Tecnociência & Bioética (com Luiz Alberto Oliveira)

“O entendimento perseguido pela ciência é um entendimento das relações internas à natureza. Portanto, a ciência não está discutindo as causas do conhecimento — mas sim… a sua coerência” … (Alfred North Whitehead)

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Grandes projetos científicos da atualidade, como aquele do ‘genoma‘… e o que está sendo gestado para a ‘nanotecnologia‘ … — são típicos de um tempo em que as tecnologias… e as aplicações da ciência, ganharam um destaque inusitado…Essa união profunda entre ciência, tecnologia…e uma quantidade considerável de capital privado vem sendo chamada de tecnociência

ComCiência – Porque disciplinas como a física e a biologia têm tanto destaque hoje?     O que isso significa na história da ciência?

Luiz Alberto Oliveira – A ciência é uma forma de dialogar com a natureza… Desde sua implantação definitiva, há pouco mais de 3 séculos, as ciências empíricas tiveram enorme sucesso em descrever, e, portanto, controlar e manipular – ao menos parcialmente – uma variedade de aspectos do mundo natural.  Assim,  essas ciências passaram a  alimentar as tradições étnicas, e as grandes religiões, na função fundamental de elaborar  “imagens de mundo“, ou seja, constelações de ideias pelas quais,  sociedades humanas, desde sempre, deram sentido à experiência de existir.

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Contudo, como adverte Ernesto Sábato, os enunciados científicos são deslizantes, não podendo  aspirar  à  perenidade  de dogmas,  ou  verdades  últimas.

Vivemos em nossa contemporaneidade, profundamente marcados  pelo avanço incessante da ciência técnica – na crise contínua de um espasmo interminável:

‘somos constantemente obrigados a rever as fundações de nosso entendimento sobre o mundo, a coletividade, sobre nós mesmos’.

Este é, sem dúvida, um momento singular na história do pensamento – uma vez que as descobertas da cosmologia, microfísica, da biologia molecular, da evolução darwiniana,     e de muitas outras disciplinas, progressivamente, e cada vez mais, diluem as fronteiras modernas entre natureza e cultura, ente e artefato, interioridade e exterioridade, sujeito e objeto – pelas quais estávamos acostumados a definir nosso ‘estar-no-mundo’. Assim,  nos resta colocar em questão  o próprio  ‘estatuto de nossa humanidade‘.

ComCiência – E, quais as consequências desse destaque para debates                               como o determinismo biológico, as diferenças de gênero, ou a eugenia?

Oliveira – Do ponto de vista das  práticas técnicas,  o avanço decisivo que resultou da grande revolução científica iniciada no começo do século XX foi a crescente capacidade     de intervenção em escalas cada vez menores  —  micrométricas, moleculares, e mesmo atômicas, abrindo caminho para as tecnologias do bilionesimal que moldarão o futuro próximo – a nanotecnologia, as biotécnicas, a robótica.

A potência sem precedentes de atuar nos níveis básicos da constituição dos seres materiais poderá levar  — com o uso do mesmo ‘instrumental’ — quer à eliminação de doenças…ou à gênese de novos ‘modos de produção econômica‘… quer à ressurreição do pesadelo nazista ou, no limite, à substituição da vida orgânica. Assim, hoje, importantes questões éticas estão colocadas à nossa frente.

Parece-me, porém, que muitos aspectos do debate atual sobre o suposto determinismo biológico estão contaminados por um equívoco… – Acredita-se – de modo geral… que o ‘genoma‘ de cada indivíduo determine suas características básicas…sendo influências do ambiente significativas somente para seu desenvolvimento…

              ‘O ambiente é o acaso; o gene, a necessidade.’

Ora,  na própria transcrição dos genes em proteínas,  ocorre uma aleatoriedade inevitável, proveniente das circunstâncias internas da célula, e essa indeterminação é co-responsável pela fixação dos caracteres individuais… Ou seja — ‘a complementaridade entre Acaso e Necessidade…abrange até os próprios ambientes exógeno e endógeno dos seres vivos’.

Trata-se talvez, da persistência da índole reducionista, típica da cosmovisão mecanicista, num território (sistemas complexos) em que sua aplicação imediata é muito inadequada.

ComCiência – Como dialogam, atualmente, a biologia, a física, e as ciências humanas?

Oliveira – Na maioria das vezes, como viajantes noturnos no deserto, que passam bem ao lado um do outro sem se encontrar…Em ciências naturais, 2 tendências estão em situações opostas: o especialismo no qual cada saber deve possuir limites bem demarcados para atuação de seus praticantes … e a transdisciplinaridade  fundada no reconhecimento de que objetos complexos, como o clima, requerem para eficaz descrição, a colaboração de ideias, instrumentos e procedimentos vindos de diferentes áreas, da geologia à física solar.

Obviamente, ambas as posturas são indispensáveis — a verticalidade para o específico, a horizontalidade para o integrado; mas, na prática, costuma-se decair para um fundamentalismo míope … — em favor de um dos lados.

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Ainda maior é o distanciamento entre as ciências naturais… e as humanas — pela generalidade e particularidade dos respectivos objetos de estudo… Veja-se, por exemplo… o típico conflito entre neuropsiquiatras e psicanalistas:

Os primeiros, proclamam que os neurofármacos decretaram o fim de uma pseudociência, ignorando a observação de Lewis Thomas de que as palavras agem sobre vírus, penetram em escalas subcelulares… já os 2ºs denunciam a leviandade da remoção de sintomas sem que se intervenha sobre as causas, esquecendo a antevisão premonitória de Freud acerca das promessas da bioquímica.

Quem sabe, um dia…dada a função comum de serem meios para que o pensamento mergulhe no desconhecido, os saberes venham a dialogar abertamente.

ComCiência –  O senhor concorda com a afirmação do biólogo Jacques Testart, de que não existe mais vontade gratuita de obter conhecimento…e toda pesquisa tem por finalidade a busca de inovações direcionada para o progresso, pelo mercado. Ainda é possível fazer ciência de forma independente? A tecnociência é uma ruptura nisso?

Oliveira – As ciências modernas sempre foram empreendimentos — ‘essencialmente’ coletivos…quer dizer, envolvem cooperação e competição de seus praticantes, e assim, necessariamente refletem o espírito da época (apesar das exceções, como o imotivado desenvolvimento da Relatividade Geral de Einstein).

Por outro lado, de forma marcante desde a 2ª Grande Guerra, inovações técnicas dos mais variados tipos tornaram-se o eixo dos avanços econômicos, e naturalmente essa vinculação rebate-se sobre os próprios afazeres tecnocientíficos.

Mesmo a pesquisa fundamental em áreas como a astrofísicaou física de partículas elementares contribui para as expectativas de desenvolvimento de aplicações lucrativas, e essas perspectivas de futuros benefícios, passaram também, a servir de justificativa para os altos custos de sua realização.

Agora… — o que parece profundamente ‘questionável’ é a tendência de resultados ambicionados pelo ‘mercado’ tornarem-se o ‘norte’ das atividades de investigação, indicando assim uma inversão perigosa…

‘as aplicações serem privilegiadas em detrimento da pesquisa básica’.

Basta ver os argumentos apressadinhos acerca da ‘reinvenção da roda’ que certos setores, aqui mesmo no Brasil… costumam brandir para advogar o desmantelamento da estrutura de pesquisa fundamental, penosamente construída ao longo das últimas décadas, quando não há um único caso de instalação bem-sucedida de um parque técnico amplo e eficiente sem prévia, ou concomitante consolidação de um sistema de investigação básica, fundado em universidades e centros de pesquisa.

O fato mesmo da “tecnociência” estar adquirindo enorme preeminência na determinação de nossos modos de produzir e viver, deveria ser suficiente para demonstrar a insensatez dessa diretriz. – Não, não creio que o fazer tecnociência possa prescindir do fazer ciência.

ComCiência – Se é verdade que, na atualidade, a ciência está mais associada ao mercado – quais as consequências disso para o saber científico, e para os saberes               que não podem produzir para o mercado, como a filosofia?

Oliveira – Consideremos o mito moderno por excelência – ‘Progresso‘… – o ideal universal humanista parido pelo Iluminismo teria como destinação uma abundância material. – Entretanto, a sensação em nossa pós-modernidade, é de mal-estar.

Recordemos o início da Revolução Industrial: bens naturais fartos… bens artificiais raros‘…Hoje, vemos justo o inverso…bens artificiais abundantes, bens naturais escasseando‘.

Todo ser vivo necessariamente  desconstrói e reconstrói seu habitat … mas o peso de nossa presença… já se tornou excessivo… Edward Wilson revela um ‘rosário’ de extinções em massa, pela ‘devastadora’ ocupação humana.

Os atuais seguidores do mercado costumam o entronizar como provedor de todos benefícios… – prometidos e adiados… – e o mercado tornou-se a causa final da atividade produtiva. Tudo deve ser conversível em commodity – ser nodo de um fluxo de percentagens…ser apreçado – seja sentimentos íntimos… seitas religiosas… órgãos humanos…etc.

‘Para quê a tal de filosofia?…Que sejamos todos unidimensionais, quer dizer, consumidores, quer dizer consumíveis. Esta destrutividade, essa exclusão exponencial…não são apenas um mal-estar…são um mal-ser’.

Do ponto de vista da teoria dos sistemas complexos… a vida é uma matéria organizada que, aprendendo a modificar sua própria estrutura para responder a alterações do meio, passou a conectar o tempo ‘bilionesimal’ molecular… ao das transformações ambientais, geológicas e astrofísicas. A aceleração técnica moderna superpôs novo modo temporal a esta conexão entre os ritmos materiais e biológicos — a rapidez das produções culturais.

O físico Freeman Dyson — compara o andamento típico da natureza à marcha apressada da cultura…‘África e América do Sul levaram 150 milhões de anos até à separação atual… a especiação requer em média 1 milhão de anos… — o clima global – por sua vez… varia ao longo de centenas de milhares de anos…  –  Já o desenvolvimento de artefatos culturais, como metalurgia…precisou de dezenas   de milhares de anos — entidades como línguas e religiões, com longevidade de milhares de anos; instituições como as nações duram séculos … os indivíduos têm expectativa de vida da ordem de várias décadas… – porém…no sistema acadêmico hiper-acelerado de hoje, as ideias surgem e fenecem em anos… e as inovações técnicas     são lançadas e obsoletam em meses’.

O aspecto crítico aqui é que a compactação dos ritmos naturais pelos ritmos tecnológicos instaura uma imprevisibilidade radical…doravante, o passado não nos servirá como guia, pois a história – quer da natureza…quer da cultura – não pode mais ser rebatida sobre o futuro… – O futuro não será mais como antigamente.

Transformações civilizacionais deste calibre, não costumam ser experiências pacíficas          e serenas. Como reza a tradicional maldição chinesa, viveremos tempos interessantes. Talvez, como em nenhuma outra época, será necessário que invoquemos e exerçamos       as potências do pensamento – arte, filosofia, ciência – para que possamos…como queria Nietzsche…  “ser uma ponte entre o primata… e o além-do-homem.

ComCiênciaEm algumas palestras o senhor abordou os seres vivos como ‘biontes’, ‘bióides’, e ‘borgues’… – O que são esses conceitos? – Eles se relacionam com períodos, tecnologias e saberes específicos?

Oliveira – A observação decisiva é que, progressivamente, e cada vez mais…diluem-se as distinções clássicas entre matéria, vida e pensamento. Anteriormente, se poderia dizer que a tecnologia era uma ferramenta para o espírito… na dimensão interna da subjetividade – agir sobre a natureza que lhe é exterior. Hoje, devido à capacidade recentemente adquirida de intervir em escalas infinitesimais de comprimento e duração — próprias ao domínio da microfísica…ocorre uma internalização da ação técnica — como se a tecnologia se voltasse sobre seu agente — como se o espírito se dobrasse sobre si mesmo, e se autodeterminasse.

Considerando o que o filósofo Daniel Dennett  denominou… – a perigosa ideia de Darwin‘, isto é:Em períodos de duração suficientemente extensa, minúsculas diferenças entre indivíduos de mesma espécie… selecionadas pelas pressões aleatórias do meio…podem levar à ‘especiação’; à ramificação em novas espécies”… – Este lento processo acumulativo…foi o procedimento pelo qual a evolução escreveu… — e reescreveu… ao longo dos tempos …as séries de instruções que regem a constituição dos ‘biontes’…seres vivos desenhados pela seleção natural.

Enquanto nos anos 50, o biofísico Francis Crick,  e o bioquímico James Watson, determinavam o suporte bioquímico do ‘manual de operações’    o genoma… – que todo ser vivo teria no interior de suas células – com organogramas e fluxogramas gerenciando o desenvolvimento orgânico de cada espécie.

A biologia teria assim — como substrato — a ciência                                         do material genético dos organismos…a genômica.

Entretanto, como é característico da tecnociência atual, esses avanços no conhecimento sobre as ‘fundações da genômica’ foram – de imediatoacompanhados pela geração de aplicações práticas – as biotécnicas…Assim, rapidamente, a tessitura fundamental da própria vida tornou-se suscetível a intervenções técnicas.

Enquanto nos anos 60 surgiram as primeiras associações entre genes particulares e características morfológicas (…ou comportamentais) – nos 70…deu-se o começo da capacidade de intervenção programada em processos genéticos – nos 80, tornaram             -se corriqueiros a inclusão, exclusão e substituição de genes precisos… bem como a       mescla interespécies – já nos 90 é produzido o 1º bioide mamífero…a ovelha Dolly.

A perspectiva que assim se abre é a da hibridação radical… em 50 anos,  estima Freeman Dyson… teremos a plena fusão interespécies, ou a gênese de espécies inteiramente novas. De fato, de um ponto de vista estritamente microfísico, não há diferença entre moléculas biológicas e inorgânicas…naturais ou artificiais.

À medida que cresce o poder de manipular objetos em escala molecular – a tendência seria ocorrer uma ‘integração crescente’ entre componentes orgânicos…gerados biologicamente; e eletrônicos – fabricados de modo artificial. – Nesse caso, sínteses de carbono/silício  se dariam numa real mescla de formas – na interpenetração entre componentes orgânicos e semicondutores…A perspectiva…é nos tornarmosciborgues‘, híbridos de células e chips.

Como exemplo…um feito espantoso… o cérebro do peixe lampreia‘ (…ao lado)   foi conectado a sensores sensíveis à luz,     e também aos controles de movimento     de um mini-robô… – Com o cérebro da lampreia funcionando como central de processamento – o robô passou a agir como a lampreia agiria – evitando as zonas iluminadas, buscando sombras.

Esta conexão é ainda muito rudimentar, pois se trata de neurônios inteiros postos em contato com condutores metálicos, mas, brevemente, será possível penetrar em um nível subneural, associando subestruturas dos neurônios a componentes eletrônicos. Nesse momento, que não estaria longe, veremos o nascimento de autênticos ‘híbridos biotrônicos‘, assim como ‘centauros cognitivos‘…e esses centauros – seremos nós.

ComCiênciaQuais as consequências para o ser humano da passagem de biontes         para bióides, e, futuramente, para ‘borgues’? No panorama das atuais intervenções tecnológicas e biológicas possíveis no corpo humano — o que significa ser humano?

Oliveira – A imensa abertura de mundo propiciada pela aceleração técnica aponta para uma variedade de caminhos… — Hoje, destruímos algumas centenas de espécies por dia, somos os realizadores de uma extinção em massa – mas, ao mesmo tempo, também nos tornamos capazes de fazer aparecer novos tipos de vida, novas espécies.

Esse poder de gerar formas artificiais é aplicável a toda matéria-prima biológica, inclusive a nós mesmos… Tornamo-nos ‘mármore bruto’ para nosso próprio engenho e arte, nossos corpos e espíritos são doravante insumos que podem ser manipulados no engendramento de novas corporalidades…e novos seres…Uma breve excursão especulativa será suficiente para ilustrar esse ponto…

A ‘biotecnologia’ já exibe poder de ampliação para a rápida intervenção nos dispositivos básicos de funcionamento dos ‘biontes‘ — antevendo a possibilidade (fascinante e aterradora) de se tornar ‘viável’ a produção antrópica de células, tecidos, órgãos…e, até mesmo… ‘indivíduos vivos’.

O ‘mapeamento do genoma‘,           por exemplo, poderá elucidar os ‘mecanismos de regulação‘…dos  ‘relógios celulares’, que regem o           ‘ritmo metabólico’ — e a taxa de obsolescência de nossas células.

Contando com o ‘controle’ de diversas moléstias de cunho genético — mais a descoberta de novos avanços médicos, a longevidade de (‘alguns’) indivíduos poderá simplesmente desconhecer limites… – Não a atual expectativa de vida (nos países ditos desenvolvidos) de 80 anos… nem mesmo a previsão de idades mais que centenárias para algumas crianças nascidas na presente década, mas durações de vida de, quem sabe, mil anos…

Delineia-se um horizonte de valores fundado na longevidade tecnicamente prolongada, e administrada, calcada em estimativas de riscos genéticos e ambientais – voltada para um mercado restrito de candidatos à perenidade – cujo valor mais precioso será… ‘o tempo‘.

De acordo com o grau de acesso aos recursos médicos (…e à nutrição básica!) uma situação sem precedentes se apresentaria… – as populações seriam divididas em uma minoria de ‘duráveis‘, e uma elite de ‘perpétuos‘… — Jamais…qualquer sociedade humana experimentou uma tal separação em castas de durabilidade.

Numa tal ‘Era das Mesclas’ – de hibridações de natureza e artifício, de carne e mente, de intimidade e globalidade, em que os limites que definem os indivíduos tornam-se… cada vez mais ambíguos e imprecisos, talvez a pergunta-chave seja:

Estaremos em vias de realizar a instalação de um novo “patamar de complexidade” no sistema de sistemas que chamamos Terra?… – Poderá estar em ação uma nova síntese integradora da Vida, uma nova etapa de individuação do Homem?…

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Se as tecnologias de movimento, percepção e cognição — que nos fizeram a ‘espécie dominante do planeta’ migrarem — ao interior de nossos corpos, e se fundirem com nossas células… — então, o significado de…”ser humano”… inexoravelmente … — também mudará…

De animais técnicos que usam ferramentas, passamos ao operário mecanizado de Chaplin, e ao trabalhador automatizado de ‘Metrópolis’ — mas…a perspectiva que se abre agora é a de um homem-máquina, no sentido literal.

Se, com Spinoza, entendemos por Ética a determinação de estratégias de ação, nossa época de ‘hipertecnificação’ defronta-se com dilemas éticos enormes. Selecionar valores que favoreçam a vida… redefinindo o sentido do que é ‘ser humano‘ — eis o desafio que nos cabe enfrentar.

Entrevista com Luiz Alberto Oliveira  (texto base)                                                         Físico, doutor em Cosmologia, pesquisador do Laboratório de Cosmologia e Física Experimental de Atlas Energias (Lafex)  do  Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MC),  onde também atua como professor de História e Filosofia da Ciência.

consulta: ‘Futuro de Ciborgues’ # ‘Descobertas computações sub-neurais no cérebro’  ***********************(texto complementar)*************************************

A tecnologia pode destruir a raça humana?… (25/04/2013)

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Nos chamados “apocalipses científicos”, o mal é sempre encarnado nas próprias criações humanas.[Kevin Warwick]

Instituto do Futuro da Humanidade – este é o nome escolhido por uma equipe internacional de cientistas…matemáticos e filósofos… – que decidiu investigar — quais os maiores perigos contra a humanidade.

E – segundo seu primeiro relatório … chamado Riscos Existenciais como Prioridade Global, os autores de ‘políticas públicas’ deveriam atentar para os riscos que podem contribuir para o fim da espécie humana.

Seguindo uma onde crescente dos cada vez mais comuns apocalipses científicos, é de se espantar que – no ano passado… tenham sido publicados mais textos acadêmicos sobre snowboarding do que a respeito da extinção da raça humana.

O diretor da organização, o sueco Nick Bostrom, eventualmente preocupado em buscar recursos para manter seu nascente instituto – na Universidade de Oxford… afirma que existe uma possibilidade plausível de que este seja o último século da humanidade… Ele precisa de argumentos…pois compete com o também fatalista Centro para o Estudo do Risco Existencial… da Universidade de Cambridge – atualmente mais preocupado com uma “singularidade tecnológica”, e revolução dos robôs.

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A Dança dos Apocalipses 

Mas…primeiro as boas notícias. Pandemias e desastres naturais podem causar perda de vida em escala catastrófica…mas é de se supor que a humanidade esteja propensa a sobreviver…

— Isso porque … nossa espécie já sobreviveu a milhares de anos de doenças, fome, enchentes, predadores, perseguições, terremotos e mudanças ambientais. Por isso, as chances ainda estão a nosso favor… – E Bostrom também afirma que:

“Ao longo do espaço de um século, o risco de extinção em decorrência do impacto de asteroides… e super erupções vulcânicas… permanece sendo extremamente baixo”.

Até mesmo as perdas sem precedentes do século 20 com 2 guerras mundiais e a epidemia de gripe espanhola não puderam deter o crescimento global da população humana… Uma guerra nuclear poderia causar destruição sem precedentes…mas um número suficiente de indivíduos poderia sobreviver e, assim, permitir, que a espécie continue.

– Mas, se existem todos esses atenuantes, com o que deveríamos estar preocupados?… Bostrom acredita que entramos em uma nova era tecnológica, capaz de ameaçar nosso futuro de uma forma nunca vista antes…”Ameaças que não temos qualquer registro de haver sobrevivido“, diz ele…constatação um tanto óbvia, pelo ineditismo da atual onda tecnológica na história.

O diretor do instituto compara as ameaças existentes a uma arma perigosa, nas mãos de uma criança. Ele diz que o avanço tecnológico superou nossa capacidade de controlar as possíveis consequências. Experimentos nas áreas de biologia sintética, nanotecnologia e inteligência artificial avançam para o território… – do não intencional, e do imprevisível.

A biologia sintética…onde a biologia se encontra com a engenharia, promete grandes benefícios médicos, mas Bostrom teme efeitos não previstos na manipulação da biologia humana. — E muitos colegas concordam com ele, já que…recentemente – nada menos do que 111 entidades pediram moratória em pesquisas com ‘Biologia Sintética’.

A nanotecnologia…a nível atômico ou molecular, poderia também ser muito destrutiva ao ser usada para fins bélicos… – Para o pesquisador, ‘governos futuros’ terão um grande desafio para conter usos indevidos.

Há também temores em relação ao modo de interação da ‘inteligência artificial‘… com o ‘mundo externo’  Esse tipo de inteligência orientada por computadores – pode ser uma poderosa ferramenta na indústria, na medicina…na agricultura – ou, para gerenciar a economia – mas enfrenta também o risco de ser completamente indiferente a qualquer ‘dano incidental’.

Sean O’Heigeartaigh, geneticista do Instituto, traça uma analogia com o uso de algoritmos usados no mercado de ações… — Assim como essas manipulações matemáticas podem ter efeitos diretos e destrutivos sobre economias reais e pessoas de verdade — argumenta ele, tais sistemas computacionais podem manipular o ‘mundo verdadeiro’.

Em termos de riscos biológicos … ele se preocupa com boas intenções mal aplicadas, como experimentos visando promover modificações genéticas,     para desmantelar … — e reconstruir essas mesmas estruturas biológicas.

Um ‘tema recorrente’ entre o eclético grupo de pesquisadores é sobre a habilidade de criar computadores cada vez mais poderosos. O pesquisador Daniel Dewey comenta sobre uma ‘explosão de inteligência’, em que o poder de aceleração de computadores se torna menos previsível e menos controlável. E ele diz…“A inteligência artificial é uma das tecnologias que deposita mais e mais poder em pacotes cada vez menores”.

Nick Bostrom finaliza afirmando que o risco existencial enfrentado pela humanidade “não está no radar de todo mundo” … Mas ele argumenta que os riscos virão, caso estejamos ou não preparados…

“Existe um gargalo na história da humanidade. A condição humana irá mudar. — Pode ser que terminemos em uma catástrofe, ou que sejamos transformados ao assumir mais controle sobre a nossa biologia. Não é ficção científica, doutrina religiosa… ou conversa de bar”.

Por outro lado, talvez seja recomendável não esquecer que uma única tempestade solar forte o bastante, com a que aconteceu em 1859, poderia desligar nosso “amedrontador” parque tecnológico… – E então nossas preocupações seriam bem outras… – como não voltar à barbárie, por exemplo. (texto base)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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