Fundamentos da Filosofia da Ciência do Caos

“A natureza usa um fio muito longo para tecer suas tramas – mas…apenas um pequeno pedaço do tecido… já revela toda a organização de sua tapeçaria.”  (Richard Feynman) 

filociênciaFilosofia e ciência seguem 2 vias opostas; conceitos filosóficos têm por consistência acontecimentos…enquanto as ‘funções científicas’ têm como referência estados      de fase — ou seja, enquanto filosofia… é ‘sintagmática’… ciência é ‘paradigmática’.  A filosofia busca dentro destes “estados”, ocorrências ‘emblemáticas‘… enquanto a ciência atualiza funcionalmente os fatos, por sobre um estado de fases referencial.

A filosofia procede sob um plano conceitual de imanência;                                 e a ciência atua sobre um sistema funcional de referência.

Na ‘imanência conceitualfilosóficatemos um conjunto unificado de variações sob a influência de uma ‘razão contingente’ – enquanto na ‘referência funcional’ científica,       um conjunto de variáveis independentes atua sob controle de uma razão necessária.    Dessa forma, o conceito filosófico de…”acontecimentos entrelaçados“…sob um plano imanente se distingue da função científica de um ‘estado de variáveis independentes’, em um sistema de referência.

Contudo, esta oposição natural entre ‘multiplicidades(intuitivas ou discursivas) com relação aos conceitos fragmentários sob um ‘plano de imanência‘, ou às ‘funções de estado’ nos ‘sistemas de referência… também está apta a julgar a correspondência       entre ciência e filosofia, em sua eventual colaboração… – ou mútua inspiração criativa.

A ciência, destarte…não tem qualquer necessidade da filosofia para efetuar suas tarefas, porém, quando um objeto é cientificamente construído por funções…por exemplo… um espaço geométrico — resta buscar seu ‘conceito filosófico’…que nunca é dado na função.  Os Pré-Socráticos, a propósito, já detinham o essencial de uma determinação científica válida até nossos dias… quando faziam da física uma teoria da mistura de seus diversos elementos. Anaxágoras, por exemplo… mostrou que todo objeto contém, em todas suas partes — mesmo aquelas mais ínfimas – uma multiplicidade infinita de propriedades qualitativamente diferentes… e intimamente misturadas… (água…terra…ar…fogo).

“Enquanto Filosofia é a arte de fabricar conceitos, a Ciência tem por objeto funções — que se apresentam como ‘proposições’ nos sistemas discursivos” 

Ciência, Filosofia & Arte                                                                                                    Para a ciência…por exemplo, resolver um problema é escolher boas                                  variáveis independentes… instalar o observador em certo percurso;                                    construir as melhores coordenadas de uma equação, ou função, etc’.

Conceito filosófico e função científica se distinguem, por 2 características interligadas:  a) variações interligadas ou independentes; b) acontecimentos num ‘plano de imanência’, ou ‘estado de coisas’ num sistema de referência, respectivamente. Conceitos e funções se apresentam assim, como 2 tipos de variedades – ou multiplicidades… que se diferem em natureza. Mas, há uma 3ª grande diferença – que se refere ao…‘modo de enunciação’.

Com certeza, há tanta experimentação mental em termos filosóficos quanto científicos; e, nos 2 casos, os resultados podem ser perturbadores – estando próximos do caos. Porém, também há criação – tanto em ciência, quanto em filosofia… Sendo que, assim como nas artes, nenhuma criação existe sem ‘experimentação’. – Aliás, o fato de existir ‘percepções sensíveis’ basicamente filosóficas ou científicas, já indica uma relação fundamental entre, ciência e filosofia de um lado – e arte… de outro – de tal forma… que se costuma dizer da “beleza” de uma função… – assim como de um conceito.

É verdade que os respectivos ‘campos de criação’, se encontram balizados por entidades muito diferentes nos 2 casos, mas que não deixam de apresentar certa analogia em suas tarefas… resolver um problema, em ciência ou filosofia não é simplesmente responder a uma questão, mas adaptar os elementos correspondentes em um curso predeterminado.

Nesse sentido — é notória a incessante reafirmação da ciência na eterna oposição a toda forma de religiosidade, através da integral substituição do fenômeno da transcendência, pela correspondente funcional do paradigma, a um sistema de referência. Determina-se assim – com rigor científico…a forma pela qual esta deva ser construída, e interpretada. 

Ciência, Filosofia & Caos

Da confrontação direta entre filosofia e ciência podemos deduzir que esta se dá sob 3 instâncias principais: a) plano de imanência – ou ‘sistema de referência’;  b) variações contínuas – ou… variáveis independentes; c) personagens mítico- conceituais…ou, observadores parciais.

Uma importante consequência prática desta diferença de abordagem, está na  posição de atitude… perante o Caos… 

Define-se ‘Caos – menos por sua desordem…que pela velocidade infinita…                pela qual toda forma que nele se esboça – é dissipada… Segundo Ilya Prigogine:                Caos é um vazio ‘virtual’, contendo potencialmente todas partículas possíveis,  suscitando todas as formas possíveis… – para desaparecer logo em seguida sem consequência, consistência ou referência, numa velocidade infinita… de vida ou                  de morte.” (‘Entre le temps et l’éternité’)

Como consequência lógica…a filosofia então pergunta – como conceber essas infinitas velocidades mantendo (ao mesmo tempo) uma virtual consistência própria? A ciência,   por sua vez, possui uma maneira peculiar… – quase inversa de abordar essa infinitude caótica… – ela renuncia à ‘velocidade infinita’ – por meio de um limite relativístico ‘c’, para ganhar a referência capaz de atualizar o virtual. E guardando (potencialmenteo infinito, a filosofia dá ao virtual uma consistência conceitual…enquanto que a ciência, renunciando ao infinito fornece ao virtual uma referência que o atualiza por meio das ‘funções de estado’.

No caso científico é como que uma suspensão’ da imagem virtual,  limitando, numa fantástica “desaceleração”…o ‘caos virtual‘, ao              seu limite relativístico: uma ‘constante universal’…proibida de ultrapassagem, referencial do qual…todas velocidades dependem. 

Os primeiros elementos de uma função científica são, portanto, o limite e a variável; sendo que, a referência é uma relação entre os valores da variável com seu limite. Aliás, são esses limites (ou constantes universais) que constituem a ‘desaceleração no Caos’ – ou seja, o limiar da ‘suspensão no infinito’…como referência interna nos sistemas de coordenadas.  Não são relações – mas números (“constantes cosmológicas“) – e, toda teoria das funções depende deles. Por exemplo, a velocidade da luz (299.796 km/seg) onde os comprimentos se contraem até 0, e relógios param; ou na temperatura, onde o Zero Absoluto (-273,15ºC) e, na teoria, velocidades termodinâmicas deixam de existir. Dessa maneira…a ciência está  impregnada por um ‘plano de referências’, constituído por todos esses limites, ou ‘bordas’,  sob os quais ela “espreita o caos”… – Estas bordas – por conseguinte…dão ao plano original suas…”referências“… – sob seus…”sistemas de coordenadas“.

georg-cantorTeoria dos Conjuntos (de Cantor)

É difícil compreender, como o limite corrói imediatamente o infinito  –  o ilimitado; pois não é a coisa limitada que define o infinito – é o limite que torna possível uma “coisa limitada“.

Todo limite é ilusório, e toda determinação é negação…se a determinação não está numa relação imediata com o indeterminado… A teoria da ciência e das funções depende disso,  e é Cantor quem a formula matematicamente, de um duplo ponto de vista – intrínseco e extrínseco… A teoria dos conjuntos, de fato, é a constituição de um ‘plano de referência’, que não comporta somente uma determinação intrínseca de um conjunto infinito…mas, também uma determinação extrínseca…

  1. do ponto de vista intrínseco, um conjunto é dito potencialmente infinito… — se apresentar uma correspondência biunívoca, termo a termo — com o conjunto dos nºs inteiros (Alef =0), gerando assim, funções contínuas.
  2. Do ponto de vista extrínseco, um conjunto é dito  –  potencialmente transfinito, se apresentar uma correspondência biunívoca com um conjunto maior que o dos inteiros (Alef >0) – por exemplo – o conjunto dos números reais… gerando assim,  funções probabilísticas.

Desse modo, o que, na prática, a teoria dos conjuntos faz, é inscrever um limite ao próprio infinito – ou seja – ela instaura uma ‘desaceleração’ como plano de referência, sem o qual, haveria um ‘conjunto de todos os conjuntos’ – o qual, Cantor definia como um ‘conjunto caótico’…(Georg Cantor – Fundaments d’une théorie générale des ensenbles)

É no plano de referência, quando o limite gera – pela desaceleração – uma abscissa das velocidades, que as formas virtuais caóticas…independentemente, tendem a se atualizar conforme a uma ordenada. Portanto, o limite é a origem de um sistema de coordenadas, composto por, ao menos, 2 variáveis independentes…as quais se relacionam de forma a gerar uma 3ª variável, correspondente aos ‘estados’ matemáticos, físicos, ou biológicos,    da matéria formada no sistema.

O “estado do sistema” é representado pela função de uma variável complexa, que depende da relação entre, ao menos 2 variáveis independentes…A independência das variáveis, por sua vez, aparece, matematicamente, quando uma delas possui uma potência mais elevada que outra (exemplo: Y²/x = P). – Então…uma relação pode ser diretamente determinada como função diferencial (dy/dx) sob a qual o valor das variáveis não tem outra finalidade, a não ser, nascer e morrer – muito embora, extraído das velocidades infinitas. De uma tal determinação – aliás – depende um “estado de coisas“…ou uma “função derivativa“.

‘Estado de coisas’ x ‘Estados do sistema’…                                                                   Estados de coisas‘…(de objetos ou corpos), e ‘estados vividos’ são referências das funções – enquanto que os “acontecimentos“, formam a consistência dos ‘conceitos’. 

O ‘estado de coisas’ é definido como a mistura dos dados atualizados pelo mundo, em seus estados anteriores… ao passo que, os ‘corpos‘ são novas atualizações, cujos estados privados reproduzem estados de coisas para novos corpos decorrentes…Já ‘estados do sistema’ são as funções – cujas coordenadas geométricas dos sistemas (“supostamente fechados”) conferem às coisas – nas interações de energia dos “sistemas acoplados”…as informações necessárias aos corpos … em seus sistemas de coordenadas independentes. 

jorge_luis_borges.jpg

Em todo e qualquer domínio — a passagem de um estado de coisas ao estado de corpo… por meio de um potencial correspondente  — retrata um “momento essencial”.  O privilégio de todo ser vivo é de dentro — reproduzir o potencial, pelo qual atualiza seu estado…e, individualiza seu próprio corpo.

Passa-se aqui, da mistura à interação…as interações dos corpos condicionam uma sensibilidade, que se exprime nos observadores parciais; completando, enfim, sua atualização nos seres vivos. Pela ‘percepção‘ – a interação se torna comunicação.            No entanto, nenhuma dessas operações se faz de per si. Mesmo não-orgânicas, as        coisas têm um vivido – pelo qual são motivo de ‘percepções‘ … e “tempos de vida”.

A lógica dos conceitos                                                                                                           Por querer fazer do conceito uma função – a lógica se torna… necessariamente, reducionista. É preciso pois, inventar novo tipo de função, propriamente lógica.’

Uma ‘função completa’ é definida como a relação de dependência, ou correspondência de um, ou vários pares ordenados, onde a referência à variável (argumento independente da função proposicional) define a referência da proposição (ou, seu valor-verdade) para o determinado argumento. Todo conjunto completo tem um nº determinado de elementos,  chamados de ‘objetos do conjunto’. O conjunto dos ‘valores-verdade’ de uma função, que determinam proposições afirmativas verdadeiras… constitui a extensão de um conceito. Os objetos do conceito por sua vez ocupam o lugar das variáveis (argumentos da função proposicional) para as quais a proposição é verdadeira (ou…sua referência é preenchida).

O conceito…é uma ‘função’ para o conjunto de objetos que constituem sua extensão.      As funções, por sua vez, tiram toda sua potência…da “referência”… – e, é fatal que a redução do conceito…à uma ‘função‘… – o prive de todos os seus caracteres próprios. 

O “pensamentocomo tal, produz algo de interessante quando alcança o “movimento infinitoque o libera do ‘verdadeiro’, como paradigma suposto…e reconquista um ‘poder imanente’ de criação….Mas para isso se dar      é necessário que se vá aofundo do poço‘,      interior do ‘estado das coisas‘, para penetrar    em sua consistência; sua esfera do virtual,  para daí então, atualizar-se. Tal pensamento natural porém…é o que a lógica apenas pode mostrar – sem jamais apreendê-lo…(ou seja, remetê-lo a uma referência)A lógica então, assim se cala, e paradigma a paradigma se identifica com uma espécie de budismo-zen.

Confundindo os conceitos com funções – um verdadeiro ‘ódio‘ anima a lógica, em sua vontade de suplantar a filosofia. Todavia, o conceito renasce (das cinzas) porque não        é uma “função científica”…muito menos uma “proposição lógica”… – ele não pertence        a qualquer sistema discursivo… – portanto…não tem referências… – Os conceitos se mostram, e não fazem nada além disso. – ‘Monstros‘ que renascem de seus próprios destroços, são conjuntos vagos e difusos…simples agregados de percepções… – que se formam no “vivido”…imanentes a um sujeito, a uma consciência. – Entretanto…não é nesses juízos empíricos que se encontra, de pronto, o refúgio dos conceitos filosóficos.        É preciso achar funções em que esses grupos de conteúdos vividos, só sejam variáveis.

‘Conceito’…’Função’…’Acontecimento’                                                              

A relação (difusa) entre conceito e função é suscetível à filosofia, sob vários aspectos:

  1. ela faz da ciência, o conceito, por excelência, que se exprime na proposição científica;
  2. ela substitui o conceito filosófico por um conceito lógico… — nas proposições de fato;
  3. ela deixa ao conceito filosófico uma parte reduzida, ou ‘degenerada’ – no domínio da opinião…servindo-se de uma suposta sabedoria superior, ou de uma ciência rigorosa.

Mas o conceito não tem seu lugar em nenhum desses 3 sistemas discursivos. – Ele não é uma função do vivido, nem uma função científica, ou lógica. – De fato…a ‘irredutibilidade’ dos conceitos às funções só se descobre se ao invés de confrontá-las ao acaso, realizarmos uma comparação entre o que é referência aos conceitos, ao que dá consistência às funções.  conceito possui uma ‘potência de repetição’ que se distingue da potência discursiva da função. Em sua produção e reprodução, ele tem a realidade de um virtual, inversamente às funções de atualização dos estados de coisa (corpo)…e, do vivido… – Por isso, criar um conceito… não é a mesma coisa que traçar uma função… – muito embora, os dois tipos de “multiplicidade“…em criações, e transformações…constantemente se entrecruzem.

A ciência opera todas espécies de bifurcações, sobre um plano de referência não preexistente. É como se a bifurcação fosse procurar – no infinito do caos virtual,           novas formas por atualizar…usando uma espécie de ‘potencialização da matéria’.

Carbono, por exemplo, introduz na tabela periódica uma bifurcação, que faz dele,     por suas próprias propriedades conectivas…o estado apropriado da matéria orgânica.         É que o ‘estado de coisas’ atualiza uma virtualidade caótica… carregando consigo um espaço não mais virtual… — mas, que ainda mostra sua origem … servindo como um ‘correlato’, propriamente indispensável ao acontecimento. – Um “núcleo atômico“,      por sua vez… se encontra próximo ao caos…cercado por uma ‘nuvem probabilística’          de partículas virtuais, constantemente emitidas e reabsorvidas. Mas, o elétron, num      nível mais avançado de atualização, está em relação com um “fóton potencial“… que interage com o núcleo…para dessa forma…gerar um novo estado da matéria nuclear.

Contudo, não se pode separar um ‘estado de coisas’…do seu próprio potencial… através do qual opera; sem o que…não haveria atividade, ou evolução…Por esse potencial o estado pode passar a um ‘espaço de fases‘…cujo nº dimensional… cresce  com o nº de variáveis…ou, individualizar corpos…que forma dentro de seu…’campo potencial’. 

Um ‘estado de coisas’, em geral, não atualiza o ‘virtual caótico’… sem lhe fornecer um ‘potencial’, distribuído ao longo do sistema de coordenadas.

Consagrando-se ao funcional…a matemática e a física tomam por objeto a própria formação evolutiva…e não, sua forma acabada. Por seu lado, o único interesse dos conjuntos é a atualização de seus limites – eles dependem das funções – e… não o contrário… – por conseguinte… a função – é o verdadeiro ‘objeto da ciência‘.

Nesse sentido, as funções podem ser classificadas como:

  1. funções de coisas, objetos, ou corpos individuais – que constituem ‘proposições lógicas’ em termos singulares – os quais exercem descrições, que determinam seus predicados;
  2. funções de estados de coisas, ou ‘proposições científicas’; e, as opiniões, ou ‘funções do vivido’.                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Podemos, então, definir que, na ciência, a função determina um estado de coisas  (ou corpos), que atualiza o virtual, sobre um sistema de referência, ou coordenadas.

na filosofia, o conceito exprime um ‘acontecimento’, que empresta ao virtual uma consistência ordenada, sob um ‘plano de imanência‘. Ou seja, o acontecimento fornece sua consistência virtual ao ‘conceito’…enquanto a atualização do ‘estado de coisas’ dá suas referências à função… – Efetivamente, o “acontecimento“…é inseparável do seu “estado de coisas”…(ou corpos)…e do vivido, nos quais se atualiza, ou efetua…todas as vezes que o investimos num “estado de coisas. Mas, podemos dizer também o inverso… que o ‘estado de coisas’ é inseparável do acontecimentoo qual transborda sua atualização a toda parte.

‘Conceitos fenomenológicos                                                                                                  O conceito, como significação, é tudo isso…ao mesmo tempo – imanência do vivido ao sujeito com relação às variações do vivido; totalização do vivido; e função destes atos’.

Há uma longa série de ‘mal-entendidos’ sobre o que é ‘conceito‘. A ciência, por exemplo, o arrogou para si mesma – porém…há também “conceitos não científicos“… os quais suportamos em doses homeopáticas – ou…melhor dizendo…em ‘doses fenomenológicas’.

A verdade é que o ‘conceito’ é confuso e vago, não porque lhe falte contorno, mas por ser não discursivo… – em deslocamento sobre um “plano de imanência“… – onde variações intrínsecas mudam, constantemente, seu próprio contorno. Não há, de maneira alguma, referência, nem ao vivido, nem aos ‘estados de coisas’…mas uma consistência – definida por seus componentes internos. O conceito é acontecimento, como sentido que percorre imediatamente todos seus componentes… – É uma forma…ou força…jamais função, em qualquer sentido possível… – Assim, não há conceito, senão filosófico, sobre o ‘plano de imanência’ – e… as “funções científicas“… ou “proposições lógicas“… não são conceitos.

Todavia é preciso que a compreensão seja transcendente, e se acrescente à opinião; se distinguindo dela em sua imanência, para torná-la verdadeira.

A filosofia grega permaneceu atada a este dilema – inteiramente disposta a ‘redesdobrar‘ sua transcendência, mas para isso necessitava da imanência a algo de transcendente, isto é, a ‘idealidade‘… A beleza e a bondade não cessam de nos reconduzir à transcendência.  É como se a opinião ‘verdadeira’ exigisse ainda um saber, que ela, todavia destituiu. Mas,  sendo assim…a fenomenologia (que necessita da arte…como a lógica da ciência) também não recomeçaria uma tentativa semelhante?… – O vivido não faz do conceito outra coisa, senão uma ‘opinião empírica’ – é preciso então, que a ‘imanência do vivido‘ a um sujeito transcendente faça da sua opinião um acontecimento – do qual pertençam arte e cultura,    e…que se exprima como um “ato” desse sujeito… – em sua própria…”experiência vivida”.

Assim, os gregos…com suas cidades; e a fenomenologia…em nossa sociedade ocidental, têm certamente razão de supor a opinião como uma das condições da filosofia. Porém, será que esta encontrará a via que a conduza ao conceito, invocando a arte como meio   de se aprofundar na descoberta de ‘opiniões originárias’…ou, ao contrário, será preciso com a arte, subverter a ‘opinião’…elevando esta ao movimento infinito, que substitui o seu próprio conceito?…

Lógica Transcendental Dialética                                                                                         “Se o tempo é infinito, é por conta do movimento instaurado pelas diversas forças         em relação – mesmo sendo elas finitas.”  (Gilles Deleuze – ‘Nietzsche e a filosofia’)

Se o mundo vivido deve fundar e suportar a ciência … bem como a lógica do… “estado de coisas” – é natural a utilização de “conceitos filosóficos”… – para edificar essa fundação…Não que o conceito se confunda com o ‘vivido‘; o qual,  só fornece ‘variáveis’ – enquanto conceitos devem também definir funções, que apenas farão alusão  ao vivido — assim como ‘funções científicas’…ao ‘estado de coisas’.

Será preciso então…que dentro da imanência do vivido – a um sujeito, se descubram atos de sua “transcendência”…capazes de constituir as novas funções de variáveis, ou referências conceituais. – O sujeito… nesse caso, não é mais o…”solipsista empírico”…mas um “indivíduo transcendental”.

Kant começou a realizar essa tarefa — mostrando como os conceitos filosóficos remetiam, necessariamente, à experiência vivida por proposições – ou juízos a priori – como funções de um todo da experiência possível; entretanto, é Edmond Husserl quem vai descobrir nas ‘multiplicidades imanentes‘…a tríplice raiz dos atos de transcendência – pelas quais o sujeito constitui um mundo sensível… povoado dos objetos que — as formações científicas, matemáticas e lógicas, demarcarão.

Não são mais subconjuntos vagos…mas sim, totalizações – que excedem toda potência        dos conjuntos. Nem são conteúdos sucessivos do fluxo de imanência, que determinam        as significações da totalidade potencial da realidade — mas… “atos de transcendência”.

A ciência dos “acontecimentos transcendentes”                                                              “Todo acontecimento está, por assim dizer, no tempo em que nada                                        se passa” (Bernard Groethuysen – ‘De quelques aspects du temps’)

A ciência passa da virtualidade caótica aos ‘estados de coisas e corpos’ que a atualizam; todavia, ela é menos inspirada pela preocupação de se unificar e atualizar num sistema ordenado, do que por um desejo de não se afastar demais do caos – cavando potenciais para aprender a domesticar uma parte do que a impregna — o segredo do caos por trás dela (‘pressão do virtual’). — Contudo, ao remontarmos a linha na direção contrária;    do estado de coisas…ao virtual – este não mais é ‘virtualidade caótica’…mas um tipo de virtualidade tornada consistente; entidade que se forma sobre um ‘plano de imanência’      que corta o caos.

É o que chamamos de ‘acontecimento’, ou a parte do que escapa à sua própria atualização em tudo o que acontece. O acontecimento não é…de modo algum, o estado de coisas…mas ele se atualiza num estado de coisas; possuindo uma sombria parte secreta que não para de se atualizar… Não começa, nem acaba, só retém o…”movimento infinito“…ao qual empresta…seu próprio equilíbrio.

É o ‘virtual‘ que se distingue do atual, mas um virtual que não é mais caótico, e sim… – tornado consistente (ou real), sobre o…”plano de imanência”… que o arranca do caos… Real… sem ser atual. 

Transcendente… porque ‘sobrevoa’ o ‘estado de coisas’… sendo a própria imanência que lhe dá a capacidade de sobrevoar a si mesmo, em si mesmo.

Ao longo de um ‘estado de coisas’ procuramos isolar variáveis em determinado instante; para ver a partir de um certo potencial quando estas variáveis intervêm entre si, ou com outras; suas relações de dependência; suas singularidades; quais limites cruzam e quais bifurcações percorrem. Traçamos assim suas ‘funções de estado‘; cujas diferenças entre local e global…entre físico e matemático…lógico e vivido – pertencem ao seus domínios.

Um ‘sistema atual’, um ‘estado de coisas’, ou um ‘domínio de função’ se definem então, no intervalo de tempo entre 2 instantes; mas, quando nos voltamos para a virtualidade – que se localiza no ‘estado de coisas’ – descobrimos uma realidade inteiramente diferente…que transborda toda função possível… – Segundo James Gleick… – em “La Théorie du Chaos”:

“O acontecimento não se preocupa com o lugar em que está, nem em saber desde quando existe. – A arte…e mesmo a filosofia…podem apreendê-lo melhor do que a ciência. Sendo imaterial… incorporal… invisível – pura ‘reserva potencial’…de um imanente interior; o que transcende é antes de tudo o próprio ‘estado de coisas’ no qual então ele se atualiza”. 

Não é mais o tempo que está entre 2 instantes…pois o ‘acontecimento’ é um ‘entretempo’, um devir…duração. Em cada acontecimento há inúmeras e diferentes partes simultâneas, que são singularidades de uma nova ordem infinita. Na “virtualidade” nada se passa, todavia tudo muda; pois o devir não para de atualizar o acontecimento a outro momento; alhures. Quando o tempo passa, e leva o instante…há sempre um entretempo para trazer    o acontecimento. Enquanto a função, com suas relações temporais, apreende um ‘estado de coisas’…é o conceito que guarda o acontecimento…seu devir…suas próprias variações.

A finalidade filosófica                                                                                                               “A filosofia não tem outro objetivo, além de tornar-se digna do acontecimento”

nuvens

Caminhamos do ‘virtual‘, ao atual “estado de coisas” – ou vice-versa, sem poder os isolar… um do outro.  A linha, na qual subimos… não é a mesma pela qual descemos. Então  dizemos que elas…não se “isolam” do “virtual caótico” que atualizam.  Por isso, filosofia parece à ciência, não um ‘evento real‘ ordenado no conceito…mas, névoa que alucina.

A linha da atualidade científica traça um plano de referência, que recorta o caos, retirando dele estados de coisas – que também atualizam (em suas coordenadas) os acontecimentos virtuais, mas só retém dele potências…já em vias de atualização. Inversamente, tendo em vista os conceitos filosóficos do acontecimento… sua virtualidade remete ao ‘caos‘… mas, sobre um ‘plano de imanência’… que dele só extrai… – a intrínseca consistência do virtual. 

As 2 linhas são portanto inseparáveis, mas independentes entre si… – a filosofia só fala da ciência por alusão; e a ciência só se refere à filosofia, como uma nuvem. – O conceito não reflete sobre a função…nem esta se aplica ao conceito; ambos se cruzam, mas cada um seguindo sua linha.

Se a filosofia precisa, fundamentalmente, da ciência que lhe é contemporânea, é porque esta cruza – sem cessar – a possibilidade do conceito… e, porque este, necessariamente, comporta alusões à ciência…Por exemplo, as funções riemmanianas de espaço não nos dizem nada de um conceito próprio de espaço à filosofia – só quando esta estiver apta a criá-lo que teremos o conceito desta função. Igualmente o número irracional é definido por uma função, como o limite comum de 2 séries racionais — das quais… uma não tem máximo, ou a outra não tem mínimo. – Seu conceito…todavia, não nos remete a “séries numéricas”…mas sim – a uma sequência de ideias… – se encaixando por sobre lacunas.

A morte… por outro lado – pode ser assimilada a um “estado de coisas” cientificamente determinável…uma função de variáveis independentes,      ou mesmo, uma (dis)função do estado vivido — mas…aparece também, como um acontecimento puro… cujas variações sejam inerentes à vida.

supertramp

A “função caótica“…                          ‘O conceito filosófico requer…não uma identidade ao conjunto, mas ao sujeito’.

Não haveria nem um pouco de ordem nas ideias… se não houvesse também, nas coisas, ou seus “estados naturais”.  Para um acordo objetivo entre coisas,    e pensamento… a “sensação” deve se reproduzir junto com a garantia… ou, testemunho desse acordo. Isso é tudo que pedimos para formar “opinião”…

              Como uma espécie de “guarda-sol”… a nos proteger do “caos”.

Mas arte, ciência e filosofia exigem mais ao traçar seus planos caóticos. Essas 3 disciplinas querem que rasguemos o firmamento para um mergulho no caos da criação; este é o preço que filósofos, cientistas e artistas têm de pagar pra retornar vitoriosos do país dos mortos.

O que o artista recolhe…são variedades – que não constituem uma reprodução exata, mas sensível sob um plano de composição capaz de restituir o infinito através de uma intuição.

A luta contra o caos se encontra, de diferentes formas, nestas 3 atividades humanas. Mas, esse embate parece pertencer, de direito à ciência, quando esta se utiliza da ‘variabilidade sob constante’…ou ‘limites’…assim ordenando todo movimento em torno de ‘centros de equilíbrio‘… (“atratores”)… reduzido a um número limitado de variáveis independentes.  Também, quando instaura – entre essas variáveis – relações cujo ‘estado futuro’ pode ser determinado a partir do presente, ou ao contrário, quando faz intervir tantas variáveis ao mesmo tempo, que o ‘estado de coisas’ (“caótico“) se torna apenas provável e estatístico.

Nessa batalha diária, ao longo de um plano de imanência, o filósofo tira do caos variações que permanecem infinitas — construindo conceitos… – O cientista… por sua vez… produz variáveis; tornadas independentes por ‘desaceleração‘…isto é, eliminação de quaisquer outras variabilidades – tornadas ‘constantes universais‘… numa representação funcional, através de coordenadas finitas sobre um plano de referência…que vai das ‘probabilidades locais’, a uma “cosmologia global” universalizante.

Variáveis diferenciais ocultas                                                                                       “Haveria 2 infra-estruturas…a mais profunda, estruturada como um conjunto qualquer (pura multiplicidade…mistura aleatória de signos) — já a mais rasa seria recoberta por esquemas combinatórios desta multiplicidade” (Michel Serres – ‘Le Système de Leibniz’)

Se a desaceleração é a “fina borda”…que nos separa do “caos absoluto“…a ciência deste se aproxima tanto…o quanto pode, ao manter relações — que se conservam, pela aparição/desaparição das variáveis diferenciais ocultas. A diferença… se faz cada vez menor entre o “estado caótico” onde a “aparição…desaparição” de uma variabilidade se confundem, e o ‘estado semi-caótico’… que relaciona um limite para essas…”variáveis colapsantes“.    A “opinião popular” sonha uma ciência unificada pelas 4 ‘forças fundamentais’. O sonho mais obstinado, de captar um pedaço do caos, porém, daria à ciência, toda unidade racional à qual ela aspira.

Um dos aspectos mais importantes da física/matemática modernas, surge em transições na direção ao caos sob a ação de “estranhos atratores … 2  trajetórias vizinhas…em determinado sistema de coordenadas…divergindo de um modo exponencial, antes de se acercarem – em repetidas operações não-lineares.

Se os atratores (fixos ou limitados) de equilíbrio bem exprimem                        a luta da ciência com o caos – os “atratores estranhos“…exibem                        uma profunda atração intermitente … pela “turbulência caótica”.

Encontramos aqui uma conclusão análoga àquela que nos conduz à arte; a luta com o caos é o instrumento de uma luta mais profunda contra a ‘opinião’…pois é da opinião que vem a confusão. A ciência então, volta-se contra a opinião geral, substituindo sua comunicação formal por condições de criatividadevariedades estéticas, ou variáveis científicas…que surgem sobre um plano…capaz de absorver a “variabilidade caótica”.

A filosofia caótica                                                                                                                       A filosofia também luta com o caos – por meio de uma                                                          variedade conceitual…num oceano de dessemelhança’.

Um conceito não é um conjunto de ideias associadas…como uma opinião; muito menos uma série de razões ordenadas. Para atingir o conceito…não basta que os fenômenos se submetam a princípios que associam ideias…ou coisas – a fim de ordenar a razão…  Um conceito é um conjunto de variações inseparáveis, que se produz, ou constrói sobre um plano de imanência, na medida em que este recorta a variabilidade caótica, e lhe dá consistência real. O conceito é, pois, um ‘estado caótico’ por excelência, remetendo-nos       a um caos, tornado consistente em pensamento, sob um plano que o conduz ao infinito.

As ideias só são associáveis como imagens…e ordenáveis, como abstrações;                   para conseguir alcançar o ‘conceito’ — é preciso ultrapassar umas e outras.

http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2013/05/fenomenologia-da-elegancia-ii/

Mão com Esfera Espelhada – M. S. Escher 1935

Aliás…não é de se surpreender que o cérebro, tratado como objeto constituído da ciência – só possa ser um órgão de formação e comunicação de opinião… É que suas conexões e integrações… – permaneceram sob o modelo estreito do reconhecimento lógico das coisas.  Isso significa que o pensamento criativo, mesmo sob    a forma ativa que toma na ciência — não depende de um cérebro feito de conexões/integrações orgânicas; de acordo com a ‘fenomenologia’só dependeria da relação do homem com o mundo. Mas esta, por uma dupla crítica mecanicista, não nos faz, por completo, sair ainda da ‘esfera esotérica‘ das opiniões. Ou seja, filosofia…arte…e ciência, não são objetos mentais de um cérebro objetivado – mas sim…os 3 aspectos sob      os quais o cérebro se torna sujeito… ou, 3 troncos da jangada com a qual ele mergulha em direção ao caos.

Assim, o conhecimento não é uma forma, nem uma força, mas uma função. As projeções geométricas, as substituições e transformações algébricas, não consistem em reconhecer algo através das variações…mas em distinguir ‘variáveis e constantes’ – ou, em discernir, progressivamente, os termos que tendem na direção de limites sucessivos. De modo que, quando numa ‘operação científica’ uma constante é determinada, se trata de estabelecer uma relação necessária entre fatores, que permanecem independentes. — Nesse sentido, os atos fundamentais da faculdade científica de conhecer… — estão abaixo relacionados:

  1. limitar as velocidades infinitas… construindo um ‘plano ordenado de referência;
  2. determinar variáveis que se organizem em séries, tendendo no sentido desses limites;
  3. coordenar as variáveis independentes, de modo a estabelecer, entre elas, seus limites; relações necessárias das quais dependem funções distintas…num plano de referência;
  4. determinar as misturas, ou ‘estados de coisas’ que se relacionam com as coordenadas, às quais as funções se referem.

Estas operações do conhecimento científico são duplas funções do cérebro – que planeja as coordenadas variáveis de um plano referencial de conhecimento. Cabe pois à ciência, por em evidência o caos, onde… enquanto sujeito do acontecimento… o próprio cérebro mergulha… – não apenas nas ‘sinapses elétricas’… – que indicam um caos estatístico; como também nas ‘sinapses químicas’, as quais nos remetem a um caos determinista.

A síntese criadora                                                                                                                     “Não são as ideias que contemplamos pelo conceito – mas sim,                                                 os elementos da matéria…por sensações.” (Plotino – Enéadas)

O cérebro é definido como a faculdade dos conceitos e de sua criação… ao mesmo tempo em que estende o ‘plano de imanência’ … sobre o qual os conceitos se alocam…deslocam, mudam de ordem e relação, e não param de se renovar – mas, é a filosofia quem carrega os conceitos…e planeja o cérebro… — engendrando seus… ‘personagens conceituais.

Independente dos conceitos que venham a ocupá-lo…o plano da filosofia é pré-filosófico; um plano imanente enfrentando o caos. Por isso a filosofia, assim como a arte e a ciência, precisa de uma ‘anti-filosofia‘, que a possa completar…Enquanto conceitos, sensações, e funções se tornam indecidíveis…filosofia, arte e ciência permanecem indiscerníveis… como se partilhassem a mesma sombra de uma natureza bruta, que insiste em os rodear.

Não se trata somente de dizer que a arte deva nos formar…nos despertar…nos ensinar a sentir; enquanto filosofia nos ensina a conceber; e a ciência, conhecer o desconhecido;    tais pedagogias só são possíveis… — se dispondo criticamente…com sua própria negação.

(Trechos selecionados do livro “O que é filosofia?” de Gilles Deleuze e Felix Guattari) ****************************(texto complementar)*******************************

A “utopia imanente”… (Peter Pál Pelbart)                                                                                  A tarefa da Filosofia consiste – para Deleuze…em elaborar um material de pensamento capaz de captar a miríade de forças em jogo, e fazer dele próprio uma força do Cosmos.

O pensamento de Gilles Deleuze… deu impulso a vários termos, que circulam na cena filosófica das últimas décadas, tais como… diferença…multiplicidade, intensidade…fluxos…virtual… – e, até mesmo…’simulacro’. No entanto, é de se notar a ausência…quase absoluta…de qualquer menção…ao filósofo – na bibliografia sobre “pós-modernidade”.

Mas, longe de deplorar essa situação, tampouco corrigi-la…devemos partir dessa ‘constatação’ – de que Deleuze parece ser carta fora do ‘baralho pós-moderno’. Tal situação se deve ao fato dele ter inventado suas peças – outras regras…um novo jogo. Pois em Deleuze não se ouvirão lamúrias… ou profecias sobre o fim do sujeito, ou da História, da Metafísica ou Filosofia…do social, do político, do Real…ou mesmo das artes… Por suas próprias palavras:

Jamais me preocupou a superação da Metafísica ou a morte da Filosofia, e quanto à renúncia ao Todo, ao Uno, ao Sujeito…nunca fiz disso um drama.

Cada um dos conceitos de que a teorização contemporânea faz o luto pomposo, uma vez lançados no plano que Deleuze ajudou a criar, rodopiam, alegremente, em favor daquilo que pedia passagem, e que cabe à Filosofia experimentar a partir das forças do presente. Desse modo…seu pensamento produziu uma sonoridade filosófica pouco sintônica com     a música enlutada do pós-moderno…ou, com algumas de suas fontes…Nenhum ‘drama’    em relação à origem ou ao destino (do Ser…do pensamento…da História… do Ocidente).

Nenhum ódio ou desprezo pelo mundo, nenhum ressentimento ou culto da negatividade; mas, tampouco complacência alguma em relação à baixeza do presente, e sobretudo uma abertura extrema ao improvável, à multiplicidade contemporânea de processos liberados.  Tal prática filosófica tem todos os riscos de ser mal-entendida por quem está habituado a um ponto de vista histórico-filosófico – a partir de uma exterioridade crítica ou reflexiva, mas também para aqueles que, ao contrário, contentam-se em descrever com deleite, em um misto de melancolia e volúpia, o niilismo de nossos dias… – O exercício imanente em Deleuze traça uma neutra linha transversal na atualidade…recusando o catastrofismo e a complacência… – bem como seus ‘efeitos nefastos’…de paralisia, arrogância…ou cinismo.

utopia

Distinguindo entre… utopias libertárias, revolucionárias e imanentes  —  por um lado… daquelas totalitárias… – seja ‘religiosas’… – ou ‘estatais’… se é a utopia quem atualiza    a Filosofia … com sua época; Deleuze então se pergunta… se este continua sendo… – o melhor caminho … a seguir.

A utopia em Deleuze jamais remete a um tempo futuro, e uma forma ideal. Designa antes o encontro entre o conceito e o ambiente presente, entre um movimento infinito…e o que há de real aqui e agora…que o ‘estado de coisas’ impedia de vir à tona… Ao embaralhar as cartas do desejo e da economia…do homem e da máquina…da natureza e da cultura… – e, pressentindo o ‘grau de hibridação’, que as décadas subsequentes apenas intensificariam; inventou-se uma nova maneira de sondar o presente…’detetando nele o imponderável’…a partir das forças que pediam novos maneiras de existência… e, de redistribuições de afeto.

E essa é uma das principais funções da Filosofia para Deleuze… sondar o “feixe de forças” que o presente obstrui, fazer saltar as transcendências que nos assediam, acompanhar as linhas de fuga por toda parte em que as pressentimos. — Sobre o traçado de um plano de imanência, forjar conceitos que configurem acontecimentos por vir … fazendo daí, novos modos de existência… sem qualquer anseio de ‘totalização‘. É à luz desse preceito que se pode apreender os conceitos criados por Deleuze… – Mas como avaliar se os eventos que uma filosofia invoca, e as formas de ser que ela faz advir…são melhores…que aqueles aos quais se contrapõe? Não há outros critérios que não imanentes…como responde Deleuze, na esteira de Nietzsche:

“Uma possibilidade de vida se avalia nela mesma…pelos movimentos que traça, e pelas intensidades que cria; não havendo nunca outro critério – senão o teor da existência. A vida, como virtualidade pura…potência pré-individual…campo de imanência do desejo. A ‘morte de Deus’ não significa outra coisa, que a emergência desse plano“. (texto base)

Anúncios

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
Esse post foi publicado em filosofia, Teoria do Caos e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para Fundamentos da Filosofia da Ciência do Caos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s