Schopenhauer: o Mundo, para além de Kant

“O sujeito é mais universal que a própria universalidade…Ele pode ser          parte minúscula da realidade; mas é, simultaneamente, tanto o ponto        de vista singular que a abrange, quanto algo que surge no horizonte”.

Abordaremos neste artigo certos aspectos do pensamento de Schopenhauer referentes ao conceito de ‘Vontade‘…Para tanto apresentamos sua crítica aos filósofos do…’idealismo’, com base na impossibilidade da razão alcançar a essência da realidade… Será mediante o ‘corpo‘ que Schopenhauer estabelecerá uma… ‘metafísica imanente‘… – que permita à “intuição“, a despeito da “razão“, alcançar a “Vontade” como o “em-si do mundo“.

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“Viagem ao Princípio do Mundo” (Manoel de Oliveira)

Schopenhauer conclui seu livro “O mundo como Vontade e Representação” — aos 30 anos de idade…Toda produção intelectual posterior…apenas retoma – e, desenvolve temas desta sua obra…publicada em 1818.  Nela, Schopenhauer se afasta da tradição, ao atribuir o predomínio do ‘querer’ – em relação ao intelecto…Para ele a’razão’ não  é o “princípiodo mundo…ao contrário, o “princípio último” da realidade – é muito “irracional” – alheio a todae qualquer racionalidade que ouse captar seu âmago.

A multiplicidade dos fenômenos empíricos não passa de uma manifestação da vontade no espaço, no tempo, e na causalidade. Entretanto, esse distanciamento da tradição, dado no conceito de Vontade pelo querer cego e inconsciente (do ‘em-si do mundo’) é resultado da opção crítica, frente não só a Kant, mas também ao idealismo da ‘filosofia transcendental’.  A postura crítica empreendida por Schopenhauer busca fazê-lo distanciar-se… – tanto do antigo dogmatismo…que trilha caminhos para além dos sentidos, quanto do dogmatismo moderno, identificado nos filósofos idealistas (Fichte, Schelling e Hegel)como dizia ele:

“Para estes não importa em nada o fato de Kant ter provado, com o emprego da maior acuidade e penetraçãoque a razão teórica não        pode jamais alcançar objetos que estejam fora da possibilidade de          toda e qualquer experiência… Esses senhores nem ligam para isso”.

Schopenhauer pensa que uma das mais fundamentais diferenças…entre seu pensamento,  e o dos filósofos do idealismo, é justamente o fato de não fundamentar a dedução do não-eu, a partir do eu, mediante o princípio da razão…O mundo é minha representação. Esta frase de abertura de sua…”obra principal“…apresenta para o filósofo – uma verdade válida a todo ser – embora apenas no homem atinja a… “consciência refletida e abstrata”.  Com efeito… ele afirma que – “nenhuma Verdade é tão certa, tão independente, e menos necessitada de provas… do que esta – pois tudo o que existe para o conhecimento…é tão-somente intuição de quem intui – um objeto de representação em relação ao sujeito”.

paulo-freire

“SUJEITO & OBJETO”   “O mundo só existe como vontade e representação”.   

Com efeito…essa afirmação, capital de sua obra pode ser compreendida … a partir de duas únicas ‘considerações’:

1ª) o mundo como “representação” é composto de 2 metades, necessárias e inseparáveis:  sujeito e objetoO sujeitode acordo com o filósofo…é o “sustentáculo do mundo”, aquele que tudo conhece; enquanto que, por sua vez…todo objeto existe para um sujeito.

Esse objeto, por seu lado, configura-se a partir das formas do espaço, tempo, e da causalidade. Sujeito e objeto coexistem como 2 metades essenciais e inseparáveis,           que formam a ‘representação’ de modo que, cada uma delas possui existência e significação  exclusivamente com, e… para a outra… – desaparecendo sem ela.

2ª) tal como o sujeito e o objeto — o “princípio da razão“… constituído por tempo, espaço e causalidade, também é uma forma de representação. Tal princípio marca           o limite imediato entre sujeito e objeto; pois tempo, espaço e causalidade constituem        formas essenciais/universais do objetoencontradas a priori na consciência pessoal.

No par…”sujeito/objeto“…(forma mais geral da representação) — o objeto pressupõe o sujeito, mas este permanece fora da jurisdição do “princípio de razão”… – posterior a ele. Todavia, sujeito e objeto são ‘termos correlatos’; 2 metades essenciais e inseparáveis que constituem a forma da ‘representação’…Por isso, Schopenhauer critica como dogmáticas  as filosofias que partem do sujeito, ou do objeto, estabelecendo um como causa do outro.  No dogmatismo moderno da filosofia que parte do sujeito para fundamentar o objeto, do eu para fundamentar o ‘não-eu’; Schopenhauer exemplifica a filosofia de Fichte…que,    partindo do sujeito, teria interpretado equivocadamente a Crítica da Razão Pura de Kant, apenas com o propósito de mostrar como falsoo até então ‘partir do objeto’, que    se tornara a coisa-em-si”. Desse modo, segundo o autor, o espírito capital da doutrina    de Kant… – é que o… “princípio da razão” – ao contrário das afirmações dafilosofia escolástica, por possuir validade restrita aos fenômenos…sendo a ele vedado o acesso à ‘coisa-em-si’…(“essência do mundo”)… – nunca foi, nem será uma…”veritas aeterna.

Também é objeto de críticapor Schopenhauera filosofia da identidade entre sujeito e objeto, que embora não cometa o engano de partir de nenhuma das 2 metades essenciais    e inseparáveis da representação, comete o erro de partir do Absoluto. – O filósofo afirma que essa identidade é impossível, pois para tanto, seria necessário uma razão intuitiva.

A METAFÍSICA DE KANT

Schopenhauer acompanhou o debate sobre a “realidade do mundo exterior”, empreendido por Fichte e Schelling — e os critica bastante, por terem “corrompido” a ‘filosofia kantiana’  ao tentarem captar o…”absoluto” – por uma ‘intuição intelectual‘, para além daquela sua intuição do mundoO retorno a Kant, e à leitura crítica de sua obra via Schopenhauer, seria uma saída aos impasses da filosofia de seu tempo – objetivando um ‘projeto crítico’ de sua própria filosofia; onde mesmo dando valor especial ao “transcendental kantiano”,    o princípio da razão, nele inadvertidamente    é concebido de “modo cognitivo” (‘a priori’) no sujeito. – O que Schopenhauer contesta:

“A essência íntima do mundo, a coisa-em-si, jamais pode ser encontrada pelo fio condutor do ‘princípio de razão’; pois, este sempre conduz ao que é dependente e relativo – sendo apenas ‘fenômeno’… e, nunca coisa-em-si”.

A proibição de estender a aplicação de tal princípio à ‘coisa-em-si’ – restringindo seu uso às formas de conhecer relativas ao ‘mundo fenomenológico acaba por não oferecer outra alternativa para ultrapassar os fenômenos. Mantendo assim como único ponto de vista o da razão – tanto no domínio teórico, quanto prático… Kant não pode chegar…àquilo que para Schopenhauer, seria a consequência lógica de suas ideias: O ‘em-si’ como ‘Vontade’.

Através deste negativismo crítico inicial, Schopenhauer buscarastreando os erros e defeitos de Kant, reconstruir a metafísica em novos moldes…de tal forma que…possa demonstrar um princípio último do mundosem no entanto cair nodogmatismo idealista(que tenta captar o Absoluto, pela intuição intelectual); nodogmatismo realista – que deduz o sujeito – do objeto; ou nodogmatismo escolástico‘…das provas absolutas da existência de Deus…todos desmontados pelacrítica kantiana‘.

Embora Kant, com méritos, tenha estabelecido os ‘limites da razão‘, refutando assim os preconceitos dogmáticos, ele teria afinal abandonado a tarefaque para Schopenhauer      é própria do filósofo, ou seja…a decifração do enigma do mundo através da metafísica.    A ‘metafísica kantiana é considerada assim equivocada, por adotar o ponto de vista dogmático da filosofia clássica predecessora, de acordo com os seguintes pressupostos:

a) Metafísica é ciência daquilo que está para além da possibilidade de toda experiência; b) Uma tal coisa jamais pode ser encontrada segundo “princípios fundamentais” – eles mesmos, antes hauridos da experiência…Apenas aquilo que sabemos com antecedência, ‘independente’ de toda experiência, pode ultrapassar a experiência (Prolegômenos, § 1)c) Em nossa razão podem ser encontrados…com efeito, alguns princípios fundamentais desse tipo, concebidos sob o nome de conhecimento…a partir da ‘razão pura’ (intuitiva).

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DECIFRANDO ENIGMAS DO MUNDO

De certo modo Kant está em conformidade com seus predecessores escolásticos…pois enquanto estes afirmam seus princípios como…expressão  da possibilidade absoluta das coisas – “aeterna veritas – Kant as considera meras ‘estruturas‘  do intelecto, só aplicáveis ao domínio empírico,  não válidas para além da experiência. Assim, a metafísica cede lugar à…”crítica da razão pura”.  Mesmo assim… Schopenhauer vê possível uma ‘metafísica’, com alguns elementos dogmáticos.

Para Schopenhauer, o “grande erro de Kant” na arte de filosofar, teria sido descaracterizar a experiência como fonte metafísica… — Por isso, refuta sua afirmação inicial, contida nos “Prolegômenos“, de que…“a fonte da metafísica jamais será empírica…seus princípios e conceitos fundamentais… – não podem ser obtidos da experiência… – interna ou externa”. Segundo Kant, o mundo, e nossa própria existência … mostrar-se-iam como um “enigma”, cuja solução não poderia vir de sua compreensão profunda – mas sim, de algo totalmente diverso…“para além da possibilidade de toda experiência”… de sorte que daquela solução, teria de ser excluído tudo aquilo que pudéssemos conhecer…de um “MODO IMEDIATO”.

Todavia, Schopenheuer afirma que para isso seria necessário demonstrar que a matéria, para a solução do ‘enigma do mundo‘ não pode estar nele mesmo…mas em algo de fora, somente alcançável, pelas…formas puras – “a priori“…Como ele próprio assim explica:  “Porém, enquanto isto não é provado, não temos razão alguma para estancar… a nós mesmos, a mais rica de todas fontes de conhecimento…a experiência. Digo assim, que       a solução do enigma do mundo, tem de provir de sua própria compreensão. Portanto,  não cabe à metafísica sobrevoar a experiência – na qual o mundo existe…mas, tentar entendê-la…a partir de seu fundamento, na medida da experiência externa e interna”.

Consequentemente, a solução do ‘enigma do mundo‘ só é possível através da conexão adequada, executada na medida certa, entre experiência externa e interna – 2 fontes tão heterogêneas de conhecimento… Fiel a esta opção crítica de retorno a Kant, e à releitura     de sua obra; e, contrapondo-se à filosofia de seu tempo – o idealismo Schopenhauer inicia a decifração deste enigma…com uma metafísica inspirada em novos moldes… que escapariam de seu prévio ‘dogmatismo’, e do ‘espectro de desespero’ da crítica kantiana.

Tais análises mostram que, se houve infidelidade na leitura da ‘filosofia crítica’… ela não significa uma retomada ao ‘dogmatismo pré-crítico’…mas, uma verdadeira ruptura, que abriu novo campo de investigação sobre a questão de Kant da finitude do saber humano.    Nesse sentido, podemos então perguntar…‘Como é possível, a partir de dados imediatos    da experiência, compreender o em-si do mundo, sendo este uma mera representação’?

A METAFÍSICA IMANENTE                                                                                                      O ponto de partida do conhecimento metafísico se encontra em                                            uma…”encruzilhada“…entre experiências… externas e internas,                                            que… segundo Schopenhauer… – se faz representar no corpo.

Pelo pensamento de Schopenhauer…ver o mundo somente como representação,          embora seja um ponto de vista correto, é unilateral, resultado de uma abstração          arbitrária. E, o que traz a lume esta unilateralidade…é uma resistência interior                  em aceitar a redução de tudo o que existe – apenas a uma “mera representação”.      Somente pela experiência externa…então caracterizada pelas figuras singulares                  do “princípio da razão”, seria impossível sair do campo representacional; o que    exprimiria a negação do indivíduo…em ultrapassar limites formais do intelecto.

arthur-schopenhauer

Ao encontrar no corpo o lugar propício à fiel elaboração de um “conhecimento metafísico” – Schopenhauer…introduz modulações, até então impensáveis no ‘pós-kantismo… – através de um forte ‘acento fisiológico’ de seu pensamento.  Embora ao buscar o sentido último da ‘representação‘, se mantenha numa mesma linha de pensamento idealista, esse “acento fisiológico” acaba por lhe remeter, através do corpo, a algo cujo domínio não é o saber… (o saber se define como representação de algo mais fundamental; se refere às…’representações abstratas’ – quer dizer, aos conceitos produzidos pela razão.)

Com efeito…toda e qualquer representação abstrata tem que ter um ponto de apoio que não pode ser ela mesmaEm outros termosos conceitos podem se ligar mutuamente,  um tendo o outro como ‘fundamento‘… contudo – no fim da cadeia deverá existir… não mais uma “representação abstrata”, mas sim uma “representação intuitiva“. E esta, impreterivelmente…passa pelo corpo… Não é o saber, portanto, que vai proporcionar o sentido último da representação – pois, os conceitos precisam de uma ‘fundamentação‘  que não seja abstrata, mas sim…”empíricaE assim…reflexão não passa de uma aparência refletida em algo mais originário…ou seja, é um conhecimento intuitivo“.

Todo conhecimento, incluindo as ciências regidas pela “consciência empírica”, refere-se somente à representação‘. E, para atestar como o saber não atinge o sentido último das coisas, Schopenhauer apresenta a matemática…que mesmo nos fornecendo medições precisas das “relações materiais” … limita-se ao campo das “representações simbólicas”.  Assimconforme o filósofo… – as ciências, embora importantes, não podem alcançar o sentido último da realidade…elas carregam consigo um limite – impossível de transpor. Este limite é o próprio conhecimento, de onde o princípio da razão restringe esta ciência ao ‘campo das representações‘…O filósofo sabe, contudo, que para buscar o sentido último da realidade, ele precisará optar por outro caminhoque não o da mera representaçãoÉ aí, portanto, que Schopenhauer discursa sobre a intuição filosófica    de um ‘em-si do mundo’, indo encontrar no ‘sentimento‘, o inverso do conhecimento;  designando algo na consciência – que não é conceito…nem um saber abstrato da razão.

O “sentimento” possui uma característica negativa essencial                            em relação ao saber… – não ser um ‘conhecimento abstrato’.

Mas, a filosofia de Schopenhauer não busca o ‘conhecimento relativo’ – e sim…o ‘conhecimento incondicionado’ da essência do mundo…Por sua filosofia ser uma ‘metafísica imanente‘, cuja referência é sempre a realidade…o “corpo” (onde                se faz conhecer…a ‘representação’ e a ‘vontade’)…é a ‘chave’ para a decifração do      ‘enigma do mundopois a princípio, possibilita pensar os objetos; não como              meras representaçõesmas, entidades possuidores de uma “realidade em-si”.

TEMPO e ESPAÇO como “INTUIÇÕES CAUSAIS”                                                           Espaço e tempo, ao contrário do naturalismo do senso comum, não são propriedades das coisas em si, mas sim, formas idealizadas de percepções fenomenológicas”. (Kant)

schopenhauer

Schopenhauer sempre deixou claro, que sua teoria muito se inspirou na teoria kantiana da “Crítica da Razão Pura”Contudo, cabe salientar que, apesar disso…uma significativa ‘mudança’ é produzida ao absorver tais ideias, quando elaborava sua própria teoria. Tal se deve à definição de ‘tempo’ e ‘espaço’ como ‘intuições‘, isto é, formas puras a priori, da sensibilidade (…filosofia kantiana…) e deslocadas, segundo Schopenhauer – para o…”entendimento”.

Em Schopenhauer a ‘intuição‘ não é somente sensual…mas também intelectual – pois o saber é extraído da causa, a partir do efeito – o que exige uma ‘lei de causalidade‘…em função do espaço e tempo. – O ‘entendimento‘…que na obra de Kant tem 12 categorias, para Schopenhauer se reduz a uma única…’causalidade‘… Desta forma, sensibilidade e entendimento, que na Crítica se revelam distintas, mesmo atuando juntas na construção do…conhecimento… – em Schopenhauer se unificam – sob o…“princípio da razão”.

Estes novos moldes da metafísica empreendida por Schopenhauer, buscam solucionar o ‘enigma do mundo‘… essência em si de toda a realidade… – algo que as mais diversas ciências não foram capazes de descobrir, por estarem, segundo o autor…comprometidas com o “principio da razão”… – Assim, mediante o conceito de “objetividade da vontade”, Schopenhauer nos leva à compreensão do…‘em-si do mundo’… isto é – ao mistério de toda a realidade. – Em função do corpo humano…portanto, ele nos conduz, em analogia com este microcosmos, à compreensão do macrocosmos – ou melhor… macroantropos’.

Ora, como a Vontade é o em-si do mundo, ela atua em tudo o que existe, pois…como diz o  filósofo“Além de representação e Vontade…nada existe”. Nesse contexto, Schopenhauer nos apresenta uma gama variada de exemplos: a poderosa força com que a massa de água se precipita nas profundidades; o imã que sempre aponta para o ‘pólo norte’…a constante ‘atração ferromagnética’…a regularidade de configuração que se manifesta no cristal…etc. Schopenhauer diz também que essa Vontade atua cegamente, em todos processos vitais e vegetativos do corpo humano…tais como circulação sanguínea, digestão, reprodução, etc.

“Precisamente, aquela essência, que em nós… à luz do conhecimento,      segue seus fins; aqui, nos mais tênues de seus fenômenos, esforça-se               de maneira cega… silenciosa… misteriosa… unilateral, e invariável”. 

ninhoPor essa gradação ideacional – o filósofo nos conduz diretamente aos instintos e impulsos animais, demonstrando que, mesmo na ação destes “seres irracionais”…a Vontade é ativa.

“O pássaro de 1 ano não tem representação alguma dos ovos… para o qual constrói seu  ninho – nem a jovem aranha tem da presa, para a qual…pacientemente…tece sua teia”.

O não reconhecimento da Vontade, nestes casos, pode ser creditado ao fato de que, no Ser humano – a ação é conduzida por motivos e caráter… Para obter a intelecção da “essência em-si das coisas, basta a compreensão da nossa própria essência. Mas, diz Schopenhauer que…se obtivermos a compreensão de que a “representação” – enquanto “motivo”…não é condição fundamental nem necessária à atuação da Vontade – veremos que sua atividade,  inevitavelmente ocorrerá em qualquer fenômeno – até mesmo naqueles menos evidentes.

Neste sentido, em cada coisa na natureza há algo que jamais pode ser atribuído um fundamento – para o qual…nenhuma explanação é possível – nem causa posterior,      pode ser investigada. Nesses casos o que ocorre é emanação da Vontade. Todavia,          ela própria não emana de coisa alguma…em-si do mundo que é. – Existe, sim, uma      ordem de aparecimento destes fenômenos, nas formas da ‘multiplicidade’ – ordem        esta determinada pela ‘lei de causalidade’. Percebe-se que nessa hierarquia natural            da objetivação da Vontade – desde as forças naturais, até o homem (como ápice da objetividade) nada ocorre de graça…pois a manifestação das Ideias nos fenômenos,            se dá mediante luta perene pela matéria. – Sendo esta finita, a luta por sua posse é infindável…ora esta, ora aquela ideia adquire o direito sobre ela, manifestando sua essência. – A determinação deste direito, entretanto… é dada pela “causalidade“.

CORPO, VONTADE & REPRESENTAÇÃO                                                                          “Antes, a palavra do enigma é dada ao sujeito do conhecimento…como ‘indivíduo’.        Tal palavra se chama ‘VONTADE’Esta, e tão-somente esta…fornece-lhe a chave      para seu próprio fenômeno… – manifestando-lhe a ‘significação’… – e, com isso… mostrando a ‘engrenagem interior’ de seu ser…de seu agir…de seus movimentos”.

nietzsche-e-schopenhauerNa tentativa de evitar a ‘transcendência’ é realçado o papel do…corpo… – como uma manifestação direta e imediata, do ‘em-si’…deixando assim, de meramente ser considerado sob o ponto de vista da ‘representação’. Esta nova ótica…revela  o corpo como um todo … em um amplo espectro de ‘atos volitivos/sentimentos’  que não são representações … ou saber.

Desse modo…aquilo que, em relação ao conceito era negativo,                    ganha…’positividade’ – ao ser enfocado pelo sentimento mais                                              interior do corpo; que para o ‘sujeito’ do conhecimento é uma                                            “representação entre representações”…”objeto entre objetos”.

Entretanto, se o corpo se limita a ser, para o ‘sujeito do saber’, apenas mera representação, submetida ao… ‘princípio da razão’ – todas as ações e movimentos deste corpo, seriam tão estranhas e incompreensíveis quanto as dos demais objetos intuitivos… Isto é, todas ações e movimentos do corpo estariam – conforme a uma lei natural…tal qual os demais objetos, sem obter nenhuma intelecção mais profunda a respeito. Schopenhauer define então, que o corpo é conhecido pelo sujeito do conhecimento de duas maneiras, totalmente distintas: uma, na “intuição do entendimento”…na qual ele é apenas ‘representação‘ – e outra, na qual é conhecido de imediato, independente do princípio da razão, isto é, como ‘vontade‘.

 “A vontade é o conhecimento a priori do corpo, e o corpo é                                  o conhecimento a posteriori da vontade.” (Schopenhauer)

Esta afirmação vai tão longe, que diferentemente da denominação de ‘objeto imediato‘ dada ao corpo em sua obra “O mundo como vontade e representação”, agora sob esta nova perspectiva, este é denominado (em seu 2º volume) objetividade da vontadeTodo ato da vontade, e toda ação do corpo, não são estados distintos apreendidos pela causalidade – ao contrário – ambos são uma única, e mesma coisa…mas sob 2 formas distintas…uma imediata, e outra, dada na intuição do entendimento…Assim, o ‘corpo’        é vontade objetivada, que se tornou ‘representação’…numa ‘ação concreta da vontade’Esta identidade da vontade com o corpo – tratando-se de um conhecimento imediato,    escapa ao âmbito da razão, só podendo ser evidenciada, nunca demonstrada. Ou seja:

“Agora a verdade não é mais referência de uma representação abstrata relativa a outra… ou, uma forma necessária do representar…intuitivo e abstrato – mas sim… – a referência de um juízo… à relação… que uma representação intuitiva (o corpo) possui…com alguma coisa que não é representação, mas… – algo totalmente diferente dela… – a vontade“.

É exatamente, a referência a este conhecimento duplo do próprio corpo, que…a partir da subjetividade…Schopenhauer poderá conhecer o núcleo volitivo dos demais corpos. Esta dupla referência será a “chave”…que permitirá conhecer a essência de todo fenômeno na natureza, pois… “todos objetos que não sejam nosso corpo … não são dados duplamente, sendo apenas representações na consciência – e assim serão julgados…analogicamente”.  Tal modo de filosofar…ao permitir conhecer a essência de todos demais corpos…objetos, representações, que não o próprio corpo… faz tornar o sujeito que conhece – ‘indivíduo’.  Inicialmente, o corpo – enquanto ‘representação’ – não escapa do… “princípio da razão”.    A causalidade em si, é igual para todo objeto, incluindo o corpo humano. Porém, o que a diferencia no homem, é a atuação do conhecimento…como motivação, determinando os seus próprios movimentos. Este intermediar do conhecimento, é o que Schopenhauer chama ‘lei da motivação; onde cada motivo exigido pela ação, é também causalidade;    o que, a princípio, faz a “razão humana” mais sensata – pois, nesse caso… — todo objeto dado pelo “princípio da razão, fatalmente está submetido à…”lei da causalidade“.

A seguir, Schopenhauer inclui uma2ª identidade‘…Se os demais objetos são, por outro lado…tal como o sujeito que conhece – mera representaçãoresta-nos identificar sua essência mais pura, a que chamamos ‘vontade‘. Pois…“Que outro tipo de realidade, ou existência, deveríamos atribuir ao mundo dos corpos? Donde retirar os elementos para compô-los?…” pergunta o filósofo – para em seguida reafirmar que… “além da vontade       e da representação… absolutamente nada pode ser conhecido… — ou mesmo pensável”.

O MUNDO COMO…”VONTADE”                                                                                              “O homem tem a capacidade de se projetar no tempo… e, esta se constitui,                          de fato…na fonte de sua angústia existencial. – Mas, tal olhar reflexivo, e                          ‘capacidade de projeção’ — talvez sejam sua mais perfeita originalidade”. 

árvore

Através de seu princípio analógico, Schopenhauer concluirá que, todas as forças vindas da própria subjetividade (que – ao acaso – se exteriorizam na multiplicidade individual da natureza)  são semelhantes — ao que chamamos  ‘Vontade‘…(O corpo seria a “chave” para conhecer a essência da natureza).  Vontade não seria apenas um nome entre outros possíveis para nomear a coisa-em-si mas, resultado de uma ‘consciência imediata’ – creditada ao próprio indivíduo independe de seus fenômenos; formas de representação, que em sua ‘objetividade’ … nada são além de fenômenos da coisa-em-si.

Sobre isso Schopenhauer afirma não caber à Vontade…tempo e espaço;  os quais seriam… portanto… formas incapazes de captar a ‘coisa-em-si‘.

Frente a esta característica da Vontade e toda a miríade de fenômenos engendrados por ela, Schopenhauer explica que o aparecimento da Vontade (sua objetivação) possui tantas infinitas gradações, como a existente entre a mais débil luz crepuscular e a mais brilhante claridade solarentre o tom mais elevado e o mais baixoe, onde há um grau consciente maior na planta que na pedra…um grau maior no animal que na planta…Mas não há uma parte pequena de vontade na pedra, e maior no homem…pois a relação entre parte e todo, pertence exclusivamente ao espaço; perdendo todo seu sentido sem tal forma de intuição; como que concernindo tão-somente ao fenômeno, isto éà sua visibilidade e objetivação.

Schopenhauer também observa que objetos não são apenas uma mera representação, pois se todos fossem apenas aquilo que surge, nas formas do princípio da razão, não passariam de ‘fantasmas vazios’, sem significado algum… além dos que o princípio lhes confere. – As ciências, para o autor, buscaram uma significação para eles, todavia o escopo científico os inscreve num terreno que torna impossível achar tal significação…Justamente por isso, se fosse possível reduzir…’o que aparece’…ao ‘como aparece’…então não se perguntaria mais pela “coisa-em-si”, e seríamos obrigados a render tributo aos argumentos ocos de Fichte, pois o mundo deixaria de ser…objetivo – para se tornar totalmente dedutível do sujeito.

UM ABISMO SEM FIM (DE VOLTA A PLATÃO)                                                               À Vontade não lhe cabe nenhuma causa, ou razão. Desprovida de                                qualquer fundamento… Ela é… assim como um “abismo sem fim”. 

Sem títuloSe Schopenhauer em sua obra já havia se inspirado em Kant, ao caracterizar seus 2 operadores fundamentais: o “fenômeno”, e a “coisa-em-si” … agora é a Platão que se mostrará “tributário” – ao utilizar seu conceito imutável…e eterno de…”Ideia“.

Após estabelecer o conceito de uma ‘essência do mundo’, caracterizada como Vontade una e indivisa… – manifesta em toda ‘realidade fenomenal’ (sem, contudo, ter um fundamento próprio para ela), Schopenhauer investiga tal atividade…antes dela atingir sua forma mais complexa de manifestação… “o homem e sua consciência“… – Aí então, procurando a fundamentação necessária deste…”processo de objetivação“…expresso nos indivíduos, ele encontra ‘protótipos inalcançáveis’, como formas eternas das coisas que nunca surgem em tempo e espaço, mas existem… não submetidas à mudança alguma. Pela concepção do filósofoestes são os…diferentes graus de objetivação da vontade“, nas Ideias de Platão“.

Schopenhauer compara a existência às Ideias eternas‘…em tudo o que, em diversos graus…a partir da objetivação da Vontade…ela comporta – de tal modo que – cada grau corresponderia a uma determinada…’espécie natural’. Nesta passagem da unidade da ‘coisa-em-si’ à pluralidade fenomênica, o autor divisa as Ideias de tal forma, que a coisa-em-si, antes de se multiplicar nos incontáveis indivíduos da representação…mediante o ‘princípio da razão irá inicialmente se objetivar por meio das Ideias…e não como efeito da Vontade… – “Estas Ideias, sendo “graus de objetivação” do…”em-si“…fora      do espaço e tempo, pluralizam-se nos mais variados fenômenos…Como uma imagem arquetípica” una e indivisa, se reportam consequentemente a um universo atemporal.

A Vontade é toda pluralidade, mudança e duração, que não compete ao que entra na representação…mas, apenas à tudo que não sofre nenhum condicionamento por tais formas do ‘princípio da razão’, não podendo portanto ser resgatável nem explanável        por ele. Sendo una, atemporal e livre…núcleo mais íntimo de tudo que existe, toda e qualquer diferença se deve, apenas, a seus fenômenos. – Contudo, ao dizer que toda diferença fenomênica não compete à…Vontade – já que esta não pode ser dividida e espalhada no espaço infinito…pois tal extensão convém apenas ao fenômenoentão  Schopenhauer faz notar que tais diferenças ocorrem segundo “graus de objetivação”.

“Os fenômenos…enquanto visibilidade da Vontade, ao se fragmentarem                              no mundo como representação, o fazem mediante graus de objetivação”.                          Schopenhauer aqui, estabelece uma hierarquia… — ‘forças da natureza’                              seriam graus inferiores da objetivação, enquanto o ser humano, o grau                              superior. Esta diferença se refletiria … no fato do “ser humano” possuir                              como fruto de grau de objetivação: consciência, entendimento, e razão.

A SERPENTE & O DRAGÃO                                                                                                   ‘Todo organismo é… ao mesmo tempo – também inorgânico;                                                    ao guardar em si ideias inferiores, dominadas e assimiladas’.

serpente

Uma objetividade superior, por exemplo, só se manifesta no ‘mundo dos fenômenos’ – depois de tomar posse de outras ideias inferiores, que também lutavam por tornar-se ‘representação’, num processo denominado assimilação por dominaçãoPor isso, Schopenhauer diz que:

“A ideiaadvinda da vitória sobre objetivações inferiores da vontade ganha caráter totalmente novo, precisamente pelo fato de absorver em si,  de cada uma das objetivações dominadas – um análogo, de grau potencialmente mais elevado”.

A “Vontade Una“…manifesta em ‘Ideias’ – busca sempre o mais alto grau de objetivação, renunciando aos mais baixos. – Porém, a vitória do grau mais elevado – não se conserva para semprepois mesmo submetido à degradação pela perda material correspondente,    o esforço da ‘exteriorização’ e ‘autodeterminação’, faz parte da ‘essência’ de toda espécie. Aqui vale uma sentença…citada por Schopenhauer: ‘serpens…nisi serpentem comederit, non fit draco’, isto éuma serpente deve devorar outra serpente para se sentir dragão”.

Tais “ideias dominadas”…lutam por autonomia e exteriorização,                    até o conseguirem. Por isso, todo organismo, impreterivelmente,                trava uma luta… – “de vida e morte”… – contra o…”inorgânico”.

Não havendo ‘vitória sem luta… diante dessa “luta eterna” por matéria – toda existência é permeada por conflito…que leva à “discórdia” da Vontade consigo própria… – afinal, cada Ideia… enquanto grau de objetivação da Vontade, se insere numa luta eterna em busca de matéria, espaço e tempo… – Para Schopenhauer…não há maneira mais nítida de perceber essa discórdia essencial… da Vontade consigo mesma – do que no “mundo animal”…onde Thomas Hobbes se inspirou – para dizer que… “O HOMEM É O LOBO DO HOMEM“.

“A Vontade de vida… crava – continuamente… seus dentes na                própria carne, e em diferentes formas é seu próprio alimento;                      até que enfim, o gênero humano – por dominar todas demais            espécies, vê a natureza como seu próprio instrumento de uso”.

A discórdia essencial da Vontade (consigo mesma)…com efeito…se estabelece em todos os âmbitos da ‘existência fenomenológica’ – já que esta é espelho da Vontade… Entretanto, o conflito dos graus de objetivação faz surgir novos graus superiores… graças à “assimilação por dominação”… Há então a necessidade do movimento consciente em direção ao ‘saber‘,  exigência vital neste grau de objetivação. – O conhecimento assim…aparece representado pela técnica, e junto com ela, surge de um só golpe… o ‘Mundo como REPRESENTAÇÃO‘,  com todas as suas formas… objeto e sujeito… tempo e espaço… pluralidade e causalidade.

O mundo mostra agora o seu ‘lado B’. Até então, pura e simples VONTADE, doravante, também… ‘REPRESENTAÇÃO’ – objeto do sujeito…que conhece.

yin-yang

O “PARENTESCO INTERIOR”                A consciência imediata de nossa própria essência, deve ser a chave à compreensão    da essência fundamental de todas coisas”.

Jamais devemos perder de vista a noção de que, mesmo com ‘graus de objetivação, em todas Ideias…sejam elas forças da natureza ou corpos orgânicos – é sempre a Vontade,  una e indivisa, quem se manifesta. Mesmo que … dentro do Homem … surja o mundo como representação, mostrando que todos reinos da natureza formam uma pirâmide, cujo topo…lhe faz sombra – ainda assim… todos fenômenos têm um “parentesco interiorque Schelling denominou polaridade, onde uma única força dividida em 2 ramos distintos e opostos, objetiva sua reunificação.

Aliás, Schopenhauer esclarece que tal polaridade, já estava presente há muito tempo na filosofia chinesa, na oposição entre yin e yang… Segundo esta sabedoria, há em todo o universo um princípio único chamado “tao“… que não pode ser alterado, nem dividido.  Frente a esta perspectiva de distintas escolas filosóficas apresentarem mesmo conceito, Schopenhauer mostra que esta IDEIA também EXISTE em seu ‘pensamento filosófico’:  

“Justamente porque todas as coisas do mundo são objetividade de uma única e mesma Vontade – e portanto, idênticas segundo sua essência mais íntima; não apenas tem de haver entre elas uma ‘analogia inegável’, como também, em cada coisa imperfeita…já tem de se mostrar o…’vestígio’…a ‘alusão’… – o ‘dispositivo’ das coisas mais perfeitas”.

Aquilo que o taoísmo chama de tao – o ‘princípio uno‘ – assemelha-se àquilo…que,    na filosofia de Schopenhauer chama-se…”Vontade cósmica“. Esta polaridade de que fala a filosofia de Schellinguer, assim como a ‘filosofia chinesa‘…estaria presente no  fato da Vontade ser sempre una e indivisa em todos seus fenômenos – ou… até mesmo, dentro do conceito de assimilação por dominação, onde uma objetivação superior,    ao dominar uma inferior, carrega consigo as suas características… – Pode-se inclusive, considerar esse paradigma como uma espécie de equilíbrio … no conflito de interesses, inerente à Vontade, permitindo com que dessa forma nenhuma espécie se sobreponha em definitivo sobre outra. Bruno Wendling (‘Schopenhauer e a Metafísica da Vontade’)   *****************************(texto complementar)*******************************

Kant… ‘juízos sintéticos a priri’ (…e outros temas)                                                            A priori” não significa algo necessário ao pensamento, mas apenas um                           possibilitador do conhecimento da “realidade” … através da ‘experiência’;                   tendo como “pressuposto central“… – o ‘princípio da causalidade’.

O ‘apriorismo’ nada mais é do que uma tentativa de conciliar racionalismo com empirismo, ao situar um ‘fator a priori’       no pensamento (e não…da experiencia).

Tende ao ‘racionalismo’…supondo que o sujeito desempenha papel principal, ao produzir conhecimento…pela existência intrínseca de ‘elementos independentes’   da experiencia… — ou seja… “a priori”.

Estes elementos (fatores apriorísticos) são de ‘natureza formal’… – isto é, formas de conhecimento, análogas a recipientes vazios … a serem preenchidos com conteúdos vindos da experiênciaNeste caso, o material do conhecimento vem da experiência, enquanto a ‘forma’ que este material irá adquirir… – é proveniente do pensamento.

Semântica (intuicionista) transcendental                                                                              Tanto na lógica quanto na filosofia da ciência, é possível encontrar exemplos de teorias formais a priori – que tratam separadamente de estruturas sintáticas – de domínios de interpretação… – e de modos de estabelecer relações entre essas estruturas e domínios.

No “apriorismo” o pensamento sempre se mostra ativo frente à experiência, pois é ele que organiza o processo de conhecimento – levando as formas a priori – ao conteúdo da experiência, determinando assim … os objetos a serem conhecidos. Kant – fundador do apriorismo, afirmava que o material do conhecimento apresenta-se como um ‘caos‘, e o pensamento é quem se encarrega de dar ordem a este caos relacionando os conteúdos sensíveis entre si, por intermédio da “intuição” (sucessão/simultaneidade, no tempo e espaço), e também do próprio “pensamento” — através do “princípio da causalidade“.

Talvez possamos dizer que, de certa maneira, ao revés da ordem arquitetônica, no sentido kantiano, a ‘semântica transcendental’ seja uma ideia do ‘todo’…que surge não no começo, mas ao cabo de uma trajetória reflexiva sobre a obra kantiana. Ora, nesta partitura parece que afilosofia analíticafará as vezes de leitmotiv, uma espécie de tema para as variações sucessivas… “Como são possíveis…’juízos sintéticos a priori’?”…é uma pergunta sobre a possibilidade desses juízos serem verdadeiros ou falsos. — Mas uma coisa é decidir se um juízo pode ser verdadeiro ou falso … outra é ter meios de afirmar que é de fato verdadeiro, ou falso. Para Kant é exigido que as “condições de verdade” dos “juízos sintéticos a priori” sejam explicitadas em termos de “operações intuitivas”…E, sendo assim, toda construção, tanto do sistema categorial quanto do sistema de princípios do entendimento, se justifica, não por uma “semântica a priori” qualquer…mas sim, pela “semântica intuicionista”.

Falsos problemas insolúveis                                                                                                    Um dos pontos básicos do projeto do neopositivismo é a tese de que                                  todo problema científico bem formulado é solúvel…Se não é solúvel,                                      ele não é bem formulado… e assim… não seria um bom problema.

o-que-conhecimentoPor que Kant pergunta: Como ‘juízos sintéticos a priori’ são possíveis?…Se for formulada uma pergunta, através de um juízo desse tipo, que não pode ser – nem verdadeiro nem falso – ou seja — que não é um juízo possível, então, não há resposta possível…Ora, um problema sem solução é um falso problemaDaí a tese que, no fundo, a ‘analítica transcendental‘ serve como fundamento da teoria kantiana.

Na solubilidade de problemas da razão pura teórica o problema básico de Kant não é tanto a possibilidade dos…juízos sintéticos a priori…mas saber se é possível conhecer certas coisas sobre as quais necessariamente a ‘razão pura’ se faz perguntas, e das quais      se ocupa a metafísica tradicional … se é possível provar que Deus existe, se há alma, etc.      É o de decidir se posso racionalmente resolver as disputas da… “filosofia tradicional“… como a filosofia da história, da moral – enfim…todas outras disputas nas quais a razão humana…se vê envolvida. – E o seu diagnóstico é que, tradicionalmente, essa disputas surgem do mal uso da razão pelos filósofos os quais antes de tentarem resolver um problema, não se perguntam se este é comprovadamente solúvel. E como se determina      se um “problema da razão” é solúvel?…

        Quando a pergunta é feita por umjuízo sintético a priori                                possível, que pode ser definitivamente falso ou verdadeiro.

A ideia de Kant é que em elaboradas ciências, conceitos são aplicados a ‘objetos empíricos’, e esses objetos nos são dados pela percepção, ao capturar os ‘modos’ como eles nos afetam. Todavia, Werner Heisenberg nos diz que isso apenas é verdadeiro dentro de certos limites. Ao entrarmos em contato com objetos…nem sempre nos limitamos a captar tal objeto. Em  determinados níveis da realidade…como os considerados na ‘física quântica’, modificamos inevitavelmente esses objetos. Assim – pelos menos em certos domíniosos conceitos das ciências exatas não se aplicam ao modo como objetos nos afetam mas como interagimos com eles…É o que sustenta Heisenberg…e faz parte da sua filosofia quântica ‘neokantiana’.

Trabalhando com conceitos a priori — Kuhn também se diz neokantiano,                          entretanto, admite que … sob pressões factuais – o ‘a priori’ muda com a                                história… – E talvez assim… Kant ofereça a possibilidade de um ‘diálogo                          frutífero’ com o que temos de melhor na filosofia da ciência do século 20.

Mas, acaba tudo em “Teoria da Linguagem”?…Filosofia é isso?                          Nem tudo é linguagem. — Mas ela é o instrumento da “estruturação” das                        coisas. Na parte teórica da organização…na parte prática da modificação. 

Em Kant… a linguagem fala por falar – ela sozinha não diz nada. Ela só diz algo se for amarrada por baixo. Estas amarras são as ‘intuições possíveis’. Porém, quando se faz um discurso prático as amarras são outras. Quais?… A “exequibilidade”…Por exemplo, quando digo…“A paz perpétua é seu dever, você deve buscá-la”, a um chefe de Estado, falo de um ‘dever ser’ exequível…senão ele permanece uma “quimera”Nesse caso, o pano de fundo dessa relação que dá, por assim dizer…”carne e osso” à linguagem kantiana – seria o quadro do…”como se. 

“Carne e osso” é aquele múltiplo a priori determinado pelo julgador            nas ‘intuições puras’…por sua espécie de ‘dupla face’ – uma voltada            para a experiência empírica…outra voltada à experiência possível.

Há conceitos que podemos amarrar aos dados empíricos…As categorias, por exemplo. Mas, há conceitos que não podem ser interpretados da mesma forma…por exemplo –        as ideias da razão… Mesmo não podendo amarrá-las aos objetos…pode-se amarrá-las      aos sistemas de conceitos, que por sua vez, podem ser referidos aos objetos. Então, as ideias servem para organizar a casa, para articular as estruturas conceituais. Elas não          se referem aos objetos da experiência possível – pois não existem esquemas para elas.

Mas a mesma abordagem semântica poderia ser estendida além do ‘domínio teórico’.          A partir de 1785, Kant pergunta como é possível um…’juízo sintético a priori prático’;        que é a “lei moral”. – E sobre a possibilidade dele…a “exequibilidade”…Depois, Kant      quer saber como são possíveis juízos sintéticos a priori… – do direito… da estética…          da história, e da política, que é o ‘Direito em execução’. De repente, da possibilidade          de ler a obra de Kant no seu todo, a resposta à pergunta…Como são possíveis juízos sintéticos a priori em geral? consiste em explicitar condições de aplicabilidade de        tais juízos, a domínios efetivamente acessíveis. Encontra-se assim um ‘fio condutor’,    capaz de interpretar toda obra crítica de Kant…do começo ao fim. (texto base) 2009 ******************************************************************************

Uma crítica da “Crítica da Razão Pura” de Kant (set/2016)                                            O que importa aqui… é um traço pelo qual possamos distinguir,                                            de modo seguro… – um…’conhecimento puro’ – de um empírico”.

idealismo transcendentalAs estruturas epistemológicas de Kant – que buscavam conciliar o raciocínio dedutivo, com o saber indutivo — são uma das maiores contribuições à filosofia humana. Em seu livro mais conhecido a Crítica da Razão Pura, surgem    2 objetivos expressos…definir os limitesda nossa capacidade de apreensão sobre o mundo, e agir como “árbitro” das especulações metafísicasdo próprio sistema. 

Kant foi um dos pais da “Revolução Copernicana” na filosofia um antropocentrismo radical…personificado no seu…”Idealismo Transcendental”. — Para outros filósofos, o homem estava localizado dentro de um espaço, e de um tempo … como comumente se imagina…e como parece de acordo com o que a ciência nos diz. Todavia, para Kant, os objetos só existem se o sujeito os percebe. Mas, não exatamente como em Hume e seu          A árvore que cai na florestasó existe se a ouvirmos cair. Dessa forma, o mais importante, mesmo numa escala cosmológica…é o que a mente humana percebe. 

Cognição kantiana                                                                                                          São…“formas puras da intuição sensível, onde                                                                      percebemos tudo como localizado no espaço e tempo.

Kant divide a cognição entre “análise racional” e “percepção sensorial”. A razão nos dá conceitos (verdadeiros ou falsos) passíveis de análise…mas tautológicos; enquanto a percepção…nos fornece um conteúdo imagístico fenomenológico. Tudo que passa pela percepção dos sentidos existe numa escala de espaço e tempo. Porém, essas condições básicas para a existência de um algo também não devem ser percebidas?…Kant afirma    que elas devem ser ‘pressupostas’…antes de se perceber a realidade…possuindo assim, características ‘transcendentais’ próprias…Mas, tais condições, mesmo estando, nesse conceito de espaço e tempo – presentes em nossa mente…não têm existência fora dela, sendo apenas…”ideias a priori” – condição necessária para todas percepções possíveis.

Leibniz (1646-1716) sustentava que o espaço é produzido por nossas mentes…quase antecipando em um século o argumento kantiano. Newton (1643-1727), por sua vez, declarou que o espaço era absoluto…complementando Leibniz, na argumentação de      Kant, que um espaço é objetivo quando aplicado a objetos, como eles nos aparecem;      mas é subjetivo…quando os objetos são considerados como “coisas em si”…livres de    nossa percepção. — Mas então, se existem bases necessárias à percepção, existiriam também à análise racional?… Kant afirma que sim, e essa seria a ‘lógica‘. – Ou seja, mesmo a “ciência” – estaria presa ao…”pensamento racional”, e axiomas básicos da  lógica; inclusive as…”descobertas empíricas” – realizadas pelo…”método científico”.

Daí surge o conceito de “juízos sintéticos a priorienunciados            que – empiricamente “infalíveis”…são dotados de validez universal.

kant-kantJuízos… analítico e sintético

Existem 2 tipos de juízos…O analítico, que só analisa as ‘particularidades’ do objeto em questão – e o sintético, que ao analisar um objeto…percebe novas ‘características ontológicas’ antes não contidas nele próprio. Como a ciência consiste em produzir “conhecimentos novos” sobre as coisas, conclui-se que seus enunciados são ‘juízos sintéticos’.

Suas descobertas, todavia… quando tomadas por ‘leis gerais’… são analíticas. 

Já a forma de analisar a veracidade de um juízo – fundamental para a lógica – base da análise racional…divide-se em a posteriori e a priori. Um juízo é verdadeiro a priori, se é possível afirmá-lo dessa forma, mesmo antes de ter-se a percepção sensorial do que está sendo analisadojá os a posterioris precisam passar pelo “teste perceptivo”, para serem passíveis de falsificação ou confirmação. — Juízos analíticos, dessa forma, são a priori, e    os sintéticos, a posteriori. – A ciência, no entanto… nos mostra que nem sempre é assim.

Essa exceção se deve à interrelação entre as 3 faculdades base que geram todo nosso entendimento do mundo: a “razão”, a “compreensão”, e a “percepção”. As limitações        aos objetos não seriam inerentes a eles, mas sim impostas pelo sujeito…dessa forma, tornando possível o juízo sintético a priori – como “determinações transcendentais”.    Desse modo, o caráter transcendental dado ao espaço e tempo para possibilitar uma “sensibilidade” é o que explica serem eles determinações universais e necessárias.

O processo kantiano de conhecimento                                                                                “Se o entendimento pode ser definido como a faculdade de unificar fenômenos mediante regras – a razão é a faculdade de unificar as regras do entendimento mediante princípios. Esta, portanto, nunca se dirige imediatamente à experiência, nem a nenhum objeto, mas apenas ao entendimento, conferindo ao mundo conceitual uma unidade racional a priori”.(“Transcendência no coração da imanência” – apenas digressões Kantianas)

O “entendimento” é quando o ser recebe os fenômenos percebidos, e submete-os aos conceitos. Por estes conceitos (empíricos ou puros) as coisas quando não entendidas          a priori…são dispostas de modo a tornarem-se inteligíveis ao sujeito. De acordo com    Kant existem ao todo 12 categorias dispostas em 4 grupos: categorias de quantidade: unidade, totalidade e pluralidade; qualidade…realidade, negação, limitação; relação: inerência, subsistência, causalidade, dependência e comunidade…ou ação recíproca;          modalidade – possibilidade/impossibilidade, existência/inexistência, necessidade e contingência. – A causalidade é considerada a mais importante dessas categorias de relacionamento. São as conexões entre fenômenos, que dão ao mundo uma conexão causal… – São elas – por exemplo … que dão “validez” aos…”fenômenos científicos”.

Em suma, a sensibilidade recebe o que é percebido, e revela fenômenos, ao lhes impor formas de espaço-tempo. O entendimento…a partir de relações (categóricas ou não, dá ao mundo uma – feição inteligível – permitindo nosso conhecimento… — O que possibilita esse…’arranjo fino’ é…a “razão”.

Kant afirma que o erro da Metafísica tradicional – ao sair do particular…e buscar um “caso geral”… é a procura pela “causa primeira”processo que ele designou por…uso regulativo da razão. Assim, a razão pode denotar   a possibilidadeou certeza, de uma “perspectiva racional perfeita”. – Ao usar a razãoapenas para lidar com uma experiência, melhor exercemos os nossos…”processos racionais“.

Kant… em suma – é muito complexo para caber numa simples resenha. A leitura completa do livro é recomendada – e daí podem surgir novas considerações para suas percepções de mundo – Dentro de sua intrigante filosofia é possível notar uma grande influência sobre diversos pensadores, dos mais variados espectros interpretativos – como Schopenhauer, e Wittgenstein (Tractatus Logico-Philosophicus), entre outros. Henrique Filgueiras (texto)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Schopenhauer: o Mundo, para além de Kant

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