Um Mergulho na Fenomenologia de Merleau-Ponty

0 mundo não é aquilo que penso; mas aquilo que vivo – sou aberto ao mundo, me comunicando com ele, mas não o possuo … – ele é inesgotável” … (Merleau-Ponty)

http://mikejohnduff.blogspot.com.br/2008/02/some-remarks-on-merleau-ponty-dreyfus.html

Em um curso ministrado entre 1956/57 — sobre o conceito de Natureza…Merleau-Ponty (1908-1961)  afirmou que o problema ontológico é aquele ao   qual todos os outros se subordinam — e, por isso a ontologia não pode identificar o Ser com um Deus,     o Homem… ou a Natureza.

Essa posição é reafirmada na última nota de trabalho de seu livro inacabado ‘O visível e o invisível’, que circunscreve 3 ‘impulsos filosóficos’ a serem evitados, a saber…o teológico – que coloca o ‘Absoluto’ como ponto de partida; o ‘pseudo-humanismo‘…que faz da subjetividade pressuposto básico para se chegar a um ‘solipcismo‘ … e, o ‘naturalismo cientificista‘, ‘materialismo reducionista’ que faz da natureza seu antropocêntrico “processo objetivo”.

Essa última referência de ‘O visível e o invisível é bem paradoxal. – Nela encontramos, retrospectivamente, o projeto que guiou toda a sua obra…mas, simultaneamente, também a criação de um espaço de pensamento novo… – que inclui como um de seus momentos, a crítica do caminho pelo qual o próprio filósofo já havia trilhado.

Consciência & Percepção                                                                                                         “A ciência nos fornece a ideia do universo onde nos encontramos… A posição do homem no universo…por sua vez – será sempre um ponto de vista filosófico”… (Ilya Prigogine)    

Desde as suas 2 primeiras obras – ‘A estrutura do comportamento’… e ‘Fenomenologia da percepção’, Merleau-Ponty dera um lugar central à crítica do naturalismo (das filosofias empiristas e do positivismo científico) bem como do humanismo, ou seja da ‘filosofia da consciência’ (inaugurada por Descartes… e levada adiante pelo ‘idealismo transcendental‘ de Kant e Husserl).

Há nessas obras uma incessante interrogação sobre a herança deixada pelo racionalismo moderno, qual seja a cisão entre o pensamento corpóreo (tecno-empirista) – tomado como pura exterioridade das coisas; e o pensamento reflexivo (racionalista) – dentro do interior consciente de si mesmo… em uma intelectualização retórica conceitual.

Fundada na cisão entre sujeito e objeto, a herança deixada pelas ‘filosofias reflexivas’ foi a separação e oposição entre … corpo e alma – matéria e espírito – mundo e consciência – fato e ideia — sensível e inteligível… abandonando o mundo — pela ilusão de uma ideia de sobrevoo, por meio de uma introspectiva, e autorreferencial…’filosofia da consciência‘.

http://www.webartigos.com/artigos/da-filosofia-da-consciencia-ao-giro-linguistico/28353/

Em ‘A estrutura do comportamento‘, dedicada ao tema da relação entre corpo e espírito… Merleau-Ponty confronta as posições behavioristas e gestálticas em psicologia quando   afirma que, o interesse pela ‘noção comportamental‘ advém de suas possibilidades… para uma ‘compreensão do mundo’, que escape tanto da redução mecanicista dos fatos psíquicos, quanto da assimilação do psiquismo à…’consciência pura‘.

Graças a essa noção… pensada como ‘estrutura’ – o filósofo pode distinguir entre as ordens física, biológica e humana… A elaboração da ideia de ordem humana como instituição da ordem simbólica cultural… efetuada pela percepção – pela linguagem…e pelo trabalho… assegura a irredutibilidade dessa ordem às ordens física e biológica. Contudo, o referencial de Merleau-Ponty ainda conserva ressonâncias da ‘antropologia filosófica‘ – dando à consciência perceptiva,   e não à percepção… o ‘papel central‘. 

A filosofia como interrogação(interminável)                                                                   Afastar-se da tradição das filosofias da consciência e do empirismo cientificista é buscar uma ‘razão ampliada’…abandonando a ilusão da subjetividade total, e seu outro lado, a objetividade pura, construída pelas operações de um pensamento, que se julga tornar a filosofia, não uma explicação, mas uma ‘interrogação interminável’.

No seu livro ‘Fenomenologia da Percepção’ (1945) a crítica de Ponty se volta contra o pseudo intelectualismo das ‘filosofias da consciência’ … em especial – as filosofias do ‘idealismo transcendental‘… que – levando a ‘cisão cartesiana’…entre o corpóreo           e o anímico às derradeiras consequências… – afirmam que a ‘subjetividade’ constitui           a realidade… ou, constrói o mundo a partir de si mesma… – Na verdade…para Ponty:

“O mundo é mais velho que nossa consciência, e sua percepção estabelece  para sempre nossa ideia da verdade…Com efeito, a verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo…mesmo antes de sua apropriação intelectual”.

E, já que a percepção funda nossa ideia da verdade; nosso corpo é iniciação ao mistério do mundo e da razão. – Graças a ele… espaço, tempo, sexualidade, linguagem, visão, emoção, pensamento e liberdade surgem na trama dos acontecimentos corporais… e – destituem a consciência reflexiva de seu insensato ‘papel soberano’ de constituir um “projeto de posse intelectual do mundo”.

A crítica desse pensamento possessivo é, simultaneamente, afirmação de que a filosofia e a ciência não são a fonte do sentido – e de que não há um ponto de partida absoluto… (Deus, Homem, Natureza), mas um ‘background’ inerente ao mundo, que merece ser interrogado.

Por que a ciência crê dispor soberanamente de seu objeto, enquanto o constrói como se fora um algoritmo… submetendo-o às suas definições e ao seu próprio ideal de medida? Por que a filosofia acredita que o ‘problema filosófico’ é um problema do conhecimento,     do qual deve dar conta uma consciência purificada e legisladora que discrimina a partir   de si mesma o verdadeiro e o falso, o real e o imaginário?

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Filosofia e arte — juntas — não são fabricações arbitrárias no universo cultural, mas contato integral com o ‘ser’ – justo … enquanto ‘criação’.

Mas, por que criação?… – Porque entre a realidade instituída, como um fato, e a ‘essência secreta’ que   a sustenta por dentro – há o momento no qual o Ser vem a ser… – Se esses trabalhos são criadores… é justamente por tatear ao redor da intenção de exprimir alguma coisa para a qual não têm modelo que lhes garanta acesso ao Ser… – pois é sua ação que abre a via de acesso à causa pela qual pode haver essa experiência.

Na verdade…o que torna possível essa “experiência criadora” é a existência de uma lacuna a ser preenchida…sentida pelo sujeito como uma intenção muito precisa e determinada de significar algo, cujo trabalho para tanto, representa o próprio caminho para preencher seu vazio, e definir sua indefinição; trazendo à tona tudo que nunca antes havia se expressado.

Espírito selvagem/Ser bruto/Carne do mundo                                                                Que laço amarra, num tecido único, experiência, criação, origem e Ser?…                              Aquele que prende o ‘Espírito Selvagem’ e ‘Ser Bruto’ à ‘Carne do Mundo’.              

Espírito Selvagem é o espírito de práxis que quer, e pode alguma coisa – o sujeito que não diz “eu penso”, e sim “eu quero”…“eu posso”…mas, que não saberia como concretizar isto… senão experimentando…e agindo – sendo…ele mesmo – essa própria experiência… atividade nascida de uma força e uma carência… que exigem preenchimento significativo. O sentimento do querer/poder e da falta suscitam a ação significadora…experiência ativa de determinação do indeterminado. O pintor desvenda o invisível… – o escritor quebra o silêncio – o pensador…interroga o impensado!…

http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-2/voce-conhece-ibere-camargo-842240.shtml

Realizam um trabalho no qual vem exprimir-se o co-pertencimento de uma intenção e gesto inseparáveis… de um sujeito que só se efetua como tal – porque sai de si para expor sua interioridade prática como obra … e criação… – fazendo vir ao Ser aquilo que sem ela não experimentaríamos.                                                                           O ‘Ser Bruto’ é um sistema de equivalências                                                                            diferenciado e diferenciador, no qual há o mundo. É o ser de indivisão que não foi submetido à separação (metafísica e científica) entre alma e corpo, sujeito e objeto, percepção e pensamento, consciência e mundo. Indiviso…ele não é uma positividade substancial idêntica a si mesmo – mas sim…pura diferença interna, da qual a linguagem e o inteligível se entrecruzam em ‘multidimensões’ simultâneas, guiadas pela intuição sensível.

É por diferença que há o alto e o baixo, o próximo e o distante … fazendo existir o espaço como qualidade ou pura diferenciação de lugares… – É por diferença entre sons e signos que uma língua existe e se constitui como sistema expressivo, pois sons e signos não são átomos isoláveis…mas pura relação – posição/oposição… ruído x silêncio.

Se o Ser exige criação – para que dele tenhamos experiência… – em contrapartida…não deposita toda a iniciativa do vir-a-ser na atividade do ‘Espírito Selvagem‘… apesar de  compartilhar do seu trabalho criativo…dando o fundo do qual, e no qual a criação emerge.

Carne do Mundo é o que é visível por si mesmo – dizível por si mesmo – pensável por si mesmo – sem, contudo…ser um ‘pleno maciço’ e sim, paradoxalmente, um pleno poroso, pelo qual um positivo contém, nele mesmo, o negativo que aspira ser uma ausência no Ser. Não sendo, portanto, presença plena… mas habitada por uma ausência… que não cessa de aspirar pelo preenchimento…e que, a cada plenitude, remete a um vazio…sem o qual nada poderia vir a ser.

A experiência: uma iniciação aos mistérios do mundo                                             A experiência é cisão que não separa — ponto máximo em que                                                  o Mesmo se faz ‘Outro‘…por dentro do interior de si mesmo’.

A ciência, empregando instrumentos técnicos, constrói o mundo como ‘objeto em geral’, destinado a ser apenas aquilo que lhe é permitido ser, pelas operações que o construíram. A filosofia, por seu turno…erige-se em ‘sujeito universal‘ – que de lugar algum, e tempo nenhum, ergue-se como puro olhar desencarnado – para, soberanamente…contemplar o mundo – dominando-o por representações…construídas em sutis operações intelectuais.

tradição filosófico-científica, e seu efeito principal – a tecnologia… acarreta no abandono do mundo (anterior à nossas representações) ao ‘pensamento‘…encarnado num corpo que pensa por contato às ‘coisas materiais‘, de um modo oblíquo e indireto.

Contudo… – buscá-las é desamarrar os laços do pensamento à tradição filosófica – e recomeçar a interrogação … interpelando de um lado, as obras filosóficas, para nelas encontrar as questões que as fizeram nascer e viver, em seu tempo e sua hora. E, por     outro lado interpelando a obra de arte como abertura para aquilo que a ciência, bem   como a filosofia, deixaram de interrogar… – ou… imaginaram… já haver respondido.

Se o mundo é ‘carne‘… ‘interioridade’ e a consciência está originalmente encarnada; a experiência já não pode ser o que era para o empirismo … apenas resposta a estímulos sensoriais externos…  — nem o que era para o intelectualismo atividade de inspeção intelectual do mundo.

Percebida – doravante, como nosso modo de ser e existir, a experiência será o que sempre foi: ‘iniciação aos mistérios do mundo‘.

A velha tradição filosófica jamais conseguiu suportar que a “experiência” se tornasse um ato selvagem do querer/poder, inerência de nosso ser ao mundo… – Fugindo ou buscando domesticá-la, a filosofia sempre procurou refúgio em um pensamento neutro da experiência.

Tida como região do conhecimento confuso ou inacabado … a experiência só poderia tornar-se conhecível e inteligível, se transformada numa representação ou pensamento experimental…de ver…falar…e pensar. Assim procedendo…a tradição – tanto empírica, quanto racionalista – cindiu o ato da experiência na esfera do ‘conceito’.

Compreender a experiência exigia destacar-se dela, para…pela separação, pensá-la e explicá-la. – E assim, em lugar da compreensão da experiência, obteve-se um auto-discurso para silenciá-la… – enquanto … ‘fala própria’.

Ao fazer falar a experiência como fissão no ser Merleau-Ponty leva-nos de volta ao recinto da ‘encarnação‘ — abandonando aquela maneira desenvolta com a qual a filosofia julgava poder explicá-la… — perdendo-a… — Agora, já não se trata mais de explicar a experiência, mas de decifrá-la nela mesma — sem precisar dela se separar…para poder compreendê-la.

A experiência é o que em nós se vê quando vemos; o que em nós se fala quando falamos; o que em nós se pensa quando pensamos. – Com efeito… o próprio Ser divide-se por dentro, sem se separar de si mesmo… visível dizível e pensante… nenhum destes termos é origem – não existem em si como coisas ou ideias…não são operações de um sujeito, nem causas da visão, linguagem ou pensamento. 

A  experiência é diferenciadora, mas a diferenciação não existe por si própria — manifesta-se nela… — porque é o mundo…que se faz a si mesmo, como … visível /invisível… — dizível /indizível… — pensável /impensável…  

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No entanto, a cisão dos termos, que os distingue…sem separá-los – e os une sem identificá-los, só é possível porque, o ‘mundo como Carne é coesão interna, equilibrando-se em dimensões simultâneas do Ser … O mundo é o ‘entrelaçamento’ dessas dimensões diferenciadas…A forma que sustenta sua própria manifestação – pela qual seus termos são reversíveis…e sem a qual não existiria, como a figura não existe sem fundo… – Essa forma é…a ‘experiência’.

Esse fundo imemorial essa ausência que suscita uma presençaé inesgotável. Não há uma visão total que veria tudo e completamente, pois para ver é preciso a profundidade, e esta nunca pode ser vista. Não há uma linguagem total, que diria tudo completamente, pois para falar é preciso o silêncio – sem o qual nenhuma palavra poderia ser proferida.

Assim, se o fundo é ausência que pede presença, vazio que pede preenchimento – também é, e simultaneamente, um excesso… que nos leva a buscar novas ideias e expressões – é o excesso do que queremos exprimir, sobre o já expresso. A cultura sedimenta e cristaliza as expressões…mas o instituído carrega um vazio e um excesso, que pedem novas expressões.

O mistério da linguagem                                                                                                    Não há um ‘pensamento total’ que pensaria tudo…e completamente – pois,                     para pensar é preciso o impensado… – que faz pensar, e… dá o que pensar.

Filosofia e ciência sonham com o ideal de uma linguagem transparente, dócil a conceitos e operações científicas…puramente instrumental – cuja função seria traduzir perfeitamente ideias, em si mesmas silenciosas… – Sonham com uma linguagem que dissesse tudo… – e, o dissesse tão completamente – que seria a perfeita transcrição de um texto original…cuja expressão já fosse terminada…

Sonham com uma linguagem reduzida a ‘algoritmos unívocos’, como os da matemática; completa…direta, sem ambiguidades. – E em certo sentido, a linguagem só tem mesmo     a ver consigo própria. – No monólogo interior, como no diálogo, não há pensamentos… são palavras… que palavras suscitam’ – e…na medida mesma em que pensamos mais plenamente, elas preenchem, exatamente, nosso espírito … nossos mistérios profundos.

Como o sensível, a linguagem é também misteriosa… O mistério é que,         no exato momento em que a linguagem está obcecada consigo mesma,         é lhe dado – assim como por excesso, abrir-nos a um novo significado.

Mas, de que forma a linguagem ‘significa’? De um modo indireto e     alusivo. Não designa um sentido, presentifica-o através dos signos

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A linguagem é mistério porque presentifica significações  –  transgride a materialidade sonora e gráfica, invade a imaterialidade e, corpo glorioso e impalpável… – acasala-se com o invisível. – Não é instrumento para traduzir ‘significações silenciosas’… É por elas habitada. Não é meio…mas, modo de ser… Ou melhor … um “Ser” nela mesma.

Sem dúvida, a palavra é expressiva… Temos o sentimento de que nossa linguagem exprime completa e diretamente as significações… Todavia, esse sentimento de completude deve-se apenas ao fato de que a nossa língua nos insere em um mundo cultural — o qual ela parece exprimir completamente… muito embora, realmente, não o faça, nem possa fazê-lo…sobre um fundo interior primordial e inesgotável de silêncio.

“A linguagem diz – peremptoriamente…quando renuncia a dizer a própria coisa; ou, em vez de copiar o pensamento, deixa-se fazer e refazer por ele.”  

Porém, que linguagem é esta…cuja força existe somente quando não se reduz a ser mera designação de coisas, nem mera cópia de pensamentos?… – Não é a linguagem empírica costumeira da vida cotidiana, já instituída em nossa cultura. – É a linguagem criadora… instituinte. É a linguagem do escritor quando este imprime na linguagem existente uma “deformação coerente”, roubando-lhe o equilíbrio, para fazê-la significar, e dizer o novo.

“Como o tecelão…o escritor trabalha pelo avesso… – só tem a ver com a linguagem, e é assim que, subitamente encontra-se rodeado de sentido”.

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O mistério da linguagem está em que esta só se exprime… — quando se faz esquecer… — e, só se deixa esquecer, quando consegue exprimir. Quando somos cativados por um livro…não vemos letras – ou sinais sobre uma página…mas participamos de uma aventura que é pura significação… só podendo oferecer-se linguagem. Um livro… escreve Merleau-Ponty   – “é uma ‘máquina infernal‘ de produzir signos… e significações”.

Preguiçosamente…começo a ler um livro…Contribuo com alguns pensamentos… julgo entender o escrito… – porque conheço a língua…  e, as coisas indicadas pelas palavras, assim como sei identificar as experiências ali relatadas… – Escritor e leitor possuem o mesmo repertório disponível de palavras, coisas, fatos, experiências, depositados pela cultura instituída… sedimentados no mundo de ambos. – De repente porém, algumas palavras me “pegam”…Insensivelmente o escritor as desviou de seu sentido comum e costumeiro… e elas me arrastam – como num turbilhão – para um novo sentido…que alcanço apenas graças a elas. – O escritor me invade, passo a pensar de dentro dele, e     não apenas com ele; ele se pensa em mim ao falar em mim com palavras cujo sentido       fez mudar; arrasta-me do instituído ao instituinte. – Neste momento…uma aquisição         foi feita, e o livro agora pertence às significações disponíveis da cultura. Se, por acaso,        eu também for escritor…uma tradição foi instituída, e a recolherei, para ao retomá-la, reabrir a linguagem numa nova instituição.

Como a pintura, a literatura é retomada de uma tradição mais antiga do que ela, a do mundo perceptivo…e é abertura de uma nova tradição, a da obra como cultura. Assim como o pintor tateia entre linhas e cores… para fazer surgir no visível um novo visível, também o escritor tateia entre sons e sinais para fazer surgir na linguagem uma nova linguagem… — Essas operações instituem o ‘mundo cultural’… como ‘mundo histórico’.

Cultura e história…                                   Estamos mergulhados numa totalidade – simultânea e aberta, onde o presente pede um porvir… exigindo o futuro – não como finalidade, mas… ‘restituição do passado’.

Exprimir é empregar os meios disponíveis oferecidos pelo mundo da percepção…e da cultura…instituindo uma nova coerência e equilíbrio…que, a seguir, serão retomados em uma nova expressão.

Eis porque a história das obras de arte… e das obras do pensamento, em geral, não é uma história empírica de ‘acontecimentos’, nem racional…de progressão linear – é uma história de ‘adventos‘. É preciso ir a museus e bibliotecas… na alegria e na dor de uma tarefa interminável – a ser sempre recomeçada.

O acontecimento fecha-se em sua diferença empírica – ou, na diferença dos tempos, esgota-se ao acontecer. O advento…porém… – é o excesso da obra sobre as intenções significadoras do artista – é aquilo que sem o artista, ou sem o pensador… não poderia existir… – mas é também o que eles deixam como ainda não realizado… algo excessivo contido dentro de suas obras, e experimentado como ‘lacuna’ … pelos que virão depois.

A forma nobre da memória é a retomada das obras pelos artistas e pensadores, que as refazem – não para repeti-las… mas, para criar novas. A unidade temporal das artes, da literatura ou filosofia é a compreensão – obliqua e indireta, que cada artista, escritor ou pensador possui de seu trabalho… – como momento de uma tarefa única… e atemporal.

Quando foi feito o primeiro desenho na parede da caverna, foi prometido um mundo a pintar que os pintores não fizeram outra coisa…senão retomar, e reabrir… Quando foi proferido o primeiro canto, e o primeiro poema, foi prometido um mundo a cantar e a dizer, que músicos e poetas não fizeram outra coisa, senão retomar e reabrir. Quando   foi feito o primeiro gesto cerimonial – foi prometido um mundo a dançar, e a esculpir; que dançarinos e escultores não fizeram outra coisa senão retomar e reabrir. Quando     o primeiro pensamento foi expresso, foi prometido um mundo a pensar, que cientistas     e filósofos não fizeram outra coisa, senão retomar e reabrir.

A origem da verdade não está fora do tempo — mas, na abertura de cada momento do conhecimento para aqueles que irão retomá-lo e transformá-lo em seu próprio sentido.   A história das artes, da literatura, da ciência, da filosofia, e ação política, é maturação     de um futuro, e não sacrifício do presente por um futuro desconhecido…  A única regra     de ação para o artista, o escritor, o pensador, e político, não é que sua ação seja eficaz, mas sim, que seja fecunda. (Marilena Chauí, filósofa e professora da USP)  ‘texto base’  ********************************************************************************** 

http://blogdotataritaritata.blogspot.com.br/2013/03/husserl-fenomenologia.html

Edmund Husserl (1859-1938)

‘Fenomenologia da Percepção                         “O inacabado de uma filosofia do inacabamento       é duplamente desconcertante” … (Paul Ricoeur)

Tal afirmação…(acima)…por ocasião da morte de Merleau-Ponty… traduz o quanto ficou abalada a filosofia contemporânea pela brusca interrupção     da notável obra do mais autêntico – e, ao mesmo tempo mais profundamente original discípulo da filosofia husserliana.

Merleau-Ponty, talvez mais que qualquer filósofo de sua geração, manifestou com vigor, qualidades primordiais de autêntico filósofo… perplexidade e anseio constante em reaprender a ver este mundo.

O ‘caráter inacabado de sua obra não se define, unicamente, pela inesperada interrupção, causada por sua morte prematura, em l96l, pois, o próprio Merleau-Ponty não deixou de insistir, como aliás, seu mestre Edmund Husserl já o fizera … no ‘caráter preliminar da filosofia’ – do incessante recomeçar da tarefa filosófica…que recusa toda cristalização da obra em sistema acabado e fechado.

De fato, ele via no inacabamento da fenomenologia, da qual foi, e ainda permanece – por suas obras – um dos mais brilhantes representantes – não sinal de fracasso…indefinição, mas sim, o reconhecimento da fertilidade de sua verdadeira tarefa, a saber… ‘revelar o mistério do mundo e da razão’.

Outros filósofos da existência utilizaram o  ‘método fenomenológico‘, chegando mesmo a entrelaçar Fenomenologia e Existencialismo. Porém, em nenhum deles, a fenomenologia e a existência foram articuladas…de modo tão explícito e harmônico, como em Merleau-Ponty.

Neste texto…faço uma breve leitura do prefácio à “Fenomenologia da Percepção” … onde Ponty expõe sua concepção de ‘filosofia fenomenológica’, reassumindo… por força de sua criatividade, as trilhas de Husserl… Assim, podemos até afirmar que – através dos breves parágrafos deste prefácio, passamos a ver a fenomenologia de Husserl como um ‘estilo de pensamento à procura do sentido do sujeito, do mundo, da História…da própria Filosofia’.

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Fenomenologia como método

Em 1936 Merleau-Ponty publica um trabalho ‘Existence et dialetique’, no qual reconhece sua filiação a Hegel. Em artigo publicado 20 anos depois    — O existencialismo de Hegel, Merleau-Ponty admite que:

Hegel está na origem de tudo o que se realizou de grande em Filosofia há um século –   o marxismo… Nietzsche… a Fenomenologia… o Existencialismo alemão… a Psicanálise; ele inaugura a tentativa de explorar o irracional, e integrá-lo em uma razão ampliada; tentativa que permanece a tarefa de nosso século… — Ele é o inventor desta razão mais compreensível que o entendimento, capaz de respeitar a variedade e singularidade dos psiquismos, das civilizações, métodos de pensamento, e contingências da História; não renunciando, contudo, a conduzi-los à própria verdade“.

Ler e interpretar Hegel é, para Merleau-Ponty, tomar posição sobre todos os problemas filosóficos, políticos e religiosos de nosso século. Segundo Ponty Pode-se falar de um ‘Existencialismo de Hegel’… – no sentido em que ele não se propõe encadear conceitos, mas sim, revelar a ‘lógica imanente’ da experiência humana, em todos os seus setores“.

O homem não é (para Hegel) uma consciência que possui – claramente… seus próprios pensamentos, mas uma vida dada a si própria – uma vida que procura compreender-se     a si mesma. Toda Fenomenologia do Espírito descreve este esforço que o homem faz de auto-recuperação.

Merleau-Ponty também afirma que… se a Fenomenologia é considerada como o ‘estudo das essências‘… — ela é também uma filosofia que recoloca as essências na existência … “Longe de ser – como se acreditava, uma filosofia idealista, a redução fenomenológica é expressão duma filosofia existencial… Em sua filosofia, neste ‘processo reducionista’, a noção de ‘intencionalidade‘exerce um papel singular. – Ela deixa de ser propriedade da consciência, para se tornar característica de um sujeito voltado ao mundo.

Para Merleau-Ponty, “Fenomenologia é uma filosofia para a qual não se pode entender o homem e o mundo, senão a partir de sua facticidade; é uma filosofia transcendental, que procura uma descrição direta de nossa experiência…tal como é – sem levar em conta sua gênese psicológica, ou suas explicações causais.

http://zelmar.blogspot.com.br/2013/03/a-fenomenologia-como-um-instrumento-de.html

Para Ponty, o sentido da “Fenomenologia” depende de sua articulação com a existência concreta… – Desse modo, se procede a uma ‘transformação da subjetividade’…até então caracterizada como ‘consciência que se abre ao mundo objetivo‘ … e, no caso de Husserl, como… consciência reduzida… ‘constituída’.

Através de sua concepção de fazer do corpo o sujeito da percepção… Merleau-Ponty vai até a “raiz da subjetividade” … sem ceder ao impulso do ‘empirismo’… – e tomando partido contra o racionalismo (‘cúmplice causal’)… “Ao tornar o corpo – ‘sujeito da percepçãorejeitamos o formalismo da consciência

E se a Fenomenologia é a ambição de uma filosofia em ser ‘ciência estrita’…ela é também a resenha histórica do espaço e tempo do mundo vivido. E se é uma ‘filosofia transcendental’ que, para explicar a atitude natural deve suspender suas próprias afirmações… não se deve considerar esta, segundo Merleau-Ponty uma atitude idealista que suprima a naturalidade.

Para Ponty, a relação do sujeito e objeto não é esta relação de conhecimento da qual falava o idealismo clássico, e na qual o objeto aparece como constituído pelo sujeito – mas sim… uma relação do ser…segundo a qual, paradoxalmente – o sujeito é seu corpo…seu mundo, sua situação… e, de certa forma, estabelece com estes uma permuta.

Em ‘Expérience et jugement’, Husserl afirmou…O retorno ao mundo da experiência é       o retorno ao mundo da vida – isto é … ao mundo no qual já vivemos sempre… – e que constitui o solo de toda operação de conhecimento, e de toda determinação científica“. Merleau-Ponty reconhece este retorno ao “mundo da vida” como a contribuição mais importante da filosofia husserliana. (textoNewton Aquiles von Zuben / UNICAMP)  *********************************************************************************

Os principais temas da Fenomenologiae sua articulação com a existência    

edmund-husserl

Segundo Merleau-Ponty …a tarefa da ‘Fenomenologia’ é descrever as coisas – mas não explicá-las como uma realidade em si… Isso porém, parece criar conflito entre Ciência   e Filosofia…

Conforme suas próprias palavras:  Filosofia não é Ciência – porque esta acredita poder… ‘sobrevoar’ seu objeto – ao passo que, na Filosofia…aquele que questiona é ‘posto em causa’…por sua própria demanda”.

Muitos interpretaram tal expressão como a presença de um ‘subjetivismo fenomenológico’ em face de um ‘objetivismo científico’. O próprio Merleau-Ponty esclarece sua posição, no intuito de evitar novos equívocos…

Há…portanto, um ‘desmentido da ciência’ – na medida em que esta se considere como a exterioridade mútua das partes, ligadas por relações de causalidade… – o que conduz ao ‘ocultamento’ de nossas relações com as coisas…Tal desmentido visa, não à ciência em si, mas ao suposto caráter absoluto das teorias empiristas que, assim como o ‘racionalismo’, pressupõem, sem explicitar, aquilo que julgam”.

E, continua Ponty“Tudo o que sei a respeito do mundo… eu o sei por uma visão minha, uma experiência de mundo – sem a qual os símbolos da ciência não significariam nada”.

O retorno às coisas mesmas

O lema que Husserl atribui à ‘pseudofilosofia‘… – de ser uma ‘psicologia descritiva‘…ou   de retornar às coisas mesmas…é um desmentido à ciência. – O ‘retorno às coisas’ não se identifica com o voltar ao objeto da ciência… – muito menos…com voltar-se para dentro de si…para o interior da consciência – em um ‘subjetivismo’. Mas então, o que significa?

Para Merleau-Ponty, retornar às coisas mesmas…é voltar-se para um mundo prévio a todo conhecimento — com relação ao qual … toda determinação científica é sempre ‘abstrata‘.  

É a volta ao mundo… antes da reflexão… – ao ‘mundo vivido’ e irrefletido… – sobre o qual o domínio da ciência se constrói. 

Na ideia de Merleau-Ponty … tanto Descartes, quanto Kant introduzem durante a relação cognoscitiva uma consciência testemunho desta mesma relação…liberando o sujeito – ou   a consciência, fazendo ver que o ‘eu‘ não poderia apreender nada, se…em primeiro lugar, não se sentisse existindo no ato de apreendê-la.

Portanto, afirmar a ‘supremacia da consciência sobre o objeto‘ é reconhecer que este aparece através da atitude sintética do sujeito… — Isso nada mais é do que afirmar que a relação cognoscitiva parte da existência prévia de uma consciência relacional, para daí constituir o objeto. A consciência porém, não se resume na tarefa de construir     um mundo real da reflexão…Admitir isso é negar a nossa abertura essencial ao mundo,       é negar a percepção…Como assim nos explica Ponty:

“O real é um tecido sólido que não espera nosso juízo para se anexar aos fenômenos mais surpreendentes…nem rejeitar nossas imaginações mais verossímeis”.

A “descrição”, como consequência da percepção… não é uma ciência do mundo – nem mesmo uma tomada de posição deliberada. Ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam… sendo pressuposta por eles. – Se o real deve ser descrito, e não construído,   quer dizer que não posso identificar a percepção… às sínteses da ordem do juízo… dos   atos e da predicação. E o mundo assim, deixa de ser um ‘objeto constituído’ (como o é   para a ciência) para transformar-se no meio natural de todos os meus pensamentos, e percepções explícitas.

De novo, vemos claramente a importância atribuída por Merleau-Ponty à nossa abertura ao mundo, que leva à negação do solipsismo…  “A verdade não habita o homem interior,   a verdade está no mundo … e é no mundo que ele a conhece” — O retorno às coisas é a recuperação do nascimento do sentido da vida… — o que se torna possível, pela redução fenomenológica, numa abertura ao mundo exterior.

Redução fenomenológica  

Não há… certamente… – nenhuma outra questão sobre a qual Husserl tenha se dedicado mais tempo, bem como se debruçado mais vezes — já que a questão da ‘redução’ ocupa… em sua obra… – lugar de destaque”.

Com esta frase Merleau-Ponty se uniu à maioria dos intérpretes de Husserl que veem na redução um dos pontos críticos… e talvez, dos mais difíceis da “fenomenologia”.

Em Husserl, a redução aparece sob formas diversas – segundo a própria evolução de seu pensamento…No início de sua carreira, ele entendeu a ‘redução fenomenológica’ como a colocação entre parênteses da existência das coisas. Desse modo permanecia preso a um duplo pressuposto racionalista.

Inicialmente, ele acreditava que a existência é separável do sentido das coisas… – Em seguida … que a existência é passível de dúvida.

Tal concepção é válida no âmbito epistemológico do século XIX, na perspectiva de uma consciência/interioridade, fechada sobre si mesma, que representava um ‘exterior’. Tal tese racionalista da ‘consciência como representação‘ — trata-se de outro aspecto       da redução… que se manifesta no lema ‘retorno às coisas mesmas’ – ou seja…às ‘coisas naturais’, tais como aparecem antes de qualquer alteração produzida pela Filosofia, ou pelo saber científico.

Merleau-Ponty argumentava que a concepção científica se fundamenta sobre a experiência do mundo natural – do qual ela não é senão explicitação. Com efeito, ao longo da evolução do pensamento de Husserl…esta ideia da consciência como representação será superada e proscrita, com a introdução da noção de ‘intencionalidade‘.

Em suma…o objetivo primeiro da ‘redução fenomenológica‘ é mostrar a necessidade de um ‘elemento puro’ – que possa servir de ponto de partida para um pensamento radical, um fundamento absoluto do conhecimento… – a saber…o ‘cogito… Contudo, Merleau-Ponty não aceitava esta atitude da ‘redução fenomenológica’ – como a de um ‘idealismo transcendental’ … – pois ela refletiria a ruptura entre a ‘consciência‘ e o ‘cogitatum‘.  

“Entra em teu barco do devaneio, desatraca no lago de pensamento, e deixa o sopro do firmamento encher tua vela. Desperto, então – para o que está a tua volta…e abre conversa contigo mesmo”… (Charles Peirce – ‘Meditação’)

'Pescadores ao mar', 1796 - J. M. W. Turner

‘Pescadores ao mar’, 1796 – J. M. W. Turner

“A redução é… como o retorno a uma consciência transcendental diante da qual… o mundo se põe em uma transparência absoluta”

Assim… – Merleau-Ponty busca atingir uma autêntica…’reflexão fenomenológica’, que sirva para tomarmos consciência do mundo, fazendo-o assim… então aparecer.

Para ele, a finalidade da ‘redução’ não é nos retirar do mundo, para uma ‘consciência pura’…mas sim,   para uma ‘filosofia existencial‘.

A estrutura da reflexão fenomenológica tem finalidades bem precisas… – antes de tudo, superar o solipsismo de cunho intelectualista; e em seguida, superar a tese, defendida pelo racionalismo – referente à ‘construção do objeto por parte do sujeito’ – afirmando, com ênfase, a preexistência do mundo sobre a reflexão (…pelo método fenomenológico).

Mantendo como elemento fundamental o compromisso da consciência, e sua intencionalidade… Merleau-Ponty afirma que…“A redução é a única forma de reflexão que não anula o irrefletido – mas, o manifesta… como  seu fundamento”.

Para Merleau-Ponty, a colocação entre parênteses do mundo… operada pela redução, significa desvelamento e surgimento do mundo, enquanto tal…Ele diz…“0 verdadeiro transcendental é o mundo”e não o ‘Ser’ (para Heidegger), ou a existência (…Sartre).

Pela redução, tal como a concebe Merleau-Ponty, é superada a noção de consciência fechada sobre si mesma, tida como ponto de partida, e garantia primordial do saber.         Ponty nos ensina a reconhecer nela…“o projeto de mundo, destinada ao mundo que         ela não abarca, nem possui… — mas…em direção ao qual ela não cessa de se dirigir”.

E assim, também a redução nos mostrou o mundo tal como ele é, antes de qualquer retorno sobre nós mesmos…“0 mundo não é aquilo que penso…mas aquilo quevivo;     sou aberto ao mundo, me comunico com ele, mas não o possuo … ele é inesgotável”.

kant-frase

intencionalidade

Desde o inicio do parágrafo, onde aborda a noção de intencionalidade, Merleau-Ponty     faz uma observação importante … a saber:     “que ela só é compreensível pela redução”. 

Como diz Merleau-Ponty, Kant… em sua ‘Refutação do Idealismo‘ mostrou que      “a percepção interior é impossível, sem a percepção exterior – que o mundo, como conexão de fenômenos… se antecipa, em     uma ‘consciência inata’ … do indivíduo“.

Nas ‘primeiras investigações’… a ‘intencionalidade‘ é colocada no âmbito da expressão. A palavra para Husserl é sempre significativa, não podendo ser reduzida a seu caráter físico. A este propósito…Merleau-Ponty aponta que Husserl distingue a intencionalidade de ato – a de nossos juízos e decisões voluntárias…  da intencionalidade operante “a que faz a unidade natural ‘antepredicativa’ do mundo e de nossas vidas, aparecendo em nossos desejos e apreciações – com mais evidência… que no conhecimento objetivo”.

Esta noção ampliada de intencionalidade permite distinguir o saber ‘fenomenológic0’, da ‘intelecção clássica’… Desse modo, Merleau-Ponty retoma a intencionalidade husserliana – desvinculada de seu ‘caráter solipsista‘… – observando que tal distinção…não pode ser concebida no âmbito de uma consciência pura. Como observa Alphonse De Waelhens:

“O objetivo da intencionalidade é reconhecer que a consciência é abertura… disposição ao outro, negação do repouso, em si, e sobre si mesma… – e assim, portanto…de certo modo…também negatividade”.

Logo…entende-se a preocupação obstinada de Merleau-Ponty em negar a ideia de uma consciência representativa – preocupação aliás, presente em Husserl. Conforme Ponty, devemos reconhecer a consciência como um ‘projeto do mundo’…o qual ela não abarca nem possui, mas em cuja direção…não cessa de se dirigir.

Aintencionalidade operanteidentifica-se com toda atividade do sujeito que deixou de ser propriedade de uma consciência isolada e constituinte… — é a própria abertura ao mundo, de um sujeito carnal…corporal. – Na verdade, a característica primordial de nossa relação com o mundo não é a ‘percepção predicativa’… mas, a própria percepção ‘carnal/corporal’.

Desde que, acertadamente, se resolveu identificar consciência e intencionalidade, deve-se, de imediato, rejeitar a consciência como transparência – concebendo, irredutivelmente, o ser consciente como um ‘ente real‘…’espírito encarnado‘. A intencionalidade, para Ponty… é uma ‘relação dialética’ de onde surge o ‘sentido‘… 

“Porque estamos no mundo, estamos condenados ao sentido – assim, não podemos fazer, ou dizer nada… que não tenha um significado na história.”

O sentido surge de nossa relação com o mundo e com os outros. E, para Merleau-Ponty, este sentido é inextricavelmente misturado com o não-sentido — uma vez que a redução não é jamais completa…“A mais importante aquisição da Fenomenologia é ter unido os extremos subjetivista e objetivista…em suas próprias noções de mundo e racionalidade”.

paisagem

noção (inerente) de mundo

A noção de mundo, tal como retomada por Merleau-Ponty… se tornou um dos principais legados fenomenológicos ao pensamento filosófico contemporâneo.

O mundo … segundo Ponty, não é o ser puro“mas, o sentido que transparece na interseção, de minhas experiências, com as do outro…pela engrenagem de umas sobre as outras…inseparável da subjetividade e intersubjetividade, realizando sua unidade pela retomada de experiências passadas…ou aquelas de outros sobre a minha.”

A tarefa da Fenomenologia é revelar este mundo vivido antes de ser significado – mundo onde estamos, solo de nossos encontros com o outro, onde se descortinam nossa história, nossas ações, nosso engajamento, e decisões… – Como explicitado nas palavras de Ponty:

“E’ ao mundo que devemos creditar nossa ‘condenação ao sentido’… não como contemplação ou construções de significados, mas como inerência   na ação histórica e política… Temos em mãos nossa sorte, tornamo-nos responsáveis por nossa história…através da reflexão, mas também por uma decisão em que engajamos nossa vida… A verdadeira filosofia     éa de ‘reaprender a ver o mundo’.”

Que me seja permitido, para concluir, transcrever um trecho escrito por Paul Ricoeur  em seu livro ‘História e Verdade‘, que revela a importância, o sentido e o alcance da noção de mundo… que se aproxima daquela de Merleau-Ponty. – Em resumo, assim disse Ricoeur: 0 mundo não é mais a unidade de um objetivo abstrato – de uma forma da razão, mas sim o horizonte mais concreto de nossa existência, sendo que é a nível da percepção que se destaca esse horizonte único de nossa vida humana. A percepção é a matriz comum de todas atitudes. É no mundo percebido… – de minha existência carnal…que se erguem laboratórios, se realizam cálculos matemáticos, casas, bibliotecas … – museus, e igrejas. Os objetos da ciência estão nas ‘coisas’ do mundo… átomos e elétrons são estruturas que dão conta deste mundo,  onde Tudo se realiza…Onde o Sol se ergue e se põe…os animais suspiram pela água das fontes, e as árvores ‘batem palmas’… É esse mundo primordial, anterior a toda multiplicidade cultural, que se transfigura em húmus de atos e atitudes”.

Mas, que significa isso?… – Essa camada primordial de toda experiência…é a realidade prévia de todas as circunstâncias – ela é o “sempre-já-antes”. O mundo é a palavra que tenho presente na ponta da língua… – porém quando apenas começo a proferi-la, já se tornou ausente. A unidade do mundo é por demais preliminar para ser possuída… por demais vivida, para ser sabida… – Desaparece…mal é reconhecida… É talvez por isso, que uma ‘fenomenologia da percepção‘ que buscasse a filosofia de nosso estar-no-mundo é algo tão difícil quanto a busca do paraíso… A unidade do mundo a partir da qual todas nossas atitudes se desdobrarão… – é, tão somente, o seu próprio horizonte.

Publicado em Temas Fundamentais de Fenomenologia. São Paulo. Edit. Moraes. 1984. (Newton Aquiles von Zuben – Doutor em Filosofia – Professor Titular – UNICAMP) *****************************(texto complementar)*******************************

Da “filosofia da consciência” ao “giro linguístico”                                                     “O giro linguístico foi uma mudança radical através de seu questionamento sobre se a linguagem cotidiana é suficiente para explicar o mundo e a vida real” (Lupicinio Iñiguez)giro-linguisticoVivemos atualmente, um momento em que linguagem e discurso são recursos vastamente utilizados nas investigações das ciências humanas e sociais. Porém, nem sempre foi assim. Segundo Tomás Ibañez Garcia desde o movimento filosófico inaugurado por Descartes, as principais discussões da ciência, acerca das questões psicológicas, focavam-se em modelos introspectivos… Partindo do pressuposto “penso, logo existo”… a ciência se convenceu que para conhecer o “mundo externo” devia-se perscrutar detalhadamente o “mundo interior”, ou seja, a razão era suficiente para explicar a realidade. Consolidava-se assim, no domínio da ciência, a tão conhecida dicotomia corpo/alma proposta por Platão.

Por mais de 2 séculos esta ‘filosofia da consciência’ foi o principal palco dos debates científicos. Contudo, certos efeitos metodológicos e epistemológicos influenciaram diversos questionamentos acerca de sua hegemonia.

A primeira grande ruptura foi decorrente do desenvolvimento da ‘linguística estrutural‘   de Ferdinand de Saussure – pai da linguística moderna… Seu impacto foi tão grande na ciência em geral, que além de influenciar as demais disciplinas, estimulou na década de 50, o surgimento do ‘movimento estruturalista‘. Como próprio da ciência não demorou muito para surgirem críticas ‘antiestruturalistas’.

Chomsky, criador da ‘linguística gerativa’, foi um dos principais opositores do “estruturalismo”…Suas críticas, sem embargo, estimularam ainda mais o interesse pelos estudos linguísticos.

A segunda poderosa mudança de paradigma frente ao cartesianismo – teve início com a elaboração da ‘teoria da quantificação’ (base da lógica moderna) proposta por G. Frege. Seus estudos propunham a troca dos conceitos aristotélicos de sujeito e predicado pelos conceitos de ‘argumento e função’. Nesta vertente são incluídos grandes filósofos, como Wittgenstein, Bertrand Russell, e os neopositivistas do “Círculo de Viena”.

Ibañez aponta que estas 2 rupturas provocaram drásticas alterações na forma de conceber e praticar o conhecimento…Em 1º lugar, evocou o deslocamento do estudo das ideias – de ordem introspectiva e privada, pelos estudos da linguagem, de ordem objetivada e pública. Em 2º lugar, promoveu a troca na concepção de que não mais são as ideias que captam os objetos da realidade – mas sim, que é a própria linguagem que as constrói…A constatação da ciência como ‘construção social’ se dá por um fenômeno denominadogiro linguístico”.

Mesmo tendo estas mudanças contribuído para profunda transformação, em relação à importância da linguagem para a ciência… – os chamados “filósofos de Oxford”…e, em particular, o ‘neopragmatista’ Richard Rorty, são ainda mais radicais… Suas principais críticas tiveram como alvo os projetos dos ‘neopositivistas‘, que procuravam, por meio     do método científico, construir uma linguagem “lógica” e “pura”.

As críticas ‘anti-representacionistas‘ deslegitimaram este cientificismo, ao igualarem a linguagem cotidiana como tão importante quanto a linguagem científica. A partir deste momento, a linguagem de passiva se transforma em ativa — ela não apenas representa,   ela faz. Com a centralidade da linguagem nos processos sociais passando a ganhar bem mais importância, o desenvolvimento de perspectivas construcionistas foi amplamente estimulado – tanto nas ciências humanas…quanto sociais.   (texto base)…(18/11/2009)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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Uma resposta para Um Mergulho na Fenomenologia de Merleau-Ponty

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