A permanência do ‘método histórico’ em Spinoza

 “As coisas nos parecem absurdas quando delas só temos um conhecimento parcial; pois somos ignorantes da ordem e coerência da natureza… como um todo”. (Baruch Spinoza)

Francisco Alcântara Nogueira nasceu em Iguatu – Ceará, no dia 15 de abril de 1918…e faleceu em Fortaleza, a 26 de março de 1989. – Numa época em que educação era um privilégio … foi, em 1935 ao Rio de Janeiro… concluir sua educação superior… onde logrou bacharelar-se em Direito… na antiga ‘Faculdade Nacional do Brasil’…hoje UFRJ… – na Praia Vermelha… Urca.  Adepto do “racionalismo crítico“, encarnou a figura do livre-pensador, rumo à verdade, em sua vida & obra.

Alcântara Nogueira viveu no Rio de Janeiro por cerca de 20 anos, onde conheceu o ilustre conterrâneo Clóvis Beviláqua, de quem se tornou grande amigo… Retornando a Fortaleza, em 1963 – ingressou como professor na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), e na Faculdade de Filosofia do Ceará (hoje “Centro de Humanidades”)…Até sua morte, em 1989, publicou, entre vários artigos e livros… “Opúsculo de Filosofia”, com dissertações sobre o pensamento de Spinoza… “Spinoza e Descartes”… “Das paixões, e da moral segundo Spinoza”, “Deus na concepção de Spinoza”, “Tratado de filosofia racional”, “O método racionalista-histórico em Spinoza” – na edição comemorativa… dos 300 anos de morte de Spinoza…e “Poder e Humanismo”, relacionando Spinoza, Feuerbach e Marx.

Antes de falecer, em 26 de março de 1989, Alcântara Nogueira comunicou através de    um bilhete, que tinha enviado para a Editora Forense no Rio de Janeiro o original do  seu (último) livro… – “Direito…origem e evolução” – prefaciado…pelo grande jurista cearense Paulo Bonavides… – Infelizmente, até hoje (2011)…o livro não foi publicado. 

albert_einstein_fraseSobre suas ideias – desde seus primeiros anos de juventude — Alcântara Nogueira tentou estruturar seu pensamento — por meio do estudo das… “ciências naturais”. Influenciaram seu ‘pensamento’ … desde Lamarck, Darwin, Mendel, Huxley — até influências outras… — como Farias Brito (filósofo cearense)… e, os pré-socráticos, como Parmênides, Heráclito, Demócrito, além do revolucionário Giordano Bruno,      e do mestre Spinoza, seu grande mentor.

A influência decisiva de Spinoza, veio no seu tratado de filosofia racional…“O Universo”. Após a sua elaboração…as ideias do filósofo cearense começaram a ser atraídas por uma visão política da realidade. A Metafísica de Spinoza servia de ‘arcabouço’ a novas ideias, que procuravam levar o Homem para um caminho de libertação…não apenas mental ou intelectual, mas também social…conduzindo-o a uma posição contrária à exploração do homem pelo homem. – Daí, dirige-se então ao “socialismo“…mas rejeitando o chamado comunismo ortodoxo stalinista – com sua ditadura partidária…e, culto à personalidade.  Para isto, cita uma passagem de Marx em apoio a sua opinião, cujo artigo, publicado na “Revista Comunista”, em setembro de 1874… quando já havia se afastado de Feuerbach, foi descoberto… – e reeditado por Karl Grünberg em 1921… – O artigo começava assim:

“Nós outros não somos comunistas que renegam a liberdade pessoal e querem fazer do mundo um grande quartel de trabalhos forçados… É certo que existem comunistas que renegam a liberdade pessoal… — porque consideram que esta obstaculiza a harmonia; entretanto, nós outros não desejamos conquistar a igualdade a expensas da liberdade”.

Isto significa que Marx não era partidário de se implantar o socialismo a qualquer preço, sacrificando a liberdade. – O próprio Lênin dizia… em 18 de janeiro de 1914, que não era partidário de se implantar o socialismo pela imposição, contra a vontade do povo… – No entanto, após assumir o poder em 1917… gradativamente foi mudando de opinião – pois considerava a Rússia uma fortaleza sitiada… — “dentro da qual, nenhuma oposição…por mais frágil que fosse, podia ser tolerada” (Isaac Deutscher “O Profeta desarmado” 1984).

Alcântara Nogueira portanto, era um marxista não ortodoxo. Aceitava algumas teses marxistas – como a origem social das ideias… mas, rejeitava o catecismo bolchevista unipartidário, com opressão e repressão à liberdade…características do “comunismo    real”…tanto soviético (Stalinista), como chinês (Maoista)…ou de qualquer outro tipo.

“O MÉTODO RACIONALISTA-HISTÓRICO EM SPINOZA”                                                        ‘Em Spinoza, o homem está rigorosamente inserido na sociedade                                            como “ser objetivo”…realizando, na prática, sua própria História’.

Seu trabalho de maior relevância… na opinião do próprio Autor é seu livro “O método racionalista-histórico em Spinoza”… – prefaciado por Miguel Reale e publicado em 1976… obra comemorativa dos… — trezentos anos… — da morte de Spinoza. Nela, Alcântara, além de determinar as raízes do pensamento do filósofo holandês, defende a tese de que o racionalismo de Spinoza não foi “puro”, do tipo cartesiano ou clássico, mas um híbrido… “racionalismo realista”…dinâmico, histórico… e, por vezes…também dialético. – O grande jurista brasileiro, e ministro do ‘Trabalho e Previdência Social’…do gabinete parlamentarista do governo João Goulart, Hermes Lima, amigo de Alcântara Nogueira – escreveu um breve artigo…sobre seu livro. Além disso, lhe dirigiu uma carta…de 8 de outubro de 1976…a qual, reproduzimos a seguir:

“É um livro (O Método Racionalista-Histórico em Spinoza) maduro, denso, em que você, estudando o método histórico-racionalista de Spinoza, contrasta sua interpretação…a de outras autoridades…para chegar à conclusão, que no filósofo, a ‘historicidade da razão’ é por ele conhecida e proclamada… – Nesse sentido…os dois capítulos finais são decisivos. De fato, o estado de natureza no homem dotou-o de um equipamento biológico-psíquico que o estado social desenvolve, condiciona…e, até dirige; mas constitui o dado primitivo com que ele entra na sociedade…Você mostra que Spinoza viu isso com absoluta certeza.  E esta é a novidade de seu livro. De sua análise do método do filósofo, o caminho da sua racionalidade. Assim, diz você muito bem, o homem conserva no seu estado social certa parte do estado de natureza. Aí meu caro Alcântara, a gente poderia dizer que o homem     é natural e construído. – Bem… o livro é seu título de cidadania na cidade dos filósofos”. [assinado] Hermes Lima.

Spinoza, há mais de 200 anos, é considerado…na História do Pensamento, um panteísta imanente que adotou o método racionalista clássico na construção de seu sistema. Isto é afirmado pela quase totalidade de seus intérpretes… – Para eles, o panteísmo spinozista teria raízes diversas… na filosofia grega, no pensamento renascentista (‘Neoplatonismo’)   e, principalmente no judaísmo. – Além dessas raízes, cita-se Descartes – de quem se diz que Spinoza sofreu profundas influências… – e de quem tirou seu “método racionalista”.

CAPÍTULO I: “UNIDADE DE VIDA E PENSAMENTO EM SPINOZA”

Tudo isto era tido e aceito há mais de 200 anos. – Porém, o livro do pensador cearense, além de mostrar o verdadeiro sentido do racionalismo spinoziano, ainda discute várias afirmações tradicionais imputadas ao filósofo holandês, demonstrando em que sentido   são exatas ou falsas. E tudo isso…com autonomia, riqueza de documentação e erudição,   ao invés de se limitar a dizer amém aos intérpretes tradicionais…A tese central do livro afirma que o racionalismo de Spinoza não é “puramente formal”…como o de Descartes, mas é “historicista”, e concebe o homem como um ‘ser social‘… O “método racionalista spinoziano” é dinâmico…meio dialético, ligado à realidade do mundo; seu pensamento historicista…não separado da existência concreta do homem, não se perde numa razão acabada, eterna… imutável e vazia – como sempre acontece ao “racionalismo clássico”.

SpinozaEste 1º capítulo … além de uma biografia de Spinoza, é também um retrato de sua breve vida (1632-1677) mostrando, apesar de toda a perseguição por ele sofrida…uma  perfeita coerência desta, com seu pensamento. Suas ideias foram julgadas heréticas – e como se recusou a se retratar e renegar sua filosofia, foi excomungado pelos judeus. Mas…foi ele próprio quem tomou a iniciativa…Spinoza já havia aos poucos se distanciado do judaísmo, expondo abertamente suas ideias… – desde bem antes de 1656… data de sua excomunhão.

Alguns autores tentam justificar o rigor desta maldição pela sociedade da época, o que ainda é pior… pois apenas mostra que o espírito desse tempo estava contaminado pelo fanatismo, pela teocracia, cegueira…e intolerância religiosa. – E o curioso … é que isto ocorreu em plena Holanda… – país laico…na época, considerado um dos mais liberais.

Spinoza viveu conforme suas ideias… e suas ideias constituíam um sistema – uma visão  de mundo. Assim…no torvelinho das lutas e contradições, o comportamento de Spinoza não só se racionalizou, através de continuado progresso…como quase se confundiu com      a elaboração de sua filosofia. Talvez nenhum outro filósofo haja construído, como ele, a sua ideologia…colocando a investigação do espírito, em consonância à ‘realidade social’    de seu tempo – em plena marcha para o futuro… – que, muitas vezes… iria confirmá-la.

“CAPÍTULO II: “A AUTO-REFLEXÃO EM SPINOZA”                                                                  “Em seu sistema não há lugar para a transcendentalidade                                                          de Deus, muito menos para a criação do nada (ex nihilo)”.

Alcântara Nogueira – no 2º capítulo…procura fazer uma espécie de radiografia do          intelecto de Spinoza – para determinar-lhe o sentido…orientação, e caráter de sua          filosofia. Ao contrário do que teria dito Sócrates (platônico), para quem filosofar é aprender a morrer, Spinoza parte da afirmativa de que filosofar é aprender a viver.              É que Sócrates acreditava numa imortalidade não apenas do ente… “alma” – mas,      numa imortalidade pessoal, vivendo…em consequência, e em função desta. Como        Spinoza não aceitava uma imortalidade de caráter pessoal; rejeitou também toda      espécie de sobrenaturalidade em seu sistema. – Assim, segundo o autor…Spinoza “humanizou” o ‘pensamento filosófico’, exorcizando a “transcendência…do nada”:

baruch_spinoza

Criar do nada significa…criar alguma coisa que para existir não supõe nada antes dela, a não ser Deus. Mas Deus   e o Universo são uma só unidade…E, isso explica por que – tanto a criação única (Big Bang), quanto a pluralista (‘multiversos‘) não podem se ajustar   ‘a rigor’…ao pensamento de Spinoza.

O filósofo holandês naturalizou Deus e humanizou a Natureza… – não no sentido antropomórfico, mas no sentido de rejeitar a forma de… ‘sobrenaturalismo’ – ou, transcendentalidade de um Deus, aceitando o Universo como autor de si mesmo:

“O mundo é ‘auto-subsistente’…O mundo é pai e filho de                                        si próprio. Deus e Mundo são uma só…e mesma coisa”.

Por consequência, esse naturalismo do ‘pensamento spinoziano‘ é contrário a qualquer intervenção nas leis da natureza (daí a rejeição do “milagre”, por ser contrário às leis de Deus), pois admite, como o próprio filósofo o diz…“a ordem fixa e imutável da natureza,     ou concatenação das coisas naturais”… que Spinoza chama “governo de Deus”. Por isso,     o autor resumiu em dois – os fundamentos que predominam no…”sistema spinoziano”:

1º)  o sentido naturalista, incompatível com toda e qualquer ideia de ‘sobrenaturalidade’, visa conceber o universo como uma realidade identificada com Deuspermitindo assim explicar numa equipotência, os termos essenciais da estrutura do panteísmo spinoziano;

2º)  a compreensão dessa unidadeou, o que dela decorre – através da valorização do entendimento, oferece à razão não só a condição de elemento imprescindível mas, também o instrumento que permite ver o intelecto como expressão dinâmica, capaz        de aperfeiçoamento – fundamento ao qual se prende o “método spinoziano” como a verdadeira ‘espinha dorsal’ de seu sistema…a razão fazendo progredir e se historicizar.

Spinoza não é um representante das elites burguesas da época, ou do liberalismo eclodido no seio da burguesia dos séculos 17/18, e filiado ao ‘racionalismo clássico’…pelo contrário, Spinoza liga o poder ao povo, considerando a massa, elemento primordial na organização da sociedade política…Realça que é pelo trabalho que os homens alcançam o seu conforto.  Partidário da democracia, na forma republicana de governar, justifica isso, por uma igual natureza para todos, só se diferenciando no poder e cultura. — Considerando a “soberba”, própria de todos que dominam… defende um “Conselho”, com membros periodicamente eleitos (máximo 5 anos), a fim de limitar seu próprio poder ao contrário da monarquia.

Alcantara Nogueira termina este capítulo, demonstrando que o sistema de Spinoza caracteriza-se como uma filosofia … que busca a compreensão da vida em toda sua plenitude, alcançando uma ética onde o bem é tudo o que conduz à vida… – e o mal,           tudo o que leva à morte… A vida é a solução dos problemas; e não fim de todos eles.

CAPÍTULOS III E IV: “AS RAÍZES DO PENSAMENTO DE SPINOZA”                                      Não consta em nenhum documento histórico … que Spinoza possa ter                                exercido o ‘sacerdócio’…como pois, poderia fundar uma nova religião?

É tema por demais polêmico determinar as raízes do pensamento spinoziano…Aqui, Alcantara Nogueira discute quase tudo o que disseram quase todos os estudiosos de Spinoza – acerca dos ‘problemas e influências’ concernentes à filosofia do pensador holandês… – rejeitando…a esse respeito… o caráter místico, ou religioso de Spinoza.  Retruca o autor, que…se o objetivo de Spinoza fosse religioso – por que se colocaria      contra o judaísmo; ou não ingressou numa das várias seitas protestantes liberais da Holanda na época?… Ou ainda…por que não fundou ele próprio uma nova religião?

Tendo como base a liberdade de pensamento, Spinoza elege a natureza como poder supremo (Deus e Universo são uma mesma coisa), e aproxima o homem do próprio homem, para quem nada existe de mais útil do que seu próprio semelhante. – Deus         não é o espaço metafísico de todas as coisas, mas essência ativa, dinâmica…“Deus é             o mesmo que natureza”. – Nisto se resume o caráter de seu pensamento humanista.

Por ter sido intérprete da Bíblia, Spinoza é acusado de ser místico…Spinoza realmente foi esse intérprete, mas num sentido crítico-histórico, e não místico-religioso, como o faziam os rabinos ou quase todos os exegetas hebreus, que não perceberam o sentido naturalista-realista do filósofo de Amsterdam…cujo método visava apenas alcançar a realidade como forma de conhecimento objetivo, e não como uma forma aleatória de “sobrenaturalidade”.

Para isso, basta que se grife em Spinoza sua oposição à aceitação das profecias pelos sonhos, ou astrologia devidos à…Providência…o que para ele não tem sentido, pois          de acordo com odeterminismo naturalista‘ de SpinozaDeus é imanente‘.

Um judeu… que supostamente teria exercido enorme influência sobre Spinoza… foi Hesdai Creskas, autor de ‘Or Adonai‘ … (“Luz de Deus”).

Alcantara Nogueira admite ‘alguma influência’… por algum tempo, mas com destinos diferentes. – Creskas, diz que…de acordo com Spinoza, se fizermos uma busca de ‘causas’, até  o infinito, tudo na natureza é efeito de uma causa; portanto, nada pode existir – por sua ‘própria natureza’.

Mas, Spinoza retruca, que este argumento não parte do princípio que o infinito não possa existir em ato; ou ainda que para aceitar-se a existência das coisas, ter-se-ia de recorrer a uma busca infinita… – mas sim…do princípio que – coisas que não podem existir por sua própria natureza, não podem existir por causa de outra que existe por si mesma. Spinoza    afasta-se de Creskas…ao aceitar a existência da substância (res) por sua própria natureza, bem como unicidade e indivisibilidade. Tal indivisibilidade, se aplica ao mundo corporal, cuja extensão é tão vasta, como um “campo contínuo de forças” que rege o espaço; o que vem negar a existência do vazio – ponto de vista que…em parte… coincide perfeitamente com a moderna “física quântica”… – pelo menos no que tange às… “flutuações de vácuo”.

Se ambos caminham juntos para rejeitar a criação “ex nihilo” (do nada)…é para abolir a ideia de que o nada seja capaz de gerar algo. Como já diziam os gregos… – “nada pode sair do nada… e nada por ser revertido ao nada”. 

O espírito de Spinoza leva em conta a devoção pela verdade – para ele … entre a fé (teologia) e a razão (filosofia)…não há comércio ou afinidade. O milagre não existe        porque vai de encontro às leis naturais…e tudo o que é contrário à razão é absurdo.          Ele não tinha orientação mística ou religiosa…pois não aceitava arrependimento e humildade como virtudes (positivas) da religião. Dizia ele que “Temor, humildade, arrependimento e esperança são usados…apenas para levar submissão aos povos”.

“Há, primeiro, o infinito, e dizer primeiro é ainda impróprio, porque o infinito produz, e produz infinitamente; e o infinito sabe que produz, e o que produz, assim como também sabe que se reproduz. Esse infinito…que produz (e se reproduz) infinitamente, se chama Deus, Substância…ou Natureza”. (Baruch Espinosa). Como se pode ver…jamais Spinosa humanizou Deus e sua existência, pois para ele… “Deus afirma-se na mesma eternidade  da Natureza. Não são 2, Deus e Natureza, mas Um, que não foi, ou serápois apenas é”.

Spinoza não era um incrédulo que acreditava na revelação, mas um defensor irresoluto  da ‘razão’. Para ele, meditar sobre a vida…é o caminho da libertação. E ele assim, liberta-se da divina transcendência. O entendimento de Deus e as coisas entendidas por Ele são uma, e mesma coisa (assemelha-se com o próprio Aristóteles, na ‘Metafísica’, ao afirmar que Deus pensa o próprio pensamento)…“Se a verdade sobre as coisas…e conhecimento dessa verdade…são coisas diferentes…e, por outro lado se Deus conhece toda verdade (com sua onisciência), então a proposição…“Deus conhece toda verdade”, se verdadeira, não está dentro do entendimento de Deus. E não estando, então é falso dizer que “Deus conhece toda verdade” E, se continuarmos nessa linha de raciocínio…dizendo que: “é verdade que Deus conhece toda a verdade” … — cairíamos em uma progressão infinita”.

Embora esse problema seja seríssimo para quem gosta de raciocinar para além do infinito, em Spinoza ele não existe – porque o filósofo holandês rejeitou a ‘transcendentalidade’ de Deus… – E fazendo isso, não houve mais separação entre Deus e as coisas, desaparecendo consequentemente o dualismo entre as coisas, e o conhecimento sobre elas, isto é, entre a verdade e o conhecimento da verdade. — Portanto, em Deus, conhecimento e verdade são uma só, e mesma unidade… — E, ainda sobre issoAlcantara Nogueira também comenta:

“Diante dessas considerações, podemos concluir dizendo que…assim como as águas de inumeráveis riosalimentadas por outras tantas correntes líquidas, das mais variadas procedências, que primeiro estiveram individualizadas… – para depois…se unificarem, indissoluvelmente, na constituição de grandes massas oceânicas, também em Spinoza,    as inspirações que teve (originárias de variadas fontes), fortemente se fundiram numa unidade de pensamento… – sem mais se confundir com os elementos primitivos, para criar… – numa formulação completa… – uma nova doutrina… – vigorosa…e…original”.

Para completarmos a imagem de Alcantara Nogueira, podemos dizer, por exemplo… que a água é composta por 2 elementos (hidrogênio e oxigênio) que em nada se parecem com ela – tendo esses elementos propriedades gasosa e inflamável…mas uma vez unidos num todo, este assume propriedade qualitativamente diferente…formando uma organicidade de nível superior. Em suma, a doutrina de Spinoza não é uma eclética colcha de retalhos, mas ‘coerente sistema original’… distinto de cada influência em particular que absorveu.

CAPÍTULO V: “RAZÃO DINÂMICA E DIALÉTICA EM SPINOZA”                                            Alcantara Nogueira faz um estudo de vários pensadores marxistas…a respeito de Spinoza, onde observa que poucos conseguiram penetrar mesmo de leve no cerne           de seu pensamento. Os marxistas russos, em geral…concordam que o spinozismo               é um “materialismo”, sem mais progredir sobre a definição desse “materialismo”.

É comum de se dizer que Spinoza foi um racionalista puro… mero continuador do racionalismo cartesiano…. Racionalismo este igual ao dos iluministas dos séculos 17 e 18, ou ainda, como o de Platão…um pensamento longe da realidade concreta e histórica … produzida pelo homem. As ideias de Platão, com efeito, antecediam ao…’mundo físico sensível’ — imperfeita projeção … no espaço-tempo observável.

Nesse ‘Ideal’… a razão é tida como algo fixo, independente do real e concreto, e incapaz de progresso. O homem não participa do progresso…do evoluir histórico. Todo progresso em verdade não é progresso do homem, ou da razão humana…mas etapas de manifestação de um Espírito ou Razão extra-mundo, no tempo e na realidade. Este é o ‘racionalismo puro’, que exige apenas condições lógicas para algo ser real. E sobre isso diz Alcântara Nogueira:

“Em todas as épocas o que se chamou de racionalismo no sentido rigoroso da expressão, procurou alcançar o conhecimento através da concepção de que o mais forte argumento estava estruturado como forma de raciocínio…que dispensava limitações condicionadas aos dados da ciência…e especialmente ao tempo, como fator crucial ao aperfeiçoamento    (e evolução) deste conhecimento. Desde que atendesse regras que não pecassem contra      a lógicao raciocínio se bastava para atingir todo saber; sendo tudo o mais, mera ajuda complementar…O raciocínio assim, não pressupunha outro instrumento, que não o seu próprio…’poder criador’…em torno do qual tudo teria que acomodar-se, ou explicar-se”.

Além de não ser um racionalista puro, Spinoza também é dialético em seu pensamento, como diz Engels, ao citar a conhecida frase…“toda determinação é uma negação”Tal afirmação está, originalmente, numa carta de Spinoza a seu amigo Jarig Jelles…datada     de Haia, 02/06/1674… – “Todo ente real é limitado, e portanto envolve negação…uma separação deste ente dos demais entes que o cercam…Quando digo ‘isto é uma árvore’, implicitamente nego que seja homem, gato, pedra, ave, etc…Por isso, não há ser finito     que não traga em si sua própria negação (no sentido de … limitação … determinação)“.

CAPÍTULO VI: “PROGRESSO SOCIAL E HISTORICIDADE EM SPINOZA”                            Spinoza não rompe com o ‘estado de natureza’, mas o conserva na sociedade civil, onde cada homem deve lutar por uma vantagem própria, visando sua ‘justa’ autopreservação.     

Aqui, após estudar ideias de alguns autores em relação ao “pensamento historicista” de Spinoza – Nogueira procura determinar a verdadeira natureza desta historicidade. – O racionalismo de Spinoza é nada mais do que um método de uso da razão, para alcançar        o saber – mas, sem desprezar a experiência histórica do homem… em seu todo cultural.

rousseau, locke, hobbes

Quanto à origem da sociedade civil – Spinoza não parte das doutrinas contratualistas e abstratas de um Hobbes, Locke ou Rousseau, que fazem com que os homens se tornem civilizados de um momento para outro após celebração de um alegórico contrato social. Para Spinoza, não há oposição entre ‘estado de natureza’ e ‘estado civil’, mas sim…uma continuação daquele neste. Isto é, o homem permanece na sociedade civil guiado pelos mesmos ditames egoístas com que agia no estado natural…como parte do seuconatus‘.

Como os homens – de modo geral, agem irracionalmente – existem conflitos na ‘sociedade civil’, e cada um deve defender seus interesses; mas, se agissem racionalmente, o interesse de cada umnão seria incompatível com o interesse do coletivo…  “Logo…se o estado de natureza não se define pela razão (como pretendem Hobbes, Locke e Rousseau), no estado civil verifica-se o mesmo, sendo que o direito do homem será proporcional ao maior poder que ele obtenha quando se associar aos outros homens, e portanto, maior será a sua força”.

Um homem só, isolado, não tem direitos, pois estes são de natureza social. Mas, ao viver em comunidade, adquire direitos, e tais direitos aumentam com o poder da comunidade.   E, o homem será tão mais livre, quanto mais racionalmente agir na sociedade. Mas, para compreender o homem é preciso enxergar toda sua extensão, e uma delas é sua História, porque é lá que…verdadeiramente… ele se encontra… – realizando-a … e modificando-a.

CONCLUSÃO                                                                                                                                        A moral é da maior importância – para nós, porém… não para Deus”.

O pensamento historicista de Spinoza procura compreender o homem em todos seus aspectos – razão e ação… Sua razão cresce, com o aperfeiçoamento dos instrumentos       de ação, e estes com aquela, numa interação (ou ‘processo dialético’) que se dirige ao progresso humano. O intelecto forma seu instrumento de trabalho — como acontece     com as mãos, que constroem seus utensílios…E assim explica Spinoza esse processo:

“Assim como os homens, de início, conseguiram – ainda que com grande dificuldade (e imperfeitamente) fabricar com instrumentos naturais certas coisas fáceis; e feitas estas, fabricarem outras mais difíceis… – já com menos trabalho e maior perfeição e assim, progressivamente – das obras mais simples…aos instrumentos… e dos instrumentos, a outras obras e outros instrumentos — chegaram a fabricar, com pouco trabalho, coisas    tão difíceis… assim também a inteligência… pela sua força natural…fabrica para si instrumentos intelectuais com os quais ganha outras forças, para outros experimentos intelectuais” (“Tratado da reforma da inteligência” trad. Lívio Teixeira S.P. /1966).

Spinoza, pois, com seu método racionalista, na verdade, não rompe com o passado, com a historicidade, com a ‘condição do gênero humano’, nem apela para um racionalismo puro, logicista, que despreza a experiência. O ‘racionalismo spinoziano’ é apenas um método…o uso da razão para buscar o conhecimento… porém, sem deixar de lado o mundo prático, a historicidade do homem, e sua condição de membro participante de um todo cultural por ele criado. O trabalho sobre o qual acabamos de discorrer – é importante, não só pela sua independência, e originalidade – como tambéme sobretudo – por sua contribuição aos estudos de Spinoza, e sua arrojada filosofia, em um tempo de muitos perigos. (texto base) *******************************(Diálogo Metafísico)*********************************  Spinoza said… – “In nature there is nothing contingent… but all things are determined   from the necessity of the ‘divine nature’… – to exist… – and act… – in a certain manner.”

Einstein conclude… – “Most philosophers try to construct a… ‘philosophy of the man’… within nature… – while Spinoza… – built a…’philosophy of Nature’… – inside the man.”  ***********************************************************************************

MENSAGEM DE DEUS, SEGUNDO BARUCH SPINOZA

“Pare de ficar rezando e batendo no peito! O que quero que faça é que saia pelo mundo,      e desfrute a vida. Quero que goze, cante, divirta-se… e aproveite tudo o que fiz pra você.

Pare de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que você mesmo construiu,                    e acredita ser a minha casa!…Minha casa são as montanhas, os bosques, os rios,                  os lagos, as praias, onde vivo e expresso Amor por você. Pare de me culpar pela                sua vida miserável! Eu nunca disse que há algo mau em você, que é um pecador                  ou que sua sexualidade seja algo ruim…O sexo é um presente que lhe dei, e com                    o qual você pode expressar amor, êxtase, alegria; não culpe o que o fizeram crer.

Pare de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo!                            Se não pode me ler num amanhecer, na paisagem…no olhar de seus amigos,                          nos olhos de seu filhinho… – Confie em mim…e deixe de me dirigir pedidos!

Pare de ter medo de mim! Eu não o julgo, nem o critico, não me irrito…me incomodo,          ou castigo. Pare de me pedir perdão! Não há nada a perdoar. Se o fiz, eu é que o enchi        de paixões, limitações, de prazeres…sentimentos…necessidades e incoerências… de    livre-arbítrio – Como posso culpá-lo – e castigá-lo por ser como é – se eu o fiz?

Esqueça qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei, que são artimanhas para manipulá-lo, para controlá-lo, que só geram culpa em você!Respeite seu próximo, e          não faça ao outro o que não queira para você!Preste atenção na sua vida!…Esta vida      não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, ou um prelúdio para o paraíso. Esta vida é só o que há aqui e agora…e só de que você precisa.

Eu o fiz absolutamente livre. Não há prêmios, nem castigos. Não há pecados, nem virtudes. Você é absolutamente livre para fazer da sua vida um céu ou um inferno.

Não lhe poderia dizer se há algo depois desta vida…mas posso lhe dar um conselho:        Viva como se não o houvesse, como se esta fosse sua única chance de aproveitar, de        amar, existir…Assim, se não houver nada, você terá usufruído da oportunidade que            lhe dei. E, se houver, tenha certeza de que não vou perguntar se você se comportou,            ou não. Vou perguntar se você gostou, se divertiu, do que mais gostoue aprendeu.

Pare de crer em mim! Crer é supor, adivinhar, imaginar…Eu não quero que você acredite em mim, quero que me sinta em você. Pare de louvar-me!…Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que me agradeçam…Você se sente grato? Demonstre-o cuidando da sua saúde, das suas relações – do mundo… – Expresse sua alegria!… – Esse é um jeito de me louvar.

Pare de complicar as coisas, e de repetir como papagaio o que o ensinaram sobre mim!        A única certeza é que você está aqui – que está vivo … e que este mundo é maravilhoso.      Para que precisa de mais milagres?…para que tantas explicações? Não me procure fora. Não me achará… Procure-me dentro de você. – É aí que estou… batendo em ti.” (texto) *********************************************************************************

A “permanência do método”…em Spinoza                                                                        “Toda experiência histórica confirma – que não teríamos alcançado o possível,                       se acaso não tivéssemos, repetidas vezes, buscado o impossível”. (Max Weber)

Benedito (Baruch) Spinoza, filósofo holandês do século XVII… assumiu de uma forma radical o racionalismo de Descartes, desenvolvendo, através do monismo, a existência     de uma substância única formadora do Universo. Dessa forma, adota o panteísmo das religiões orientais, caracterizando universo e natureza como extensões do Ser de Deus.  Este sistema é representado por ‘mônadas(Leibniz), substâncias simples, indivisíveis, indestrutíveis, que compõem todas coisas no cosmo…dando origem a si mesmas. Para Spinoza, a lei máxima da realidade é a “necessidade”… e tudo o que ocorre nela…se dá através de uma união de Deus com o Universo. Desse modo, o Deus de Spinoza é uma substância, pela qual, tudo no universo, ocorre de uma forma irreversível. (texto base) ********************************************************************************

EINSTEIN: ACREDITO NO DEUS DE SPINOZA                                                                  “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo                    o que existe… — e não, no Deus que se interessa pela sorte e ações dos homens”. 

einsteinAlbert Einstein, físico alemão de origem judaica que dispensa apresentações, quando, em 1921, perguntado          pelo rabino H. Goldstein…de New York…se acreditava          em Deus, respondeu acreditar no“Deus de Spinoza”.          Nesta mesma ocasião, o cardeal O’Connel…de Boston, publicou uma declaração onde dizia que “a teoria da relatividade encobre com um ‘manto’ – o horrível ‘fantasma do ateísmo’ – e obscurecendo especulações, produz dúvidas universais…sobre Deus e sua criação”.

Posteriormente, em uma carta escrita em Berlim a um banqueiro do Colorado, datada de  5 de agosto de 1927, Einstein explica que “não consigo conceber um Deus pessoal que influa diretamente    sobre as ações dos indivíduos…ou que julgue diretamente…criaturas por Ele criadas.      Não posso fazer isto, apesar do fato de que a causalidade mecanicista foi — até certo    ponto, posta em dúvida pela ciência moderna. Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração pelo espírito infinitamente superior, que se revela no pouco que      nós…de posse de fraca e transitória compreensão…podemos entender da realidade”.

No artigo “Religião e Ciência”, que faz parte do livro Como vejo o mundo, publicado em alemão em 1953, Einstein diz: “todos podem atingir religião, num último grau, raramente acessível em sua pureza total. Chamo isto de ‘religiosidade cósmica’ e não posso falar dela com facilidade, pois se trata de uma noção muito nova… à qual não corresponde qualquer conceito de um Deus antropomórfico… Exemplos desta ‘religião cósmica’ são notados nos primeiros momentos da evolução, em alguns ‘Salmos de Davi’, ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado…o budismo organiza os dados do cosmosOra, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por tal religiosidade, ante o cosmos, sem dogmas nem deus, concebido à imagem do homem…assim portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica Temos também a impressão de que hereges…de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Todavia seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo – bem como…às vezes, também, de santidade. – Conforme este ponto de vista, homens como Francisco de Assis, Demócrito, Giordano Bruno…e Spinoza…dentre outros…se assemelham profundamente”.

E para concluir, no artigo “A religiosidade da pesquisa”, do mesmo livro, Einstein defende que “o espírito científico firmemente armado em seu método, não existe sem religiosidade cósmica”. Para ele a religiosidade do sábio consiste em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza revelando uma inteligência superior a todos pensamentos humanos; tal que todo seu engenho não pode se desvendar, a não ser um nada irrisório. Tal sentimento desenvolve assim a regra dominante de sua vida (a coragem)…na medida em que supera a servidão dos…”desejos egoístas”. — Indubitavelmente, este sentimento se compara ao que animou aqueles “espíritos criadores religiosos” em todos os tempos. (texto base jun/2012)  *****************************(texto complementar)*********************************

Perspectiva prigoginiana para uma ‘historicização’ da ciência                                  As noções de processo e estrutura, devem fazer parte da descrição física                                dos sistemas complexos da natureza como forma de não torná-la estéril.

coraisEm seu artigoEl redescubrimiento del tempode 1992… Ilya Prigogine afirmou que “a lógica dos processos irreversíveis – de sistemas longe do equilíbrio… é uma lógica narrativa”. Isto porque – para ele…um sistema longe do equilíbrio – se desenvolve por uma sucessão de instabilidades    e ‘flutuações ampliadas’… seguindo um ‘diagrama de bifurcações’, num caminho que constitui, por assim dizer, um processo. Dessa forma, a atividade coerente que caracteriza uma “estrutura dissipativa”…é, em si mesma…uma “ação histórica”, desencadeando uma “reativação mútua” entre os acontecimentos locais, e a emergência    de uma coerência global…integradora da multiplicidade dessas mesmas histórias locais.

Assim como nos pontos de bifurcação, ao escolher entre as várias possibilidades…o sistema citado gera uma narrativa histórica… nesse processo, a irreversibilidade do    tempo tem um papel construtivo importantíssimo. — De acordo com Prigogine…“a irreversibilidade, associada à ‘flecha do tempo’ é um elemento crucial da existência humana, por pressupor uma diferença intrínseca entre o passado e o futuro”…Essa propriedade foi estendida à natureza, onde…segundo a abordagem prigoginiana, a      quase totalidade dos fenômenos possui a “irreversibilidade”, e a “flecha do tempo”.

Compartilhando conceitos como assimetria temporal e caráter evolutivo…o papel criativo da irreversibilidade na flecha do tempo…impôs – no interior das chamadas…”Ciências da Natureza”, a percepção de descrevermos uma…”natureza histórica”…capaz de inovação e, desenvolvimento. Nas atividades dissipativas, com efeito, a atividade química inscreve-se na matéria, formando novas estruturas (dissipativas)… e criando moléculas capazes de se transformarem em protagonistas de novas histórias. A articulação entre Físico-Química e Biologia, “não passa de uma historicização das possibilidades físico-químicas da matéria”.

A física prigoginiana, na verdade, situa o… “tempo irreversível”… como fundamental na constituição de uma visão científica da natureza, considerando que cada ser complexo é formado por uma pluralidade de tempos, ramificados uns nos outros pelas articulações múltiplas e sutis que pode estabelecer. – Desse modo, a história…como processo de um    ‘ser vivo‘ ou de uma sociedade, nunca poderá ser reduzida à simplicidade monótona de um tempo único. E nesse sentido, o posicionamento de Prigogine é bem claro… “não há ciência nem cientistas separados do processo histórico”…As ‘temporalidades’ presentes      em todos os níveis da natureza ressaltam a historicidade como “propriedade intrínseca”    a esse processo. A descoberta de estruturas que podem ser físicas, químicas, biológicas, geológicas, históricas leva à percepção do processo. No caso de Prigogine, a descoberta, por exemplo, das estruturas dissipativas trouxe à tona o processo evolutivo/criativo de  um irreversível fenômeno temporal, histórico, inscrevendo a historicidade na natureza.

fenômenos irreversíveis

De acordo com a abordagem de Prigogine, a evolução de um sistema complexo, e aberto, não totalmente…previsível… – representa a relação entre a ‘criatividade’ nos fenômenos naturais…e a sua sensibilidade às condições iniciais. Com isso, nos estudos dos sistemas longe do equilíbrio … os físicos perceberam, que os fenômenos irreversíveis na natureza fundamentam a ação construtiva do tempo.

O tempo irreversível, presente nos níveis fundamentais e cosmológicos é o fio condutor da historicidade…Por sua vez, a historicidade é uma propriedade da realidade, seja qual for a realidade que nossa racionalidade subentender… – a física, a humana, a psicológica… Isso acarreta que tudo é perpassado e fundamentado pela condição, e pelo contexto histórico… Por conseguinte, a História da Ciência tem nos mostrado, de acordo com essa perspectiva, que não podemos descrever a natureza do exterior… como simples espectadores… pois tal comunicação está submetida a coações, que nos identificam como seres…no mundo físico.

Prigogine e a química filósofa Isabelle Stengers nos fornecem a pista para entendermos melhor a relação sujeito/objeto. Há dois níveis dessa relação evocados pelos autores…o epistemológico e o ontológico. No campo epistemológico, o conhecimento ocorre como uma construção fluente advinda de um diálogo com a natureza. As questões abordadas pelos cientistas são questões do seu tempo, e não eternas…se algumas delas se repetem eternamente é porque talvez não a compreendamos racionalmente em sua completude,    e, por isso, estão presentes em vários momentos diferentes. – A ciência é resultado não    só de uma…”interação” – mas também de uma “participação” com a natureza… em um determinado momento histórico. Não se trata de “revelação atemporal” dessa natureza.

As teorias físicas pressupõem a definição das possibilidades de comunicação com a natureza, na descoberta das questões por ela subtendidas – a menos que sejamos nós          a não podermos compreender suas respostas a esse respeito…A própria natureza dos argumentos teóricos – pelos quais explicitamos a nossa posição das descrições físicas, manifesta o duplo papel…de ator e espectador…função que passa a nos ser destinada.

Da relação sujeito/objeto                                                                                                          No campo ontológico, a visão prigoginiana nos indica que sujeito e objeto                          são indissociáveis… E o elemento essencial para essa conexão…é o tempo                      irreversível, condição indispensável para as… “histórias possíveis”. Dessa                        forma – ontologicamente – a irreversibilidade temporal possibilita…uma                          relação complexa inerente entre sujeito/observador…e objeto/observado.

edgar-morin1Ultrapassar essa oposição, mostrando que daqui em diante ‘conceitos físicos’ contêm referência ao observador, não significa sua caracterização conforme a uma visão biológica, psicológica, ou filosófica do sujeitoMas a coerência leva a saber se a Física pode trabalhar com tal propriedade, tanto no mundo micro, como no mundo macroscópico.

De acordo com a ‘irreversibilidade’, a distinção entre passado e futuro é indispensável para que, epistemológica e ontologicamente … a relação entre sujeito e objeto seja indissociável. Tal distinção é mais bem notada na consciência — já que esta é constituída pela…memória, pensamento, e sentimentos…essencialmente formados pela temporalidade. Lembramos que pela “perspectiva prigoginiana”…em sistemas instáveis longe do equilíbrio…nos quais domina a…irreversibilidade – a matéria ‘‘… – ou seja – ela reage…escolhe…participa.

Não estamos sugerindo que a ‘matéria‘ tem mesma percepção e comportamento que a consciência humana, nem Prigogine disse algo parecido. Apenas afirmamos, com base      em suas teorias, que matéria não corresponde à imagem mecanicista construída sobre      ela… E foi o “mecanicismo” quem idealizou a oposição entre “matéria” e “consciência”.

Da visão científica de Prigogine ressalta-se a “perspectiva” de uma relação muito mais profícua entre…Física e História… advinda entre outras coisas – da “temporalidade” e “historicidade” na natureza…Esse “diálogo interdisciplinar” – por meio de analogias e metáforas, busca compreender a realidade no modo complementar desses elementos, fundamentais ao conhecimento adquirido.

Conforme o filósofo francês Edgar Morin, complexus significa o que foi tecido em conjunto. É um tecido de “constituintes heterogêneos inseparavelmente associados,        uno e múltiplo… – onde acontecimentos, ações, interações, determinações e acasos constituem o nosso mundo fenomenal”.  Em sua abordagem, somente há, de fato, complexidade, quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo.        Por isso… em sua visão, a complexidade é a união indissociável entre a unidade e o múltiplo. Morin chamou a atenção para o ‘reducionismo’, presente por exemplo na fragmentação do conhecimento…Segundo tal abordagem, a complexidade podia, e          devia se resolver com base em princípios simples…e leis gerais. – “A complexidade    assim, era a aparência do real; e a simplicidade…a sua natureza”. Dessa forma…tal “paradigma da simplificação”, atrelado a leis gerais dariam conta da complexidade.

Eliminando a irreversibilidade temporal… e, tudo que é eventual e histórico, o paradigma da simplificação… se ligaria ao conjunto dos “princípios clássicos”… de inteligibilidade da ciência…simplificando a concepção (física, biológica, e social) do universo…Por sua vez, o paradigma de complexidade representaria os ‘princípios de inteligibilidade’… que ligados entre si forneceriam a complexidade do Universo. Dessa forma, segundo Edgar Morin: “a ‘simplificação’ é um paradigma – alicerçado ao princípio da confiabilidade total da lógica, para estabelecer a verdade intrínseca das teoriassendo toda contradição vista como um erro”. Assim, o ‘paradigma da complexidade’ alicerça-se no ‘princípio da inteligibilidade’, tanto local quanto singular, para o reconhecimento e integração da irreversibilidade do tempo na Física e Biologia. Suas descrições e explicações devem levar em conta a história    e acontecimento dos fatos, de modo que da relação com o sujeito, tal paradigma não se sustenta numa separação do objeto e seu meionem na limitação de suas teorias lógicas.

Na perspectiva de Morin – o saber é um fenômeno multidimensional, porém… “a organização do conhecimento, no interior de nossa cultura, racha esse ‘fenômeno multidimensional’. – E o mais grave, é que tal situação parece evidente e natural”.              Saberes” têm sido separados e esfacelados… – com cada um desses fragmentos ignorando a ‘visão global’ de onde faz parte…Como nosso modo de conhecimento          desune os objetos, precisamos conceber o que os une – sendo este um imperativo,            para a educação criar instrumentos de contextualização/globalização dos saberes.

Conclui-se então que um dos grandes interesses de Prigogine foi a reconciliação entre o mundo físicoe a realidade humana, e consequentemente, a defesa de uma abordagem que não trata o conhecimento das Ciências Naturaiscomo algo separado das Ciências Humanas. Nesse ponto, isso só poderá ocorrer, ao levarmos em conta que tanto o ‘Caos’ (sistemas instáveis sensíveis às ‘condições iniciais’)quanto sistemas termodinâmicos    de não equilíbrio‘…costumam demonstrar uma “metamorfose” na ciência. (texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para A permanência do ‘método histórico’ em Spinoza

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