Lee Smolin – ‘Por dentro da Realidade Temporal’

“O homem tem a capacidade de se projetar no tempo… – e esta se constitui de fato, na fonte de sua angústia existencial… – Porém, esse olhar reflexivo, e essa capacidade de projeção, talvez sejam mesmo, sua mais verdadeira originalidade.” (François Pichon)

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Heráclito de Éfeso, que viveu na Grécia entre os séculos VI e V a.C…via o Universo em um processo contínuo de mudança… — ‘com todas as coisas em perpétuo estado de fluxo‘… – Um de seus mais famosos aforismos diz…”no mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos” … Ou seja, não podemos nos banhar 2 vezes no mesmo rio… – pois, na 2ª vez as águas do rio (em perpétuo fluxo) já não serão iguais…bem como, também teremos mudado. 

Porém, o escrutínio filosófico … e as formalidades físicas, não logram determinar a existência de um fluxo temporal único, contínuo e objetivo. Faltam, respostas objetivas para descobrirmos …  qual a velocidade do tempo?’…

(exceto talvez, para um personagem do escritor José Saramago, que afirmava que o tempo passa a uma velocidade de 60 minutos/hora.)

Esse incômodo beco sem saída tem levado à concepção do tempo como um bloco único.  O espaçotempo de Minkowski conteria toda a eternidade: passado, presente e futuro nesse bloco mapeados. Embora a sensação de um agora’ desempenhe  papel central  em nossa vida,  a nossa intuição é subvertida por  concepções relativísticas,  segundo as quais todos instantes desse “tempo blocado” são igualmente reais.

O fluir do tempo, do passado ao futuro, passando pelo “agora” que nitidamente sentimos, surgiria em nosso cérebro como o resultado de uma observação, ativa e consciente,  desse bloco espaçotemporal.  Essa observação corresponderia,  para cada observador, uma fatia do bloco que contém a cota de espaço que chamamos ‘aqui‘,  e  ao  instante de tempo  que denominamos ‘agora.

Essa visão física se aproxima da concebida por Platão no século IV a.C,   em um de seus famosos diálogos – ‘Timeu‘… o tempo é uma “imagem móvel da eternidade“.

Já a concepção neurocientífica nos leva ao pensamento de Santo Agostinho, que viveu 8 séculos mais tarde, e para quem passado e futuro não existiam…‘Quando olhamos para  o passado, ele já se foi: é uma memória… Quando procuramos o  futuro – ele ainda não chegou… é uma expectativa. Portanto, somente o presente existe, conclui o filósofo.

O tempo seria uma criação da mente humana — quando medimos uma extensão temporal estamos na verdade medindo memórias do passado         e expectativas do futuro. Santo Agostinho é o 1º pensador ocidental a destacar claramente o caráter subjetivo do tempo.

É possível que as múltiplas faces do tempo tenham individualidade própria. E que os ‘múltiplos tempos‘  tenham,  portanto,  de ser tratados de forma particularizada, pelo respectivo nível descritivo abordado. Seria preciso considerar as diferentes naturezas       da ‘fibra do tempo, por exemplo, com a qual seriam tecidos, em diferentes planos, os múltiplos e distintos tempos físico, biológico, neural e social.

Enquanto isso, continuaremos a enfrentar o desafio de compreender como o tempo flui através da mente…já que, fora dela – o rio de Heráclito existe, mas está congelado.

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Já para David Humefilósofo do século XVIIIa crença na relação causal entre 2 eventos decorre apenas do fato de nos habituarmos a vê-los numa dada ordem temporal. Daí viria a sólida, porém ilusória ideia de que toda consequência é precedida por uma causa.

No século XX, Hans Reichenbach introduziu o conceito de cadeias causais como forma de ordenar eventos no tempo.  Seguindo em determinado sentido, os eventos ordenam-se de acordo com um princípio decausalidade‘ – no sentido oposto, segundo uma finalidade’.

A definição de um ‘sentido do tempo’ (‘seta do tempo)… ou, a escolha da causalidade, em detrimento da finalidade é, na visão do filósofo da ciência, uma consequência da 2ª lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia (ou, intuitivamente, o grau de desordem) de um sistema isolado tende a aumentar… O aumento da entropia definiria o sentido da seta do tempo.

Quando assistimos a um filme em que cacos de vidro espalhados no chão se aproximam, para, finalmente se juntar, sabemos imediatamente que ele está sendo projetado de trás para frente. Do ponto de vista termodinâmico, a desordem (entropia) do copo aumenta quando ele se quebra, espalhando cacos pelo chão… Assim, o aumento da entropia seria uma indicação segura da direção do tempo, jamais retrocedendo… pelas mesmas razões que a entropia não poderia diminuir. – Há no entanto, problemas sutis nesse raciocínio, vistos em fins do século XIX pelo físico Ludwig Boltzmann.

Em minuciosa análise termodinâmica, Boltzmann notou que partindo de um instante no tempo, a entropia de um sistema deve aumentar…tanto em direção ao futuro, quanto em direção ao passado…Ou seja, a ‘seta do tempo’ teria 2 pontas. – Para observarmos hoje o aumento da entropia – como prescrito pela 2ª lei da termodinâmica – esta precisaria, necessariamente, ser menor no passado remoto.

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Logo, o problema da seta do tempo na física  —  parece implicar certas ‘considerações cosmológicas retroagindo… então — a condições  termodinâmicas características da origem do Universo.

(Sob o prisma das “neurociências”, a assimetria entre eventos já gravados… e aqueles ainda por serem registrados em nossa memória, parece oferecer… ainda que sem rigor matemático, satisfatória distinção entre passado e futuro, e qual deles deve acontecer 1º)

Com o advento da mecânica quântica, segundo a qual observador e observado unem-se… indissociavelmente… na mensuração de um dado ‘estado físico’… – descrito por uma ‘função de onda’ — o ato de observar e medir um evento passou a fazer parte inerente da física… Muitos físicos/filósofos passaram a acreditar que o tempo perceptivo, registrado por um observador… — possa ter papel relevante na determinação da ‘seta do tempo’.

O tempo da Física                                                                                                         ‘Mecanismos pelos quais o cérebro percebe a passagem do tempo, evocam princípios da física enunciados nas teorias da relatividade…e quântica. Será o ‘tempo’ a linha que irá costurar as leis quânticas com as leis da relatividade geral… — em uma peça única?’…  

Um dos pilares da física moderna é a obra monumental de Isaac Newton (1642-1727). Em um mesmo modelo teórico…Newton concebeu um sistema mecânico que unificou a física dos corpos em movimento — de maçãs caindo de árvores — a órbitas de planetas.

A metafísica de Newton adotava a visão de tempo e espaço absolutos – Em relação ao espaço, ele defendia uma forma de espaço como ‘substância’ – visão oposta à adotada por Leibniz – seu contemporâneo…que considerava o espaço como uma ‘relação de eventos’.

Newton percebeu que… em relação ao espaço absoluto, um movimento uniforme… com velocidade constante, exigiria o fluir (eterno) de um tempo absoluto; como afirmou em sua obra … ‘Principia mathematica’ — “… O tempo absoluto…verdadeiro e matemático, por si mesmo, e por sua própria natureza, flui uniformemente, sem relação a qualquer coisa externa. Todos os movimentos podem ser acelerados ou retardados…mas o fluxo   do ‘tempo absoluto’ não é sujeito a nenhuma mudança”. 

Assim, um único agora preencheria todo o espaço… desde o local em que você leitor se encontra lendo essas páginas, até uma estrela distante na borda da galáxia, ou nos confins do Universo… E, embora tenha despertado certos questionamentos críticos entre físicos, e filósofos, essa cosmovisão persistiu por mais de 200 anos.

Em meados do século XIX… James Clerk Maxwell (1831-1879) colocou, ao lado da mecânica de Newton, uma síntese do eletromagnetismo igualmente unificadora,       que expressava – por meio de 4 elegantes equações, todo um conjunto de resultados empíricos relativos a fenômenos elétricos e magnéticos. Com base nas equações de Maxwelle precisos experimentos realizados no final do século XIX – mostrou-se       que a velocidade de uma onda eletromagnética (portanto, da luz) no vácuo… era a mesma – em qualquer direção: pouco mais de 1 bilhão de km/h.

Os resultados conduziram a uma inconveniente contradição entre           essas 2 teorias físicas  –  as mais bem-sucedidas até então… Como consequência, o início do século XX foi marcado por abalos — que dilaceraram os alicerces da física clássica.

http://fenomenosnaoidentificados.blogspot.com.br/2012/07/einstein-como-voce-nunca-viu-fotos.html

Personagem principal desse fecundo capítulo da história da ciência…Albert Einstein protagonizou a demolição da física newtoniana… Com suas ‘teorias da relatividade’ (a especial -1905… e a geral -1916)…propôs um modelo de Universo em que espaço e tempo não são absolutos nem independentes, mas se fundem num único espaçotempo quadridimensional… – no qual a ‘onda eletromagnética’ propaga-se com velocidade constante… — em qualquer referencial inercial na qual seja medida. (no vácuo = c)

Em decorrência – conceitos temporais como simultaneidade e duração; ou espaciais,                   como distância e comprimento, tornam-                   se relativos a um dado ‘referencial inercial’.

Com as teorias de Einstein, a unidade e coerência da física foram preservadas e, de quebra, uma visão radicalmente nova do universo, tomou o lugar das concepções “absolutistas” de espaço e tempo. E, logo um pouco após o surgimento da teoria da relatividade, o professor de matemática de Einstein, Hermann Minkowski propôs uma formalização em que tempo e espaço passassem a fazer parte de uma única estrutura geométrica – formada pela fusão de 3 dimensões espaciais e 1 temporal… – Surge o ‘espaçotempo quadridimensional’.

Embora mantenha suas peculiaridades – espaço e tempo…de acordo           com a relatividade, devem ser considerados em conjunto, oferecendo           um arcabouço único para a descrição dos eventos físicos.

Viajando no tempo – para princípios do século XX…  o notável matemático Kurt Gödel obteve solução para as equações do campo gravitacional, propostas por Einstein em sua teoria da relatividade geral. Sob certas condições para Gödel seria possível a existência   de ‘órbitas fechadas’, ao longo do espaçotempo quadridimensional; ou seja… um objeto, numa viagem ao longo dessa trajetória – voltaria no tempo.

Tais resultados trazem à tona…  o relevante papel do conceito de causalidade na ciência.

Já o físico/escritor Paul Davies acredita que o fluxo do tempo é resultado de um processo subjetivo, a ser explicado pelas neurociências, e não pela física. Nesse sentido, pelo menos 2 interessantes conexões existem entre os objetos de estudo das duas disciplinas. A 1ª, é o ato da ‘observação‘ – que transforma as probabilidades descritas pela função de onda – num valor, ou estado físico definido e único, vinculando assim um observador consciente, ao fenômeno por ele observado… — Ou, nas palavras do renomado físico John Wheeler…

“nenhum ‘fenômeno elementar’ é um fenômeno…                                                  até que seja observado…ou ao menos registrado.”

A 2ª conexão entre física e neurociências – é a semelhança matemática e conceitual existente entre a definição de entropia, proposta por Boltzmann, e a definição de informação, apresentada pelo matemático Claude Shannon em 1948. – A entropia         seria uma medida de nossa ignorância sobre determinado sistema, sendo a aquisição       de informação sobre o mesmo, equivalente a uma redução de sua entropia (entalpia).

O atrativo dessa analogia é que … ‘enquanto “entropia” é um clássico ingrediente de formulações termodinâmicas; “informação” é a matéria prima – por excelência, da atividade neural.’ (texto base) # # ‘Tempo termodinâmico retroage dentro de BNs’  >>>>>>>>>>>(Lee Smolin e a ‘natureza do Tempo’)>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Muitos físicos argumentam que o tempo é uma ilusão… mas Lee Smolin desafia essa ortodoxia no seu novo livro ‘Time Reborn’.

E se o tempo for mesmo algo real?… Se você não é um físico teórico, a pergunta colocada por Smolin, pode soar como uma grande bobagem… – Dentro do mundo da física fundamental porém, a noção de que   o tempo possa ser real é… radical.

—  Em uma conversa com o neurocientista Warren Meck, da Universidade de Duke, o físico teórico Lee Smolin do Instituto Perimeter/Canadá defendeu a controversa ideia de que o tempo é real. Segundo ele…

“O tempo é fundamental, e a experiência que todos nós temos de ser realidade no momento presente não é uma ilusão, mas a pista mais profunda que temos… de uma natureza fundamental da realidade”.

Sim – vivenciamos o tempo como uma sensação que flui… marcamos uma linha divisória entre o passado imutável e o futuro ainda a ser escrito – e… acreditamos que vivemos em um momento especial que chamamos de presente…sendo constantemente atualizado…E, ainda de acordo com a sabedoria convencional; ou com aquele tipo peculiar de sabedoria pouco convencional da física quântica…e cosmológica… — o tempo é uma representação ficcional‘ da atuação em larga escala de algo mais fundamental… – Como resume Smolin:

“É comum na filosofia e ciência presumir que… as coisas mais profundas e verdadeiras sobre o mundo estão fora do tempo. A questão fundamental é…o tempo é real ou é uma ilusão?… Experimentamos a vida como uma sequência de momentos… – mas… é assim que o mundo realmente é?…”

Smolin prefere continuar defendendo a realidade do tempo… Porém, para isso ele deve superar um grande obstáculo – as teorias da relatividade parecem implicar o oposto. Na visão clássica de Newton — a física funciona obedecendo ao “tiquetaque” de um relógio universal invisível. Einstein, no entanto… descartou esse ‘relógio-mestre’… quando em sua ‘teoria da relatividade especial’… argumentou não haver 2 eventos verdadeiramente ‘simultâneos‘… – a menos que entre eles haja uma relação de causalidade.

Então, se a simultaneidade…(a noção do ‘agora‘) – é relativa… – o ‘relógio universal’ deve ser uma ficção, e o próprio tempo…aproximação para o movimento e mudança dos objetos no universo. Conforme a teoria da relatividade geral de Einstein, portanto, o tempo … subjetivo e ilusório… – é apenas uma outra dimensão transversal no espaço.

A noção de um ‘tempo real e global’, entretanto, é a hipótese de partida para os novos trabalhos de Smolin. Ele espera superar um dos maiores problemas não resolvidos da física e da cosmologia – unir as leis da física quântica com as leis da relatividade geral. clock10

Relógio cósmico & Realidade temporal

Smolin espera que esta sua nova visão do tempo ajude a desvendar … o que aconteceu no “cosmo primordial”. Até agora, é difícil distinguir as leis da natureza atuais… daquelas condições iniciais do universo… Em comparação, é fácil distinguir entre dois experimentos em laboratório, porque estes testes podem ser repetidos, sob diferentes condições iniciais. – Os cosmólogos, entretanto, não podem reinicializar o universo...

Se  fosse possível lidar as “leis da física” com a ajuda de um relógio fundamental, poderíamos testar a ‘possibilidade’ – dessas leis terem sido diferentes no passado.”

A ideia de que as leis da física possam evoluir com o tempo só faz sentido num quadro em que o tempo é fundamental. Para entender o porquê, imagine um jogo de futebol, no qual as regras são programadas para mudar a cada minuto. — Se o próprio relógio também for governado por essas regras flutuantes, os pobres jogadores e árbitros estariam presos em um loop lógico infinito.

As ideias de Smolin podem ser pouco convencionais, mas há cientistas que admiram suas tentativas de ‘salvar’ o tempo…De acordo com George Ellis, matemático da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul… — “Não fazer isso é negar os dados mais fundamentais que coletamos no dia-a-dia, base da nossa capacidade de experimentar e analisar teorias.” 

Entretanto – Carlo Rovelli – físico da Universidade de Marselha/França é de opinião contrária … — “Não devemos forçar as teorias à nossa intuição – mas sim…mudá-las, para entender as teorias.”

Mas, como diz Smolin…esses experimentos produziram resultados que restringem algumas teorias quânticas da gravidade, e… “Embora não resolvam a questão de saber se o tempo é ‘real’ … — limitam as opções   para teorizações sobre a sua natureza.”

Uma filosofia evolutiva

Embora em boa parte de sua carreira tenha explorado as — “propriedades  atemporais” do Universo … Smolin    se convenceu de que o tempo … com efeito – é mais real do que o próprio espaço… – Para Smolin, esta noção realista do tempo pode ser a “chave”   da compreensão das leis naturais.

“Se as leis estão fora de tempo… – então elas são inexplicáveis…  Se a lei simplesmente é, não há nenhuma explicação. Se queremos entender direito, então a lei deve evoluir, a lei deve mudar, a lei deve estar sujeita ao tempo. A lei surge do tempo, e a ele está sujeita, e não o contrário”.

Smolin admite que há objeções a essa ideia, em especial…a que ele denominadilema da metalei” … — ” Se as leis da física estão sujeitos ao tempo, e evoluem ao longo do tempo, então deve haver alguma lei maior que orienta a sua evolução… Mas, não teria essa lei então, de estar além do tempo…a fim definir como outras leis mudam com esse tempo?”

Smolin admitiu este é hoje, um ponto de atrito…mas, manteve que não são impossíveis soluções…“Eu acredito que se possa resolver o ‘dilema metalei’… E, acho inclusive… que o rumo da cosmologia do século 21…dependerá do caminho certo para resolvê-lo”.

Smolin e Warren Meck (Duke University) analisaram as consequências da ideia, inclusive o que isso significaria para nossa compreensão da consciência humana, e do livre arbítrio. Para Smolin, uma implicação da ideia do tempo ser uma ilusão, é a noção de que o futuro está tão decidido quanto o passado…

“Se eu acho que o futuro já está escrito, então as coisas que são mais valiosas sobre o ser humano são ilusões…juntamente com o tempo. – Nós ainda aspiramos a fazer ‘escolhas’ na vida…que é uma parte valiosa de nossa humanidade…Se a imagem real metafísica é que existem apenas átomos se movendo no vazio; então nada é novo, ou surpreendente, apenas um rearranjo de átomos… Há então aí…uma irresponsável perda da dignidade humana”.  ‘O tempo é real, ou ilusão?’(2011) #‘Físico afirma que o tempo é Real’(2013)  ****************************(texto complementar)**********************************

Relógio atômico conecta diretamente o tempo à matéria                                        Quando perguntaram a Einstein o que era o tempo, ele respondeu: “Tempo é aquilo que os relógios marcam, nada mais.”  – Uma resposta animadora, porque traz a esperança de saída desse beco…na forma de uma nova questão que se coloca imediatamente: “E     o que é um relógio?”

Ao longo da história…os homens têm medido o tempo, contando ‘oscilações de fenômenos’ que apresentam movimentos regulares como o Sol, um pêndulo…o tiquetaque dos relógios mecânicos ou vibrações em cristal de quartzo.

Recentemente… – na procura por oscilações cada vez mais rápidas…e um tempo definido com precisão cada vez maior … – as luzes se voltaram para oscilações dentro dos átomos, surgindo assim… – os ‘relógios atômicos‘.

Einstein ficaria satisfeito de saber… que hoje, são ‘relógios atômicos’ que definem o que é o tempo. Com efeito, no Sistema Internacional de Unidades (SI), 1 segundo é definido como a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação… relativa à transição entre 2 níveis do átomo de césio 133, em seu estado fundamental. Ora, se isso é o tempo, Shau-Yu Lan e colegas da UCLA, Berkeley, EUA… acabam de nos revelar … uma outra ‘cara’ ao tempo.

Interligação entre tempo e matéria

A equipe de Lan construiu um novo tipo de relógio cujos tiquetaques não dependem da frequência de transição de um átomo…mas da massa do próprio átomo de césio… – Ou seja, o tempo acaba de ser definido a partir da matéria propriamente dita… — sem nem mesmo ser necessário converter ‘massa em energia’.

O grupo demonstrou que massa e tempo estão diretamente relacionados…e que um “relógio atômico de massa” pode ser ainda mais preciso que… os tradicionais relógios atômicos oscilatórios – se tornando assim, o relógio mais fundamental, jamais criado.

Eles fizeram isto usando um ‘pente de frequências‘ — dispositivo que emite uma série contínua de pulsos de luz  —  e…um interferômetro onda/matéria – para medir uma determinada propriedade do átomo de césio conhecida como ‘frequência de Compton’.

Essa frequência, também conhecida como ‘comprimento de onda de Compton, faz uma associação entre a energia de um fóton, e a massa de uma partícula, estabelecendo uma limitação fundamental na medição de uma partícula… quando se leva em conta, tanto a mecânica quântica, quanto a relatividade especial. A frequência Compton é 100 bilhões   de vezes mais rápida que a da luz visível – o que torna sua medição um grande desafio.

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Mesclando mecânica quântica e relatividade, físicos demonstraram que a massa pode ser usada para medir o tempo e vice-versa. [Pei-Chen Kuan]

Os cientistas valeram-se então do ‘paradoxo dos gêmeos’… – derivado da relatividade de Einstein… que afirma que o gêmeo viajando em uma nave espacial muito rápida … — irá envelhecer menos que seu irmão…que ficou na Terra.

A equipe usou o interferômetro para dividir em 2 partes, a “onda de matéria” do átomo de Césio…uma permanecendo estacionária, enquanto a outra se movia… – Para depois, recombiná-las novamente.

Isso permitiu medir a diferença entre elas – ou seja o quanto o 1º gêmeo envelhece mais do que o outro… — algo na faixa dos 100 KHz… — Como essa diferença depende da massa do átomo…funciona como o tiquetaque do relógio. Dessa mistura de massa, relatividade e mecânica quântica, os físicos derivaram uma medição do tempo tão precisa — que poderá ajudar na reconstrução da própria definição oficial de tempo.

Redefinição de quilograma

Mas o experimento traz implicações adicionais. A unificação entre tempo e massa significa que o novo relógio também pode funcionar como balança – medindo a massa com base na frequência de Compton – com uma precisão de 4 x 10e-9… — Em teoria, isso significa que, em vez de um cilindro de platina e irídio que não se sabe ao certo se fica mais leve ou mais pesado a cada dia, o quilograma (massa) poderá ser vinculado ao segundo (tempo) – ao se usar os já bem definidos valores da constante de Planck e da velocidade da luz. E tudo isto usando um único átomo.

“Em conclusão, nós demonstramos um relógio estabilizado para a massa em repouso de uma partícula. Ele evidencia a íntima conexão entre a frequência e a massa.  Isso prova que partículas massivas podem servir como referência de frequência sem exigir que sua massa seja convertida em energia, como ilustração explícita de 1 princípio fundamental da mecânica quântica”…disseram os pesquisadores. #### ‘texto base’  (jan/2013) ####

p/consulta: ‘ O futuro pode influenciar o presente’ (ago/2011) # ‘O futuro pode afetar o passado?’ (ago/2012) # Tempo térmico (set/2012) # Causalidade quântica (out/2012) ‘Em que direção está o futuro?’ (mar/2013) ## ‘Seleção Natural Cosmológica’ (abr/2013)  ‘No Princípio era o Tempo’ (jan/2015) ‘Futuro e passado, no mundo quântico’ (fev/2015)  *********************************************************************************

Relógios primordiais podem mostrar como Universo começou – (16/02/2016)

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Partículas oscilantes surgidas logo após o Big Bang podem servir como relógios que permitirão remontar a história do Universo. [Yi Wang/Xingang Chen]

Como o universo começou?… – E o que havia antes do Big Bang?…Astrônomos e astrofísicos já tinham essas perguntas na ‘ponta da língua‘… – muito antes da descoberta da ‘expansão do universo‘… Porém, as respostas não têm sido fáceis de encontrar.

Não contando as teorias que descartam no todo, a ideia do Big Bang… o cenário teórico mais aceito do ‘início cósmico’ é a ‘inflação‘ … que prevê que o Universo se expandiu a uma taxa exponencial na primeira fração de segundo após o Big Bang… – No entanto … várias alternativas têm sido sugeridas, algumas prevendo um Big Crunch (Grande Colapso), anterior ao Big Bang, em um Universo “elástico” que se contrai e se expande continuamente.

A dificuldade é encontrar medidas que possam indicar quais desses cenários encontram mais respaldo nas observações astronômicas… A fonte de informações preferida sobre o início do Universo é a radiação cósmica de fundo (CMB)… o brilho remanescente do Big Bang que permeia todo o espaço. Esse brilho parecia ser homogêneo e uniforme nas 1ªs  observações, mas após uma inspeção mais cuidadosa se viu que, não apenas variava em sua extensão… como também mostrava um ‘supervazio’ no Universo, ainda inexplicado.

A abordagem mais promissora tem sido a de procurar as ondas gravitacionais geradas durante o Universo primordial…que poderiam ter afetado a radiação cósmica de fundo, explicando assim as ‘microvariações’; além de criar um ‘fundo de ondas gravitacionais’. 

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Dimensão temporal

Uma “abordagem alternativa” está sendo proposta por Xingang Chen, e Mohammad Hossein Namjoo, do ‘Centro Harvard-Smithsoniano’ de Astrofísica, e Yi Wang (Hong Kong University).

Ainda que estudos experimentais e teóricos tenham identificado variações espaciais na radiação cósmica de fundo, eles não têm o elemento-chave do tempo. Sem um relógio para medir a passagem do tempo … não é possível saber qual estrutura surgiu primeiro … — e a história evolutiva do Universo primordial não pode ser determinada de ‘forma inequívoca’.

É como tentar colocar em ordem os quadros de um filme, sem levar em conta sua sequência temporal… e ainda querer que o filme faça sentido.

Em busca dos relógios primordiais

A novidade é que os 3 pesquisadores defendem que esses relógios existem — e podem ser usados para medir a passagem do tempo, no momento do nascimento do Universo… — e como seus acontecimentos se estamparam no quadro atual da radiação cósmica de fundo.

Muitos acreditam que as variações na radiação cósmica de fundo vêm de flutuações quânticas presentes no nascimento do Universo, que têm sido esticadas conforme o Universo se expande…Desse modo, os ‘relógios primordiais’ assumiriam a forma de partículas pesadas, cuja existência é prevista em algumas “teorias de tudo“…que pretendem unificar a mecânica quântica e a relatividade geral.

Partículas subatômicas pesadas se comportam como um ‘pêndulo‘…oscilando para trás e para frente de forma universal e padronizada. Elas podem até mesmo se sacudir quantum-mecanicamente, sem precisarem ser inicialmente empurradas. Essas oscilações quânticas funcionariam como tique-taques de um relógio… adicionando etiquetas de tempo para a pilha de quadros… — naquela analogia com um filme… — como assim explicou Yi Wang: 

“Os ‘tique-taques’ desses ‘relógios-padrão primordiais’… – criariam sacudidelas… correspondentes às medições da radiação cósmica de fundo… cujo padrão é único para cada cenário… – Os dados atuais não têm suficiente precisão, para detectar essas ‘ínfimas’ variações, mas testes em andamento podem  melhorar muito o quadro atual… se estas oscilações forem fortes o suficiente … para uma detecção”.

Elementos para sustentar a nova teoria podem vir também, de outras linhas investigativas, como mapas da estrutura em larga escala do Universo, incluindo as galáxias e o hidrogênio cósmico. – E uma vez que os relógios-padrão primordiais fariam parte da “teoria de tudo“, encontrá-los também forneceria indícios para uma física além do Modelo Padrão, em uma escala de energia inacessível para os atuais aceleradores de partículas. (‘texto base’)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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2 respostas para Lee Smolin – ‘Por dentro da Realidade Temporal’

  1. JMFC disse:

    Particularmente interessante a nova e mais rigorosa proposta para a “medição” do tempo e até da massa. Desconhecia.
    Continuamos na mesma, ainda não se encontrou uma resposta definitiva para a sua existência, embora as leis termodinâmicas o sugiram, e a relatividade geral de Einstein diga que é relativo…
    Muito linda e emblemática esta sua proposta musical para o “tempo”…

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