A ‘transcendência imanente’ em Nietzsche

“Princípio do amor ao próximo”… — “Ajuda-te a ti mesmo…                             assim todos te ajudarão” (Nietzsche, ‘Crepúsculo dos Ídolos’)

luaNão existe, obviamente, um conceito único de ‘transcendente’…A palavra tem sido usada em vários sentidos, porém… sempre significando, literalmente…”o que é…ou vai além“.

Na  filosofia medieval, chamavam-se ‘conceitos transcendentais’ aos mais universais — ou seja, àqueles além … das diferenças entre categorias.

Já na idade moderna, designa o ‘supra-sensível’… — além do ‘espaçotemporal’.

Se acreditarmos que o homem tem uma relação essencial com algo supra-sensível, tal como nas ideias de Platão… – ou um Deus… para além do espaçotempo; então, a poderíamos chamar de… ‘relação transcendental.

Hoje, duvidamos do ‘transcendente‘… — muitos não acreditam ter alguma relação com algo transcendente…uma região divina, ou ‘extramundana’. Muitos falam do metafísico neste mesmo sentido, e quando dizem que a metafísica acabou querem dizer que a crença numa coisa transcendente não mais se pode justificar. Porém, o transcendente tem em 1ª  instância um sentido ontológico, quer dizer, refere-se a um tipo de ente, mas também pode-se dizer que este uso tem um sentido antropológico.

Na verdade somos uma ‘espécie animal’, mas isto não significa que não haja nada que nos distinga dos outros animais… – Existe, mas o traço distintivo tem que se entender de uma maneira natural. Ele tem que ter surgido por meio da evolução, da mesma maneira que as outras características surgiram. Esta postura é chamada de “naturalismo”.

Nietzsche foi um dos filósofos mais importantes, entre os que propuseram a doutrina naturalista – criticando, por consequência, o ‘transcendentalismo‘. Segundo ele, já não temos boas razões, nem bons motivos para acreditar em Deus…Num célebre aforismo, descrito na ‘Gaia Ciência’… Nietzsche designa este fato comoa morte de Deus’.

Aliás, Nietzsche se distingue de outros naturalistas, pelo fato de ter levado muito a sério a característica humana de transcender para algo… E, com efeito – para a vontade humana parece ser necessário que ‘todo querer’ seja entendido em relação a um ‘sentido de vida’.

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A ‘transcendência imanente’…  ‘Ao invés de obedecer aos valores dados, o homem cria seus próprios valores’.

O sentido da vida consistia precisamente, na relação com o ‘transcendente sobrenatural’… ou seja, com Deus…Nietzsche afirma, porém, que já não podemos manter esta crença, pois nossa vontade mergulha primeiro num vazio. E – a isto, Nietzsche denomina…’niilismo’… ‘Antes de nada querer a vontade quer o nada‘. 

Para ele, o conceito do transcender humano – do ir além, adquire um sentido mais amplo. O conceito básico agora é — o de estar dirigido a um sentido de vida e, o fato deste sentido consistir em algo supra-sensível é – somente, um conteúdo entre outros (um mero detalhe).

Nietzsche, por isso, viu sua tarefa numa reavaliação dos valores, segundo a qual os homens considerariam o sentido da vida na própria vida. Isso significa que a transcendência para o caso, voltar-se-ia para o interior do próprio ser humano… Poder-se-ia, então, falar de uma ‘transcendência imanente‘…quer dizer, de um ir além que, precisamente não seria um ir a algo além do natural… mas – um ir além do ‘ser do homem

Segundo Nietzsche… — se os valores da vida não nos são dados                       por Deus…então teriam que ser criados pelos próprios homens.

A ideia de ‘criação’ é central em Nietzsche…mas como entendê-la? Uma possibilidade aqui é a arte…Pode até soar muito convincente que a arte é o que dá sentido à vida… Nietzsche acreditava porém…que os valores morais – se não vindos da religião – devem ser vistos como fundamentados no estético… – No entanto…isto deveria ter uma base mais sólida.

Como devemos redefinir a vontade humana – se devemos entendê-la como sendo a base, tanto da moral como do estético?…Sua resposta foi…o ser do homem (… e, não só do homem…mas de todo ser vivo) tem que se entender como ‘vontade de poder‘.

Com este conceito  —  ‘vontade de poder’  —  Nietzsche acreditou responder todas as perguntas que lhe teriam ficado abertas… Por um lado, acreditou poder interpretar toda arte como expressão do poder – por outro, o egoísmo seria a motivação básica de toda atividade do homem… inclusive, das atitudes morais.

Além disso – e, isso… para Nietzsche, era o aspecto central – a ideia de vontade de poder podia cumprir com o requisito de transcendência dentro da imanência. A vontade de poder seria entendida como uma fonte de ação que – por si mesma, pressiona a um ir além – o que daria sentido à vida.

Dessa forma, Nietzsche pensava afinal, ter encontrado a estrutura, não só do homem; mas, de todo ser vivo; e ainda de todo ser natural. Mas há, obviamente, uma série de objeções… O problema mais grave é que Nietzsche nunca esclareceu, rigorosamente, sobre como se deve entender a palavra “poder“…

Assim como ele a usa, misturam-se 2 sentidos. A princípio, significa ter poder sobre a vontade dos outros. Porém, Nietzsche também entende a palavra num sentido de força e potência – de capacidade.

Antropologia filosófica                                                                                                              Somente com a palavra poder entendida no sentido de capacidade, é que Nietzsche é capaz de interpretar criação e arte como manifestação de uma ‘vontade de poder’.

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Naturalmente, o uso da palavra  “força” pode ter uma multiplicidade de sentidos. Pode…por exemplo, ter sentido de força física como poder dominador — apesar de Nietzsche também a usar no sentido de domínio de si mesmo.

Não obstante, ainda que admitíssemos que a motivação de toda ‘ação humana’ fosse egoísta…não parece plausível que     a meta de todo egoísmo seja o domínio   do outro… É isso que se pode contestar também contra a ideia de que … toda a ‘atividade biológica‘ visa a dominação.

Como os outros animais, evidentemente, não se relacionam com o problema do sentido da vida, não parece que com a tese de que…‘a vontade de poder é essencial para o conceito de vida, Nietzsche tivesse encontrado resposta à questão de como entender o biológico, em geral; nem como entender o especificamente humano – e, em particular, aquele traço de ‘transcendência imanente’.

Assim, Nietzsche perde o fio condutor que tinha sido a pergunta pelo ‘ir além’, e pelo ‘sentido da vida‘ – pois, afinal…o que é essencial no ser do homem é uma pergunta a ser tratada pela ‘antropologia filosófica‘.

Esta, por sua vez, distingue-se da antropologia…enquanto etnologia (estudo de diferentes culturas humanas); sendo usada para designar o que é que distingue o homem…em geral, de outros animais. – O fato de que hoje pouco se conheça sobre essa disciplina entretanto, só pode ser explicado historicamente.

Com efeito, apesar de toda filosofia, a partir de Platão, ter como núcleo a pergunta pelo modo como devemos entender a nós próprios — ou seja…”o que é o homem?“… – na filosofia tradicional, a orientação para o “supra-sensível” fez com que se considerasse a metafísica como a disciplina primária da filosofia.

No entanto, o que Nietzsche fazia, não era outra coisa senão antropologia filosófica.         Além disso, um pouco mais tarde, nos anos 20 (século XX), formou-se na Alemanha       uma corrente denominada ‘antropologia filosófica’, cujos principais representantes       foram Scheler, Plessner, e também Heidegger.

Pode-se dizer, então, que a antropologia filosófica é a herdeira da metafísica, e, portanto, deveria ser considerada a filosofia primitiva de hoje. Foi por esta razão que se estabeleceu tal disciplina na primeira metade do século passado. Mas, então, por que desapareceu?…

Na Alemanha, o seu desaparecimento se deve à excêntrica filosofia de Heidegger, onde a pergunta pelo ser, supostamente, substituiu a pergunta pelo homem. Por outro lado, nos países anglo-saxônicos, a antropologia filosófica nunca chegou a estabelecer-se – porque ali, a filosofia se compartimentou em disciplinas tradicionais, como a  ‘teoria da ação’, ‘teoria da mente’, etc.

Nietzsche

O desafio de Nietzsche… ‘O ideal… não é que o indivíduo imponha-se ao resto do mundo; mas sim … — o encontro de um equilíbrio entre sujeito e objeto.’ 

Talvez Nietzsche tivesse razão ao afirmar que quando prescindimos do sobrenatural…temos que continuar entendendo o ser do homem como indo além — ou seja — como transcendental… Mas, Nietzsche poderia estar equivocado quando entendeu esta ‘transcendência imanente como vontade de poder.

A tarefa consistia então, em retomar a problemática da antropologia filosófica, e repensá-la…dando ênfase – precisamente – à questão da ‘transcendência imanente’.

No início do século XX – efetivamente – já havia surgido um novo sentido para a palavra “transcendência” na teoria do conhecimento. O problema parecia ser…como o sujeito sai de si mesmo, e chega ao conhecimento dos objetos da realidade?…Esta relação do sujeito com objeto foi chamada por alguns epistemólogos alemães da época de “transcendência” – o sujeito transcende a um objeto.

Heidegger, porém, indicou – como Husserl já tinha feito – que isso era um falso problema. O sujeito não existe primeiro dentro de si, e depois sai para o exterior; mas, sempre já está em relação com objetos… ‘intencionalmente’ – como expressava Husserl. Contudo, apesar de rechaçar este falso ‘problema epistemológico‘…Heidegger não consegue se livrar dessa terminologia, totalmente…Mantém a expressão ‘transcendência‘ para a intencionalidade, numa relação do ser humano com entes.

Ocorre porém, que este conceito de ‘transcendência imanente’ não representaria uma alternativa à concepção de Nietzsche… O equívoco na antropologia de Heidegger – na verdade – se deve ao fato deste repudiar certos indispensáveis ‘conceitos tradicionais’. Segundo ele, o que os gregos tinham chamado de lógosa ‘oração proposicional’, e junto com ela a racionalidade — seria algo derivado…não primordial.

Hoje em dia, pode-se considerar que Scheler e Plessner empreenderam um caminho mais produtivo…apesar de nunca terem chegado muito longe nos detalhes…Entre si se indagavam, — como distinguir uma consciência humana, da dos outros animais?… Qual essa característica humana?

E a resposta era que…enquanto que um animal encontra-se no seu meio ambiente, e reage a ele; no homem tem lugar uma ‘objetivação‘ — ele objetifica o meio ambiente relacionando-se com as coisas como objetos; e assim também, objetifica-se a si próprio.

Este pensamento está em evidente contraste com o de Nietzsche…e, de outra maneira, também com o de Heidegger… — O contraste em relação ao pensamento de Nietzsche         deve-se ao fato de que este entende seu ‘naturalismo’ de uma maneira que a diferença   com os outros animais pareça secundária – o homem é movido pelo instinto de poder, tanto quanto os outros animais.

Em relação ao pensamento de Heidegger, porque este negou-se a entender o homem como um animal, e – não aprovando assim, o método de explicá-lo comparativamente… recusou o conceito de ‘objeto’.

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‘pyramid technology’ (by maspix)

A linguagem transcendental  Que consequências pode ter então, a ‘objetificação‘ de Scheler e Plessner?

Em relação a Plessner, 2 aspectos são observados… em 1º)…o fato de que o homem… ao confrontar-se com o seu próprio ser (na ‘objetificação‘) é logo conduzido a uma ruptura que o obriga a se questionar…o que fazer? como viver?

Este aspecto de ‘pôr-se em questão‘ – por diversas razões… não está nem em Nietzsche… muito menos em Heidegger.

Em 2º)… O homem não se encontra em equilíbrio nem consigo próprio, nem com o mundo. Por conseguinte, tem de buscar criar um equilíbrio, encontrando coisas que contrabalancem o peso do ‘desassossego’, que sente pela própria existência.

Nesse sentido… Plessner enfatiza – tal como Nietzsche – a significação da arte e da criação para o ser humano. Mas, enquanto Nietzsche tentou, com pouca plausibilidade, entender a criação como um broto da fonte puramente subjetiva da ‘vontade de poder’…Plessner a viu – como a manifestação de seu desequilíbrio, e como busca de contrapesos.

Em Nietzsche, a transcendência imanente consistia numa dinâmica de mero crescimento em direção a um além, que nunca deixa de ser puramente subjetivo. Já na ‘epistemologia’ a transcendência consiste numa relação estática entre sujeito e objeto…De igual maneira, fundamentalmente estática, foi a concepção heideggeriana de transcendência; a despeito de uma certa dinâmica na sua concepção de consciência…enquanto ‘desvelamento’.

Em Plessner, por outro lado, se estabelece um novo sentido de transcendência imanente,  que é tão dinâmico quanto o de Nietzsche, mas que não é unilateralmente subjetivo, nem tampouco consiste numa mera relação sujeito-objeto – mas, num aprofundamento desta relação. O sujeito não se pode contentar com a superfície das coisas; e, por isso, tem que penetrá-lastem que aprofundar sua relação com elas.

Assim, constitui-se um  “ir além“…  uma  ‘transcendência‘  –  que não é, simplesmente, uma dinâmica de crescimento do poder – ou da capacidade do sujeito; nem tampouco, como em Heidegger, uma relação entre homem e o ser; mas o transcender da aparência superficial – em direção ao fundo das coisasPode ser que o tipo de ‘consciência humana‘ permita — em todas suas relações consigo, e com o mundo, dar vários passos na direção deste fundo… — Mas, então, como devemos entender isso?…

Plessner contenta-se em meras indicações superficiais – com sua ideia ‘objetificadora’;   enquanto que, aquela antropologia filosófica simplesmente constata uma estrutura na qual o homem distingue-se dos outros animais — sem, ao menos… se perguntar como esta diferença pode ter-se desenvolvido no curso da evolução biológica.

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A estrutura proposicional linguística                     ‘Entende-se que a linguagem instrumental tem tido uma função biológica… e, uma vez que surgiu, esta estrutura estende-se por toda a vida humana’.

Parece, então, necessário encontrar uma nova base para entendermos melhor a transcendência imanente – neste sentido de ter que dar vários – e, sempre mais passos a um fundo das coisas.

Na verdade… Aristóteles já tinha dado uma resposta à pergunta de como se distinguem os homens dos animais — que parece mais produtiva como fio condutor, em vez do conceito de ‘objetificação’ – e… fez isso recorrendo à linguagem… – Scheler e Plessner não refletiram sobre ‘linguagem’…enquanto Heidegger falou muito dela – porém, nada dizendo estruturalmente útil.

Aristóteles — por sua vez… diz que é característico da linguagem humana possuir uma estrutura proposicional…Enquanto a linguagem dos animais tem uma função segundo a qual reagem ao ambiente, a estrutura predicativo-proposicional proporciona ao homem a possibilidade de dizer coisas que são independentes da situação corriqueira.

Com isso, Aristóteles vê conectado o fato de que os homens possam falar do bom – e, por conseguinte, do justo… (esta reflexão encontra-se no início da sua Política.)  —  E assim, conclui que os homens podem formar agrupamentos políticos só porque podem entender que algo é, mutuamente, bom para eles.

Em Aristóteles, tem-se que entender a motivação para o ‘bom’, em contraste com a motivação para o prazer… E, o que distingue a perspectiva do bom da do prazer é a deliberação. – O objeto formal da deliberação prática é o ‘bom’, enquanto que o             objeto da deliberação teórica é o ‘verdadeiro’.

“A característica do homem é que ele fala e pensa em proposições teóricas e práticas – sendo, por isso, um ente deliberativo que se relaciona com o bom e o verdadeiro…Nenhum desses aspectos é encontrada nos outros animais”.

Confrontado com uma proposição, o homem pode consentir ou negá-la; e, por isso, pode também pô-la em dúvida, questioná-la; e, por conseguinte, deliberar. Confrontar-se com algo dito, ou pensado na modalidade da deliberação – portanto… significa perguntar por razões; e, isso significa perguntar-se pelo que se pode dizer a favor, ou contra a asserção,   ou o imperativo

Nesta “tomada de distância” … — neste poder de tomar                           posição, a favor ou contra, estamos livre, temos opções.

(Observe-se que este pensamento demonstra o erro de uma moda recente — que consiste em pensar que a ‘sociologia’ poderia substituir a ‘antropologia filosófica’…como filosofia primordial… Não pode fazê-lo, porque a maneira como os seres humanos reúnem-se em grupos sociais fundamenta-se na capacidade dos indivíduos de se comunicarem sobre o ‘bom’ – proposicionalmente… Enquanto que uma sociedade de formigas — por exemplo, está organizada à base de estímulos químicos; na sociedade humana…os indivíduos unem-se uns com os outros por uma ‘finalidade além’…e, portanto, têm a capacidade de separar-se, e dar explicações sobre isso. A sociologia tem pois, esta base antropológica!)

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Joan Miró – ‘Characters and birds party for the night that is approaching’. 1968

Procurando explicações

Plessner insistia que o homem tem que se “pôr em questão”… por objetificar as coisas. Todavia, torna-se mais evidente justamente o contrário… – a razão pela qual o homem está objetificando coisas e, a si próprio é que se relaciona a tudo — através de uma lógica proposicional.

E, junto a esta linguagem proposicional, necessariamente… aparecem diferentes aspectos…representando diversos lados da mesma moeda…’questão’…’razões’… ‘deliberação’ … e ‘liberdade’.

Quando Aristóteles diz que – para o entendimento humano, a linguagem proposicional (lógos) é essencial – isso significa que o homem é o animal racional, que pode perguntar por razões – ou seja…o ente deliberativo…’livre’. Confrontando com o que tínhamos visto em Plessner – trata-se de uma estrutura bem mais fundamental que a mera objetificação.

Um aspecto relevante dessa linguagem é a relação sujeito/predicado. Se o homem tem que falar das coisas, consequentemente, tem que objetificá-las; e, deste modo, chega a ser também objeto para si próprio. – E, como tudo o que diz, ou pensa, pode ser colocado em questão, isso afeta também sua relação consigo próprio. Assim, pode-se entender por que razão – uma espécie com tal característica…desenvolveu-se tanto na evolução biológica…

Se, simplesmente, assumirmos que o homem objetifica-se a si mesmo isso é algo que não se pode explicar ‘funcionalmente’. Entretanto, isto também acontece se dissermos, como no existencialismo, que o homem é essencialmente livre…  Ser livre seria algo sem função biológica compreensível…Mas, se dissermos que a espécie tem capacidade     de ‘se questionar por razões‘…esta é uma nítida vantagem dentro da evolução – pois implica em um novo ‘nível cognoscitivo’… que permitiu ao pensamento uma ‘evolução instrumental’ em larga escala.

Assim, também o conceito de uma ‘transcendência imanente pode agora adquirir um sentido mais claro…Vimos que em Plessner – trata-se de um aprofundamento na maneira como nos relacionamos com objetos. – Este aprofundamento, porém, adquire um sentido transparente quando o clarificamos por meio do conceito de dar razões.

Trata-se aqui, da tensão entre ‘aparência’ e ‘verdade’…ou, na deliberação prática entre o bem aparente e o bem verdadeiro. A mera opinião seria a aparência e, ao invés desta, se podemos dar razões – e, sempre melhores razões, passamos então, de um nível a outro. Nisto consiste, exatamente,    a ‘transcendência imanente’…que parece constitutiva do saber humano.

Com efeito, Plessner aplicou sua estrutura também para a arte… Porém – neste caso, o aprofundamento não é um aprofundamento relativo a razões. Como então, entendê-lo? E, qual a sua consequência para a discussão de Nietzsche – levando em consideração a concepção de distinção aristotélica?… Podemos entender, a partir daí, o ser do homem na sua totalidade?  

Erich FrommDe volta à Fenomenologia

É certo, que essa é uma matéria onde apenas podemos especular…  – Empiricamente, não sabemos como nossa espécie se desenvolveu, contudo…podemos, ao menos, elaborar uma hipótese que faça sentido

Ao invés de nos confrontarmos, diretamente com esta pergunta…peguemos o exemplo de 2 pensadores do século XX… que se encontram à margem da filosofia …  —  o psicanalista Erich Fromm e a novelista e filósofa Iris Murdoch, que muito têm contribuído para o esclarecimento da questão.

Fromm não compartilha da preocupação dos antropólogos, de procurar uma característica central que diferencie o homem dos outros animais. Com base numa concepção hegeliana, segundo a qual, todo o ser – e, em particular, o ‘ser humano’ – consiste numa síntese de antíteses’, ele parte da pergunta pela felicidade humana

Na ‘Fenomenologia do Espírito’, Hegel mostra que o homem não chega a satisfazer-se…se somente devora, ou domina o que encontra… O que pode satisfazê-lo só pode ser algo tão independente quanto ele; algo que tenha também autoconsciência e autonomia. – A mera dominação dos outros não leva a uma satisfação alguma.

Com isso, Hegel (1770-1831) anteviu a refutação de Nietzsche (1844-1900)… Só no espelho do outro – e, de um outro reconhecido como igualmente autônomo, o homem chega a uma satisfação. E, assim se faz a ‘experiência‘, que só na medida em que se afirma no outro, sua afirmação tem significado.

Toda Fenomenologia do Espírito‘ consiste…em graus sempre mais complexos, desta simetria; e, é esta concepção que Fromm aplica à psicologia, em sua busca pela felicidade. O homem encontra-se, segundo Fromm, em dicotomias: vê-se isolado, e só pode chegar à felicidade dando ao outro o peso que dá a si próprio. Fromm demonstra este princípio de simetria, particularmente, em 2 aspectos do comportamento humano: o ‘entendimento’,   e o ‘amor’.

No amor, forma-se uma convivência, cujo perigo é a unilateralidade: ou cada parte quer dominar a outra, ou uma quer dominar, e a outra, submeter-se. Somente se cada um tem suficiente peso; e, ao mesmo tempo, aceita a igualdade do outro  –  é que ambos podem alcançar o bem-estar.

Fromm constrói uma concepção análoga para o entendimento: não podemos chegar a entender uma coisa, ou uma pessoa, se somos meramente passivos como uma copiadora. Para que nosso entendimento possa penetrar na realidade, além da superfície, temos que ativar o nosso ‘poder imaginativo.

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Dimensões de profundidade   (da ‘transcendência imanente’…)

O peso e ativação do sujeito devem estar em concordância com o peso,   e respeito para com o objeto. Trata-se da ativação de nossas próprias capacidades, dirigida pelo respeito por tudo aquilo com que lidamos…

Disso resulta – para Fromm…uma recusa total à ‘concepção nietzschiana‘, que confunde poder e potência… – Segundo ele, relacionar-se ‘simetricamente com as coisas e com as pessoas, depende da ativação das próprias potências… – Opoder‘, no sentido de domínio, é uma perversão do poder no sentido de ‘potência(capacidade de relacionar-se com o mundo) … é uma ‘perversão’ pela unilateralidade da dinâmica.

Qual a contribuição de Fromm à problemática da ‘transcendência imanente‘? Fromm não usa a palavra ‘transcendência’, mas fala de profundidade da realidade das coisas e pessoas. Segundo ele… – o ‘desejo de poder’ nasce da incapacidade do indivíduo para relacionar-se produtivamente com o mundo.

Em Fromm, encontramos conceitos que já tínhamos encontrado em Plessner…simetria na relação entre sujeito e objeto – (peso e contrapeso)…Há, porém, uma ‘diferença estrutural’ entre o que dizem Plessner e Fromm… e a filosofia de Aristóteles – na qual… na ‘estrutura proposicional a ênfase está nas razões…“Para eles há uma estrutura entre sujeito e objeto, sendo que estas estruturas parecem ‘dimensões de profundidade‘ em diferentes sentidos”.

Iris Murdoch, por sua vez, também usa o conceito de ‘transcendência’… mas o seu interesse é menos descritivo, e mais normativo. A pergunta é…como devemos ser?           Seu termo central é ‘atenção‘…termo tomado emprestado de Simone Weil, que a         tinha influenciado profundamente. A obrigação central do homem para Murdoch,               é desenvolver uma viva atenção para a ‘realidade‘.

Realidade‘, que é sua 2ª palavra central…usada no sentido de verdade das coisas. A verdade nunca está na superfície…e por isso, a atitude da atenção exige esforço contra         a preguiça e egoísmo. O que ela quer dizer com ‘atenção‘ é semelhante ao que Fromm chama de ‘compreensão equilibrada‘.

Uma das preocupações de Murdoch é mostrar que o problema de abrir-se para a realidade das coisas é universal — igualmente constitutivo da estética e da moral. É uma experiência de profundidade da realidade. É como se dissesse diante de uma obra de arte – isso é mais real que o resto da realidade. Assim a palavra “realidade” adquire um sentido comparativo, tal como o tem em Murdoch o conceito correspondente de ‘atenção’.

A aprendizagem humana é diferente da aprendizagem de outros animais. – O homem aprende a fazer bem alguma coisa, e encontra-se como diz Murdoch…“numa escala de excelência”, em que pode avançar mais ou menos. Este avanço na escala de excelência, seria, então, o sentido não metafísico da ideia de transcendência.

O deliberado poder funcional da arguição                                                                      Comparemos agora, a posição de Murdoch com a de Nietzsche… – enquanto a transcendência imanente e o sentido da vida em Nietzsche, consistia num puro crescimento de si próprio; para Murdoch consiste no crescente abrir-se para a                 realidade… e na aprendizagem de uma coisa boa’.                                 

Poder-se-ia imaginar um debate entre Nietzsche e Iris Murdoch – em que Nietzsche diria que todas estas escalas de excelências seriam simplesmente passos de alguém para poder desfrutar-se de si mesmo. Porém, para Murdoch, ainda que seja certo que o homem ache satisfação quando faz bem as coisas; é, em primeiro lugar, notável que, grande parte da felicidade humana consista, justamente, em fazer coisas boas.

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“O desejo esmagador de um corpo humano por outro, em particular, e sua indiferença aos outros é um dos maiores mistérios da vida.” (Iris Murdock)

Um exemplo seria amar uma pessoa. Nietzsche tinha insistido no aspecto possessivo de todo amor… e este aspecto inegável… – está, igualmente, em tudo o que queremos fazer bem.

Por outro lado… amar uma pessoa…implica estar impressionado pela profundidade de seu ser, que Murdoch chama “sua realidade“…e isso abre a possibilidade, ainda que só uma possibilidade de preferir a felicidade desta pessoa… – a ‘possuí-la’.  

Mostra-se então, que o conceito de deliberação é mais amplo; ou – segundo Platão…o conceito de ‘bom‘ está além do de ‘ser’.

A volta de Murdoch às especulações de Platão nos faz estender o conceito de ‘dimensões de profundidade’ a esta característica humana na “evolução biológica”… que nos distingue dos outros animais, isto é, o poder perguntar por razões pelo que é ‘praticamente‘ melhor, assim como sobre a extensão do conceito de deliberação sobre o que é bom… ou… pela busca do ‘melhor juízo’.

Esta capacidade de relacionar-se com o mundo, e consigo mesmo…uma   vez surgida… — teria a necessidade de se estender às demais atividades humanas. Mas daí então…o que devemos entender pela palavra “bom”?

Com efeito, esta palavra refere-se a um comparativo de preferência, que além disso, tem uma pretensão de ‘objetividade’, ou pelo menos de ‘intersubjetividade’. Quando dizemos que uma coisa é melhor… – trata-se primeiro de uma ‘preferência‘ – e segundo…de uma preferência da qual se supõe não ser só minha… – Já o conceito de preferência, remete a um querer…e este o temos em comum com outros animais. O que os outros animais não têm é a capacidade de compreender-se dentro de uma escala — em que a multiplicidade   de coisas — ou ações…são classificadas como melhores ou piores…

Isto equivale a dizer que nos encontramos em ‘dimensões de profundidade’.

Sobre isso, ainda cabe esclarecer a ambiguidade que consiste na diferença de dimensão de profundidade, a partir de Aristóteles – que é a dimensão de deliberação – e a dimensão de profundidade como se apresentou a partir de Plessner e Fromm – que é uma dimensão entre sujeito e objeto… e que conduz à ideia de ‘simetria‘.

Estes 2 tipos de dimensões de profundidade são considerados diferentes, mas com origem comum. Uma vez que surge uma ‘linguagem proposicional‘ surge, por um lado, a pergunta por razões; e por outro lado, a objetivação de entes, seja no mundo, seja no sujeito mesmo. Com isso, surge também algo que – de certa maneira, está na base de toda moral humana:

Com a consciência de si e com o saber dos outros (que também tem uma consciência de si), aparece, necessariamente, a ideia de que os outros são como eu, e isso significa que, junto com o egoísmo surge a possibilidade de um ‘altruísmo explícito’, sem regras fixas. Ora, se Fromm tem razão, este altruísmo – especificamente humano – não é uma mera possibilidade abstrata. É, naturalmente, uma possibilidade real – e, como tal, faz parte do que é para os homens uma ‘vida boa‘. (Ernst Tugendhat)…artigo original (em PDF)  **************************(texto complementar)************************************

CONTINGÊNCIA E TRANSFINITO  (introdução)                                                                 ‘Envoltos num fundamento fenomenológico, pautado na inseparabilidade entre mente e mundo, grandes mestres da filosofia; mesmo quando tratam de se afastar do idealismo; não conseguem fugir à finitude essencial que se encerra na discussão sobre a correlação (pensamento/ser), e sua inegável refutação da ideia de absoluto’…

finitude

Quentin Meillassoux, filósofo e professor da Universidade de Paris…tem ganho notoriedade por suas ideias originais inseridas no panorama do “realismo especulativo“… atual movimento filosófico que representa um ‘contraponto‘ às mais atuais influências da filosofia ‘pós-kantiana’.

Aluno de Alain Badiou, Meillassoux propõe uma inclusão da ‘filosofia matemática’ em problemas ontológicos — na tentativa de retirar o ‘privilégio humano’ sobre o real; em uma crítica ao idealismo…com vistas ao realismo, imerso em uma moldura ‘filosófica contemporânea‘.

Em seu livro… “Après la Finitude” (2008), Meillassoux elabora um ‘empreendimento especulativo‘ – em oposição ao ‘correlacionismo‘… nome dado pelo próprio autor à abordagem filosófica… – iniciada com Kant… e…posteriormente desenvolvida por Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty, definida pelo autor como uma… — emblemática insuficiência em lidar com vários problemas metafísicos… – com os quais a filosofia contemporânea, cada vez mais se depara.”

As condições de verdade do ‘correlacionismo’ são… deve ser experimentável no presente; deve ser universalizável; deve ser experimentável por qualquer um. Portanto, no caso de um evento não-testemunhável… conclui-se que tal é ‘impensável’.

O modelo correlacionista                                                                                                    

Um dos elementos que mais chama a atenção na proposta de Meillassoux é sua ousada leitura da filosofia contemporânea como uma filosofia acanhada diante dos desafios de     seu tempo. O paradigma correlacionista não seria alvo de tão dura crítica, se estivesse   em condições de propor soluções para grandes questões da atualidade… – mas…parece confortável ao apontar a materialidade da correlação ‘pensamento/ser’...a cada vez que uma questão sobre o mundo é lançada.

É como se o correlacionismo dissesse repetidamente: “é ingênuo indagar sobre o mundo, pois há que se reconhecer que a cognoscibilidade é definida pelas regras do saber”. E ao fazê-lo, a filosofia se fecha sobre si própria – em um ambiente seguro – porém limitado. Enquanto isso, a ciência avança…A tirar pelas recentes conquistas na física quântica, a ciência propõe soluções para os limites do universo… – até em questões eminentemente filosóficas.

Foi Kant quem instaurou a correlação como uma abordagem fundamentalmente crítica; para a consciência e linguagem. Até então, o ‘problema do ser‘ tratava-se do problema da substância…era pré-crítico, mas a partir daí, torna-se um ‘problema de correlação’, o que afasta de certo modo o interesse pelo que está fora dela… – Contudo…paradoxalmente, a “abordagem correlacionista” consegue se aproximar ao externo na medida em que estar consciente é consciente de algo; falar é falar de algo; ou seja… conhecer…é conhecer algo.

De qualquer modo, o foco do correlacionismo está no modo como um A se aproxima de um B  –  mesmo que esse B seja essencialmente inacessível…  A questão não mais diz respeito ao “acessar algo”, mas sim ao “como” se pode acessar esse algo – tendo em vista que essa relação é o que permite qualquer mudança de estado cognitivo.

A partir desse cenário, Meillassoux apresenta um problema para o correlacionismo, que pode ser exemplificado na questão da ‘ancestralidade‘… – A exemplo dos fósseis, que indicam a existência de matéria primitiva…”ancestral“… como uma realidade anterior à percepção humana… – a ‘questão filosófica’ da ancestralidade é…sob quais condições…abordagens sobre ancestralidade são relevantes?…

Para Meillassoux, só há 2 possíveis: a ‘transcendental’ (Kant)                          e uma abordagem ‘especulativa’ (… seja metafísica… ou não).

Do ponto de vista ‘correlacionista transcendental, o real ancestral é resultado de um evento atual que   se refere a um ‘passado virtual

Mas – para Meillassoux…ao se referir a um passado virtual, anterior à ‘mente humana‘ – o “correlacionismo entra em contradição – com seu próprio ‘princípio correlacionista‘.

De um ponto de vista estritamente correlacionista, tudo o que se pode dizer – uma vez que ninguém estava lá, se resume ao que dizem os dados matemáticos; de modo que o real é construído pela mediação de dados atuais… — Nesse sentido, o que se faz é uma afirmação atual (“presente”) a cerca de um concernente real… ausente (“passado”).

Mas o ausente desprovido de pensamento é justamente o que o correlacionismo não pode, por princípio, admitir… Logo, da perspectiva correlacionista, a interpretação da afirmação ancestral é inadmissível, e o papel do filósofo – nesse caso – consiste apenas em adicionar um tipo de conhecimento…que impõe uma correção mínima na afirmação científica (algo como – “não há como assegurar a materialidade do real…que está além da correlação”).

O objetivo da empresa de Meillassoux é justamente questionar o que a filosofia moderna tem-nos dito nos 2 últimos séculos…que há uma ‘impossibilidade real’ em sair de si para tocar a coisa em si (para saber o que há – quer quando somos… quer quando não somos). 

Kant e a filosofia transcendental                                                                                       A virtude do transcendentalismo está na desconstrução de um realismo ilusório, e na sua habilidade em torná-lo impressionante e problemático: verdadeiro e impensável’.

A filosofia transcendental insiste que a condição da ciência consiste em revogar todo o ‘conhecimento não-correlacional’ … taxando o realismo como aparente, derivado, ingênuo, natural…Pela ‘revolução crítica’ de Kant, os objetos se conformam ao nosso conhecimento, promovendo a morte da metafísica, em nome da ciência; e aqui há uma falha fundamental, foi ignorado o aspecto mais revolucionário do saber científico… – seu caráter especulativo.

Há, portanto, um paradoxo para o ‘transcendentalista’…na medida em que ele enxerga uma coisa fora da correlação…e diz não haver possibilidade de atingi-la. – É como se o pensamento fosse capaz de ultrapassar seus próprios limites — mas, ao mesmo tempo, devesse se restringir ao que lhe foi dado, não indo além… (O que não fica claro… – é o porquê dessa limitação.)            

O filósofo dos dias de hoje evita indagar a respeito do real. Isto porque sua comunicação, e o tempo em si, apenas têm sentidona medida em que forem fenômenos do tipo ‘sempre-agora’ (pressuposto na relação humana com o mundo) – e, nesse sentido…  o mundo só teria sentido se fosse pensável… Contudo – nesse particular, a questão da ‘ancestralidade’ permanece incompleta… – Como conceber um tempo em que o sujeito, como tal, passa de um estado de não-ser para o ser?… Ou ainda…como a anterioridade do ser pode se revelar (para a correlação)?

Nesse sentido, uma reformulação especulativa do problema de Kant pode ser exposta nas 2 indagações para a questão…“como a matematização da ciência da natureza é possível?

1) o que é matematicamente concebível é absolutamente possível?…2) as leis da natureza derivam sua estabilidade factual de uma propriedade da temporalidade em si… ‘absoluta’ (indiferente à nossa existência)?

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Uma contingência absoluta!?…

A partir desse problema, Meillassoux desenvolve o 2º argumento — sobre a relevância de um problema metafísico – supostamente superado por Kant através da ‘especulação‘.

O autor defende a ideia de que se deve buscar um absoluto — isto é…algo que independa de nossa consciência, ‘uma vez que só assim — se pode dar conta da … questão da ancestralidade‘.

A tarefa consiste… portanto, em tentar entender como pode o pensamento ser capaz de acessar o ‘incorrelato’…quer dizer, um mundo capaz de subsistir sem ter sido percebido. Mas, isto significa dizer…’apenas‘… que devemos entender como o pensamento é capaz     de acessar um absoluto, cuja atividade de independência seja tal… que se apresente a si mesmo como não relativo a nós, mas ainda assim capaz de existir… – existamos ou não.

Para Kant, a coisa em si é incognoscível, apesar de pensável… Mas, como mesmo não conhecendo o absoluto, posso pensá-lo… por isso, a coisa em si deve existir. Portanto, mesmo em Kant a coisa em si é ‘não contraditória’… – em sua existência autônoma…

“O espaço não é um conceito empírico – retirado de experiências externas – nem pode ser visto como um conceito discursivo da relação das coisas em geral…ao contrário, é uma representação necessária a priori, que serve de fundamento às demais intuições.   Ele é uma ‘intuição pura‘ – sobre a qual se funda a certeza evidente e necessária de todos princípios geométricos; e, a possibilidade sintética de sua própria construção.”  (Immanuel Kant – ‘Crítica da Razão Pura’)

Partindo dessa ideia, Meillassoux acrescenta que, no trato da ‘questão da origem’ (por que existe algo ao invés do nada?…) é necessário ter-se uma abordagem oposta ao princípio da razão suficienteAo estilo cartesiano — o autor busca então estabelecer a existência de um “absoluto primário“… para – em seguida… derivar daí o seu… ‘alcance absoluto‘.

Com efeito, para caminhar nessa direção sem correr o risco de um retorno à ‘metafísica ingênua’ – é preciso que aquela “visão absolutista” fique no passado… Para Meillassoux, deve-se buscar a necessidade absoluta sem se recorrer a algo absolutamente necessário. Deve-se buscar um ‘absoluto’ – sem a ajuda de uma ‘entidade absoluta’… Desse modo, o ‘pensamento especulativo’…  que almeja a ‘forma do absoluto’…não se confunde com o ‘pensamento metafísico’ – que almeja o ‘ente absoluto’.

Da abordagem metafísica apenas é útil a tese de que existe algo,                   mesmo quando não há ‘pensamento consciente’ em sua direção.

Neste cenário, Meillassoux defende a tese de que há uma ‘contingência absoluta’. Dito de outro modo… – a renúncia contemporânea do absoluto…corresponde a uma primazia da correlação… Se o correlacionismo insiste na materialidade das formas correlacionais, tal materialidade evidencia a nossa incapacidade de falar do impossível… — Encontrar essa incapacidade é marcar uma ausência de razão dos fatos, e suas invariâncias… E, a partir daí, o que Meillassoux defende é a possibilidade de que toda hipótese para a ‘coisa em si’ permaneça igualmente válida.

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Sobre essa ideia, o correlacionista enfatizaria apenas a materialidade da correlação entre ‘pensamento/ser’ para dizer que “não há outra condição possível” … O problema que Meillassoux nos coloca então de modo bem claro é que o impensável apenas sugere a nossa incapacidade de se pensar de outro modo – mas não leva à ‘absoluta impossibilidade’ das coisas serem de outro modo.

A Contingência e o ‘Princípio Surreal’        ‘Afirmar a impossibilidade real do impensável seria demarcar ‘dogmaticamente’…quase religiosamente, um terreno para se erigir filosofia’.

Para dialogar com o correlacionista, Meillassoux elabora um método bastante fiel à proposta do correlacionismo: o ‘cogito correlacionista‘… seu método para acessar o absoluto. Há aqui uma ‘função de correlação entre pensamento e ser…por meio da           qual se extrai verdades especulativas de um consenso intersubjetivo… Para tal, são assumidas 3 ideias básicas:

  • se o ancestral é pensável – então um absoluto deve ser pensável;
  • o ‘absoluto’ que se procura não pode ser dogmático… (desqualificando-se todo                 argumento que pretenda estabelecer a absoluta necessidade de uma entidade)
  • deve-se superar o círculo correlacionista (segundo o qual, pensar um absoluto                 é pensar um absoluto para nós – e, portanto… não é pensar nenhum absoluto)

Para o correlacionismo, podemos apenas acessar o ‘para nós‘, nunca o ‘em si‘. Crer neste fato é crer na absoluta materialidade da correlação, e assim a materialidade pode revelar-se uma espécie de “conhecimento absoluto”, pois a estamos colocando de volta nas coisas mesmas – o que nós… erroneamente…tomamos como uma incapacidade do pensamento.

A ‘falta de razão’ revela uma propriedade do ‘ente’ – uma limitação sua... e, representa do absoluto, no máximo, uma ausência de lei… – Isto é, a ‘materialidade’ é uma propriedade real…pela qual tudo é desprovido de razão… Neste sentido, diz Meillassoux, o ‘surreal‘ é uma propriedade ontológica fundamental. Para o autor…a materialidade não se associa à necessidade da mesma forma que com a contingência. Esta é absoluta, a necessidade não.

Assim, a capacidade de deixar de ser é uma possibilidade absoluta (ontológica)…Por exemplo, não posso pensar que a morte dependa do meu pensamento, pois isso seria equivalente a dizer, que só posso morrer depois que eu pensar a morte…Mas, minha morte não precisa do meu pensamento para acontecer.

Há aqui uma absolutização da capacidade de se tornar outro. A própria diferença entre o “em si” e o “para nós” mostra um absoluto, pois algo sem razão não pode ser atribuído ao pensamento. Meillassoux, porém, recoloca o conceito de absoluto como um problema filosófico – e propõe uma abordagem especulativa (não metafísica) para dar conta dele.

Meillassoux declara – desse modo, a verdade absoluta do ‘princípio surreal não há qualquer razão para algo ser do jeito que é – que, caracteriza um princípio dito absoluto, mas sem nenhuma entidade absoluta (absoluta seria a impossibilidade da necessidade de ser)…Este princípio representa uma espécie de inversão do ‘princípio da razão suficiente (pelo qual, tudo tem uma razão de ser).

A contingência necessária                                                                                                        ‘Necessária é a possibilidade da representação. Nós somos efêmeros, mas o absoluto como possibilidade é perene… E, ele não é razão, mas… ao contrário – contingência’.

Parece absurdo manter-se que, não apenas as coisas mas também as leis da física sejam realmente contingentes, uma vez que se esse fosse o caso, nós teríamos que admitir que, tais leis poderiam de fato mudar a qualquer momento…sem qualquer razão. – Podemos,   no entanto, confirmar que as leis da natureza poderiam mudar; não só em concordância com alguma ‘lei superior’ escondida… – mas, sem qualquer causa… – ou razão aparente.

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Apesar de improvável, nosso universo se estabiliza como resultado de um nº gigantesco   de ‘emergências caóticas‘… E, em tal argumento… o próprio acaso pode ser mensurado matematicamente…podendo evoluir, para se tornar um ‘princípio de lei física’ (caótica).

Porém…a questão essencial ainda não foi respondida –                                   qual a condição para a manifesta estabilidade do caos?

Hume havia detectado uma falácia no  ‘princípio da razão suficiente’ — tendo denunciado que tal princípio não era absoluto. Kant – por sua vez, propôs estágios para se esclarecer o engano metafísico da ideia objetivável de um conhecimento matemático da natureza, com a inutil tentativa de dar à física uma ‘fundamentação metafísica’, e com a renúncia a todo absoluto teórico.

Dada a proposta de repensar o problema da contingência, Meillassoux relembra a questão de Hume, a respeito da continuidade da regularidade do mundo… Este problema pode ser assim expresso– “a partir das mesmas causas…pode-se esperar os mesmos efeitos?”… ou… “qual é a nossa capacidade em demonstrar a necessidade de uma conexão causal?”

O problema da causalidade (em Hume) vale tanto para as leis determinísticas quanto para as probabilísticas; e a questão ressurge, em um caráter ainda mais absoluto: o que garante que as leis da física, como tais, continuarão a ser possíveis no futuro?…ou melhor dizendo:

O verdadeiro problema de Hume não é sobre a validade futura de nossas teorias – mas sim, sobre a estabilidade futura da natureza, em si mesma.

O problema, nesse ponto, ultrapassa o alcance da física… As condições de possibilidade, para a física, são garantidas pela incessante repetição dos experimentos. Mas, a questão aqui não diz respeito aos experimentos, e sim às condições de recorrência, e poderia ser colocada do seguinte modo:

“poderíamos demonstrar que a ciência experimental – possível hoje… será possível amanhã?”… Para essa questão, há 3 respostas…  a metafísica, a cética, e a transcendental.

A abordagem metafísica pretende dar conta do problema invocando a existência de um ‘princípio supremo‘ que governa o mundo…garantido pela eternidade de uma perfeição divina. Por outro lado a proposta cética (de Hume) diz respeito a uma dupla articulação entre a ideia de ‘não-contradição’, e a ideia de ‘hábito‘…como um modo de fixar crenças, e como uma tendência humana não racional… — de atribuir alguma “necessidade” às leis.

Já a resposta transcendental (kantiana), baseia-se na materialidade da representação para declarar que a ‘necessidade causal‘ é uma condição necessária para a existência de uma consciência. É como se Kant dissesse a Hume… – você não pode me pedir para provar a existência de leis naturais, e causalidades – quando o que estou fazendo é, justamente, partir do pressuposto que causalidades são postulados para as regras do entendimento serem do jeito que são… – de modo a me permitir conhecer tais leis”.

Nem a resposta metafísica, nem a cética, nem a transcendental, coloca em dúvida a ‘necessidade causal’. Se bem que o ceticismo chega à ideia de que   a razão é incapaz de firmar nossa crença na necessidade (assumida real).

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Meillassoux tentou mostrar que o ceticismo agnóstico daqueles que duvidam da realidade da causa e efeito, deve ser transformado numa certeza radical de que não existe tal realidade – como necessidade causal. Isto o leva a proclamar que é absolutamente necessário que as leis da natureza sejam contingentes. (Wikipédia)

Mas, essa descrença na garantia de apreensão da necessidade não chega, de todo modo…a negá-la. A impossibilidade de se conhecer a ‘necessidade’ pelo ‘raciocínio’…diz respeito apenas aos limites da razão — e da nossa tendência em substituir o ‘juízo racional’ por um ‘juízo sensível’ … quando a “estabilidade aparente” nos impele a crer nos hábitos, e experiências anteriormente gravadas em nosso ser.

Nesse sentido o ponto de vista cético acaba por se mostrar o mais paradoxal… pois, ao mesmo tempo em que admite uma ‘insuficiência‘ no ‘princípio da razão’, para com suas “pretensões ontológicas” … – ainda assim … acredita numa necessidade real (sem qualquer razão para tal).

Entretanto…se a necessidade de uma ‘conexão causal‘ entre eventos não pode ser demonstrada, tal conexão é simplesmente desprovida de necessidade. Assim, a questão não mais deve ser ‘como explicar a suposta necessidade das leis‘…mas… ‘como explicar a estabilidade manifesta das leis, as tendo tomamos como contingentes‘.

Podemos dizer que…tanto Kant quanto Hume acreditam na ‘necessidade causal‘… pois a contingência implicaria numa transformação constante da realidade. A necessidade está assim provada, dada a imensamente improvável estabilidade das leis da natureza – e… do mesmo modo, à consciência de um sujeito capaz de observar cientificamente sua duração.

Se o absoluto é a pura ausência de necessidade…então o ‘princípio da razão suficiente’ é totalmente equivocado. E, não havendo razão alguma para a existência ser do jeito que é… com tudo podendo vir a ser de outro modo — sem qualquer razão aparente — então, nesse caso, a única necessidade é a da ‘contingência‘.     

Distinção (matemática) entre acaso e contingência                                                            A possibilidade de diferentes infinitos (uns maiores que                                                         outros) pode distinguir entre “contingência” de “acaso”.                                  

O acaso (no sentido de sorte, jogo, chance) diz respeito a um ‘raciocínio probabilístico’, passível de matematização através de um princípio de variação baseado nas técnicas de contagem… Para o raciocínio probabilístico ser válido – a priori – deve ser pensável em termos de uma ‘totalidade numérica’.

Portanto, o conceito de acaso (como um cálculo de frequência) se aplica melhor à lógica  da probabilidade. Mas se ao contrário, não há motivos para associar o concebível com o totalizável, então há espaço para um ‘princípio de variação‘, sem recurso a números.

Já o termo contingência diz respeito a algo que simplesmente acontece…sem causa nem previsibilidade possíveis (se opõe ao jogo, no qual tudo…mesmo o improvável, é previsto). O ‘contingente’ continua matemático… – mas, mais próximo do conceito de ‘transfinito‘, sendo, desse modo… incalculável e imprevisível (assim como uma ‘flutuação de vácuo’!…)

‘Matemática é o que atinge a qualidade primária das coisas, em                       oposição às qualidades secundárias – manifestas na percepção’.  

Desde Heisenberg é certo que a presença do observador afeta o observado… Porém — essa proposição é vista pelos próprios cientistas como uma propriedade de lei que não depende dele (observador). – Aqui, o importante não é o caráter realista da ciência, mas o processo que distingue a realidade do nosso próprio ser…o processo de matematização da natureza.

A “matematização” é a forma que permite separar, mundo e homem…(Descartes), assim como descentralizar o pensamento em relação ao mundo…no processo de conhecimento (Kant). O que a ‘revolução copernicana‘ nos permitiu concluir, segundo Meillassoux, foi uma revelação paradoxal da capacidade do pensamento supor o que ‘‘, quer o mesmo exista, ou não.

Nesse sentido, poderia ainda ser acrescentado que, o que quer que seja matematizável é absolutamente possível — isto é, pode continuar existindo independentemente do ser. E, ainda, que este matematizável não pode ser reduzido a um ‘correlato‘ do pensamento, sendo, portanto…’absoluto‘.

Diacronicidade & Transfinito                                                                                                 ‘O abandono da concepção do em si… e do cosmos — acompanhado de uma sensação de desamparo…não teve outra causa senão o reconhecimento que o pensamento se tornou capaz de pensar um mundo… que dispensa o pensamento’.                                                  

Meillasoux retoma o argumento arquétipo (ancestral) e sua discrepância temporal entre pensamento e ser. A questão inicial era: “como a ciência é capaz de criar tal discrepância?” e agora passa a ser… “como pode a ciência ser capaz de se utilizar dessa aleatoriedade?”…

Para entender melhor essa ideia, o texto de Meillassoux…faz menção ao conceito de transfinito – apresentado por Cantor como uma…“destotalização do número”.

Sabe-se que o conjunto das partes de A é sempre maior que A. Do mesmo modo, o conjunto das partes … – do conjunto das partes de A será ainda maior. O conceito de ‘Aleph‘…diz respeito à cardinalidade desses conjuntos … onde sua sucessão é ilimitada. Sua série, ordenada por Alephs se aproxima do conceito de “transfinito“.

Tal série não pode ser totalizada, pois não há quantidade última para ela, sendo ela mesma uma “série infinita“…Daí resulta a conclusão de que o que é quantificável (pensável) não constitui uma totalidade. – Ou seja…a totalidade (quantificável) do pensável é impensável.

Há assim, uma incerteza fundamental na ideia totalizadora do possível – as possibilidades não são totalizáveis – isto é… continuam abertas…já que não chegam a um fim. – É errado, portanto…estender o ‘raciocínio aleatório’ para além da totalidade dada numa experiência.

Considerações finais                                                                                                   

A solução correlacionista para a diacronicidade é apenas, e tão somente, apelar para a reintrodução do passado no pensamento presente. A ciência, por sua vez, trabalha com a ideia de temporalidade (causal)… pela qual o que vem antes, vem antes – e vem antes de nós. Esse formidável paradoxo da manifestação/anterioridade da diacronia, nos permite restabelecer a possibilidade de um real fora da correlação que alia pensamento e mundo.

Meillassoux declara então…que as consequências do “correlacionismo” são nefastas para a filosofia de um modo geral, pois a torna tão limitada que a impede de dar sua contribuição para qualquer “conhecimento objetivo”, tornando impossível atribuir-lhe a tarefa de saber como uma afirmação é possível, em seu significado último.

Dessa forma então, podemos caracterizar a solução de Meillassoux para o problema de Hume, e para o problema da ‘diacronicidade‘ como – a) uma solução especulativa, e anti-metafísica para o problema geral do mistério da ‘necessidade‘; – b) uma solução especulativa para o problema geral da diacronicidade, sem o que a ciência perderia seu intrínseco senso copernicano.

O pensamento de Meillassoux visa resolver um mal-estar da “filosofia contemporânea”, ao se esquivar do absoluto. – Ao propor solução pra tal dilema ele arrisca novo ‘mergulho’ no cerne da metafísica, buscando conceitos como o real, o ser, e uma correlação casual factual, questionando o problemático ponto de vista… acerca de um absoluto, cada vez mais longe do escopo da “filosofia atual”.

Resgatando a questão de Hume (sobre a origem da crença na necessidade)… e somando uma visão matemática sobre o conceito de “transfinito” … o autor enfatiza a diferença semântica entre ‘contingência e acaso‘… a fim de manter a finalidade aleatória da pura possibilidade cerne da ideia de “contingência.

E é esse conceito de contingência (reavaliado por Meillassoux) o responsável por conciliar a materialidade da ‘correlação’, com uma falha na inevitável ‘necessidade’, de modo a não ser mais preciso crer cegamente nesta sina, como o fez toda filosofia, desde Hume e Kant. Tais ideias – bem como suas consequências…podem e devem ser confrontadas com as do ‘correlacionismo‘, de modo que, seja possível esclarecer se há, de fato, uma incapacidade deste último… em lidar com o problema da ‘ancestralidade’… – como o autor faz parecer.

O problema final de Meillassoux, a saber…o problema da ‘diacronia‘, ressalta a fraqueza tanto da metafísica, quanto do ceticismo… e, do próprio ‘transcendentalismo‘…em questionar o ‘necessário’. Mas a ‘contingência absoluta’ é uma ideia que resolve a questão da diacronia, divisando uma solução satisfatória e oposta ao ‘pensamento correlacionista’.

Se o ‘sistema correlacionista‘ sempre resulta para o autor num ‘idealismo tímido‘… o ‘sistema especulativo’, centrado na contingência, é uma tentativa de resposta à altura       do correlacionismo. Com efeito, a solução de Meillassoux permite um retorno ao real,     que na sua acepção – tem características de um absoluto…’transfinito’ e ‘contingente’. ********************************************************************************

Adendos metafísicos 1) Contingência

A ideia de hipercaos pressupõe a de contingência, entendida por Meillassoux como tudo aquilo que acontece sem ser regido por uma causalidade determinística… – por uma regra, lei, ou necessidade. ‘Contingência’ se aproxima da pura possibilidade desprovida de razão; uma qualidade que sequer pode ser apreendida por cálculo probabilístico.

https://es.wikipedia.org/wiki/N%C3%BAmero_ordinal_(teor%C3%ADa_de_conjuntos)

2) Transfinito

O conceito de ‘transfinito’…tomado da teoria dos conjuntos de George Cantor… – é utilizado como metáfora para expressar o contingente hipercaos que aparece no conceito de factualidade.

Na teoria de Cantor, transfinito diz respeito a uma prova matemática de uma ideia contra-intuitiva de cardinalidade de conjuntos infinitos. Na teoria dos conjuntos, o infinito aparece no conjunto dos nºs naturais – dos nºs inteiros – dos nºs racionais, etc.   mas, nem sempre infinitos têm o mesmo tamanho.

Cantor provou que os números racionais não podem ser pareados com     os números naturais – sendo assim… um infinito é maior do que o outro.

Na teoria de Meillassoux, a ideia de transfinito é aludida como conotando uma capacidade de coexistência, não intuitiva, entre a estabilidade do cosmo e a sua contingência essencial. Estabelecer a relação entre contingência e estabilidade é importante… pois o próprio autor sugere que haja uma tendência natural a rejeitar a ideia de factualidade…

Como postular a existência de um ‘Universo caótico‘, em que suas aparências são fortemente regidas por leis, padrões, regularidades?           E… – se for caótico…por que os eventos não variam o tempo inteiro?

A resposta de Meillassoux é, ao mesmo tempo, ousada e sugestiva: o universo parece todo regido por leis, porque a regularidade está sendo colocada em primeiro plano…Mas, estes eventos podem deixar de ser regulares sem razão alguma. Como Hume, Meillassoux diria que não há garantia de que amanhã as leis de hoje continuem válidas.

Hume já havia provado que não há possibilidade de se demonstrar anecessidade’, mas Meillassoux vai além ao sugerir que não haja qualquer necessidade — excluindo-se a da contingência. E além disso, sendo a escala de tempo da existência essencialmente finita;     a experiência regular local é insignificante – ao transfinito…na contingência primordial.

3) Absoluto

A ideia de absoluto – para Meillassoux, tem íntima relação com o objetivo de acessar um mundo não-correlacional. Além disso, o tema do absoluto (central na sua filosofia) serve de base para denunciar a timidez da ‘filosofia correlacionista’…Para o autor, este sistema  nem sempre nega a existência do absoluto (vide Kant) mas tira-lhe a devida importância, demovendo da filosofia o ‘risco’ de alcançá-lo.

O correlacionismo estabelece um limite para suas indagações, e descredita a tentativa de indagar sobre o que vai além… – taxando-a de ingênua. Essa abordagem é fácil, mas não contribui para capacitar a filosofia a elaborar teorias a respeito de temas – que a própria ciência cada vez mais tangencia… – haja vista recentes estudos em ‘sistemas complexos’, ‘física subatômica’…’redes neurais’…etc.

Por um viés anticorrelacionista, Meillassoux propõe uma volta ao absoluto, como algo que está além da correlação, e especula sobre um universo fundamentalmente contingencial, e imensuravelmente maior do que nossa mente…Tal noção de absoluto parece deixar claro que o ‘deslocamento antifenomenológico’ do autor…pretende colocar o cerne da filosofia não mais na correlação ‘mente-mundo’ – mas, incluir a ‘especulação’… método capaz de versar sobre um mundo, independente de qualquer mente, mas talvez acessível… – pelo ‘materialismo especulativo’. consulta: ‘Reflexões sobre as ideias de Quentin Meillassoux’

‘Contingência e transfinito: em Quentin Meillassoux’ – Tarcísio de Sá Cardoso  ^^^^^^^^^^^^^^^^^^^(adendo geométrico)^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

Idealismo x Naturalismo; Construtivistas x Formalistas

Para os Idealistasa razão orienta sua prática … a moldando,                                               de acordo com suas necessidades… – independente das tradições;

Naturalistas – a razão recebe seu conteúdo e autoridade da prática, que                    descreve o modo como esta funciona…e formula seus princípios subjacentes.

A posição filosófica de David Hilberta respeito dos fundamentos da matemática… é chamada de “formalismo“… – Este pretendia reduzir o infinito a um sistema formal,       livre de contradições, cuja validade pudesse ser provada por meios reais. A verdadeira discordância entre ‘formalistas’ e ‘construtivistas’…não é uma disputa da legitimidade acerca de certos métodos de prova matemática; mas sim que os construtivistas negam, enquanto formalistas afirmam… a possibilidade de se concluir um processo infindável. (Carnielli & Epstein – ‘Fundamentos da Matemática’)

Por se tratar de um tema independente da ‘lógica’… aí – a matemática nunca poderá, exclusivamente se fundamentar. Seu objeto com efeito, deverá consistir nos próprios símbolos concretos de sua imediatamente reconhecível estrutura.

A geometria euclidiana… – parte da noção de um espaço plano;                                           sendo utilizada pelas teorias newtoniana e pela relatividade restrita.

A geometria elíptica (esférica) pressupõe uma superfície fechada;                                 sendo utilizada, por exemplo, para navegação na superfície terrestre.

A geometria hiperbólica, por sua vez, pressupõe uma superfície aberta;                           utilizada por Einstein em sua teoria da relatividade geral — apesar deste           considerar o universo finito e ilimitado; assim como uma hiperesfera 4D. 

Uma geometria transfinita deve ser capaz de conciliar as anteriores; através da influência no espaçotempo de um potencial de vácuo…incluindo aí…a aceleração da expansão, bem como fenômenos quânticos de salto, tunelamento, e entrelaçamento.

Geometria não-comutativa

Assim como a mecânica clássica, a mecânica quântica também pode ser formulada em termos de um espaço de fases. A grande diferença agora é que no caso da mecânica quântica, as coordenadas dos pontos no espaço de fases são tais que (x·y) não é igual a (y·x); ou seja, não-comutam.

A geometria não-comutativa aparece, entre vários outros casos…como uma geometria apropriada para espaços dentro do domínio quântico, por assim dizer. Nesse caso a ideia é utilizá-la não apenas para melhor entendermos essa teoria, como também para buscarmos eventuais generalizações. ‘Geometria não-comutativa’  ***********************************************************************************

Heurística  é um método criado com o objetivo de encontrar soluções para um problema.   É um procedimento simplificador (… embora não simplista) que  —  em face de questões difíceis, envolve a substituição destas por outras de resolução mais fácil – a fim de achar respostas viáveis, ainda que imperfeitas.

A capacidade heurística é uma característica humana que pode ser descrita como a arte de descobrir, inventar ou resolver problemas, mediante a experiência (própria ou observada), somada à criatividade e ao pensamento lateral, ou pensamento divergente. Como descrito acima…seja de forma deliberada ou não, heurísticas são procedimentos utilizados quando um problema a ser encarado é por demais complexo… – ou traz informações incompletas.

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979... (s/ diploma)
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Uma resposta para A ‘transcendência imanente’ em Nietzsche

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