos EUA? Que aconteceu com Benjamim Franklin, os Irmãos Wright, Edwin Hubble, Tesla?

Bem…para começar… Carl Sagan dizia que o melhor livro científico que leu em sua vida fora escrito por Feynman… Chama-se “Lectures on Physics”…e, por algum motivo, jamais havia sido publicado em português – [em 2005…a “Ediouro” publicou um resumo da obra… – com o título… “Física em 12 Lições”… – e, em 2008 foi editada a obra completa (em português) pela ‘Bookman’, em 4 volumes.]

Sua principal contribuição à física… pela qual… em 1965, ao lado de Sin-Itiro Tomonaga e Julian Schwinger … recebeu o Nobel de Física (eletrodinâmica quântica) em suma se trata de uma teoria sobre “interações de partículas subatômicas”.

A FUNÇÃO CIENTÍFICA                                                                                                       Por mais inútil que pareça ser o desvendamento do início do Universo, a compreensão das partículas subatômicas… ou a criação de novos elementos químicos; tudo isso pode ter alguma utilidade … na promoção de estratégias que façam evoluir a vida humana”.

Supondo que o Universo criou o Homem, e todos os seres vivos… por algum motivo muito específico… não existiriam elementos despropositais no Universo – nada existiria que não pudesse ter o seu valor. Se uma partícula subatômica surgisse sem qualquer propósito, ela desapareceria sem ser notada… – Mas, enquanto não descobrimos…para quê, exatamente, serve a inteligência, e qual sua utilidade perante o universo… vamos nos ater à tese de que a inteligência humana tem como objetivo, desenvolver mecanismos que melhorem nossas vidas. Por exemplo…medicamentos e equipamentos quânticos, que possam curar doenças (como câncer) nos lugares mais inatingíveis do mundo… Ou “escolas virtuais”, projetadas para receber remotamente em uma aldeia miserável na África… educação de 1º mundo!… 

http://glaucocortez.com/2010/09/18/quantidade-de-famintos-no-mundo-cai-pela-primeira-vez-em-quinze-anos-mas-decisoes-politicas-nao-sao-a-causa-da-diminuicao/A frase mais adequada…para se entender a  teoria de Feyman vem do livro “O Universo Numa Casca de Noz”, de Stephen Hawking. De acordo com Hawking…o Universo pode ser uma “soma das histórias de Feynman”. Isto significaria um Universo formado por verdades distintas… que se chocaram num dado momento…originando sua expansão.

Nesse caso – sendo a Teoria das Histórias Múltiplas de Feynman…uma verdade…no que ela poderia ser útil à nossa realidade?…

Assim como Hawking quer entender a mente de Deus, outros dizem que a curiosidade em pesquisar novos elementos químicos é tão instigante – quanto subir o Everest… ou viajar à Lua. – Mas, melhorar a vida das pessoas, é o real objetivo da ciência. (Rynaldo Papoy) ************************************************************************************

Feynman e o Prêmio Nobel de Física de 1965

Feynman e o Prêmio Nobel de Física de 1965

ELETRODINÂMICA QUÂNTICA                      A eletrodinâmica quântica corresponde à quantização do ‘campo eletromagnético’ … de acordo com uma teoria de gauge Abeliana.     

A teoria clássica da eletrodinâmica, construída por Maxwell, já era consistente com a teoria da relatividade especial de Einstein. – No entanto, para aplicar… estas equações… aos ‘fenômenos eletromagnéticos’ que ocorriam entre as várias partículas elementares foi necessário construir uma nova teoria – ligada à ‘mecânica quântica’.

Alguns anos depois da mecânica quântica de Schrödinger… a ideia original de Planck da quantização da energia foi estendida e aplicada ao eletromagnetismo; sendo os ‘quantas’ correspondentes ao campo eletromagnético, identificados como fótons‘ … Assim, mais uma vez a dualidade ‘onda/partícula’ se manifestava…já que o “campo eletromagnético” clássico é descrito por uma onda… mas, a hipótese de quantização associa a este campo, uma partícula (fóton) se propagando também como onda, em uma “2ª quantização”.

A união do eletromagnetismo com a mecânica quântica – ou seja…a construção de uma ‘Eletrodinâmica Quântica’ (QEDfoi realizada por grandes nomes da física, como Dirac, Feynman, Tomonaga e Schwinger, na década de 40. Formulada num ‘simples’ conjunto      de equações… (‘equações de Maxwell’ – eletrodinâmica, e ‘equação de Dirac’ – elétrons)  com base na “teoria quântica de campos”…explica as interações entre elétrons, e fótons.

MODELO PADRÃO de PARTÍCULAS

Toda matéria é constituída por ‘elétrons‘ e ‘núcleos atômicos‘ – são eles que dão origem aos átomos, e moléculas. O núcleo contém prótons e neutrons … os quais, por sua vez, são constituídos por quarks.

Sabendo que, essas partículas elementares interagem entre si… – e que as ‘forças de interação‘… também podem ser tratadas como partículas… – deduzimos que…duas partículas interagem entre si – pela ‘troca’ de uma 3ª partícula… – Assim, cada força fundamental da natureza tem… ao menos, uma partícula associada… A partícula que transporta a “força eletromagnética”… é o fóton; a “força fraca”, pelas partículas W e Zo; e glúons são os responsáveis pela coesão dos ‘núcleos atômicos’ nas “forças fortes”.

SIMETRIA DE GAUGE                                                                                                              A descrição de partículas e forças é o ‘modelo padrão’ das partículas elementares.              O tratamento matemático do modelo padrão é feito através das ‘teorias de gauge’.

A palavra gauge está associada a uma simetria (simetria de gauge), que é uma das simetrias mais fundamentais que existem na física. – Em 1860…Maxwell formulou o eletromagnetismo como uma teoria de gauge‘…Nessa formulação… – o campo elétrico e o campo magnético não são os objetos fundamentais da teoria…mas sim, o ‘potencial escalar‘, e o ‘potencial vetor‘. – Os potenciais podem, de certa forma,            ser modificados…sem que seus campos sejam afetados…Isso, por exemplo, acontece          na arbitrariedade da escolha do ‘padrão básico’ (zero) do potencial escalar – uma        vez que a quantidade relevante nesse caso, corresponde à diferença de potencial

Quando não importa a ordem em que efetuamos as transformações de gauge, dizemos que temos uma teoria de gauge Abeliana, em homenagem ao matemático norueguês Niels H. Abel… – Um exemplo de transformações Abelianas” são as “rotações em um plano”.  Já “transformação não-Abeliana“… são aquelas que dependem da ordem em que são feitas… – As “rotações no espaço” são um exemplo de “transformações não-Abelianas”.

Este é o diagrama de Feynman para o decaimento beta. As linhas retas nesse diagrama representam os férmions enquanto as linhas onduladas representam bósons virtuais. http://pequenoplanetaazul.wordpress.com/2011/10/08/diagramas-de-feynman/

Este é o diagrama de Feynman para o decaimento beta. As linhas retas nesse diagrama representam os férmions enquanto as linhas onduladas representam bósons virtuais.

DIAGRAMAS DE FEYNMAN

De forma precisa, o diagrama de Feynman é a representação gráfica de uma contribuição perturbativa … à amplitude de possibilidade de um sistema quântico… – Ou seja… são as integrais… – que definem… as interações de ‘partículas subatômicas’… – como quarks, e fótons.

Esses diagramas possibilitam a visualização de eventos ao “nível subatômico” … – antes apenas descritos por “matemática abstrata”.

Pela ‘teoria quântica de campos‘… – em particular a QED, os diagramas calculam as “amplitudes de espalhamento na interação (e produção) de partículas… Em geral, essas amplitudes envolvem “integrais divergentes. Para eliminar as divergências…estas são ‘normalizadas’ para que a parte divergente possa ser separada. – A parte finita permanece nos resultados físicos, enquanto a divergente é absorvida nas constantes da teoria original.

Esse procedimento, denominado ‘renormalização’… produz resultados finitos para as “amplitudes de espalhamento”. – O seu grande sucesso na eletrodinâmica quântica ao incorporar “correções radioativas” garantiu    o “prêmio Nobel” de física…à Tomonoga, Schwinger e Feynman em 1965.

APLICAÇÕES PRÁTICAS

A “eletrodinâmica quântica” nos diz que existe uma partícula que é mediadora de todas ‘interações eletromagnéticas’. Esta partícula é o fóton. Sempre que ocorre um processo entre partículas carregadas há uma incessante troca de fótons. Sendo assim, a descrição das interações eletromagnéticas – sob o ponto de vista da eletrodinâmica quântica… é… por exemplo, uma das áreas mais importantes da astrofísica:

‘vemos as estrelas porque elas emitem radiação, e esta nada mais é, do         que fótons produzidos por processos quânticos – no interior da estrela.’

Por outro lado…os equipamentos eletrônicos que você usa em sua casa possuem circuitos integrados, cuja construção se baseia na eletrodinâmica quântica…Por ser esta, uma das teorias mais bem construídas da física, a precisão entre os resultados previstos e aqueles obtidos no laboratório… é realmente mais que surpreendente. (“Observatório Nacional”)

outras fontes:  Diagramas de Feynman Feynman, o mais divertido dos gênios # ‘Deve ser brincadeira, Sr. Feynman’ ‘O americano, outra vez!’ # ‘NOBEL DE FÍSICA’ – 1965    ******************************(texto complementar)*******************************

espaço de feynman

James O’Brien for Quanta Magazine

O “quebra-cabeças” de Feynman

Richard Feynman parecia cansado, quando apareceu no escritório… — Era o fim de um longo dia em Santa Barbara – lá por 1982… Os eventos então…incluíram um seminário, que também foi uma performance…almoço grelhado por pós-doutorados – e animados debates com pesquisadores seniores… Mas nosso ilustre visitante queria falar de física.

Tivemos umas 2 horas para conversar antes do jantar. Eu descrevi para Feynman o que pensava ser emocionantes ideias especulativas…tais como “spin fracionário” e “anyons“;    o que…na verdade, não o deixou muito impressionado… – Tentando quebrar o silêncio constrangedor que se seguiu, perguntei a Feynman sobre a questão – ao meu ver, mais perturbadora na física… – de todos os tempos…Por que o espaço vazio não tem peso?”

Feynman, normalmente tão rápido e animado, ficou em silêncio. Foi a única vez que vi seu olhar melancólico…Finalmente, ele disse com ar sonhador… “Uma vez eu pensei que tinha descoberto. Foi lindo”. E então, animado, começou uma explicação, aumentando o tom de voz até quase gritar… “A razão para não ter peso…que pensei…é porque não há nada lá!”

Para apreciar esse monólogo surreal…é preciso conhecer os bastidores. – E ele envolve a distinção entre vácuo e vazio. Vácuo, no uso moderno…é o que se tem ao remover tudo o que se possa remover, seja na prática, ou por princípio… Assim, dizemos que uma região do espaço “compreende o vácuo” se estiver livre de todos diferentes tipos de partículas e radiação que conhecemos (incluindo a matéria escura – que conhecemos, sem detalhes).

Alternativamente, o vácuo é o estado de energia mínima, onde o espaço intergalático é uma boa aproximação. O vazio, por outro lado, é uma idealização teórica…significando      o nada…espaço sem propriedades independentes. Sua única função, seria manter tudo acontecendo no mesmo lugar… – O vazio dá a “direção das partículas“… e nada mais.

Aristóteles afirmou que… “A natureza abomina o vácuo” … mas,                uma tradução mais correta seria: “A natureza abomina o vazio”.

Isaac Newton parecia concordar, quando escreveu“Um corpo poder agir sobre outro à distância através de um vácuo…sem a mediação de qualquer outra coisa, por e através do qual sua ação e força pode ser transmitida de um para outro … é para mim absurdo tão grande…que acredito que nenhum homem que tenha feito ‘matéria filosófica’ numa competente…’Faculdade do Pensamento’… – jamais poderá nele cair”.

Todavia, na obra-prima de Newton…”Principia”… – os personagens são corpos que exercem forças uns sobre os outros. O espaço é um recipiente vazio, sem vida própria… – Na física newtoniana…”o vácuo é um vazio”.

elliptically polarized electric dipole

Esse quadro de Newton…funcionou brilhantemente por quase 2 séculos, enquanto “equações gravitacionais”  de Newton passavam de triunfo em triunfo, e (no início) os análogos de forças… — elétricas e… magnéticas, pareciam funcionar bem… Mas, no século 19, os fenômenos elétricos e magnéticos – contestaram a teoria.

O resultado para a solução desse questionamento surgiu das “equações de Maxwell“, onde os “campos eletromagnéticos” passam a ser os principais objetos da realidade. – E a teoria quântica, ao surgir, amplificou a “revolução maxwelliana” … ao considerar que ‘partículas’, são apenas…”bolhas de espuma arremessadas por campos subjacentes“…Fótons, por exemplo, são por ela…considerados como…”distúrbios em campos eletromagnéticos“.

Quando era um jovem cientista, Feynman achou essa visão demasiadamente artificial. Ele queria trazer de volta a abordagem de Newton…e trabalhar diretamente com as partículas que efetivamente percebemos. Ao fazer isso, ele esperava desafiar os pressupostos ocultos e chegar a uma descrição mais simples da natureza… evitando assim… o grande problema que a transição para campos quânticos havia criado…Qual seja, estes… na teoria quântica, têm um monte de “atividade espontânea”… – que os faz oscilar, em intensidade e direção.

Enquanto o valor médio do campo elétrico no vácuo é zero, o valor        médio do seu quadrado não é zero. E isso é significativo…porque a densidade de energia em um “campo elétrico”… – por exemplo … é proporcional ao quadrado do campo… Sendo, com efeito…infinito.

A atividade espontânea dos campos quânticos tem vários nomes diferentes…’flutuações quânticas’, ‘partículas virtuais’, ou movimento do ‘ponto zero’. – Há diferenças sutis nas conotações dessas expressões, mas todas se referem ao mesmo fenômeno. – Seja lá qual for o nome, a atividade envolve Muita energia… – Na verdade…uma quantidade infinita. Mas, na maioria dos casos, podemos deixar o infinito perturbador fora de consideração.

Isso pelo fato de que nas “flutuações do ponto zero” (característica intrínseca dos campos quânticos), variações de energia… em resposta a eventos externos, geralmente são finitas, podendo ser calculadas (da definição de energia…apenas variações são observáveis). Elas dão origem a alguns efeitos muito interessantes, já observados experimentalmente – tais como o Desvio de Lamb de linhas espectrais atômicas… e a força de Casimir entre placas condutoras neutras. – Longe de problemáticos…tais efeitos são trunfos à teoria quântica de campos… que – com exceção da gravidade… responde a todos os tipos de energia, independente da forma que esta energia possa tomar.

E, de fato, a densidade de energia infinita associada com a atividade de campos quânticos, presentes mesmo no vácuo, torna-se um grande problema quando se considera o efeito da gravidade…A princípio, tais campos quânticos deveriam tornar o vácuo pesado – contudo, experiências nos dizem que a força gravitacional do vácuo é muito pequena. Até há pouco, considerava-se zero… – Quem sabe a “chave conceitual” de Feynman evitasse o problema.

Feynman iniciou…desenhando figuras, cujas linhas representavam ligações de influência entre partículas. O primeiro diagrama (ao lado) — foi publicado em 1949 na “Physical Review”…Para saber como elétrons se influenciam…usando  os diagramas de Feynman, precisamos pensar que elétrons … à medida que se movem no espaço e evoluem no tempo, trocam fótons (‘quantum virtual’). Tais diagramas, adicionando outra linha, e  estendendo-se…livremente…ao futuro, transformaram…a clássica lei da ‘força elétrica’ de Coulomb, representando o modo…como elétrons irradiam fótons.

E assim, passo a passo, descrevendo processos físicos complexos montados a partir de peças bem simples…os diagramas de Feynman parecem ser imagens de processos que acontecem no espaço e no tempo… e, até certo ponto, e em certo sentido…eles são. Na verdade, o que eles mostram não são trajetórias geométricas rígidas, mas construções topológicas flexíveis, refletindo a “incerteza quântica” … – em suas corretas conexões.  Desse modo… Feynman então percebeu… – que poderia anexar uma simples fórmula matemática em cada diagrama… – expressando assim…a ‘probabilidade’ do processo.

Nos casos mais simples, chegou às mesmas respostas…obtidas com      muito mais trabalho… através das interações de campos quânticos.

gráviton

Um gráviton encontrando uma flutuação quântica. (Olena Shmahalo/Quanta Magazine)

Foi isso o que Feynman quis dizer…ao se expressar que… Não há nada lá. Ao remover os campos, ele também se livrou da contribuição destes à ‘gravidade‘ – o que gerou outros absurdos. — Ele pensou ter encontrado uma nova abordagem para ‘interações fundamentais’… não só mais simples do que o convencional, mas também mais sólida. Foi uma bela nova maneira de pensar sobre os processos fundamentais…mas, a primeira impressão estava errada.

Ao se aprofundar na questão – Feynman descobriu que seu método tinha um problema igual ao que ele tentava resolver… – o qual … pode ser percebido pelas imagens totalmente “autossuficientes” de seus diagramas – sem partículas para iniciar os eventos (…ou surgindo deles).

Esses assim chamados “gráficos desconectados”… — ou “bolhas de vácuo”, são diagramas de Feynman análogos às “flutuações do ponto zero” — representando a forma como “quantas virtuais” podem afetar “grávitons“. A consequência evidente é a redescoberta da obesidade mórbida do espaço ‘vazio’, por uma ‘flutuação quântica’.

Com efeito, Feynman gradualmente percebeu… – e, em seguida, provou…que seu método do diagrama não era uma verdadeira alternativa à abordagem de campo – mas sim…uma aproximação. – Contudo, apesar de…para ele – tal fato ter um gosto amargo de decepção, seus diagramas permanecem sendo um ‘tesouro da física‘, que muitas vezes fornece boas aproximações da realidade. Além disso são fáceis (e divertidos) de trabalhar, nos fazendo invocar nossos poderes visuais, para imaginar mundos…que não podemos realmente ver.

higgs

Uma maneira que a partícula de Higgs pode ser produzida e depois decair em partículas filhas (Olena Shmahalo/Quanta Magazine)

Os cálculos que, eventualmente, estabeleceram uma rota para a produção e observação da “partícula de Higgs”…e, resultaram no Prêmio Nobel de Física/2004, teriam sido literalmente impensáveis sem os diagramas de Feynman.

Nesse dia, em Santa Barbara, citando esses exemplos… eu disse a Feynman quão importante seus diagramas tinham sido para mim…no meu trabalho. – Ele pareceu satisfeito, embora dificilmente poderia ter sido surpreendido … pela importância de seus diagramas… – E me respondeu, com uma piscadela…“Sim, essa é a parte boa…ver as pessoas os usando… assim como, os vendo em todos os lugares”.

Oo diagrama de Feynman é mais útil na representação de um processo… – quando alguns diagramas relativamente simples fornecem a maior parte da resposta…Isso é o que os físicos chamam de “ligação fraca” … onde cada linha adicional é relativamente rara…e, é quase sempre, o caso dos fótons na eletrodinâmica quântica (QED)… aplicação que Feynman originalmente tinha em mente… Por cobrir a maior parte da física atômica…química… e “ciência dos materiais”…é uma conquista incrível capturar a QED em sua essência… – somente utilizando … “alguns rabiscos”.

Numa abordagem para a “força nuclear forte” … porém, sua estratégia falha; e a cromodinâmica quântica (QCD)    é a teoria dominante… Os análogos QCD dos fótons são partículas chamadas ‘glúons de cor’, e sua ligação não é fraca. Geralmente quando fazemos um cálculo na QCD, uma série de diagramas de Feynman — enfeitados com muitas linhas de glúons contribuem na resposta. Mas é impraticável (talvez, impossível)… adicionar todos eles.

Computadores quânticos, no entanto, vão revolucionar nossa compreensão da física nuclear…no cálculo das equações fundamentais…das flutuações dos campos de quarks e glúons diretamente… – E, de fato, nos últimos anos, simulações em supercomputadores,  abordando o cálculo das massas de prótons e neutrons … têm sido muito bem sucedidas.  Já o “quebra-cabeça que Feynman pensou ter resolvido…permanece conosco – embora em muitos aspectos nossa percepção dele tenha evoluído – principalmente…na precisão medida da densidade do vácuo…e na conclusão de sua “perenidade” – caracterizada por uma “energia escura (em essência… a mesma “constante cosmológica de Einstein).     

Medida ao longo do Universo… a energia escura representa cerca de 70%    de sua massa total. Isso soa impressionante, mas para os físicos o grande quebra-cabeça que permanece, é o porquê ser sua densidade tão pequena.

ActionAPE5LQanimXs30.gif

Atividade do glúon em um vácuo. (Cortesia de animação: Derek Leinweber)

Por um lado se supunha ser ela ‘infinita’ devido à contribuição das flutuações de campos – todavia…agora sabemos uma forma de tentar escapar desse ‘infinito‘.

Para uma classe de campos… – aqueles associados com bósons, a densidade de energia é positivamente infinita … mas, para outra classe de campos acoplados por férmions, a densidade de energia é negativamente infinita. Então, tendo o universo bósons/férmions equilibrado, tais infinidades… – podem se cancelar. 

Outra informação importante é que, além de ‘campos flutuantes’, o vácuo também contém  “campos não-flutuantes“, muitas vezes chamados “condensados”. Um desses é o chamado condensado sigma; outro é o condensado Higgs … e pode haver ainda muitos outros.

As primeiras estimativas de densidade destes condensados, são para valores muito maiores que o da energia escura – estimada como finita, mas exagerada demais. É possível haver cancelamentos adicionais a fazer. (texto base) (Frank Wilczek/2016)  *******************************************************************************

A função da “Dúvida” na Ciência                                              Se quisermos resolver problemas que nunca resolvemos antes,  devemos deixar a porta aberta, para todas possíveis soluções.

O cientista, em geral, tem muita experiência sobre ignorância, dúvida e incerteza… e penso que essa experiência é de grande valia… – Quando não conhece a resposta de um problema… é ignorante. Quando tem um pressentimento sobre o resultado,        está um pouco incerto… Mas, ao estar “incrivelmente seguro” sobre o resultado, na verdade, ele está sob um grande risco…          A filosofia grega já nos ensinou que é de “suma importância” reconhecermos nossa ignorância… dando espaço às dúvidas.

O saber científico é um conjunto de afirmações, com vários                      graus de certeza… – algumas mais incertas…outras, quase                    seguras – mas, nenhuma delas… ‘absolutamente certa’.

deusa_razao

A “deusa razão”, representada por uma prostituta, sendo carregada pelas ruas de Paris

Nossa ‘liberdade de duvidar’… no início da ciência… nasceu de uma luta muito forte e profunda contra toda autoridade, que não nos permitisse questionar as certezas que nos eram “arbitrariamente” impostas. Por todas as épocas, tentou-se compreender o significado da vida. – Até que enfim ficou percebido – que…se algum rumo pudesse ser dada às ações humanas…em conjunto,  ‘insólitas forças’ seriam desencadeadas…

Assim, ao longo do tempo…muitas foram as respostas…à questão do significado de tudo – recebidas com o horror das ações dos crentes em outras. ‘Horror porque… – por um desacordo de ponto de vista…todas as grandes potencialidades da ‘raça humana’ estavam sendo canalizadas para um falso beco sem saída… O sonho, na verdade, seria encontrar um caminho livre.

Esta ideia…contudo, não é nova… – É a ideia da “idade da razão“…filosofia que orientou  os homens que criaram a democracia em que vivemos. A ideia de que, ninguém sabendo exatamente como administrar um governo — acarretaria na noção de que precisávamos organizar um sistema pelo qual novas ideias pudessem ser criadas, testadas…lançadas e aprovadas, num método de “tentativa e erro”. – Tal método se originou do fato de que a ciência ao final do século XVIII já estava se mostrando um empreendimento de sucesso.

Essa abertura de possibilidades…era a grande oportunidade…para dúvidas e discussões, essenciais ao desenvolvimento. E, é nossa responsabilidade como cientista, conhecendo      o enorme ‘progresso’… que é fruto da “liberdade de pensamento“… proclamar seu valor, ensinando que a dúvida não deve ser temida…mas, bem-vinda e discutida…e, que exigir essa liberdade é nosso dever, para com todas gerações que estão por vir. (texto original)

Anúncios

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
Esse post foi publicado em física e marcado . Guardar link permanente.

5 respostas para As Múltiplas Histórias de Richard Feynman

  1. JMFC disse:

    Muito elucidativo da QED.

    Curtir

  2. Meus parabéns, teu artigo é maravilhoso. Eu não sabia que vc estudou astronomia. Este sempre foi um sonho meu. Se tiver interesse visite meu blog elisabetefatimadovalle.wordpress.com Escrevo poemas, alguns baseados em conteúdos científicos. Será um prazer receber tua visita.
    Obrigada por compartilhar.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ivan Santos disse:

    Ótimo texto!Eu tento me aventurar nesse universo louco da física,inclusive tenho os volumes do Lições de Feynman,são maravilhosos,mas bem difícil.Sobre o papel da Física ou da ciência em geral, concordo com você,aliás é simplesmente isso,melhorar nossa vida.Einstein desejava uma formula universal,conciliando todas as forcas fundamentais,e o desafio da Teoria das cordas.E assim segue a ciência..

    Curtido por 1 pessoa

  4. Cesarious disse:

    Não me parece que Einstein soubesse algo sobre a Teoria das Cordas…simplesmente porque essa ideia não existia enquanto ele era vivo.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s