O fenômeno consciente da ‘percepção subjetiva’

A capacidade de apreensão das coisas por meio dos sentidos, é fundamental                        na formação do conhecimento…Mas como garantir o saber objetivo, e erigir                      uma teoria do conhecimento … se a percepção envolve “objetos subjetivos”?

percepção

Conhecemos o mundo ao redor por meio dos órgãos sensoriais, onde a “percepção sensível, isto é… — nossa capacidade de assimilação das coisas, através da visão, audição, tato… olfato     e paladar… – desempenha um importante papel na formação das nossas crenças…e…’saber’.

Por isso, a percepção tem sido discutida, desde a antiguidade…com inúmeros problemas filosóficos girando em torno dela. – Podemos entendê-la como uma relação entre aquele que percebe e o que é percebido, isto é, entre um organismo com capacidades sensoriais, como o humano, e objetos e eventos do mundo. Na percepção a pessoa informa-se sobre esses objetos ou eventos, e essa informação, então percebida…lhe traz uma ‘experiência’.

Desse modo a fenomenologia envolve uma percepção das ‘qualidades sensíveis’ das experiências que surgem à consciência do sujeito…e que, em ‘Filosofia da Mente‘, denomina-se…’caráter fenomênico‘ do objeto experienciado pelo indivíduo. Como exemplo – ao ver um tomate maduro… a cor vermelha aparece à nossa consciência de    uma certa forma, ou seja, com uma característica qualitativa por mim subjetivamente apreendida. Assim, ao ter a experiência visual do tomate maduro, meu estado mental     tem um caráter qualitativo, que aparece de certo modo à minha consciência. Essa é a ‘consciência fenomênica‘. Daí, surge então a questão sobre o “caráter perceptivo”,    que na concepção ordinária – levando em conta que o…”emergente“…à consciência      diz respeito apenas ao objeto externo…representando a característica de um objeto. 

Contudo, existem argumentos filosóficos defendendo que, as ‘qualidades sensíveis’ comumente atribuídas a objetos, não são suas propriedades … mas sim, caracteres intrínsecos das “percepções“, existindo somente no sujeito. Nesse sentido…a cor vermelha do tomate não está nele; o que implica … que o tomate não é realmente vermelho…uma vez que sua cor estaria apenas… – na “mente” … de quem o vê.

Em contrapartida, outros pensadores defendem “qualidades sensíveis” como propriedades dos…”objetos externos”… – se aproximando assim,    daquela mais tradicional … concepção ordinária de percepção“.

Portanto, de um lado estão aqueles para os quais o caráter fenomênico das experiências perceptivas é explicado por propriedades subjetivas. – De outro…aqueles que procuram explicá-lo por referência a propriedades objetivas. E, em consequência, não se tem uma explicação consensual e satisfatória sobre o que é esse caráter fenomênico, e assim, não sabemos … com total certeza, qual a verdadeira natureza das “experiências perceptivas”.  No debate travado dentro da Fenomenologia entre subjetivistasintencionalistas,      2 teorias filosóficas que representam tais “concepções perceptivas”… – mostra-se como, convergindo e divergindo entre si…e da concepção ordinária de percepção – elas fazem  com o que é evidente ao “senso comum”…possa ser — naturalmente…”posto em xeque”.

arvorea) Subjetivismo

A concepção subjetivista tem predominado na Filosofia desde o século XVII…De modo geral – defende que a…’percepção sensível’ envolve algo mental e privado, só acessível por quem tem a ‘experiência’. – Segundo o filósofo Hilary Putnam, desde então… esse “algo” foi concebido, de diferentes modos, em denominações tais como impressõessensum, etc. Nesta concepção perceptiva,  qualidades sensíveis do objeto não seriam “propriedades objetivas do mundo”…mas, subjetivas – e intrínsecas às ‘experiências’.

Um dos principais expoentes desta teoria foi Bertrand Russell (1872-1970). Russell fazia parte do grupo de filósofos que batizou de “dados dos sentidos”… – àquilo que aparece à consciência de uma pessoa numa ‘percepção sensível‘…De forma geral, esses teóricos     os consideram objetos mentais… não físicos – que dariam à experiência perceptiva a sua qualidade aparente…Sendo, portanto… isso o que explicaria a fenomenologia das nossas percepções. Em defesa dessa teoria é comum utilizar- se o argumento da alucinação:

João está tendo uma experiência visual de uma árvore com caule marrom…e,                  folhas verdes, porém, nada assim existe diante dele. Conclui-se então que ele                    está tendo uma alucinação de uma árvore, com certas características. Ora, se                      não existe qualquer objeto diante de João…assim como aquele que aparece à                      sua…’consciência’…os objetos de sua experiência visual não lhe são externos,            devendo existir algo interno mental…que explique tais “objetos imaginados”.

No 2º passo desse argumento, devemos observar que percepções inverídicas podem ser qualitativamente indistinguíveis das verídicas, e que o caso de João é um desses. Por isso, quando João imagina a árvore, ele não consegue discriminá-la…de uma ‘visão real’.  Desse modo – sendo a “alucinação” de João introspectivamente indiscriminável de uma percepção genuína, deve existir algo que essas experiências perceptivas têm em comum.    O “subjetivista”, nesse caso, defende que tais experiências têm a mesma fenomenologia; compartilhando do mesmo caráter fenomênico… Portanto – os dados dos sentidos, que caracterizam o que aparece à ‘consciência do sujeito’…nos casos perceptivos verídicos e inverídicos – são objetos mentais…individuais. Ou seja, a ‘fenomenologia’ envolvida na percepção de João seria diferente… se, por acaso…os dados dos sentidos fossem outros.

Se em toda experiência perceptiva existem dados dos sentidos do qual João é consciente, mas nem sempre objetos externos estão presentes, tal como acontece na alucinação…diz-se que João é diretamente consciente de objetos mentais…Logo, na “percepção genuína”,  é ‘indiretamente’ consciente dos objetos externos que vê, pois existem dados de sentidos mediando a relação perceptiva dele com o mundo exterior. – Assim…é como se existisse uma tela interior na qual os objetos que vemos são sempre objetos projetados nessa tela.

Uma vez que…percepções inverídicas…”indiscerníveis“…das                verídicas são caracterizadas pelos mesmos dados dos sentidos,            conclui-se que… – “a natureza dessas experiências é a mesma”.

Por meio do argumento da ‘alucinação’… a teoria coloca em xeque a concepção ordinária de percepção em 2 sentidos: 1) Enquanto o senso comum atribui a objetos externos as qualidades sensíveis das nossas experiências…a ‘teoria filosófica subjetiva’ as explica por meio de dados dos sentidos, propriedades intrínsecas da experiência, cujas existências e naturezas dependem da consciência de quem tem uma ‘percepção sensível’…e 2) Contra   o que é usual pensar-se…existiria uma espécie de interface entre nós e o mundo exterior.

fenomenologia-husserl-fraseb) Intencionalismo

Muitos filósofos afirmam que as…teorias perceptivas – que se baseiam em objetos mentais – tais como “dados dos sentidos”, não logram explicar a…Fenomenologia da Percepção. Entre eles, os ‘intencionalistas’ entendem as experiências perceptivas por meio de um conteúdo intencional…o qual representaobjetos & eventos do mundo.

Para Gilbert Harman, um dos representantes da teoria – esse ‘conteúdo intencional’ seria suficiente para explicar o caráter fenomênico das percepções. Em seu entender, dizer que nossa experiência visual possui conteúdo é afirmar que ela representa as coisas de certo modo. E, sendo assim, o conteúdo representacional de uma experiência fica definido por referência aos objetos percebidos. Desse modo ser representacional é ser intencional, pois a experiência é sempre acerca de algo E, como a experiência perceptiva requer um conteúdo intencional  o que é percebido é tratado como um “objeto intencional”.    Harman visa mostrar a inadequação da teoria subjetivista à fenomenologia da percepção revisitando o argumento da alucinação, e o confrontando com a tese da ‘transparência da experiência‘, pela qual na ‘experiência perceptiva’ não nos tornamos conscientes de nada além do que nossos ‘estados mentais‘ representam. Nessa tese, o subjetivismo se equivoca ao tomar as “propriedades” representadascomo intrínsecas da experiência.  No exemplo anteriorsegundo Harman: João está vendo uma árvore, então, o conteúdo da sua experiência visual é a árvore, que é representada de certa maneira para João…por exemplo, contendo caule marrom e folhas verdes…Seja nas percepções verídicas, ilusões    ou alucinações…a árvore que João percebe – apresenta-se para ele … estando no mundo.

“Assim, a representação mental de uma experiência                                          representa — algo no mundo … não algo na mente”.

Harman defende que…nada na experiência visual de João lhe revela as propriedades intrínsecas da experiência, em virtude das quais possui o conteúdo que possui… – Se somente propriedades representadas nos vêm à percepção – nenhum objeto mental  individual – que daria à experiência, sua qualidade sensível… nos será revelado. Se o      que nos é revelado for apenas o… “conteúdo representacional”… é esse conteúdo que determina o ‘caráter fenomênico’ envolvido na percepção – seja ela verídica…ou não.

Nesse caso não são requeridos objetos externos para a determinação da Fenomenologia. Se a percepção individual for verdadeira, seu conteúdo também é verdadeiro – e…tendo em vista que os objetos da experiência são ‘objetos no mundo’… com suas propriedades; seu “caráter fenomênico”…é dado por referência a propriedades de… “objetos externos”.  Assim, em oposição ao ‘subjetivismo’, nos casos verídicos, os objetos da experiência não são objetos mentais. – Se a pessoa estiver alucinando…o conteúdo representado em sua experiência perceptiva é falso … embora lhe pareça o contrário. – Como ter experiência, requer um conteúdo representado…não dependendo da existência de ‘objetos externos’, explica-se assim também…a “fenomenologia das alucinações indiscrimináveis“.

O intencionalismo de Harman se aproxima então da concepção ordinária perceptiva,      na medida em que as qualidades sensíveis envolvidas nos casos verídicos se explicam    com base em propriedades objetivas. – A diferença… no entanto, é que… nesta teoria,      o que determina o caráter do fenômeno perceptivo…é seu conteúdo representacional,        e não os próprios instrumentos da percepção…tratados como…”objetos intencionais”.

epochcContraponto a Harman

Vimos … como a “tese da transparência” utilizada por Harman, contra o “argumento da alucinação”, objeta a existência de dados dos sentidos em nossas percepções…Porém, ao nos apresentarem apenas propriedades representacionais Christopher Peacocke questiona a transparência das visualizações.

Peacocke entende que o conteúdo representado nas experiências, não apreende todas as qualidades sensíveis, sendo assim, não explicaria seu ‘caráter fenomênico’. Experiências perceptivas, além de representarem propriedades de objetos…apresentam também suas aparências…e portanto – devem existir aí…”propriedades não representacionais“.

Tal conclusão, se contrapõe à tese de que o conteúdo representacional seria suficiente para explicar o caráter fenomênico subentendido nas percepções.

Nessa perspectiva…assim como objeções pesam contra a teoria dos dados dos sentidos, a teoria de Harman não explica a fenomenologia satisfatoriamente… As nossas percepções parecem nos colocar em contato direto e imediato com o mundo, ao nosso redor…porém, um dos motivos para desconfiarmos delas… – é que, podemos tomar um caso perceptivo inverídico por uma percepção genuína…e nos enganarmos a respeito do que percebemos.    O que nossa experiência perceptiva nos mostra, pode não existir no mundo…tal como se    dá nos casos alucinatórios… – E isso abre caminho à ‘teoria subjetivista’… que defende a existência de abstratos objetos mentais em todas percepções; de onde apreenderíamos o mundo indiretamente, através de uma interface entre quem percebe e o que é percebido.

Entretanto, por meio da ‘tese da transparência’…os ‘intencionalistas’ argumentam que as experiências nos mostram apenas seu conteúdo representacional, e desse modo o ‘subjetivista’ se equivoca…pois nas “percepções”… – não estaríamos conscientes de … “objetos mentais”.

Além dessa objeção…o ‘subjetivismo’ traz consigo o problema de justificar nossas crenças do mundo a partir de objetos teóricos mentais específicos. Mas eliminar ‘objetos mentais’ da Fenomenologia da Percepção não é tarefa fácil… – Isso foi mostrado por Peacocke…ao argumentar que… o “conteúdo intencional” não é suficiente para explicar o que aparece à consciência individual. – Portanto, frente aos problemas levantados contra suas próprias teorias filosóficas – ainda não há explicação satisfatória para o caráter fenomênico das percepções… e, por conseguinte – sobre qual a… “natureza das experiências perceptivas”.  Serão estas — como quer a concepção ordinária — constituídas por aspectos da realidade exterior apreendidos por nossos sentidos?…Serão as qualidades sensíveis explicáveis por objetos não físicos…ou por uma referência a propriedades objetivas?…Responder a essas questões é fundamental para uma “teoria da percepção” que se pretenda filosófica – pois esta não pode prescindir do que é vivenciado pelo sujeito…como consciência fenomênica.

Uma 3ª via… – à vista

Embora subjetivistas e intencionalistas discordem sobre o “caráter fenomênico” das experiências eles concordam que as “alucinações de percepções verídicas” compartilham a mesma fenomenologia,  onde o experienciado pelo sujeito é o bastante para se atribuirmesmo “tipo fenomênico” à elasHá, contudo, uma nova corrente que também se opõe à tal ideia (“disjuntivismo fenomênico“).

No entender de Michael Martin, seu idealizador…a experiência de alguém não o autoriza a afirmar que o “caráter fenomênico” é o mesmo…nos casos alucinatórios indiscerníveis dos verídicos. Assim, não decorre que, de experiências parecerem iguais à pessoa, que tenham algo em comum… – O que abre espaço teórico ao argumento de que estas situações sejam “absolutamente” distintas, ainda que pareçam fenomenicamente indiscrimináveis…Daí, a denominarem uma “disjunção“… – ou a pessoa viu algo de fato, ou pareceu-lhe ver algo.  Ou seja, ‘alucinações‘ indiscrimináveis de percepções verídicas seriam experiências de naturezas diversas. Tal pensamento permite a Martin concluir que, em casos verídicos: 

“os objetos são constituintes da…”experiência“… – e, portanto,                  suas naturezas determinam o caráter fenomênico da experiência”.

Retorna-se assim, à concepção comum de “percepção“, ao tratar os objetos da experiência, nos casos verídicos – como…objetos no mundo…e não, objetos mentais, ou intencionais. Mas o que dizer do que surge à consciência de quem alucina?… – Segundo Martin, o único atributo à “experiência alucinatória”…é seu caráter de indiscernibilidade. Não haveriam dados dos sentidos, conteúdos intencionais falsos, ou outra coisa qualquer, a caracterando fenomenicamente; isto é…o que se pode falar sobre a “fenomenologia da alucinação”… – é a propriedade desta… ser “indistinguível” das percepções genuínas. – Todavia, o principal problema aqui enfrentado por Martin…é negar que alucinações indiscerníveis ao sujeito… compartilhem do mesmo “caráter fenomênico” das percepções verídicas… pois – segundo ele… “o que pode existir de mais verdadeiro…ao caráter dos ‘estados conscientes da mente‘…do que a pessoa…(por si mesma) – poder discernir… quando reflete sobre eles?”

Essa teoria é assim desafiada a demonstrar que… em percepções verídicas,                      existe uma diferença experiencial em relação às alucinações — mesmo que                        esta seja subjetivamente ‘indiscriminável‘ de um caso verídico. (“o autor”) **********************************************************************                      Perdemos o mundo, para o ganhar de um modo mais puro…retendo o seu sentido. A fenomenologia põe fora de circuito a realidade da natureza… – do céu e da terra…dos homens e animais, do próprio eu e do eu alheio, mas retém por assim dizer, a alma, o    sentido de tudo com o qual estou imediatamente em contato, de modo que os objetos assim considerados não só estão presentes, mas brotam de mim mesmo”. (J. Fragata)  *******************************************************************************

A “fenomenologia da percepção” segundo Merleau-Ponty                                         Na visão cientifica o homem é só um objeto de observação e estudo, na visão filosófica, ele percebe seus pensamentos. A visão da ‘fenomenologia da percepção’ é a soma delas”.

merleaupMaurice Merleau-Ponty (1908–1961) retrata um pouco da “fenomenologia da percepção”…juntando vários conceitos de diversas áreas da ciência, dando sentido ao resgate das coisas mesmas, de uma forma na qual, o homem se coloca diante de si mesmo…do outro…e do mundo. – Ao resgatar nossas experiências – e, chegando à causa dos fenômenos, podemos assim analisar…sem ‘juízo de valor’, o que nossa relação com o mundo interfere, em nossos atos e decisões.  Essa ‘percepção da intencionalidade‘, decorre de que somos sujeitos em constante movimentomodificando, e sendo modificados pelo mundo… – sempre observando, e modificando…valoresconceitose ações…analisando as causas e consequências de nossos atos; percebendo nosso corpo, e sua atitude, perante um “mundo de sentimentos”.

Nesse mundo – o qual podemos chegar através do conhecimento que se percebe nele…a fenomenologia da percepção o vê através do homem…como uma mistura de consciência      e corpo…carregado de sentimentos e atitudes…que constrói o seu próprio agir.  (texto 1)

A fenomenologia é o estudo das essências, ou seja, repõe as essências na existência. É sua ambição filosófica torna-se uma ciência exata, mas é também um relato do espaço, do tempo, e mundo vividos, onde estas essências trazem consigo todas as relações vivas da experiência, e assim a fenomenologia no movimento existe. Todo pensamento de algo é consciência de si – é o próprio ser do espírito em exercícioo ‘modo de existência’, como consciência…que apreende à distância… – contraindo em si…tudo o que bem lhe prouver. Uma eternidade que define a subjetividade, ‘cogito’ que me revela…um novo modo de ser.

O ‘cogito’ é o pensamento de fato e ser no mundo. O verdadeiro ‘cogito’ reconhece meu pensamento como um fato, e me revela como ‘ser no mundo’. – Eu reconstituo o ‘cogito’ histórico, e não pensaria nele, se não tivesse em mim tudo que é preciso para inventá-lo.    A percepção … pressuposta por ele – é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam. Imaginamos o espaço em si com o qual o sujeito que percebe coincide; nele descreve-se      o conhecimento obtido no mundo, que ele mesmo constrói. – O sujeito faz as coisas em torno de si… – as extraindo de si… – e… as faz existir… – para as dispor… – a si mesmo.

O mundo é o que eu vivo…não o que penso. – O mundo é inesgotável… O mundo está ali, antes de qualquer análise que eu possa fazer. O real deve ser descrito. A reflexão arrebata-se a si mesma e se recoloca numa subjetividade para aquém do ser e do tempo…O homem está no mundo – meio natural e campo…de todos os pensamentos…e todas as percepções.  O mundo fenomenológico não é o ‘ser puro‘…mas o sentido, a experiência…subjetividade,  e intersubjetividade. O ‘logosque preexiste é o próprio mundo. A localização dos objetos no espaço utiliza a motricidade do corpo. – O sujeito da geometria…é um “sujeito motor”.

O corpo está no mundo, formando com ele próprio um sistema. Se para mim existe… e se posso alcançar um objeto é porque pela experiência perceptiva eu me afundo na espessura do mundo. Trata-se de despertar a experiência…tal como nos aparece…enquanto estamos,  por nosso corpo… condenados aos sentidos. – Nele…há um movimento gerador de espaço (nosso movimento intencional), que – distinto do movimento das coisas, desempenha um papel ativo na percepção do mundo como intencionalidade original, distinta do saber…Aí, nosso corpo se move inseparável de uma visão do mundo como condição de possibilidade de todas operações expressivas… e, aquisições construtoras do… “meio cultural”. (texto 2**********************************************************************************

A “consciência fenomenológica”                                                                                            A consciência tem consciência de si própria…processo que Husserl chamou de percepção imanente. Já a percepção que a consciência tem das coisas é a consciência transcendente. 

conscic3aanciaA proposta principal da fenomenologia é…”voltar às coisas mesmas”… ou seja… – ir aos fenômenos; definidos como tudo que se mostra à ‘consciência humana’. E este caminho aos fenômenos, deveria ser direto…sem a influência de análises reflexivas.  Este retorno às coisas mesmas…visa abandonar a separação entre ‘sujeito/objeto’ do conhecimento, este, para sempre objeto, à consciência do sujeito.

É a “intencionalidade” da consciência humana que dá o direcionamento para alcançar o essencial do fenômeno…processo denominado “redução fenomenológica”…que requer a suspensão de atitudes, crenças, preconceitos…teorias – de forma a só se concentrar…na experiência cotidiana do mundo vivido – permitindo que o fenômeno fale por si mesmo, para além de sua aparência…Essa concepção de uma ‘consciência intencional’, difere da visão anterior de uma consciência como fenômeno psíquico, manipulável pelas ciências      da natureza. – A ideia de uma ‘consciência intencional’ implica ao homem estar sempre em relação ao objeto – o que rompe com a ‘lógica individualizante pré-fenomenológica’.

O interesse da fenomenologia é o modo como o conhecimento desse mundo existente se    dá para cada sujeito. Os fenômenos têm sua essência de ser e é isso que lhes confere um sentido e significado próprios. Além disso…os fenômenos são captados pela consciência através da…”intuição” – um método de conhecimento…direto e imediato da realidade.

A intuição consiste numa forma de olhar…que se adianta à análise racional…e, ocorre sem mediação do discurso. O intuir não se trata de pressuposto, mas da evidência imediata que se tem do mundo. – Enquanto o método intuitivo é direto, e busca conhecer de imediato a essência dos objetos, o método descritivo ‘analisa…para conhecer a realidade. (texto base) *******************************(texto complementar)*********************************

A fenomenologia ‘positivista‘ de Husserl                                                                          “Se por positivismo, entendermos o esforço de fundar as ciências                                      sobre o que for suscetível de se conhecer de modo originário; nós                                              é quem somos os verdadeiros positivistas!…” (Edmond Hursserl)  

cover_issue.jpgA fenomenologia de Husserl, do ponto de vista metodológico, adota uma “suspensão de juízo” em relação à existência do mundo…para poder recuperá-lo na consciência plena do fenômeno. De acordo com Husserl – é um método filosófico, cuja estratégia a princípio se resume em alcançar um grau máximo de “evidência”, assim como um deslumbramento sobre a existência das coisas.

Tal exercício, então, permite uma redução fenomenológica, pelo fato de recuperar o ‘significado puro’ das coisas…como ‘objetos              de pensamento’, por meio da consciência.

Enquanto o programa positivista para o estudo humano, do ponto de vista metodológico, deixa-nos confinados a uma “lógica indutiva” – segundo a qual, conhecer consiste em descrever, segundo uma observação positiva dos fatos, sua ‘regularidade’ – a abordagem fenomenológica nas ciências humanas convida-nos a um ‘esclarecimento’ sobre o que há de mais fundamental em um objeto de pesquisa… — deslocando-nos a atenção, dos fatos contingentes…para o seu sentido originário – indissociável de uma ‘vivência intencional’.

Tal abordagem consolida uma espécie de ‘conversão filosófica’, que nos faz                      passar de uma visão ingênua do mundo — para um modo de consideração                        das coisas no qual, em sua totalidade, o mundo se revela como “fenômeno”.

Uma atitude fenomenológica                                                                                                    Para Husserl, tanto a consciência do senso comum quanto a consciência das ciências ditas “positivas”…encontram-se, ainda que de modos distintos, mergulhadas na atitude natural, expressa na relação entre uma “consciência espontânea” (empírica ou psicológica) e o ‘mundo natural’, revelado empiricamente à consciência, em suas “circunstâncias factuais”.

O…’ideal husserliano’ – exprime-se pela determinação em fundamentar rigorosamente a filosofia, assim como a todas as demais ciências. Tomado por sua ânsia de rigor absoluto, em um ímpeto próprio de sua formação matemática, no início do século XX – Husserl se convenceu de que a fundamentação da filosofia deveria implicar necessariamente, numa plena racionalidade da mesma – por meio de uma nitidez do “sentido íntimo” das coisas, através de uma reflexividade radical, que daria consistência inclusive, à própria filosofia.  A atitude fenomenológica consistiria portanto numa atitude reflexiva e analítica, a partir da qual se busca fundamentalmente…elucidar, determinar e distinguir o ‘sentido íntimo’ da coisa, enquanto objeto de pensamento, tal como se mostra à consciência…analisando seu sentido atualizado no ato de pensar, e explicitando intuitivamente significações que,    ali virtualmente surgirem por cogitos…em sua emergência na ‘consciência intencional’.

Explorar a riqueza deste universo de significações que a coisa (cogitatum)                            nos revela no ato intencional, é o que é próprio da atitude fenomenológica.

Porém, fiel ao seu projeto filosófico de constituição da filosofia como ‘Ciência de Rigor’, Husserl sabe que as tais ‘evidências incontestáveis’…necessárias para a fundamentação      da própria filosofia…não poderiam ser extraídas do ‘plano empírico-natural’, pois…por mais perfeita que seja uma percepção empírica, será sempre a percepção de um “ponto    de vista”, e enquanto tal, somente poderá revelar “aspectos” ou “perspectivas” da coisa percebida. – E isso, de fato, se justifica…porque a crença acerca do que empiricamente percebemos, vai muito além daquilo que a percepção empírica efetivamente nos revela.

A transcendentalidade da percepção empírica                                                                Observar um objeto empiricamente será sempre um misto de visto/não visto. E, toda evidência extraída do ‘plano empírico-natural’, onde a consciência se relaciona com o mundo – será sempre uma ‘evidência perspectivista‘ (existencial)…isto é, parcial.      Como nos diz Husserl: dos fatos, não podemos extrair evidências absolutas“.    (coisas são questionáveis, quando não excluem a possibilidade de sua não existência).

Assim, segundo Husserl…não podemos extrair evidência plena de nossa “percepção empírica” do mundo, pois…do que a experiência sensível nos revela … jamais eliminaríamos totalmente a possibilidade de dúvida…sobre as coisas que se nos apresentam…sempre corrigindo nossas ‘percepções’ – em relação ao estabelecido com base na experiência sensível. Seria impossível assim, denotar como “ciência rigorosa”… uma filosofia baseada apenas no…”ente mundano”.  Como…”estratégia metodológica”…para obter ‘evidências incontestáveis’… e assim, definir a filosofia com o “devido rigor”… Husserl optou por uma “epoché” (“suspensão de juízo”) em relação à questão primordial da ‘existência de coisas no mundo’ – pois assim … segundo ele:

“A fenomenologia prescindirá de tecer considerações acerca desta questão, para então direcionar sua atenção aos ‘fenômenos’tais como se revelam, na pureza irrefutável da auto-reflexão de sua consciência transcendental”.

De um lado, deparamo-nos com um modo de consideração das coisas… a partir do qual o mundo se revela para a nossa ‘consciência espontânea’ como o domínio empírico-natural dos fatos…que se encontram submetidos a uma dimensão espaço-temporal… Trata-se do modo de consideração do mundo, próprio das ciências positivas em geral. Paralelamente, como um recurso metodológico ao alcance de evidências irrefutáveis, o exercício ‘epoché’  de redução promoverá o salto ao modo “transcendental fenomenológico“, fazendo agora com que o mundo se revele como um ‘horizonte de sentidos‘ em ‘consciência pura‘.

Se esta consciência pura não pode ser tomada em termos de dados empíricos…cabe-nos apenas concebê-la a partir de sua relação intencional com seu objeto, que em sua versão reduzida (enquanto ‘objeto de pensamento’) nada mais é do que “conteúdo intencional”  da consciência. – Trata-se com tal redução, de fazer o mundo reaparecer na consciência como um horizonte de idealidades meramente significativas – que se revelam como um dado absoluto e imediato à consciência pura, que o apreende e constitui intuitivamente.

conscic3aancia-crc3adticaconsciência fenomenológica transcendental

A mesma consciência que intuitivamente apreende o objeto em sua versão reduzida…como “fenômeno puro”… – é também ‘responsável’ pela constituição desse mesmo objeto … — agora — no pensamento, sendo atualizado como uma… ‘unidade de sentido‘.  O objeto…sem ser pensado – precisamente porque inconcebível… (enquanto umcogitatum“)… exige uma doação de sentido que só pode vir através dos atos intencionais da consciência … subentendendo portanto, uma ‘consciência doadora’ (de sentidos).

Como consequência, deparamo-nos com 2 atitudes…a “natural” e a “fenomenológica“, das quais decorrem 2 modos distintos de abordagem. Se no 1º modo de consideração o mundo nos é revelado na lógica e certeza de sua “facticidade”… no 2º – o mundo se revela no puro significado de uma ‘consciência transcendental’, isto é…em sua totalidade como fenômeno. Pode-se então dizer, que – no exercício da epoché‘ (uma técnica de eliminação da dúvida inerente a toda posição do contingente) somos guiados, ao que Husserl considerou ‘a mais radical de todas as diferenciações ontológicas’. De um lado, o “ser transcendente” (‘mundo exterior’, que transcende a consciência – para o qual…estamos naturalmente orientados, e sobre o qual a epoché será exercida) e, de outro, o ser… como…”dado imanente”, presença  absoluta…sob o modo de “coisa pensadaintuitivamente na “consciência transcendental”.

A fenomenologia transcendental será então…uma fenomenologia da consciência constituinte (pode-se dizer que em Husserl…”ser evidente é ser constituído”). Exercer a epoché é reduzir o objeto à ‘consciência transcendental’. Tal redução, na medida em    que não desfaz a relação ‘sujeito/objeto’…põe em evidência uma nova dimensão dessa correspondência… – impedindo que a verdadeira e autêntica objetividade desapareça.

Essência intuída                                                                                                                            O caráter ‘necessário’ do objeto idealmente considerado, define a ‘essência’                      daquilo que se mostra na…e para a ‘consciência intencional’…revelando-se                            em sua dimensão originária na intuição vivida – onde dela se experimenta.

Frases-de-Edmund-Husserl-10

Para Husserl, toda ciência pressupõe um…quadro de essências…Todavia,    ao tomar um fato como o “objeto” de uma observação sistematizada, a fim    de descrever sua…”regularidade”… é muito comum à “ciência positivista”, ignorar esse“quadro de essências”,    já pressuposto por sua ‘investigação’, meramente no intuito de com o exercício da… “indução”… obter a definição de uma “lei geral Para Husserl tal ‘lei’ … nada mais é que uma generalização…com validade empíricaou mesmo circunstancial.

Essência“, segundo ele, deve ser entendida, não como uma…”forma pura”, que subsiste por si mesma…à revelia do modo como se mostra à… ‘consciência intencional’ — mas sim, como tudo que numa ‘redução fenomenológica’, permanece como o ‘núcleo invariante’ da coisa pensada – mesmo que à mercê de mudanças aleatórias…ao ‘arbítrio’ da imaginação.

A “atitude fenomenológica” concentra-se em um processo inverso daquele adotado pelas ciências positivas na descrição (ou análise) de essências. Nos termos de Husserl, trata-se de um ‘processo dinâmico’…uma atitude reflexiva e analítica, cujo intuito central passa a ser o de promover a elucidação do sentido originário que a coisa expressa, em sua versão reduzida, independente da sua posição de existência. Porém, engana-se quem pensa que, com a “estratégia metodológica” adotada pela fenomenologia, Husserl estaria negando a existência do mundo. – Antes, estaria renunciando a seu modo ingênuo de consideração, para…na “redução fenomenológica“, viabilizar o acesso a um…”viés transcendental”.   

Em sua versão reduzida, o mundo se abriria, enquanto…’campo fenomenal‘, na…e, para uma ‘consciência intencional’, como um “horizonte de sentidos”. Sem negar a existência  do mundo factual, renuncia-se pela epoché, à ingenuidade da atitude natural, para reter    a “alma do mundo” em sua pura significação…A redução fenomenológica faz reaparecer, na própria camada intencional do vivido, a verdadeira “objetividade”, pela qual o objeto, como conteúdo intencional do pensamento…é constituído e apreendido, intuitivamente.

“Redução fenomenológica”

Se as “ciências positivas” não deixam de considerar a relação ‘subjetivo/objetivo’, concebendo o ‘objetivo‘ como algo que sempre remete a uma realidade externa e independente, para a qual, até mesmo a “vivência” se torna “transcendente”, a ‘redução fenomenológica‘…permite, no ‘modo transcendente’, recuperar sua autêntica objetividade…domínio último e definitivo, sobre o qual seria, segundo Husserl, fundada toda ‘filosofia radical’. 

“Trata-se de uma exterioridade objetiva, fundada na pura interioridade,  unindo dessa maneira – objetivo…e subjetivo”. (Edmond Husserl…1929)

A adoção do programa positivista nas ciências humanas dá à consciência, a atitude natural de um ‘realismo ingênuo’ ao aceitar o mundo como uma realidade dos fatos acerca da qual o ‘saber‘ se torna uma possibilidade inquestionável. – Utilizando generalizações empíricas  a partir da sistematização do comportamento humano, em relação ao meio no qual este se insere, o programa confunde ‘leis do pensamento’ com leis causais da natureza…e assim… ‘sujeito do conhecimento’ com ‘sujeito psicológico’. – Do ponto de vista metodológico, nos confina à ‘lógica indutiva’…segundo a qual, conhecer consiste em descrever a regularidade dos fatos, buscando a partir de casos particulares inferir leis gerais, que por não passarem de ‘generalizações empíricas’, mantêm seu caráter circunstancial, casual…e probabilístico. Tais generalizações não são leis no sentido exato – já que não possuem um valor evidente.

Já a abordagem fenomenológica nas ciências humanas convida-nos a uma reflexão acerca do “quadro de essências” dos fatos que investiga (estabelecido por variações imaginárias), ao recuperar a intuição daquilo que se toma como objeto de investigação… – Convida-nos assim para uma atitude reflexivo/analítica, sobre o sentido íntimo daquilo que se atualiza no pensamento, bem como suas significações ali virtualmente presentes… com diferentes modos de ‘revelação‘ na camada intencional do ‘vivido’. Tal abordagem convida-nos para uma “iluminação” sobre o que há de mais fundamental no mundo que estamos vivendo… deslocando a atenção dos fatos contingentes, para o seu sentido originário…indissociável da intencionalidade, consolidando assim uma espécie de conversão filosófica que nos faz superar uma visão ingênua do mundo…pela qual este se revela…em sua totalidade, como “fenômeno exato”. Um convite, portanto, da fenomenologia à todas ciências. (texto base) *********************Carlos Diógenes Côrtes Tourinho (UFF/RJ)*********************

Origens e efeitos evolucionários da Consciência                                                          Essa é uma questão particularmente pertinente, quando os efeitos                                  reflexivos da consciência humana são considerados. – No entanto,                                    efeitos da consciência…nos processos evolutivos… são mais gerais.

estrelas-1Assim como não pode ser burra nem inteligente, a evolução não tem a chance, de ser consciente ou inconsciente… – No entanto, “sensíveis animais conscientes”, incluindo seres humanos…com pensamentos reflexivos são um dos “produtos evolutivos” mais ‘surpreendentes’…Dessa forma, mesmo que a dúvida sobre se a ‘evolução’ possa ser consciente, não faça sentido…é importante indagar como a consciência foi capaz de evoluir…e como, uma vez estabelecida…modificou as taxas e padrões evolutivos.

Como a consciência evoluiu, e afetou os ‘processos evolutivos’, são questões relacionadas. Isso porque a consciência biológica (única forma conhecida de consciência) é vinculada a uma forma particular e bastante sofisticada de cognição animal, uma livre capacidade de aprender por associação – tecnicamente conhecida como… “aprendizado associativo ilimitado” (UAL), em inglês. Animais com UAL podem atribuir valor a novos estímulos compostos e sequências de ações, lembrando deles, e usando o que foi aprendido em um aprendizado subsequente (de 2ª ordem). Em nosso trabalho, argumentamos que o ‘UAL’    é o referencial evolutivo da “consciência mínima” (da “experiência subjetiva”), porque se fizermos engenharia reversa dessa capacidade de aprendizado para o sistema subjacente que o habilita…tal sistema terá todas as propriedades e capacidades…que caracterizam a “consciência”. As quais incluem: a unificação de estímulos e ações, e sua acessibilidade à referência cognitiva; a formação de representações do mundo… – do corpo… – e de suas interrelações (levando à construção de um ‘eu virtual’); comportamentos direcionados      a objetivos…conduzidos por motivações emocionais, e baseados num sistema de valores, sujeito à percepções…e sequência de ações unificadas; flexibilidade de desenvolvimento, fundamentada em processos de seleção…incluindo atenção seletiva; e a formação de um substancial “presente”… – contendo…”sombras do passado” – mas…orientado ao futuro.

O ‘emaranhado evolutivo‘ de ‘consciência’ e ‘cognição’…indica que o comportamento animal foi impulsionado, não só pelo significado funcional direto de seu comportamento, mas por valores mediados de desejos e aversões atribuídos a um conjunto de percepções,    e ações elaboradas (onto)geneticamente. – Um animal que pudesse aprender livremente, poderia, teoricamente, atribuir valor a um número ilimitado de percepções e padrões de ação, e antecipar efeitos positivos e negativos, com base em “sintomas” a eles associados.

A ontogenia, ao contrário da filogenia, trata da história de um organismo em seu próprio tempo de vida e desenvolvimento. Já a filogenia se refere à história evolutiva de uma…ou mais espécies. – Enquanto processos do desenvolvimento – neste caso… “ontogenéticos”, podem influenciar processos evolutivos (filogenéticos)…como consequência, organismos individuais se desenvolvem (“ontogenia”), ao passo que as espécies evoluem (“filogenia”).

Aprendizado associativo (‘ontogenético’)  aprendizado associativo mudou as regras  do jogo: seres vivos agora podiam se adaptar ontogeneticamente… — enquanto espécie.

Diz-se que uma tal ‘capacidade de aprendizado’, levou à ‘explosão cambriana’. Comportamentos  aprendidos, tornaram-se assim fundamentais à sobrevivência…em um mundo…de constantes  mudanças… — Toda e qualquer…’característica comportamental’ – fisiológica…ou morfológica, que melhorasse o ajuste ontogenético, para um âmbito de aprendizado…logo seria selecionada.

O condicionamento evolutivo por aprendizagem/sobrevivência carrega consigo … uma diversificação morfológica/fisiológica…que – em última instancia, afeta diretamente o processo de…evolução das espécies.

Como o que os animais conscientes consideram bom ou ruim depende do contexto, que nem sempre é ideal, novos tipos de recursos podem evoluir. A evolução da mudança no sistema digestivo pelo consumo de outros alimentos, por exemplo, seria impulsionada pelo prazer que a comida proporciona a seus consumidores…mais do que, por seu valor nutricional. Ou, no caso de uma fêmea selecionando seu parceiroo motivo pode ser padrões complexos de cores nas asas e na cauda…A habilidade de perceber e aproveitar esses recursos leva à efetiva seleção dos machos…mesmo se estes tiverem de pagar com      a própria vida o custo da sobrevivência da espécie, segundo tal escolha por atratividade.  Não surpreende portanto que Darwin considerasse animais com complexas escolhas de parceiros como um sinal de uma mentalidade mais desenvolvida. A consciência, por tal motivo, evoluiu muito mais em alguns animais (pássaros…como papagaios; mamíferos, como elefantes, e talvez até alguns “himenópteros” e “cefalópodes“) onde a imaginação começou a impulsionar o comportamento – para que a ‘consciência reflexiva’ dos seres humanos levasse esse…mediado efeito evolutivoda consciência…a um novo patamar.

Por sistemas de representação – em uma linguagem simbólica … seres humanos podem se comunicar sobre feitos de sua própria imaginação.

A evolução humana – além de produzir complexos artefatos … tem domesticado plantas e animais, concretizado sistemas sociais, leis morais, ideologias excludentes, guerras cruéis, horríveis sofrimentos humanos e animais, e a catástrofe ecológica iminente… consolidada por mesquinhos interesses futuros. – No entanto, nossa “consciência reflexiva” nos leva a considerar tudo isso. – Somos realmente uma “espécie estranha”…cuja evolução pode ser paradoxalmente impulsionada – por visões de um futuro melhor…e por valores abstratos como justiça, beleza e verdade. Há portanto, alguma esperança. (texto original) jan/2019    **********************************************************************************

Como a atividade dos neurônios pode produzir “consciência”? (ago/2019)            Dados teimosamente mostram que todas nossas peculiaridades: linguagem, matemática, moralidade, artes, ciências…etc. estão enraizadas nas profundezas da…’evolução animal’.

Há 2.500 anos enquanto os babilônios tomavam Jerusalém, o reino de Wu capitaneado por Sun Tzu esmagava as forças de Chu e Tales de Mileto previa um eclipse… um jovem discípulo de Pitágoras … chamado Alcmeão de Crotona – propôs pela 1ª vez que ‘o cérebro era a sede da mente’. A ideia esfriou mais tarde porque Aristóteles determinou que a sede da mente era o coração – sendo o cérebro um mero sistema destinado a resfriar o sangue.

Hoje, temos certeza que era Alcmeão quem estava certo… — no entanto… — a exemplo de Aristóteles,  continuamos…basicamente, ignorando o processo que corresponde ao funcionamento do cérebro‘, e por conseguinte…continuamos ignorando em que consiste…fundamentalmente…a natureza humana.

Ninguém nega que entender o cérebro é um dos grandes desafios hoje da ciência, e que há intensa pesquisa nesse sentido. Por exemplo, sabemos da geometria de seus circuitos, que a conectividade entre os neurônios é a chave da nossa mente, conhecendo os intrincados mecanismos pelos quais um neurônio decide enviar – através de seu ‘axônio(seu output),  o resultado de um complexo cálculo – integrando as informações de seus 10 mil dendritos (input). Entendemos os reforços dessas conexões (sinapses) na base da nossa memória…e usamos ondas de alto nível, fruto da atividade de milhões de neurônios, para diagnosticar doenças mentais, e pesquisar graus de consciência. Porém…seguimos sem entender como o cérebro gera a mente. – Mesmo com as inúmeras tentativas de associar a especificidade humana a uma nova porção do cérebro – arquitetada ao longo da história do planeta – os dados teimam em nos mostrar que todas as nossas peculiaridades … estão enraizadas nas profundezas abissais da evolução animal…num processo que custou 600 milhões de anos.

Foram as ‘águas-vivas, precisamente, que inventaram os olhos — através de um gene chamado PAX6, ocupado em desenhar o olho primitivo desses cnidários e sua conexão com neurônios primitivos deles…Esse mesmo gene (inicialmente descoberto na mosca), também é responsável pelo desenho do ‘olho humano’ … de suas leves mutações, e seus neurônios associados. Em um sentido genético profundo, nossos olhos e nosso cérebro visual tiveram origem nas águas-vivas há 600 milhões de anos. E isso é só o começo da longa, longa história…da nossa conexão com as origens da vida animal. — É a partir do lóbulo óptico dos animais primitivos (precisamente o domínio de ação do PAX6) – que surge o nosso cérebro médio (ou mesencéfalo) … essencial à visão…audição…regulação      da … temperatura corporal … do controle dos movimentos – e do ciclo de sono e vigília.

Outro dos nossos sentidos…o olfato, vem do nosso córtex, a camada mais externa do cérebro, que nas espécies mais inteligentes cresceu tanto…que para caber no crânio – teve que se enrugar…resultando nas dobras da mente. Do córtex, e seus associados, emanam todas aptidões da mente humana … tudo    o que nos torna especiaisTal camada externa do cérebro gera nossas sensações do mundo exterior, nossas ordens voluntáriaspara mexer os braços,    e mais um enxame de… “áreas de associação”.     

“Consciência”…o grande mistério                    Os sentidos, lembranças e pensamentos são integrados para produzir                                    uma cena consciente única, o tecido do qual nossa experiência é feita.

Todo o cérebro é um enigma, mas se fosse preciso escolher um problema supremo nessa floresta…seria o mistério da consciência. E há uma boa história científica que precisa ser contada aqui. – Um dos grandes cientistas do século 20 … Francis Crick… pensando nos grandes problemas a resolver na ciênciadecidiu que os enigmas essenciais eram 2 a fronteira entre o vivo e o inerte…e a fronteira entre o consciente e o inconsciente. Seu 1º enigma foi resolvido satisfatoriamente com a descoberta da ‘dupla hélice‘ do DNA por    ele e James Watson, em 1953Já o 2º, nunca chegou a averiguar, contudo, foi capaz de estimular pesquisadores mais jovens e gestores de financiamento científico, nos EUA, para que investissem nesse ‘pináculo pendente do saber’. — E Christof Koch…diretor do Instituto Allen de Biociência, em Seattle, foi seu principal colaborador na empreitada.

Quinze anos após a morte de Crick, Koch continua “ligado” no problema da consciência. Como pode a atividade dos neurônios individuais, e dos circuitos formado por milhares    ou milhões deles, produzir essa sensação única e global de ser consciente, de estar vivo? Essa convicção de que somos diferentes de uma água-viva, de que somos uma entidade transcendente, capaz de compreender o mundo…e distinta de todas outras, permanece como uma linha de pesquisa crucial. É ciência básica, cujas diversas aplicações sempre surgem…após um profundo entendimento…como bem demonstra a história da ciência. Lembrando Koch: – “Consciência é tudo aquilo que os nossos sentidos experimentam”. 

Há 2 campos científicos que aspiram competir com os poetas na interpretação do mundo: a ‘cosmologia’ e a ‘neurologia’. Tem toda a lógica. Uma boa equação sintetiza uma imensa quantidade de dados em um centímetro quadrado de papel assim como um bom verso. Porém, para filósofos como Daniel Dennett, o ‘problema da consciência’ não tem solução, sendo impossível de ser abordado pela ciência…porque tais sentimentos são particulares,    e não podem ser comparados, aprendidos ou medidos por ‘referências externas’…A ideia, no entanto, contradiz o ‘princípio geral’ colocado por Alcmeão de Crotona há 2.500 anos, de que…‘a mente equivale ao cérebro’. Se tudo o que acontece em nossa mente é produto de…ou melhor, é idêntico à atividade de certos circuitos neurais…a consciência não pode ser uma exceção, ou então retornaríamos ao “animismo irracional” de crer em uma alma separada do corpo, em ‘fantasmas’ eectoplasmas. Sendo assim, Crick e Koch decidiram se concentrar em procurar os “correlatos neurais da consciência” os circuitos mínimos suficientes, para que se produza uma experiência consciente. – E a estratégia deu frutos.

Alcmeão de Crotona estava certo                                                                                                As áreas da consciência não são as que recebem os sinais diretos dos sentidos, mas  aquelas que recebem, elaboram e interconectam essa informação primáriaO que acontece nessas áreas primárias não é o que o sujeito vê, ou está consciente de ver. 

bg1Experimentos com modernas técnicas de imagem cerebral – do tipo…”ressonância magnética funcional” (fMRI) — apontam  uma zona quente posterior…composta  por circuitos de 3 lóbos (partes do córtex cerebral): ‘temporal’ (acima das orelhas), ‘parietal’ (acima do temporal) e ‘occipital’ (acima da nuca). O que foi uma surpresa,  pois boa parte dos neurocientistas, tinha como certo encontrar a consciência nos “lobos frontais“, parte anterior do córtex cerebral — a que mais cresceuao longo  da ‘evolução humana’… Mas não é assim.

A “consciência” está em áreas do cérebro compartilhadas com todos os mamíferos.

Quando essa zona quente posterior é artificialmente estimulada, experimentamos todo      um leque de sensações e sentimentos. – Podemos ver luzes brilhantesrostos e formas geométricas deformadassentir alucinações em qualquer modalidade sensorial, ou até mesmo vontade de mexer um braço (sem chegar a movê-lo)Portanto, parece ser esse,      o material com o qual nossa consciência é tecida… – Quando parte dessa zona quente é danificada, ou removida, perdem-se conteúdos da consciência. Fica assim, prejudicada      a definição do movimento externoou da cor das coisasou de lembranças familiares.

A neurociência não apenas demonstrou a “hipótese de Alcmeão” – de que o cérebro é a sede da mente…como também encontrou o lugar exato em que reside a consciência. Já entender como essa porção do cérebro funciona é uma questão muito mais difícil. Mas,      a mera localização da consciência na parte posterior do córtex cerebral, tem uma óbvia implicação. A marca peculiar da evolução humana é o crescimento explosivo do córtex frontal. – O córtex posterior, incluída a zona quente, herdamos dos nossos ancestrais mamíferos e além. Muitos animais, portanto, devem ser conscientescom uma mente,      conforme Alcmeão. Compreender o cérebro é, sem dúvida, um dos maiores desafios    que a ciência atual enfrenta. Trata-se do objeto mais complexo de que temos notícia      no Universo, e a tarefa é verdadeiramente formidável. Mas, também, por outro lado, a recompensa será imensa. E pensando bem talvez não falte tanto para isso. (texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
Esse post foi publicado em fenomenologia e marcado . Guardar link permanente.

3 respostas para O fenômeno consciente da ‘percepção subjetiva’

  1. Daniel Borgoni disse:

    O primeiro dos textos sobre fenomenologia foi publicado na revista Filosofia, ed. 117, p. 64-71, 2015.
    Autor : Daniel Borgoni
    Favor dar os créditos ao autor.
    O texto não trata da fenomenologia de Husserl, como está indicado.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s