Crimes e Castigos do Determinismo

“Some kind of determinism is required — if we want to have free will”…  (David Hume)

Duzentos anos depois… À luz da mecânica quântica… das teorias da ‘complexidade’… e, do “caos”, sabemos que Laplace era … por demais otimista… — Nem uma “inteligência superior” poderia conhecer a posição e velocidade exatas de todas as partículas do universo…e mesmo conhecendo, não poderia calcular exatamente “tanto o passado como o futuro” de todos os átomos do universo.

Apesar disso… a ideia de que o movimento da matéria seria “determinado” por seu passado, e por suas condições iniciais (…ideia que surgiu muito antes de Laplace) continua causando debates acirrados… – pois parece chocar-se com outra, também aparentemente inócua e evidente… – ‘que podemos decidir nossas ações’.

Quem reflete sobre esses temas, se encontra logo numa encruzilhada de 3 vias – ou a livre escolha é mera ilusão, ou devemos reinterpretar profundamente seu significado, ou, ainda, a matéria não é de fato determinista. O pior é que todas as opções são difíceis de se aceitar.

O mundo determinista

Segundo Paul Newall, doutorando pela Queen’s University, em Belfast… autor de           um manual online de filosofia para iniciantes e fundador da ‘The Galilean Library’:

“Aproximadamente, o determinismo afirma que, a maneira com que as coisas estarão futuramente é o resultado de como as coisas estão agora, e do funcionamento das leis da natureza a partir dessas condições iniciais”.

Afirmar que o mundo é determinista – explica Newall, significa acreditar que o futuro é o resultado necessário das condições, e estruturas preexistentes…  –  Ou… nas palavras daStanford Encyclopedia of Philosophy’…

Determinismo é a ideia de que qualquer evento acontece — necessariamente — devido a causas anteriores, e às leis de natureza; ou melhor, dada uma maneira em que as coisas estão num determinado instante… a maneira em que as coisas vão estar depois é fixada pelas leis de natureza”… isto é:

‘Se a matéria é determinista… as condições em que o universo                            se encontra hoje… – é quem determina sua evolução amanhã.’                    

A encruzilhada

Determinismo não é o mesmo que fatalismo. Para os fatalistas, o futuro é decidido (pelos deuses, por exemplo). — Para um determinista, o que Édipo faz hoje é determinado por seu passado e determina seu futuro. Para os fatalistas, o que Édipo faz ou fez, não importa…  —  ele está destinado a cumprir sua tragédia.   

O determinismo – ao contrário do fatalismo, parece em acordo com inúmeros fatos empíricos … regidos por regularidades internas…passíveis de percepção.

Mesmo assim, quando pensamos em homens e mulheres, o determinismo parece absurdo, porque, segundo o filósofo Elliott Soberse as partículas elementares são deterministas, então também o será, tudo que for feito destas partículas…Se a mente de uma pessoa for algo material, então… seus desejos e comportamento são regidos por leis deterministas”.

Eis a encruzilhada. É possível decidir por levantar ou não um braço?… Se sim, os átomos de nosso braço podem fazer uma coisa ou outra em função de uma livre escolha de nossa vontade…  Então, ou nossa “livre escolha” está determinada… – ou os átomos de nosso cérebro e corpo podem fazer algo independente da determinação dada pelo passado … e, pelas leis da física.

A primeira possibilidade parece chocar-se com a mais forte das sensações – de que, a cada instante, podemos tomar decisões…Mas, a segunda possibilidade parece chocar-se com as ciências naturais. Se nosso pensamento pode causar mudanças no mundo material, a cada instante as leis da física parecem ser violadas bilhões de vezes. Um milagre…E, de um tipo muito estranho, pois todos instrumentos baseados em leis físicas – funcionam muito bem:

‘Se átomos podem fazer coisas não inclusas nas equações da física…por que satélites, computadores e telefones funcionam com enorme precisão, e independente de nossos pensamentos?… – Eis a grande enxaqueca.’

mente cérebro e ciência

Alguns dizem que a ‘física quântica‘ atenua o problema… mostrando que o comportamento dos átomos só pode ser descrito em termos de probabilidades. Porém, para John Searle, celebrado filósofo, nem a mecânica quântica nos liberta… como escreve em seu livro “Mente, Cérebro e Ciência”… Mesmo se no comportamento de partículas físicas existe um ‘elemento de indeterminação’isso não dá – por si próprio… livre curso à liberdade humana da vontade… O ‘indeterminismo’ não constitui evidência da existência de uma energia mental da liberdade humana, que movesse moléculas para direções em que… de outro modo elas não iriam se mover. Assim, parece realmente como se tudo que sabemos sobre a física…nos forçasse a alguma forma de negação da liberdade humana”.

“Estamos, portanto, perante um enigma filosófico característico. — Por um lado, um conjunto de argumentos poderosos nos força à conclusão de que a livre vontade não existe no universo. – Por outro, uma série de argumentos poderosos nos inclina à conclusão de existir alguma ‘liberdade da vontade’, já que todos a experimentamos a todo o tempo”.

Elliot Sober, por outras palavras…chega à mesma conclusão… – “Se nossas ações são determinadas não apenas por desejos e crenças, mas por desejos, crenças e a roda de uma roleta, isso não nos torna mais livres”. Essa é uma encruzilhada formidável que atormenta cientistas e filósofos há gerações…  —  Como sair dessa ‘sinuca de bico’?…

Deterministas e Libertários                                                                                                     “O que cabe hoje ao Homem em sua relação com a verdade, como nunca antes em sua história, é uma extraordinária medida de liberdade e responsabilidade.” (F. Nietzsche)

Baruch-Benedict-Spinoza-frases

Filósofos e cientistas se dividem … sobre o problema da relação entre ‘livre arbítrio’ e ‘determinismo’… Para os deterministas, devemos admitir… que a livre escolha é só uma ilusão. O filósofo Baruch de Spinoza, por exemplo, escrevia em sua ‘Ética’: Não há na mente vontade livre …  ou absoluta, pois a mente é determinada a querer isto, ou aquilo por uma causa que, por sua vez,   é determinada por outra causa, e essa por outra… e assim ad infinitum” … E incluía: “Os homens se consideram livres… – porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar”.

Em outras palavras, por que os leitores estão lendo este texto? Porque querem, é a reposta fácil. Mas querer alguma coisa, perguntaria Spinoza, é uma escolha livre?…  Sendo nossas decisões determinadas por nosso querer ou não querer – ou seja… – por nossas crenças e desejos, que dependem do ambiente… de nossa história…da biologia, etc. – podemos não querer o que queremos?…jlborges

No lado oposto do front – há os filósofos chamados “libertários”, que creem na existência do livre arbítrio, e que o mundo, de fato, não é determinista…  —  Alguns estudiosos, inclusive, consideram liberais as ideias de Immanuel Kant (1724-1804)… e, Johann Fichte (1762-1814)… — Contudo… há ainda outra curiosa vertente, como explica Paul Newall…

“É possível sustentar que ‘determinismo’ e ‘liberdade de escolha’ possam existir juntos; tal ideia se chama compatibilismo, e foi historicamente, a posição de muitos filósofos”.

Os ingleses David Hume (1711-1776) e John Stuart Mill (1806-1873) – por exemplo, foram considerados defensores do compatibilismo, baseando-se em argumentações bastante sutis, como a de que, mesmo tendo causas determinadas, nossas escolhas não seriam constrangidas, isto é, obrigatórias.

“Até em áreas BEM deterministas da ciência, como a física clássica, são estudados diversos exemplos em que o determinismo parece ter falhas”, comenta Newall.

E, no contexto da relatividade geral, mecânica quântica, ou teoria da evolução … filósofos e cientistas gastaram muito tempo pensando nas implicações da relação entre determinismo e livre arbítrio; muitas vezes chegando a uma acomodação entre os dois. 

clarice-lispector

Determismo & Livre Arbítrio

Hoje em dia…  –  é de lei denegrir os determinismos. Sabemos que é simplório, ingênuo, ou tendencioso – por exemplo… atribuir as causas do comportamento humano às condições econômicas, ou genéticas… ao ambiente em que crescemos, ao clima, etc.

Nenhum desses fatores — por si só, pode determinar o comportamento… ou a cultura de grupos humanos; e talvez, nem todos juntos. Contudo, mesmo sendo o determinismo causal um jeito cortante…às vezes grosseiro de formular hipóteses sobre o mundo, não é fácil imaginar o conhecimento sem algum tipo de bisturi.

O ‘determinismo causal’ tornou-se associado com ideias profundamente impopulares, tais como o determinismo racial ou biológico. Mas, sua premissa de base, qual seja… o que acontece no futuro é determinado em certa medida pelo que se passou antes…  –  é quase essencial para que a vida e o mundo a nosso redor façam algum sentido… Muito embora queiramos acreditar que algum tipo de livre arbítrio existe, ou agir como se existisse (especialmente ao atribuírmos culpas)…  é difícil imaginar como poderíamos agir senão assumindo que existe algum tipo de determinismo por trás”…disse Newall.

(texto base) Yurij Castelfranchi, 2007 ‘What is Philosophy?’ ‘Free will and Determinism’  outras fontes… #### ‘Idealização e Abstração’ #### Livre-arbítrio & Determinismo  ***********************(texto complementar)***************************************

O cérebro humano está no limite do caos

Pesquisadores descobriram novas evidências de que o cérebro humano vive ‘no limite do caos’, em um ponto crítico entre a aleatoriedade e a ordem. — O estudo … publicado no jornal acadêmico…’PLoS Computational Biology’ fornece dados experimentais sobre uma ideia até agora… repleta de especulações teóricas.

O ponto crítico da auto-organização, onde sistemas organizam-se, espontaneamente… para operar em um ponto crítico entre a ordem e a aleatoriedade… – pode emergir a partir de complexas interações em diferentes sistemas físicos… – incluindo avalanches… terremotos, incêndios florestais e ritmos cardíacos.

De acordo com o presente estudo — feito por uma equipe da Universidade de Cambridge, a dinâmica das redes do cérebro humano tem importantes elementos em comum com alguns sistemas…muito diferentes na natureza.

“Espinoza e a Filosofia Prática”... (Gilles Deleuze)

“Espinoza e a Filosofia Prática”… (Gilles Deleuze)

Os pesquisadores utilizaram técnicas de ‘imageamento cerebral‘ de última geração para captar micro-alterações na sincronização de atividades, entre diferentes regiões…da rede funcional do cérebro humano.

Os resultados sugerem que o cérebro opera em um estado crítico auto-organizado. — Para sustentar essa ideia eles estudaram a sincronização dessas atividades…segundo modelos computacionais, demonstrando que o perfil dinâmico encontrado no cérebro é expresso, de forma exata, por seus modelos.

Os resultados do imageamento cerebral, em conjunto com suas simulações, fornecem fortes evidências em favor da ideia de que a dinâmica do cérebro humano… — “situa-se em um ponto crítico entre a ordem e o caos“.

“Redes computacionais” que apresentam essas características… também atingem capacidades ótimas de memória (armazenamento de dados), e processamento de informações… – Sistemas críticos são capazes de responder muito rapidamente, e de forma ampla a pequenas variações em seus inputs… E, para o pesquisador Manfred Kitzbichler:

“Devido a essas características… a ‘criticalidade auto-organizada‘…é, intuitivamente atrativa, como um modelo para a funções cerebrais – como a percepção e a ação, que nos permite alternar rapidamente entre ‘estados mentais’… – a fim de responder a condições ambientais variáveis”.  (texto base) … p/consulta…  ‘determinismo’  ##  ‘teoria do caos’ ***********************************************************************************  

Consciência, Liberdade & Destino…segundo Sartre                                                   “O Homem tem uma dimensão subjetiva (projeção de si próprio), e pode ter plena consciência disso…O que se chama ‘subjetividade’, de fato, é a própria consciência               de ser consciente…Mas, segundo Sartre… – para isso acontecer é preciso que essa consciência se qualifique de algum modo. E esse modo leva o Homem a pressupor             o efeito de suas próprias escolhas… por uma intuição reveladora”.  (Isaias Sczuk) 

Sartre

Sartre não universaliza a escolha do agir — dessa, ou daquela maneira, mas coloca que esse ou aquele modo de vida pode ou não ser possível… É cada um que deve escolher seu caminho – escolha o bem ou o mal, estará sozinho nessa decisão.

Se for bom para ele, pode não ser bom para os demais – mesmo assim será sua escolha. Sendo que, pode não ser bom nem aos demais… e, nem mesmo à si próprio, porém, outra vez ele será o único responsável por isso — já que foi exercida sua própria liberdade… no exato momento desse decidir, esse agir em meio à sociedade – o que o levará à consequência dessa ação, e a novas escolhas, e assim até autoconstruir-se.            

Por isso, o ‘existencialismo’ de Sartre nos diz que… educar é… — possibilitar a construção dessa essência humana por meio da liberdade, transformando o ser humano, de um ser inautêntico …  para autêntico  — desde que ele escolha isso…

Tirando-o da massa social – cheia de determinismos, e dogmatismos… – fazendo-o correr o risco de tornar-se diferente dos demaise, ser muitas vezes punido por isso; de angustiar-se com isso; mas, possibilitando-o construir a si próprio. (Simone de Nerdi Grama)

‘Educacao-brasileira-uma-visao-filosofica’

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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2 respostas para Crimes e Castigos do Determinismo

  1. JMFC disse:

    De acordo com o texto parece poder se concluir que Stuart Mill e David Hume andarão mais próximos da realidade…

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    • Cesarious disse:

      De acordo com o texto, sim; mas as palavras da Clarice Lispector me parecem reveladoras…’só podemos ser livres dentro dos parâmetros do nosso próprio destino’… (ao reconhecermos os nossos limites, diria eu…)
      O grande benefício que a teoria do caos (determinístico) trouxe, foi uma abordagem aos sistemas não-lineares… onde os componentes interagem entre si… o que traz a imprevisibilidade a longo prazo – e que corresponde à maioria dos sistemas vivos, e reais.

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