Toda Educação Filosófica… É Cosmológica!…

“Se toda realidade é individual e única…e o universo é infinito – embora contraído, nada haverá que se repita igualmente 2 vezes; a Terra não estará no centro do mundo, porque não haverá nenhum centro fixo… a esfera das estrelas não será o limite do universo, pois nosso Sol será uma estrela como as outras; e cada ponto é centro, onde do mesmo modo, em toda parte, sobrevive a totalidade infinita.” (Nicolau de Cusa…em plena idade média)

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“Toda boa filosofia visa compreender o universo – suas interconexões, e nosso lugar nele… ou seja, é cosmológica”

Como ‘entidades de conhecimento‘… construímos nossa subjetividade, imbricada com os problemas e teorias de nosso tempo. — Nessa “objetividade”, comum a todos Humanos … a filosofia conjectura acerca da relação entre… eternidade…perenidade, e transformação… — Sua missão é problematizar; relacionando criticamente novas teses…à ‘teorias vigentes’…em todas as ‘formas de conhecimento’.  Trata-se então… de encontrar o “mote relacional” entre tudo o que há verticalmente…entre o todo e as partes – e horizontalmente… tentar perceber a identidade da existência singular…Baseado nisso, nossas escolas atuais necessitam de um ‘sopro de informalidade’ e respeito aos estudantes…Aquele  apego ao conteúdo preestabelecido … inibe nossa criatividade ao ignorar que somos todos filósofos.

Desde que há filosofia…ela se constituiu como resposta universalmente válida para todo e qualquer problema objetivo contemporâneo… Trata-se então de partir dos problemas que causam inquietações teóricas, para alcançar a reflexão filosófica…apoiando-se na tradição.  A filosofia, dessa forma, pode ser compreendida como um…’sistema aberto’…de conceitos coerentes e autorganizados, dinâmicos e autocríticos – elaborado sempre, para responder às questões fundamentais: – De onde viemos?… – Quem somos?… – Para onde vamos?… – E, como compreender o…”mundo em que vivemos“… – incluindo… – a nós próprios?…   

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O paradoxo da autoconsciência   Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos’ …. (W. Shakespeare)

Se, por vida, entendermos conexões energéticas, e perenidade sistêmica, então há vida em todo o universo. A vida da Terra… e a vida nela… entre elas…a do ser humano… são apenas amostras…das infinitas ocorrências acidentais, constituintes do cosmos.

A “especificidade humana” é que – distintamente das demais existências…é uma entidade contemporânea de conhecimento… – em simetria e simultaneidade … com toda existência presente… desde antes de seu nascimento…até depois de sua morte. – A “autoconsciência humana”…é a dimensão conhecida, mais complexa de toda natureza… — O cosmos…ao se (trans)formar…engendrou as ‘condições necessárias’ para a vida existir…em suas infinitas formas… – dentre elas… em crescente grau de complexidade… a “vida inteligente“. — A “consciência humana“…portanto – é a ‘consciência cósmica‘…justamente tramada pela própria natureza… a partir do advento do homem – como a consciência de si própria.

A conjectura de um início explosivo                                                                                 ‘Toda evidência é sempre relativa à conjectura à qual ela é confrontada, pois nunca         dela se pode inferir a confirmação de uma tese…em um contexto teórico qualquer’.

Os eventos da vida e da inteligência, são mais coerentemente compreendidos se atentarmos para a extrema importância do conflito, sempre existente, entre as possibilidades de efetivação de todo e qualquer evento, até que uma ou algumas                 formas possíveis, objetivamente, se efetivem…Como exemplo…podemos pensar                 no começo e na ordem de tudo o que há… contudo — não podemos conhecer tal               começo e ordem de forma segura – como de resto, não podemos conhecer nada                 de forma absolutamente segura. Talvez isso se deva à nossa recente emergência                    no cosmo; ou seja esse um ‘estado intransponível’ (“aos deuses a Epístemeaos              homens, a Doxa“) – Quando aceitamos que há 13,8 bilhões de anos houve um                ‘Big Bang’…somos de imediato invadidos pela pergunta lógica — se, no instante            exato da…”expansão inicial“… – toda energia estava concentrada…de forma                    a permitir que o universo … como nós o concebemos, tivesse um começo – qual              seria a disposição dessa energia — no momento anterior de tal concentração?…

Pensando em termos…’lógico/dialéticos’ – concluímos que antes…havia desconcentração. Podemos daí conjecturar, pela gravidade, um processo semelhante ao da incorporação da energia, antes da existência daquilo que, cientificamente, presumimos como o começo do universo…  Dessa maneira, é razoável supor o nosso universo como um evento particular, componente de uma eternidade cíclica de concentração/desconcentração de toda energia existente no cosmo. Mas, não podemos, ainda, pretender afirmar tal tese como definitiva.

Somos tanto frutos da ordem, quanto do caos                                                             Toda ordem é precisamente uma situação oscilante                                                                     à beira do (invisível) precipício.’ (Walter Benjamin)

Com um início explosivo, e com alta intensidade nas relações energéticas…sempre houve, no Universo, grande poder de destruição acompanhando a definição do estado das coisas.

Aqui, em nosso canto não é diferente, considerando que a Terra foi palco de catastróficos eventos, a ponto de uma parte de si, a Lua, orbitá-la. Foi nesse ‘ambiente inóspito’… que aconteceu a transformação – do átomo inicial, até às primeiras células vivas…e depois – há 70 milhões de anos…aos ‘animais’.

Desse modo, permeados de inúmeros acidentes… como choque de cometas, asteroides, e chuvas de meteoritos há 15 milhões de anos, nossos ancestrais humanos iniciam a ‘jornada terrestre’.

Longe de um simples processo evolutivo, cada instante da existência poderia ser o último para toda a vida – tanto quanto o foi para inúmeros corpos celestes…e inúmeras espécies vivas que, naturalmente resistiram, e naturalmente desapareceram. O universo portanto    é indeterminado, e assim como cada evento cósmico ocorreu…poderia ter ocorrido outro distinto … cujas consequências implicassem outro rumo para os acontecimentos… Dessa mesma forma, a atividade dos homens é indeterminada…e, entre elas, o “conhecimento”.

Se, há 60 mil anos o homem chegou ao Brasil… ou, há 8 mil anos domesticou animais,    e…há 5,5 mil inventou a roda… – isso só aconteceu num longo processo … em que seu cérebro era…’violentamente exigido’ – na tarefa de achar “soluções”…aos “desafios da sobrevivência”. – A linguagem ganhou “complexidade”… e, da sinalização e expressão, passou – gradativa e penosamente… à “descrição“… – E, para resolver as diferenças entre as descrições – a ‘argumentação‘ ganhou importância, e com ela… a “crítica“.

As primeiras civilizações a deixarem seus rastros teóricos no solo da objetividade, já são ‘estruturas sociais complexas’. – Quando elas surgem, há 5,5 mil anos, produzem, como tentativa de ordenar o caos pela imaginação criativa … ‘sistemas abstratos – como o ‘numeral egípcio’. Essa tarefa de ordenação é levada a efeito com a ajuda dos mitos, por     um lado – e, da racionalidade, por outro. – Dessa forma, mito e razão preencheram o espaço teórico que emergiu no… “céu da existência“… – enquanto o homem buscava respostas às suas inquietações. Nas disputas entre os ‘impérios’, as formas de escrita se tornaram novas línguas, monumentos foram levantados e derrubados, ‘jogos olímpicos’ foram instituídos, houve a criação das grandes cidades. Mas ao mesmo tempo, todas as construções humanas foram acompanhadas de imensas disputas… de modo que… para  tais obras serem efetivadas…inúmeras outras “concepções de futuro”… foram vencidas.

Assim como o ‘todo’…também a ‘parte’ é constituída conforme a intensidade de sua existência e peso da disputa. Por isso, cada homem é um microcosmo, tanto quanto      cada parte do cosmo teve sua constituição, e preservação – no confronto com todas            outras, sempre concorrendo teoricamente entre si para validar suas próprias ideias.

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‘O singular contém um pouco de tudo‘  ‘Ninguém é igual a ninguém. O ser humano é um estranho ímpar’. (Carlos Drummond)

Em 570 a.C., Xenófanes propôs que as pessoas haviam criado os deuses à sua imagem e semelhança. — Sua filosofia inaugura assim… a ‘tradição crítica‘.

filosofia nasce com a crítica aos mitos;   o equivalente teórico do originário embate material a que todos os saberes sempre foram submetidos…Esse confronto é responsável pela individualidade de tudo o que há, e distinção de todas as coisas. Nesse sentido é que pode ser compreendida a…”singularidade” – de cada um, dentre os ‘fisicalistas de Mileto’ (século VI ac)… — Enquanto Tales defendia… a água como origem de todas as coisas, Anaximandro pensou que tudo surge de…alguma coisa, e se dissolve em outra… que é infinita… Anaxímenes, por sua vez…propôs… o ar como a substância básica de tudo.  Ou seja…como não existe energia materializada numa mesma forma; igualmente não há atividade teórica que redunde em pensamentos iguais. Como humanos…somos orgânica    e teoricamente diferentes, e nos relacionamos graças a essas diferenças… por isso, nossa relação teórica…para ser consequente, deve primar pela ‘crítica racional‘, de modo     a assim permitir… – “mudanças regulares… – entre os agentes da interação discursiva. 

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Da mesma forma … como temos um DNA orgânico que não se repete, temos…como indivíduos – uma individualidade teórica, fruto da singularidade, e configuração de nossa potência cognitiva (personalidade).  Nossos cérebro e mente — são dimensões interdependentesa mente transformou    o cérebro, ao deste emergir – mas logo se diferenciou dele, ao adquirir ‘consciência’.  Assim; qualquer transformação deve ser entendida como um processo… – no qual ‘nada pode surgir do nada’, e a razão, deve ser capaz de o compreender, e ordenar (assim como pensou Parmênides…de Eleia).

A perspectiva pré-socrática

Antes de Parmênides (530ac-460ac), Heráclito de Éfeso (535 ac-475 ac) já sabia que, em sua aparência… – As coisas são opostas, e…todas são partes do processo do mundo…  a chama eterna arde, em unidade no diverso’. Desse modo, Heráclito afirmou serem as ‘transformações‘…a principal característica da natureza; enquanto Anaxágoras (500ac -428ac) sustentava que a natureza é composta por infinitas minúsculas partículas, que contêm um pouco de tudo”. – Nesses termos, a constante transformação de tudo que há,    e o surgimento de novos componentes do mundo emergindo de distintos elementos pré-existentes’ são, concomitantemente, um processo físico no mundo empírico…bem como um método conceitual e linguístico…no mundo teórico…Nossa “subjetividade” portanto decorre da relação que pudermos estabelecer… – entre um… e outro… – desses mundos.

Para Karl Popper (1902-1994) – que muito valoriza a aventura filosófica pré-socrática, Heráclito, ao observar que vivemos num mundo de coisas cujas mudanças escapam aos nossos sentidos…(embora saibamos que elas mudam)…criou 2 novos problemas — o da mudança, e o do conhecimento. Esses problemas têm a complexidade, de ter que se adequar ao princípio – essencial à ideia da mudança – de que aquilo que muda… retém       sua identidade…Aliás, foi a partir desse problema que Heráclito desenvolveu sua teoria, estabelecendo a distinção entre aparência e realidade… Entretanto, para Parmênides, discípulo de Xenófanes, o ‘mundo das transformações‘, proposto por Heráclito…seria apenas ilusório – pois… se os opostos são – na verdade, idênticos… não seria cumprido o ‘princípio da mudança… que implica na transição entre dois pontos. Parmênides baseou sua teoria, na premissa lógica de que…’o que não é, não é’ – e inferiu, daí, que o nada…nada é; logo o vazio não existe, e portanto o mundo é repleto e único, indivisível.

Conforme Popper… a teoria de Parmênides é a primeira…”teoria hipotético-dedutiva” do mundo. Os atomistas a consideraram assim, e refutaram-na baseados na experiência:  Aceitando a validade do argumento de Parmênides, inferiram a falsidade de sua premissa a partir da falsidade da conclusão a que havia chegado. Portanto…o ‘nada’ passa a existir novamente – e, a intermediar as partes diferentes do que é. Existem então, muitas partes, cada qual plena, una, imutável e indivisível. Portanto, existem os átomos, e o vácuo!

Essa ‘teoria atômica’ constituiu a ‘tradição’, e sustentou até 1900 a afirmação de que a mudança qualitativa se explicava pelo movimento espacial de pequenas partes imutáveis     de matéria, isto é… de que os átomos se movimentam no vácuo. Foi Maxwell quem deu o próximo passo importante da cosmologia e da ‘teoria da mudança’ ao substituir as ideias de Faraday… – pela “teoria das intensidades variáveis… (dos campos de Maxwell).

A “discussão crítica”…que permeia os “enigmas do mundo”                                      “A investigação sobre a origem de uma teoria não é tão importante,                                    quanto a sua capacidade de explicar — e enfrentar críticas e testes”.  

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Reservatório da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves (Candonga) atingido pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, em Rio Doce, Minas Gerais. Foto: Felipe Werneck – Ascom/Ibama julho/2016

Se…o que compõe a diversidade do que existe, contém um pouco de tudo… somos, tanto na teoria quanto na prática…resultado do estado atual de interação desses elementos — físicos… e teóricos.  A consciência da co-emergência do sujeito … e do conhecimento do mundo é condição … à nossa própria “constituição subjetiva”.  A interação orgânica entretanto não é pacifica, mas uma relação na qual…os agentes fazem valer suas posições objetivamente no meio em que se veem inseridos.

Todo organismo, desde a ameba, age para garantir… – e aperfeiçoar sua sobrevivência.  Sempre há projeções…e ação sobre os seres vivos… – desde uma árvore que força a passagem de suas raízes entre as fendas das rochas para buscar nutrientes necessários ao seu crescimento – até um cientista, que procura respostas da formação do mundo, para poder ordená-lo, e nele orientar-se racionalmente. Um e outro…no entanto… não encontram, necessariamente…exatamente o que esperavam encontrar – de forma que,    são forçados a se adaptar à emergência de algo novo…e, absolutamente não previsível.

A ‘evolução’ não é automática, nem pacífica – cada agente singular desempenha um papel decisivo para alterar a sua condição, e aquela do meio em que se encontra inserido. Assim, em articulação com o conjunto das questões centrais da epistemologia, o problema inicial do conhecimento se põe de forma ímpar … em termos de uma “proposta (r)evolucionária” de investigação à luz da constituição de uma ‘emergência singular‘. Ou seja, a história da inteligibilidade humana se dá numa superação crítica relativa a uma teoria evolucionária. 

Cosmos antigo

A fundação cosmológica (grega)… ‘As respostas, para serem racionais… devem ser cosmológicas… Se a filosofia desiste dessa busca torna-se ‘particularidade’…e, assim…    nem – ao menos…enxerga…        aqueles enigmas do mundo’.  

É provável que a tradição crítica na filosofia…tenha sua principal origem na ‘Jônia‘ (século VI AC). Foi uma inovação que representou o rompimento da ‘tradição dogmática‘…quando havia uma só doutrina nas escolas… substituindo-a pela pluralidade de doutrinas… – todas em busca da verdade mediante a ‘discussão crítica’. – Como consequência, criou-se a atitude racional e científica da ‘civilização ocidental’… onde a problematização crítica da ideia de absoluto implica na autodefinição da atividade cognitiva como circunscrita ao universo da ‘racionalidade‘… – e coincide com a concepção do…princípio de não contradição“.

Esse fato levou à…’tomada de consciência’, de que nossas tentativas de encontrar a verdade nunca são definitivas, podendo ser aprimoradas;        de que nosso saber é conjectural… se constituindo de hipóteses – e não verdades certas e definitivas; e que, por consequência… a crítica é o único meio — para tentar nos aproximarmos … da “verdade“.

Segundo essa visão…a ciência não tem data de nascimento específica – ela redundou de um longo processo de constituição das condições de problematização para responder às dificuldades com que nossa espécie se deparou (e…ao mesmo tempo… foi o processo de autoconstrução da espécie)Inicialmente… com a supremacia dos problemas referentes       à ‘ordem material’, e gradativamente transformando-os em intelecções mais complexas, abrangentes e abstratas…nunca, porém…sem sempre considerar suas reais implicações.

Após o 1º grande impulso de ‘virtualização da atividade humana’… a linguagem falada, o 2º impulso, a escrita, aprofunda radicalmente as condições de ‘racionalização’. Porém, o passo mais importante foi a criação da matemática‘ … – Como afirmou Frank Swetz“A matemática não é algo mágico, e ameaçadoramente estranho – mas sim, um corpo de conhecimento naturalmente desenvolvido durante um período de 5 mil anos. Com ela, o homem colheu o primeiro fruto…da sua própria cultura – e o sumo desse fruto continua hidratando todos seus processos…científico e tecnológico, com uma infinita capacidade”.

Com a matemática o homem aprendeu que pode retirar integralmente de si as condições para representar o mundo, mas a filosofia grega antiga tinha um caráter especulativo,   e por isso, nossa ciência começou com formulações ousadas sobre o mundo – e, não com específicas observações empíricas. Nesse ponto, os pré-socráticos foram cosmológicos,    com sua filosofia se baseando na relação da ‘transitoriedade‘ com o ‘conhecimento‘.  A racionalidade simples e honesta destes filósofos – foi o ambiente adequado à evolução crítica das indagações cosmológicas. Os teóricos gregos, como a maioria dos pensadores    de todos os tempos, procuravam responder às perguntas cosmológicas, mas também, às questões relativas à ‘teoria do conhecimento’. Eles se interessaram pelo problema filosófico de entender o mundo em que vivemos…incluindo, a nós próprios.

Dada sua origem… – não tem sentido argumentar que os estudos se fundamentaram na observação. A teoria de Anaximandro, por exemplo, de que ‘a Terra não está sustentada por nada – mas permanece estacionária, em função da sua igual distância para todas as demais coisas; que tem 2 superfícies…e que, enquanto caminhamos sobre uma, a outra está no lado oposto’ — não sendo análoga a qualquer coisa que faça parte do campo dos fatos observáveis – é uma das mais ousadas ideias da história do pensamento…abrindo caminho para Aristarco, Copérnico, Kepler, Galileu, e inclusive à gravitação de Newton.

http://www.templodeapolo.net/civilizacoes/grecia/filosofia/presocraticos/filosofia_presocraticos_anaximandro.html

Tales, mestre de Anaximandro, e o 1º a discutir a estrutura do ‘cosmo’ – propôs que   a Terra flutuava sobre a água. – Já Anaximandro… – criticando de modo racional…a tese de seu mestre – produz uma… “teoria notável” – que dá início à astronomia grega … com a medição das distâncias entre as estrelas…e o cálculo de suas magnitudes. Ele acreditava que o princípio de tudo era o ‘ápeiron — substância infinita…quantitativa e qualitativa existente, porém…insurgida e imortal; e, que o mundo se fez em… – “contrários auto-excludentes“… – enquanto a inexorabilidade do tempo… demarcava a… alteridade” – entre um…  e outro desses contrários.

Não foi, entretanto, a observação, nem a intuição racional que motivaram esse avanço explicativo, foi a crítica especulativa à tese vigente que tornou possível a Anaximandro, dado o alcance teórico das antigas ideias gregas, superar o poder explicativo de seu mestre, com ousada crítica e influência. 

Um discípulo de Francis Bacon (1561-1626) argumentaria que a ciência só se manifesta, quando o método especulativo é substituído pela observação…e a dedução, pela indução. Esse argumento para Popper, sugere que as teorias só são científicas, tendo origem em observações – ou nos ‘procedimentos indutivos‘. No entanto, considerando essa ideia, a definição de ‘ciência‘ ficaria em desacordo com sua efetiva ‘forma de desenvolvimento’.  A ciência – como de resto todo saber… – se desenvolve a partir de problemas, tentativas especulativas de solução e críticas à essas propostas. Dessa forma, não há campo teórico que não esteja afeto, e portanto, sujeito a ser incorporado às especulações cosmológicas, com as quais buscamos respostas… – aos sempre inesgotáveis… “enigmas do universo“.

A filosofia é ‘multidisciplinar’                                                                                              ‘O homem desprendeu-se do peso da pedra de Sísifo, e pôs-se a calcular,                            enquanto especulava livremente sobre modelos do universo geocêntrico                                e heliocêntrico – em uma atmosfera pré-socrática … de intensa criação’.   

Há uma continuidade perfeita entre os pré-socráticos, e os desenvolvimentos posteriores dos mais variados tipos de ciência, isso porque, sempre se tratou do pensamento racional, e da imaginação criadora, em visões cosmológicas… Com efeito…apesar de muitas teorias pré-socráticas serem falsas, elas tem sua importância… Até porque, uma teoria falsa pode sugerir modificações radicais…ou ainda estimular a crítica de muitos teóricos posteriores.

Anaxímenes — discípulo de Anaximandro, discordou da noção de Ápeiron… – o qual, amorfo e sem limites, não podia ter movimento, e substituiu-o pelo termo ar…também amorfo e ilimitado, porém capaz de ser o principal agente do movimento e da mudança.    Afirmou que…”o Sol é constituído da Terra”que se aquece devido à velocidade de seu movimento… refez assim a resposta de Tales, e não concordou com Anaximandro…Sua preocupação empírica com a sistematização levou-o ao “ecletismo“… Já em Heráclito, temos a concepção de que tudo está em fluxo…e nada permanece em repouso… De que somente existem processos – não corpos sólidos, mas fluxos, como o fogo…corrente      de matéria, que… mesmo sujeita à uma forma definida… – está sempre em movimento. A estabilidade é aparente…e se deve às leis e medidas às quais os processos se sujeitam.

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Heráclito também afirma que a sabedoria consiste em admitir que todas as coisas são uma só… – um  ‘fogo eterno’ flamejando, e morrendo em diferentes graus de intensidade.

Conforme a ‘cosmologia física’ de Heráclito…concebemos a própria filosofia…como uma… teoria do todo capaz de abarcar a instável,  e conflitante “soma dos saberes”.  Pensar em uma filosofia…buscar apreender, ou produzi-la… como fazem teóricos, após certo tempo  de estudo – ultrapassando…seus limites disciplinares… – nos traz uma certa cumplicidade — entre este nosso…’infinito universo’, e nossas…mirabolantes…ideias.

Uma verdadeira filosofia deve ter a característica distintiva de ser constituída em um conjunto de obras, que tenha a extraordinária amplitude, capaz de abarcar e integrar         os conteúdos de interesse, influenciando desde a política… à crítica de arte… além da   antropologia, ética, história da filosofia, direito, política, linguagem, estética, religião, lógica, teoria do conhecimento e educação. Todas essas dimensões do saber humano, devem poder ser conjugadas de forma interrelacional, e constituir uma “cosmologia”; sistema teórico aberto, racional, objetivo e falível, mas não, contraditório de saberes.

O filosofar eterniza o humano                                                                                             ‘Quando há teorias abrangentes, ricamente constituídas por diversas dimensões                da realidade…a disposição dos atores de cada área específica, o vigor intelectual,                  e a consequência dos raciocínios se faz notar – o mundo se torna compreensível’.

Em cada geração há, pelo menos… uma nova filosofia – uma nova cosmologia… com originalidade e profundidade…e o segredo está – de acordo com Popper, na tradição         da discussão crítica. Em quase todas as civilizações encontramos o ensino religioso e cosmológico, e em muitas sociedades há escolas que possuem estruturas com função característica, que divulgam uma doutrina definida, e preservam-na pura e imutável.          A maioria das escolas gregas, entretanto, era diferente desse tipo dogmático. De fato,          a filosofia grega aceitava novas ideias; que expostas resultavam numa ‘crítica aberta’.

A filosofia grega é… livre e criativa – plural de ideias… que se explica, pelo                          surgimento de uma tradição, permitindo e estimulando a discussão crítica                        entre várias escolas – ao invés da preservação de uma “doutrina-padrão”. 

Só há 2 maneiras de uma teoria ser superior a outra; explicar melhor, e poder ser melhor testada. Não há um processo que comece pela experiência ou observação; como propõem os seguidores de Francis Bacon… – Na evolução da ciência… observações e experimentos  são apenas argumentos críticos… Por essa razão, tentativas de conhecer o mundo, devem  se dar pelo ‘exame crítico de teorias – pois o significado de observações e experiências depende inteiramente disso. A verdadeira ‘teoria do conhecimento‘ foisegundo Popper, compreendida por…Galileu e Einstein – que perceberam que não existe procedimento indutivo…e que o conhecimento se processa por meio de “conjecturas e “refutações.

A discussão crítica racionalista, é o único meio praticável                                                      para expandir o conhecimento conjectural…ou hipotético.

cicero-fraseEssa era a visão dos ‘pré-socráticos’. Todavia, para Sócrates… a busca da verdade pela discussão crítica… era um…”modo de vida”. – O homem é eterno quando pensa… – e, quando pensa… – o faz no “tempo lógico”      e não … no “tempo cronológico“.

O rigor racional desse novo passo na direção da ‘virtualidade sistêmica’ … foi exigido como nunca antes e, ao mesmo tempo, a disposição de auto-libertação constituiu uma atmosfera luminosa. – Com essa luz…inúmeros novos frutos surgiram nos campos da arte, literatura, política, ética, física, lógica, e tantos outros… Mas, como todo estado de coisas traz em si o germe de sua própria destruição…a restrição das conquistas civilizatórias da Grécia antiga a uma ‘elite’ (única capaz de acompanhar…e se inserir positivamente no processo) gerou a supremacia de uma…”proposta civilizatória” inferior… A plebe ignorante então se rebelou, e lançando mão de um vulgo platonismo…transformou “escolas filosóficas em mosteiros; destruindo a biblioteca de Alexandria (século IV DC) … ao julgar impossível, e indesejável suplantar a “verdade revelada“. – Nesse sentido, muitas formas de autoflagelação foram exercidas pela cultura humana… – Sendo que, o sumo do fruto teórico que… com ousadia, o homem colheu…foi desperdiçado…para alimentar uma única tese… ogeocentrismo“. 

Não foi dado o menor crédito à outra tese…que já se encontrava em Erastóstenes e Aristarco, muito antes da invenção do cristianismo – e a qual…apenas Copérnico, lendo textos platônicos, pôde resgatar muito tempo depois. Por isso é engano pensar      que as teorias filosóficas morrem…Elas não morrem, nem mesmo quando algozes as    fazem em pedaços, e as enterram…Uma vez criadas, elas se fundem, e se confundem      com a própria humanidade, e desta farão parte para sempre…pois a legítima, e mais elevada forma de eternidade a que podemos nos dedicar…é à ‘construção teórica‘.

“Somos todos filósofos”… ‘O homem inventa a filosofia como autoconsciência’.

Todo ser humano é constituído e orientado…tanto em sua mais sensível espiritualidade, quanto em suas mais violentas ações, por ‘entes‘ filosóficos. Carregamos (culturalmente) uma amostra positiva e outra negativa de todo nosso passado teórico, e por isso…somos todos filósofos. Quando continuamos as obras dos pensadores do passado impregnados    de preconceitos filosóficos, ainda assim…temos uma “unidade cosmológica”… A ciência moderna foi constituída como fruto da imensa tarefa de construção especulativa a qual, seguida da verificação crítica, lançando mão da instrumentalidade cognitiva disponível,    apontou contradições do sistema, impondo reconstruções criativas. Assim, tradicionais    “interrogações filosóficas” … ao tratar dos temas mais inquietantes… sempre implicam respostas – das quais as ciências se utilizam – e delas retiram consequências empíricas. 

As ciências…portanto…nascem duplamente com o homem – elas se identificam com seu próprio processo de autoconstrução (de auto-emergência ao reino do ciente) e resultam como resposta racional aos desafios que as grandes questões cosmológicas apresentam. 

SchopenhauerDas ‘questões metafísicas’ por outro lado…decorrem tanto interrogações específicas – quanto sugestões para respondê-las…pois a metafísica não se faz antagônica a um pensamento racional…e falseável – sendo apta à especulação; e por conseguinte, ser racionalmente criticadaexceto as “concepções teológicas” – cujos ‘fundamentos inquestionáveis’, impedem críticas radicais.  A seguir, relacionamos algumas das concepções filosóficas mais importantes, cujas fontes teóricas são transmutações atribuídas ao racionalismo crítico…e sobretudo a Karl Popper:

1. Todos somos filósofos;

2. Não há elite filosófica profissional ou acadêmica…Os pré-socráticos filosofaram muito bem sem filosofia profissional acadêmica… – Os mais doutos podem ser irracionais;

3. A filosofia não é acadêmica, é humana…Hoje, a filosofia é super-acadêmica e, no entanto, perde espaço nos grandes debates, no mundo todo… A “filosofia acadêmica” tem reproduzido, e debatido filigranas…enquanto grandes ‘questões cosmológicas‘ que dizem respeito aos ‘seres/saberes’ foram relegadas a 2º plano…nesse mesmo âmbito acadêmico;

4. A filosofia contemporânea tem sido surpreendida, por uma série de cientistas, artistas, linguistas, e matemáticos, entre outros. Darwin, Newton e Einstein; ou mais recentemente…Deutsch, Maturana, Smolin e De Duve, são algumas das testemunhas       de que a filosofia não é pura, ou ‘auto-suficiente’… – Seus programas de pesquisa, ‘cosmologicamente metafísicos’, abrangem tudo o que há … em íntima relação com a     ‘teoria do conhecimento’… permitindo simetrias com seus vários campos específicos;

5. A demarcação entre a filosofia e os demais saberes é ainda mais artificial            do que aquela entre as ciências. Nenhum fenômeno pode ser compreendido por um    modo particular de conhecimento…e sendo assim – não há nada que fuja à filosofia;

6. A antimetafísica é antifilosófica…Devemos começar movidos pelos desafios patrocinados pelas limitações à nossa existência e ao nosso entendimento, produzir conjeturas cosmológicas, e desse modo, constituir os problemas filosóficos;

7. A filosofia é busca de precisão e exatidão, bem como por fundamentos ou estruturas conceituais…entretanto, quando o teórico pretender ter ‘dominado’ tais fundamentos… já não é mais filósofo… – é doutrinário, dogmático…embrutecedor;

8. A filosofia não pretende revelar o espírito da época, o inconsciente subjetivo.     O filósofo deve… “problematizar as superstições“… – e não criá-las, ou aboná-las;

9. A filosofia é crítica às teorias e preconceitos filosóficos presentes na cultura humana – e, por isso, deve refutar, por exemplo, a tese homérica de que… “a inveja dos Deuses causou a desgraça de Troia”…ou que “Poseidon irado tentou evitar o retorno de Odisseu”… Assim como deve refutar a tese cristã de que “o demônio é responsável pelo mal”… ou a vulgar tese marxista de que “os capitalistas impedem a sociedade perfeita”. Isso se justifica porque a ‘teoria da conspiração’ não é crítica…e assim, perdemos a oportunidade de nos contrapor a nossos adversários teóricos… – Ao buscar culpados… paramos de refletir… – pois… “a culpa é um conceito teológico… não reflexivo“;

10. A intelectualização não é um capricho, mas uma necessidade humana natural. Se hoje existe filosofia é porque…o ‘pensamento crítico’ vence o ‘dogmatismo’…e permite a unidade da humanidade na ‘racionalidade comum‘, que busca a liberdade;

11. A  filosofia permite a interação racional entre todos os saberes…o ‘vínculo objetivo’ entre ‘programas metafísicos‘ e ‘abordagens específicas’, em determinados campos de conhecimento. Por isso ela é uma disposição ao uso da razão crítica, estando presente como uma… – “dimensão a mais“… – em todas as “áreas do conhecimento”;

12. A filosofia é a possibilidade da autoconstrução da humanidade,                        mas não é sua garantia… — Nada está garantido… ou, salvo da ignorância,                        que é sempree sempre será imensamente superior à sabedoria;

13. A especialização é o túmulo do filósofo.

http://www.amazon.co.uk/Richard-Bailey/e/B001JRYHMAPrincípios da arte de ensinar”                              “Um bebê começa fazendo barulhos bem simples,      com o desejo de copiar expressões linguísticas…O aspecto importante é que nós aprendemos a fazer coisas nas situações mais apropriadas”. (POPPER)

Richard Bailey do Christ Church College, Canterbury, escreveu um artigo titulado ‘Karl Popper as Educator’ no qual Popper era mais alinhado com os educadores progressistas…pois não aprovava o ‘currículo vigente no sistema educacional austríaco…Quando trabalhou como professor – na educação básica em Viena – sua discordância…se devia ao conteúdo ensinado – longe do interesse dos alunos… e, dos próprios educadores.

Nenhum dos agentes educacionais se envolvia intensamente com os conteúdos…por não terem proposto nenhuma das questões – a que aquelas…’respostas teóricas‘ pretendiam resolver. – Observa-se assim…que, quando os interesses dos segmentos constituintes da atividade educacional não são respeitados…as aulas se tornam insossas e burocratizadas.  No trecho acima, como exemplo, Popper mostra que desde a 1ª infância, o ser humano é umaentidade linguajante complexa‘. Ou seja, o que mais vale em educação é que a criança aprenda a interessar-se…e então, busque conhecer…desenvolvendo a linguagem necessária…e ao mesmo tempo satisfazendo prazerosamente suas curiosidades. — Nada substitui a habilidade de pesquisa… – apenas ela leva à autonomia teórica … e ao prazer intelectual – pois tanto as referências ao conhecimento, quanto o saber objetivo sobre o objeto de interesse — são ações para saciar a…extraordinária curiosidade do indivíduo.

Nesse sentido, o sistema educacional deve fazer uma aposta na geração emergente, de forma a que a escola seja um espaço para tratar dos interesses e necessidades teóricas      de seus alunos… – como o embrião de uma comunidade de pesquisa … estimulando o desenvolvimento de suas habilidades … para as questões que lhes são mais excitantes.        A leitura, a escrita e a aritmética são componentes da formação inicial, que devem ser obrigatoriamente ensinados, pela relação direta com a futura atitude crítica do aluno.

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A filosofia como uma “escola de vida”…                ‘Toda criança pode adquirir uma linguagem através de um trabalho ativo, agradável … e talvez, também penoso. A realização intelectual que a acompanha é muito importante. Esse esforço, produz forte efeito   de feedback em sua personalidade…e suas relações com outras pessoas, e meio ambiente’. (K. Popper)

Segundo Popper há uma concepção equivocada em relação ao processo de “aprendizado”… ‘a aceitação irrefletida, de que o método de ‘indução‘ ajuda no aprendizado das crianças’. Assim como professores (crendo na indução) alimentam a…crença – de que anos de trabalho lhes confere uma…previsibilidade    e infalibilidade automática, entendem também que  os estudantes seguem um processo progressivo, no qual o conhecimento anterior … é base ao seguinte.

A constituição teórica da criança – tanto quanto do adulto…distintamente, são produto de si mesmos. – São de sua própria realização as referências constituídas…para que com elas apreendam o mundo… Desde a habilidade na fala…à consciência de si – a personalidade é emergência interativa com a percepção…que retroage na formação subjetiva do estudante.  A distância entre os conteúdos e os interesses constituintes dessa…emergência – somente podem ser ultrapassadas, se professores estimularem alunos a discutir problemas. Assim, o aprendizado seria proveitoso…e a preocupação estaria focada na formação do educando.

A educação é a formação que permanece quando as pessoas deixam a escola…portanto, a pesquisa e aptidão para o debate crítico e criativo implicam atenção à individualidade…e, respeito às diferenças de toda ordem… – A relevância aos elementos… que vislumbrem a consciência da estrada acadêmica, também permite a visão de seus próprios desafios, em um ambiente de autonomia, auto-responsabilidade, e emergência teórica, necessários ao pleno desenvolvimento do ‘potencial humano‘ – presente em todos professores e alunos.

Somente de uma escola que prima pela autonomia na formação teórica dos jovens podem emergir intelectuais aptos a uma compreensão consequente do universo, e do nosso lugar nele. A escola com compromisso formador é, dessa forma, capaz de permitir ao estudante compreender que a arte da educação é a reinvenção da subjetividade humana de cada um.

Remi Schorn – Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE)                            texto base… ‘A EDUCAÇÃO FILOSÓFICA É COSMOLÓGICA’ (PDF**********************************************************************

A “cosmologia pré-Socrática”                                                                                                A Filosofia da Natureza…também chamada de ‘Cosmologia‘…pretendendo investigar racionalmente o princípio e fundamentos do universo ordenado (Cosmos) tal como é percebido pelo homem, suscita a reflexão sobre um tema tão essencial à investigação filosófico-científica, que está na origem da própria – evolução da filosofia…na Grécia. 

cosmos-capaA Cosmologia surge…como um ramo da Filosofia – que procura explicar a composição, estrutura, e evolução do universo… não devendo contudo, ser confundida com “Cosmogonia”, pois esta diz respeito…àquelas narrativas mitológicas sobre ‘origens cósmicas’, não necessariamente ‘racionais’…ou de caráter eminentemente filosófico.

As narrativas cosmogônicas surgem, como tentativas de explicação sobre a ‘genesis’ do universo – muitas vezes recorrendo a mitos e figuras alegóricas, em vez da observação criteriosa… e da reflexão sistemática – nas quais as “teses cosmológicas” se apoiam.

Heráclito de Éfeso, um dos filósofos naturalistas pré-socráticos mais conhecidos, observava que “a natureza ama esconder-se”, isto é, a natureza do universo não nos      deixa entrever abertamente seus fundamentos ocultos…nem revela facilmente suas origens a quem a interroga. – Ao filósofo, pois… cabe a tarefa de levantar o véu que esconde a natureza mais profunda do cosmos, para assim… ver o que está além das aparências – para enxergar a realidade fundamental subjacente ao universo visível.

Nesse caminho, os filósofos naturalistas gregos buscaram descobrir a “arché“;                princípio natural fundamental… do qual todas as coisas derivam – na procura                de uma lógica unificante, que explicasse o universo em toda sua multiplicidade.

A originalidade dos pré-socráticos                                                                                        A origem do universo sempre foi uma preocupação aos filósofos da Antiguidade conhecidos como pré-socráticos. – Para eles…a natureza (“physis”) passava por  constantes mudanças – e mesmo assim, o universo se encontrava em equilíbrio.

Em função da própria evolução da sociedade…advinda a partir das rotas marítimas, invenção da moeda, da escrita, calendário, e criação da polis, os gregos perceberam        que nada ocorria por acaso – e que, diferente do pensamento apregoado no período mitológico, as coisas mudam não em função da vontade dos deuses, mas da ação do homem. Desse modo…buscando além da origem das coisas, mostrar que a natureza passava por constantes mudanças – provocadas por “alguma coisa”… que tentavam conhecer, os “filósofos pré-socráticos” foram os primeiros sábios gregos a formular      uma explicação racional para o mundo – sem precisar recorrer ao… “sobrenatural”.

O período pré-socrático também é chamado de…”período cosmológico”, por se dar aí a primeira manifestação filosófica dedicada a estudar a origem do “Cosmos“…(do grego arcaico: ordem, organização, harmonia) entendido como totalidade do que existe neste universo ordenado…desde partículas subatômicas, até gigantes constelações. Portanto,      o que hoje a Astronomia estuda…teve origem no “pensamento filosófico pré-socrático”, que…mesmo se tratando de um pensamento…”rudimentar” – foi muito importante ao pensamento ocidental, quando da passagem da “fase mitológica” para a “fase racional”.

O nascimento da Cosmologia                                                                                                    Os pensadores pré-socráticos criaram a “Cosmologia”…numa relação de causalidade entre fenômenos naturais para por princípios e leis entender a organização racional do universo.

cosmologia-1

Com o pensamento pré-socrático, sai de cena a explicação da origem e transformação da natureza por intermédio dos mitos e divindade, dando lugar a explicações racionais, que buscavam identificar as causas de sua origem. 

A Cosmologia surge então – em sua primeira expressão filosófica…apresentada no período pré-socrático (ou cosmológico)…como a parte da filosofia que estuda a estrutura, evolução, e composição do universo… – Substituindo a explicação original … da “transformação” da natureza – através de mitos e divindades…por “explicações racionais”, nas quais as causas de tais alterações são identificadas, defende a criação do mundo a partir de um princípio natural, onde a natureza cria…”seres mortais” – a partir de sua própria “imortalidade”.

No período em que a cosmologia prevaleceu…as pessoas acreditavam que a natureza somente poderia ser conhecida através do pensamento, ou seja, existia a necessidade        de pensar…para se chegar ao ‘princípio de todas as coisas’, que forma, a partir de sua imutabilidade, seres sensíveis a transformações capazes de realizar mutações quanto          à qualidade e quantidade. Os seguidores de Pitágoras (570 – 496 aC) entendiam que,          o movimento dos corpos celestes era regido por “leis naturais imutáveis”. E também,        que a esfericidade da Terra contribuiria, em seu movimento à harmonia do universo.

Como disse Nietzsche, a respeito de ‘Pitágoras‘… “A música, como tal…só existe em nossos nervos e em nosso cérebro, fora de nós compõe-se somente de relações numéricas. Quanto ao ritmo… se trata de sua quantidade – e quanto à tonalidade… se trata de sua qualidade – conforme se considere o elemento harmônico…ou o elemento rítmico”. No mesmo sentido, poder-se-ia exprimir o “ser” do universo – do qual a música é… pelo menos de certa forma, a imagem, exclusivamente com o auxílio de números…os quais portanto não seriam meros símbolos…mas, a própria…“alma das coisas. (texto base 1) (texto base 2) (texto base 3******************************(texto complementar)*********************************

Filosofia & racionalidade

Filosofia é igualmente, síntese e unidade. Não síntese amorfa, indiferenciada, mas ‘orgânica e processual’…onde o todo não acarreta ‘predomínio avassalador’…mas, representa a…”coimplicação harmônica” de peculiaridades intocáveis…A filosofia    é racionalidade – até mesmo…quando o filósofo expressa o…’papel fundamental’ das forças emocionais…e intuitivas. Isto porque — filosofia também é linguagem, ou… ao menos – tentativa de ‘expressão rigorosa’… – traduzida em verbo… – ou símbolos — daquilo… que a experiência oferece… — de essencial … e duradouro.

Toda vez que a humanidade entra em crise – insistem os filósofos…em apontar para a única via que resiste ao emaranhado das doutrinas…a renovada busca do permanente essencial, que assinala uma constante no torvelinho da contingência… e das mutações repentinas, expressando-se na clareza dos conceitos. É inegável que nessa procura do essencial, que se oculta sob a capa do secundário e do contingente, a contribuição das ‘faculdades intuitivas’ é imensa…pelas quais uma verdade pode brilhar no amanhecer    das pesquisas…governando, como fulcro primordial…o processo ulterior das análises.      Porém…se aquela “intuição inicial” não se desenvolve… nem se insere em uma ordem racional coerente, nada representa no progresso das ideias caso as intuições originais,      não sejam aferidas e fecundadas…pelo poder sintético e ordenador da razão histórica.

A partir da surpresa e perplexidade iniciais, desde a intuição das perguntas, até à maturidade das respostas…desdobra-se o caminho do filosofar… que, no entanto,           a todo instante se enriquece de novas intuições, exigindo reformulações racionais contínuas, numa polaridade dinâmica entre o pensamento e a realidade pensável.

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Filosofia & mistério

Manda a verdade que se reconheça vivermos num mundo de problemas…imerso em mistérios. Indo ao âmago da questão… talvez se possa dizer; ser o mistério que condiciona os problemas. Assim não bastará dizer que… à medida que avançamos… na solução de problemas … surgem novas perguntas; como se o mistério se confundisse, em horizontes de problemas – ou… na infinitude do cognoscível.

Note-se que esse ‘mundo de problemas‘ não se refere apenas ao ‘plano empírico’ das ciências físico-matemáticas … mas também aos (problemas) que se situam no ‘plano transcendental’ da teoria do conhecimento, pois tanto neste…como naquele… impõe-       se estudar a correlação entre sujeito e objeto…pensamento e realidade – nos amplos horizontes em que se desenvolve a atividade cognoscitiva… Quem põe um problema, enuncia uma hipótese, sempre fundada em dados que representam…ao menos um esquema provável do real, explicado ou compreendido como algo de ‘objetivo‘…ou,          de…”objetivável” – segundo relações causais, funcionais, e proporcionais…ou, em          se tratando de…”ciências culturais” – de acordo com… “conexões de sentido“.

O mistério, ao contrário, é o absoluto, e o ‘ab-solutus’ como tal, supõe-se fora do âmbito ontognoseológico, permanecendo irredutível às correlações entre o sujeito e o objeto do conhecimento. A ele só nos referimos como o ‘pressuposto lógico da problemática total’.  Se conhecer é sempre conhecer, de algo, alguma coisa…e se jamais nosso conhecimento logrará abranger a ‘plenitude do real’… aberto sempre a novas perguntas – é necessário concluir que o ‘imponderável’ do conhecimento…por falta de adequação entre o ‘sujeito cognoscente’ e o ‘objeto cognoscível’, é o condicionamento em que a ‘esfera do saber’ se supõe imersa, e também a razão do caráter histórico-dialético do processo cognoscitivo.

“Filosofia plural”                                                                                                                        Sob certo ponto de vista é como se a doutrina positivista estivesse em                            condições de restituir à humanidade uma nova unidade ideológica, já                              agora fundada na ciência…e não em cismas teológicos ou metafísicos.

Foi o positivismo que, durante décadas, pareceu realizar, na faixa da cultura do Ocidente, o ideal de uma comunhão de pensamento… – como se…definitivamente, houvessem sido superadas as “elucubrações metafísicas” de Descartes, Espinosa, Leibniz, Kant, ou Hegel.  Vez ou outra, com efeito, surgem tentativas de…”uniformização do pensamento” – como ainda agora acontece com certos grupos do…”neopositivismo”. – Contudo, em geral, tais pretensões desfazem-se por si mesmas – e o princípio da ‘pluralidade e coexistência’ das teorias, em diálogo livre e fecundo, ressurge como algo essencial ao nosso ‘ciclo cultural’.

Hoje percebemos o equívoco, e a insuficiência de tais…’concepções monocórdias‘…assim como o perigo que há em se atribuir valor exclusivo a uma dada corrente de pensamento, com exclusão das demais. Não vivemos, pois, numa época de filosofias dominantes, nem   é possível que uma nação como o Brasil, com o seu lastro de experiência histórico-social, se conforme a um pensamento destituído de luz própria…falho da capacidade autônoma de pensamento, pois pensar ilumina de individualidade, cor e beleza, tudo quanto existe.

ABAPORU - Tarcila do Amaral

ABAPORU – Tarcila do Amaral

Perspectivas da Filosofia no Brasil

É necessário lembrar, que … se a filosofia é universal, nem por isso deixa de receber as influências do meio em que vive o filósofo,  tanto pelo conteúdo ideológico – como por ‘formas expressionais’…Assim, quando um povo começa a filosofar… – racionalmente, expressando seu sentir e querer…mostra a    si mesmo…e ao mundo, que está atingindo    a maturidade… de sua… “autoconsciência”.

Poderá…alguém… – no entanto perguntar:  Mas, se a filosofia brasileira tem sido um rosário de influências… – se o pensamento nacional reflete o ‘pensamento alienígena’, como então… pensar em algo de próprio?”

Na história cultural, aquilo que condicionou certa receptividade no próprio modo pelo qual fomos influenciados — poderá significar… algo de singular.

Já revelamos nossa arquitetura, já afirmamos nosso romance, já vivemos altos momentos poéticos, e já possuímos uma nobre ‘tradição jurídica’. Estamos agora no Brasil, em busca da afirmação integral do nosso “ser histórico”. – E, com o esforço da ‘abstração filosófica’, quanto mais superarmos o acessório e contingente – mais captaremos a realidade em sua essência e concretude – apreendendo o significado efetivo das partes no todo, e o do todo em relação às partes. Do texto: ‘A Filosofia como Autoconsciência de um Povo’ (M. Reale)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
Esse post foi publicado em epistemologia e marcado , . Guardar link permanente.

2 respostas para Toda Educação Filosófica… É Cosmológica!…

  1. jmfc disse:

    Relevante, como sempre.

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