O Princípio Filosófico da ‘Verdade’

Os filósofos costumam pensar em sua área como aquela em que se discutem problemas universais e eternos… — O mérito da filosofia contemporânea, todavia… é o de chamar atenção para diversas refutações… desempenhando assim, a ‘função social’ de impedir     a ilusão de se obter falsas verdades. – Mas será que, realmente, existe uma verdade?…

O contexto histórico

A filosofia nasceu, a partir da escravidão na Idade Antiga… – a qual permitiu o ócio a uma minoria da população grega – questionando o senso comum, e os mitos.  Segundo consta, Pitágoras (582-497 a.C) foi quem inventou o termo filosofia, muito embora, seu surgimento conceitual remonte a um processo, que começou – provavelmente – no século VII a.C.

Na antiguidade, os gregos estavam organizados em “Cidades-Estado”…onde prisioneiros de guerra, ou pessoas endividadas, se tornavam escravos. Assim, escravidão na Grécia — na realidade… não possuía qualquer vinculo com o contexto étnico ou racial…

Quando alguém se via sem dinheiro – pedia empréstimo – dando esposa e filhos como garantia. – Caso não pagasse a divida… o devedor tinha sua família escravizada…e, ele mesmo, podia se tornar escravo…Por este motivo, pessoas sem posses eram chamadas ‘proletários‘, que significava…“aquele que possui como posse sua prole – seus filhos,       e esposa”.

Nesse contexto – até o surgimento da filosofia…as opiniões eram senso comum…crenças coletivas baseadas nas aparências. E, essa situação só mudou a partir do momento em que, alguns poucos privilegiados – no caso… cidadãos das Cidades-Estado – graças ao trabalho escravo, passaram a gozar de tempo livre pra pensar…refletir sobre o mundo a sua volta, e investigar o que existia por trás das aparências.

Opiniões de senso comum – inicialmente questionadas…eram aquelas que embasavam os mitos – na verdade… – ‘explicações sobrenaturais’ para aquilo que a razão não conseguia compreender. Muito embora os mitos fossem mais amplos que isto…pois normatizavam a vida em sociedade – fornecendo um código de ética primitivo… ao demonstrar às pessoas como se comportar, através de lições transmitidas de geração em geração.

O mito de Édipo, por exemplo… aquele no qual o filho, sem saber, se apaixona pela mãe, e acabando em tragédia… servia para renegar relações incestuosas. Já o ‘mito     de Narciso, que teria se apaixonado pela própria imagem refletida num lago; e, se afogado…simbolizava como a vaidade poderia acabar em tragédia… Assim, quando         a filosofia surgiu, Mitos eram vistos como ordenadores do mundo…Ao questioná-los,     os primeiros filósofos passaram a procurar um ‘elemento racional’, que ordenasse o Kaos e pudessem assim, entender o Kosmosprincipio organizador do universo.

Sócrates nunca existiu!?…

Os “filósofos” foram os 1ºs cientistas a questionar o mundo…antes mesmo da escrita, por meio de ‘grandes debates‘       em praça pública … — na tentativa de desvendar as ‘verdades estabelecidas’.

Nessa ocasião, atribui-se a Sócrates a criação da ‘maiêutica‘ … um processo pedagógico constituído em multiplicar perguntas para se obter… por indução,       um conceito geral.

A figura de Sócrates – na verdade, sintetiza a essência do que é a filosofia. Ele teria vivido em Atenas, no século IV a.C… – Era um homem que… quando falava, fascinava… Passava horas em praça pública, interpelando os transeuntesdizendo que quanto mais aprendia, mais percebia nada saber…pois ainda restava muito por conhecer… – Ideia expressa pela famosa frase… “Apenas sei, que nada sei”…

Seu método consistia em destruir a ilusão do conhecimento, levando           seu interlocutor – por si só… – a concluir afirmações contraditórias;             não tendo outra saída, a não ser reconhecer sua própria ignorância.

Por este motivo Sócrates terminou condenado a escolher entre o exílio e a morte; optando por tomar cicuta (veneno). Na antiguidade, o exílio era considerado pior que a morte, pois isolava o sujeito… – os gregos consideravam os ‘estrangeiros‘ com status social abaixo dos escravos…Ninguém dava atenção ou oportunidades aos estrangeiros; daí, ser exilado, para Sócrates significaria viver a margem da sociedade… – sem liberdade para mudar as coisas.

A vida de Sócrates simboliza o que é a filosofia – um questionamento da realidade que pode ser incômodo e perturbador para a ordem estabelecida… — Não é a toa que…nos Estados totalitários e ditaduras… a filosofia é sempre eliminada… ou, minimizada nos currículos escolares… enquanto os filósofos são perseguidos.

Inspirado por sua filosofia, e narrado por Platão na obra ‘A República‘, o “Mito da Caverna” diz muito sobre quem somos nós, seres humanos, e como nos comportamos até hoje… – Segundo o mito… 3 homens teriam sido criados em uma caverna … vendo apenas sombras do que se passava lá fora, pois estavam acorrentados junto à parede. Um dia, um deles consegue se soltar, e sair da caverna… No inicio fica meio cego pela     luz do sol que nunca havia visto… – mas depois… começa a enxergar, e percebe que o mundo real não eram as sombras que conhecia. – Maravilhado, retorna, e conta aos outros 2 o que havia visto… – Então… um dos companheiros de caverna… assustado, propõe ao outro matar aquele homem que estava perturbando a ordem estabelecida. Mais ponderado, o 3º afirma que … aquele companheiro que dizia ser a realidade de dentro da caverna apenas sombras era somente um louco, que não merecia atenção.

O ‘grande problema’ com relação a Sócrates é que  –  grande parte dos entendidos em história da filosofia antiga crê que ele nunca existiu — sendo um personagem criado por Platão — o qual em seus textos se dizia…dele, um discípulo.

Segundo Platão — por Sócrates ser analfabeto… – não deixou registro escrito; com todo seu pensamento narrado pelo…”suposto discípulo”.

Platão era aristocrata, e talvez por isso tenha usado seu personagem, ‘Sócrates’ para abordar problemas que não poderia tratar diretamente…até indicando o seu destino, caso tivesse optado por se opor aos aristocratas, ao narrar o julgamento de Sócrates, e seu trágico fim.

A origem da construção evolutiva                                                                                       A filosofia permite desvendar o que está por detrás das aparências. Por isto, ela – que nasceu na antiguidade…agregando todas áreas do ‘saber humano’ – era o que mais se aproximava do que hoje chamamos ciência’.

Embora a definição de ciência comporte múltiplas explicações — tal como a afirmação de Aristóteles de que seria a busca do universal e eterno; a ciência diferente da filosofia (…que pretende alcançar a ‘verdade‘)… – procura o total entendimento da “realidade“.

Na Idade Média, restrita aos mosteiros, e manipulada pelos religiosos católicos, a filosofia assumiu o caráter de defesa da fé… — somente retomando sua vocação questionadora…no inicio da ‘Idade Moderna’, quando René Descartes– separando a fé da razão, deu luz ao método racionalista, no qual opiniões sistematizadas em uma… “teoria do conhecimento” forneciam as bases para a fundação da ciência.

No entanto…até o século XVIII – no surgimento das universidades,             na Idade Média, todas áreas do conhecimento humano se dividiam             em apenas 4… — teologia — direito — medicina… e… filosofia.

Portanto…matemática, física, química, história, geografia, etc… – eram consideradas ‘filosofia‘ – e assim… – ciência e filosofia se confundiam, tornando o conhecimento filosófico extremamente amplo…Quando os iluministas introduzem a enciclopédia, inicia-se então a separação da filosofia em várias áreas especializadas… – Para eles o conhecimento acumulado pela humanidade havia se tornado ‘vasto demais‘ para ser contido apenas pela filosofia – sendo necessário ‘sistematizar’ a continuidade de sua evolução… – O que fez… a partir daí… – a filosofia começar a se distinguir da ciência.

Durante a antiguidade… filosofia e ciência eram sinônimas, confundiam-se. Na Idade Média aconteceu o mesmo; com a diferença, que teólogos cristãos usaram o conhecimento filosófico para manipular o senso comum em favor da fé… A situação só começou a mudar com Galileu, Copérnico, e Descartes.

http://sesi.webensino.com.br/sistema/webensino/aulas/repository_data//SESIeduca/ENS_MED/ENS_MED_F02_FIL/686_FIL_ENS_MED_02_06/investigando_caminhos.html

Galileu(1564-1642)…Copérnico(1473-1543)…Descartes(1596-1650)

Entre os século XV e XVI Nicolau Copérnico iniciou oficialmente, o importante processo de mudança           da mentalidade humana, sendo a seguir apoiado por Galileu Galilei.

O ‘mundo aristotélico’ geocêntrico é deslocado para o heliocêntrico…         e antropocêntrico (por Descartes).

Em pleno século XVI Galileu inicia a matematização da realidade, auxiliado por alguns instrumentos que ampliaram os sentidos, sistematizando a observação dos fenômenos, descobrindo regularidades e afirmando leis gerais. – René Descartes então referendou   esta tendência… – construindo o método (cartesiano)…e inaugurando a ‘modernidade’.

No entanto, a ciência só adquiriu autonomia, separando-se da filosofia e da religião, no século XVIII. E, a partir do século XIX, a ciência passa a ser vista como um processo de investigação a fim de alcançar um conjunto teórico de conhecimentos… – considerados verdadeiros, por generalizações verificáveis.

A busca da neutralidade científica

A partir do século XVIII, dentro do espírito iluminista da revolução francesa, a ciência passou a pretender ser objetiva, neutra, isenta de ‘influências ideológicas’…e voltada à construção de um conhecimento desinteressado em prol do beneficio comum. Através       da ‘enciclopédia iluminista’ iniciou-se então a separação entre filosofia e ciência… que resultou na especialização do conhecimento humano – uma tendência completada no século XIX pelo ‘positivismo’ … que a despeito dos estragos devidos ao ‘pragmatismo’      do século XX, teve como consequência, o avanço do progresso cientifico.

Sem embargo, não podemos esquecer que a ciência reflete interesses os mais diversos, apresentando um modelo que pretende desvendar a realidade; mas, que é fruto desta mesma pretensa realidade…e, que são homens que fazem a ciência, portanto, sujeitos       a influências sociais, culturais, políticas e econômicas. – Além disso… existem fatores, tais como a pressão exercida pelos órgãos de fomento – que levam a questionar uma possível ‘neutralidade cientifica’…

etica-cientifica

Nesse sentido…o contexto especifico envolve os “problemas” analisados… bem como suas “soluções”… levando a questão da ‘neutralidade científica’ para o campo da ética, em nome de um pretenso ‘progresso humano‘.

Em outras palavras…cabe questionar os limites da ciência, ou seja, até que ponto certos atos justificam métodos e recursos empregados… – É por isto que … a partir do século XIX – a filosofia passou a discutir a ‘questão da ética científica’. (mais ainda justificada quando humanos ou animais são experimentados como cobaias)

Filosofia, Ciência & Ética

Enquanto a filosofia busca a verdade, dentro de um sistema inquestionável e inabalável; a ciência encontra sempre verdades provisórias. Segundo Karl Popper, toda hipótese deve ser considerada verdadeira – obviamente… desde que fundamentada – até que uma outra demonstre sua falsidade (princípio da “falseabilidade). – Este conceito, mais tarde foi complementado pela ideia de ‘paradigma‘ de Thomas Kuhn…segundo a qual, qualquer hipótese seria circunscrita a uma base referencial…da qual se faz um ‘conjunto teórico‘.

Na ciência, a despeito de se trabalhar com hipóteses e teses, a convivência de paradigmas não é possível, pois as contradições não são aceitas – uma verdade, mesmo que provisória, anula a outra. Quando uma contradição é verificada, isto conduz à ‘quebra de paradigma’, e sua substituição por outro conjunto teórico referencial – pois uma teoria se contrapondo à sua base teórica de sustentação leva à construção de um novo paradigma — no que Kuhn chamou revolução cientifica (O paradigma não admite contradições, nem paradoxos.)

Já na filosofia, a verdade é ‘dogmática’…e ao mesmo tempo, relativa… A verdade é bem definida para determinado sistema filosófico… dentro de certos argumentos lógicos, mas esta verdade coexiste com outras. A ‘quebra de paradigma‘ não acontece — conjuntos teóricos paradoxais coexistem… – a exemplo do que acontece nas ciências humanas.

Cada concepção filosófica espelha… – apenas… – uma coerente visão             distinta, de uma mesma verdade oculta, fora da “caverna platônica”.

Quando a ciência começou a tornar-se complexa – se multiplicando e particularizando, sua especialização passou a comportar forte influencia ideológica. Simultaneamente, o avanço da tecnologia tornou a fé na ciência dogmática, uma contradição dentro de sua base de sustentação, tida como provisória. Esta fé quase nunca reconhece as limitações     da ciência, impedindo uma reflexão ética sobre sua utilidade, e seus limites… — E daí… passa também a ser função da filosofia analisar os fundamentos da ciência…questionar seus conceitos, objetivos, e metas … bem como avaliar as consequências de seus efeitos.

PENSADOR

Além disso… cabe à filosofia questionar sobre a neutralidade dos cientistas na manipulação de resultados, e condução das pesquisas em termos ideológicos. Quais os limites da ciência? Até que ponto as pesquisas são benéficas à humanidade?…E, quais limites éticos, o avanço científico deve respeitar? Essas perguntas conduzem a outras, tais como – O que é a ciência? O que pode e o que deve a ciência realizar? Qual sua função? Existe a neutralidade cientifica?…Até que ponto é confiável? Podemos questionar a ciência? … — Será que a ciência é boa para a humanidade? Dúvidas que multiplicam as perguntas.

A filosofia é hoje uma espécie de debate “adjacente e implícito”, sobre as condições das diversas discussões presentes nas ciências… E, os debates filosóficos não cessam, enquanto novas discussões não param de surgir. 

A crítica do sistema filosófico

No inicio da década de 1960, o francês Victor Goldschmidt escreveu um texto – hoje clássico…Trata-se de “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” – presente em sua obra A religião de Platão… Pensando na história da filosofia… – para ele existem 2 modos de interpretar um ‘sistema filosófico’, fazendo questionamentos do texto sobre sua ‘origem‘… – ou, sobre sua ‘verdade‘.

Em outras palavras, um sistema filosófico compõe uma verdade dogmática, perfeito na sua explanação lógica, e na sua pretensão de ser inquestionável…Por esse motivo, é passível de ser questionado através do contexto de sua construção – e/ou pelos embates suscitados na época de seu surgimento… – Assim desse modo seria possível contestá-lo através de outro, construído justamente para questioná-lo…

Por exemplo, questionar o sistema cartesiano por ele mesmo é impossível; Descartes tem respostas para todas as objeções através de suas obras. No entanto, o ‘sistema cartesiano‘ pode ser questionado pelo ‘empirismo‘.

Nasce ai o grande dilema – a existência de sistemas filosóficos que se contrapõem sem causar a anulação mútua. Estes sistemas coexistem de forma paradoxal, inclusive com novos conjuntos de pensamento tentando conciliar as contradições… criando soluções para o paradoxo, que não fazem mais que multiplicar verdades, sobre o mesmo objeto.

É o caso do sistema kantiano – que… através do                                   ‘criticismo‘, conciliou ‘racionalismo’ e ‘empirismo’.

Desse modo, a ‘filosofia contemporânea dividiu-se em várias correntes diferenciadas…De um lado, a filosofia analítica inglesa, evoluindo até o ‘positivismo lógico’…e do outro, o racionalismo alemão/francês… incluindo Nietzsche, Heidegger, Bergson, Freud, Sartre. A filosofia tornou-se assim ainda mais ‘eurocêntrica‘ … pondo de lado tudo que não fosse produzido por lá…(inclusive a ‘filosofia brasileira’.)

O ponto comum entre as tendências, apesar das diferenças, passou a ser a preocupação comum com a ‘crítica da linguagem… Dentro deste contexto, a ‘lógica‘ passou a ter papel decisivo. O que é facilmente compreensível…uma vez que a filosofia se inseriu na discussão sobre as condições do ‘debate cientifico‘…ao analisar suas argumentações.

A ‘crítica da linguagem‘ abordando a utilização da construção objetiva do discurso como instrumento de conhecimento nas ciências … tenta definir suas possibilidades e limites. O papel da filosofia, assim… passou a ser mostrar erros e ilusões na pretensão cientifica da verdade. – Mas, qual seria o papel da linguagem na descrição do mundo?   

Filosofia, Educação e Linguagem

Pensando na linguagem como articuladora de teorias cientificas…a filosofia encontrou assim, 2 alternativas…

1ª hipótese parte da premissa de que ‘verdades cientificas’ são representações vinculadas ao sujeito formador da teoria;  fruto portanto, da sociedade e sua época.

Assim, mesmo particularizada, geraria em dado momento – uma ‘verdade’ articulada por uma ‘linguagem própria’, remetendo a uma gênese constitutiva de um objeto, por meio de um ângulo histórico e psicológico.

A segunda hipótese afirma que uma teoria tem um ‘valor objetivo’, independente da história, e das representações daquele que capta a realidade, e a transforma em ciência. Definição esta, que escapa da “jurisdição psicológica”… – para tornar-se objeto de uma lógica renovada… admitindo a possibilidade de se alcançar a verdade.

Neste caso, a teoria também carece do uso da linguagem para ser expressa; mas, como toda linguagem está vinculada ao tempo e espaço – a verdade… mesmo cientifica, não existe – no máximo, apenas há verdades provisórias.

A filosofia tradicional, por seu lado…através de um fundamento único… busca a correta compreensão epistemológica da capacidade humana de representar – de modo exato, a natureza e a realidade…Kant, buscou esse fundamento para a renovação da filosofia, o qual só pode ser definido como a ‘ciência da linguagem‘. Considerando a filosofia como ‘linguagem’…em lugar do conhecimento único e seguro, devemos procurar fatos dentro       de um discurso…o qual, por sua vez, deve ser encarado apenas como ‘encadeamento de palavras’… – Estando estas, ligadas umas as outras, e não ao mundo…

por consequência… – a filosofia não pode atingir a ‘verdade’.

Entretanto, o grande mérito da filosofia é questionar a verdade, derrubando a pretensão de um conhecimento absoluto… Não importa a posição que se adote, tampouco importa     se a verdade é alcançável ou não…Seu lema deve ser modificar o homem por intermédio do debate, fomentando uma busca incessante por novos, e melhores valores… – Ou seja:

A principal tarefa da filosofia deve ser a de garantir as condições do dialogo – tornando a discussão permanente e ininterrupta. Abandonar a analise funcional do conhecimento para abrir espaço à conversação, favorecerá o renascimento da filosofia. A ‘diversidade filosófica’ ganha nova dimensão… – e a verdade em si passa a ser menos importante do que o processo de sua busca.

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CiênciaMétodo & Técnica

Não obstante a definição de ciência comportar múltiplos conceitos… — a teoria que remete aos seus princípios — é dependente de métodos, e técnicas para tornar-se viável.

Para Aristóteles, por exemplo – a ciência seria a busca do universal e eterno…Já no âmbito atual,   é tida como o processo de investigação, a fim de obter um conjunto de conhecimentos, supostos verdadeiros, por meio de generalizações verificáveis.

Para compor hipóteses e verificá-las, cerne do conhecimento cientifico, responsável por sua distinção do senso comum; o método é essencial; estando este… – por sua vez… irreversivelmente vinculado à técnica.

O método é definido como a ordem estabelecida na investigação da verdade, carecendo da técnica para ser efetivado, ou seja, de um grupo de processos específicos, ordenados em consonância com a metodologia. – Segundo o historiador Júlio Aróstegui…o método atuaria como uma bússola para a teoria – um sistema de orientação dos rumos a serem seguidos para obter certezas. A teoria, por outro lado, ao propor explicar os fenômenos,     e solucionar problemas observados – teria como método, o procedimento adotado ao se determinar os ‘passos’ para explicar e demonstrar a realidade… comprovando hipóteses.

Entretanto, paradoxalmente, assim como a teoria depende do ‘método’, este último também só poderia existir dentro do âmbito dos procedimentos lógicos, formulados           a partir de pressupostos teóricos… – formando o que os lógicos chamam de ‘circulo’.

A técnica, segundo uma definição alcançada em 1890 pelo filosofo Alfred Espinas,     seria, justamente, o conjunto de procedimentos ordenados pelo método… – ou…a     prática necessária para sua ‘efetivação’ – de forma que o método poderia empregar diversas técnicas – e uma técnica ser útil a diversos métodos.

Apesar de um certo interesse de Aristóteles na antiguidade, pela composição de um “método – chamado por ele ‘investigação‘, foi René Descartes — no século XVII… — o primeiro a formalizar  um método científico… tentando, com seu ‘Discurso do Método‘, fornecer um caminho…pelo qual fosse possível obter “resultados”.

Descartes pretendia assim,  criar um programa que regulasse… de antemão uma série de operações que evitassem erros — dividindo problemas complexos em partes menores, para facilitar sua resolução…à semelhança     de uma equação matemática – resolvida parte a parte – até atingir a solução do todo.

A teoria, o método e a técnica – unidos, compõem um sistema, constituindo                         um modelo que torna a ciência possível…O conceito de modelo implica em                       operações visando representar as relações e funções que ligam as unidades                       de um sistema, por meio de generalizações, que permitam suas explicações.

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Atitude filosófica

Devemos sempre lembrar que… – ao longo da história da construção do conhecimento humano nunca existiu uma distinção entre filosofia e ciência. – Esta, só apareceu após  Kant – no século XVIII…quando a filosofia passou a ser considerada como área básica,   ou seja, ciência… no sentido mais elevado.

Iniciou-se então, o tempo dos historiadores da filosofia passarem a se dedicar ao paciente trabalho de seleção e analise do pensamento filosófico já estruturado…Operação que fez o conceito de filosofo, e historiador da filosofia, muitas vezes se confundir… – No entanto…seja qual for a profissão ou ocupação, o mundo contemporâneo exige dos indivíduos ‘senso critico. E a passagem do senso comum para o senso crítico é feita justamente pela ‘filosofia‘…estimulando reflexão e questionamento sobre as verdades estabelecidas. A filosofia assim elimina o “achismo“, e torna as opiniões mais “embasadas” e “sistematizadas”… – possibilitando a construção de ‘metodologias‘.

Substituindo afirmações por indagações…a filosofia ajuda a enxergar além das aparências. Permitindo a obtenção de um instrumental para pensar de forma lógica… com maior coerência… possibilita a formulação do discurso de maneira clara. Poderia existir uma ferramenta poderosa mais valiosa?

‘Uma introdução à Filosofia da Ciência’ # ‘História, Métodos e Técnicas’                         ‘Diversidade filosófica e a busca da verdade’  #  #  #  ‘O que é filosofia?’

Textos: Fábio Pestana Ramos. Doutor em História Social pela FFLCH/USP.         Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo… (USP) ***********************(texto complementar)****************************

Breves Considerações Filosóficas sobre a ‘Verdade’                                                 A Filosofia nos reserva a alegria de conhecer a verdade sobre a existência, que só a experiência nos revela. Sua legítima função é a de nos oferecer uma percepção mais completa da realidade. Ao mesmo tempo em que essa realidade é criada (contínua e imprevisivelmente), sua imagem se reflete por trás dela – num passado imaginário. Descobre-se, então, ter sido ela… desde sempre… possível e realizável” (H. Bergson)

Sergei Aparin - Entre les époques I

Sergei Aparin – Entre les époques I

Em filosofia não há erro nem progresso. Uma grande filosofia é aquela que se aproxima   de uma relação com a ‘realidade’… — abarcando a totalidade das questões de sua época.

A filosofia sempre foi uma luta pela clareza e coerência, e sob esse aspecto, é uma obra linguística particular e privilegiada. É na reflexão e especulação filosófica que todos os problemas do sentido vêm refletir… Sua história demonstra que ela sempre combateu       as “armadilhas da linguagem” … e, portanto — sempre estará em luta consigo própria.

O “valor da verdade”… para a filosofia… é a sua própria essência…

Depois de Einstein, a cosmologia deixou de lado o racional, passando a ser usada pelo imaginário… Hoje, as verdades científicas… – perdendo o seu ‘sentido ontológico’…se tornaram essencialmente ‘culturais’…Não existindo categorias preexistentes à ciência,       o “meio cultural” se tornou o local histórico da confrontação dos valores. — O homem descobre o ‘verdadeiro’ como uma forma cultural… – que, de certo modo…institui em terreno válido a questão filosófica do ‘existir’…

Não existe ‘verdade filosófica‘. A filosofia não é um tipo de especulação cujo valor possa   ser medido por falso ou verdadeiro. Seu valor intrínseco é diferente do valor da verdade, que – a rigor…só pode convir ao ‘conhecimento científico’. A ciência constitui a verdade, mas não como um fim em si mesma… — A questão da interrogação sobre sua finalidade prática no entanto… – é uma questão ‘fundamentalmente filosófica… – e não científica. 

As ciências falam uma linguagem técnica, aproximadamente unívoca, e se constituem apenas de verdades – no senso estrito do termo. Esta linguagem, que possui um certo código restrito, está ligada a uma linguagem natural, que – antes da filosofia…era, ela mesma espontaneamente ontológica. A ciência não descobre a verdade, ou não revela     uma realidade que lhe seja anterior. – Ela institui…e constitui o problema da verdade,         e os ‘processos efetivos’ … pelos quais pode receber uma série de respostas ordenadas.

Sendo o homem, historicamente…produtor da verdade – sob a forma prática científica, então – para toda produção se coloca o problema do fim (telos) do produzir. A filosofia,   no entanto, não é uma produção da verdade (como tal…) mas… de certa forma — ela se interroga sobre o seu fim…sobre a destinação deste particular acontecimento produtor.

 A filosofia será tão mais indispensável, quanto                                                      mais técnica, e específica – a ciência se tornar. 

O problema da ‘incompletude’                                                                               Esperamos estar com a verdade… – mas não podemos consignar a                           verdade a um “sistema filosófico” produzido pela ‘história cultural’.

Não havendo uma verdade filosófica…esta só aparece em uma relação com a ‘totalidade’ (Natureza, Homem, Cosmos) – pois… sendo a ciência restrita a aspectos extremamente especializados, que estabelecem tecnicamente sua própria verdade…para ela não há um ‘objeto absoluto’. Assim, reservamos esta totalidade na qual estamos inseridos à relação com a ‘questão filosófica da verdade’.

Mas toda filosofia moderna (sobretudo após Kant) que se caracteriza pelo conhecimento da verdade, não basta para resolver a questão filosófica da ‘totalidade’. A filosofia hoje, é obrigada a certa vulgarização (no ‘bom sentido’) para poder retraduzir … o que jamais se traduzirá… – a ‘essência da verdade’… – seu projeto de início, ou ‘destino’.

Por ser própria à filosofia, a totalidade não está na natureza…no cosmos,                           no mundo. A ideia de totalidade figura na maneira pela qual se recupera,                         racionalmente … a relação do ser — com o fenômeno singular do ‘existir’. 

Philosophie et Verité‘…   debate de ideias entre Jean Hyppolite, Georges Canguillem, Paul Ricoeur, Michel Foucault, e Alain Badiou. 1965 (youtube) *********************************************************************

TARSKI E A CONCEPÇÃO SEMÂNTICA DA VERDADE

O que significa dizer de um “enunciado”, que ele é verdadeiro?… Responder a essa pergunta… – necessariamente – acarreta comprometer-se – com ‘algum tipo‘ de… ‘teoria da verdade.

Dentre as mais diversas teorias da verdade elaboradas ao longo da história da filosofia ocidental a chamada teoria da verdade por correspondência é a mais conhecidabem provavelmente…também a mais conforme à crença do que chamamos senso comum).

Segundo ela…o que torna um enunciado verdadeiro (…ou falso) é uma relação de correspondência (ou não) entre o que é enunciado…e certos       ‘fatos’… ou “estados de coisas”… – que, realmente…’existem’ no mundo.

Portanto, segundo a ‘teoria da correspondência’…a verdade ou falsidade de um enunciado é determinada pela existência de fatos que correspondam…inequivocamente, ao conteúdo que está sendo enunciado. Mas, apesar de sua ampla aceitação e de sua aparente correção, essa teoria, já desde suas 1ªs elaborações mais explícitas (provavelmente com Aristóteles), viu-se presa de dificuldades teóricas bastante contundentes.

Uma dessas dificuldades pode ser bem ilustrada… – por qualquer uma das variações do chamado “paradoxo do mentiroso”, formulado pela afirmação: “Este enunciado é falso”. Pela “teoria da correspondência”… este enunciado seria verdadeiro, se existisse um fato correspondente ao que está sendo afirmado…ou seja, seria um enunciado verdadeiro se realmente fosse um enunciado falso…Mas, se o enunciado fosse falso, isto é, se nenhum fato correspondesse ao que afirma…então, a premissa “Este enunciado é falso”…deveria ser verdadeira.

Nada poderia ser mais incômodo para a ‘teoria da correspondência‘… ou qualquer outra teoria que pretenda explicar em que consiste a ‘verdade’ … do que ter em seu encalço um paradoxo dessa natureza…Justamente como um meio claramente deliberado de se livrar das dificuldades geradas pelo “paradoxo do mentiroso” (e semelhantes) que o lógico polonês Alfred Tarski elaborou sua chamada ‘teoria semântica da verdade’.  (texto base) ***********************************************************************************

Leonidas - expliacações científicasA moderna ‘função’ científica

A compreensão da natureza real do conhecimento científico tornou-se uma “questão complexa”…em especial na cultura luso-brasileira… pela presença do denominado ‘cientificismo‘…Por isso, parece essencial ter presente que a ‘ciência moderna’ não se propõe a substituir a religião ou filosofia… nem pode facultar as bases — para a formulação de um “código moral” para governar a ‘cultura ocidental’.

A ciência não se constitui de algo pronto e acabado, sendo seu programa de pesquisa e trabalho restrito a pequenos grupos. Os vários segmentos da ciência, notadamente no que se refere às chamadas ciências exatas… encontram-se rigorosamente formalizados. Sua investigação a ser empreendida é formulada através de “hipóteses“, cuja elaboração requer conhecimentos específicos profundos.

Leônidas Hegenberg (nascido em 1925) pertenceu ao ‘Corpo Docente’ do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), onde criou uma publicação destinada à difusão             da contemporânea ‘filosofia da ciência’…Incumbiu-se também de traduzir autores renomados, colocando ao alcance dos interessados textos até então desconhecidos             no país… – Além disso…sua obra teórica é das mais representativas… – com livros dedicados integralmente à… – ‘filosofia da ciência‘… e à… – ‘lógica moderna‘.

Em seu livro “Explicações científicas”… sucessivamente reeditado… pode-se alcançar uma visão abrangente dos procedimentos científicos, através de algumas teses… – A 1ª delas consiste numa crítica ao… ‘bom senso‘…

As pessoas vivem em comunidades onde as coisas ao redor têm nomes, e estão instruídas por – “sentenças declaratórias” que… interpretando as ‘circunstâncias’ em que vivemos, são transmitidas  –  de geração em geração…pelas tradições orais, nas salas de aula, nos livros, formando uma “intrincada rede”…à qual nos habituamos… — tendo … ou não… consciência disto.

Um traço notável de boa porção das informações adquiridas — por meio da experiência ordinária, é o de que – ainda quando a informação, dentro de certos limites, se torne razoavelmente precisa, ela raramente se faz acompanhar de explanações que possam esclarecer … porque os fatos são como se diz que sejam.

Acresce que o ‘bom senso’, se chega a apresentar explanações, fornece-as, na maioria das vezes, sem indicação dos “testes críticos”, que salientem a “relevância da explanação” … — para aquilo que se tem em vista explicar.

É justamente o desejo de se obter explicações ao mesmo tempo sistemáticas e controláveis, pela evidência factual, que a ciência é gerada…Constitui um de seus alvos, a organização e classificação dos fenômenos…com base em ‘princípios explanatórios‘, em tessituras cada vez mais densas, abrangendo um número crescente de acontecimentos… Assim, a pesquisa científica, não se realiza num ‘vácuo intelectual’. – Muito ao contrário…Quando se observa ou experimenta, quando se investiga…há uma ideia básica a nortear os passos da pesquisa, justamente o que se denomina de hipótese.

Além disso, de tempos em tempos surge a necessidade de confrontar uma hipótese com outra anteriormente aceita. – Este trabalho é governado por um tipo especial de atitude científica. A hipótese deve atender a requisitos mínimos – ser adequada, isto é, estar de acordo com evidências recolhidas… ser passível de submeter-se a testes – e consistente, vale dizer… – compatível com outras hipóteses, que não se deseja de pronto abandonar.

E por fim… a ciência não procura resultados definitivos. As afirmações irrefutáveis não fazem parte da ciência…mas dos ‘mitos’. Este é o princípio capital da ‘refutabilidade’. A ciência enfrenta o risco…de ver abandonadas as soluções que propõe… O seu progresso deve-se, em grande parte…ao fato de que – propõe ‘soluções específicas’ para ‘questões específicas’, submetendo-as sem cessar, ao crivo da crítica. – A crítica gera o progresso.       A “verdade imbatível”… gera estagnação****************(texto base)**************** 

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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Uma resposta para O Princípio Filosófico da ‘Verdade’

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