Filosofia como didática para uma Ciência evolutiva

‘Qualquer filosofia superior, na qual não continuem a existir as realidades do plano que ela pretende ultrapassar…é uma impostura’ (Louis Pauwels)

karl-popper

“O conhecimento é uma aventura em aberto… Tudo aquilo que saberemos amanhã…é algo que desconhecemos hoje; e esse algo pode mudar as verdades de ontem” …(Popper)

A importância da filosofia ao ensino científico…há muito tempo tem sido negligenciada. Muitas discussões de pensadores como… Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend, poderiam ser úteis na construção de “modelos pedagógicos” que consigam romper com o tradicional caráter … linear e atemporal do ensino…substituindo-o por uma visão – mais dinâmica, e melhor integrada, a um inesgotável    processo humano de aprendizagem.

O filósofo Karl Popper (1902-1994), por exemplo via a imaginação como  o ‘princípio motor‘ da ciência. Para ele, ‘hipóteses‘ são formuladas para serem testadas. Se estas forem ineficazes… outras serão criadas – as quais…por sua vez… sofrerão novos testes;    para que… – em um processo contínuo de crescimento do ‘poder explanatório‘ das teorias… estas se aproximem cada vez mais… daquilo a que chamamos… “realidade“.    Assim, a ciência é essencialmente “transitória“, pois num dado momento…a melhor teoria… – é aquela que por mais tempo suporta … todas as tentativas de sua refutação. 

E, dessa forma, o pensamento científico evolui – numa relação                        intrínseca entre ‘hipóteses‘, ‘confirmações‘…e ‘refutações‘.

Para Popper, apenas hipóteses que possam ser ‘falseadas são de fato científicas. Nesse sentido – a ciência avança não pela comprovação de sentenças básicas… mas pela rejeição delas – o que exige a inferência de novas hipóteses… – Contrariando a linha positivista da indução, Popper afirma que o pensamento científico se dá por hipóteses, experimentos…e deduções; onde todo experimento/observação é influenciado por hipóteses pré-existentes.

Uma perspectiva dinâmica para as ‘teorias transitórias’                                    

O húngaro Imre Lakatos (1922-1974) por sua vez propôs uma reinterpretação de Popper por meio de um ‘falseacionismo sofisticado’. Para Lakatos, as hipóteses são científicas se puderem ser falseadas…não por um único experimento, mas por um corpo de ideias que possa substituir a hipótese original.

Esse ‘programa de pesquisa’…termo criado por Lakatos,                       engloba ‘teorias‘ … ‘experimentos‘ … e, a ‘observação‘.

paradigma

Paradigma  —  conjunto de hipóteses aceitas pela comunidade científica, que fornecem…por um tempo, problemas e soluções às questões gerais levantadas.

Paul Feyerabend (1924-1994) defendia … que o desenvolvimento das ciências… — dava-se por um ‘processo dinâmico’…baseado no não-absolutismo,  e não-uniformidade das teorias — “quanto mais teorias, melhor“… Ele considerava a ciência um empreendimento anárquico – que não deveria seguir princípios fixos ou metodologias específicas. Já Thomas Kuhn (1922-1996), em seu livro… “A estrutura das revoluções científicas baseou-se na história das ciências físicas…para definir que o padrão de desenvolvimento da ciência…funda-se na troca de ‘paradigmas, segundo ‘revoluções.

Para Kuhn, os cientistas passam grande parte do tempo refinando os paradigmas aceitos. Tais períodos de ciência dita ‘normal’ são pontuados por ‘explosões revolucionárias, em que o ‘consenso paradigmático é contestado…e substituído por um novo conjunto de hipóteses… Dessa forma, a imagem de realizações científicas acabadas, desvinculadas de um “contexto histórico“… compromete a compreensão de seu processo de construção.

Note-se aqui, que a ‘transitoriedadedas teorias científicas não é discutida no ensino de ciências nos níveis fundamental e médio…e, por vezes, sequer no superior. Há professores que tendem a tratar a ciência como um – conjunto de invenções e descobertas individuais, fixas e herméticas…visão esta reforçada por parte dos livros didáticos e pela grande mídia, que se limitam a expor ideias centrais teóricas e suas aplicações imediatas sem considerar o processo subjacente à construção dessas hipóteses. – Por isso seria benéfica, no “ensino científico” a adoção de uma perspectiva dinâmica baseada na ideia de teorias transitórias. Essa visão contrapõe-se à ‘linearidade e à falta de contextualização histórica encontradas nas escolas de nível médio e fundamental, podendo ser “ferramenta útil” para a ‘reflexão’.

O “método científico”                                                                                                      Quando uma teoria for considerada…”absolutamente”…verdadeira – no                            sentido de não poder ser questionada (ou falseada) por outras hipóteses,                              ou evidências adicionais, ela deixa de fazer parte do ‘domínio da ciência’.

A “filosofia da ciência“, em especial a ‘perspectiva popperiana‘, pode servir como guia para o processo de aprendizagem em diversos níveis, ao aproximar o processo construtivo da ciência a uma concepção própria do ‘mundo natural’, mostrando por uma noção básica de seus princípios – que a ciência não é apenas o reflexo de “sensações imediatas” sobre o mundo, mas sim…uma fusão destas… – às hipóteses e teorias construídas, com o objetivo de explicar a realidade… – para além do que nos é dado perceber, apenas pelos “sentidos”.  Assim, a ciência procura se aproximar da verdade, dentro de um “ponto-de-vista”, de que existe uma realidade subjacentesem propor que ela seja a própria verdade definitiva.

A ciência portanto deve ser vista como uma atividade passível de “erros”…fundamentais na construção do conhecimento… desempenhada por pesquisadores atuantes – em uma comunidade científica que faz parte do complexo de relações…e interações da sociedade.

josé ortega y gasset

Com efeito — cientistas não vivem em “torres de marfim”, isolados do ‘mundo externo’. – A prática diária da atividade científica tem suas idiossincrasias, mas não se distancia tanto de outros ramos do conhecimento. Considerar o ‘contexto histórico’…permite definir a prática científica – por meio da…”compreensão“…da natureza pelo aproveitamento de tecnologias, dentro de um emergente “contexto social“.

“O professor é dono de um saber inacabado,     e o aluno … de uma ignorância transitória”.

O positivismoainda presente na prática pedagógica…desconsidera o aluno como sujeito da…”ação científica” – o transformando em mero receptor passivo do produto final dessa atividade… Tratar a ciência como… “verdade absoluta” – desestimula e distancia o aluno.  Uma possível complicação desse tipo de abordagem, está no fato do professor se arriscar   a encenar um monólogo, ao propor a trocapor parte dos alunos – da certeza do senso comum, pela ‘incerteza científica’. Nesse caso, o resultado poderia ser um aumento ainda maior do ‘desinteresse‘ do estudante em relação à ciência…Porém, é importante levar em conta também esse risco… – mesmo que ele signifique um julgamento negativo…a priori, por parte dos alunos…daquelas qualidades e potencialidades da “metodologia científica”.

charles-darwinA evolução da ‘teoria da evolução’

‘Teorias científicas’ não deveriam estar dissociadas do ambiente em que foram criadas!… – e, isso independe do modo como surgiram…se através de insights, sonhos, estudo ou trabalho árduo. Um ótimo exemplo é a ‘teoria da evolução’.

Tida como um ‘princípio unificador’ da biologia… é quase sempre considerada pela grande mídia – e…livros didáticos, como um ‘produto exclusivo‘ da mente do naturalista Charles Darwin, quando na verdade, a “teoria evolucionista”  desconsidera seus inúmeros predecessores, e as influências que construíram o arcabouço, que tornou possível a própria delimitação desse “programa de pesquisa”…tão abrangente.

Ao ser exposta…a “teoria evolutiva”…vale a pena mostrar o histórico da sua construção, debatendo as questões levantadas, e principalmente, os erros cometidos (mesmo, os do próprio Darwin!), da antiguidade grega aos tempos atuais…bem como suas implicações.

Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) é um dos maiores exemplos de ‘figura histórica’ negligenciada. Teve uma importância capital na ‘teoria evolucionista’… – a despeito        das hipóteses errôneas sobre…‘uso e desuso’… e ‘herança dos caracteres adquiridos’      (que, na verdade, referiam-se a Aristóteles)… – bem aceitas por cientistas da época.

Pouco se fala de Lamarck, como um pioneiro na crítica ao…‘fixismo’…na biologia, enfatizando a importância do tempo na “evolução”… hipótese posteriormente consolidada — pelo próprio Darwin. Sua teoria seguia a corrente filosófica dos séculos XVII a XIX na Europa; onde na natureza reinava um “equilíbrio harmônico”.  Nestas condições… com constantes mudanças visíveis, tal equilíbrio só poderia se manter…com alterações também nos … “organismos vivos”.

A ideia de que as espécies se transformavam no tempo… dando origem a espécies diferentes era diametralmente oposta à perspectiva essencialistasegundo a qual,           tudo no mundo natural correspondia a uma essência fixa ‘imutável‘. Além disso,   Lamarck cunhou o termo ‘biologia‘… – E…foi só a partir daí, que passaram a ser analisadas as características comuns a todos os “seres vivos” – permitindo assim,            que fossem estudados por uma área da ciência, especificamente voltada para eles.

Além de Lamarck, é necessário destacar o papel do naturalista britânico Alfred Wallace (1823-1913), também pai da “teoria evolutiva – seleção naturalFoi só a partir da publicação conjunta, em 1858, na edição da revista da real sociedade britânica de um artigo de Wallace, e outro de Darwin, que de fato o “evolucionismo” passou a ser discutido — agora, com base num processo de ‘seleção das variedades’  que – por alguma forma – tivessem maior sucesso reprodutivo que outras. O famoso livro de Darwin, “Origem das espécies”…com ‘ecos‘ do trabalho de Wallace, seria somente publicado no ano seguinte.

O pensamento evolutivo moderno…também deve muito a autores como Conde de Buffon, Erasmus,   Leopold von Buch – predecessores de Darwin, ou contemporâneos; e também a autores atuais, que desenvolveram as primitivas ‘ideias darwinianas’, ajudando a moldar o que conhecemos hoje como  ‘Teoria da EvoluçãoAugust Weissman, Francis Crick…Theodosius Dobzhansky…Stephen Gould, Richard Dawkins…León Croizat…James Watson, Willi Hennig, Ernst Mayr, Alfred Wegener…e, mais uma série de outras proeminentes figuras no círculo de atividades das… “ciências naturais”… – nos séculos XX para XXI.

A didática necessária                                                                                                                  O estímulo à reflexão histórica e à crítica fundamentada auxiliará na formação de cidadãos conscientes…capazes de avaliar problemas, sob diversos pontos-de-vista.       

A ‘contextualização históricadas teorias científicas mostrará que os praticantes de ciência não são trabalhadores solitários – e sim… homens de seu tempo – inseridos num contexto social amplo… recebendo influências… e influenciando outros pesquisadores de sua época. Porém, para isto acontecer, o professor não pode na aula se ater apenas à superficialidade dos livros didáticos; devendo ser acrescida, discussões históricas, e filosóficas pertinentes.

Atualmente há várias ferramentas disponíveis na internet, tais como blogs, revistas de divulgação online…portais com obras completas de autores consagrados em ciências e filosofia, assim como ‘portais’… com apresentações, exercícios, e documentários… que     podem ser importante fonte de informação para o docente – e também para os alunos.

Cabe assim…tratar a ciência como processo contínuo, não hermético, de afirmação… e refutação teórica, com rearranjos de hipóteses — na constante busca…por “evidências” que estimulem reflexão … análise crítica e imaginação – assumindo que a ‘investigação científica’ não fica em resultados experimentais, mas…parte das hipóteses iniciais, para então, poder se desenvolver.

Este ensaio, aqui editado, foi publicado originalmente na revista “Ciência Hoje“, de Nov/2004 (volume 35, nº 210, pgs 59/61).  (Charles Morphy Santos – julho/2008)  ******************************************************************************

Do livro “A ciência e a hipótese” (Henri Poincaré)                                                              “Sem dúvida, se nossos meios de investigação tornam-se cada vez mais penetrantes, descobriremos o simples sob o complexo…depois o complexo sob o simples…depois novamente o simples sob o complexo … sem que aí possamos prever o último passo. Contudo… – para que a ciência seja possível… – faz-se necessário que essa escalada              se detenha em algum ponto – e esse ponto é quando a simplicidade for encontrada”.

PoincaréA física matemática deve promover a “generalização”de modo a aumentar o rendimento científico, mas também é preciso levar em conta, que a generalização não se efetiva sem pressupostos… Louva-se da crença … na unidade e simplicidade da ciência. – O primeiro aspecto não suscita controvérsias. No segundocontudo, supõe-se que possa levar a equívocos (porém…corrigíveis – como verificado).  
A partir da própria ‘física newtoniana’, tornou-se patente que a simplicidade de suas leis do movimento, encobrem realidades complexas. Não obstante, entende-se que…no processo de generalização e ordenação dos fatos… não se deve renunciar àquela busca, estágio de avanço do saber.

Não seria apropriado recusar uma lei simples que haja sido observada          em muitos casos particulares – podemos admitir legitimamente que          seja verdadeira em casos análogos. – Não fazê-lo, seria atribuir papel inadmissível ao acaso. – Tal é a função da crença na “simplicidade“. 

Ademais, o ordenamento (e generalização) dos fatos obtidos pela experimentação só pode efetivar-se a partir da…”hipótese” – que preside a investigação. Assim, esta desempenha papel primordial. Naturalmente está sempre sujeita à verificação, devendo sem relutância ser abandonada, se assim não for suportada. Em geral, levando em conta todos os fatores conhecidos que poderiam intervir no fenômeno…hipóteses são amadurecidas o suficiente. Se não for comprovada…por certo há de ter surgido algo de extraordinário despertando daí o novo…e desconhecido. – Nesse caso, pode então – até produzir melhores resultados.

Quanto às regras para a formulação das hipóteses, Poincaré recomenda que se evite as      que pareçam tácitas, porquanto que, por elas, podemos estar sendo inconscientemente influenciados…Hipóteses desse tipo são difíceis de abandonar contudo, sendo assim, devemos recusá-las…sem quaisquer remorsos. – Cumpre ainda evitar que as hipóteses sejam desnecessariamente multiplicadasAs teorias não podem ser construídas sobre hipóteses múltiplas, pois assim… – se condenadas pela experiência, não sabemos qual deva ser abandonada/alterada…Tampouco sua verificação simultânea poderia ocorrer.

Quanto ao fato de que as‘teorias científicas’tenham vida relativamente efêmera, não justifica a conclusão precipitada de que tal fato traduziria o fracasso da ciência… Trata-se do que denominamos “ceticismo superficial” resultante da incompreensão de qual seja o ‘verdadeiro papel‘ das teorias científicas. A teoria de Fresnel (1788-1827), atribuindo à luz movimentos do éter foi abandonada pela de Maxwell (1831-1879)Isto não quer dizer que a obra de Fresnel tenha sido em vão. Fresnel não queria saber se o éter realmente existe, se é ou não formado de átomosse estes átomos realmente se movem… – neste, ou naquele sentido… – Seu verdadeiro objetivo consistia em tentar prever os“fenômenos óticos”.

Ora…a teoria de Fresnel sempre permite fazê-lo – do mesmo modo que antes de Maxwell.  O aprimoramento proporcionado pelas equações de Maxwell consiste em precisar melhor o que na teoria de Fresnel chamou-se de movimento. Maxwell permitia compreender que se trata de corrente elétrica. — Tal refinamento não significa que nossas imagens possam substituir os objetos reais que a natureza nos esconderá eternamente. Para Poincaré…”As verdadeiras relações entre tais objetos reais, são a única realidade que podemos alcançar, com a exclusiva condição de que haja as mesmas relações entre estes objetos…que as que estabelecemos entre as imagens que somos forçados a colocar em seu lugarConhecidas estas relações… – pouco importa se julgamos cômodo substituir uma imagem por outra”.

A física, observa Poincaré, marcha no sentido de integrar nº cada vez maior de fenômenos. Evolui, assim, no sentido da unidade e simplicidade… Ao mesmo tempo, a observação nos revela sempre novos fenômenos. Nos que nos são conhecidos detalhes cada vez mais variados tornam-se acessíveis… – Aquilo que supomos simples…revela-se complexo. – Na medida em que triunfa a primeira tendênciaa ciência é possível. Contudo, não podemos “a priori” supor que novos fenômenos dispersos, poderão sempre ser integrados à ‘síntese geral’. Resta-nos comparar a ciência atual…com a precedente. — O certo é que, embora as novas conquistas signifiquem progresso…envolvem também muito sacrifício. (texto base***********************************************************************************

Os desafios de uma ciência criativa                                                                                      Ao abordar sobre o papel da criatividade e intuição…orientadas pela racionalidade…na produção científica, o físico/filósofo Michel Paty, entende que o processo da descoberta, pode ser o maior desafio à filosofia da ciência… Já que – para ele … invenção e intuição,  guiadas pelo caminho da… — “racionalidade“… — fazem parte deste mesmo processo.

Como surge a descoberta científica? Qual a sua origem?…E qual o papel da… ‘criatividade’ – nesse processo, para o próprio avanço da ciência?…

Tais indagações – que inquietam e instigam a ‘filosofia da ciência‘, por certo, não têm respostas fáceis ou definitivas…mas havendo lugar na ciência … à invenção e intuição, podem ajudar, na definição de sua “trajetória” — nos últimos séculos.

Em uma palestra no “Colégio Brasileiro de Altos Estudos” da “UFRJ” – o físico, filósofo e historiador da ciência Michel Paty…diretor emérito de pesquisa do ‘Centre National de la Recherche Scientifique’ da França abordou…num simpático português, cheio de sotaque, as mudanças no entendimento filosófico sobre a ciência nos últimos 200 anos. Recordou assim inovações da ciência, que em pleno século 19 afrouxaram os laços entre natureza e matemática, mostrando a distância entre experiência e abstração teórica. Criações como “geometria não euclidiana”…que não corresponde às ‘evidências’; além de teorias físicas matematizadas e abstratas…em eletricidade e magnetismo – àquela época… teriam feito mais lógico o papel da invenção na construção da ciência. — Apesar disso, segundo Paty,    na 2ª metade do século 20 – a concepção da ciência continuava a se basear – sobretudo, nas ideias herdadas do ‘empirismo lógico positivista‘, onde a filosofia em geral, não tratava do processo da “descoberta”…domínio da subjetividade, e alheio à racionalidade.

Apesar dessa predominância…a aproximação entre criatividade e processo científico foi estimulada por grandes cientistas e filósofos do século 20, em especial…Henri Poincaré,    e Albert Einstein … cujos trabalhos, Paty estudou a fundo… – “Ambos concebiam novas descobertas relacionadas ao…’conhecimento objetivo‘, como fruto da capacidade da invenção mental, baseada em uma ‘intuição racional‘ que escapa às formas usuais    do raciocínio lógico. Desse modo…mesmo que nem sempre se possa ver as ‘linhas de raciocínio’, chega-se a um resultado racional”.

Nesse contexto, a ‘invenção‘ teria seu lugar assegurado na “ciência fundamental”… A ‘criatividade seria, sim…relacionada ao pensamento individual, mas orientada pela “racionalidade“… que, por sua vez, não se identifica com a “lógica” pura e simples.  Conforme Paty…A criatividade é parte fundamental do processo de elaboração do saber científico…a ser considerada, tanto pela filosofia, como pela ‘história da ciência’.

Acompanhe agora uma entrevista concedida à “Ciência Hoje” pelo físico e filósofo francês:

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CH Online: O senhor é físico e filósofo, 2 áreas que buscam compreender o mundo. Há uma relação natural entre elas?

Paty: Esses dois campos sempre foram próximos. Desde a Antiguidade, muitos físicos que também eram filósofos, se debruçavam sobre ‘questões gerais‘ pelas 2 vias. – Foi só a partir do século 18 que essa separação começou a aparecer   de maneira mais nítida – aliás… no propósito de assegurar a autonomia da ciência e da filosofia… Mas, ela não é total.

Se tomarmos o exemplo da cosmologia contemporânea, é impossível negar as questões filosóficas que a área suscita. A constituição da matéria, a presença da vida no universo,     o surgimento de uma inteligência como a nossa, nesse universo tão grande e a dúvida sobre estarmos sozinhos nele – são questões naturais que se originam da nossa própria capacidade de indagação – tão própria da ciência… – Houve uma época, em que minha dedicação à física era total, especialmente ao estudo dos “neutrinos“, hoje famosos, mas naquele tempo eram novidade. E é lógico que – já aí… eu me colocava questões de “natureza filosófica”…que o simples conhecimento objetivo não me permitia responder. 

Tal aproximação entre filosofia e ciência… acontece intensamente nas                            áreas de fronteira, mas tais questionamentos podem surgir em qualquer                          campo de investigação; mesmo da atividade humana, em termos gerais.

E como se dá – a seu ver… a conciliação da intuição, e                                                         criatividade com a ciência?…Ela é realmente possível?

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Sem dúvida, é possível e necessário conciliar…’criação científica‘ – com racionalidade e objetividade. – Um conceito científico, considerado em uma teoria, não é isolado…mas sim, solidário a outros conceitos…e com eles formando um conjunto… cujas relações são mais abrangentes, que “puramente lógicas”. – A mudança científica se dá pela transformação do…”conjunto dos conceitos”…que então … fazem parte desse sistema.

A história da ciência deixa ver que tais movimentos não são casuais – tendo consistência interna, e uma razão…justificada posteriormente, ligada à exigência de objetividade. São movidos pela racionalidade, mas com uma importante subjetividade intrínseca… – Cada agente humano envolvido, tem reações únicas na formulação e resolução dos problemas;  o que resulta numa diversidade de ‘estilos científicos’… — O conhecimento então avança, graças a ampliações da própria racionalidade…muito mais que pela pura lógica; assim permitindo possibilidades inéditas de relacionar os elementos conceituais considerados.

É como se mudássemos as…regras do jogo – passamos a enxergar de forma racional, o  que antes era impensável, hipotético…ou pertencia de forma vaga ao campo ideológico.    As mudanças no entendimento do mundo, e na própria ciência, despertam a intuição racional, que pode ser concebida como uma ‘visão sintética’ intelectual dos cientistas daquela época… – em direção a novas possibilidades … que levam a novas descobertas.

Essa valorização da criatividade significa um reforço da figura do                                      gênio excêntrico… inigualável… tão presente na opinião comum? 

Na verdade, não. – Esse estereótipo do gênio é fruto de uma visão superficial da ciência. Claro, nem todos – mesmo os mais famosos e bem-sucedidos cientistas…eram criativos como Einstein e Poincaré. As descobertas estão ligadas também a outros fatores…como     o pioneirismo num campo…ou a momentos sociais bem aproveitados pelo pesquisador.

Precisamos tomar cuidado para não cair num certo ‘relativismo’… e ‘reducionismo’ sociológico a respeito do pensamento científico, mas ao mesmo tempo é inegável a importância dos fatores culturais e sociais a cada época. A ciência do século 21 não        teria o aspecto que tem, não fosse a sua ‘organização social‘ específica. A pesquisa          está inserida na…”história social”…não faz sentido separar o homem da sociedade.

Em seu trabalho…o senhor já explorou muito as ideias de Einstein e Poincaré a respeito da criatividade, do estilo científico e do papel da invenção na ciência. Fazendo um paralelo com os dias atuais, qual a função da criatividade e da invenção na ciência contemporânea? 

Em seu tempo, Henri Poincaré e Albert Einstein não só disputaram a paternidade da Teoria da Relatividade, como também se dedicaram a pensar sobre o papel da intuição e da criatividade na ciência e no processo de descoberta. (fotos: Wikimedia Commons)

Em seu tempo, Henri Poincaré e Albert Einstein não só disputaram a paternidade da Teoria da Relatividade, como também se dedicaram a pensar sobre o papel da intuição e da criatividade na ciência e no processo de descoberta. (Wikimedia Commons)

A grande dificuldade, para responder essa pergunta está no ‘formato’ que a pesquisa científica tomou, a partir da 2ª metade do século 20. – No tipo de ciência que temos hoje em dia – o trabalho é coletivo… e, as experiências são de alta tecnologia…tanto em física…quanto química…astrobiologia, ou neurociência. — Nessa mobilização de pesquisadores…instituições…recursos…e equipamentos…parece difícil…encontrar originalidade em prestações individuais. Porém, o conhecimento vindo desse tipo  atual de pesquisa…mantém-se o mesmo.

São representados como formas simbólicas organizadas racionalmente; como conceitos e teorias…que são inteligíveis, não para um coletivo, mas para sujeitos individuais. Ou seja, podemos pensar que a… – “produção de ideias“… – também continua a ser individual.  Não é o meio coletivo e sua tecnologia que as gera…mas o trabalho mental individual dos agentes, que se dá de modo variado…com mais ou menos originalidade e criatividade… e, certamente, com um ritmo mais intenso de intercâmbio de “ideias“…e “assimilações“.

Mas há, sem dúvida, o impacto do trabalho coletivo… 

Sim, e há – eventualmente…o reverso da medalha, que seria a eliminação de ideias menos atraentes pela maioria – direções de pesquisas que são, ao menos provisoriamente, postas de lado… – Num regime mais individual… essas ideias teriam mais tempo para maturação.

O risco aqui é que certo conformismo leve a privilegiar exageradamente uma das direções possíveis…Isso é constatado, por exemplo, na procura de ‘teorias unificadas‘…da ‘física de partículas’. – Esse, sem dúvida, é um assunto complexo… que merece estudo adequado.

Nesse contexto… a filosofia da ciência tem dedicado a                                                            atenção que deveria ao “processo criativo” na ciência?

De forma predominante…desde a segunda metade do século 20…a “filosofia da ciência” se  desinteressou do ‘processo criativo‘ do pensamento científico…e o rumo atual da pesquisa socializada não vai ajudar muito a retomar esse tema. – Mas acredito que pensadores com ideias originais mais sensíveis a sua naturezae à forma como este é capaz de reinventar o mundo, incorporado à cultura humana, continuarão a contribuir com reflexões nessa área, assim como fizeram Poincaré e Einstein, a seu tempo…E espero que filósofos da ciência se abram mais a essa dimensão, considerando a realidade da ciência – tal como se apresenta.

Além de físico e filósofo… o senhor já atuou como divulgador da ciência.                          Qual é o papel da divulgação…e educação científica na nossa sociedade?

Como disse, mais do que nunca…a ciência impacta – diretamente…a cultura, a tecnologia, e a sociedade e, isso não pode ser ignorado. A educação, e a comunicação científica, são fundamentais para que possamos problematizar os avanços atuais. Os cientistas, filósofos, historiadores… e sociólogos da ciência, precisam promover essa reflexão – lúcida e crítica, sobre o conhecimento… ‘Essa é uma responsabilidade de todos nós‘. – Embora na ciência contemporânea…o trabalho coletivo se destaque…com a enorme mobilização de recursos, instituições, pesquisadores e equipamentos, a produção de ideias continua individual… e, permeada por maior ou menor originalidade e criatividade. Outra questão importante…é, que a divulgação científica nem sempre é bem feita. Se o objetivo é apenas ‘maravilhar’ o público, isso…não necessariamente, aproxima a ciência de suas vidas…É preciso que seja uma ‘divulgação crítica’…que se indague, e estimule a curiosidade, ensinando os porquês das coisas… desfazendo a imagem dogmática da ciência tradicional.

Outro aspecto que precisa ser problematizado e abordado é que ciência,                                e tecnologia, no mundo atual, estão integradas num sistema econômico                                e social específico… o que… – por certo… – tem as suas “consequências”.

De fato… alguns dos mercados mais lucrativos do mundo,                                                      hoje se envolvem diretamente com produtos tecnológicos.

Sem dúvida. – Primeiro temos que considerar que o acesso à tecnologia ainda é regido por fatores econômicos, e a tecnologia não é para todos… Além disso, vamos pensar nas regras que orientam esse mercado, nas motivações que ensejam o surgimento de novos produtos: será que elas se baseiam no esforço pelo avanço da ciência – ou no lucro…na concorrência selvagem, responsável por muitos de nossos problemas atuais?

O ‘conhecimento científico’ está centrado na racionalidade…visando à objetividade; por isso tem vocação à universalidade, podendo a princípio ser entendido por qualquer um.  As próximas gerações dependem disso…e impedir tal fato é um crime à humanidade. O conhecimento sobre a natureza nos dá o poder de transformá-la – mas…como orientar esse poder para o bem da humanidade, e não para o benefício apenas de uma minoria? Essa é, sem dúvida, uma relevante questão atual, de enorme importância social e ética.

Marcelo Garcia, Ciência Hoje On-line (11/12/2013)                                                  *************(texto complementar)**************

O pensamento pré-socrático oferece momentos que devem ser apreciados, como um dos pontos culminantes da História da Filosofia…Longe de ser empalidecido sob o epíteto de precursor, encontramos em sua fragmentada obra, os fundamentos que determinaram o próprio curso do pensamento ocidental. – A despeito das dificuldades e desvantagens de toda ordem material … como ignorar a densidade do pensamento de um Parmênides, ou de um Heráclito?… como permanecer alheio à profundidade, que se esconde sob o único fragmento conhecido de Anaximandro, o qual pode ser considerado, o mais antigo texto filosófico ocidental?… Como então duvidar da fundamental importância dos fragmentos que vieram até nós, que ao contrário de distantes e estranhos, conservam sua atualidade pela sinuosa e ingrata memória humana. Gerd Bornheim – ‘Os Filósofos Pré-Socráticos’  **********************************************************************************

salamandra e o universo“Filosofia da ciência”                              Não apenas se usa ‘filosofia’… para pensar sobre ciência, como se utilizam resultados científicos … para pensar sobre “filosofia”. 

É a área da filosofia, que pergunta sobre ciência…de quais ideias parte, o método que utiliza…fundamentos e implicações.  Apesar destes problemas gerais… muito    se escreveu sobre ‘ciências particulares’, como física e biologia…contudo, não há uma determinada ciência, que se inclua    no estudo da… “filosofia da ciência“.      Na verdade, todas elas já foram objetos    de estudos filosóficos — tanto “ciências naturais”…biologia… química… e física; “formais”… – como matemática, lógica,      e teoria de sistemas…”sociais“…do tipo antropologia e economia; e “aplicadas” (agronomia, arquitetura, engenharia…)

Historicamente já na Grécia Antiga, Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), por exemplo, escreveu sobre a origem da vida; afirmando a possibilidade dela existir, a partir de algo ‘inanimado’. A teoria da “abiogênese” (“geração espontânea”) que ele defendia…perdurou por séculos. Além da “origem da vida“, Aristóteles também se preocupou em elaborar uma maneira de estudar as espécies… – sendo ele o 1º a propor uma divisão do reino animal em categorias.

No decorrer da história – uma das figura mais importante para a filosofia da ciência é Francis Bacon (1561-1626) filósofo responsável pelo método indutivo (base da ciência moderna). A indução, método de, a partir de ‘fatos particulares’ chegar a conclusões universais, já existia, mas é Bacon o responsável por seu aprimoramento e divulgação.

Após Bacon, muito se pensou e escreveu sobre ciência… especialmente com avanços e descobertas dos séculos seguintes … René Descartes desenvolveu seu próprio método,  além das contribuições/discussões de Galileu Galilei, Isaac Newton, Gottfried Leibniz        e outros. Deste aumento considerável de pensadores…inseridos no campo da filosofia        da ciência, escolhemos… Hume, e Popper – para comentar suas importantes ideias.

David Hume (1711-1776) – a partir do pensamento de John Locke (1632-1704), criticou fortemente as bases da ciência e filosofia, levando o empirismo, isto é, a ideia de que todo nosso conhecimento tem origem na experiência (5 sentidos), às últimas consequências. Para ele, ocorrendo o nosso saber após a experiência, não podemos deduzir eventos futuros. E sendo assim não há nada garantindo que, as leis do universo hoje, serão as mesmas amanhã. Por mais que, há milênios, o Homem observe o Sol aparecer todos os dias; nada garante o seu aparecimento amanhã…e é justamente por isso, que a ciência não pode tomar suas próprias conclusões… como se fossem… “verdades absolutas”.

Já no século XX…o filósofo Karl Popper (1902-1994) criticou a forma de fazer ciência a partir da indução…método defendido por Bacon. Segundo Popper o ‘método indutivo’ não garante a validade de suas conclusões…Afirmou isso, pois não é possível ter acesso      a todos fatos particulares… para ser possível chegar à suas conclusões… – Um cientista pode observar cisnes durante 20 anos, e perceber que eles são brancos… mas não pode concluir que “todos” os cisnes são brancos. Se ele concluir isto…bastará a existência de apenas um cisne negro para invalidar sua tese.

Com isto, Popper defende que o papel da ciência é falsear suas próprias conclusões, pelo “método dedutivo”…partindo de “conclusões universais”…para a “verificação particular”  ao testar se estas conclusões são verdadeiras — através da experimentação. (texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Filosofia como didática para uma Ciência evolutiva

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