Contigência e Transfinito, segundo Meillassoux

‘Envoltos num fundamento fenomenológico, pautado na inseparabilidade entre mente e mundo, grandes mestres da filosofia; mesmo quando tratam de se afastar do idealismo; não conseguem fugir à finitude essencial que se encerra na discussão sobre a correlação (pensamento/ser), e sua inegável refutação da ideia de absoluto’…

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Quentin Meillassoux, filósofo e professor da Universidade de Paris…tem ganho notoriedade por suas ideias originais inseridas no panorama do “realismo especulativo“… atual movimento filosófico — que representa um “contraponto” às mais atuais influências da ‘filosofia pós-kantiana’.

Aluno de Alain Badiou, Meillassoux propõe uma inclusão da ‘filosofia matemática’ em problemas ontológicos — na tentativa de retirar o ‘privilégio humano’ sobre o real; em uma crítica ao idealismo…com vistas ao realismo, imerso em uma moldura ‘filosófica contemporânea‘… — Em seu livro “Après la Finitude” (2008), Meillassoux elabora um trabalho especulativo em oposição ao correlacionismo“; nome dado pelo próprio autor à abordagem filosófica iniciada com Kant…desenvolvida posteriormente por Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty; e definida pelo autor – como…

“emblemática insuficiência em lidar com vários problemas metafísicos,       com os quais a ‘filosofia contemporânea’… – cada vez mais se depara.”

O modelo “correlacionista”                                                                                                     As condições de verdade do ‘correlacionismo’ são – deve ser experimentável no presente; deve ser universalizável; deve ser experimentável por qualquer um. Portanto, no caso de um evento ‘não-testemunhável’… – conclui-se que tal procedimento – é… “impensável.

Um dos elementos que mais chama a atenção na proposta de Meillassoux é sua ousada leitura da filosofia contemporânea como uma filosofia acanhada diante dos desafios de     seu tempo. O paradigma correlacionista não seria alvo de tão dura crítica, se estivesse   em condições de propor soluções para grandes questões da atualidade… – mas, parece confortável ao apontar a materialidade da correlação “pensamento/ser a cada vez que uma questão sobre o mundo é lançada.

É como se o correlacionismo dissesse repetidamente…“é ingênuo indagar sobre o mundo, pois há que se reconhecer que a cognoscibilidade é definida pelas regras do saber”E, ao fazê-lo, a filosofia se fecha sobre si própria… – em um ambiente seguro… porém limitado. Enquanto isso, a tirar pelas recentes conquistas na física quântica…a ciência avança… até    em questões eminentemente filosóficas — propondo soluções para os limites do universo.

Foi Kant quem instaurou, para a consciência e linguagem; a “correlação como uma abordagem fundamentalmente crítica. – Até então, o ‘problema do ser’ tratava-se do problema da substância…era pré-crítico, mas a partir daí, torna-se um “problema de correlação”, o que afasta de certo modo o interesse pelo que está fora dela…Contudo, paradoxalmente…a “abordagem correlacionista” consegue se aproximar ao externo,        na medida em que estar consciente é consciente de algo; falar é falar de algo; ou seja: conhecer…é conhecer algo.

O foco do “correlacionismo está no modo como um A se aproxima de um B… – mesmo que esse B seja essencialmente inacessível…  A questão não mais diz respeito ao “acessar algo”, mas sim ao “como” se pode acessar esse algo – tendo em vista que essa relação é o que permite qualquer mudança de “estado cognitivo”. – A partir daí…Meillassoux indica um problema ao ‘correlacionismo’ – que se exemplifica na questão da ‘ancestralidade‘.  Assim como os fósseis indicam a existência de matéria primitiva (ancestral) como uma realidade anterior à percepção humana… – a “questão filosófica” da ancestralidade… se identifica na questão: Sob quais condições abordagens de ancestralidade são relevantes?

Para Meillassoux, só há 2 possíveis…a ‘transcendental’ (Kant);                        e, uma abordagem ‘especulativa’ (seja ‘metafísica’… – ou não).

Do ponto de vista ‘correlacionista transcendental, o real ancestral é resultado de um evento atual que   se refere…a um ‘passado virtual.

Mas – para Meillassoux…ao se referir a um passado virtual, anterior à ‘mente humana‘ – o “correlacionismo entra em contradição – com seu próprio ‘princípio correlacionista‘.

De um ponto de vista estritamente correlacionista, tudo o que se pode dizer – uma vez que ninguém estava lá, se resume ao que dizem os dados matemáticos – de modo que…o real é construído pela mediação de dados atuais. — Nesse sentido… o que se faz é uma afirmação atual (“presente”) a cerca de um concernente real…ausente (“passado”)…Mas, o ausente desprovido de pensamento é justamente o que o correlacionismo não pode… por princípio, admitir. – Logo, da ‘perspectiva correlacionista‘…a interpretação da afirmação ancestral é inadmissível, e o papel do filósofo – nesse caso – consiste apenas em adicionar um tipo de conhecimento…que impõe uma correlação mínima na afirmação científica (…algo como – ‘não há meios de assegurar a materialidade do real, que está além da correlação possível’).

O objetivo da empresa de Meillassoux é justamente questionar o que a filosofia moderna tem nos dito nos 2 últimos séculos…que há uma ‘impossibilidade real‘ em sair de si para tocar a coisa em si (para saber o que há – quer quando somos… quer quando não somos). 

Kant e a filosofia transcendental                                                                                        “A virtude do transcendentalismo está na desconstrução de um realismo ilusório, e na sua habilidade em torná-lo impressionante e problemático: verdadeiro e impensável”.

A filosofia transcendental insiste que a condição da ciência consiste em revogar todo o ‘conhecimento não-correlacional’ … taxando o realismo como aparente, derivado, ingênuo, natural. Pela ‘revolução crítica’ de Kant…os objetos se conformam ao nosso conhecimento, promovendo a morte da metafísica, em nome da ciência; e aqui há uma falha fundamental, foi ignorado o aspecto mais revolucionário do saber científico…seu caráter “especulativo“.  Daí então, surge o “paradoxo transcendentalista”, na medida em que se enxerga uma coisa fora da correlação – sem a possibilidade de atingi-la. É como se o pensamento fosse capaz de ultrapassar seus próprios limites – mas, ao mesmo tempo…devesse se restringir ao que lhe foi dado, não indo além…(O que permanece ‘obscuro’… — é o porquê dessa limitação.)

O filósofo dos dias de hoje evita indagar a respeito do real. Isto porque sua comunicação, e o tempo em si, apenas têm sentidona medida em que forem fenômenos do tipo “sempre-agora”… (pressuposto na relação humana com o mundo)…e, nesse sentido… – o mundo só teria sentido se fosse pensável. – Contudo…nesse particular, a questão da ‘ancestralidade’ permanece incompleta… – Como conceber um tempo em que o sujeito, como tal, passa de um estado de não-ser para o ser?…Ou ainda, como a ‘anterioridade do ser’ pode se revelar (para a correlação)?…Nesse sentido, uma reformulação especulativa do problema de Kant pode ser exposta em 2 indagações para a questão…como a matematização da ciência da natureza é possível?”. 1ª) o que é matematicamente concebível é absolutamente possível?  2ª) as leis da natureza derivam sua estabilidade…de uma propriedade temporal ‘absoluta’ (indiferente à nossa existência)?

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Uma “contingência absoluta”!?

A partir dessa questão…Meillassoux desenvolve o 2º argumento — sob a sombra de um problema metafísico, supostamente… superado por Kant, através da ‘especulação‘. O autor defende a ideia, que se deve buscar um absoluto … algo que independa de nossa consciência…uma vez que só assim…se pode “dar conta” – da  …”questão da ancestralidade“.

A tarefa consiste, portanto… em tentar entender como pode o pensamento ser capaz de acessar o ‘incorrelato’…quer dizer, um mundo capaz de subsistir sem ter sido percebido. Mas, isto significa dizer…’apenas‘… que devemos entender como o pensamento é capaz     de acessar um absoluto, cuja atividade de independência seja tal… que se apresente a si mesmo como não relativo a nós – mas, ainda assim capaz de existir… existamos ou não.  Para Kant…“a coisa em si é incognoscível, apesar de pensável”… Mas, como mesmo não conhecendo o absoluto…posso pensá-lo… por isso, a coisa em si deve existir… Portanto, mesmo em Kant a coisa em si é ‘não contraditória‘, em sua ‘existência autônoma.

“O espaço não é um conceito empírico – retirado de experiências externas – nem pode ser visto como um conceito discursivo da relação das coisas em geral…ao contrário, é uma representação necessária a priori, que serve de fundamento às demais intuições.   Ele é uma ‘intuição pura‘ – sobre a qual se funda a certeza evidente e necessária de todos princípios geométricos; e, a possibilidade sintética de sua própria construção.”  (Immanuel Kant – ‘Crítica da Razão Pura’)

Partindo dessa ideia… Meillassoux acrescenta que, no trato da ‘questão da origem‘ (por que existe algo…ao invés do nada?…) é necessário ter-se uma abordagem oposta ao princípio da razão suficiente… – Ao “estilo cartesiano”… o autor busca então, estabelecer a existência de um “absoluto primário“…para em seguida, derivar daí o seu…’alcance absoluto‘…Mas, para seguir nessa direção…sem o risco de um retorno à ‘metafísica ingênua‘…é preciso que aquela “visão absolutista“…fique no passado.

Para Meillassoux, deve-se buscar a necessidade absoluta sem se recorrer a algo absolutamente necessário. – Deve-se buscar um ‘absoluto’…sem a ajuda de uma ‘entidade absoluta’. – Assim… o ‘pensamento especulativo’, que almeja a “forma do absoluto” … não se confunde com o ‘pensamento metafísico’… o qual… – “dogmaticamente”… –  almeja o…”ente absoluto”.

Da abordagem metafísica apenas é útil a tese de que existe algo, mesmo quando não há ‘pensamento consciente’ em sua direção… Nesse sentido, Meillassoux defende a tese de que há uma ‘contingência absoluta’. Dito de outro modo, a renúncia contemporânea do absoluto, corresponde a uma primazia da correlação. – Se o correlacionismo insiste na materialidade das formas relacionais, tal materialidade evidencia a nossa incapacidade      de “falar do impossível“. Encontrar essa incapacidade é marcar uma ausência de razão    dos fatos e suas invariâncias. E a partir daí o que Meillassoux defende é a possibilidade      de que todas as hipóteses para a ‘coisa em si’ também permaneçam igualmente válidas.

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A Contingência e o ‘Princípio Surreal’      Afirmar a impossibilidade real do impensável          seria como demarcar, “dogmaticamente”, um            terreno particular para se erigir uma filosofia.

Para dialogar com o correlacionismo Meillassoux elabora um método bastante fiel à sua proposta…        o “cogito correlacionista“…método para acessar o    absoluto – através de uma “função de correlaçãoentre pensamento e ser … extraindo daí verdades especulativas…por um “consenso intersubjetivo”. Para isso — Meillassoux assume 3 ideias básicas:

  • se o “ancestral” é pensável… – então um ‘absoluto’ deve ser pensável também;
  • o ‘absoluto’ que se procura não pode ser dogmático…(desqualificando-se todo                 argumento que pretenda estabelecer a absoluta necessidade de uma entidade)
  • deve-se superar o círculo correlacionista (segundo o qual, pensar um absoluto                 é pensar um absoluto para nós… e, portanto… – não é pensar absoluto algum)

O “correlacionismo”… enfatizando apenas a “materialidade da correlação” entre ‘pensamento & ser’, nos diz que, não havendo outra condição possível, podemos          apenas acessar o ‘para nós‘…nunca oem si‘. O problema que Meillassoux então              nos coloca… é que o impensável apenas sugere a nossa efêmera incapacidade de          pensar de outro modo…mas não significando uma absoluta impossibilidade das          coisas serem de forma diferente… Desse modo, tal ‘materialidade da correlação’,        colocada de volta às coisas mesmas (o que…erroneamente, tomamos como uma incapacidade do pensamento)… pode revelar-se como “conhecimento absoluto”.

Deixar de ser…é uma possibilidade absoluta (‘ontológica’). Não posso                                pensar que a morte dependa do meu pensamento. Isso seria o mesmo                                que dizer… que só posso morrer depois que eu pensar a morte. – Mas,                                minha morte não precisa do… – “meu pensamento” – para acontecer.

A ‘falta de razão’ revela uma propriedade do ‘ente’ – uma limitação sua... e, representa do absoluto, no máximo…uma ausência de lei. – Isto é…a ‘materialidade’ é uma propriedade real…pela qual tudo é desprovido de razão… Neste sentido, diz Meillassoux, o ‘surreal‘ é uma propriedade ontológica fundamental. Para o autor…a materialidade não se associa à necessidade da mesma forma que com a contingência. Esta é absoluta, a necessidade não.

Há aqui uma absolutização da capacidade de se tornar outro. A própria diferença entre o “em si” e o “para nós” mostra um absoluto, pois algo sem razão não pode ser atribuído ao pensamento. – Meillassoux, porém… recoloca o conceito de absoluto como um problema filosófico… – e propõe uma abordagem especulativa (não metafísica) para dar conta dele.    Desse modo, ele declara a verdade absoluta do “princípio surreal“…“Não há qualquer razão para algo ser do jeito que é”…que caracteriza um princípio, dito absoluto, mas sem qualquer “entidade absoluta” (absoluta seria a impossibilidade da necessidade de ser)

A contingência necessária                                                                                                        ‘Nós somos efêmeros, mas o absoluto, como possibilidade, é uma contingência perene. Ele não é razão – mas, ao contrário…uma necessária possibilidade de representação’.

Parece absurdo manter-se que, não apenas as coisas, mas também as leis da física sejam realmente contingentes, uma vez que… se esse fosse o caso – teríamos que admitir…que tais leis poderiam de fato mudar a qualquer momento…sem qualquer razão. – Podemos,   no entanto, confirmar que as leis da natureza poderiam mudar; não só em concordância com alguma “lei superior” escondida… – mas…sem qualquer causa – ou razão aparente.
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Apesar de improvável, nosso universo se estabiliza como resultado de um nº gigantesco de ‘emergências caóticas’… E, em tal argumento, o próprio acaso pode ser mensurado matematicamente – podendo evoluir, para se tornar um ‘princípio de lei física’ (caótica). – Porém…a questão essencial ainda não foi explicada. Qual condição à manifesta estabilidade do caos?

Hume havia detetado uma falácia no princípio da razão suficiente, tendo denunciado    que tal princípio não era absoluto… Kant, por sua vez, se propôs a esclarecer o engano      da objetividade de um conhecimento matemático da natureza…pela inútil tentativa de    dar à física uma ‘fundamentação metafísica’, e com a renúncia a todo absoluto teórico. Dada a proposta de repensar o problema da “contingência“… Meillassoux relembra então…a questão de Hume — a respeito da “continuidade da regularidade do mundo”:

“A partir das mesmas causas, pode-se esperar os mesmos efeitos?” … ou; “qual nosso êxito em demonstrar a necessidade de uma conexão causal?”

O problema da causalidade (em Hume) vale tanto para as leis determinísticas quanto para as probabilísticas…e a questão ressurge, num caráter ainda mais absoluto – O que garante que as leis da física, como tais, continuarão valendo no futuro?…ou, melhor dizendo… – O  verdadeiro problema de Hume…não é sobre a validade futura de nossas teorias – mas sim, sobre a estabilidade futura da natureza, em si mesma. Nesse ponto, o problema ultrapassa o alcance da física, cujas condições são validadas…pela incessante repetição experimental.

A questão aqui, não diz respeito aos experimentos, e sim às condições de recorrência, e poderia ser colocada do seguinte modo…Podemos provar  que a ciência experimental, possível hoje, será possível amanhã?…Para essa questão há 3 respostas: a ‘metafísica’a ‘cética’, a ‘transcendental’.

A abordagem metafísica pretende dar conta do problema…invocando a existência de um ‘princípio supremo‘ que governa o mundo, garantido pela eternidade de uma perfeição divina. Por outro lado a proposta cética (de Hume) diz respeito a uma dupla articulação entre a ideia de ‘não-contradição’, e a ideia de ‘hábito’…como um modo de fixar crenças, e como uma tendência humana ‘não racional‘…de atribuir algumanecessidade”…às leis. 

Já a resposta transcendental (kantiana)…baseia-se na materialidade da ‘representação’, para declarar que a “necessidade causal“…é uma condição necessária para a existência de uma “consciência“. – É assim como se Kant dissesse a HumeVocê não pode me pedir para provar a existência de leis naturais e causalidades – quando o que estou fazendo é, justamente, partir do pressuposto que… causalidades são postulados, para as regras do entendimento serem… – da forma que são… – de modo a me permitir conhecer tais leis”.

Nem a resposta metafísica, nem a cética, nem a transcendental, coloca em dúvida a ‘necessidade causal’. Se bem que o ceticismo chega à ideia de que   a razão é incapaz de firmar nossa crença na necessidade (assumida real).

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Meillassoux tentou mostrar que o ceticismo agnóstico daqueles que duvidam da realidade da causa e efeito, deve ser transformado numa certeza radical de que não existe tal necessidade causal. Isto o leva a proclamar que é imprescindível que as leis da natureza sejam contingentes. (Wikipédia)

Mas, essa descrença na garantia de apreensão da necessidade não chega, de todo modo…a negá-la. A impossibilidade de se conhecer a ‘necessidade’ pelo ‘raciocínio’…diz respeito apenas aos limites da razão — e da nossa tendência em substituir o ‘juízo racional’ por um ‘juízo sensível’ … quando a estabilidade aparente do “mundo físico”… nos incentiva a acreditar nos hábitos e experiências, que se acumularam ao longo do ‘tempo de vida’.

Nesse sentido o ponto de vista cético acaba por se mostrar o mais paradoxal… pois, ao mesmo tempo em que admite uma insuficiência no princípio da razão…para com suas “pretensões ontológicas” … – ainda assim … acredita numa necessidade real (sem qualquer razão para tal).

Todavia…se a necessidade de uma “conexão causal” entre eventos não pode ser validada,   tal conexão é simplesmente desprovida de necessidade. Assim, a questão não mais deve ser…‘como explicar a suposta necessidade das leis’… mas… ‘como explicar a estabilidade manifesta das leis…as tendo tomamos como contingentes’… – Para isso…podemos dizer que tanto Kant quanto Hume acreditam na ‘necessidade causal‘…pois a contingência implicaria na transformação constante da realidade… A necessidade está assim provada, dada a imensamente improvável estabilidade das leis da natureza – e…do mesmo modo,    à inconcebível consciência de um sujeito capaz de observar cientificamente sua duração.

Se o absoluto é a pura ausência de necessidade…então o princípio da razão suficiente é equivocado. E não havendo razão alguma para a existência ser como é, com tudo podendo vir a ser de outro modo… – sem qualquer razão aparente… – então, nesse caso, a única necessidade – é a da ‘contingência’.

Acasocontingênciae a matematização da natureza                                             A possibilidade de diferentes infinitos (uns maiores que outros)                                            pode ser um fator de distinção … entre contingência e acaso                                 

La esencia de las matemáticas es sus libertad. Georg CantorO acaso…no sentido de sorte, jogo, chance… – diz respeito a um “raciocínio probabilístico” passível de ‘matematização’… por… “técnicas de contagem”.  Para este raciocínio ser válido – a priori – deve ser pensável em termos de uma ‘totalidade numérica’… E, deste modo…o conceito de acaso…se aplica à uma… “lógica probabilística”.

Mas, se ao contrário, não há motivos para associar o “concebível” ao “totalizável”, então há espaço para um “princípio de variação“…não quantificável… – Aí…nesse caso, o    termo contingência diz respeito a algo que simplesmente acontece…sem causa nem previsibilidade possíveis (se opõe ao jogo no qual tudo, mesmo o improvável é previsto).    O ‘contingente’ continua matemático…mas, mais próximo do conceito de ‘transfinito‘, sendo, deste modo…incalculável e imprevisível (…assim como “flutuações de vácuo”!…)   

Desde Heisenberg é certo que a presença do observador afeta o observado… Porém — essa proposição é vista pelos próprios cientistas como uma propriedade de lei que não depende dele (observador). – Aqui, o importante não é o caráter realista da ciência, mas o processo que distingue a realidade do nosso próprio ser…o processo de matematização da natureza.  Através dele, segundo Descartes, podemos separar… mundo e homem  descentralizando o pensamento antropocêntrico…no processo de conhecimento (Kant)…O que a ‘revolução copernicana‘ nos permitiu concluir, conforme Meillassoux… foi uma ‘revelação paradoxal’ da capacidade do pensamento… – em supor o que ‘‘… – quer o mesmo exista… ou não.

A matemática atinge a qualidade primária das coisas… em oposição às qualidades secundárias, manifestas na percepção. Desse modo, tudo o que for ‘matematizável’            é absolutamente possível…isto é, pode continuar existindo… – independente do ser,        pois um “absoluto” – não pode ser reduzido a um “mero correlato” do pensamento.

Transfinito & Diacronicidade                                                                                                  ‘O abandono da concepção do em si…e do cosmos – acompanhado de uma sensação de desamparo, não teve outra causa senão o reconhecimento que o pensamento se tornou capaz de pensar uma representação de mundo…que carrega o pensamento…a revelia’.    

Meillasoux retoma o argumento arquétipo (ancestral) e sua discrepância temporal entre pensamento e ser. A questão inicial era: “como a ciência é capaz de criar tal discrepância?” e agora passa a ser… “como pode a ciência ser capaz de se utilizar … dessa aleatoriedade?

infinitoPara entender melhor essa ideia, o texto de Meillassoux…faz menção ao conceito de transfinito – apresentado por Cantor como uma…“destotalização do número”.

Considerando que o conjunto das partes de A é sempre maior que A – o conjunto das partes…do conjunto das partes de A será ainda maior. O conceito de ‘Aleph‘ diz respeito à “cardinalidade desses conjuntos…onde sua sucessão ilimitada, ordenada por Alephs, se aproxima do conceito de “transfinito“.

Tal série não pode ser totalizada, pois não há quantidade última para ela… sendo portanto, uma “série infinita“…Daí resulta a conclusão de que o que é quantificável (pensável) não constitui uma totalidade… Ou seja, a totalidade (quantificável) do pensável…é impensável.  Há assim uma incerteza fundamental na ideia totalizadora do possível…“as possibilidades não são totalizáveis” – isto é…continuam abertas…já que não chegam a um fim.

É errado, pois… estender o ‘raciocínio aleatório’,                                                    para além da totalidade dada numa experiência.

A solução correlacionista para a diacronicidade é apenas e tão somente, apelar para a reintrodução do passado no pensamento presente. A ciência por sua vez, trabalha com a ideia de temporalidade (causal)… pela qual o que vem antes, vem antes… e vem antes de nós. Esse formidável paradoxo da manifestação/anterioridade diacrônica – nos permite restabelecer a possibilidade…de uma realidade…fora da correlação pensamento/mundo.

Para Meillassoux… as consequências do “correlacionismo” são nefastas para a filosofia      de um modo geral, pois a torna tão limitada que a impede de contribuir objetivamente, tornando impossível atribuir-lhe a tarefa de saber como uma afirmação é possível…em    seu significado último. – Aí então, podemos caracterizar a solução de Meillassoux para        o problema de Hume, e para o problema da ‘diacronicidade‘ como – a) uma solução especulativa, anti-metafísica para o problema geral da ‘necessidade‘; b) uma solução especulativa para o problema da ‘diacronicidade‘, sem perder seu caráter copernicano.

cavernaO pensamento de Meillassoux visa resolver um mal-estar da “filosofia contemporânea”, ao se esquivar do ‘absoluto’…Propondo solução para tal dilema…arrisca novo mergulho no cerne da metafísica…buscando conceitos como… o real… o ser… e uma correlação casual factual que possa questionar o “problemático” ponto de vista… – de um absoluto cada vez mais distante, do inibido escopo… da “filosofia atual”.

Ao resgatar a questão de Hume (da a origem da crença na necessidade)  e, somando uma visão matemática sobre o conceito de “transfinito“…o autor enfatiza a diferença semântica entre “contingência e “acaso“, com o firme propósito de manter    a “finalidade aleatória” da “pura possibilidade cerne da ideia decontingência.

E é esse conceito de contingência (reavaliado por Meillassoux) o responsável por conciliar a materialidade da ‘correlação’, com uma falha na inevitável ‘necessidade’, de modo a não ser mais preciso crer cegamente nesta sina, como o fez toda filosofia, desde Hume e Kant. Tais ideias – bem como suas consequências…podem e devem ser confrontadas com as do ‘correlacionismo‘, de modo que, seja possível esclarecer se há, de fato, uma incapacidade deste último… em lidar com o problema da ‘ancestralidade’… – como o autor faz parecer.

O problema final de Meillassoux, a saber…o problema da ‘diacronia‘, ressalta a fraqueza tanto da metafísica, quanto do ceticismo… e, do próprio ‘transcendentalismo‘…em questionar o ‘necessário’. Mas a ‘contingência absoluta’ é uma ideia que resolve a questão da diacronia, divisando uma solução satisfatória e oposta ao ‘pensamento correlacionista’.

Se o ‘sistema correlacionista‘ sempre resulta para o autor num ‘idealismo tímido‘… o ‘sistema especulativo’, centrado na contingência, é uma tentativa de resposta à altura       do correlacionismo. Com efeito, a solução de Meillassoux permite um retorno ao real,     que na sua acepção – tem características de um absoluto…’transfinito’ e ‘contingente’.  ‘Contingência e transfinito em Quentin Meillassoux’ (Tarcísio de Sá Cardoso)  *************************(texto complementar)**********************************

Reflexões sobre 3 temas em Quentin Meillassoux (Tarcísio Cardoso)

1) Contingência. A ideia de hipercaos pressupõe a de contingência, entendida por Meillassoux como tudo que acontece sem ser regido pela “causalidade determinística”,  por uma regra, lei, ou necessidade…’Contingência’ se aproxima da pura possibilidade desprovida de razão…qualidade que sequer pode ser apreendida probabilisticamente.

https://es.wikipedia.org/wiki/N%C3%BAmero_ordinal_(teor%C3%ADa_de_conjuntos)

2) Transfinito                                                      Cantor provou que os “números racionais” não podem ser pareados com os números naturais; sendo assim… um infinito é maior que o outro.

O conceito de ‘transfinito’…tomado da teoria dos conjuntos de George Cantor… – é utilizado como metáfora para expressar o contingente hipercaos que surge no conceito de “factualidade“…Em sua teoria…”transfinito“…diz respeito a uma prova matemática contra-intuitiva de cardinalidade de conjuntos infinitos. –  Na teoria dos conjuntos, o infinito aparece no conjunto dos nºs naturais –    dos nºs inteiros – dos racionais, etc. – mas, nem sempre infinitos têm o mesmo tamanho.

Na teoria de Meillassoux, a ideia de transfinito é aludida como conotando uma capacidade de coexistência, não intuitiva, entre a estabilidade do cosmo e a sua contingência essencial. Estabelecer a relação entre contingência e estabilidade é importante… pois o próprio autor sugere (no texto abaixo) que haja uma tendência natural a rejeitar a ideia de ‘factualidade’.

Como postular a existência de um ‘Universo caótico‘, em que suas aparências são fortemente regidas por leis, padrões, regularidades?           E… – se for caótico…por que os eventos não variam o tempo inteiro?

A resposta de Meillassoux é, ao mesmo tempo ousada e sugestiva… o universo parece todo regido por leis, porque a regularidade está sendo colocada em primeiro plano…Mas, estes eventos podem deixar de ser regulares sem razão alguma. Assim como Hume, Meillassoux diria que não há garantia de que amanhã as leis de hoje continuem válidas.

Hume já havia provado que não há possibilidade de se demonstrar anecessidade’, mas Meillassoux vai além ao sugerir que não haja qualquer necessidade — excluindo-se a da contingência. E além disso, sendo a escala de tempo da existência essencialmente finita;     a experiência regular local é insignificante – ao transfinito…na contingência primordial.

3) Absoluto

A ideia de absoluto – para Meillassoux, tem íntima relação com o objetivo de acessar um mundo não-correlacional. Além disso, o tema do absoluto (central na sua filosofia) serve de base para denunciar a timidez da ‘filosofia correlacionista’…Para o autor, este sistema  nem sempre nega a existência do absoluto (vide Kant) mas tira-lhe a devida importância, demovendo da filosofia o ‘risco’ de alcançá-lo.

O correlacionismo estabelece um limite para suas indagações e descredita a tentativa de indagar sobre o que vai além — taxando-a de ingênua… Essa abordagem é fácil, mas não contribui para capacitar a filosofia a elaborar teorias a respeito de temas – que a própria ciência cada vez mais tangencia… – haja vista recentes estudos em ‘sistemas complexos’, ‘física subatômica’…’redes neurais’…etc.

Por um viés anticorrelacionista, Meillassoux propõe a volta ao ‘absoluto’… como algo que está além da correlação… e especula sobre um universo fundamentalmente contingencial, imensuravelmente maior do que nossa mente. Tal noção de absoluto parece deixar claro que o ‘deslocamento antifenomenológico’ do autor…pretende colocar o cerne da filosofia não mais na correlação ‘mente-mundo’ – mas, incluir a ‘especulação’… método capaz de versar sobre um mundo liberto de todo e qualquer domínio mental, mas talvez… apenas acessível…intuitivamente – por meio de algum “materialismo especulativo”. (texto base)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Contigência e Transfinito, segundo Meillassoux

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