Um Mergulho na Fenomenologia de Merleau-Ponty

“A ciência nos fornece a ideia do universo onde nos encontramos… A posição do homem no Universo – por sua vez… – será sempre um ponto de vista filosófico”. (Ilya Prigogine)  

visívelinvisívelEm um curso…ministrado entre 1956/57 – sobre o conceito de Natureza…Merleau-Ponty (1908-1961)  afirmou que o problema ontológico é aquele ao   qual todos os outros se subordinam… e, por isso, a ontologia não pode identificar o Ser com um Deus,  o Homem, ou Natureza. Essa posição é reafirmada  na última nota de seu livro inacabado ‘O visível e  o invisível’…onde estão tipificados 3 “impulsos filosóficos” a serem evitados: a) teológico… em   que o ‘Absoluto’ é o ‘ponto de partida’; b) pseudo humanismo, onde a subjetividade é pressuposto básico para um “solipcismo”…e, c) ‘naturalismo cientificista‘, tipo de ‘materialismo reducionista’   que faz da natureza seu próprio processo objetivo.

Essa última referência de ‘O visível e o invisível é bem paradoxal. – Nela encontramos, retrospectivamente, o projeto que guiou toda sua obra, mas também a criação de um novo pensamento, incluindo uma crítica ao caminho, pelo qual o próprio filósofo havia trilhado.

Consciência & Percepção                                                                                                          “0 mundo não é aquilo que penso; mas aquilo que vivo…sou aberto ao mundo, me comunicando com ele… mas não o possuo – ele é…inesgotável” . (Merleau-Ponty)    

Desde as suas 2 primeiras obras – ‘A estrutura do comportamento’… e ‘Fenomenologia da percepção’, Merleau-Ponty dera um lugar central à crítica do naturalismo das filosofias empiristas e do positivismo científico, bem como do humanismo, ou seja da ‘filosofia da consciência’ (inaugurada por Descartes…e levada adiante pelo “idealismo transcendental” de Kant e Husserl). – Há nessas obras, intensa interrogação sobre a herança deixada pelo racionalismo moderno… — da cisão entre o pensamento corpóreo (“tecno-empirista”) tomado como pura exterioridade das coisas; e o pensamento reflexivo (“racionalista”) no interior consciente de si mesmo, em uma “intelectualização retórica conceitual.

Fundada na cisão entre sujeito e objeto, a herança deixada pelas filosofias reflexivas foi  a separação e oposição entre… corpo e alma – matéria e espírito – mundo e consciência… fato e ideia… sensível e inteligível… abandonando o mundo — pela ilusão de uma ideia de sobrevoo, por meio de uma introspectiva e autorreferencial “filosofia da consciência“.  A partir daí, o questionamento é inevitável…“Por que a ciência crê dispor soberanamente de seu objeto, enquanto o constrói como se fora um…’algoritmo’ – submetendo-o às suas definições, e a seu próprio ideal de medida?…Por que a filosofia acredita que o ‘problema filosófico’ se refere ao conhecimento…do qual deve dar conta uma consciência purificada  e legisladora que discrimina a partir de si mesma…verdadeiro e falso; real e imaginário”?

armadilha

Em A estrutura do comportamento, dedicada ao tema da relação corpo/espírito… Merleau-Ponty confronta posições behavioristas e gestálticas…em psicologia, quando afirma que… – o interesse pela “noção comportamental“…advém de sua utilidade para uma “compreensão do mundo” — que escape tanto da ‘redução mecanicista’ dos fatos psíquicos, quanto da assimilação do psiquismo à consciência pura. — Por essa noção pensada como “estrutura”, distinguem-se as ordens física, biológica, humana.    A elaboração da ideia de “ordem humana“…como instituição da ordem simbólica cultural…efetuada pela percepção – pela linguagem…e pelo trabalho, assegura sua singularidade, em relação às demais.

Contudo, o referencial de Merleau-Ponty ainda conserva ‘ressonâncias’ da antropologia filosófica, outorgando à consciência perceptiva, e não à percepção…o ‘papel central’. 

Afastar-se da tradição das filosofias da consciência, e empirismo positivista é buscar uma ‘razão ampliada’…abandonando, respectivamente, a ilusão da ‘subjetividade total’…e, seu outro lado…a ‘objetividade pura’ – construída por um pensamento… que se julga tornar a filosofia, não uma ‘explicação’…mas, uma ‘interrogação interminável‘. – No seu livro ‘Fenomenologia da Percepção‘ (1945)…a crítica de Ponty se volta contra um “pseudo intelectualismo” das ‘filosofias da consciência’…em especial…as filosofias do “idealismo transcendental“…que – levando a…”cisão cartesiana”…entre o corpóreo e o anímico às derradeiras consequências… – afirmam que: a ‘subjetividade’ constitui a realidade, ou constrói o mundoa partir de si mesma. – Na verdade pelas ideias de Ponty:

“O mundo é mais velho que nossa consciência, e sua percepção estabelece  para sempre nossa ideia da verdade. Com efeito…a verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo, mesmo antes de sua apropriação intelectual”.

E, já que a percepção funda nossa ideia da verdade; nosso corpo é iniciação ao mistério do mundo e da razão. – Graças a ele… espaço, tempo, sexualidade, linguagem, visão, emoção, pensamento e liberdade surgem na trama dos acontecimentos corporais… e – destituem a consciência reflexiva de seu insensato ‘papel soberano‘ de constituir um “projeto de posse intelectual do mundo”… – A crítica a esse “pensamento possessivo”…é a afirmação de que filosofia e ciência não são a fonte do sentido; não havendo um ‘ponto de partida‘ absoluto (Deus/Homem/Natureza), mas um ‘background‘…inerente ao mundo – a ser investigado.

Espírito selvagem/Ser bruto/Carne do mundo                                                              Que laço amarra, num tecido único, experiência, criação, origem…e Ser?…                            Aquele que prende o Espírito Selvagem e o Ser Bruto… à ‘Carne do Mundo’. 

http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-2/voce-conhece-ibere-camargo-842240.shtml

Espírito Selvagem é o espírito da práxis que quer e pode alguma coisa, mas que não saberia concretizar isto senão…experimentando – sendo ele mesmo essa própria atividade vinda de uma força…e uma carência… que exigem preenchimento significativo. O sentimento do querer/poder, e da falta…suscitam a ação significadora; experiência ativa de determinação do indeterminado. 

O pintor desvenda o invisível… – o escritor quebra o silêncio… – o pensador interroga o impensado!…Realizam um trabalho – no qual exprime-se o “co-pertencimento” de uma intenção e gesto, inseparáveis de um sujeito que só se efetua como talporque sai de si, para expor sua interioridade como obra e criação, fazendo vir ao ser algo imponderável.

O ‘Ser Bruto é um sistema de equivalências diferenciado e diferenciador…no qual há o mundo…É o ser de ‘indivisão’ que não foi submetido à separação (metafísica e científica) entre alma e corpo, sujeito e objeto, percepção e pensamento, consciência e mundo. Não    é positividade substancial idêntica a si mesmo, mas diferença interna, onde linguagem e inteligível se entrecruzam em multidimensões simultâneas, guiadas na intuição sensível.

Carne do Mundo é o que é visível por si mesmo…dizível por si mesmo…pensável por si mesmo, sem contudo, ser um ‘pleno absoluto’e sim, paradoxalmente, um ‘pleno poroso’, pelo qual um positivo contém nele mesmo, o negativo que aspira ser uma ausência no Ser. Não sendo, portanto, presença plena – mas habitada por uma ausência…que não cessa de aspirar pelo preenchimento…e que, a cada plenitude, remete a um vazio, sem o qual nada poderia vir a ser. É por diferença…que há o alto e o baixo, o próximo e o distante, fazendo existir o espaço como qualidade ou pura diferenciação de lugares. – É por diferença entre sons e signos que uma língua existe…e se constitui como sistema expressivo – pois sons e signos não são átomos isoláveis… mas pura relação – posição/oposição… ruído x silêncio.

Se o Ser exige criação – para que dele tenhamos “experiência” – em contrapartida…não deposita toda a iniciativa do vir-a-ser na atividade do ‘Espírito Selvagem‘… apesar de  compartilhar do seu trabalho criativo…dando o fundo do qual, e no qual a criação emerge.

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Filosofia e arte – juntas … não são colocações arbitrárias no universo cultural, mas contato integral com o ‘ser’… – justo enquanto ‘criação’. Mas, por que criação?… – Porque, entre a realidade, instituída como um fato, e a essência secreta que   a sustenta por dentro…sempre há   o momento no qual o ser…vem a ser. E… é justamente por tatear ao redor da intenção de exprimir alguma coisa — para a qual não há modelo que lhe garanta acesso ao Ser que essa “experiência criativa” acontece, pois é esta ação que abre a via de acesso à sua causa.

Na verdade, o que torna possível essa “experiência criadora” é a existência de uma lacuna a ser preenchida…sentida pelo sujeito como uma intenção muito precisa e determinada de significar algo, cujo trabalho para tanto, representa o próprio caminho para preencher seu vazio, e definir sua indefinição; trazendo à tona tudo que nunca antes havia se expressado.

A experiência: uma iniciação aos mistérios do mundo                                                  A experiência é diferenciadora, mas a diferenciação não existe por si                                  própria, manifesta-se nela…porque é o mundo que se faz a si mesmo,                                  como – visível /invisível … dizível /indizível … pensável /impensável.

A ciência, empregando instrumentos técnicos, constrói o mundo como ‘objeto em geral’, destinado a ser apenas aquilo que lhe é permitido ser, pelas operações que o construíram. A filosofia, por seu turno…erige-se em ‘sujeito universal’ – que de lugar algum, e tempo nenhum, ergue-se como puro olhar desencarnado – para, soberanamente…contemplar o mundo dominando-o por representaçõesconstruídas em sutis operações intelectuais.

tradição filosófico-científica, e seu efeito principal – a tecnologia, acarreta no abandono do mundo (anterior à nossas representações) ao ‘pensamento‘, encarnado    num corpo que pensa por contato às coisas materiais de um modo oblíquo e indireto.  Contudo… – buscá-las é desamarrar os laços do pensamento à tradição filosófica… e recomeçar a interrogação – interpelando de um lado, as obras filosóficas, para nelas encontrar as questões que as fizeram nascer e viver, em seu tempo e sua hora. E, por     outro lado interpelando a obra de arte como abertura para aquilo que a ciência, bem   como a filosofia, deixaram de interrogar… ou… imaginaram… já haver respondido.

Se o mundo é ‘carne‘… ‘interioridade’ e a consciência está originalmente encarnada, a experiência já não pode ser o que era para  o empirismo, apenas resposta a estímulos sensoriais externos… — nem o que era, para o intelectualismo…atividade de inspeção intelectual do mundo. Percebida doravante, como modo de ser…e existir… a experiência será o que sempre foi…uma “iniciação aos mistérios do mundo“… A velha ‘tradição filosófica’ jamais aceitou que a ‘experiência’ se tornasse ato selvagem de ‘querer/poder’,  inerência de nosso ser ao mundo…A fim de domesticá-la – a filosofia sempre procurou refúgio no ‘caminho neutro’ da experiência.

Tida como região do conhecimento confuso ou inacabado … a experiência só poderia tornar-se conhecível e inteligível se transformada numa representação ou pensamento experimental…de ver…falar…e pensar. Assim procedendo…a tradição – tanto empírica, quanto racionalista…cindiu o ato da experiência na esfera do conceito. Compreendê-la exigia destacar-se dela… para poder então explicá-la. Assim, em lugar da compreensão    da experiência, obtinha-se um ‘auto-discurso’ para silenciá-la… enquanto ‘fala própria’.

Ao fazer falar a experiência como “fissão no ser”…Ponty leva-nos de volta ao recinto da ‘encarnação‘ — abandonando aquela maneira desenvolta com a qual a filosofia julgava poder explicá-la… – perdendo-a… Agora, já não se trata mais de explicar a experiência, mas de decifrá-la nela mesma – sem precisar da separação, para poder compreendê-la.      A experiência é o que em nós se vê quando vemos…se fala quando falamos…e se pensa      ao pensarmos… Assim o próprio ser divide-se por dentro, sem se separar de si mesmo.

Visíveldizívele pensante… nenhum destes termos é origem;              não existem em si como coisas ou ideias… – operações do sujeito;                  ou causas que correspondam à…visão, linguagem e pensamento. 

A cisão dos termos, que os distingue, sem separá-los…e os une sem identificá-los, só se faz possível por uma ‘coesão interna’… equilibrando-se no ‘entrelaçamento’ dessas dimensões simultâneas do Ser. E a experiência é a forma que mantém sua própria manifestação; pela qual seus termos são reversíveis, e sem a qual não existiria, como não há figura sem fundo. Assim, se o fundo é ausência que pede presençavazio que pede preenchimento, também é, e simultaneamente, um excesso…que nos leva a buscar novas ideias e expressões – é o excesso do que queremos exprimir sobre o já expresso. A cultura sedimenta e cristaliza as expressões; mas o instituído carrega um vazio e um excesso, que pedem novas expressões.

http://www.webartigos.com/artigos/da-filosofia-da-consciencia-ao-giro-linguistico/28353/O mistério da linguagem                                            Não há um pensamento total que pensaria tudo,          e completamente…pois, para pensar é preciso o impensado…que faz pensar, e…dá o que pensar.

Esse fundo imemorial, essa ausência que suscita uma presença – é inesgotável. Não há uma visão total que veria tudo e completamente, pois para ver é preciso a profundidade, e esta nunca pode ser vista… – Não há uma linguagem total…completa – pois sem o silêncio para intercalar palavras estas não poderiam ser ditas.

Filosofia e ciência têm sonhado com o ideal de uma “linguagem transparente” … dócil a conceitos e operações científicas – puramente instrumental  cuja função seria traduzir ideias silenciosas em si mesmas… Sonham com uma linguagem, que dissesse tudo… e o dissesse tão plenamente … como se traduzisse a perfeita expressão de um texto original.    Sonham com uma linguagem reduzida a ‘algoritmos unívocos’, como os da matemática; completa…direta, sem ambiguidades. – E em certo sentido, a linguagem só tem mesmo     a ver consigo própria. – No monólogo interior, como no diálogo, não há pensamentos… são palavras… que palavras suscitam’ – e…na medida mesma em que pensamos mais plenamente, elas preenchem, exatamente, nosso espírito nossos mistérios profundos.

Como o sensível, a linguagem é também misteriosa… O mistério é que,         no exato momento em que a linguagem está obcecada consigo mesma,         é lhe dado – assim como por excesso, abrir-nos a um novo significado.  Mas, de que forma a linguagem…’significa’?… – De um modo indireto,          e alusivo… não designa um sentido, presentifica-o através de “signos”. 

misterio-da-casa-ao-ladoA linguagem é mistério, porque presentifica significações… – transgride a materialidade sonora e gráfica, invade a imaterialidade…e — corpo glorioso e impalpável… acasala-se com o invisível. – Não é instrumento…para traduzir…”significações silenciosas”…É por elas habitada…Não é meio…mas, “modo de ser”. – Ou melhor, um “Sernela mesma.

Sem dúvida, a palavra é expressiva… Temos o sentimento de que nossa linguagem exprime completa e diretamente as significações… Todavia, esse sentimento de completude deve-se apenas ao fato de que a nossa língua nos insere em um mundo cultural — o qual ela parece exprimir completamente… muito embora, realmente, não o faça, nem possa fazê-lo…sobre um fundo interior primordial e inesgotável de silêncio. Porém, que linguagem é esta… cuja força só existe…quando não se reduz a ser uma mera designação de coisas…ou mera cópia de pensamentos?… – Não é a linguagem empírica da vida cotidiana, já instituída em nossa cultura – é a linguagem criadora do escritor … quando este imprime nela uma deformação coerente…roubando-lhe, portanto, o equilíbrio – para fazê-la significar… – e dizer o ‘novo’.

merleau-ponty

“Quando a linguagem renuncia a dizer a própria coisa…a diz peremptoriamente.”  

O mistério da linguagem está em que esta só se exprime… — quando se faz esquecer, e só se deixa esquecer… quando consegue exprimir… – Ao sermos cativados por um livro – não vemos letras… ou sinais sobre uma página … mas, participamos de uma aventura que é pura significação, ou seja, ‘linguagem‘… – Segundo Merleau-Ponty: 

“Um livroé uma‘máquina infernal‘…de criar signos e significados”.

Preguiçosamente…começo a ler um livro…Contribuo com alguns pensamentos…julgo entender o escrito, porque conheço a língua, e as coisas indicadas pelas palavras, bem como sei identificar as experiências ali relatadas… Escritor e leitor possuem o mesmo repertório disponível de…palavras…coisas…fatos…depositados pela cultura instituída, sedimentados no mundo de ambos. De repente porém, algumas palavras me “pegam”.  Insensivelmente o escritor as desviou de seu sentido comum e costumeiro…e elas me arrastam – como num turbilhão – para um novo sentido…que alcanço apenas graças          a elas. O escritor me invade, passo a pensar de dentro dele, e não apenas com ele; ele            se pensa em mim, ao falar em mim com palavras cujo sentido fez mudar; arrasta-me        do instituído ao instituinte. Neste momento…uma aquisição foi feita…e o livro agora pertence às significações da cultura. – Se… eu também for escritor … recolherei essa tradição instituída – para… ao retomá-la, reabrir a linguagem numa nova instituição.

TotalidadeCultural e Histórica                                                                                          ‘Estamos mergulhados numa totalidade, simultânea e aberta – onde o presente pede      um porvir … exigindo o futuro – não como finalidade – mas, restituição do passado’.

Como a pintura, a literatura é retomada de uma tradição mais antiga do que ela…a do mundo perceptivo…e é abertura de uma nova tradição…a da “obra cultural”. — Assim como o pintor tateia entre linhas e cores… para fazer surgir no visível um novo visível, também o escritor tateia entre sons e sinais, para fazer surgir na linguagem uma nova linguagem. – Essas operações instituem o ‘mundo cultural’… como ‘mundo histórico’.

“É preciso ir a museus e bibliotecas, numa    tarefa infinda…a ser sempre recomeçada”.

Exprimir é empregar os meios disponíveis oferecidos pelo mundo da percepção…e da cultura…instituindo uma nova coerência e equilíbrio…a serem retomados numa nova expressãoEis porque a história das obras de arte…e do pensamento, em geral, não é uma história empírica de “feitos isolados“, nem racionalmente linear; é de ‘adventos’. 

O “acontecimento” esgota-se ao acontecer. O advento porém é o excesso da obra em meio às intenções do autor – aquilo que sem ele inexistiria…deixado como ‘lacuna‘ a ser mais tarde preenchido/experimentado… – Já a memória é a retomada das obras pelos artistas e pensadores, que as refazem; não para repeti-las…mas renová-las. E, a unidade temporal das artes, literatura ou filosofia é a compreensão…obliqua e indireta, que cada artista, escritor ou pensador… possui de seu trabalho – como tarefa única… e atemporal.

Quando foi feito o primeiro desenho na parede da caverna, foi prometido um mundo a pintar que os pintores não fizeram outra coisa… senão retomar, e reabrir… Quando foi proferido o primeiro canto, e o primeiro poema…foi prometido um mundo a cantar…e dizer, que músicos e poetas não fizeram outra coisa, senão retomar e reabrir…Quando      do primeiro gesto cerimonial – foi prometido um mundo a dançar… e a esculpir – que dançarinos e escultores não fizeram outra coisa senão retomar e reabrir. E, da mesma forma ao ser expresso o primeiro pensamento, foi prometido um mundo a pensar que, cientistas e filósofos, até hoje… – não fazem outra coisa… – senão retomar…e reabrir.

A origem da verdade não está fora do tempo – mas…na abertura de cada momento do conhecimento para aqueles que irão retomá-lo e transformá-lo em seu próprio sentido.   A história das artes, da literatura, da ciência, da filosofia e ação política…é maturação     de um futuro, e não sacrifício do presente…por um futuro desconhecido. A única ‘regra     de ação’ para o artista, o escritor, o pensador e político, não é que sua ação seja eficaz, mas sim, que seja fecunda. (Marilena Chauí, filósofa e professora da USP)  ‘texto base’  ********************************************************************************** 

merleau-pontiAFenomenologia da Percepção                   “O inacabado de uma filosofia do inacabamento é duplamente desconcertante” … (Paul Ricoeur)

Tal afirmação…(acima)…por ocasião da morte de Merleau-Ponty… traduz o quanto ficou abalada a filosofia contemporânea pela brusca interrupção  da notável obra do mais autêntico – e, ao mesmo tempo mais profundamente original discípulo da filosofia husserliana. Merleau-Ponty, talvez mais  que qualquer outro filósofo de sua geração  –  foi quem manifestou autênticas qualidades exigidas;  a saber…’perplexidade‘…e…anseio constante em  reaprender a ver o mundo… O caráter inacabado  de sua obra – não se define … só pela inesperada interrupção – causada por sua morte prematura, em l96l… – pois o próprio Merleau-Ponty não deixou de insistir – como aliás, seu mestre Edmund Husserl já o fizera…no caráter preliminar da filosofia, do seu eterno recomeçar; que recusa toda cristalização da obra, em sistema fechado. – Ele via no inacabamento da fenomenologia – da qual foi, e ainda permanece por suas obras…um dos mais brilhantes representantes…não apenas um sinal de fracasso, indefinição, mas o reconhecimento da fertilidade de sua verdadeira tarefa derevelar o mistério do mundo, e da razão“.

Outros filósofos da existência usaram o ‘método fenomenológicochegando mesmo a entrelaçar Fenomenologia e Existencialismo…Porém, em nenhum deles a fenomenologia e a existência foram articuladas de modo tão explícito e harmônico como na filosofia de Merleau-Ponty. No prefácio à Fenomenologia da Percepção, Ponty expõe sua concepção, reassumindo…por força de sua criatividade, as trilhas de Husserl… Podemos até afirmar que – pelos breves parágrafos deste prefáciopassamos a ver a fenomenologia de Husserl, como um modo de pensar a busca do sujeito no mundo…na História e na própria Filosofia.

Georg_Hegel

Fenomenologia como método

Em 1936 Merleau-Ponty publica um trabalho ‘Existence et dialetique’, no qual reconhece sua filiação a Hegel. Em artigo publicado 20 anos depois   (“O existencialismo de Hegel”), Merleau-Ponty, então… admite que:

Hegel está na origem de tudo o que se realizou de grande em Filosofia há um século o marxismo… Nietzsche… a Fenomenologia… o Existencialismo alemão… a Psicanálise. Ele inaugura a possibilidade de explorar o ‘irracional’ – e integrá-lo, em uma razão ampliada; que permanece sendo a tarefa de nosso século. Ele inventou…a razão mais compreensível que o entendimento – capaz de respeitar a variedade e singularidade do psiquismo … das civilizações, dos métodos de pensamento, e contingências da História – não renunciando, contudo, à sua própria verdade”. Ler e interpretar Hegel, para Merleau-Ponty…é tomar posição sobre todos problemas filosóficos, políticos e religiosos de nosso século. Segundo Ponty pode-se falar num ‘Existencialismo de Hegel’, no sentido em que ele não se propõe  a encadear conceitos – mas sim…revelar a lógica imanente da ‘experiência humana‘…em todos seus setores. O homem não é (para Hegel) uma consciência nítida; que possui seus próprios pensamentos, mas sim uma vida dada a si própria que procura compreender-se,  a si mesma. Toda ‘Fenomenologia do Espírito‘ descreve tal esforço, de ‘auto-recuperação’.

Merleau-Ponty também afirma que…se a Fenomenologia é considerada como o “estudo das essências”… ela é também uma filosofia, que recoloca as “essências” – na existência. “Longe de ser – como se acreditava, uma filosofia idealista, a redução fenomenológica é expressão de uma filosofia existencialEm sua filosofia neste ‘processo reducionista’, a noção de “intencionalidade” exerce um papel singular…deixando de ser propriedade da consciência, para se tornar característica do sujeito voltado ao mundo…Segundo Ponty:

http://blogdotataritaritata.blogspot.com.br/2013/03/husserl-fenomenologia.html

Edmund Husserl (1859-1938)

“Fenomenologia é uma ‘filosofia transcendental’, para a qual não se pode entender o Homem…e o mundo – senão a partir de sua ‘facticidade…em uma descrição direta de nossa experiência…sem mirar sua veia psicológica…ou relações causais”.

Ao relacionar o sentido da Fenomenologia à sua articulação como existência concreta, preconiza Ponty entãouma novasubjetividade”…como consciência que se abre ao mundo objetivo”…e        no caso de Husserl como consciência reduzida constituída. Através de sua concepção de fazer      do corpo…”sujeito da percepção“, Ponty vai          à… “raiz da subjetividade“… afirmando que:     “Ao tornarmos o ‘corpo‘, sujeito da percepção,        rejeitamos assim o formalismo da consciência”. 

E, para explicar uma “atitude natural“…a Fenomenologia – numa resenha histórica do espaço e tempo do mundo vivido, se torna ‘filosofia transcendental’, com a ambição em ser…”ciência estrita”…Conforme Ponty, a relação do sujeito e objeto, não é a relação de conhecimento da qual dizia o idealismo clássico, onde o objeto surge como constituído pelo sujeito – mas sim… numa relação segundo a qual – paradoxalmente… o Ser é seu corpo… – seu próprio mundo… estabelecendo com este, de certa forma, uma ‘permuta’.

EmExpérience et jugement’, Husserl afirmou…“O retorno ao mundo da experiência é       o retorno ao mundo da vida – isto é … ao mundo no qual já vivemos sempre… – e que constitui o solo de toda operação de conhecimento, e de toda determinação científica”. Merleau-Ponty reconhece este retorno ao “mundo da vida”… como a contribuição mais importante da “filosofia husserliana”. (texto: Newton Aquiles von Zuben /UNICAMP)    ******************************(texto complementar)******************************

Fenomenologiae sua articulação com a “existência”                                              Filosofia não é Ciência, porque esta acredita poder ‘sobrevoar’ seu objeto, enquanto que, na Filosofia, quem questiona é questionado, por sua própria demanda”. (Merleau-Ponty)

edmund-husserl

Segundo Merleau-Ponty, a tarefa da Fenomenologia é descrever as coisas…mas não explicá-las como uma realidade em si…Isso porém, parece criar conflitos de interesse entre Ciência e Filosofia… – ao se  interpretar tal ideia… – como um  “subjetivismo fenomenológico”… frente um ‘objetivismo científico’.

O próprio Ponty esclarece sua melhor posição — com o intuito de evitar novos equívocos:  “Há um ‘desmentido da ciência‘, na medida em que esta se faça considerar como uma exterioridade mútua das partes…ligadas por relações de causalidade… o que conduz ao ocultamento de nossas relações com as coisas…Tal desmentido visa, não à ciência em si, mas ao suposto caráter absoluto das teorias empiristas, que assim como o racionalismo, pressupõem, sem explicitar, aquilo que julgam. Tudo o que sei a respeito do mundo eu    o sei por minha experiência de vida…sem a qual os símbolos da ciência não seriam nada”.

Nosso corpo é sempre o “corpo próprio” – unidade indissociável entre corpo e consciência, sinônimo vivido da existência pessoal do sujeito. Não é ‘um’ corpo, ou ‘o’ corpoé alguém. Dizer que… ”tenho um corpo” – equivaleria a reduzir parte dessa existência pessoal a uma “coisa” ou “objecto” … que, entre outras coisas e outros objectos ao redor do indivíduo, ele pode conhecer à distância…A consciência segue o movimento geral da existência, e molda-se a ela, porque nosso corpo está no mundo…assim como o coração está para o organismo.

O lema que Husserl atribui à…”pseudofilosofia” – de ser uma ‘psicologia descritiva’…ou,  de retornar às coisas mesmas…é um desmentido à ciência. – O ‘retorno às coisas’ não se identifica com o voltar ao objeto da ciência… — muito menos, com voltar-se para dentro  de si…para o interior da consciência, em um ‘subjetivismo’… Mas então, o que significa?

Retorno às coisas mesmas

Para Merleau-Ponty, retornar às coisas mesmas…é voltar-se para um mundo prévio a todo ‘conhecimento’ – com relação ao qual — toda ‘determinação científica’ é sempre ‘abstrata’.  É a volta ao mundoantes da reflexão…ao mundo vivido e irrefletido – sobre o qual a ‘esfera da ciência’ se constrói. 

De acordo com Merleau-Ponty…tanto Descartes quanto Kant introduzem na relação cognoscitiva uma consciência, testemunha desta mesma relação, liberando o sujeito,      ou a consciência, fazendo ver que o eu não apreenderia nada se, em 1º lugar, não        se sentisse existindo no ato de apreendê-la. – Portanto, afirmar a…supremacia da consciência sobre o objeto…é reconhecer que este surge da atitude sintética do sujeito. E isso é afirmar que a…”relação cognoscitiva”…parte da existência prévia de    uma ‘consciência relacional‘, para daí constituir o objeto…A ‘consciência’ porém, não        se resume à tarefa de construir um mundo real da reflexãoAdmitir isso é negar a      nossa abertura essencial ao mundo, ou seja, a ‘percepção‘, como bem explica Ponty:

“O real é um tecido sólido que não espera nosso juízo                                    para se anexar aos fenômenos mais surpreendentes;                                      nem rejeitar nossas imaginações…mais verossímeis”.

A “descrição”, como consequência da percepção… não é uma ciência do mundo – nem mesmo uma tomada de posição deliberada. Ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam… sendo pressuposta por eles. – Se o real deve ser descrito, e não construído,   quer dizer que não posso identificar a ‘percepção’, das sínteses da ordem do juízo, dos   atos e da predicação. E o mundo assim, deixa de ser um ‘objeto constituído’ (como o é   para a ciência) para transformar-se no ‘meio natural’ de todos meus ‘pensamentos’…e percepções explícitas. – De novo, vemos aí, a importância atribuída por Ponty à nossa abertura ao mundo que leva diretamente à negação do solipsismo. O retorno às coisas          é a recuperação do sentido da vida, no mundo exterior, pela ‘redução fenomenológica’.

“A verdade não habita o interior do homem – a verdade                                      está no mundo… – e, é nesse mundo… que ele a conhece”.

fenomenologia

Husserl propõe o conceito de “redução fenomenológica”, que passa a ser central na fenomenologia – a estrutura e os conteúdos da consciência são profundamente distorcidos pela maneira que nos engajamos na vida cotidiana. No sentido de se assegurar contra teorizações, Husserl propôs a “epoché fenomenológica”, ou suspensão da tese do “mundo natural”. A redução é a operação pela qual a existência efetiva do mundo é posta “entre parêntesis” para que a investigação se ocupe só com operações realizadas pela consciência, sem se perguntar se as coisas visadas por ela, realmente existem ou não.

“Redução fenomenológica”      Não há certamente nenhuma outra questão…sobre a qual Husserl tenha  se dedicado mais tempo… do que…à  redução fenomenológica, que ocupa em sua obra, um lugar de destaque”.

Com esta frase… — Ponty se uniu à maioria dos intérpretes de Husserl que consideram a redução, um dos ‘pontos críticos’…e mais difíceis da ‘fenomenologia‘. – Em Husserl… a redução aparece sob várias formas, segundo a própria evolução de seu pensamento. No início, a “redução fenomenológica” era tida…como a colocação…”entre parênteses“…da existência das coisas…presa pois a um duplo pressuposto racionalista.  Inicialmente…a existência seria separável do sentido das coisas.  A seguir seria colocada em dúvida.

Tal concepção é válida no âmbito epistemológico do século XIXna perspectiva de uma consciência/interioridade, fechada sobre si mesma, a configurar um ‘exterior’. – Tal tese racionalista da… “consciência como representação“…descreve um outro aspecto da redução, que se manifesta no lema ‘retorno às coisas mesmas’, isto é, às ‘coisas naturais’, tais como aparecem antes de qualquer alteração, gerada pela filosofia ou saber científico.  Mesmo sendo o objetivo primeiro da ‘redução fenomenológica’ mostrar a necessidade de um “elemento puro“, que possa servir de ponto de partida a um fundamento absoluto do conhecimento – a saber… ocogito… Merleau-Ponty considerava esta atitude como um ‘idealismo transcendental’, por refletir a ruptura entre a consciência…e o ‘cogitatum‘.

Merleau-Ponty, mantendo como elemento fundamental o compromisso da consciência…e sua intencionalidade, afirma que…“A redução é a única forma de reflexão que não anula o irrefletido…mas, o manifesta como seu fundamento”…Para ele, colocar entre parênteses o mundo, através da redução…significa sua própria revelação. – E assim, complementa…“O verdadeiro transcendental é o mundo”…Não o ‘Ser’ (Heidegger), ou a ‘existência’ (Sartre).

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‘Pescadores ao mar’, 1796 – J. M. W. Turner

“A redução é… como o retorno a uma consciência transcendental diante da qual…o mundo se põe, numa ‘transparência’ absoluta”.

Assim Merleau-Ponty procura atingir uma autêntica…”reflexão fenomenológica”, que sirva para nos conscientizarmos do mundo, em toda a sua possível realidade.  Para ele, a finalidade da redução não é isolar-nos do mundo, para uma ‘consciência pura’, mas sim  para uma… ‘filosofia existencial’.

A estrutura da ‘reflexão fenomenológica’ tem finalidades bem precisas. – Antes de tudo, superar o solipsismo de cunho intelectualista; e em seguida, superar a tese, defendida pelo racionalismo – referente à ‘construção do objeto por parte do sujeito’ – afirmando, com ênfase, a preexistência do mundo sobre a ‘reflexão’ (pelo método fenomenológico).

Pela redução, tal como a concebe Merleau-Ponty, é superada a noção de consciência fechada sobre si mesma, tida como ponto de partida, e garantia primordial do saber.         Ponty nos ensina a reconhecer nela…“o projeto de mundo, destinada ao mundo que         ela não abarca, nem possui… – mas… em direção ao qual ela não cessa de se dirigir”.          E assim, também a redução nos mostrou o mundo tal como ele é, antes de qualquer retorno sobre nós mesmos…“0 mundo não é aquilo que penso, mas aquilo que vivo;        sou aberto ao mundo, me comunico com ele, mas não o possuo … ele é inesgotável”.

Para Ponty a ‘concepção científica’ se fundamenta na experiência do mundo                naturaldo qual ela não é senão “explicitação”. Já a ideia de ‘consciência’                      como – ‘representação do mundo’ ao longo da evolução do pensamento                        de Husserl foi afinal sendo superada pela noção de…”intencionalidade”. 

kant-frase

 “intencionalidade”

Desde o inicio do parágrafo, onde aborda a noção de intencionalidade, Merleau-Ponty  faz uma observação importante … a saber:  “que ela só é compreensível pela redução”. 

Como diz Merleau-Ponty, Kant…em sua Refutação do Idealismo“…mostrou que:

“a percepção interior é impossível sem a percepção exterior, e que o mundo como conexão de fenômenos… se antecipa, em     uma…’consciência inata‘…do indivíduo”.

Nas ‘primeiras investigações’, a ‘intencionalidade’ é colocada no âmbito da “expressão”. A palavra para Husserl é sempre significativa, não podendo ser reduzida a seu caráter físico. A este propósito… Merleau-Ponty aponta que Husserl distingue a intencionalidade de ato – aquela de nossos juízos e decisões voluntárias…da intencionalidade operante: “A que faz a unidade natural ‘antepredicativa’ do mundoe de nossas vidasaparecendo em nossos desejos e apreciações com mais evidência que no conhecimento objetivo”.  Esta noção ampliada de intencionalidade permite distinguir o saber ‘fenomenológico’, da ‘intelecção clássica’Desse modo, Merleau-Ponty retoma a intencionalidade husserliana, desvinculada de seu…”caráter solipsista”… – observando que tal distinçãonão pode ser concebida no âmbito de uma consciência pura. Como observa Alphonse De Waelhens:

“O objetivo da intencionalidade é reconhecer que a consciência é abertura… disposição ao outro, negação do repouso, em si, e sobre si mesma – e assim, portanto, de certo modo, também negatividade“.

Logo…entende-se a preocupação obstinada de Merleau-Ponty em negar a ideia de uma ‘consciência representativa’…preocupação aliás, presente em Husserl. Conforme Ponty, devemos reconhecer a consciência como um ‘projeto do mundo’…o qual ela não abarca nem possui mas, em cuja direção…não cessa de se dirigir… Nesse sentido…há uma identificação da “intencionalidade operante“, com toda atividade do sujeito que deixou      de ser propriedade de uma consciência isolada. – É a própria abertura ao mundo, de    um sujeito carnal/corporal. – Na verdade…a característica primordial de nossa relação com o mundo não é a “percepção predicativa”, mas sim, a “percepção carnal/corporal”.

Desde que acertadamente se resolveu identificar consciência e intencionalidade, deve-se, de imediato, rejeitar a consciência como transparência…concebendo irredutivelmente, o ser consciente como um ‘ente real‘, ‘espírito encarnado‘. A intencionalidade para Ponty…é uma ‘relação dialética’ de onde surge o ‘sentido“Porque estamos no mundo, estamos condenados ao sentido…assim, não podemos fazer ou dizer nada que não tenha um significado na história”. O sentido surge de nossa relação com o mundo…e os outros. E, para Merleau-Ponty…este sentido é inextricavelmente misturado com o ‘não-sentido’, uma vez que a redução não é jamais completa…O mais importante feito fenomenológico foi ter unido extremos subjetivista e objetivista em sua noção de mundo e racionalidade.

paisagem

noção (“inerente”) de mundo

A noção de mundo, tal como retomada por Merleau-Ponty… se tornou um dos principais legados fenomenológicos ao pensamento filosófico contemporâneo. O mundo – segundo Ponty, não é o ser puro…“mas, o sentido que transparece na interseção, de minhas experiências, com as do outro pela “engrenagem”  da…subjetividade/intersubjetividade”. 

A tarefa da Fenomenologia é revelar este mundo vivido antes de ser significado – mundo onde estamos, solo de nossos encontros com o outro, onde se descortinam nossa história, nossas ações, nosso engajamento…e decisões. – Como explicitado nas palavras de Ponty:  “E’ ao mundo que devemos creditar nossa…’condenação ao sentido’ – não contemplação ou construções de significados, mas sim inerência na ação histórica e política. Temos em mãos nossa sorte; pela reflexão e também por uma decisão de engajamento em tornamo-nos responsáveis pela História… – A verdadeira Filosofia… é reaprender a ver o mundo.”

Que me seja permitido para concluir, transcrever um trecho escrito por Paul Ricoeurem seu livro “História e Verdade”, que revela a importância, o sentido, e alcance da noção de mundo… que se aproxima daquela de Merleau-Ponty. – Em resumo, assim disse Ricoeur:

“0 mundo não é mais a unidade de um ‘objetivo abstrato’…de uma forma da razão – mas sim, o horizonte mais concreto de nossa existência, sendo que é a nível da percepção que se destaca esse horizonte único de nossa vida humana… A percepção é a matriz comum de todas atitudes. – É no mundo percebido da minha ‘existência carnal’ – que se erguem laboratórios … se realizam cálculos matemáticos… casas… bibliotecas… museus e igrejas. Os objetos da ciência estão nas coisas do mundoátomos e elétrons são estruturas que dão conta deste mundo onde tudo se realiza…onde o Sol se ergue e se põe…os animais suspiram pela água das fontes, e as árvores ‘batem palmas‘. É esse mundo primordial, anterior a toda multiplicidade cultural, que se transfigura em húmus…de atos, atitudes”.

Mas, que significa isso?… – Essa camada primordial de toda experiência…é a realidade prévia de todas as circunstâncias – ela é o “sempre-já-antes”. O mundo é a palavra que tenho presente na ‘ponta da língua’ … porém, quando apenas começo a proferi-la, já se tornou ausente. – A unidade do mundo é por demais preliminar para ser possuída, por demais vivida, para ser sabida… – Desaparece… mal é reconhecida. – É talvez por isso,    que uma ‘fenomenologia da percepção‘ que buscasse a filosofia de nosso estar-no-mundo seja algo tão difícil quanto a busca do paraíso. A unidade do mundo a partir da    qual todas as nossas atitudes se desdobrarão – é, tão somente, o seu próprio horizonte.

Publicado em Temas Fundamentais de Fenomenologia. São Paulo. Edit. Moraes. 1984. (Newton Aquiles von Zuben – Doutor em Filosofia – Professor Titular – ‘UNICAMP’) 

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Um Mergulho na Fenomenologia de Merleau-Ponty

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