A Importância da Filosofia no Ensino das Ciências Naturais

‘Qualquer filosofia superior, na qual não continuem a existir as realidades do plano que ela pretende ultrapassar…é uma impostura’ (Louis Pauwels)

A importância da filosofia para o ensino de ciências tem sido há muito negligenciada. Muitas discussões de pensadores como… Popper, Kuhn, Lakatos, e Feyerabend      podem ser utilizadas para a construção de modelos pedagógicos, que rompam com o tradicional caráter linear e atemporal do ensino… substituindo-o por uma visão mais dinâmica do processo de aprendizagem.

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“O conhecimento é uma aventura em aberto… Tudo aquilo que saberemos amanhã…é algo que desconhecemos hoje; e esse algo pode mudar as verdades de ontem” …(Popper)

O filósofo Karl Popper (1902-1994), por exemplo, via a imaginação como o ‘princípio motor‘… da ciência. Para ele…’hipóteses’ são formuladas para serem testadas…Se estas forem ineficazes, outras serão criadas; que, por sua vez…sofrerão novos testes… para que, num processo contínuo de crescimento do “poder explanatório” das teorias – as aproxime…cada vez mais, de uma verdadeira “realidade”.

Assim, a ciência é essencialmente transitória, pois num dado momento, a melhor teoria é aquela que mais bem suporta as ‘tentativas de refutação’E, dessa forma, o pensamento científico evolui – numa relação intrínseca entre ‘hipóteses’, ‘confirmações’…e ‘refutações’.

Para Popper, apenas hipóteses que possam ser ‘falseadas são de fato científicas. Nesse sentido – a ciência avança não pela comprovação de sentenças básicas… mas pela rejeição delas – o que exige a inferência de novas hipóteses… – Contrariando a linha positivista da indução, Popper afirma que o pensamento científico se dá por hipóteses, experimentos…e deduções; onde todo experimento/observação é influenciado por hipóteses pré-existentes.

“Não háindução– pois nunca argumentamos                                      passando diretamente dos fatos para a teoria”.

Uma perspectiva dinâmica das ‘teorias transitórias

O húngaro Imre Lakatos (1922-1974) por sua vez propôs uma reinterpretação de Popper por meio de um ‘falseacionismo sofisticado’. Para Lakatos, as hipóteses são científicas se puderem ser falseadas…não por um único experimento, mas por um corpo de ideias que possa substituir a hipótese original.

Esse ‘programa de pesquisa’…termo criado por Lakatos,                       engloba ‘teorias‘ … ‘experimentos‘ … e, a ‘observação‘.

O austríaco Paul Feyerabend (1924-1994) defendia que o desenvolvimento das ciências dava-se por um ‘processo dinâmico, baseado no não-absolutismo, e não-uniformidade das teorias…’quanto mais teorias, melhor‘. Ele considerava a ciência um empreendimento anárquico que não deveria seguir princípios fixos ou metodologias específicas. — Para Feyerabend, ‘vale tudo’ na investigação científica.

http://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Kuhn

Já o norte-americano… Thomas Kuhn (1922-1996), no livro A estrutura das revoluções científicas’, baseou-se na história das ciências físicas, para definir que…o ‘padrão de desenvolvimento’ da ciência fundamenta-se na mudança de ‘paradigmas’, por meio de ‘revoluções’.

Paradigma  —  conjunto de hipóteses aceitas pela comunidade científica, que fornecem…por um tempo, problemas e soluções às questões gerais levantadas.

Para Kuhn, os cientistas passam grande parte do tempo refinando os paradigmas aceitos. Tais períodos de ciência dita ‘normal’ são pontuados por ‘explosões revolucionárias, em que o ‘consenso paradigmático é contestado…e substituído por um novo conjunto de hipóteses. Dessa maneira a imagem de realizações científicas acabadas, desvinculadas de um ‘contexto histórico’ – compromete a compreensão de seu processo de construção.

Note-se aqui que a “transitoriedadedas teorias científicas não é discutida no ensino de ciências nos níveis fundamental e médio…e, por vezes, sequer no superior. Há professores que tendem a tratar a ciência como um – conjunto de invenções e descobertas individuais, fixas e herméticas…visão esta reforçada por parte dos livros didáticos e pela grande mídia, que se limitam a expor ideias centrais teóricas e suas aplicações imediatas sem considerar o processo subjacente à construção dessas hipóteses.

Com efeito, no ensino de ciências, seria benéfica a adoção de uma ‘perspectiva dinâmica, baseada na ideia de ‘teorias transitórias…Essa visão contrapõe-se à ‘linearidade’, e à falta de contextualização histórica encontradas nas escolas de nível médio e fundamental, podendo ser ferramenta útil para a formação crítica do aluno… – através de sua ‘reflexão’.

O método científico

A filosofia da ciência…em especial a ‘perspectiva popperiana’, pode servir como guia para o processo de aprendizagem em diferentes níveis, ao aproximar o aluno do processo construtivo da ciência, expondo assim uma concepção própria do ‘mundo natural’, e uma noção básica dos princípios científicos…

Mostrando que a ciência não é – apenas, o reflexo de sensações imediatas sobre o mundo…mas uma fusão destas às hipóteses e teorias, construídas para tentar  explicar a realidade… – para além do que nos é dado perceber pelos sentidos físicos.

Assim a ciência procura se aproximar da verdade, dentro de um “ponto-de-vista” de que existe uma realidade subjacente‘, sem propor que seja ela a própria verdade (definitiva)…Pois, quando uma teoria científica for considerada absolutamente verdadeira; no sentido de   não poder ser questionada, ou falseada…por outras hipóteses ou evidências adicionais,   ela deixa de fazer parte do domínio da ciência.

A ciência deve ser vista, portanto, como uma atividade passível de erros… fundamentais na construção do conhecimento… desempenhada por pesquisadores atuantes – em uma comunidade científica que faz parte do complexo de relações…e interações da sociedade.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Maur%C3%ADcio_Tragtenberg

“O professor é dono de um saber inacabado, e o aluno, de uma ignorância transitória”

Com efeito – a desmistificação do cientista também recairá sobre o professor…a partir   do momento em que seu ‘campo de estudo’ for sujeito a mudanças críticas…Cientistas não vivem em ‘torres de marfim‘, isolados do mundo externo.

A prática diária da atividade científica tem suas idiossincrasias…mas não se distancia tanto de outros ramos do conhecimento… Considerar o “contexto histórico” permite definir a ‘prática científica’, como a busca pela compreensão da natureza através da solução de problemas… e pela geração de tecnologias dentro de um contexto social.

Ascensão e queda do positivismo

positivismoainda presente na prática pedagógica, desconsidera o aluno como sujeito da ‘ação científica’…o transformando em simples receptor passivo do produto final dessa atividade. Tratar a ciência como ‘verdade absoluta‘ – resultado do trabalho de cientistas geniais, desestimula e distancia o aluno do ensino de ciências…por sua própria natureza.

Uma possível complicação desse tipo de abordagem, está no fato do professor se arriscar   a encenar um monólogo, ao propor a trocapor parte dos alunos – da certeza do senso comum, pela ‘incerteza científica’. Nesse caso, o resultado poderia ser um aumento ainda maior do desinteresse do estudante em relação à ciência… 

Porém…é importante levar em conta também esse risco – mesmo que ele signifique um julgamento negativo, a priori – por parte dos alunos, das qualidades e potencialidades     da metodologia científica.

A evolução da ‘teoria da evolução’

‘Teorias científicas’ não deveriam estar dissociadas do ambiente em que foram criadas!… – e, isso independe do modo como surgiram…se através de insights, sonhos, estudo ou trabalho árduo. Um ótimo exemplo é a ‘teoria da evolução’.

Tida como … ‘princípio unificador’ da biologia, é quase sempre considerada pela grande mídia – ou livros didáticos – como produto exclusivo da mente brilhante do naturalista inglês Charles Darwin, desconsiderando seus inúmeros predecessores… e as influências que construíram o ‘arcabouço’ — que tornou possível a delimitação desse programa de pesquisa tão abrangente.

Quando ateoria evolutiva’ for exposta, vale a pena mostrar o histórico da sua construção, debatendo as questões levantadas – e… principalmente, os erros cometidos (mesmo, os do próprio Darwin!) da antiguidade grega, aos tempos atuais…bem como suas implicações.

Um dos maiores exemplos de figura histórica negligenciada é do francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), que teve uma importância capital –   na ‘teoria evolucionista’apesar de suas hipóteses errôneas a cerca das  ideias de ‘uso e desuso’…e ‘herança   dos caracteres adquiridos’… que na verdade… referiam-se a Aristóteles; bem aceitas por cientistas da época.

Poucos livros didáticos mostram Lamarck como um pioneiro na crítica ao fixismona biologia… – tendo enfatizado o tempo no desenvolvimento das espécies em seus trabalhos… – hipótese posteriormente consolidada.   

A teoria lamarckista condizia com uma das correntes filosóficas predominantes na Europa dos séculos XVII/XIX… para a qual a natureza vivia em ‘equilíbrio harmônico’. Sendo assim…para  Lamarck, a única maneira de manutenção do equilíbrio do mundo natural cujas mudanças constantes eram perceptíveis seria a ocorrência de alterações, também nos organismos.

A ideia de que as espécies se transformavam no tempo — dando origem a espécies diferentes era diametralmente oposta à perspectiva essencialistasegundo a qual,           a tudo no mundo natural correspondia uma essência fixa ‘imutável‘… Além disso,   Lamarck cunhou o termo ‘biologia‘… – E… foi só a partir daí, que passaram a ser analisadas as características comuns a todos os ‘seres vivos’ … – permitindo assim,       que fossem estudados por uma ‘área da ciência’ … – especificamente voltada a eles.

Além de Lamarck, é necessário destacar o papel do naturalista britânico Alfred Wallace (1823-1913), também pai da “teoria evolutiva…seleção natural, mas – no geral… desconhecido do grande público.

Foi só a partir da publicação conjunta, em 1858…na edição da revista da real sociedade britânica, de um artigo de Wallace e outro de Darwin, que, de fato, o ‘evolucionismo‘ passou a ser discutido… – agora, baseado num ‘processo de seleção das variedades‘  que – por alguma forma… tivessem maior sucesso reprodutivo que outras.

O ‘Origem das espécies’ de Darwin, com ‘ecos‘ do trabalho de Wallace, seria publicado no ano seguinte.

O ‘pensamento evolutivo moderno’ também, deve muito a autores como Conde de Buffon, Erasmus,   Leopold von Buch – predecessores de Darwin, ou contemporâneos; e também a autores atuais, que desenvolveram as primitivas ‘ideias darwinianas’, ajudando a moldar o que conhecemos hoje como  Teoria da Evolução… – August Weissman, Francis Crick, Theodosius Dobzhansky, Richard Dawkins, Ernst Mayr, Willi Hennig, Alfred Wegener, León Croizat, Stephen Gould…James Watson … e mais uma série de outras figuras proeminentes nas ciências naturais no século XX e começo do XXI.

A didática necessária                                                                                                    

A ‘contextualização históricadas teorias científicas mostrará que os praticantes de ciência não são trabalhadores solitários – e sim… homens de seu tempo – inseridos num contexto social amplo… recebendo influências… e influenciando outros pesquisadores de sua época. Porém, para isto acontecer, a boa formação do professor é imprescindível…Ou seja, a aula não pode se ater apenas à superficialidade dos livros didáticos…devendo ser acrescida das discussões históricas e filosóficas pertinentes.

Para tanto, ao professor a leitura é fundamental, incluindo aí                           as obras originais… – e resumos… sobre os tópicos estudados.

Atualmente, há várias ferramentas disponíveis na internet, tais como blogs, revistas de divulgação online… portais com obras completas de autores consagrados em ciências e filosofia — assim como ‘sítios‘ com apresentações… exercícios… e documentários, que     podem ser importante fonte de informação para o docente – e também para os alunos.

Cabe assim, tratar a ciência como processo contínuo, não hermético, de afirmação…e refutação teórica, bem como rearranjos de hipóteses, na constante busca por evidências que estimulem no aluno reflexão e análise crítica, com criatividade e imaginação…. – assumindo que a ‘investigação científica’ não cessa com os resultados laboratoriais… mas… parte das hipóteses iniciais de trabalho para se desenvolver (caminho para um ensino associado à prática científica)

O estímulo à reflexão histórica e à crítica fundamentada … ao não aceitar, obrigatoriamente, tudo o que nos for imposto vai auxiliar na formação de cidadãos conscientes… capazes de avaliar problemas sob diversos pontos-de-vista.

Este ensaio foi publicado… originalmente, na revista Ciência Hoje de Nov. de 2004 (volume 35, número 210, páginas 59-61).  Charles Morphy D. Santos – julho/2008    ****************************(texto complementar)******************************

 A ciência criativa                                                                                                Físico/filósofo francês aborda discussão sobre o papel da criatividade e da intuição, orientadas pela racionalidade, na produção científica. Para Michel Paty, entender           o processo da ‘descoberta’ pode ser o maior desafio da filosofia da ciência. Para ele, invenção e intuição – guiadas pela ‘racionalidade’… fazem parte desse processo.

Como surge a descoberta científica? Qual a sua origem?…E qual o papel da ‘criatividade‘ nesse processo  — para o próprio avanço da ciência?

Tais indagações – que inquietam e instigam a ‘filosofia da ciência‘, por certo, não têm respostas fáceis ou definitivas… mas podem ajudar na definição de uma ‘trajetória’ da ciência durante os últimos séculos.

Para o físico, filósofo e historiador da ciência francês Michel Paty … emérito diretor de pesquisa do ‘Centre National de la Recherche Scientifique’ há na ciência lugar para a invenção e intuição, orientadas pela racionalidade.

Em palestra no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) o francês abordou, em um simpático português – cheio de sotaque, as mudanças no entendimento filosófico sobre a ciência nos últimos 200 anos. Recordou   também – as inovações da ciência…que em pleno século 19, afrouxaram os laços entre matemática e natureza – mostrando a distância entre experiência, e abstração teórica.

Naquela época, criações como a geometria não euclidiana, que não corresponde à ‘evidência’…e teorias físicas matematizadas e abstratas, em eletricidade e magnetismo, teriam tornado mais claro o papel da invenção na construção da ciência. Segundo Paty:

“Apesar disso, na segunda metade do século 20, a concepção da ciência continuava a se basear, de maneira dominante, nas ideias herdadas do empirismo lógico – a filosofia não estudava, em geral, o processo de descoberta, que ainda parecia dominado pela subjetividade…e alheio à racionalidade”.

Apesar dessa predominância… – Paty destacou que a aproximação entre criatividade e processo científico foi estimulada por grandes cientistas, e filósofos do século 20 — em especial Henri Poincaré e Albert Einstein, cujos trabalhos estudou ao longo da carreira.

“Ambos concebiam novas descobertas – relacionadas ao ‘conhecimento objetivo como fruto da capacidade da “invenção mental” baseada numa ‘intuição racional‘ que escapa às formas usuais do raciocínio lógico. Assim, mesmo que nem sempre seja possível ver as “linhas de raciocínio”, chega-se a um resultado racional”.

Nesse contexto, a ‘invenção‘ teria seu lugar assegurado na ciência fundamental. A ‘criatividade seria, sim – relacionada ao pensamento individual…mas orientada pela racionalidade que – por sua vez, não se identifica com a lógica… – pura e simples.  

Conforme Paty… A ‘criatividade’ é parte fundamental do processo de elaboração do saber científico; a ser considerada, tanto pela filosofia, como pela ‘história da ciência’.

Confira uma entrevista concedida à CH Online pelo físico e filósofo francês:

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CH Online:  O senhor é físico e filósofo, 2 áreas que buscam compreender o mundo. Há uma relação natural entre elas?

Paty:  Esses 2 campos sempre foram próximos. – Desde a Antiguidade, muitos físicos, que também eram filósofos, se debruçavam sobre ‘questões gerais‘ pelas 2 vias. – Foi só a partir do século 18 que essa separação começou a aparecer   de maneira mais nítida – aliás…no propósito de assegurar autonomia da ciência e da filosofia. – Mas, ela não é total.

Se tomarmos o exemplo da cosmologia contemporânea, é impossível negar as questões filosóficas que a área suscita. A constituição da matéria, a presença da vida no universo,     o surgimento de uma inteligência como a nossa nesse universo tão grande  e a dúvida sobre estarmos sozinhos nele – são questões naturais que se originam da nossa própria capacidade de indagação, tão própria da ciência.

Houve uma época em que me dediquei totalmente à física, especialmente ao estudo dos neutrinos, que hoje são famosos, mas naquele tempo eram novidade. E é lógico que eu me colocava questões de natureza filosófica — as quais o conhecimento objetivo não me permitia responder… 

Essa aproximação mais clara, entre filosofia e ciência, acontece intensamente nas áreas de fronteira, mas tais questionamentos           podem surgir em qualquer campo de investigação — mesmo da         atividade humana, em geral.

CH – E como se dá – a seu ver, a conciliação da intuição, e                                                         criatividade com a ciência?… – Ela é, realmente, possível?

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‘Você é livre no momento em que não busca, fora de si mesmo, alguém para resolver os seus problemas’ (Kant)

_ Sem dúvida é possível e necessário conciliar… ‘criação científica’ — com racionalidade…e objetividade. — Um conceito científico … considerado em uma teoria…não é isolado – mas sim, solidário a outros conceitos… e, com eles formando um conjunto  –  cujas relações são mais abrangentes  –  do que puramente lógicas.  

A mudança científica se dá pela transformação do conjunto dos conceitos que fazem parte desse sistema.

A ‘história da ciência’ deixa ver que tais movimentos não são casuais – têm consistência interna… têm uma razão – justificada posteriormente, ligada à exigência de objetividade. São movidos pela racionalidade – e, ao  mesmo tempo, têm uma importante subjetividade.

Cada agente humano envolvido tem reações únicas na formulação e resolução dos problemas, o que resulta numa diversidade de ‘estilos científicos’.

O conhecimento, então, avança graças a ampliações da própria racionalidade, muito mais do que pela pura lógicapermitindo possibilidades inéditas de relacionar os elementos conceituais considerados. É como se mudássemos as regras do jogo: passamos a enxergar de forma racional o que antes era impensável, hipotético – ou pertencia de forma vaga ao campo das ideologias.

As mudanças no entendimento do mundo…e na própria ciência, despertam a intuição racional, que pode ser concebida como uma visão sintética intelectual dos cientistas daquela época em direção a novas possibilidades, que levam a novas descobertas.

CH – Essa valorização da criatividade significa um reforço da figura do                             gênio excêntrico, especial, inigualável, tão presente na opinião comum? 

_ Na verdade, não. Esse estereótipo do gênio é fruto de uma visão superficial da ciência. Claro… nem todos – mesmo os mais famosos e bem-sucedidos cientistas eram criativos como Einstein e Poincaré. As descobertas estão ligadas também a outros fatores…como     o pioneirismo num campo…ou a momentos sociais bem aproveitados pelo pesquisador.

Precisamos tomar cuidado para não cair num certo ‘relativismo’…e ‘reducionismo’ sociológico a respeito do pensamento científico, mas também, é inegável a importância dos fatores culturais e sociais de         cada época. A ciência do século 21 não teria o aspecto que tem, não         fosse a sua organização social específica…A pesquisa está inserida             na história social … — não faz sentido separar homem e sociedade.

CH – Em seu trabalho, o senhor já explorou muito as ideias de Einstein e Poincaré a respeito da criatividade, do estilo científico e do papel da invenção na ciência. Fazendo um paralelo com os dias atuais, qual a função da criatividade e da invenção na ciência contemporânea? 

Em seu tempo, Henri Poincaré e Albert Einstein não só disputaram a paternidade da Teoria da Relatividade, como também se dedicaram a pensar sobre o papel da intuição e da criatividade na ciência e no processo de descoberta. (fotos: Wikimedia Commons)

Em seu tempo, Henri Poincaré e Albert Einstein não só disputaram a paternidade da Teoria da Relatividade, como também se dedicaram a pensar sobre o papel da intuição e da criatividade na ciência e no processo de descoberta. (Wikimedia Commons)

_ A grande dificuldade em responder essa pergunta está no ‘formato’ que a pesquisa científica tomou a partir da 2ª metade do século 20…

No tipo de ciência que temos hoje em dia, o trabalho é coletivo e as experiências são de alta tecnologia, tanto em física, quanto química, astrobiologia … ou neurociência.  

Nessa mobilização de pesquisadores… instituições…equipamentos e recursos, parece mais difícil ver originalidade em contribuições individuais. Porém, o conhecimento produzido por esse tipo de pesquisa,  não deixa de ter a mesma natureza de quando o trabalho científico era mais individual.

São representados como formas simbólicas organizadas racionalmente…como conceitos e teorias, que são inteligíveis – não para um coletivo, mas para sujeitos individuais. Ou seja, podemos pensar que a produção de ideias também continua a ser individual…

Não é o meio coletivo e sua tecnologia que as gera, mas o trabalho mental individual dos participantes. E isso acontece, de forma variada, com mais ou menos originalidade e criatividade; e, certamente, com um ritmo mais intenso de intercâmbio de ideias, e assimilações…  entre os pesquisadores.

CH – Mas há, sem dúvida, o impacto do trabalho coletivo… 

_ Sim, e há…eventualmente, o reverso da medalha, que seria a eliminação de ideias menos atraentes pela maioria – direções de pesquisas que são, ao menos provisoriamente, postas de lado. – Num regime mais individual, essas ideias teriam mais tempo para maturação.

O risco aqui é que certo conformismo leve a privilegiar, exageradamente, uma das direções possíveis. Isso é constatado, por exemplo, na procura de ‘teorias unificadas‘… da ‘física de partículas’… – Esse, sem dúvida, é um assunto complexo que merece estudo adequado.

CH – Nesse contexto, a filosofia da ciência tem dedicado                                                             a atenção que deveria… ao processo criativo na ciência?

_ De maneira predominante…desde a segunda metade do século 20… a filosofia da ciência se desinteressou do processo criativo do pensamento científico, e o rumo atual da pesquisa socializada não vai ajudar muito a retomar esse tema.

Mas, acredito que pensadores com ideias originais — mais sensíveis a respeito da natureza do pensamento científico, e à forma como ele é capaz de reinventar o mundo (incorporado à cultura humana) continuarão a contribuir com reflexões nessa área, assim como fizeram Poincaré e Einstein em seu tempo… E, espero que filósofos da ciência se abram mais para essa dimensão… — levando em conta a realidade da ciência — tal como ela se apresenta.

CH – Além de físico e filósofo, o senhor já atuou como divulgador da ciência.                       Qual é o papel da divulgação… e da educação científica na nossa sociedade?

_ Como disse, mais do que nunca a ciência impacta, diretamente…a cultura, a tecnologia, e a sociedade — e, isso não pode ser ignorado. A educação, e a comunicação científica, são fundamentais para que possamos problematizar os avanços atuais. Os cientistas, filósofos, historiadores… e sociólogos da ciência, precisam promover essa reflexão – lúcida e crítica, sobre o conhecimento…  Essa é uma responsabilidade de todos nós’.

Embora na ciência contemporânea o trabalho coletivo se destaque, com uma enorme mobilização de pesquisadores, instituições, equipamentos e recursos, a produção de ideias continua a ser individual e permeada por maior ou menor originalidade e criatividade. (foto: Cern)

Embora na ciência contemporânea o trabalho coletivo se destaque – com uma enorme mobilização de pesquisadores, instituições, equipamentos e recursos – a produção de ideias continua a ser individual, e permeada por maior ou menor originalidade e criatividade. (foto: CERN)

O conhecimento científico está centrado na racionalidade, visando à objetividade.   Por isso… tem vocação à universalidade, podendo, a princípio, ser entendido por qualquer um. As gerações que estão por vir dependem disso; a miséria, e outros fatores que impedem tal disseminação, são crimes contra a humanidade.

Uma outra questão importante…  –  é que a divulgação científica nem sempre é bem feita… Se o objetivo é apenas ‘maravilhar’ o público — isso — não necessariamente, aproxima a ciência de suas vidas…  —  É preciso que seja uma ‘divulgação crítica’, que se indague, e estimule a curiosidade, ensinando os porquês das coisas… desfazendo a imagem dogmática da ciência tradicional.

Outro aspecto que precisa ser problematizado e abordado é que a ciência, e a tecnologia no mundo atual, estão integradas num sistema econômico e social específico…o que tem suas consequências.

CH – De fato, alguns dos mercados mais lucrativos do mundo,                                               hoje — se envolvem, diretamente, com produtos tecnológicos… 

_ Sem dúvida. Primeiro temos que considerar que o acesso à tecnologia ainda é regido por fatores econômicos, e a tecnologia não é para todos. Além disso, vamos pensar nas regras que orientam esse mercado, nas motivações que ensejam o surgimento de novos produtos: será que elas se baseiam no esforço pelo avanço da ciência, ou no lucro, na concorrência selvagem, responsável por muitos de nossos problemas atuais?

O conhecimento sobre a natureza nos dá o poder de transformá-la; mas, como orientar esse poder para o bem da humanidade, e não para o benefício apenas de uma minoria? Essa é, sem dúvida, uma relevante questão atual, de enorme importância social e ética.

Marcelo Garcia, Ciência Hoje On-line (Publicado em 11/12/2013) 

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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