“Epistemologias Ecológicas” (‘Gaia’ revisitada)

“A natureza é o “espírito adormecido” que emerge da evolução, até                               tomar consciência de si mesma…no Homem.” (Friedrich Schelling)

O conceito epistemologias ecológicas é necessariamente plural, na medida em que pretende determinar uma ‘área de convergência’…de novos horizontes de compreensão de um “sujeito humano” cognoscente, no “mundo da natureza”.  Este conceito nos parece plausívelao   se referir a um “reposicionamento” do humano… — em uma rede de relações simétricas e reciprocas…dando voz ao mundo — ao considerar nessa relação,   a autonomia das ‘coisas’…na natureza.

Esse tipo de imaginação ecológica ao atravessar a vida social como ‘potência criativa’, redefine a paisagem que habitamos em nossas relações com outros organismos e objetos, ao mesmo tempo em que cria práticas cotidianas de preservação ambiental…em atitudes   e predisposições que se impõem aos indivíduos… e ‘grupos sociais’ – como um ‘habitus‘.  Este horizonte imaginativo, no entanto, não se esgota na criação e reprodução constante   de modos de ser e viver… mas também… incide sobre as formas pelas quais pensamos, e conhecemos o mundo. Nosso modo de habitar o planetacoincide com o de conhecê-lo; habilidade então adquirida da relação com outros seres…que coabitam o mesmo espaço.

             Torna-se, assim, impossível dissociar a mente do corpo,                                      a cultura da natureza … o conhecimento da experiência.

Reconhecer essas ‘epistemologias’, acaba por situar-nos…no Universo que se mostra diverso daquele que se estabeleceu pela ‘hegemonia’ da “narrativa científica”. Talvez então pudéssemos imaginar habitarmos ‘multiversos‘. Porém, insistimos na ‘singularidade’ de um Universo único, real, e ‘dinâmico’. Portanto, esta condição de…”localização” no Universo…nos permite considerar a cosmologia…como um resultado das modernas epistemologias…no campo social, e político/científico. 

Ao reconhecer a ciência como “produtora de cosmologias”estamos situando-a no campo da ‘imaginação‘… – e da produção de “sistemas de organização” … que habitam o cosmo. Nessa perspectiva, poderíamos situar a ciência, ao lado da cultura… enquanto invenção do falar sobre o outro e entendê-lo… dentro de nossa própria “chave de leitura”… – Com isso, ainda que diversas dessas culturas tenham se produzido… pelo totemismo dos aborígenes australianos…ou animismo dos povos ameríndios… – a “cosmologia racionalista” dos modernos aparece – sob o prisma da“relativização da ciência”  como complementar, e simétrica a todas as formas de conhecimento dos organismos que criam e mantêm a vida.

Sob esta perspectiva, percepção e ação são entendidas como comuns a todos organismos. E, sendo assim, devemos concluir que outras fontes de sentidos…para além ou aquém da cultura ‘civilizada’… são possíveis. Ou seja, não se trata de apropriar-se do ambiente pela mediação da cultura – incorporando-o em nossa teia de significados humanos … mas, de reconhecer a singularidade das várias perspectivas dos organismos…no habitar o mundo.

Natureza x Cultura

Considerando que a tensão entre natureza e cultura é — fundadora da ‘epistemologia moderna’ … os saberes contemporâneos – sob argumento da especialização, criaram um abismo no diálogo … entre ciências da natureza e humanas… Por epistemologias  ecológicas…ousamos postular o desvio da epistemologia e ontologia clássicas … que se pretenderam ‘universais’, em direção a  epistemologias locais – entre as quais – a  diferença se dá – a rigor…na mudança no estatuto dos…”sujeitos de conhecimento”, agora não mais exclusivamente humanos.  Por consequência…a questão da natureza ganha um ‘ponto de partida’ para o saber, não mais distanciado e excludente… mas, ao contrário – com o sujeito engajado no coração do mundo material participando   e repartindo de uma experiência comum.

Assim a ciência…não mais referendada como o único reduto da verdade, surge como um regime de produção social. Perdendo o ‘inquestionável fórum privilegiado’ que a situava acima das culturas — como a única instância autorizada a falar em nome de uma ‘razão universal’ – a ciência desce de seu sagrado pedestal — tornando-se ‘humana’ e ecológica; dividindo com outros regimes de produção sua tarefa/missão de validar o conhecimento.

caixa_de_pandora“Caixa de Pandora”

Ao abrir a sua ‘Caixa de Pandora’, a ciência não só permite que outros ‘modos de saber’ possam reivindicar a ‘legitimidade’ de suas narrativas da realidade… — como também, vê-se permeável àquelas heterodoxias, que ‘tradicionalmente’… costumam emergir da sociedade, seja no desconhecimento por ignorância…e ingenuidade… ou às vezes até mesmo, escusos interesses comerciais.  Ainda assim…esse “velho paradigma” tem por objetivo, novos rumos ao ‘impasse’ da relação… natureza/cultura… no horizonte antropocêntrico da ciência moderna…Daí, uma fusão de histórias … nos faz convivas  de um mesmo…híbrido… “mundo global”.

A assunção de uma simetria no processo de conhecimento, que transcende o humano ou cultura, nos leva então, ao processo criativo de incorporação de habilidades a ser partilhado com outros seres habitantes do mesmo mundo.

O fato de estarmos todos – humanos e não humanos, submetidos ao mesmo processo criativo de…‘interações contínuas’, que nos permite a aquisição e incorporação de habilidades, contudo, não elimina nossa diferenciaçãocomo ‘organismos’, por meio          de uma diversidade de combinações possíveis no ambiente … servindo como guia … à nossas trajetórias de vida. As epistemologias ecológicas propõem assim…um novo modo de operar, em termos do conhecimento – que…pelo processo de objetivação do          real nos conduz ao engajamento no imediato mundo da experiência. Conhecer torna-        se assim, não só um esforço para imaginar o mundo, da forma como ele é imaginado      por outras culturas  mas a possibilidade de se estender nossa experiênciaà outras espécies…que partilham conosco a incrível aventura do ‘existir cósmico’. (texto base) *******************************************************************************

TEORIA DE GAIA – COMO SURGIU A TEORIA (Mariana Lorenzo)                                A ‘teoria de Gaia’ teve suas origens na década de 60, nos primeiros dias do programa espacial da NASA, por James Lovelock e mais tarde foi concluída com ajuda de Lynn Margulis…Vale dizer que no começo dos anos 60…foram lançados os primeiros voos espaciais que permitiram ao Homem olhar pela primeira vez o planeta Terra a partir          do espaço exterior… – e percebê-lo como um todo. – As fotografias da Terra inteira trazidas pelos astronautas, ofereceram o símbolo mais poderoso da “ecologia global”.

planeta Terra

Uma das imagens mais famosas do mundo é um retrato do nosso próprio planeta. Batizada de “bola de gude azul“, a icônica foto da Terra foi feita pela Apollo 17 (dezembro/1972).

Os programas espaciais – soviético e dos EUA, na década de 60, lançaram mais de 50 sondas espaciais sendo uma grande parte delas, objetivando a “exploração lunar” — mas também outras tendo em vista astros mais distantes… — como…Vênus e Marte. Para projetar aparelhos possíveis de detectar vida em Marte — a “NASA” convidou…James Lovelock ao Jet Propulsion Laboratories, Califórnia. Lovelock, em busca de técnicas que mais bem resolvessem uma relação demanda x estrutura instrumental, usualmenteindagava a si mesmo:

“Como podemos estar certos de que o modo de vida marciano, qualquer        que seja ele – se revelará a testes baseados no estilo de vida da Terra?”.

Essa questão, pelos anos seguintes, o levou a pensar mais a fundo sobre a natureza da vida, e como ela poderia ser reconhecida. Assim, ele deduziu que o fato de todos seres vivos extraírem energia e matéria, descartando produtos residuais, era a mais geral        das características da vida que podia identificar. — Lovelock então concluiu ser capaz,      de detectar a existência de vida…pela análise da composição química da atmosfera de      um planeta, supondo que a vida em qualquer planeta utilizaria a atmosfera e oceanos como meio fluido para matérias-primas e produtos residuais…Por esse raciocínio a atmosfera marciana revelaria efetivamente alguma combinação de gases (no caso em      que houvesse vida em Marte), que poderiam ser detectadas, mesmo a partir da Terra.

Quando Lovelock e seu colega Dian Hitchcock, realizaram uma análise sistemática da atmosfera de Marte, utilizando observações feitas a partir da Terra e a compararam    com uma análise parecidada atmosfera terrestredescobriram que as composições químicas dos dois planetas são semelhantes…em Marte há algum oxigênio, um pouco      de dióxido de carbono e nenhum metano. A atmosfera da Terra, por sua vez, possui grande quantidade de oxigênio quase nada de dióxido de carbono, e uma porção de metano. – Ao analisar tudo isso…Lovelock deduziu ter passado a atmosfera marciana,    por um processo de ‘equilíbrio total’já que em um planeta sem vida – todas reações químicas possíveis entre gases atmosféricos foram completadas há muito tempo, não havendo mais reações nos dias de hoje. – Na Terra, por causa da presença de vida, os gases como oxigênio e metano reagem entre si constantemente, e coexistem em altas proporções, deixando-os afastados do equilíbrio químico. AssimLovelock passou          a ver a atmosfera terrestre como um… “sistema aberto“… — afastado do equilíbrio, caracterizado por um fluxo constante…de energia e de matéria. — Segundo Lovelock:

atmosfera terrestre“Para mim, a revelação pessoal de Gaia veio subitamente…como um flash de iluminação. Eu estava numa pequena sala do pavimento superior do ‘Jet Propulsion Laboratory’, em Pasadena, Califórnia. Era o outono de 1965,  e, estava conversando com…Dian Hithcock, sobre um artigo que estávamos preparando. Nesse momento, num lampejo…vislumbrei Gaia, e me veio um pensamento assustador:

A atmosfera da Terra era uma mistura extraordinária e instável de gases, e, não obstante, eu sabia que sua composição se mantinha…ao longo de períodos de tempos muito longos. Então, nesse caso, será que a vida não somente criou a atmosferamas também a regula, mantendo-a com uma composição constante, e com um nível favorável aos organismos?”

O calor do Sol na superfície terrestre aumentou 25%, desde que começou a vida na Terra,    e permaneceu estável desde então, se tornando uma temperatura confortável para a vida. Dessa forma, Lovelock supôs que a Terra fosse capaz de regular sua temperatura – assim como outras condições planetárias: a composição de sua atmosfera…a salinidade de seus oceanos, etc. – assim como organismos vivos tem a capacidade de se auto-regular – para manter constantes a temperatura de seus corpos, e outras variáveis…O processo de auto-regulação é portanto a revolucionária chave da ‘teoria de Lovelock’; como ele argumenta:

“Considere a teoria de Gaia como uma alternativa à sabedoria convencional,                      que vê a Terra como um planeta morto, feito de rochas, oceanos e atmosfera inanimadas, e meramente habitado por vida. — Considere-a um verdadeiro              sistema, abrangendo toda a vida e todo o seu meio ambiente, estreitamente                      acoplados…de modo a que possa constituir uma entidade auto-reguladora.”

James Lovelock apresentou sua hipótese da Terra como um sistema auto-regulador            pela primeira vez em 1969, em um encontro científico em Princeton. Vale lembrar        que um amigo romancista, logo reconhecendo ser a teoria similar a um antigo mito          grego, sugeriu o nome “hipótese de Gaia”, em honra da deusa grega da Terra – cuja lembrança Lovelock gostou e aceitou…A seguir, em 1972, publica a primeira versão extensa de sua teoria num artigo intitulado “Gaia as Seen through the Atmosphere”.  Cumpre observar, todavia, que Lovelock nessa época ainda não sabia como a Terra      poderia regular sua temperatura e composição atmosférica — sabendo apenas, que          ‘processos auto-reguladores’ envolvem todos os organismos na superfície terrestre.

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Níveis de gases na atmosfera em 420 mil anos de dados do núcleo de gelo de Vostok, estação de pesquisa da Antártica. O período atual está à esquerda. (texto base)

Vale lembrar que a microbiologista Lynn Margulis àquela época também estudava os processos que Lovelock pesquisava, como…produção e remoção de gases por vários organismos incluindo incontáveis bactérias… – presentes no solo da Terra. Margulis então, procurou Lovelocke o encontro resultou numa “teoria de Gaia” totalmente científica. — Ela respondia a perguntas sobre ‘origens biológicas’ dos gases atmosféricos…ele colaborava com questões da químicatermodinâmica e cibernética, e assimdescobriram uma complexa…”rede de retro-alimentação”.

Conclui-se então ser impossível analisar as partes vivas do planeta – seres bióticos e plantas, separados de sua parte não viva – rochas, oceanos, etc. pois há forte ligação            entre essas partes (sistemas ‘bióticos’ e ‘abióticos’), originada da ‘auto-regulação’ do sistema planetário. Vale dizer que a ‘teoria de Gaia’ abrange várias disciplinas como geologia, microbiologia, química atmosférica…e outras, analisando a vida, de forma sistêmica. Lovelock e Margulis afrontaram a visão tradicional, das forças geológicas            criando condições à vida na Terra — sendo as plantas e animais apenas passageiros          que descobriram por acaso condições corretas para sua evolução. Na teoria de Gaia, entretanto, a vida cria as condições para sua própria existência…Segundo Margulis:    “Enunciada de forma simples, a hipótese de Gaia afirma que a superfície da Terra,  sempre considerada como o ‘meio ambiente‘ da vida, é na verdadeparte’ da vida.            A manta de ar…(“troposfera”)…deveria ser considerada um…”sistema circulatório”, produzido e sustentado pela vida… Quando nos dizem que a vida se adapta a um                meio ambiente essencialmente passivo…de química, física e rochas – é perpetuada            uma visão seriamente distorcidaA vida fabrica, modela e muda o meio ambiente,            ao qual se adapta, para que a seguir este meio ambiente realimente a vida que está mudando, atuando e crescendo nele… Há, portanto, interações cíclicas constantes.”

Apesar da resistência que surgiu na época pela comunidade científica ao saberem                da nova teoria – ela foi publicada pelo astrônomo…Carl Sagan – editor da revista                “Icarus…Vale ressaltar que de todas as teorias e modelos de ‘auto organização’,              foi a de ‘Gaia’ que teve a mais forte resistência. Após sua publicação, os cientistas              diziam que a teoria era teleológicasendo portanto, não cientifica. E chegaram a                tal conclusão pelo simples fato de se basear na ideia de processos naturais sendo modelados…por um propósito. – Todaviao principal argumento, implícito pela                  rejeição…era a imagem de ‘Gaia’…como um ser sensível…Lovelock argumentava:

“Nem Lynn Margulis nem eu…jamais propusemos que a auto-regulação                          planetária é propositada. Não obstante, recebemos críticas persistentes,                                quase…”dogmáticas”… — afirmando que nossa hipótese é teleológica”.

Voltou-se à discussão entre ‘mecanicistas’ e ‘vitalistas’ … onde os primeiros afirmam que todos fenômenos biológicos serão explicados pelas leis da física e química, e os vitalistas    se baseiam na existência de uma entidade causal dirigindo processos vitais. A ‘teleologia’ (do grego telos = propósito), aponta ser o agente postulado pelo vitalismopropositado, ou seja, há propósito e plano na natureza. Acrescenta-se a tudo isso que os mecanicistas, contra ideias vitalistas e teleologistasargumentam, com base na metáfora newtoniana    de Deus como um relojoeiro. Vale dizer que a teoria dos sistemas vivos desenvolvida atualmente, tendo como base a natureza viva como consciente e inteligentesem supor qualquer plano ou propósito global, superou a discussão entre mecanicismo e teleologia.

Os mecanicistas eram contra a hipótese de Gaia, pois não compreendiam como a vida      na Terra era capaz de criar e regular as condições para a sua própria existência sem ser consciente e propositada. Lovelock respondeu aos críticos mecanicistas com base no modelo matemático chamado Mundo das Margaridas, que representa um sistema de Gaia simplificado – mostrando que a regulação da temperatura é uma característica emergente do próprio sistema, como resultado da ligação entre os organismos, e seu meio. E sobre este assunto, ele costumava se perguntar: “Se a evolução do ecossistema        do ‘Mundo das Margaridas‘…levaria a uma auto-regulação do clima?”.  (texto base***********************************************************************************

‘Gaia’um “sistema complexo”

Ateoria de Gaiafoi proposta na década de 1970 por James Lovelock a partir de estudos realizados no começo da década de 1960 para a ‘NASA’ … objetivando a possibilidade de encontrar vida em outros planetas, em especial no planeta Marte. Lovelock, em parceria com a filósofa Dian Hitchcock tentou elaborar experimentos suficientemente gerais para deteção de vida – independentes do ‘particular’ tipo de vida surgida aqui na Terra (assim,  poderiam ser usados na busca de qualquer forma de vidamesmo que substancialmente diferente da nossa). Um desses testes, elaborados por Lovelock e Hitchcock, consistia em comparar a ‘composição química’ da atmosfera de outros planetas…como Marte e Vênus, com a atmosfera terrestre. A base teórica do teste era simples – para um planeta que não apresentasse vida — a composição química da sua atmosfera … seria definida apenas por processos físico-químicos, devendo assim estar próxima ao estado de equilíbrio químico.

Em contraste, a atmosfera de um planeta com vida … apresentaria uma espécie química      de assinatura característica uma combinação especial de gases… indicação de uma atmosfera em estado de constante desequilíbrio…Esta ‘assinatura‘ seria resultante da presença de organismos vivos que utilizariam a atmosfera (bem como oceanos, solos, etc.) como fontes de…”matéria-prima” – e, depósitos para resíduos de seu metabolismo.

Nossos vizinhos no Sistema Solar

Ao analisarem a composição química das atmosferas deMarte e VênusLovelock e Hitchcock concluíram que nossos ‘vizinhos’ não possuem vidapois suas atmosferas se encontram em um ‘estado’ bem próximo ao “equilíbrio químico”cheias de ‘dióxido de carbono’ (mais de 95%) pouco oxigênio e nitrogênio…e sem metano. Comparando com a Terra… – as diferenças químicas são significativas: Nitrogênio (78%) e oxigênio, com (21%) … são os gases dominantes, já o dióxido de carbono só contribui em 0,03%; embora estejamos aumentando tais níveis. 

Em reduzido número, a atmosfera terrestre possui vários outros gases, todos altamente reativos…contribuindo para uma situação instável de desequilíbrio…que se mantém na atmosfera terrestre há um longo tempo – o que não seria esperado… caso a composição química atmosférica fosse apenas…resultado da ação de mecanismos físicos e químicos.  Com efeito, essa “composição atmosférica” reflete a dinâmica de trocas gasosas, entre a atmosfera terrestre e os organismos vivos. Isto é… o que leva a atmosfera terrestre a ter uma composição química singularmente diferente daquela dos nossos vizinhos…Marte,      e Vênus…é…pode-se dizer assim, simplesmente…o fato trivial…da Terra possuir vida.

Se toda a vida fosse eliminada do planeta – repentinamente…as moléculas dos gases atmosféricos reagiriam entre si, o que resultaria numa atmosfera com a composição química muito próxima à de Marte ou Vênus. A atmosfera da Terra, portantoé um produto biológico…sendo constantemente construída e consumida pelos seres vivos.

lynn-margulis

‘Gaia’um “sistema complexo”

J. Lovelock e Lynn Margulis então propuseram a existência de umarede complexa“…de alças de retroalimentação… relacionando o ambiente físico-químico…e seres vivos intimamente, assim resultando numa…”auto-regulação“…própria do sistema planetárioAtravés desses ‘mecanismos        de controle’os “seres vivos” seriam capazes, de alterar o próprio ambiente, de modo a manter as condições físico-químicas mais adequadas, à sua própria sobrevivência. Mas, a solução foi parcial.

Uma crítica importante à “teoria de Gaia” tem como alvo a afirmação da vida na Terra buscar condições adequadas à si mesma…Entretanto, essa afirmação não define quais seriam tais condições, e benefícios à biosfera como um todo…Afinal, o que é bom para        uma espécie pode ser ruim para outra…Como organismos com interesses divergentes,        e até conflitantes…podem agir em sinergia…para a produção de condições ótimas ao conjunto total de ‘seres vivos’ sobre a Terra?… – A verdade é que não há uma ou mais condições que possam ser adequadas aos seres vivos, como um todo. Exemplificando:

Enquanto ‘organismos aeróbicos‘ precisam respirar oxigênio atmosférico para sobreviveros estritamente ‘anaeróbicos‘ têm seu crescimento inibido por esse gás.

Lovelock não foi capaz de responder a essas críticas. – Entretanto… mais recentemente, respostas interessantes foram propostas por alguns autores. Por exemplo, Axel Kleidon propôs – em 2002…que é possível definir alguns objetivos muito gerais…que poderiam corresponder a condições adequadas para toda a biota…como, por exemplo, aumentos    da produtividade primária bruta, da diversidadeou da entropia do ambiente ao redor.

Estes não seriam, portanto, benefícios para uma espécie                                   em particular – mas sim, para a biosfera como um todo.

Uma quantidade crescente de pesquisadores de vários “campos do conhecimento” têm se dedicado à articulação teórica…e ao teste de previsões derivadas de Gaia. Atualmente já é possível encontrar uma verdadeira comunidade formada em torno destas questões… com destaque para Timothy Lenton, Tyler Volk, Axel Kleidon, Stephen Schneider entre outros.  Provenientes de áreas tão diversas como Biologia Evolutiva, Biogeoquímica, Climatologia, eles constituem uma comunidade multidisciplinar vigorosa — que se ocupa de problemas teóricos e empíricos de importância central na teoria Gaia…Porém, muitos deles rejeitam algumas das proposições iniciais de Lovelock, como a da Terra sendo um organismo vivo.

“Hipótese CLAW”                                                                                                                          Por serem brancas, as nuvens refletem uma boa parte da radiação solar                                ao espaço – esfriando a superfície oceânica, e o planeta… como um todo.

A teoria Gaia já deu contribuições importantes à compreensão dos ciclos biogeoquímicos, das “relações evolutivas” entre organismos e ambiente, e em estudos sobre o clima global.  Um estudo empírico que utilizou a ‘teoria Gaia’ como base…contribuindo para a teoria de Lovelock, se ocupou da relação entre‘algas oceânicas’, liberando gás sulfeto de dimetila (DMS), e a formação de nuvens sobre oceanos.Partindo dessa constatação, Lovelock e seus colaboradores propuseram, o que ficou conhecido como ‘hipótese CLAW(iniciais dos nomes dos autores do artigo)…Esta hipótese propõe que o resfriamento da superfície oceânica causado pelas nuvens leva a uma queda na liberação de ‘DMS‘ pelas algas de modo assim a reduzir  a taxa de formação das próprias nuvens. Isso então permitiria que mais “radiação solar” atinja a superfície oceânica, causando, por sua vez, maior liberação de DMS pelas algas – fechando assim o ciclo. Com base nesse argumento, os autores da hipótese propõem haver um mecanismo de controle do clima, baseado numa “alça de retroalimentação negativa“… – conectando algas e nuvens – ao resto da biosfera.

Obviamente… — que outros organismos também se beneficiariam                  com tal mecanismo…o que abre a questão de se as algas estariam,                  ou não, agindo altruisticamente para ajudar na regularização do          “clima global” ao…”supostamente” beneficiar outras espécies.

Biólogos evolutivos, frequentemente… têm criticado a ‘teoria Gaia‘ nesse ponto.          Eles questionam… como a competição entre organismos poderia dar origem a tal altruísmo em escala global…conforme proposto por esta teoria. Ou seja…por que          razão as algas liberariam o DMS… – se não fosse para seu próprio benefício… Os defensores de ‘Gaia’ respondem então a estas críticas… – apresentando possíveis vantagens para as algas individuais, como a maior dispersão de esporos, e maior          oferta de alimentos… – resultado da presença de mais nuvens…sobre os oceanos.

Apesar da polêmica em torno da hipótese CLAW e da teoria Gaiaé importante notar        que as investigações de Lovelock sobre DMS levaram à criação de toda uma nova área      de pesquisas, conhecida como “conexão algas-nuvensna qual se avalia se a alça        de retroalimentação proposta refere-se mesmo a um mecanismo de controle do clima.    Uma tendência atual tem sido estudar Gaia avaliando suaspropriedades emergentes‘,    como a “auto-regulação do clima”A partir desta perspectiva, tem-se enfocado o uso        de modelos matemáticos derivados da ‘teoria da complexidade’ e vida artificial para analisar as ‘alças de retroalimentação’, que ligariam o ambiente físico-químico à vida (como seu aparelho auto-regulador)Dessa perspectiva, Gaia não é considerada um “organismo vivo”, mas antes um…”sistema complexo” o que parece ser muito mais apropriado. Dessa maneira, entãoé interessante notar que  as pesquisas atuais têm        se voltado para questões…passíveis de ser testadas empiricamente — evitando assim,  teses controversas de difícil comprovaçãocomo aquela de que a Terra (Gaia) é viva.  

Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas                           do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia.  (‘texto base’) *********************************************************************

“A Terra é um ser vivo do qual somos seu sistema nervoso” (Jul/2010)

James LovelockFalar de Lovelock é falar de paradoxos…Difícil imaginar que, por trás de um ar inocente, esse homem tenha provocado…mais de 40 anos de polêmicas pelo “mundo da ciência” … com sua “hipótese Gaia”…batizada por ele com o nome da… “deusa grega” da Terra — segundo a qual, nosso planeta seria assim como um “ser vivo”.

Foi há quase meio século que Lovelock assumiu – algo por acaso…o destino de ‘teórico da ciência’. Ele era, então…um obscuro biofísico, com formação em medicina, que concebera vários “aparelhos engenhosos”. E sobre issoele recorda o seguinte:“Naqueles tempos, os cientistas fabricavam, eles mesmos…seus próprios instrumentos … pois ninguém tinha dinheiro para comprá-los”. Alguns destes aparelhos permitiam detectar substâncias em concentrações muito baixas, pelo método da “cromatografia gasosa” e interessaram à NASA — que então desenvolvia um programa de exploração à Marte… — Para obter esses detetores, a agência co0nvidou seu inventor, que chegou ao…”Jet Propulsion Laboratory”, Califórnia, em 1961, com a missão técnica – de adaptar estes aparelhos, às exigências das naves espaciais. — Mas…como um traço indelével de seu caráter  logo de cara, Lovelock disse aos biólogos da NASA que as experiências que eles planejavam eram ridículas, pois implicitamente partiam do princípio de que as supostas formas de vida em Marte seriam similares àquelas do deserto da Califórnia!O tom das discussões engrossou, e Lovelock foi chamado às pressas ao escritório central cujo diretor, furioso por causa do clima de tensão entre biólogos contratados, deu a Lovelock “3 dias para uma proposta alternativa”.

Três noites em claro mais tarde, Lovelock voltou ao ‘JPL’. Trazia um projeto ao mesmo tempo nebuloso e preciso. Sua ideia? Buscar uma “assinatura” global da vida, mais que dissecar algumas amostras demasiadamente locais. – E a audácia de sustentar que…ao desvendarmos a composição química da atmosfera marciana na análise da luz oriunda      do ‘Planeta Vermelho’, saberíamos se essa atmosfera carrega a marca de seres que nela colhem nutrientes e lançam seus dejetos… Ou se… ao contrário ali nada acontece.

Um sistema que favorece a vida                                                                                            A ideia de que um simples telescópio – munido de um espectrofotômetro                              permitisse detetar a vida, punha em questão todo o programa em curso. 

Lovelock havia encontrado uma pista…e como bom bruxo da ciência, nunca mais    a abandonaria. Em 1965 ele publicou na ‘Nature’ um primeiro artigo, analisando,    à distância, a vida em Marte…Dois anos após…divulgou algumas de suas prévias conclusões … amparadas    no estudo da radiação infravermelha desse planeta, comparada à da Terra. Eram conclusões inovadoras, bem engenhosasbaseadas    no 2º princípio termodinâmicoonde a matéria tende a crescente desordem à qual se opõe a “ação organizadora vital”.

Segundo Lovelock“Marte estava próximo do equilíbrio químico e dominado em 95% por dióxido de carbono (uma molécula muito estável), enquanto a Terra estava num estado de profundo desequilíbrio químico. Em nossa atmosfera, o dióxido de carbono é raro, porém, há oxigênio em abundância, coexistindo com metano, e outras substâncias muito reativas. Ora, essa combinação é improvável… num planeta onde atuam apenas as leis da química”.  Para o pesquisador, uma conclusão se impõe – é a vida que renova sem cessar todas essas moléculas e afasta a Terra do equilíbrio químico visto em Marte e Vênus. Esses 2 planetas estão mortos, enquanto a Terra está viva. Num planeta onde há vida, essa característica fica perceptível na atmosfera, na qual seres animados colhem nutrientes e lançam dejetos.  Lovelock… que quando jovem queria ser médico se debruça sobre as propriedades da Terra — e verifica que sua atmosfera — de composição química tão distante do equilíbrio, permaneceu notavelmente estável ao longo das eras. Um pouco como o sangue de um ser vivo. O mesmo se dá no que diz respeito à temperatura – à escala de centenas de milhões de anos, ela exibe uma surpreendente estabilidade. – Mas a radiação solar aumentou 1/3 desde o surgimento da vida na TerraConservar sua temperatura constante, enquanto a do meio circundante varia…a homeotermia, é característica dos animais mais complexos.

Enfim, o raciocínio chega à 3ª etapa, a mais controvertida de todas. – Lovelock constata que tanto a temperatura, quanto a composição química…tendem a valores quase ótimos para a criatura viva…como se o ‘objetivo’ do sistema fosse favorecer a vida. De fato, uma atmosfera com o dobro de oxigênio causaria incêndios incessantes, enquanto o oxigênio mais rarefeito acarretaria vários problemas metabólicos aos seres vivos…Para Lovelock,      a causa é bem evidente – e após publicar artigos de alta repercussão…ele resumiu esses pensamentos em 1979 em sua obra de referência…A Terra É um Ser Vivo…A Hipótese Gaia. Nela, ele defende a ideia de que a Terra é uma espécie de “simbiose” (associação biológica favorável a todas partes que a compõem) enorme entre todos os seres vivos, e        o meio mineral, um superorganismo que se conserva no estado mais favorável possível        à vida por meio de mecanismos de retroação (ou seja…o efeito agindo sobre a causa).

Nesse caso, Marte tem uma atmosfera próxima do ‘equilíbrio químico’,                          enquanto a atmosfera terrestre se encontra em profundo desequilíbrio,                          indicando a existência de vida. – Isso levou o cientista britânico a criar                                    a “hipótese Gaia“…nome da deusa grega, associada ao nosso planeta.

love“Gaia”…A Deusa mitológica

A ideia…hoje mundialmente aceita…de que é preciso pensar a Terra como um sistemaonde todas partes interagem, deve muito a Lovelock. Porém, ao batizar seu…”objeto de estudo”, com um nome da mitologia grega: a deusa mãe Gaia, para muitos cientistas, o teórico tinha ido para além, de seus próprios limites.

Recomendava-se então muita prudência na leitura de seus livros, e ele passou a ser tratado em várias universidades como místico e teleólogo…por sua teoria parecer dar um sentido à vida e à evolução, introduzido por uma “mão divina”fato imperdoável para um cientista!  Sendo que, com todo fervor Richard Dawkins o acusava de “por em xeque” o ‘darwinismo’:

Como…caracteres “altruístas” – favorecendo a biosfera em seu conjunto… e não o indivíduo ou a espécie, poderiam ter sido selecionados pela evolução?

A verdade é que a independência de pensamento de Lovelock incomoda muita genteOs ambientalistas, por exemplo, apreciam a metáfora de Gaia…mas se irritam com a defesa histórica que seu criador faz da energia nuclear…para ele…a principal fonte energética do futuro. E sobre isso, comenta Lovelock… “Os biólogos tornaram-se belicosos em demasia, por causa dos repetidos ataques desferidos contra eles…pelos ‘criacionistas’. – Assim que alguma coisa sai do seu padrão de pensamentoeles a interpretam como criacionismo, e partem para o ataque… E fazem-no usando as próprias armas dos religiosos — um pouco como se A Origem das Espécies de Darwin fosse a nova Bíblia. Não estou minimamente em desacordo com o darwinismo…Na verdade, minha teoria o engloba, mas em um nível superior. Tal como a teoria da relatividade supera a física newtoniana sem a contradizer.”

Mas, assim sendo, o planeta vivo é apenas uma metáfora?… E Lovelock admite:                “Lógico que ele não é vivo, como nós ou uma bactéria, e nesse sentido é de fato                uma metáfora. Entretanto, mesmo assimacho que a definição de vida dada              pelos biólogos é demasiado restritiva. Afinal, falta a Gaia apenas a reprodução!”

Pode-se apostar que se em vez de lançar mão do termo ‘Gaia’, ele tivesse batizado sua tese de…teoria biogeoquímica…como aconselhado — teria evitado muitos aborrecimentos, e gozaria de todas as merecidas honras de grande cientista. Mas, como um Dom Quixote da ciência, o obstinado doutor recusa baixar o tom de seus escritos, não admitindo a retirada de uma única vírgula, se mantendo assimem permanente disputa com seus adversários.  Isso então, lhe valeu um estatuto original de cientista independente — fora das grandes instituições — inteiramente consagrado à defesa e à consolidação de sua teoriamas, não  o impediu, mesmo assim, de publicar em sua carreira mais de 200 artigos — 30 dos quais  na revista “Nature”, e fazer várias descobertas importantes. Por exemplo, a dos aerossóis sulfurosos (DMS) emitidos pelas algas  e capazes de esfriar a atmosfera oceânica. Estes  são um bom exemplo de…“retroação à moda de Gaia”… – Se a temperatura aumenta, algas proliferam… — produzem mais aerossóis; o que faz baixar a temperatura do oceano.

“Medicina planetária” (fazer as pazes com a Terra)                                                          “Para Gaia, a humanidade seria seu “sistema nervoso”.

gaia2Em fria relação com a maioria das ‘instituições científicas’ Lovelock poderia ter se refugiado      no movimento ecológicoEntusiasmados pela “metáfora de Gaia”…ecologistas dos anos 1970 abriram os braços para seu inventor. Mas, por    ser um‘tecnófilo’ de carteirinha – ele não foi digerido pelo ‘movimento verde’…pois mesmo  com manifesta hostilidade à poluição, no bom funcionamento de Gaia…ele não hesita em ser        um defensor histórico da…’energia nuclear‘,    bem antes da questão do ‘aquecimento global’.

Embora sempre denunciando as ações poluidoras e os atentados aos ciclos naturais, e considerando que o aquecimento global afetará profundamente a agricultura mundial, deixando-a inviável em diversas regiões do mundo – Lovelock havia se mantido a boa distância de um catastrofismo. – Para ele…sendo Gaia bem mais forte que os homens,      no fundoapenas superficialmente seria atingida por seus caprichos, mesmo os mais insanos. Mas em livros mais recentes, como “A Vingança de Gaia”…e “Alerta Final”,      traça prognóstico pessimista — julgando a saúde de nosso ‘febril planeta’ em declínio.

Para ele, mais que de “desenvolvimento sustentável”,                                          o momento atual é o de uma…“retirada sustentável”. 

Gaia, enfim, está em perigo?… – Lovelock estima que…se o então previsto aumento da temperatura se efetivar, a civilização poderá ser ameaçadateremos uma extinção em massa de espécies; e a agricultura se tornará impossível em boa parte da superfície do planeta. O alimento será insuficiente, populações inteiras migrarão, gerando conflitos;        a humanidade se concentrará ao redor das regiões polares. Para ele tal prognóstico se justifica pelo fato dos modelos atuais subestimarem mecanismos de retroalimentação.

Diante da gravidade do momento, e fiel a seu gosto pela tecnologia, Lovelock concebe sem reticências uma “medicina planetária”. Ela inclui estratégias para refrescar artificialmente o planeta, seja na forma de aerossóis sulfurosos seja na de espelhos gigantes, instalados em órbita no espaço, e várias outras soluções paliativas. Ele preconiza uma ‘nuclearização’ maciça da eletricidade mundial; programa surpreendente que mostra a independência de pensamento de um homem, que agora é recebido até por Al Gore – Nobel da Paz de 2007E, concluindo, será mesmo preciso ver nossa espécie como um tipo de ‘câncer do planeta’, paralisando pouco a pouco suas funções reguladoras?… O cientista protesta… “A aparição da humanidade constituiu grande oportunidade para Gaia que graças a nós de algum modo tomou consciência de si mesma…se vendo a partir do espaço exterior”. (texto base*******************************(texto complementar)********************************

O renascimento da teoria de Gaia (H. Gurovitz)                                                            Como…seres vivos em eterna luta pela sobrevivência,                                                            poderiam gerar um ambiente harmônico em Gaia?

mitologia-grega-deusa-gaiaPara muitos…ele ainda é um pária. Suas ideias não fazem sentido. — São religião, não ciência. O cientista James Lovelock, propôs, na década de 70, a noção de que      a Terra não seria separada…da vida. Ele ousou considerar…o planeta – como um “superorganismo vivo”…se equilibrando sozinho … sempre que fosse perturbado; batizando então tal organismo‘…com o nome de uma deusa grega: Gaia‘. Foi a    ira dos cientistase glória dos místicos.    De um respeitado cientista Lovelock foi visto como herético, louco, ouprofeta.

Defensores do rigor científico acusavam Gaia de trazer intencionalidade a algo que não tem consciência…o “planeta Terra”. – Como poderia sozinha – restaurar seu equilíbrio, tanto físico, quanto químico — toda vez…que — por algum motivo — fosse perturbada?

A origem da ideia estava nos 2 anos que Lovelock passou na NASA (EUA)Ele concluiu que as características da atmosfera de Marte bastam para dizer que lá não há vida. Seria, portanto, inútil enviar uma expedição ao planeta. – Por isso…sofreu forte oposição, mas ajudou a montar os aparelhos que estiveram a bordo da Viking, em solo marciano…Vida em Marte ninguém ainda achou… – Entretanto, na década de 80, modelos matemáticos começaram a sugerir que algumas noções trazidas de…”Gaia ” talvez fizessem sentido.  Com a maior capacidade dos computadores tornou-se possível calcular a interação de centenas de espécies, substâncias químicas e variáveis físicas. Assimpara espanto dos pesquisadores, propriedades de equilíbrio e auto-regulação surgiam naturalmente, sem que houvessem sido programadas (as chamadas propriedades emergentes). Não eram intencionais…mas eram reais. Foi quando um dos mais respeitados biólogos britânicos, John Maynard Smith – passou a ver um tópico científico válido, no que antes tinha por “religião do mau”. Após tudo isso, aos 76 anos, Lovelock concedeu a entrevista a seguir:

Folha – Como o sr. define “Gaia”?

James Lovelock – Não é simples. A “hipótese Gaia” surgiu por volta de 1971,                    supondo que a Terra regula seu clima e sua química – de um modo que seja                    confortável para si mesma, e que seus pulmões sejam responsáveis por isso.

Folha – Como?

Lovelock – Essa era uma visão incorreta. Aquilo de que falamos hoje é a teoria de Gaia, que é uma teoria evolutiva, que pensa a evolução dos organismos vivos do mesmo modo como Darwin fazia. Porém, a evolução das rochas, do ar e dos oceanos não fica separada disso. Os processos evolutivos são acoplados. Na teoria, formulada matematicamente, a ‘auto-regulação‘ de clima e oceanos é o que chamamos: “propriedade emergente“. 

Folha – Qual era o erro original da hipótese Gaia?

Lovelock – Só havia um modo dos organismos regularem a química. Era o que a hipótese sugeria. Mas agora acreditamos que é o sistema formado pelos organismos vivos e pela Terra que se regula. – Podemos pensar na Terra…como um “ninho de cupins”…é feito da parte material com que estes constroem o ninho mais os próprios cupins — que vivem dentro. Tudo junto é capaz de se regular sozinho. – O ninho de cupins é um sistema bem equilibrado… – Assim como nós… – Se você estender essa ideia para todo o planetavai entender. Não é que os cupins regulem sozinhos a temperatura do ninho…mas os cupins   e o ninho formam juntos… – um ‘sistema’…que regula sozinho sua própria temperatura.

Folha – Por que a comunidade se enfureceu e se dividiu contra ou a favor de Gaia?

Lovelock – A maioria foi contra (risos)… Só um pequeno grupo nos levou a sério. — Um grande biólogo britânico…John Maynard Smith…considera agora que a teoria de Gaia é    um tópico científico válido. Há apenas 3 anos ele se referia a ela como “religião do mau”.

Folha – Recentemente uma série de trabalhos parecem dar força à                                    “teoria de Gaia“… — O senhor poderia mencionar os principais?

Lovelock – Não muito longe de vocêem São José dos Campos, houve uma reunião na década de 80 sobre geofisiologia da Amazônia. Discutiu-se uma visão similar a Gaia do mundo e da Amazônia. As conclusões foram então publicadas num livro intitulado…”A Geofisiologia da Amazônia”. Vejo esse livro como uma espécie de ponto inicial, quando cientistas se reuniram para discutir Gaia a sério… – Os que fazem modelos em ‘centros climáticos’ começaram a incluir a biosfera em seus modelos. Quando fazem isso, a não      ser que o façam de acordo com…”Gaia”…os modelos não funcionam…ficam instáveis e caóticos. Quando o fazem segundo Gaia obtêm previsões interessantes. Recentemente, obtivemos um resultado de um centro no Wisconsin (EUA)de que florestas boreais escuras da Sibéria e do Canadá, agem de modo a aumentar o ‘aquecimento’ do planeta.

Folha – O sr. poderia explicar isso em mais detalhes?

Lovelock – Sim. As florestas escuras crescem em regiões perto do pólo Norte. Se você olhar o formato das árvores, elas são altas, escuras e encobrem a neve. Vistas do espaço,    as florestas são todas escuras. Isso muda o lugar, de modo que toda a região é aquecida muito mais na presença da floresta. – Várias outras evidências têm surgido; ainda acho que a melhor prova para Gaia vem da comparação da Terra com Marte e Vênus…Nossa atmosfera e clima são consequências da vida. – Sem ela, as mudanças fariam o planeta,  seco e quente; algo entre Marte e Vênus…com “muito” gás carbônico em sua atmosfera. 

Folha – Em 1994, o sr. publicou na revista “Nature”. Há quanto tempo não publicava?

Lovelock – Seria incorreto dizer que fui banido (risos). Sou membro da ‘Sociedade Real’. Fui eleito presidente da Sociedade de Biologia Marinha. Também sou membro visitante em Oxford. Não estou perdido ou vivendo na selva. – Para cientistas americanos, talvez, porque certa vez disse ser absurdo falar de vida em Marte… — Mas essa razão é política.

Folha – O sr. acha que cientistas evitam a teoria de Gaia por alguma implicação religiosa?

Lovelock – Você está provavelmente certo. O interesse em Gaia por grupos religiosos tem muitas desvantagens. Posso compreender a intenção deles, mas isso repele cientistas que possam estar interessados. – Como não tenho direitos autorais sobre o nome Gaia, uma vez que introduzi a ideia, ela se encontra em… domínio público… — No século passado, Darwin também passou por dificuldades semelhantes, com o termo darwinismo social.

Folha – O sr. crê em Deus?

Lovelock – Nunca acreditei em Deus, mas não sou um ateu. Acredito que vivemos não só num lugar estranho, mas muito mais estranho do que jamais poderemos imaginar (risos).

Folha – No último congresso internacional sobre o clima realizado em Viena,                   chegou-se à conclusão de que o Ser humano é responsável pelo aquecimento                global…Como conciliar o “equilíbrio de Gaia” com esses seres “inteligentes”?

Lovelock – É preciso lembrar que esse modelo tem 3,5 bilhões de anos. O homem vive nele por um tempo muito curto. É um sistema notavelmente estável. – Chegamos muito tarde e somos uma perturbação….Todavia, sobretudo para nós mesmos…não tanto para o planeta.

Escolhemos alterar a atmosfera quando o sistema está num estado doente. Foi sobre      isso que escrevi na “Nature”…Achamos que a glaciação é o estado saudável de Gaia e períodos intermediários são um tipo de febre… É a hora errada para liberar gases do  ‘efeito estufa’…É assim como se eu ou você tivéssemos febre, e colocassem lâmpadas quentes perto, de modo que a febre aumentasse…É insensato. Dez/1995 (texto base******************************************************************************

Teoria da Origem, Evolução e Natureza da Vida  (jan/2012)

A revolta do planeta - Gaia

Depois de Lovelock e suateoria de gaiapropondo que…”A Terra é Viva” – uma revolucionária ‘teoria científica da vida’ foi proposta por Erik Andrulis, biólogo da Universidade Case Western … EUA.

O cientista desenvolveu um modelo que pretende, nada menos do que unificar a “física”…com a “química”… e “biologia”.

Tal teoria transdisciplinar mostra que objetos supostamente ‘inanimados’ — planetas, água, proteínas e DNA…são, na verdade, animados…ou seja, vivos.

Andrulis adiantou seu controverso arcabouço teórico no manuscritoTeoria da Origem, Evolução e Natureza da Vida‘, publicado no periódico científico “Life”, justificando não    só a emergência evolutiva da vida na Terra e no universo…como também sua estrutura       e função, desde células, até biosferas. – Além de resolver paradoxos e enigmas que têm persistido na química e na biologia…a nova teoria unifica a mecânica quântica – com a mecânica celeste… Sua solução quintessencial nada ortodoxa para este problema físico difere das abordagens tradicionais – propondo uma solução simples…não-matemática, experimentalmente verificável. A mudança no perfil da “gravidade quântica” é radical.

A ideia básica dessa teoria…é que toda realidade física pode ser “modelada”…        por uma única…”entidade geométrica” vital, que seria oredemoinho…Nesse  assim chamado “giromodelo” — são representados…moléculas, partículas, átomos e células… — como “pacotes quantizadosde energia e matéria, oscilando “ciclicamente” entre estado fundamental (‘nãoexcitado‘) e um estado animado…em torno de uma “singularidade” (“atrator central“).  

Tal modelo, por conseguinte, estaria  plenamente adaptado…às condições termodinâmicas…e fractais…da vida. 

Ajustando o “giromodelo” para fatos acumulados ao longo da história científica, Andrulis confirmou a existência, proposta por sua teoria, de 8 leis da natureza. – Uma delas, a “lei natural da unidade” diz que “células vivas” possuem características irredutíveis. — Outra lei natural… – determina que os reinos atômico e cósmico obedecem idênticas restrições organizacionais. Ao mostrar que a Terra é teoricamente sinônimo de vida, tal paradigma fundamenta a ‘premissa de Gaia’ de que todos organismos e seu ambiente na Terra estão intimamente integrados…em um único e complexo sistema auto-regulador. (Texto base) **********************************************************************************************

“Projeto Gênesis” – ‘semeando vida em outros planetas’…                                      “É certo que vamos descobrir um grande número de exoplanetas que são habitáveis de forma intermitente…mas não permanentemente. – A vida seria de fato possível nesses planetas, mas não teria tempo para crescer…e se desenvolver de forma independente”.

Será que a vida pode ser levada para ‘corpos celestes’ que estão fora do nosso Sistema Solar?…Esta ideia, mais conhecida como ‘terraformação‘ … tem sido…comumente explorada na ficção científica, como na série Jornada nas Estrelas: o ‘Projeto Gênesis’.    No entanto…nem todos os planetas podem ser transformados – de acordo com nossa própria vontade, pois não temos a menor ideia de como se comportariam os aspectos geológicos, geoquímicos e meteorológicos alienígenas – segundo mudanças exógenas.

O professor Cláudio Gros da Universidade de Frankfurt, Alemanha, decidiu-se a estudar   se já não teríamos a tecnologia necessária para dar um passo inicial no espalhamento da vida pela galáxia. – A ideia de Gros é, fundamentalmente, estabelecer os princípios para semear vida naqueles corpos celestes, que apresentem condições para abrigá-la… – mas não desenvolvê-la autonomamente. Nesse sentido, baseia suas análises na variedade de condições dos exoplanetas que vêm sendo descobertos às centenas — nas mais diversas condições climáticas. – Assim, ele investigou a possibilidade de se plantar a vida nesses planetas com habitabilidade transitória; em condições que podem se dever a alterações, como na “zona habitável”… – por variações na estrela mãe…instabilidades orbitais…ou, processos no próprio planeta, como “tectônica de placas”…ou “alterações atmosféricas”.

chip-sat

A ideia é usar nanonaves ou micronaves, dentro das quais haveria biochips – verdadeiros microlaboratórios genéticos – capazes de lançar os microrganismos no planeta desabitado.[Ben Bishop]

Para Gros — do “ponto de vista técnico”… a ‘missão Gênesis’ já poderia ser realizada dentro de algumas décadas com o auxílio de micro-naves não-tripuladas.    Ao chegar ao seu destino – um ‘laboratório genético’…a bordo  da sonda…poderia sintetizar organismos unicelulares…para    desenvolver uma “ecosfera” de microrganismos no…”planeta-alvo”. — Daí…evoluindo por si mesmos, eventualmente iriam gerar… ‘vidas mais complexas’.

Seria o teste definitivo da teoria da evolução natural das espéciesAinda que demore ao menos algumas dezenas de milhões de anos…para ver os resultados – poderíamos saltar aproximadamente os 4 bilhões de anos… – que teria sido o tempo necessário – na Terra, para se chegar à fase “pré-cambriana”…de desenvolvimento – a partir da qual o “mundo animal”…pôde se desenvolver – há cerca de 500 milhões de anos. (texto base, out/2016)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
Esse post foi publicado em cosmobiologia, Teoria do Caos e marcado , , . Guardar link permanente.

3 respostas para “Epistemologias Ecológicas” (‘Gaia’ revisitada)

  1. JMFC disse:

    “Na natureza, nem o acidente, nem a intenção, podem explicar a espantosa universalidade de formas reunidas ao longo dos tempos. As leis físicas, baseadas na perspectiva dos sistemas dinâmicos, é que devem tal satisfação.”
    A única resposta não esotérica admissível.
    Quanto à Vida em si própria ela é a forma mais desorganizada da natureza, no entanto, tem a particularidade de organizar, construir sistemas bem organizados à custa de um aumento significativo de degradação de energia, do aumento da entropia do ambiente.
    Parece incrível mas esta mesma Vida atingiu a integibilidade e a capacidade do autoconhecimento e das suas mais longínquas raízes!

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  2. Cesarious disse:

    Esperemos que as conquistas espaciais, biológicas, assim como as transformações da engenharia terrestre, não se deem às custas de sua própria degradação.

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