Um “sentimento cósmico” em Schopenhauer

“O sujeito é mais universal que a própria universalidade…Ele pode ser          parte minúscula da realidade; mas é, simultaneamente, tanto o ponto        de vista singular que a abrange…quanto algo que surge no horizonte”.

Abordaremos neste artigo certos aspectos do pensamento de Schopenhauer referentes ao conceito de ‘Vontade‘…Para tanto apresentamos sua crítica aos filósofos do…’idealismo’, com base na impossibilidade da razão alcançar a essência da realidade… Será mediante o ‘corpo‘ que Schopenhauer estabelecerá uma… ‘metafísica imanente‘… – que permita à “intuição“, a despeito da “razão“, alcançar a “Vontade” como o “em-si do mundo“.

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“Viagem ao Princípio do Mundo” (Manoel de Oliveira)

Schopenhauer conclui seu livro “O mundo como Vontade e Representação” — aos 30 anos de idade…Toda produção intelectual posterior…apenas retoma – e, desenvolve temas desta sua obra…publicada em 1818.  Nela, Schopenhauer se afasta da tradição, ao atribuir o predomínio do ‘querer’ – em relação ao intelecto…Para ele a’razão’ não  é o “princípiodo mundo…ao contrário, o “princípio último” da realidade – é muito “irracional” – alheio a todae qualquer racionalidade que ouse captar seu âmago.

A multiplicidade dos fenômenos empíricos não passa de uma manifestação da vontade no espaço, no tempo, e na causalidade. Entretanto, esse distanciamento da tradição, dado no conceito de Vontade pelo querer cego e inconsciente (do ‘em-si do mundo’) é resultado da opção crítica, frente não só a Kant, mas também ao idealismo da ‘filosofia transcendental’.  A postura crítica empreendida por Schopenhauer busca fazê-lo distanciar-se… – tanto do antigo dogmatismo…que trilha caminhos para além dos sentidos, quanto do dogmatismo moderno, identificado nos filósofos idealistas (Fichte, Schelling e Hegel)…como dizia ele:   

Para estes não importa em nada o fato de Kant ter provado, com o emprego da maior acuidade e penetração…que a razão teórica não        pode jamais alcançar objetos, que estejam fora da possibilidade de          toda e qualquer experiência…esses senhores nem ligam para isso”.

Schopenhauer pensa que uma das mais fundamentais diferenças entre o seu pensamento, e o dos filósofos do idealismo, é justamente o fato de não fundamentar a dedução do não-eu, a partir do eu, mediante o princípio da razão…O mundo é minha representação. Esta frase de abertura de sua…”obra principal“…apresenta para o filósofo – uma verdade válida a todo ser – embora apenas no homem atinja a… consciência refletida e abstrata”.  Com efeito… ele afirma que – “nenhuma Verdade é tão certa, tão independente, e menos necessitada de provas… do que esta – pois tudo o que existe para o conhecimento…é tão-somente intuição de quem intui – um objeto de representação em relação ao sujeito”.

paulo-freire

“SUJEITO & OBJETO”   “O mundo só existe como vontade e representação”.   

Com efeito…essa afirmação, capital de sua obra pode ser compreendida … a partir de duas únicas ‘considerações’:

1ª) o mundo como “representação” é composto de 2 metades, necessárias e inseparáveis:  sujeito e objetoO sujeitode acordo com o filósofo…é o “sustentáculo do mundo”, aquele que tudo conhece…enquanto que, por sua vez, todo objeto existe para um sujeito.

Esse objeto, por seu lado, configura-se a partir das formas do espaço, tempo, e da causalidade. Sujeito e objeto coexistem como 2 metades essenciais e inseparáveis,           que formam a ‘representação’ – de modo que, cada uma delas possui existência e significação, exclusivamente – com… e para a outra… – desaparecendo sem ela.

2ª) tal como o sujeito e o objeto — o “princípio da razão“… constituído por tempo, espaço e causalidade, também é uma forma de representação. Tal princípio marca           o limite imediato entre sujeito e objeto; pois tempo, espaço e causalidade constituem        formas essenciais/universais do objeto, encontradas, a priori, na consciência pessoal.

No par…”sujeito/objeto“…(forma mais geral da representação) – o objeto pressupõe o sujeito, mas este permanece fora da jurisdição do “princípio de razão”… – posterior a ele. Todavia, sujeito e objeto são ‘termos correlatos’; 2 metades essenciais e inseparáveis que constituem a forma da ‘representação’…Por isso, Schopenhauer critica como dogmáticas  as filosofias que partem do sujeito, ou do objeto, estabelecendo um como causa do outro.

No dogmatismo moderno da filosofia…que parte do sujeito para fundamentar o objeto; do eu para fundamentar o não-eu; Schopenhauer afirma que o caso exemplar é o da “filosofia de Fichte. Segundo ele, este teria interpretado, equivocadamente, a ‘Crítica da Razão Pura’ de Kant, ao partir do sujeito…apenas com o propósito de mostrar como falso, o até então ‘partir do objeto’…que então, se tornara a coisa-em-si”. Assim, segundo o autor, o espírito capital da doutrina de Kant é que o “princípio da razão” – em oposto às afirmações dafilosofia escolástica nunca foi, nem será uma…”veritas aeterna“…pois possui validade  restrita aos fenômenos…sendo a ele vedado acesso à…’coisa-em-si’…(essência do mundo).

Também é objeto de crítica…por Schopenhauer…a filosofia da identidade, entre sujeito e objeto, que embora não cometa o engano de partir de nenhuma das 2 metades essenciais    e inseparáveis da representação, comete o erro de partir do Absoluto. – O filósofo afirma que essa identidade é impossível, pois para tanto, seria necessário uma “razão intuitiva.

A METAFÍSICA DE KANT

Schopenhauer acompanhou o debate sobre a “realidade do mundo exterior”, empreendido por Fichte e Schelling — e os critica bastante, por terem “corrompido” a ‘filosofia kantiana’  ao tentarem captar o…”absoluto” – por uma ‘intuição intelectual‘, para além daquela sua intuição do mundoO retorno a Kant, e à leitura crítica de sua obra via Schopenhauer, seria uma saída aos impasses da filosofia de seu tempo – objetivando um ‘projeto crítico’ de sua própria filosofia; onde mesmo dando valor especial ao “transcendental kantiano”,    o princípio da razão, nele inadvertidamente    é concebido de “modo cognitivo” (‘a priori’) no sujeito. – O que Schopenhauer contesta:

“A essência íntima do mundo, a coisa-em-si, jamais pode ser encontrada pelo fio condutor do ‘princípio de razão’; pois, este sempre conduz ao que é dependente e relativo – sendo apenas ‘fenômeno’… e, nunca coisa-em-si”.

A proibição de estender a aplicação de tal princípio à ‘coisa-em-si’… restringindo seu uso às formas de conhecer relativas ao ‘mundo fenomenológico acaba por não oferecer outra alternativa para ultrapassar os fenômenos. Mantendo assim como único ponto de vista o da razão – tanto no domínio teórico, quanto prático… Kant não pode chegar…àquilo que para Schopenhauer, seria a consequência lógica de suas ideias…o ‘em-si’ como ‘Vontade’.

Através deste negativismo crítico inicial, Schopenhauer busca…rastreando os erros e defeitos de Kant, reconstruir a metafísica em novos moldes – de tal forma que, possa demonstrar um ‘princípio último do mundo‘…sem no entanto cair nodogmatismo idealista(que tenta captar o Absoluto, pela intuição intelectual); nodogmatismo realista – que deduz o sujeito… do objeto; ou nodogmatismo escolástico‘…das provas absolutas da existência de Deus…todos desmontados pelacrítica kantiana‘.

Embora Kant – com méritos, tenha estabelecido os ‘limites da razão‘…refutando assim os preconceitos dogmáticos, ele teria, afinal, abandonado a tarefa… que, para Schopenhauer  é própria do filósofo, qual seja…a ‘decifração do enigma do mundo através da metafísica‘.  A ‘metafísica kantiana é assim considerada equivocada… por adotar o ponto de vista dogmático da filosofia clássica predecessora … de acordo com os seguintes pressupostos:

a) Metafísica é ciência daquilo que está para além da possibilidade de toda experiência; b) Uma tal coisa jamais pode ser encontrada segundo “princípios fundamentais” – eles mesmos, antes hauridos da experiência…Apenas aquilo que sabemos com antecedência, ‘independente’ de toda experiência, pode ultrapassar a experiência (Prolegômenos, § 1);  c) Em nossa razão podem ser encontrados…com efeito, alguns princípios fundamentais desse tipo, concebidos sob o nome de conhecimento…a partir da ‘razão pura’ (intuitiva).

Kant_frases

DECIFRANDO ENIGMAS DO MUNDO

De certo modo Kant está em conformidade com seus predecessores escolásticos…pois enquanto estes afirmam seus princípios como…expressão  da possibilidade absoluta das coisas – “aeterna veritas” – Kant as considera meras ‘estruturas‘  do intelecto, só aplicáveis ao domínio empírico,  não válidas para além da experiência. Assim, a metafísica cede lugar à…”crítica da razão pura”.  Mesmo assim… Schopenhauer vê possível uma ‘metafísica’, com alguns elementos dogmáticos.

Na “arte de filosofar“… o “grande erro de Kant“… teria sido a descaracterização da experiência como fonte metafísica. E, por isso Schopenhauer refuta sua afirmação inicial, contida nos “Prolegômenos”…de que – “a fonte da metafísica jamais será empíricaseus princípios e conceitos fundamentais, não podem ser obtidos da experiência…interna, ou externa”… Para Kant, o mundo, e nossa própria existência mostrar-se-iam como enigma,  cuja solução não poderia vir de sua compreensão profunda, mas sim, de algo totalmente diverso…“para além da possibilidade de toda experiência”; de sorte que daquela solução, teria de ser excluído tudo aquilo que pudéssemos conhecer, de um “MODO IMEDIATO”. Todavia, Schopenheuer afirma que para isso seria necessário demonstrar que a matéria, para a solução do ‘enigma do mundo‘ não pode estar nele mesmo…mas em algo de fora, somente alcançável, pelas…formas puras – “a priori“…Como ele próprio assim explica:

“Porém, enquanto isto não é provado, não temos razão alguma para estancar… a nós mesmos, a mais rica de todas fontes de conhecimento…a experiência. Digo assim, que       a solução do enigma do mundo, tem de provir de sua própria compreensão. Portanto,  não cabe à metafísica sobrevoar a experiência – na qual o mundo existe…mas, tentar entendê-la, a partir de seu fundamento, na medida da experiência externa e interna”.

Consequentemente, a solução do ‘enigma do mundo‘ só é possível através da conexão adequada, executada na medida certa, entre experiência externa e interna – 2 fontes tão heterogêneas de conhecimento… Fiel a esta opção crítica de retorno a Kant, e à releitura     de sua obra; e, contrapondo-se à filosofia de seu tempo – o idealismo Schopenhauer inicia a decifração deste enigma…com uma metafísica inspirada em novos moldes… que escapariam de seu prévio ‘dogmatismo’, e do ‘espectro de desespero’ da crítica kantiana.

Tais análises mostram que, se houve infidelidade na leitura da ‘filosofia crítica’… ela não significa uma retomada ao ‘dogmatismo pré-crítico’…mas, uma verdadeira ruptura, que abriu novo campo de investigação sobre a questão de Kant da finitude do saber humano.

A METAFÍSICA IMANENTE                                                                                                      O ponto de partida do conhecimento metafísico se encontra em                                            uma…”encruzilhada“…entre experiências… externas e internas,                                            que… segundo Schopenhauer… – se faz representar no “corpo“.                        

Como é possível – a partir dos dados imediatos da experiência, alcançar a compreensão do “em-si do mundo”…sendo este, mera ‘representação’? – De acordo com o pensamento de Schopenhauer, considerar o mundo somente como representação… embora seja um ponto de vista correto, é unilateral – resultado de uma abstração arbitrária. E, o que traz ‘a lume’ esta ‘unilateralidade’…é uma resistência interior em aceitar a redução de tudo o que existe, apenas a uma mera representação. Somente pela experiência externa…caracterizada pelas figuras singulares do ‘princípio da razão’, seria impossível sair do campo representacional; o que representaria a negação do indivíduo, em ultrapassar os limites formais do intelecto.

“Se a Metafísica é possível, isto se deve a uma ‘visão’, e não à dialética…Esta, apenas nos conduz a filosofias opostas. Apenas uma ‘intuição transcendente’, isto é…uma percepção da realidade metafísica admitiria sua ‘síntese constitutiva’. Fundando-se na inversão do percurso natural do pensamento…o ‘método intuitivo’ – indo da realidade aos conceitos, se coloca – imediatamente – na coisa em si.” (H. Bergson – ‘O Pensamento e o Movente’)

arthur-schopenhauer

Ao encontrar no corpo o lugar propício à fiel elaboração de um “conhecimento metafísico” – Schopenhauer…introduz modulações, até então impensáveis no ‘pós-kantismo… – através de um forte ‘acento fisiológico’ de seu pensamento.  Embora ao buscar o sentido último da ‘representação‘, se mantenha numa mesma linha de pensamento idealista, esse “acento fisiológico” acaba por lhe remeter, através do corpo, a algo cujo domínio não é o saber… (o saber se define como representação de algo mais fundamental; se refere às…’representações abstratas’ – quer dizer, aos conceitos produzidos pela razão.)

No entanto, toda e qualquer representação abstrata tem que ter um ponto de apoio que não pode ser ela mesma…Em outros termos…os conceitos podem se ligar mutuamente,  um tendo o outro como ‘fundamento‘…contudo, no fim da cadeia deverá existir… – não mais uma “representação abstrata”, mas sim uma “representação intuitiva“. E esta, impreterivelmente…passa pelo corpo… Não é o saber, portanto, que vai proporcionar o sentido último da representação – pois, os conceitos precisam de uma ‘fundamentação‘  que não seja abstrata, mas sim…”empíricaE assim…reflexão não passa de uma aparência refletida em algo mais originário…ou seja, é um conhecimento intuitivo“.

Todo conhecimento, incluindo as ciências regidas pela “consciência empírica”, refere-se somente à ‘representação‘. E, para atestar como o saber não atinge o sentido último das coisas, Schopenhauer apresenta a ‘matemática‘, que mesmo nos fornecendo medições precisas das “relações materiais” … limita-se ao campo das “representações simbólicas”.

Assim, de acordo com o filósofo, as ciências, embora importantes, não podem alcançar o sentido último da realidade… elas carregam consigo um limite — impossível de transpor. Este limite é o próprio conhecimento…de onde o princípio da razão restringe esta ciência ao “campo das representações“…O filósofo sabe, contudo, que para buscar o sentido último da realidade – ele precisará optar por outro caminho…que não o da mera representação. – É aí, portanto, que Schopenhauer discursa sobre a “intuição filosófica” de um ‘em-si do mundo’…indo encontrar no ‘sentimento‘, o inverso do conhecimento;  “designando algo na consciência…que não é conceito…nem um saber abstrato da razão”.

O “sentimento” possui uma característica negativa essencial                            em relação ao saber… – não ser um ‘conhecimento abstrato’.

CORPO, VONTADE & REPRESENTAÇÃO                                                                          “Antes, a palavra do enigma é dada ao sujeito do conhecimento…como ‘indivíduo’.        Tal palavra se chama ‘VONTADE’… Esta, e tão-somente esta…fornece-lhe a chave      para seu próprio fenômeno… – manifestando-lhe a ‘significação’… – e, com isso… mostrando a ‘engrenagem interior’ de seu ser…de seu agir…de seus movimentos”.

nietzsche-e-schopenhauerNa tentativa de evitar a ‘transcendência’ é realçado o papel do…corpo… – como uma manifestação direta e imediata, do ‘em-si’…deixando assim de, meramente ser considerado sob o ponto de vista da ‘representação’. Esta nova ótica…revela  o corpo como um todo … em um amplo espectro de ‘atos volitivos/sentimentos’  que não são representações – ou saber.

Desse modo…aquilo que, em relação ao conceito era negativo,                    ganha…’positividade’ – ao ser enfocado pelo sentimento mais                                              interior do corpo; que para o ‘sujeito’ do conhecimento é uma                                            “representação entre representações”…”objeto entre objetos”.

Entretanto, se o corpo se limita a ser, para o ‘sujeito do saber’, apenas mera representação, submetida ao… ‘princípio da razão’ – todas as ações e movimentos deste corpo, seriam tão estranhas e incompreensíveis quanto as dos demais objetos intuitivos… Isto é, todas ações e movimentos do corpo estariam – conforme a uma lei natural…tal qual os demais objetos, sem obter nenhuma intelecção mais profunda a respeito. Schopenhauer define então, que o corpo é conhecido pelo sujeito do conhecimento de duas maneiras, totalmente distintas: uma, na “intuição do entendimento”…na qual ele é apenas ‘representação‘ – e outra, na qual é conhecido de imediato, independente do princípio da razão, isto é, como ‘vontade‘.

 “A vontade é o conhecimento a priori do corpo, e o corpo é                                  o conhecimento a posteriori da vontade.” (Schopenhauer)

Esta afirmação vai tão longe, que diferentemente da denominação de ‘objeto imediato‘ dada ao corpo em sua obra “O mundo como vontade e representação”, agora sob esta nova perspectiva, este é denominado (em seu 2º volume) objetividade da vontadeTodo ato da vontade, e toda ação do corpo, não são estados distintos apreendidos pela causalidade – ao contrário – ambos são uma única, e mesma coisa…mas sob 2 formas distintas…uma imediata, e outra, dada na intuição do entendimento…Assim, o ‘corpo’        é vontade objetivada, que se tornou ‘representação’…numa ‘ação concreta da vontade‘.  Esta identidade da vontade com o corpo – tratando-se de um conhecimento imediato,    escapa ao âmbito da razão, só podendo ser evidenciada, nunca demonstrada. Ou seja:

“Agora a verdade não é mais referência de uma representação abstrata relativa a outra… ou, uma forma necessária do representar…intuitivo e abstrato – mas sim… – a referência de um juízo… à relação… que uma representação intuitiva (o corpo) possui…com alguma coisa que não é representação, mas… – algo totalmente diferente dela… – a vontade“.

É exatamente, a referência a este conhecimento duplo do próprio corpo, que…a partir da subjetividade…Schopenhauer poderá conhecer o núcleo volitivo dos demais corpos. Esta dupla referência será a “chave”…que permitirá conhecer a essência de todo fenômeno na natureza, pois… “todos objetos que não sejam nosso corpo … não são dados duplamente, sendo apenas representações na consciência – e assim serão julgados…analogicamente”.

Este modo de filosofar — que torna o sujeito que conhece…’indivíduo’, possibilitando o conhecimento da essência de todos os demais corpos, objetos, representações – que não o próprio corpo…pode ser descrito     como uma…’conclusão analógica‘ – por meio de 2 fundamentos…

Inicialmente, o corpo – enquanto representação…portanto, como algo dado ao saber; não escapa da lei da causalidade do “princípio da razão“…A causalidade em si, é igual para todo objeto…incluindo o corpo humano. – O que a diferencia no homem… é a atuação do conhecimento, ou seja…“no homem o conhecimento, como motivação, determina os seus próprios movimentos”. Este intermediar do conhecimento, é o que Schopenhauer chama: “lei da motivação“; onde…cada motivo exigido pela ação – é também “causalidade”…o que, a princípio… faz a “razão humana” mais sensata… – pois, nesse caso… – todo objeto dado pelo “princípio da razãofatalmente está submetido à…”lei da causalidade“.

A seguir, Schopenhauer inclui uma2ª identidade‘…Se os demais objetos são, por outro lado… tal como o sujeito que conhecemera representação – resta-nos identificar sua essência mais pura, a que chamamos ‘vontade‘. Pois…“Que outro tipo de realidade, ou existência, deveríamos atribuir ao mundo dos corpos? Donde retirar os elementos para compô-los?…” pergunta o filósofo – para em seguida reafirmar que… “além da vontade       e da representação… absolutamente nada pode ser conhecido… – ou mesmo pensável”.

TEMPO e ESPAÇO como “INTUIÇÕES CAUSAIS”

schopenhauer

Schopenhauer sempre deixou claro, que sua teoria muito se inspirou na teoria kantiana… da… “Crítica da Razão Pura”.  Contudo…cabe salientar que, a despeito disso… ele produz significativa ‘mudança‘ … ao absorver tais ideias…quando elaborava sua própria teoria.

Tal fato se deve à definição de ‘tempo e espaço‘ como intuições… – isto é…formas puras – a priori, da sensibilidade (de acordo com a filosofia kantiana) … e deslocadas, segundo Schopenhauer, para o entendimento… Em Schopenhauer a ‘intuição‘ não é somente sensual… mas também intelectual…pois o saber é extraído da causa, a partir        do efeito – o que exige uma ‘lei de causalidade‘ dependente do espaço e do tempo.        O ‘entendimento‘, que na obra de Kant possui 12 categorias, para Schopenhauer se reduz a uma única…’causalidade‘…Desta forma, sensibilidade e entendimento, que         na Crítica são 2 faculdades separadas, mesmo funcionando juntas na construção do conhecimento… – em Schopenhauer estão unificas… – sob o “princípio da razão“.

Estes novos moldes da metafísica empreendida por Schopenhauer, buscam solucionar o ‘enigma do mundo‘… essência em si de toda a realidade… – algo que as mais diversas ciências não foram capazes de descobrir, por estarem, segundo o autor…comprometidas com o “principio da razão”… – Assim, mediante o conceito de “objetividade da vontade”, Schopenhauer nos leva à compreensão do…‘em-si do mundo’… isto é – ao mistério de toda a realidade. – Em função do corpo humano…portanto, ele nos conduz, em analogia com este microcosmos, à compreensão do macrocosmos – ou melhor…macroantropos’.

Schopenhauer também observa que objetos não são apenas uma mera representação, pois se todos fossem apenas aquilo que surge, nas formas do princípio da razão, não passariam de ‘fantasmas vazios’, sem significado algum… além dos que o princípio lhes confere. – As ciências, para o autor, buscaram uma significação para eles, todavia o escopo científico os inscreve num terreno que torna impossível achar tal significação…Justamente por isso, se fosse possível reduzir…’o que aparece’…ao ‘como aparece’…então não se perguntaria mais pela “coisa-em-si”, e seríamos obrigados a render tributo aos ‘argumentos ocos’ de Fichte, pois o mundo deixaria de ser…”objetivo” – para se tornar totalmente dedutível do sujeito.

Mas, a filosofia de Schopenhauer não busca o ‘conhecimento relativo’ – e sim…o ‘conhecimento incondicionado’ da essência do mundo…Por sua filosofia ser uma ‘metafísica imanente‘, cuja referência é sempre a realidade…o “corpo(onde                se faz conhecer…a ‘representação’ e a ‘vontade’)…é a ‘chave’ para a decifração do      ‘enigma do mundo‘…pois a princípio, possibilita pensar os objetos; não como              meras representações…mas, entidades possuidores de uma “realidade em-si“.

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Através de seu princípio analógico, Schopenhauer concluirá que, todas as forças vindas da própria subjetividade (que – ao acaso – se exteriorizam na multiplicidade individual da natureza)  são semelhantes — ao que chamamos  ‘Vontade‘…(O corpo seria a “chave” para conhecer a essência da natureza).

Vontade não seria apenas um nome entre outros possíveis para nomear a coisa-em-si… Ao contrário, o próprio termo“Vontade”, se origina de algo conhecido por inteiro… e de maneira imediata… – Não resultado daqueles fenômenos representativos…mas, de uma — “consciência imediata“… creditada ao próprio indivíduo…que percebe… que – aquele que conhece, coincide, inversamente, com aquele mesmo “sujeito” … que é conhecido.

A Vontade… como aquilo que Kant denominou… “coisa-em-si” – é completamente independente de seus fenômenos — livre das formas da representação… Estas formas, nada são, além de sua “objetividade”; ou seja…’fenômenos da coisa-em-si’. Sobre isso,  Schopenhauer afirma que não cabe à Vontade…o “tempo” e o “espaço”…únicos meios pelos quais o uno surge múltiplo…Caracterizando-os por ‘principium individuationis’, tempo e espaço seriam formas incapazes de captar a “coisa-em-si“…e, por isso…a Vontade se encontra fora do domínio de tal princípio, sendo assim…sem fundamento.

UM ABISMO SEM FIM (DE VOLTA A PLATÃO)                                                               À Vontade não lhe cabe nenhuma causa, ou razão. Desprovida de                                qualquer fundamento… ela é… assim como, um “abismo sem fim”. 

A Vontade é toda pluralidade, mudança e duração, que não compete ao que entra na representação…mas, apenas à tudo que não sofre nenhum condicionamento por tais formas do ‘princípio da razão’, não podendo portanto ser resgatável nem explanável        por ele. Sendo una, atemporal e livre…núcleo mais íntimo de tudo que existe, toda e qualquer diferença se deve, apenas, a seus fenômenos. – Contudo, ao dizer que toda diferença fenomênica não compete à…Vontade – já que esta não pode ser dividida e espalhada no espaço infinito…pois tal extensão convém apenas ao fenômenoentão  Schopenhauer faz notar que tais diferenças ocorrem segundo graus de objetivação.

“Os fenômenos – enquanto visibilidade da Vontade, ao se fragmentarem                            no mundo como representação, o fazem mediante graus de objetivação”.

Frente a esta característica da Vontade, e toda a miríade de fenômenos engendrados por ela, Schopenhauer explica que… “O aparecimento da Vontade (sua objetivação)…possui tantas infinitas gradações, como a existente entre a mais débil luz crepuscular…e a mais brilhante claridade solar; entre o tom mais elevado e o mais baixo; bem como existe um grau consciente maior na planta que na pedra…um grau maior no animal que na planta.  Mas não há uma parte pequena de vontade na pedra, e maior no homem, pois a relação entre parte e todo, pertence exclusivamente ao espaço; perdendo todo seu sentido, sem essa forma de intuição; como que…concernindo tão-somente ao fenômeno – ou seja…à sua visibilidade e objetivação”.

Sem títuloSe Schopenhauer em sua obra já havia se inspirado em Kant, ao caracterizar seus 2 operadores fundamentais: o “fenômeno”, e a “coisa-em-si” … agora é a Platão que se mostrará “tributário” – ao utilizar seu conceito imutável…e eterno de…”Ideia“.

Após estabelecer o conceito de uma ‘essência do mundo’, caracterizada como Vontade una e indivisa… – manifesta em toda ‘realidade fenomenal’ (sem, contudo, ter um fundamento próprio para ela), Schopenhauer investiga tal atividade…antes dela atingir sua forma mais complexa de manifestação… “o homem e sua consciência“… – Aí então, procurando a fundamentação necessária deste…”processo de objetivação“…expresso nos indivíduos, ele encontra ‘protótipos inalcançáveis’, como formas eternas das coisas que nunca surgem em tempo e espaço, mas existem… não submetidas à mudança alguma. Pela concepção do filósofoestes são os…diferentes graus de objetivação da vontade“, nas Ideias de Platão“.

Schopenhauer compara a existência às Ideias eternas‘… em tudo o que, em diversos graus…a partir da objetivação da Vontade…ela comporta – de tal modo que – cada grau corresponderia a determinada “espécie natural”.

Nesta passagem da unidade da ‘coisa-em-si’ à ‘pluralidade fenomênica’, o autor divisa as Ideias de tal forma, que a coisa-em-si, antes de se multiplicar nos incontáveis indivíduos da representação mediante o ‘princípio da razão…irá inicialmente, se objetivar por meio das Ideias…não efeito da Vontade…‘imagem arquetípica’, una e indivisa, se objetivando fora do espaço e tempo…mas, que se reportam a um ‘universo atemporal’…  “As Ideias, sendo “graus de objetivação” do…”em-si”…pluralizam-se nos mais variados fenômenos”. 

Schopenhauer aqui, estabelece uma hierarquia… — ‘forças da natureza’                              seriam graus inferiores da objetivação, enquanto o ser humano, o grau                              superior. Esta diferença se refletiria … no fato do “ser humano” possuir                              como fruto de grau de objetivação: consciência, entendimento, e razão.

O MUNDO COMO “VONTADE”…                                                                                            “O homem tem a capacidade de se projetar no tempo… e, esta se constitui,                          de fato…na fonte de sua angústia existencial. – Mas, tal olhar reflexivo, e                          capacidade de projeção … talvez sejam sua mais perfeita originalidade.” 

Ora, como a Vontade é o em-si do mundo, ela atua em tudo o que existe, pois…como diz o  filósofo… “Além de representação e Vontade…nada existe”. – Assim portanto, o recurso à…’conclusão analógica‘…deve, necessariamente… ser usado em todos os fenômenos. – Os graus de ‘objetivação da Vontade’ mais baixos…são as forças mais universais da natureza – rigidez…fluidez,  eletricidademagnetismo … gravidade, polaridade…propriedades químicas…etc. 

Nesse contexto, Schopenhauer nos apresenta uma gama variada de exemplos: a poderosa força com que a massa de água se precipita nas profundidades…o imã que sempre aponta para o ‘pólo norte‘…a constante ‘atração ferromagnética’…a regularidade de configuração que se manifesta no cristal, etc. – Todavia, sem embargo…o filósofo diz que essa Vontade  também atua…’cegamente’…em todos processos vitais e vegetativos do…”corpo humano”; tais como… circulação sanguínea… digestão… secreção… crescimento… reprodução… etc.

“Precisamente, aquela essência, que em nós… à luz do conhecimento,      segue seus fins; aqui, nos mais tênues de seus fenômenos, esforça-se               de maneira cega… silenciosa… misteriosa… unilateral, e invariável”. 

ninhoPor essa gradação ideacional – o filósofo nos conduz diretamente aos instintos e impulsos animais, demonstrando que, mesmo na ação destes “seres irracionais”…a Vontade é ativa.

“O pássaro de 1 ano não tem representação alguma dos ovos… para o qual constrói seu  ninho – nem a jovem aranha tem da presa, para a qual…pacientemente…tece sua teia”.

O não reconhecimento da Vontade, nestes casos, pode ser creditado ao fato de que, no Ser humano – a ação é conduzida por motivos e caráter… Para obter a intelecção da “essência em-si das coisas, basta a compreensão da nossa própria essência. Mas, diz Schopenhauer que…se obtivermos a compreensão de que a “representação” – enquanto “motivo”…não é condição fundamental nem necessária à atuação da Vontade – veremos que sua atividade,  inevitavelmente ocorrerá em qualquer fenômeno – até mesmo naqueles menos evidentes.

Neste sentido, em cada coisa na natureza há algo que jamais pode ser atribuído um fundamento – para o qual…nenhuma explanação é possível – nem causa posterior,      pode ser investigada. Nesses casos o que ocorre é emanação da Vontade. Todavia,          ela própria não emana de coisa alguma…em-si do mundo que é. – Existe, sim, uma      ordem de aparecimento destes fenômenos, nas formas da ‘multiplicidade’ – ordem        esta determinada pela ‘lei de causalidade’. Percebe-se que nessa hierarquia natural            da objetivação da Vontade – desde as forças naturais, até o homem (como ápice da objetividade) nada ocorre de graça…pois a manifestação das Ideias nos fenômenos,            se dá mediante luta perene pela matéria. – Sendo esta finita, a luta por sua posse é infindável…ora esta, ora aquela ideia adquire o direito sobre ela, manifestando sua essência. – A determinação deste direito… entretanto, é dada pela “causalidade“.

Uma objetividade superior, por exemplo, só se manifesta no ‘mundo dos fenômenos‘ depois de tomar posse de outras ‘Ideias inferiores‘… que também lutavam por tornar-se representação, num processo denominado “assimilação por dominação”… Por isso, Schopenhauer diz que…a ideia resultante dessa vitória sobre ‘objetivações inferiores’ da vontade…ganha um caráter totalmente novo…precisamente pelo fato de absorver em si,    de cada uma das que foram dominadas… — um análogo mais elevadamente potenciado.

A SERPENTE & O DRAGÃO                                                                                                   ‘Todo organismo é… ao mesmo tempo – também inorgânico;                                                    ao guardar em si ideias inferiores, dominadas e assimiladas’.

'Universo Primordial'. Esta simulação computacional mostra o universo como ele deve ter sido quando tinha uma fração de sua idade atual. As manchas brilhantes e as fibras correspondem às galáxias e aos filamentos.

‘Universo Primordial’. Esta simulação computacional mostra o universo como ele deve ter sido logo após o período inflacionário. Os pontos brilhantes e as fibras correspondem às galáxias e filamentos, respectivamente.

A ‘Vontade Una‘, que se manifesta em Ideias, busca sempre o mais alto grau de objetivação, renunciando aos mais baixos. Porém, a vitória do grau mais elevado não se conserva para sempre, pois embora submetido à degradação pela perda na ‘matéria’… o esforço da ‘exteriorização’ e ‘autodeterminação’,    faz parte da essência de toda espécie.

Aqui vale aquela sentença latina citada por Schopenhauer…  —  serpens… nisi serpentem comederit — non fit draco’;  isto é… uma serpente precisa devorar outra serpente, para se sentir dragão”.

Tais “ideias dominadas”…lutam por autonomia e exteriorização,                    até o conseguirem. Por isso, todo organismo, impreterivelmente,                trava uma luta… – “de vida e morte”… – contra o…”inorgânico”.

Não havendo ‘vitória sem luta… diante dessa “luta eterna” por matéria – toda existência é permeada por conflito…que leva à “discórdia” da Vontade consigo própria… – afinal, cada Ideia… enquanto grau de objetivação da Vontade, se insere numa luta eterna em busca de matéria, espaço e tempo… – Para Schopenhauer…não há maneira mais nítida de perceber essa discórdia essencial… da Vontade consigo mesma – do que no “mundo animal”…onde Thomas Hobbes se inspirou – para dizer que… “O HOMEM É O LOBO DO HOMEM“.

“A Vontade de vida… crava – continuamente… seus dentes na                própria carne, e em diferentes formas é seu próprio alimento;                      até que enfim, o gênero humano – por dominar todas demais            espécies, vê a natureza como seu próprio instrumento de uso”.

A discórdia essencial da Vontade (consigo mesma)…com efeito…se estabelece em todos os âmbitos da ‘existência fenomenológica’ – já que esta é espelho da Vontade… Entretanto, o conflito dos graus de objetivação faz surgir novos graus superiores… graças à “assimilação por dominação”… Há então a necessidade do movimento consciente em direção ao ‘saber‘,  exigência vital neste grau de objetivação. – O conhecimento assim…aparece representado pela técnica, e junto com ela, surge de um só golpe… o ‘Mundo como REPRESENTAÇÃO‘,  com todas as suas formas… objeto e sujeito… tempo e espaço… pluralidade e causalidade.

O mundo mostra agora o seu ‘lado B’. Até então, pura e simples VONTADE, doravante, também… ‘REPRESENTAÇÃO’ – objeto do sujeito…que conhece.

yin-yang

O “PARENTESCO INTERIOR”                A consciência imediata de nossa própria essência, deve ser a chave à compreensão    da essência fundamental de todas coisas”.

Jamais devemos perder de vista a noção de que, mesmo com ‘graus de objetivação, em todas Ideias…sejam elas forças da natureza ou corpos orgânicos – é sempre a Vontade,  una e indivisa, quem se manifesta. Mesmo que … dentro do Homem … surja o mundo como representação, mostrando que todos reinos da natureza formam uma pirâmide, cujo topo…lhe faz sombra – ainda assim… todos fenômenos têm um “parentesco interior“, que Schelling denominou…”polaridade”… onde uma única força, dividida em 2 ramos, distintos e opostos, objetiva sua reunificação.

Aliás, Schopenhauer esclarece que tal polaridade, já estava presente há muito tempo na filosofia chinesa, na oposição entre yin e yang… Segundo esta sabedoria, há em todo o universo um princípio único chamado “tao“… que não pode ser alterado, nem dividido.  Frente a esta perspectiva de distintas escolas filosóficas apresentarem mesmo conceito, Schopenhauer mostra que esta IDEIA também EXISTE em seu ‘pensamento filosófico’:  

“Justamente porque todas as coisas do mundo são objetividade de uma única e mesma Vontade – e portanto, idênticas segundo sua essência mais íntima; não apenas tem de haver entre elas uma ‘analogia inegável’, como também, em cada coisa imperfeita…já tem de se mostrar o…’vestígio’…a ‘alusão’… – o ‘dispositivo’ das coisas mais perfeitas”.

Aquilo que o taoísmo chama de tao – o ‘princípio uno‘ – assemelha-se àquilo…que,    na filosofia de Schopenhauer chama-se…”Vontade cósmica“. Esta polaridade de que fala a filosofia de Schellinguer, assim como a ‘filosofia chinesa‘…estaria presente no  fato da Vontade ser sempre una e indivisa em todos seus fenômenos – ou… até mesmo, dentro do conceito de assimilação por dominação, onde uma objetivação superior,    ao dominar uma inferior, carrega consigo as suas características… – Pode-se inclusive, considerar esse paradigma como uma espécie de equilíbrio … no conflito de interesses, inerente à Vontade, permitindo com que dessa forma nenhuma espécie se sobreponha em definitivo sobre outra. Bruno Wendling (‘Schopenhauer e a Metafísica da Vontade’)   ***************************(texto complementar)*********************************

Kant… ‘juízos sintéticos a priri’ (…e outros temas)                                                            A priori” não significa algo necessário ao pensamento, mas apenas um                           possibilitador do conhecimento da “realidade” … através da ‘experiência’;                   tendo como “pressuposto central“… – o ‘princípio da causalidade’.

O ‘apriorismo’ nada mais é do que uma tentativa de conciliar racionalismo com empirismo, ao situar um ‘fator a priori’       no pensamento (e não…da experiencia).

Tende ao ‘racionalismo’…supondo que o sujeito desempenha papel principal, ao produzir conhecimento…pela existência intrínseca de ‘elementos independentes’   da experiencia, ou seja…’a priori‘.

Estes elementos (fatores apriorísticos) são de ‘natureza formal’… – isto é, formas de conhecimento, análogas a recipientes vazios … a serem preenchidos com conteúdos vindos da experiênciaNeste caso, o material do conhecimento vem da experiência, enquanto a ‘forma’ que este material irá adquirir… – é proveniente do pensamento.

No apriorismo o pensamento sempre se mostra ativo frente à experiência, isto por que é ele que organiza o processo de conhecimento, levando as formas a priori ao conteúdo da experiência, determinando assim … os objetos a serem conhecidos. Kant – fundador do apriorismo, afirmava que o material do conhecimento apresenta-se como um ‘caos‘, e o pensamento é quem se encarrega de dar ordem a este caos … relacionando os conteúdos sensíveis entre si, por intermédio da ‘intuição’ (sucessão/simultaneidade… no tempo e espaço)… – e do… ‘pensamento’ … (pelo “princípio da causalidade“). (texto base)

Semântica (intuicionista) transcendental

Talvez possamos dizer que, de certa maneira, ao revés da ordem arquitetônica, no sentido kantiano, a ‘semântica transcendental’ seja uma ideia do ‘todo’…que surge não no começo, mas ao cabo de uma trajetória reflexiva sobre a obra kantiana. Ora, nesta partitura parece que a ‘filosofia analítica‘ fará as vezes de leitmotiv, uma espécie de tema para as variações sucessivas… – Em que medida seria então, tal vertente uma nova teoria do conhecimento? 

Como são possíveis ‘juízos sintéticos a priori?“, é uma pergunta sobre a possibilidade desses juízos serem ou verdadeiros ou falsos – de uma forma determinada. Mas, uma coisa é decidir se um juízo pode ser verdadeiro ou falso; outra é ter meios de afirmar que ele é de fato verdadeiro, ou falso. — Segundo Kant é exigido que as condições de verdade dos juízos sintéticos a priori, sejam explicitadas em termos de “operações intuitivas“. – E assim, toda construção, tanto do sistema categorial, quanto do sistema de princípios do entendimento, se justifica não por uma semântica a priori qualquer… mas, pela semântica “intuicionista”.

Tanto na lógica, quanto na filosofia da ciência, é possível encontrar exemplos de teorias formais a priori, que tratam separadamente de estruturas sintáticas, de domínios de interpretação… e de modos de estabelecer relações entre essas estruturas e domínios.

Falsos problemas insolúveis

Parece-me que a reconstrução adequada da sintaxe kantiana dos juízos sintéticos a priori, dos domínios de dados intuitivos explicitados por Kant – e da sua teoria do esquematismo transcendental e empírico, permite a elaboração de uma interpretação da ‘teoria kantiana‘ segundo esse mesmo padrão. – E a ‘filosofia analítica‘ funciona como um ‘leitmotiv’…pela entrada no modo semântico de ler Kant tendo por ponto de partida a Crítica da razão pura.

Um dos pontos básicos do projeto do neopositivismo é a tese de que todo problema científico bem formulado é solúvel…Se não é solúvel, ele não é     bem formulado…e não é um bom problema.

Por que Kant pergunta como juízos sintéticos a priori são possíveis?… Se for formulada uma pergunta por meio de um juízo desse tipo – que não pode ser nem verdadeiro nem falso, de uma forma determinada… ou sejaque não é um juízo possível, então não há resposta possível. Ora, um problema sem solução é um falso problema.

Daí a tese de que, no essencial, a ‘analítica transcendental’ serve como fundamento da teoria kantiana da solubilidade de problemas da razão pura teórica…e que o problema básico de Kant não é tanto a possibilidade dos ‘juízos sintéticos a priorimas saber se         é possível conhecer certas coisas sobre as quais a “razão pura” necessariamente se faz perguntas, e das quais se ocupa a metafísica tradicional… como saber se posso provar     que Deus existe, se há alma, etc.

O problema que ocupa Kant em 1º lugar, é o de decidir se posso resolver racionalmente as disputas da ‘filosofia tradicional‘, como as da filosofia da história, da moral, enfim…todas as outras disputas nas quais a ‘razão humana’ se vê envolvida. – E o seu diagnóstico é que tradicionalmente essa disputas surgem do mal uso da razão pelos filósofos, os quais antes de tentarem resolver um problema, não se perguntam se este é comprovadamente solúvel.

E como se determina se um problema da razão é solúvel?… – Quando a pergunta é feita por um ‘juízo sintético a priori’ que é possível, que pode     ser determinadamente verdadeiro ou falso.

E essa “ressonância analítica“… – por trás da qual certamente haverá uma ressonância neokantiana; como ela fica diante do ‘nada’; de Heidegger… tão criticado pelos analíticos?

Só para acrescentar mais um ponto sobre a pergunta anterior…Penso que a abordagem kantiana da estrutura do discurso filosófico   e científico ainda está viva, em boa parte da Filosofia da Ciência…e da Ciência do século XX. Só para dar um exemplo, alguém como W. Heisenberg se dizia um “neokantiano“.

A ideia de Kant é que em elaboradas ciências, conceitos são aplicados a ‘objetos empíricos‘, e esses objetos nos são dados pela percepção, ao capturar os ‘modos’ como eles nos afetam.

O que Heisenberg nos diz é que isso é verdadeiro, apenas dentro de certos limites. Quando entramos em contato com objetos, nem sempre nos limitamos a captar esse objeto… – Em determinados níveis da realidade, como os considerados pela física quântica, modificamos inevitavelmente esses objetos. Assim – pelos menos em certos domínios…os conceitos das ciências exatas não se aplicam ao modo como objetos nos afetam – mas como interagimos com eles… É o que sustenta Heisenberg; e faz parte da sua filosofia quântica ‘neokantiana’.

Acrescento que Kuhn também se diz neokantiano. Ele trabalha com conceitos a priori, mas admite que, sob pressões factuais, o a priori       muda com a história. Eu creio que Kant abre a possibilidade de um     diálogo frutífero com o que temos de melhor na filosofia da ciência             do século XX.

Mas, acaba tudo em Teoria da Linguagem?… Não há outra saída?… Filosofia é isso?

Em Kant, a linguagem fala por falar – ela sozinha não diz nada… Ela só diz algo se for amarrada por baixo. Essas amarras são intuições possíveis. Quando se faz um discurso prático, as amarras são outras… Quais?… A exequibilidade. Por exemplo, quando digo:       “A paz perpétua é seu dever, você tem de buscá-la“…a um chefe de Estado, falo de um “dever ser”. Esse “dever ser” precisa ser exequível, senão ele permanece uma ‘quimera’.

Nem tudo é linguagem… – Mas ela é o instrumento da “estruturação” das coisas. Na parte teórica da organização; na parte prática da modificação. 

E quando você fala – com toda razão, desse tecido que dá, por assim dizer, ‘carne e osso’ a essa teoria da linguagem kantiana, eu penso que o pano de fundo dessa relação é o quadro problemático, frustrante do “como se. Por que, afinal de contas, essa carne e osso é algo que o próprio entendimento legislador determina nas ‘intuições puras’… é aquele múltiplo a priori determinado pelo “entendimento legislador”…e, só por isso, pela espécie de ‘dupla face’ das intuições puras – uma face voltada para experiência empírica, outra voltada para experiência possível, é que haveria contato dessa formalidade a priori, com a carne e osso.

Há conceitos que você pode amarrar aos dados empíricos…As categorias você pode. Mas, há conceitos que você não pode interpretar da mesma forma…por exemplo – as ideias da razão… Mesmo não podendo amarrá-las aos objetos, pode-se amarrá-las aos sistemas de conceitos, que por sua vez, podem ser referidos aos objetos. Então, as ideias servem para organizar a casa, para articular as estruturas conceituais. Elas não se referem aos objetos da experiência possível, não há esquemas para elas.

Com o tempo, me dei conta que a mesma abordagem semântica podia ser estendida além do domínio teórico. A partir de 1785, Kant pergunta como é possível um ‘juízo sintético a priori prático’…que é a ‘lei moral’. E sobre a possibilidade dele, a ‘exequibilidade’. Depois, Kant quer saber como são possíveis juízos sintéticos a priori… – do direito…da estética…da história, e da política…que é o direito em execução.

De repente, eu me vi diante da possibilidade de ler a obra de Kant no seu todo, como resposta à pergunta: “Como são possíveis juízos sintéticos a priori em geral?” E essa resposta consiste em explicitar condições de aplicabilidade desses juízos, a domínios efetivamente acessíveis… – Assim, de repente acabei achando um ‘fio condutor’ para interpretar toda obra crítica de Kant, do começo ao fim.

E abre-se assim caminho para uma ética?

Sim, estar com outro é na origem um cuidar. Se estou em relação originária com outro…e ele me solicitar uma ‘necessidade’… – posso dizer: Isto eu não posso fazer, mas eu não posso dizer: “Isso não é comigo”. No mínimo devo tentar entender o que o outro necessita.

Entender – num certo nível… já é participar. Se eu ‘entendo’ o incômodo físico de alguém, não vou simplesmente virar as costas… nem construir uma teoria sobre isso…Entender é articular um sentido do mundo… – no qual é possível afastar o incômodo meu e do outro.

Trata-se aqui de fundamentos de uma ética que não é lei…mas, uma             ética de cuidado e responsabilidade… – Uma ‘ética originária’… que         decorre do sentido essencial de presença e preservação. (texto base)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Um “sentimento cósmico” em Schopenhauer

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