“Autorganização”…a Complexidade recursiva do “Caos”

A teoria do Caos determinístico’ prevê padrões ao levar em consideração todas as variáveis externas e interações internas, em um sistema aberto (não-linear) que,         via de regra, tende a infinito. Já um sistema linear tende a reduzir o número de variáveis, a fim de compelir um padrão que…de fato, não existe”. (Lara Vaz Tassi) 

Toda história da “teoria das organizações” (como aliás…toda a história das “ciências sociais”) está permeada…pela noção – de que … quaisquer modelos, só possam ser construídos – a partir de ‘premissas’… já validadas pela ciência natural…Isto se deve à busca por uma explicação única à totalidade dos fenômenos…Por exemplo,  Adam Smith imaginou uma mão natural invisível guiando o comércio e indústria;    de acordo com a lei, também natural, da “oferta e procura”…James Madison, por        sua vez – supunha…tal qual o equilíbrio gravitacional entre corpos celestes… um  democrático…”equilíbrio político“…que,  gerasse uma harmonia social intrínseca.

Desde Newton, a visão científica universalmente aceita, afirmava estar o Universo em equilíbrio (ainda que, equilíbrio dinâmico, ou seja – em movimento)…nem evoluindo,    nem involuindo – no qual … segundo Lavoisier  “nada se cria… tudo se transforma”. Acreditava-se também num encadeamento ‘causa-efeito’ estritamente determinista e linear, onde cada causa corresponderia – necessariamente…a um determinado efeito.

Tais ideias de equilíbrio e causalidade legitimavam-se mutuamente; acreditava-se haver uma ‘equivalência plena’ entre causas e efeitos.

Matematicamente falando – se, num dado instante do tempo, fossem, simultaneamente, invertidas as direções de todas as forças que caracterizam um dado movimento, o tempo ‘daria marcha-a-ré’, e as causas seriam reconstituídas a partir dos efeitos…Por exemplo, o móvel que desce um plano inclinado perde altitude… porém… adquire uma velocidade, que é justamente aquela…que lhe seria necessária – para retornar à sua altitude original.

E, um Universo no qual jamais surge qualquer força nova (ou seja,               onde nenhum corpo pode adquirir força sem que outro, na mesma         medida…  a tenha perdido)… — é… um ‘universo em equilíbrio‘.

Decorre daí a ideia de ‘Universo-Máquina‘…onde a totalidade dos fenômenos seria descrita…por leis matemáticas perfeitas e imutáveis.

Desse modo, era inevitável que também acabasse surgindo a ‘feliz’ ideia… de um ‘homem-máquina’  –  levada a cabo por Frederick Taylor, no início deste século,   a partir da… ciência!… Até que, afinal…    na segunda metade do século XIX…leis recém-descobertas da “termodinâmica”  permitiram a concepção de “máquinas” projetadas num “rendimento máximo”.

Eficiência” tornava-se a…’palavra da moda’… E assim, a doutrina científica das ‘leis fundamentais’ é então expressa nos conceitos tayloristas de “one best way” e “one best method“… com a fisiologia da época dando respaldo à ideia de uma eficiência humana inferida a partir de parâmetros de eficiência das máquinas…o que levou a técnicas que estabelecessem o perfil do ‘homem médio’…e, à seleção de mão-de-obra em função de    tais critérios – concebidos para funcionar como máquinas … minimizando a incerteza.

A palavra-chave explícita era, sem sombra de dúvida, ‘eficiência’,               mas, a palavra-chave implícita era ‘equilíbrio’… e, os objetivos               eram…’estabilidade’, ‘regularidade’, ‘confiabilidade’, e ‘precisão’.

Ora, os enfoques mecanicistas de organização só podem funcionar bem em condições nas quais máquinas funcionem bem – por exemplo…quando as mesmas tarefas precisam ser desempenhadas continuamente, ou quando se produz apenas produtos padronizados. Assim… uma ‘empresa-máquina’ – é projetada para atingir objetivos ‘pré-determinados’, apresentando – por isso… – dificuldades de adaptação a mudanças no ambiente externo.

‘De uma máquina espera-se que seja eficiente — não,                                           que seja criativa ou inovadora diante do imprevisto.’

Porém, ao longo do século XX, a ciência atualizou sua visão clássica, de uma realidade em permanente equilíbrio – para a visão de uma realidade sujeita a perturbações, sim!…mas, que tendia… naturalmente, a retornar ao equilíbrio. – Nessa nova etapa… a palavra-chaveeficiência foi substituída pela palavra-chave eficácia… – Não bastava mais fazer bem feito…era preciso agora que este “bem-feito“…fosse adequado às circunstâncias vigentes. Era preciso fazer a ‘coisa certa’…de modo ‘suficientemente certo’…e, enquanto ainda fosse tempo…de nada adiantando fazer certo a coisa errada; ou fazer a coisa certa tarde demais.

Reconhecia-se a importância de um meio ambiente  (mercado) instável e em permanente evolução, no qual organizações competem entre si…por recursos limitados numa ‘seleção natural’, que determina as outras 2 “palavras-chave” deste novo paradigma:  competitividade e sobrevivência. Desse modo, nada…provavelmente…tenha sido mais dramático, que o ‘darwinismo social‘…usado para dissolver  a compaixão… — afirmando serem os pobres — os ‘inadaptados’…na “seleção natural” do capitalismo.

Todavia, por outro lado, as organizações passam  a ser vistas como sistemas sujeitos a oscilações…as quais possam ser amortecidas…quando então, tais sistemas, naturalmente, retornassem ao equilíbrio. Nesse sentido…atributos como… ‘flexibilidade‘ e ‘criatividade‘…adquiriam mais importância… do que, aquela meramente padronizada “eficiência“.

Então, o modelo universalmente aceito passa a ser o de um sistema auto-regulado, onde os desvios são identificados por sinalizações de…’feedback‘ – capazes de serem compensados, corrigidos, atenuados ou neutralizados; sempre por meio de mudanças incrementais. Chega-se a tal modelo; supondo-se que as oscilações que se amplificam      com o tempo, conduzem o sistema ao colapso; sendo que, apenas sistemas capazes de manter-se estáveis, sobrevivem no tempo. – Surgem daí, 2 consequências formais… o ‘Desenvolvimento Organizacional‘, e a emergente…’Teoria da Contingência‘.

A principal proposição da primeira é a ‘mudança planejada‘…parte-se do princípio que inexiste um modelo ideal de organização aplicável a quaisquer condições…e que, portanto, as organizações devam adaptar-se a suas circunstâncias específicas, mas sempre de forma planejada. – Preconiza-se assim um ‘processo dirigido’, pelo qual decisões e ações (causa) levariam a uma adequada adaptação (efeito) ao ambiente… O ‘Contingencialismo‘, por sua vez…parte do pressuposto de que as organizações são moldadas por seus ambientes – porém, mesmo assim, também as considera capazes de determinar e dirigir sua evolução; desde que consigam, adequadamente, reconhecer as tendências de evolução do ambiente externo (‘causa’). – A partir daí… elas então também serão capazes de modificar-se para acompanhar tais mudanças… – ou seja… capazes de moldar seu próprio futuro (‘efeito’).

Os novos caminhos da ciência              “Nós…seres vivos, somos sistemas determinados em nossa estrutura”.   

Falamos até aqui de sistemas ‘ABERTOS’, ou seja, que trocam energia e informação com seus ambientes – e, que são por eles influenciados. – Porém, na década de 80, 2 biólogos chilenos, Humberto MaturanaFrancisco Varela com a “autopoiesis” revolucionaram a ciência, afirmando não ser a vida produzida por “condicionantes externos”; sendo produtora de si mesma.

Quando um ser vivo troca informações com seu ambiente, tais informações terão para o sistema um significado próprio – único – não necessariamente idêntico ao que tem para um observador externo ao sistema… Ou seja, os sistemas vivos trocam energia com seus ambientes (termodinamicamente abertos) mesmo sendo organizacionalmente fechados.  Mas, se são fechados, como se dá então, a adaptação ao ambiente externo?… – Por meio daquilo a que chamamos “auto-organização“… a constante produção e atualização de   sua própria organização, em congruência com mudanças ambientais…sempre buscando orientar esta “auto-organização” segundo premissas internamente (bem) determinadas.

Cada sistema vivo é…para si, o centro do Universo. – Assim…em última análise, a finalidade de um sistema vivo é a produção de sua identidade.

Para Maturana e Varela, a ideia clássica de que os seres vivos são sistemas plenamente abertos ao ambiente… decorre do esforço de se tentar entender tais sistemas – a partir do nosso ponto de vista, como observadores externos que somos… Na verdade – o que caracteriza a vida como tal… – é justamente sua ‘auto-suficiência organizacional‘.      A ‘autopoiesis‘ afirma que o sistema nervoso não processa informações do ambiente, muito menos constrói representações deste ambiente em sua memória…mas sim, cria referências do ambiente, atribuindo ‘padrões de comportamento’ como uma forma de expressar sua própria lógica interna de organização. Assim o sistema tentará interagir      com o ambiente externo – sempre de acordo com uma lógica que priorize a afirmação      de sua identidade; ainda que para isto deva estar permanentemente atualizando-a.

Autopoiese ou ‘autopoiesis‘ (do grego auto…”próprio” — poiesis…”criação”) … é um termo cunhado na década de 1970 pelos biólogos e filósofos chilenos…Francisco Varela   e Humberto Maturana para designar a capacidade dos seres vivos de produzirem, a si próprios… Dessa forma – um ser vivo é um sistema autopoiético – caracterizado como uma ‘rede fechada de processos produtivos’, em que as moléculas formadas, bem como suas interações, geram a mesma rede molecular que as produziu…Assim, um sistema vivo, mantém-se autônomo… se autorregulando e autorreproduzindo, mesmo numa constante interação circular recursiva com o meio… o qual – somente desencadeia no ser vivo, mudanças solicitadas por sua própria estrutura. A adaptação do ‘ser vivo’ ao seu meio,  e conservação da autopoiese, são condições sistêmicas à vida. (‘Autopoiese’) 

Teoria da Complexidade                                                                                              “Dominar o caos que se é… – obrigar seu próprio caos a tornar-se forma;                           tornar-se necessidade na forma…tornar-se lógica simples… – inequívoca,                           matemática… – tornar-se lei… – tal é a grande ambição…” (F. Nietzsche)

As visões clássicas a respeito da desordem foram todas depreciativas … pois a ciência esteve sempre orientada…à descoberta de certezas… Todo conhecimento, reduzia-se à ordem e toda aleatoriedade seria apenas aparência, fruto de nossa ignorância… – a ser necessariamente dirimida – em algum momento futuro… — No entanto, o que as ‘teorias da Complexidade‘ agora estão fazendo – em essência…é demonstrar que tudo no Universo é feito, tanto por ordem, quanto por desordem – cabendo à ciência aceitar a incerteza, como parte desse jogo.

Como ilustração, destaca-se a importante  vertente de estudo de Henri Atlan, com seu “princípio da complexidade por auto-organização em ruído“…(desordem, incerteza, instabilidade e aleatoriedade).

Ele descreve… “seres vivos”… como sistemas dotados de grande complexidade, fruto da riqueza de interações entre suas partes constituintes … descrevendo tais sistemas como capazes não apenas de resistir à perturbações externas, mas também tirar partido delas para redefinir seus próprios ‘modos de organização’ (sendo esta a essência do ‘processo evolutivo’). O ruído segue exercendo seu tradicional “papel destrutivo” (…capaz até…de inviabilizar o funcionamento do sistema), mas, ao mesmo tempo, adquire um potencial positivo – ao permitir a este sistema apreender o movimento da realidade… – o que lhe possibilita a “auto-reorganização“, e assim adquirir uma complexidade ainda maior.

O ‘indeterminismo’ como paradigma                                                                                 O objetivo último do conhecimento não deve ser o de desvendar todos segredos                 do mundo – mas sim… propor-se a dialogar com este mundo e suas incertezas.               

Durante a Idade Média…as “visões de mundo predominantes excluíam qualquer ideia de mudança, sendo as sociedades da época tidas como estáticas e invariantes no tempo. Com o fim desta era – o advento da mudança na vida dos homens (mudança econômica, social, política, cultural, científica, tecnológica) levou à busca por novas visões de mundo… que a explicassem; sendo exatamente isto que a física clássica, através da dinâmica newtoniana, logrou fazer. – Por meio da ‘linguagem matemática’…e noções como ‘espaço’, ‘trajetória’ e ‘forças’ (expressas por ‘vetores’) a mudança (percebida na qualidade de movimento) pôde ser descrita, mensurada, modelada…e sobretudo prevista – em termos de “causa e efeito”.

A ‘ideia determinista‘de um Universo regido por ‘leis matemáticas invariantes‘ assegurava previsão dos efeitos a partir do conhecimento das causas. Eventuais oscilações nas condições iniciais, presentes a toda mensuração física, não invalidavam relações causais matematicamente expressas, pois os efeitos correspondentes incorporavam tais oscilações.

E assim fenômenos naturais começam a ser modelados, um a um; ou seja, reduzidos à ‘modelagem matemática’…Mesmo diante de fenômenos um pouco mais complexos (como ‘dinâmica dos fluidos’)…onde por inúmeras vezes a ciência obteve infortúnio, ainda assim tais insuficiências foram atribuídas ao ‘imperfeito’, e ‘incompleto’ conhecimento da época.

Porém, em 1962, ao modelar matematicamente um…’fenômeno meteorológico’…extremamente complexo, Edward Lorenz notou que … ínfimas alterações em suas condições iniciais impediam qualquer previsibilidade, resultando em efeitos, não mais só…quantitativamente diversos…mas, qualitativamente distintos. Daí, surgindo então  a metáfora: “O bater das asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear tornados no Texas”.

(A meteorologia, bem como inúmeros outros fenômenos naturais…é um ‘sistema não-linear’)

Surgia assim… uma ‘3ª via’… entre o determinismo dos ‘sistemas lineares‘              (onde mudanças nos estímulos levam a mudanças proporcionais nas respostas),                   e o indeterminismo da aleatoriedade (‘caos’)…meio-termo entre determinismo                    e ‘acaso‘ – diálogo entre ‘ordem’ e ‘desordem’… onde, o domínio dos resultados      possíveis revela “padrões recorrentes” (fractalidade)…e, sistemas de natureza        distinta apresentam “propriedades universais” (criticalidade); ou ainda, onde                    a “dimensão fractal do sistema… permite a percepção qualitativa do fenômeno (transcendentalidade)…e, até certo ponto (“horizonte temporal”)… sistemas        exibem comportamento bastante “previsível”…só tornando-se “imprevisíveisa          partir de uma… “quebra de simetria” – verificada em um “ponto de bifurcação”.

A ordem no Caos                                                                                                                          “O emprego do termo ‘caos’, tradicionalmente associado à desordem,                                    é…na verdade, traiçoeiro. Caos – em ciência, não é desordem…mas,                                uma ordem… – ‘mascarada’… – de aleatoriedade.” (Edward Lorenz)

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O advento da Teoria do Caos  veio legitimar a desordem… e o acaso no ‘campo científico’. – A partir daí … pode-se prosseguir conceituando fenômenos como estritamente… “deterministas”,  mas reconhecendo estes, como    a minoria nos eventos naturais.

Assim como em biologia…desordem e instabilidade…podem originar transformações qualitativas no sistemacomo disse Atlan. Já Ilya Prigogine verificou que isto também ocorre em termos estritamente inorgânicos… – Ou seja… ele demonstrou que a matéria como um todo, e não somente organismos vivos é capaz de evoluir pela aprendizagem,    e superação criativa de limites. Sua teoria dasestruturas dissipativasé tida como o elo perdido que ‘re-une’ biologia à física e química. A exclusão dos compostos estritamente físico-químicos da categoria de seres vivos, a partir de agora, deve-se apenas a critérios convencionais, como os que definem ‘vida‘, pela ocorrência de células em reprodução.

Prigogine, estudando ‘sistemas químicos não lineares’, verificou que…sob condições instáveis, tais sistemas tornam-se capazes de subverter o ‘2º princípio termodinâmico’, que afirma que… os sistemas térmicos tendem – necessariamente… a dissipar energia, rumo a um estado de equilíbrio – (entropia sempre crescente). A partir de um certo limiar de…distanciamento do equilíbrio… – estes sistemas tornam-se capazes de importar “energia” e exportar “entropia”, sendo por isso denominados ‘dissipativos’.

Sob tais condições, o sistema torna-se susceptível a ‘flutuações’. Pequenas perturbações aleatórias podem ser rapidamente amplificadas – levando o sistema a uma ainda maior instabilidade, até um limite assim denominado ‘ponto de bifurcação‘… a partir do qual rompe-se a ‘estrutura do sistema’, numa situação chamada ‘quebra de simetria’.

Durante a fase de instabilidade o sistema ‘experimenta’ inúmeras variantes de futuros possíveis…antes de decidir-se por seu novo ‘patamar estável’ de complexidade. Todo o processo é…em suma, um processo de…”autorganização“…que resguarda o sistema        de ingressar no caminho sem volta da ‘entropia‘…isto é… da “inexorável decadência”.  Após o…ponto de bifurcação“…o comportamento do sistema torna-se errático por algum tempo, tendendo a estabilizar-se em novo equilíbrio, qualitativamente distinto      do original. O sistema agora apresenta novos modos de organização…mais complexos  estruturalmente (ele evoluiu). No entanto o mais notável no processo é ser impossível prever qual caminho evolutivo o sistema irá tomar…a partir do “ponto de bifurcação”.

Como tudo na natureza evolui… nada no Universo é passivo – a noção de ‘equilíbrio’ passa a ser entendida como um particular caso-limite… E o fim da causalidade linear, enquanto fundamento único, impõe o fim definitivo do sonho de explicar a ‘totalidade’    do Universo por leis fundamentais, invariantes e eternas. – Afastado do equilíbrio…a descrição de um ‘sistema não-linear’ deixa de ser única – tornando-se uma função de  sua atividade, a cada instante… – E, sendo assim, a ciência jamais poderá cumprir a missão a que se havia historicamente incumbido, qual seja, a de descobrir a verdade última do Universo…(pois sempre haverá uma posterior). ‘texto base’ (Ruben Bauer)  ^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

A origem da vida… “auto-organizada“… — em questão                                                    A existência não é contradição, mas sim complementaridade,                                                  e…síntese transcendental” (Louis Pauwels & Jacques Bergier)

a evolução do metabolismo

A questão da origem da vida é… sem dúvida, uma das questões centrais relacionadas à auto-organização e complexidade. Podemos ter dúvida sobre se a ordem pode emergir     da desordem…mas não há dúvida de que ‘seres‘…com um certo tipo de complexidade anteriormente inexistente, surgiram ao longo das eras geológicas. Todavia, não há um consenso sobre o mecanismo da origem da vida… – Em 1648, o médico belga Jan van Helmont defendeu que…‘toda vida tem origem química’No entanto, o químico Jöns Berzelius, em 1806, sugeriu uma distinção entre química inorgânica e orgânica, supondo que o fenômeno da vida envolveria uma ‘energia vital‘ proveniente de uma “base química” específica… – Esta distinção foi por terra… quando o alemão Friedrich Wöhler sintetizou o composto orgânico ureia…a partir de compostos inorgânicos.

Mais tarde (1862) Louis Pasteur refutou definitivamente a hipótese da ‘geração espontânea’…como fenômeno presente em nosso cotidiano – enquanto Matthias Schleiden (1863) salientava que as condições na Terra … quando a vida teria se originado… – deveriam ser outras…em relação à que conhecemos hoje… E Ernst                  Haeckel (1866) anunciava enfim…a ideia de uma ‘sopa pré-biótica‘…de onde  surgiriam os ‘microrganismos primitivos. Já no século XX (1913)…Walther Loeb sintetiza a glicina (o aminoácido mais simples)…a partir de uma mistura          gasosa de gás carbônico, amônia e água…Em 1924, o bioquímico Alexander Oparin lança a primeira teoria sobre a “origem da vida” (a partir de processos      químicos)…destacando que na ‘sopa orgânica primordial‘…géis em formato      esférico, precursores das células, teriam se formado espontaneamente, e formas complexas de ‘microrganismos’ teriam evoluído por meio da ‘seleção natural‘.

Por outro lado…em 1929, o bioquímico e geneticista John Haldane apresenta ideias semelhantes – mas… em oposição a Oparin, destaca o papel do “núcleo celular“, incluindo o vírus como uma forma intermediária…entre vida e matéria inorgânica. Porém, em 1954 negaria esta tese, sugerindo o “RNA” como “precursor da vida“.

A distinção entre as visões de Oparin e Haldane marca assim uma discussão que existe até hoje sobre a origem da vida – entre os que defendem um começo ‘metabólico‘; os que defendem o começo ‘genético‘…e, aqueles que defendem a ‘coevolução‘ entre os 2.  J. Bernal (1949) introduz a hipótese de que “formas primitivas de vida”…necessitando de um ambiente em condições de contorno mais rígidas, teriam se originado na argila. Em 1952, o químico Harold Urey, trabalhando em Chicago/EUA, desenvolve a teoria de que  a ‘atmosfera primordial da Terra‘ consistiria…basicamente…de metano e amônia.

Seu aluno Stanley Miller consegue, no ano seguinte, gerar aminoácidos em quantidades significativas – a partir de uma mistura de metano, amônia, água e descargas elétricas.

A noção de um começo genético é desenvolvida na década de 70 por Eigen e Schuster, com a teoria do ‘hiperciclo’… – que é considerada próxima à abordagem de Prigogine… (O início da vida teria surgido com ‘macromoléculas replicantes‘, sem que houvesse necessidade de um metabolismo muito elaborado)…A concepção de que teria havido um ‘mundo de RNA‘ antes do surgimento das formas conhecidas de vida…é defendida por Crick (1968) e Gilbert (1986). – Moléculas de RNA seriam ao mesmo tempo fenótipo e genótipoou seja…auto-replicantes e catalíticos (ideia estimulada pela descoberta    de que em organismos atuais, certas enzimas não são feitas de proteínas…mas de RNA.)

Mais recentemente… descobriu-se que o DNA pode atuar                             como enzima — e…que peptídeos podem se auto-replicar.

As concepções metabólicas baseiam-se na noção de que o RNA teria invadido e substituído um replicante mais rudimentar em estruturas metabólicas previamente existentes. – Cairns-Smith (1982) lançou esta ideia…sugerindo um começo…com ‘minerais, e sua cristalização… – De Duve (1991) defende um argumento parecido, descrevendo um mundo metabólico de tioéster, antes de surgir a ‘replicação (os “moldes“…de onde outras membranas seriam copiadas — surgiriam naturalmente.)            A seguir, Baltscheffsky (1993) sugere um ‘mundo de pirofosfato inorgânico‘,            fornecendo uma conversão de energia pré-biótica, que teria precedido o mundo      ‘ATP‘ (no qual vivemos). – Já Stuart Kauffman (1995), defende que o surgimento            da vida não depende de moldes (DNA, RNA ou polímeros semelhantes), mas se dá,            na própria catálise, e ‘combinatória química’…criando um modelo computacional            de autocatálise coletiva, com uma complexidade mínima, acima da qual o processo ocorreria espontaneamente. Até que, afinal, a ideia de ‘coevolução‘…foi proposta          por Wang (1975)…e Di Giulio (1997). – Dessa forma, simultaneamente… o “código genético” teria evoluído, junto com o “aparelho tradutor” (síntese de aminoácidos).

http://www.cei.unir.br/artigo14.html

Teoria biológica da ‘Autorganização’       

Dentre os autores que tratam do tema ‘autorganização’,  um dos mais conhecidos na Biologia é o francês Henri Atlan…autor do livro… – “Entre o Cristal e a Fumaça.  Este título se refere à posição intermediária, na qual os sistemas complexos se situam; entre a ordem simétrica de um cristal… – e a desordem imprevisível da fumaça.  Do lado da ordem do cristal, Atlan fala da repetição, da regularidade, e a redundância… – do lado da desordem da fumaça… – variedade…incerteza…e… complexidade. Haveria coexistência destes ingredientes opostos … em uma “organização dinâmica”…Nesta noção de ordem e desordem, o que nomeamos “definição epistêmica” de ordem seria o grau de conhecimento do ‘todo‘, que obtemos — do conhecimento … de uma de suas partes.

Divulgador do Princípio da ordem a partir do ruído”…proposto por von Foerster; Atlan destaca a constatação de que as máquinas naturais (ou seja…os organismos vivos) são resistentes aos efeitos destruidores do ruído. Opondo elementos de ‘determinação’ e ‘indeterminação’ … alguma dose de incerteza seria necessária – a partir de certo grau de complexidade – para permitir que o sistema se adaptasse a determinado ‘nível de ruído’.  De acordo com a sua…”teoria da autorganização“…a ordenação de um sistema seria definida pela dinâmica de variação da quantidade de informação…ao longo do tempo; 3 parâmetros definiriam o grau de ordenação…(i) a ordem repetitiva ou redundância; (ii)    a ordem por improbabilidade ou variedade; (iii) o parâmetro de confiança (‘reliability’), que exprimiria a inércia do sistema ante modificações. Para um sistema se autorganizar      a partir de uma evolução, inicialmente deve possuir enorme ‘redundância‘; ou seja…a informação nele contida deve se repetir…e, ao mesmo tempo, ter uma alta sensibilidade      às mudanças provocadas pelo ruído… Com efeito, à medida que este atua no sistema, a redundância é “aleatoriamente”…destruída – ampliando a sua ‘variedade‘…bem como      a “confiabilidade” do sistema em questão. (Henri Atlan não parece explicar como a confiabilidade aumentaria; mas certamente isto poderia ocorrer por seleção natural.)

Desta forma, o prefixo “auto” se justificaria na expressão “autorganização”…já que as alterações não surgiriam – de um programa pré-estabelecido… com vistas à organização do sistema, mas de um fenômeno aleatório…O que aumentaria o grau de organização do sistema seria portanto…o ruído. Mas, como isso aconteceria?… – Atlan vai acoplar esta pergunta a outra…igualmente problemática – ‘Qual é a origem última da informação?’

POLLOCK

Jackson Pollock – Eyes in the Heat – 1946

A proposta de Atlan é simples… Imagine uma fonte de comunicação e um receptor… ambos dentro de uma célula (ou de um organismo).  Suponha agora que a informação transmitida esteja, inicialmente… – sujeita a pouco ruído. Isto significa, que o estado do receptor é bem parecido…com o estado da fonte – há grande “informação mútua”; e grande “redundância” (o estado do emissor…se repete no receptor).

Considerando agora a presença de ruído neste canal…o montante de informação transmitida é reduzido. – Como consequência…os estados do receptor e do emissor, serão mais diversos, haverá mais variedade na ‘célula total’. Assim, se a célula como um todo (fonte e receptor) for classificada, para um ‘observador externo’, como “fonte global de informação…o ruído terá elevado a quantidade dessa “informação”  (aumentando também, com mais mensagens possíveis, a entropia dessa fonte global.) 

Atlan considera que este modelo encapsula um traço essencial da ‘autorganização‘. Apesar de não muito evidente a sua relevância, esta observação faz um pouco mais de sentido ao considerarmos a definição que Atlan nos dá a respeito de ‘complexidade‘:

Complexidade exprime a informação que nos falta a respeito de um sistema… É uma desordem aparente…onde há razões para supor uma ordem implícita…ou, onde não se conheça seu código’ (se distinguindo          de “complicação“…nº de etapas por descrever, ou criar um sistema)

Com esta definição de “Complexidade” (como a informação que nos falta, a respeito de     um sistema), fica mais fácil entender a importância que Atlan atribui ao seu modelo de ‘aumento de variedade através do ruído’…O ruído alteraria o sistema – sem que soubéssemos como, o que significaria aumento de ‘complexidade’… ou ‘organização‘.  Apesar de, aparentemente, as definições mais aceitas hoje em dia de ‘complexidade’ se enquadrem na definição de Atlan de ‘complicação‘, a bem da verdade necessitamos de medidas de organização ‘objetivas‘, isto é, não dependentes de um (único) observador.

‘Auto-Organização e Complexidade’  (Osvaldo Pessoa Jr.) — (texto base)  *************************************************************************

A ‘COMPLEXIDADE’ DOS SISTEMAS AUTO-ORGANIZADOS                                    “Os pontos vagueiam tão aleatoriamente, a configuração surge tão etereamente, que é difícil lembrar que a forma é um atrator. Não é apenas uma trajetória qualquer de um sistema dinâmico. É a trajetória para a qual convergem todas as outras trajetórias. É por isso que a escolha das condições iniciais deixa de ter importância.” (James Gleick)

ilya_prigogineIlya Prigogine (1917…2003) ganhou o “Nobel de Química”…em 1977 – por seu trabalho sobre…”Sistemas dissipativos”, “Complexidade”, e… “Irreversibilidade”, visto por muitos, como uma ponte entre as Ciências Naturais…e Ciências Sociais.  Sua formalização do conceito de…”auto-organização” serviu também…como um elo de ligação — entre a Teoria Geral de Sistemas…e, a… Teoria Termodinâmica.

Sistemas dissipativos são sistemas abertos, do ponto de vista termodinâmico; isto é, podem trocar energia e matéria com o meio ambiente em que estão imersos…e, no qual operam fora do “equilíbrio termodinâmico”… como, aliás… – a maioria dos sistemas na Natureza. Justamente devido às suas “inomogeneidades” – por não se encontrarem em equilíbrio, mas em constante troca de matéria/energia com sistemas vizinhos… é difícil definir – para tais sistemas termodinâmicos … sua entropia e temperatura – grandezas “globais” – definidas considerando o “corpo de estudo” … como um “todo homogêneo”. 

Irreversibilidade significa a impossibilidade de um sistema retornar ao seu estado inicial, junto com seu “entorno”. Geralmente é possível retornar o sistema… às custas de nova alteração em seu “meio ambiente” — o que implica numa “assimetria temporal do sistema, ou seja, numa ‘flecha do tempo‘. Em termodinâmica, encontra-se intimamente ligada à produção e aumento da ‘entropia‘, sendo uma característica de todos processos reais. As fontes de irreversibilidade são os fenômenos dissipativos, como o atrito e calor.

Como um sistema termodinâmico…até para poder ser tratado estatisticamente, deve ter, necessariamente, um enorme número de partes, uma mudança de estado em tal sistema como um todo, se faz muito complicada. Isto porque, apesar da reversibilidade de todas leis físicas…em escala microscópica…necessitaria de uma boa dose de energia para o ‘re-arranjo’ de todas as partes individuais…incluindo aí… dissipação de energia sob a forma de calor. – Todavia…tal energia dissipada é irrecuperável, tornando assim praticamente impossível trazer o sistema de volta à sua configuração inicial, sem uma reposição dessa energia faltante pelo meio em que está inserido. – Conforme demonstrado pela equação de Boltzmann, a ‘irreversibilidade‘ do sistema está associada à sua ‘complexidade‘.

“Complexidade auto-organizada”

Tal como demonstrado por Poincaré, em 1890 – antecipando à…”Teoria do Caos“, aumentar a complexidade de um sistema aumenta sua sensibilidade às “condições iniciais”; ou seja, pequenas perturbações no ‘estado inicial‘ do sistema, o levariam    a ‘estados finais‘ totalmente diferentes, tornando impossível predizer sua evolução, e tal estado final. Assim, ‘sistemas complexos‘ se caracterizariam como “sistemas caóticos”, por sua extrema sensibilidade às condições iniciais…e como “sistemas não-lineares“, pela não aplicação do princípio da superposição‘…impossibilitando ao comportamento    do sistema ser descrito como apenas a soma dos comportamentos de suas suas partes.

O “princípio da superposição“… importante propriedade de um sistema linear invariante no tempo, diz que…a saída de um sinal… – então formado pela combinação linear de diferentes sinais, equivale à mesma combinação aplicada aos sinais de saída, produzidos por cada um desses sinais iniciais.

Mesmo sendo todo processo natural ‘irreversível(tal como gases, cujo comportamento aleatório de suas moléculas só é bem descrito por uma ‘termodinâmica estatística‘), esses sistemas só demonstram uma complexidade desorganizada. ‘Sistemas complexos’ porém, referem-se não somente a sistemas com elevado nº de partes…e pouca interação entre si.

Há ‘sistemas complexos’ que mesmo não tendo um número muito grande de partes… – apresentam vínculos, e correlações não aleatórias tão fortes, que elevam sua interdependência ao  criar…”regimes de interação“…mais uniformes. Tais sistemas com efeito,  exibem certas propriedades, que são impossíveis de serem descritas… em termos…’exclusivos’…de suas partes.

Esta forma de “complexidade auto-referencial” – no sentido de que sua ordem interna é gerada a partir da interação de suas próprias partes…’emerge‘ do sistema como um todo, sem qualquer – “mão invisível”… dispensando explicações ‘teológicas‘… ou ‘teleológicas‘. Diz-se então — que tais sistemas possuem uma… “complexidade auto-organizada”.

Emergência é o processo formação de padrões em sistemas complexos, a partir de uma grande quantidade de elementos relativamente simples na interação…Tal conceito tem sido aplicado em Filosofia, Teoria de Sistemas, nas Ciências, e nas Artes. Vale enfatizar que, em geral, a propriedade…ou padrão de um sistema – não corresponde a nenhuma propriedade de qualquer elemento em particular, não sendo prevista…ou deduzida das interações individuais desses elementos. Ao contrário do que propunha Descartes, não      se entende o todo estudando suas partes “O todo é maior que a soma de suas partes”.

Não é o mero conjunto das partes que proporciona a…”emergência” – mas sim,                    sua inter-relação. Embora similares, os fenômenos de “emergência“, e “autoorganização” são distintos…podendo um – ocorrer sem o outro. (Texto base**************************(texto complementar)*************************** 

jardim-garrafa

Plantas que florescem em ambientes fechados    É totalmente possível, que plantas formem um ‘mini-ecossistema’ que… ‘cuida de si mesmo‘… E, pelo visto, esse é mesmo o caso do jardim lacrado do Sr Latimer”.

Será que isso é possível – tanto “florescimento” de vida vegetal em uma garrafa?…Por mais incrível que pareça, esse “jardim garrafa” é ainda mais incrível que parece; não tem sido aberto desde 1972 – David Latimer…80 anos … é o dono deste curioso “experimento“…que não tem tomado muito do seu tempo… – Mas… como essas plantas sobrevivem?…Seria só um truque de ‘montagem’?… – Para os especialistas…NÃO!

“Jardim garrafa”                                                                                                                          “O jardim fica em uma janela, para tomar um pouco                                                                    de luz solar… – As plantas crescem em direção à luz”

No domingo de Páscoa de 1960, o Sr. Latimer pensou que, por curiosidade, seria divertido começar um jardim garrafa. Então, em um garrafão globular de cerca de 37 litros, Latimer derramou um pouco de composto… e, cuidadosamente…colocou uma muda de plantas do gênero Tradescantia, usando um pedaço de arame. Na época, colocou só um pouco d’água, e apenas em 1972 deu outra “regada”. Desde então, o sistema tem prosperado, enchendo a garrafa com folhagem saudável… – Isto porque… de acordo com os cientistas… – o jardim garrafa cria seu próprio ecossistema…em miniatura. Apesar de ter sido cortado do mundo exterior… por ainda absorver luz, pode realizar fotossíntese; processo pelo qual as plantas convertem luz solar em energia…para crescer… – criando oxigênio… – e umedecendo o ar.

A umidade se acumula no interior da garrafa…e “chove” de volta na plantaAs folhas que apodrecem…caem na parte inferior da garrafa, criando o…’dióxido de carbono‘…necessário à…’fotossíntese‘…e, ‘nutrientes‘… – que as plantas reabsorvem através das suas raízes.

A garrafa está atualmente em exposição sob as escadas no corredor da casa do Sr Latimer em Cranleigh, Surrey (Inglaterra), no mesmo lugar que ocupou por 27 anos. – Segundo o ecológico apresentador de televisão Chris Beardshaw…  o ‘jardim garrafa’ é um grande exemplo da maneira pela qual as plantas são capazes de se reciclar… – e… mostra a razão pela qual a ‘NASA’ (e outras Agências…) estão tão interessada em levar plantas ao espaço.

Plantas operam como purificadores, tirando poluentes no ar. De modo que, assim uma estação espacial poderá se tornar auto-sustentável… – Um bom exemplo de, dadas as chances, quão pioneiras e persistentes as plantas são.

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“A evolução é o Caos, com retroalimentação”. (Joseph Ford)

Jardins garrafa‘ só precisam de luz  para sobreviver. Ela é absorvida nas folhas da planta pelas proteínas, que contêm “clorofila” (pigmento verde). Parte dessa energia — é armazenada como ‘ATP’ (trifosfato de adenosina) e o restante…é usado na remoção de elétrons a partir da água…absorvida do solo nas raízes das plantas. Estes elétrons tornam-se então “livres”…e são usados em reações químicas, na conversão…’dióxido de carbono’ em “carboidratos”… liberando oxigênio.

Este processo de fotossíntese é o oposto da respiração celular,                    que ocorre em outros organismos – incluindo humanos, onde            carboidratos contendo energia, reagem com oxigênio – para                          criar dióxido de carbono e água…liberando energia química.

Mas, o ecossistema também usa ‘respiração celular‘ para quebrar material em decomposição derramado pela própria planta no solo. – Nesta parte do processo, as bactérias no interior do solo da garrafa, absorvem oxigênio dos resíduos…liberando dióxido de carbono que a planta pode reutilizar…E à noite…quando não há luz solar         para conduzir a fotossíntese, a planta também usa a respiração celular para manter-           se viva… – quebrando os nutrientes armazenados… – durante o seu “metabolismo”.      Como o “jardim garrafa” é um ambiente fechado o ciclo de água também é um processo…’autocontido‘. — Ou seja, a água na garrafa é absorvida pelas raízes das  plantas, liberada para a atmosfera – por meio da…”transpiração”… – e condensada;            quando então… — o “ciclocomeça novamente. (texto base) (jan/2013) [original****************************************************************************  

Uma divisão de gotículas, pode explicar a origem da vida (jan/2017)            Pesquisadores descobriram que umas simples gotículas quimicamente ativas                          podem crescer … até o tamanho de células … – e se dividir espontaneamente,                      simulando o mecanismo do processo evolutivo das primeiras células vivas.

Ilya Prigogine

Na Alemanhaum grupo de físicos e biólogos encontrou um mecanismo capaz de permitir o desenvolvimento de gotículas líquidas‘…para células vivas na “sopa primordial” da Terra. Ramin Golestanian, físico teórico da…’Oxford University’ – considerou esse um grande feito, sugerindo que…“a fenomenologia geral da formação da vida – é muito mais simplesdo que se imagina”. A ‘questão central’ sobre a origem da vida é…como teriam surgido as 1ªs células…a partir dos precursores pré-bióticos. Quais foram esses precursores, apelidados de ‘protocélulas‘…e como eles ganharam vida? Proponentes da hipótese membrana inicial viram a necessidade de uma – ‘membrana de ácido graxo’ para que componentes químicos da vida incubassem “complexidade biológica”. Mas… – como uma membrana tão complexa conseguiria se“auto-replicar” e “proliferar”, permitindo que a evolução agisse sobre ela?

Em 1924, o bioquímico Alexander Oparin…quem primeiro propôs uma sopa quente e salgada como fonte primordial da vida imaginou que estas misteriosas protocélulas seriam ‘gotículas líquidas’, formando naturalmente recipientes sem membrana que concentrariam produtos químicos, promovendo assim…reações. — Nos últimos anos, descobriu-se que tais gotículas desempenham uma série de funções essenciais dentro        das células modernas – revivendo assim a especulação há muito esquecida de Oparin sobre seu papel na história evolutiva. Mas ninguém poderia explicar sua proliferação, crescendo e se dividindoe, dentro do processo, evoluindo para as primeiras células.        Até que agora; um novo trabalho de David Zwicker e colaboradores do Instituto Max Planck de Física de Sistemas Complexos, e de Biologia Genética, em Dresden, sugere            uma resposta. Ao estudarem a física de gotículas quimicamente ativas que reciclam produtos químicos dentro e fora do fluido circundante eles descobriram que essas gotículas tendem a crescer até o tamanho celular e se dividir – tal como células. Esse “comportamento ativo” – difere das tendências passivas e corriqueiras das “gotas de            óleo” na água – que se aglomeram em gotas cada vez maiores…sem nunca se dividir.

“Eureka!?…                                                                                                                                    Em um ensaio de 2012 sobre a vida de Oparin, e seu renomado livro The Origin of Life, Brangwynne e Hyman escreveram que as gotículas sobre as quais ele teorizou… “podem ainda estar bem vivas – preservadas dentro de nossas células – como moscas no âmbar”.

As descobertas, relatadas no mês passado na Nature Physics, pintam um possível quadro do início da vida explicando como as células se reproduziram…“Lógico que isso é a chave para se pensar sobre a evolução”…disse Zwicker — pesquisador da “Harvard University”. Já Luca Giomi, biofísico da Universidade de Leiden na Holanda, que estuda os possíveis mecanismos físicos por trás da origem da vida, disse que a nova proposta sendo muito promissora é bem mais simples do que outros mecanismos de divisão de protocélulas. No entanto, David Deamer, bioquímico da “Universidade da Califórnia”…em Santa Cruz,    e defensor de longa data da hipótese da…”membrana inicial”…argumenta que, embora o mecanismo recém-descoberto de ‘divisão de gotículas’ seja interessante sua relevância    à origem da vida ainda é obscura…Como observou ele: “O mecanismo está bem longe do complicado processo de múltiplas etapas — pelo qual as células modernas… se dividem”.

Será que gotículas em simples divisão podem ter evoluído para o “fervilhante zoológico” da vida moderna…de amebas a zebras? — Como um próximo passo experimentos estão em andamento para pesquisar o crescimento e a divisão destas gotículas através de polímeros sintéticos modelados a partir das gotículas encontradas em ‘células vivas’…Depois disso, os cientistas esperam observar as…’gotículas biológicas’…se dividindo da mesma maneira. Clifford Brangwynne, biofísico da ‘Princeton University’ identificou as 1ªs gotículas como minúsculos agregados líquidos de proteína e RNA — em células do vermeC. elegans, explicando que não seria surpreendente – se esses vestígios fossem da história evolutiva.

E Brangwynne acrescentou: “Assim como as mitocôndrias (organelas com seu próprio DNA) se originaram de primitivas bactérias que infectaram células – e desenvolveram uma relação simbiótica com elas, as fases líquidas condensadas que vemos nas células vivas podem refletir… de modo similar – um tipo de registro fóssil das forças motrizes físico-químicas… que contribuíram na formação celular. Este artigo revela os recursos    que as gotículas precisariam – para desempenhar uma função como a de protocélulas”.

As descobertas sobre as gotículas de Dresden começaram em 2009, ao Brangwynne e sua equipe desmistificaram a natureza dos pequenos pontos (‘grânulos P’) como células germinativas deC. elegans, que sofrem divisão em espermatozoides e óvulos. – Nesse processo de divisão observou-se que os grânulos P crescem, encolhem, e se movem nas células por difusão…A descoberta de que são “gotículas líquidas”, relatada na “Science”, gerou um verdadeiro frenesipois outras estruturas subcelulares também haviam sido identificadas como gotículas. – E sendo assim, não demorou muito para Brangwynne e Tony Hyman diretor do laboratório de biologia de Dresden onde os experimentos iniciais aconteceram; fazer a conexão com a teoria das protocélulas de Oparin, de 1924.    Por esta famosa hipótesecompartilhada de forma independente por John Haldane, e mundialmente confirmada pelo experimento Miller-Urey nos anos 1950 … relâmpagos e/ou atividade geotérmica na Terra primitiva, poderiam ter desencadeado uma síntese      de macromoléculas orgânicas necessárias para a vida. Outra ideia de Oparin…a de que      agregados líquidos destas macromoléculas teriam servido como protocélulas, foi em parte ignoradaporque não se tinha ideia de como as gotículas teriam se reproduzido, permitindo sua evolução…O grupo de Dresden, estudando “grânulos P”também não.

Gotículas em Dresden                                                                                                                 “Então, se as gotículas quimicamente ativas podem crescer até um determinado tamanho, e se dividir por conta própria, torna-se mais plausível o surgimento espontâneo de vida, a partir de uma sopa inorgânica” (Frank Jülicher, biofísico em Dresden, co-autor do artigo.)

centrossomaAo longo de sua descoberta – Jülicher atribuiu a Zwicker, seu aluno, a tarefa de desvelar a física dos centrossomas“organelas” envolvidas na divisão das células animais — as quais também pareciam se portar…como “gotículas”. Zwicker considerou tal sistema como fora de equilíbrio … quimicamente ativo — reciclando continuamente as ‘proteínas’…para dentro…e para fora    do‘citoplasma líquido circundante’.

Em seu modeloessas proteínas apresentam 2 estados químicosProteínas no ‘estado A’  se dissolvem no líquido circundante, enquanto as do ‘estado B’ são insolúveis, agregando-se dentro de uma gota. Contudo, algumas vezes, as proteínas B mudam espontaneamente para o estado A, fluindo para fora da gota. Mas, uma fonte de energia pode desencadear a reação reversa, de modo que, superando sua barreira química, uma proteína do ‘estado A’ passe ao ‘estado B’. Então, ao se chocar com a proteína insolúvel (B), a gota se esgueira facilmente para dentro dela como uma gota de chuva em uma poça d’água. Portanto, enquanto houver fonte de energiamoléculas fluem para dentro e para fora de uma gota ativa…“No contexto da Terra primitiva, a luz solar seria essa força motriz”, disse Jülicher.

Zwicker descobriu que esse…influxo e efluxo…químico vai se contrabalançar entre si, exatamente quando uma gota ativa atinge certo volume; fazendo com que pare de crescer. Gotículas típicas nas simulações de Zwicker, cresceram até dezenas/centenas de mícrons; dependendo de suas propriedades (à escala celular). Mas, a descoberta seguinte foi ainda mais inesperadaMuito embora tais “gotículas ativas” tenham atingido tamanho estável, Zwicker descobriu que elas são instáveis ​​em relação ao formato — quando um excesso de moléculas B entra na gota, numa parte de sua superfície…fazendo com que ela se projete levemente naquela direção – esta área de superfície extra da protuberância acelera ainda mais o crescimento da gota…quanto maior o número de moléculas dentro dela. A gota se alonga ainda mais…para então se estreitar no meio – com uma área de superfície menor. Eventualmente, se divide num par de gotas, que crescem até seu tamanho característico.  E conclui Zwicker“Quando Jülicher viu estas simulações das equações, imediatamente  as associou a uma divisão. E então…toda essa ideia de protocélula surgiu rapidamente.  Se apenas pensarmos em gotículas… como fez Oparin…não fica claro como a evolução poderia agir sobre elas. Assim, no caso evolutivo, temos que fazer cópias com pequenas modificações, para então a seleção natural decidir como as coisas ficam mais complexas.”

Zwicker, Jülicher e seus colaboradores, Rabea Seyboldt, Christoph Weber e Tony Hyman, desenvolveram sua teoria ao longo dos 3 anos seguintes… ampliando a visão de Oparin. 

Glóbulo Ancestral                                                                                                                          Na primavera passada…Jülicher começou a se reunir com Dora Tang, chefe de um laboratório de biologia no Instituto Max Planck de Biologia Genética, para discutir              planos para a tentativa de observar…”ao vivo”, a divisão dessas…”gotículas ativas”.

O laboratório de Tang sintetiza células artificiais feitas de polímeroslipídios e proteínas…que se assemelham a moléculas bioquímicas…Ela e sua equipe pretendem agora procurar tal divisão em gotículas líquidas feitas de ‘polímeros’ – que são fisicamente similares às proteínas nos grânulos  P…e ‘centrossomas’…A etapa seguinte, feita em colaboração com o laboratório de Hymanserá    observar“centrossomas”, ou outras “gotículas biológicas” se dividindo – e verificar se utilizam    o mecanismo identificado por Zwicker. – Sendo isso comprovado…já seria um “grande negócio”.

Quando Deamer, entusiasta defensor da ‘membrana inicial’, leu o novo artigo, se lembrou de algo semelhante ao comportamento previsto observado uma vez por ele em gotículas de hidrocarbonetos extraídas de um meteorito. Quando as iluminava…com uma luz quase ultravioleta — elas imediatamente começavam a se mover e se dividir. — Ele então enviou imagens do fenômeno para Jülicher, mesmo ainda não convencido da importância de um tal efeito. “Não há uma maneira óbvia para o mecanismo de divisão que relataram evoluir para o processo complexo pelo qual as células vivas realmente se dividem”…comentou ele. Porém, outros pesquisadores…incluindo Tang, discordaram desta opinião. Para ela…uma vez que as gotas começaram a se dividir…poderiam facilmente ter adquirido a capacidade de transferir informações genéticasrepartindo um lote codificador de proteínas de RNA ou DNA em parcelas iguais para as novas células reproduzidas. E Tang concluiu…“Se este “material genético” codificou proteínas úteis em aumentar a taxa de divisão das gotículas, então a seleção natural favoreceu tal comportamento. – Assim, protocélulas, alimentadas pela luz do Sol e pela lei da entropia crescente, se tornam gradualmente mais complexas”.

Para Jülicher…em algum lugar ao longo do caminho, as gotículas de protocélula podem      ter adquirido membranas. Estas gotículas naturalmente coletam crostas de lipídeos que      se colocam na interface entre as gotículas e o líquido circundante…De alguma forma, os genes podem ter começado a codificar essas membranas como uma espécie de proteção. Quando essa ideia foi apresentada a Deamer, ele disse“Posso até concordar com isso”, definindo então ‘protocélulas’, como as primeiras gotículas que continham membranas.    Porém, segundo Jülicher, a parte mais misteriosa de todo esse processo não foi que as gotículas se transformassem em células – mas sim…a formação inicial da primeira gota (nosso glóbulo ancestral). – As gotículas requerem uma grande quantidade de material químico para surgir espontaneamente e se ‘aglutinar’, não estando claro como tantas complexas macromoléculas essenciais teriam se acumulado na ‘sopa primordial’para      fazer isso acontecer. Todavia, como ele mesmo retrucou “havia muita sopa, e foi cozida    por eras”… — E concluiu: “É um evento raro, sendo preciso esperar muito para ocorrer. Mas quando acontece tudo passa a se dar sistematicamente com muita facilidade”.

É lógico que agora, tudo vai depender do resultado de experimentos futuros, que irão determinar quão robusto e relevante este mecanismo de divisão de gotículas pode ser. Poderemos encontrar, sustentando a teoria, compostos químicos nos 2 estados A e B?        Se isso ocorrer…um caminho viável do inanimado à vida começa a surgir. (texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para “Autorganização”…a Complexidade recursiva do “Caos”

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