Tecnociência, Bioética & “Apocalipse científico”

“O entendimento perseguido pela ciência é um entendimento das relações internas à natureza. – Portanto, a ciência não está discutindo as causas do conhecimento… – mas sim… a sua coerência” … (Alfred North Whitehead)

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Grandes projetos científicos da atualidade, como aquele do ‘genoma‘…e o que está sendo gestado para a ‘nanotecnologia‘ … — são típicos de um tempo em que as tecnologias…e as aplicações da ciência, ganharam um destaque inusitado…Essa união profunda entre ciência, tecnologia…e uma quantidade considerável de capital privado, vem sendo ultimamente chamada de ‘tecnociência‘. 

ComCiência – Porque disciplinas como a física e a biologia têm tido                                tanto destaque hoje?… – O que isso significa na história da ciência?…

Luiz Alberto Oliveira – A ciência é uma forma de dialogar com a natureza… Desde sua implantação definitiva, há pouco mais de 3 séculos, as ciências empíricas tiveram enorme sucesso em descrever, e portanto…controlar e manipular – ao menos parcialmente… uma variedade de aspectos do…”mundo natural“… – passando assim, a alimentar as tradições étnicas, e as grandes religiões – na função fundamental de elaborar “imagens de mundo”, pelas quais sociedades humanas – desde sempre… deram sentido à experiência de existir.

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Contudo, como adverte Ernesto Sábato, os enunciados científicos são deslizantes, não podendo aspirar … à perenidade de dogmas, ou verdades últimas… Vivemos nossa contemporaneidade com o avanço infindo da ciência técnica numa crise de ‘espasmo contínuo’… — constantemente obrigados a rever as fundações de nosso entendimento sobre o mundo — sobre a “coletividade” — e… sobre nós próprios.

Este é, sem dúvida, um momento singular na história do pensamento… uma vez que as descobertas da cosmologia, microfísica, da biologia molecular, da evolução darwiniana,     e de muitas outras disciplinas, progressivamente, e cada vez mais, diluem as fronteiras modernas entre… natureza e cultura… ente e artefato… interioridade e exterioridade… sujeito e objeto…pelas quais estávamos acostumados a definir nosso ‘estar-no-mundo’. Assim, só nos resta colocar em questão o próprio “estatuto de nossa humanidade“.

ComCiência – E, quais as consequências desse destaque para debates                               como o determinismo biológico, as diferenças de gênero, ou a eugenia?

Oliveira – Do ponto de vista das  práticas técnicas,  o avanço decisivo que resultou da grande revolução científica iniciada no começo do século XX foi a crescente capacidade     de intervenção em escalas cada vez menores — micrométricas, moleculares… e mesmo atômicas, abrindo caminho para as tecnologias do bilionesimal que moldarão o futuro próximo – nanotecnologia, biotécnicas, robótica. A potência sem precedentes de atuar nos níveis básicos da constituição dos seres materiais poderá levar, com o uso do mesmo ‘instrumental’…quer à eliminação de doenças, ou à gênese de novos “modos de produção econômica”…ou, no limite, à substituição da vida orgânica… – Nesse sentido, hoje, importantes questões éticas estão colocadas à nossa frente…Parece-me, porém, que muitos aspectos do debate atual sobre o suposto determinismo biológico estão contaminados por um equívoco… – Acredita-se – de modo geral…que o “genoma” de cada indivíduo determine suas características básicas… sendo influências do ambiente significativas só ao seu desenvolvimento (O ambiente é o acaso; o gene, a necessidade)

Ora… na própria transcrição dos genes em proteínas, ocorre uma aleatoriedade inevitável, proveniente das circunstâncias internas da célula, e essa indeterminação é co-responsável pela fixação dos caracteres individuais… – Ou seja… ‘a complementaridade entre Acaso e Necessidade… abrange até os próprios ambientes…exógeno e endógeno dos seres vivos’.  Trata-se talvez, da persistência da ‘índole reducionista’, típica da cosmovisão mecanicista, num território (‘sistemas complexos’) em que sua aplicação imediata é muito inadequada.

ComCiência – Como dialogam, atualmente, a biologia, a física, e as ciências humanas?

Oliveira – Na maioria das vezes, como viajantes noturnos no deserto, que passam bem ao lado um do outro sem se encontrar…Em ciências naturais, 2 tendências estão em situações opostas: o especialismo – no qual cada saber deve possuir limites bem demarcados para atuação de seus praticantes … e a transdisciplinaridade – fundada no reconhecimento de que objetos complexos, como o clima, requerem para eficaz descrição, a colaboração de ideias, instrumentos e procedimentos vindos de diferentes áreas, da geologia à física solar.

Obviamente… ambas as posturas são indispensáveis – a verticalidade para o específico, a horizontalidade para o integrado…mas, na prática, costuma-se decair para um ‘fundamentalismo míope’… – a favor… de um dos lados. 

Ainda maior é o distanciamento    entre as ‘ciências naturais’…e as ‘humanas…pela generalidade, e particularidade dos respectivos objetos de estudo…desprezando          a ‘visão premonitória’ de Freud: 

Quem sabe um dia os ‘saberes’ venham a dialogar abertamente, dada a função comum de ‘meios’ para o pensamento penetrar no desconhecido”.

ComCiência –  O senhor concorda com a afirmação do biólogo Jacques Testart, de    que não existe mais vontade gratuita de obter conhecimento, e toda pesquisa tem por finalidade a busca de inovações direcionada para o progresso, pelo mercado. Ainda é possível fazer ciência de forma independente? A tecnociência é uma ruptura nisso?

Oliveira – As ciências modernas sempre foram empreendimentos‘essencialmentecoletivos, quer dizer, envolvem cooperação e competição de seus praticantes, e assim, necessariamente refletem o espírito da época (apesar das exceções, como o imotivado desenvolvimento da ‘Relatividade Geral’ de Einstein)…Além disso, desde a 2ª Grande Guerra, “inovações técnicas” dos mais variados tipos tornaram-se o eixo dos ‘avanços econômicos’…e essa vinculação se reflete sobre os próprios ‘afazeres tecnocientíficos’.

Mesmo a pesquisa fundamental em áreas como a astrofísica, ou física de partículas elementares…contribui à expectativas no desenvolvimento de aplicações lucrativas,              e essas perspectivas de futuros benefícios – passaram também a justificar…os altos      custos de sua realização. – Agora, o que parece profundamente “questionável”…é a tendência de resultados ambicionados pelo mercado… – tornarem-se o “norte” das atividades de investigação, indicando uma inversão perigosa…as aplicações serem privilegiadas…em detrimento da pesquisa básica”.Basta ver aqueles argumentos apressadinhos acerca da ‘reinvenção da roda’ que certos setores — aqui mesmo no      Brasil, costumam brandir…para advogar a demolição da estrutura fundamental de pesquisa – penosamente construída ao longo das últimas décadas…quando não há              um único caso de instalação bem-sucedida de um parque técnico amplo e eficiente              – sem prévia, ou concomitante consolidação de um sistema de investigação básica, fundado em universidades e centros de pesquisa… O fato mesmo da “tecnociência”        estar adquirindo uma enorme importância em nossos modos de…produzir e viver,    deveria ser suficiente para demonstrar a insensatez dessa diretriz. – Por tudo isso,          não acredito que o… “fazer tecnociência”… — possa prescindir do… “fazer ciência”.

ComCiência – Se é verdade que na atualidade, a ciência está mais associada                      ao mercado… – quais as consequências disso para o saber científico; e para os                  “saberes”… – que não podem produzir para o mercado… – como a “filosofia”?

Oliveira – Consideremos o ‘mito moderno’ por excelência… — o ‘Progresso‘… — ideal universal humanista parido no Iluminismo, cuja finalidade era a “abundância material”, apesar da sensação de ‘mal-estar‘ em nossa pós-modernidade. – Recordemos então… o slogan da “Revolução Industrial”… – ‘bens naturais fartos, bens artificiais raros‘.

Hoje, vemos o inverso… ‘bens artificiais fartos … bens naturais escasseando’.

Todo ser vivo necessariamente desconstrói e reconstrói seu habitat … mas o                      peso de nossa presença… já se tornou excessivo… Edward Wilson revela um                    “rosário” de extinções em massa… — pela “devastadora” ocupação humana.

Os atuais seguidores costumam entronizar o mercado como provedor de todos benefíciosprometidos e adiados; e este tornou-se a “causa final” da atividade              produtiva. Tudo deve ser conversível em ‘commodity’…ser nodo de um fluxo                    de percentagens…ser apreçado — seja sentimentos íntimos…seitas religiosas…                órgãos humanos…etc. – E para quê a tal de filosofia?…Para que sejamos todos unidimensionais, quer dizer, consumidores/consumíveis. Esta destrutividade,                essa exclusão exponencial…não são apenas um…’mal-estar’ – são um mal-ser’.

Do ponto de vista da teoria dos sistemas complexos… a vida é uma matéria organizada que, aprendendo a modificar sua própria estrutura para responder a alterações do meio, passou a conectar o tempo ‘bilionesimal’ molecular… ao das transformações ambientais, geológicas e astrofísicas. A aceleração técnica moderna superpôs novo modo temporal a esta conexão entre os ritmos materiais e biológicos — a rapidez das produções culturais.

O físico Freeman Dyson compara o andamento típico da natureza à marcha apressada da cultura… “África e América do Sul levaram 150 milhões de anos até à separação atual;especiaçãorequer em média 1 milhão de anos; o clima global,            por sua vez varia ao longo de centenas de milhares de anos… Para criar artefatos        culturais, como metalurgia foram precisos dezenas de milhares de anos…línguas                  e religiões, possuem milhares de anos; nações duram séculos…os indivíduos têm      décadas de expectativa de vida; porém no sistema acadêmico hiper-acelerado de            hoje, ideias surgem e morrem em anos, e inovações técnicas o fazem em meses”.

O aspecto crítico aqui é que a compactação dos ritmos naturais pelos ritmos tecnológicos instaura uma imprevisibilidade radicalDoravante o passado não nos servirá como guia, pois a história – quer da natureza… quer da cultura – não pode mais ser rebatida sobre o futuro…que não será mais como antesTransformações deste calibre não costumam ser experiências pacíficas e serenas. Como reza a tradicional maldição chinesa serão tempos interessantes. Talvez, como em nenhuma outra época, seja necessário que invoquemos e exerçamos ‘potências’ do pensamento arte, ciência, filosofia — para que possamos, como queria Nietzsche “ser uma ponte entre o primata…e o além-do-homem.

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ComCiência – Em algumas palestras o senhor abordou os seres vivos como ‘biontes’…’bioides’, e…‘borgues’. — O que seriam esses conceitos?…  Por acaso – se relacionam com algum…período, alguma tecnologia… – ou “saberes” específicos?

Oliveira – A observação decisiva é que cada vez mais, progressivamentediluem-se diferenças clássicas entre matéria, vida e pensamento.  Anteriormente, se poderia dizer…que a tecnologia era uma ferramenta para o espírito…na dimensão interna da subjetividade…agir sobre a natureza que lhe é exterior. Hoje, devido à capacidade recentemente adquirida de intervir em escalas infinitesimais – de duração e comprimento – próprias ao domínio da microfísicaocorre uma internalização da ação técnica… – como se o espírito se dobrasse sobre si mesmo, e assim se “autodeterminasse”.

Considerando o que o filósofo Daniel Dennett chamou…a perigosa ideia de Darwin‘,    isto é… “Em períodos de duração suficientemente extensa – minúsculas diferenças entre indivíduos de mesma espécie … selecionadas pelas pressões aleatórias do meio … podem levar à ‘especiação‘ (ramificação em novas espécies)”… Esse lento processo cumulativo foi o procedimento pelo qual a evolução escreveu, e reescreveu…ao longo dos tempos, as séries de instruções que regem a constituição dos biontes‘…seres vivos desenhados pela seleção natural. O ‘genoma‘…suporte bioquímico desse ‘manual de operações’ que todo    ser vivo traz na célula … gerindo em organogramas/fluxogramas a formação orgânica de cada espécie, foi definido, nos anos 50, pelo biofísico F. Crick, e o bioquímico J. Watson.

A biologia teria assim — como substrato — a ciência                                         do material genético dos organismos…a genômica.

Mas, como é característico da tecnociência atual, esses avanços no conhecimento          sobre ‘fundações genômicas’… foram – de imediatoacompanhados pela geração              de aplicações práticas – as biotécnicas…Desse modo, rapidamente, a ‘tessitura’ fundamental da própria vida tornou-se suscetível a intervenções técnicas. Assim,  enquanto nos anos 60 surgiram as associações iniciais entre genes particulares e características morfológicas (ou, comportamentais)… nos 70 deu-se o começo da      prática de intervenção programada em processos genéticos; nos 80 tornaram-se corriqueiras a inclusão, exclusão e substituição de ‘genes precisos’ – bem como a       mescla interespécies; já nos 90 é produzido o 1º bioide mamífero: a ovelha Dolly.

maxresdefaultDe fato, de um ponto de vista estritamente microfísico, não  há diferença entre moléculas biológicas e inorgânicas… ou, entre naturais e artificiais…À medida que — cresce o poder de manipular objetos, a nível molecular…a tendência seria integração…de componentes orgânicos … com eletrônicos, artificialmente fabricados. E, nesse caso, sínteses de carbono/silício se dariam numa mescla de formas, interpenetrando componentes orgânicos e semicondutores; gerando ciborgues‘, híbridos de células e chips.

Como exemplo…um feito espantoso… – o cérebro do peixe lampreiafoi conectado a sensores sensíveis à luz – e também aos controles de movimento de um…”mini-robô”.        Com o cérebro do peixe funcionando como central de processamento…o robô passou            a agir assim como a lampreia agiria…evitando zonas iluminadas…buscando sombras.      Tal conexão é ainda muito rudimentar, por se tratar de neurônios inteiros postos em contato com condutores metálicos…mas, brevemente…será possível penetrar em um    nível subneural, associando subestruturas dos neurônios a componentes eletrônicos.

Nesse momento, não muito distante, veremos surgir autênticos ‘híbridos biotrônicos’, tipo ‘centauros cognitivos’…e esses centauros…seremos nós.

ComCiência – Quais as consequências para o ser humano da passagem de biontes         para bióides, e futuramente, para ‘borgues’?…No panorama das atuais intervenções tecnológicas e biológicas possíveis no corpo humano — o que significa ser humano?

Oliveira – A imensa abertura de mundo propiciada pela aceleração técnica aponta para uma variedade de caminhos… – Hoje…destruímos algumas centenas de espécies por dia, somos os realizadores de uma extinção em massa – mas, ao mesmo tempo, também nos tornamos capazes de fazer aparecer novos tipos de vida…novas espécies… Esse poder de gerar formas artificiais se aplica a toda matéria-prima biológica…incluindo nós mesmos. Tornamo-nos mármore bruto, para nosso próprio engenho/arte, nossos corpos/espírito são doravante insumos a serem manipulados no engendrar de novas corporalidades …e, novos seres. – Uma breve excursão especulativa será suficiente para ilustrar esse ponto:

A “biotecnologia” já exibe um poder de ampliação – à rápida intervenção…nos dispositivos básicos de funcionamento dos biontes, antevendo a possibilidade (fascinante…e aterradora) de se tornar viável a produção antrópica de células, tecidos, órgãos…e mesmo ‘seres vivos’.  O mapeamento do genoma poderá inclusive…elucidar os “mecanismos de regulação” do ritmo metabólico, e taxa de obsolescência em relógios celulares.

Contando com o controle de diversas moléstias de cunho genético…mais a descoberta de novos avanços na medicina – a longevidade de (alguns) indivíduos poderá simplesmente desconhecer limites… — Não a atual expectativa de vida (nos países, ditos desenvolvidos) de 80 anos, nem mesmo previsões centenárias para algumas crianças nascidas hoje, mas sim durações de vida de, talvez…mil anos. – Delineia-se assim… um horizonte de valores fundado na longevidade…tecnicamente prolongada – calculada em estimativas de riscos genéticos e ambientais; voltada a um mercado restrito de candidatos à perenidade…cujo valor mais precioso será ‘o tempo‘. – Conforme o grau de acesso a ‘recursos médicos’ (e    nutrição básica!) uma situação sem precedentes se dariapopulações se dividiriam…em uma minoria de ‘duráveis‘, e uma elite de ‘perpétuos uma separação em castas de durabilidadejamais experimentada por qualquer sociedade humana…Numa tal “era de mesclas”…de hibridações de natureza/artifício, de carne/mente, intimidade/globalidade, onde os limites que definem indivíduos, tornam-se cada vez mais ambíguos e imprecisos, talvez a pergunta-chave seja:

Estaremos em vias da instalação de um novo patamar de complexidade    no sistema de sistemas Terra?…Poderá estar em ação uma nova síntese integradora da vida. – Uma nova etapa de…”individuação humana”?…

Se as tecnologias de movimento…percepção e cognição… – que nos tornaram… a espécie dominante do planeta migrarem ao interior de nossos corpos, e se fundirem com nossas células, então o significado de ‘ser humano’, também mudará… De animais técnicos que usam ferramentas, ao operário mecanizado de Chaplin…e automatizado de ‘Metrópolis’, abre-se agora a perspectiva, no seu sentido mais literal…de um…”homem-máquina“.

Se, com Spinoza, entendemos por Ética a determinação de estratégias      de ação; nossa época de “hipertecnificação” defronta-se com dilemas éticos enormes. Selecionar valores que favoreçam a vida…redefinindo o sentido do que é ‘ser humano‘… — eis o desafio que nos cabe enfrentar.

Físico, doutor em Cosmologia, pesquisador do Laboratório de Cosmologia e Física Experimental de Atlas Energias (Lafex)  do  Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MC),  onde também atua como professor de História e Filosofia da Ciência.  Entrevista com Luiz Alberto Oliveira (texto baseconsulta: ‘Futuro de Ciborgues’   ******************************************************************************

O que é Ética?

A palavra ética é de origem grega, derivada de ethos, que diz respeito ao costume, aos hábitos dos homens Teria sido traduzida em latim por mosou mores (no plural), sendo essa a origem da palavra… “moral“. Uma das definições de ética seria a de ser parte da filosofia também pertinente às ‘ciências sociais’, que lida com as noções e princípios que sustentam a “vida social”.

Noutras palavras, trata-se de uma reflexão sobre o valor das ações        sociais, consideradas tanto no âmbito coletivo, como no individual.

O exercício de um pensamento crítico e reflexivo quanto aos valores e costumes vigentes tem início, na cultura ocidental, na Antiguidade Clássica, com os 1ºs grandes filósofos; a exemplo de Sócrates, Platão e Aristóteles. Questionadores que eram, propunham uma espécie de estudo sobre o que de fato poderia ser entendido como valores universais a todos os homens, buscando dessa forma ser correto, virtuoso, ético. O pano de fundo ou contexto histórico nos qual estavam inseridos tais filósofos, era o de uma Grécia voltada para a preocupação com a pólis…com a política… — A ética seria uma reflexão acerca da influência que o “código moral” estabelecido exerce sobre nossa subjetividade … e como lidamos com essas prescrições de conduta…se aceitamos de forma integral ou não esses valores normativos, e dessa maneira…até que ponto damos o efetivo valor a tais valores.

barco a derivaSegundo alguns filósofos…nossas vontades e nossos desejos poderiam ser vistos como um barco à deriva, flutuando perdido no mar…o que sugere um caráter de inconstância. Essa mesma inconstância – tornaria impossível a “vida social”…se não tivéssemos valores que permitissem nossa vida em comum. Logo, é necessário educar nossa vontade através de uma formação…eminentemente…”racional”.

Segundo Marilena Chauí em seu livro “Convite à Filosofia” (2008), a filosofia moral ou a disciplina denominada ética nasce quando se passa a indagar o que são, de onde vêm e o que valem os costumes, isto é, nasce quando também se busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, o senso moral e consciência moral individuais. – Para ela… podemos dizer que o “Senso Moral” é a maneira como avaliamos nossa situação e a dos outros, de acordo com ideias como justiça, injustiça, bom e mau. Trata-se dos ‘sentimentos morais’.

Já com relação à “Consciência Moral“, Chauí afirma que esta, por sua vez, não se trata apenas dos sentimentos moraismas, se refere também a avaliações de conduta que nos levam a tomar decisões por nós mesmos…a agir em conformidade com elas…e responder por elas…perante os outros…Ou seja, ser responsável pelas consequências de nossos atos.  Enquanto tal… o indivíduo colocará em prática sua consciência importante para a vida em grupo, aliada à sua autonomia individual Assim, consciência e responsabilidade se tornam condições indispensáveis… à uma “vida ética”. Paulo Silvino Ribeiro (texto base******************************(texto complementar)********************************

Os “ET”s do futuropor Freeman J. Dyson                                                                        Um dos maiores físicos do século 20 prevê que levaremos 1/2 milênio para chegar              às estrelas… – e, quando isso acontecer… – o homem dará origem a “outros seres”. 

esfera-de-dysonPor mais de 30 anos, o físico e matemático Freeman Dyson – do ‘Instituto de Estudos Avançados’ em Princeton /EUA, construiu uma…’reputação invejável‘… tanto dentro das universidades, quanto fora delas… Por dominar com igual facilidade, a ciência do núcleo atômico…do interior das estrelas… assim como … do nascimento do universo, para não falar de tudo que sabe — sobre a genética…e a origem da vida… — entre os cientistas ele é visto… — assim como uma espécie de “Leonardo da Vinci” moderno.

Os milhões de leitores dos vários livros escritos vêem Dyson como um gênio da engenharia espacial… autor de projetos espetaculares que antecipam brilhantemente as possibilidades das viagens a outros planetas, e outras estrelas… – Como um dos principais consultores da NASA, ele criou, por exemplo, o desenho básico daEsfera de Dyson”, uma cidade espacial com área habitável…milhões de vezes maior que a de qualquer planeta, a ser montada com matéria-prima obtida lá em cima mesmo, nos diversos mundos de outros sistemas solares.

É dele também a previsão de que é possível reunir conhecimentos…da física e engenharia genética para projetar “naves biônicas“…robôs com partes mecânicas e partes vivas…que poderiam tornar os vôos espaciais mais simples e seguros. – Ele imagina…especialmente, uma “nave-borboleta“…que voaria até os planetas mais distantes, na forma de um casulo blindado…depois, chegando ao destino, se metamorfosearia num ‘inseto alado‘, capaz de pousar suavemente em qualquer superfície…A seguir, entrevista publicada em dez/2000.

Você acredita que a exploração espacial pode ganhar novo impulso, após um período de relativa estagnação; especialmente após a perda de diversas naves enviadas a Marte nos últimos 2 anos? Dyson – Não creio numa estagnação, nem que esteja havendo um novo impulso agora. O avanço da exploração espacial tem sido muito persistente nas últimas duas décadas – como se vê pelo nível constante de gastos governamentais nesse campo.

Mas hoje há inúmeras empresas dispostas a investir na colonização de outros planetas;        o que – de fato…não acontecia anteriormente. Dyson – O espaço só é lucrativo quando        não há passageiros humanos envolvidos, cuja garantia de segurança encarece muito os projetos.

Já poderíamos estar vivendo… “regularmente”… no espaço?                                                Estamos atrasados em relação ao que poderia ter sido feito?

Dyson – Estamos avançando tão depressa quanto possível. Só faz sentido ir ao espaço        por um custo aceitável. – Ainda vai demorar uns 100 anos para as viagens planetárias        se tornarem rotina. E, para chegar às estrelas, ainda levaremos, no mínimo, 500 anos.

Que tipo de tecnologia será empregada nos próximos anos?

Dyson – Há boas sugestões, como as naves a vela, impulsionadas pelo “vento solar”. Outro avanço virá dos ‘motores de plasma’, ou seja, gás eletrificado, acelerado por eletro-ímãs…e ejetado a altíssima velocidade pelas turbinas…Isso daria aos foguetes altíssima velocidade, encurtando o tempo de vooe o preço da viagem… — Essas novidades apontam caminhos possíveis, embora ainda insuficientes para resolver completamente o problema dos custos.

A que se pode atribuir as perdas sofridas pela NASA em relação a Marte?

Dyson – Eles se devem justamente ao desejo de correr riscos. Em 1999, o “Laboratório de Jato Propulsão” (JPL) — ligado à NASA, lançou 6 missões em 6 meses…um ritmo puxado para esse tipo de empreendimento. – A perda de duas dessas navescomo aconteceu – é uma proporção de erro que se deveria esperar de um programa bem conduzido. – Espero que – daqui para a frente – os políticos não proíbam o ‘JPL’ de correr riscos semelhantes.

Durante anos você pregou a necessidade de uma redução no tamanho das naves espaciais como forma de barateá-las (o que hoje é norma da NASA)… A sua “nave-borboleta”…com partes mecânicas e partes vivas… – poderia ser um exemplo … dessa “linha de trabalho”?

space_butterflySim. Só que ainda é uma tecnologia muito distante de nós… um projeto para quando soubermos bem mais biologia… do que sabemos atualmente. OProjeto Genomairá ajudar mas a regra é sempre a mesma: 1º) desenvolver a ciência – para depois, a engenharia. – Para a “borboleta espacial” voar…levaremos 1/2 século com pesquisa básica…e outro tanto…engenharia de voo.

Você diz que o Universo foi construído… — para que o                                                            Homem surgisse nele. Trata-se de uma ideia religiosa?

Sou moderadamente religioso. Mas o que essa frase quer dizer é que a vida e a mente parecem ter sido construídas dentro da estrutura do universo… Não foram acidentes;      são inerentes à maneira como o universo evoluiu.

Outra afirmação intrigante é que, se o homem for para o espaço, deixará de ser o que é…

Quero dizer que a imensa maioria das espécies desaparece. A minoria com descendentes, geralmente se divide em diversas outras espécies. Então o homem partilha dessa mesma possibilidade – ou caminha para a extinção … ou evolui para gerar outros seres. – Se nos espalharmos no universo, ocupando novos habitats entre as estrelas, há uma boa chance de nos dividirmos em muitas outras espécies… Esse é um dos principais motivos que me levam a desejar a disseminação da humanidade pelo espaço. (Superinteressante) (2000)  **********************************************************************************

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Nos apocalipses científicos, o mal sempre é encarnado nas criações humanas. [K. Warwick]

A tecnologia pode destruir a raça humana?…    “A vida e a mente foram construídas…no interior da estrutura do universo. Não surgiram por acaso…são    inerentes à evolução do cosmos”…(Freeman Dyson)

“Instituto do Futuro da Humanidade”…este é o nome escolhido por uma equipe internacional de cientistas, matemáticos e filósofos…que decidiu investigar quais os maiores perigos contra a humanidade. E, segundo seu 1º relatório, chamado: “Riscos Existenciais como Prioridade Global” … todos aqueles responsáveis por ‘políticas públicas’… deveriam atentar aos riscos que podem contribuir – para o fim da…’espécie humana’.

Apocalipse científico                                        “É de se espantar que sejam publicados mais textos acadêmicos sobre                                     snowboarding, do que a respeito da própria extinção da raça humana”.

Nick Bostrom, diretor da organização, eventualmente preocupado em buscar recursos para manter seu nascente instituto na Universidade de Oxford, afirma que existe uma possibilidade plausível, de que este seja o último século da humanidade…Ele compete  com o também fatalista Centro para o Estudo do Risco Existencial da Universidade de Cambridge, hoje mais preocupado em singularidade tecnológica, e revolução robótica.

Mas, primeiro as boas notícias. Pandemias e desastres naturais podem causar perda da vida em escala catastrófica, todavia…é de se supor que a humanidade esteja propensa a sobreviver, já que nossa espécie sobreviveu tantos milhares de anos…de doenças, fome, enchentes, predadores, perseguições, terremotos… e catástrofes naturais… Justamente      por isso – as chances ainda estão a nosso favor… como Bostrom assim também explica:

“Ao longo do espaço de um século, o risco de extinção em                                    decorrência do impacto de asteroides… e super erupções                                    vulcânicas… – permanece sendo… extremamente baixo”.

Uma ‘guerra nuclear’ poderia causar destruição sem precedentes…mas, um número suficiente de indivíduos poderia sobreviver, e assim permitir que a espécie continue.        E…sendo assim, existindo todos esses atenuantes, com o que então deveríamos nos preocupar?… – Bostrom acredita que entramos numa nova “era tecnológica”, capaz          de ameaçar nosso futuro de uma forma nunca vista antes… “Ameaças da qual – não      temos qualquer registro de haver sobrevivido” … diz ele — o que é uma constatação,      aliás…um tanto óbvia… – pelo ineditismo da atual…”onda tecnológica”…na história.

O diretor do instituto compara as ameaças existentes a uma arma perigosa, nas mãos de uma criança. Ele diz que o avanço tecnológico superou nossa capacidade de controlar as possíveis consequências. Experimentos nas áreas de biologia sintética, nanotecnologia e inteligência artificial…avançam para o território – do não intencional, e do imprevisível.

A biologia sintética…onde a biologia se encontra com a engenharia, promete grandes benefícios médicos, mas Bostrom teme efeitos não previstos na manipulação da biologia humana. — E muitos colegas concordam com ele, já que…recentemente – nada menos do que 111 entidades pediram moratória em pesquisas com ‘Biologia Sintética’.

A nanotecnologia… a nível atômico ou molecular…poderia também ser muito destrutiva… – se usada para fins bélicos… – Para o pesquisador, ‘governos futuros’ terão um grande desafio para conter usos indevidos.  Há também temores em relação ao modo de interação da ‘inteligência artificial‘… com o ‘mundo externo’  Esse tipo de inteligência orientada por computadores – pode ser uma poderosa ferramenta, na indústria, medicina, agricultura … economia, mas também corre riscos próprios.

Os riscos inerentes

Sean O’Heigeartaigh, geneticista do Instituto, traça uma analogia com o uso de algoritmos usados no…’mercado de ações‘… Assim como essas manipulações matemáticas podem ter efeitos diretos e destrutivos sobre economias reais, e pessoas de verdade — argumenta ele, que tais…”sistemas computacionais” – podem, em termos de riscos biológicospromover modificações genéticas para desmantelar/reconstruir estas mesmas ‘estruturas biológicas’.

Nick Bostrom finaliza afirmando que o risco existencial enfrentado pela humanidade…“não está no radar de todo mundo”. – Mas ele argumenta                              que os riscos virão, caso estejamos, ou não preparados… – Segundo ele:

“Existe um gargalo na história da humanidade. A condição humana                                  irá mudar… – Pode ser que terminemos em uma catástrofe… ou que                                    sejamos alterados, ao assumir mais controle sobre a nossa biologia.                                      E isso não é ficção científica, doutrina religiosa, ou conversa de bar”.

Por outro lado… – talvez seja recomendável não esquecer… que uma única                        tempestade solar forte o bastante…como a que aconteceu em 1859, poderia                    desligar nosso ‘amedrontador‘ parque tecnológico…E nossas preocupações                      então seriam outras…por exemplo, como não voltar à barbárie. (texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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