Imanência & Transcendência em um ‘Campo Fenomenológico’

“Como detetives investigando a realidade, somos livres para usar todo tipo de pista. Mas como juízes tentando verificar se uma teoria…de fato, descreve a realidade… precisamos testá-la empiricamente. E isto, é o que torna a ciência tão bem sucedida”. (Carlo Rovelli)

alcançandoespaçotempoNa primeira edição de ‘Investigações Lógicas‘…Edmond Husserl delimita o domínio da “pesquisa fenomenológica”  a uma imanência psicológica…Mas ao examinar, atentamente, os critérios empregados…ele constatou…que estes, implicam numa ‘transcendência‘ do objeto pesquisado…acarretando assim, dilemas epistemológicos numa relação direta entre…objeto físico…e objeto percebido em um plano de realidade.

Com efeito, da edição de 1900/1901 das… “Investigações Lógicas” – para a edição revisada de 1913, Husserl fez importantes alterações, destacando-se uma rearticulação da visão por ele alcançada, de que sua fenomenologia se trata de uma “filosofia transcendental“.

“teoria representacional da percepção”                                                                            O “representacionalismo” postula a existência de 2 entidades implicadas                                na percepção, ou seja, um ‘objeto externo’, e uma ‘representação mental’.

Na relação sujeito/objeto, as ‘ciências naturais’ (em especial…a “física“) não pretendem investigar a realidade interna…psicológica do sujeito…mas sim, a realidade externa. Daí,    a seguinte pergunta…Qual a relação entre o objeto, dado na percepção…e o objeto físico? Uma forma de se responder essa questão é com a teoria representacional da percepção,  segundo a qual…se vejo uma mesa, isso ocorre porque fótons estimularam minha retina, desencadeando“impulsos nervosos” – processados no cérebro…de modo a emergir em mim uma “representação consciente” da mesa. – Noutras palavras, a mesa externa afeta  meu sistema sensorial, produzindo em mim uma “representação”…ou “imagem mental”. Teríamos assim2 mesas uma interna, de processos cerebrais da consciência; e outra mesa externa, que iluminada, difrata a luz…cujos fótons estimulam o aparelho sensorial.

Husserl no entanto, rejeita essa corrente teórica. Para ele, ao ver uma mesa, não estamos conscientes de uma imagem mental da mesa, ou de sua representaçãomas sim da mesa, ela própria como objeto. – É verdade, afirma Husserl, que a impressão sensorial da mesa    é uma vivência – e portanto… ‘conteúdo de consciência’ – mas, o que percebemos não é a impressão, e sim a própria mesa. Os objetos conscientemente percebidos, transcendem à ‘vivência’ do objeto…pois esta é um conteúdo da consciência, que  o objeto percebido não tem. De acordo com Husserl, na ‘percepção’ visamos diretamente o objeto transcendente, sem a mediação de uma representação. E, desse modo, sendo a “consciência perceptiva” um modo intencional do sujeito…sua imagem não pertence ao objeto … mas o interpreta. 

Claude Monet, Impression Sunrise_1872

Claude Monet, ‘Impression Sunrise’ -1872

a “consciência fenomenológica”

A elucidação descritiva do sentido pelo qual o objeto percebido é… transcendente – possui várias implicações — e, pede esclarecimentos.  Nesse sentido uma das melhores maneiras recomendadas… é analisarmos o que Husserl entende por ‘consciência’ e conteúdos da consciência. – Para tanto, observamos que, de acordo com o próprio Husserl…este termo carrega consigo vários tipos de conceitos… os quais a seguir serão devidamente elucidados:

  1. Consciência como interno dar-se conta das vivências psíquicas. Diz respeito ao fato de que toda consciência é também “autoconsciência”… ainda que não seja uma autoconsciência realizada de modo explícito – por meio de um ato reflexivo, ou de um ato de percepção interna. Esta forma de consciência se refere ao “caráter intransitivo” das vivências – isto é…ao fato de que toda vivência é uma unidade de consciência que se manifesta a si mesma … sem a necessária intermediação de um objeto, para existir.
  1. Consciência como designação global para todo e qualquer tipo de ato psíquico. Trata-se da consciência tomada como “consciência de algo”… ou seja,    como vivência intencional… e, portanto…concernente ao seu “caráter transitivo”. Estudar a consciência neste caso – é transcender…rumo a seus atos perceptivos.
  1. Consciência como consistência fenomenológica do eu‘. Este conceito delimita a consciência como unidade do “fluxo total de vivências” (consistência conjunta do “eu fenomenológico” enquanto entrelaçamento de ‘vivências psíquicas’). Segundo Husserl,  rejeitar a noção de um…”eu puro” – significa uma concepção plural de consciência, cujo conteúdo nada mais é do que o próprio fluxo de vivênciasEstas vivências que, marcadas pela temporalidade, são “ocorrências reais” de ‘fatos psíquicos’ – que a cada momento, se interligam e interpenetram…na consciência do indivíduo psicofísico.

husserl-fraseos conceitos de “imanência”                  

A partir de 1907… – com o intuito de… libertar a fenomenologia de sua carga psicológica, Husserl faz algumas ‘modificações’ no texto da 2ª edição das…”Investigações“… Destas, merece destaque  os 3 conceitos de “imanência“…assim definidos:

1) Imanência real. Trata-se da esfera de vivências obtidas pela abstração do corpo físico. Na 1ª edição Husserl denomina de “eu empírico” ao conjunto composto por corpo físico, e uma ‘esfera de vivências’…O domínio da fenomenologia é obtido justamente pela exclusão do corpo físico … como se observa na seguinte passagem: “Se separarmos o eu corporal do eu empírico – e limitarmos, portanto, o eu psíquico puro ao seu teor fenomenológico… ele reduz-se à uma unidade de consciência – por conseguinte… à complexão real de vivências, disponíveis para nós próprios…e, que na parte restante, com fundadas razões supomos”.

Tal conceito de ‘imanência‘…é análogo ao ‘conceito cartesianono sentido de permanecer implícita a suposição, de se tratar de um cogito humanocom o lado físico ‘pressuposto’, e um lado psíquico ‘explícito’. Com seu domínio obtido da “abstração do corpo”, é claro que este, como “base material das vivências” (e não mero correlato objetivo delas) permanece implícito, pois não haveria sentido em apartá-lo; a não ser numa ingênua transcendência.

Na medida em que se constitui da “abstração do corpo” em relação ao                                ‘mundo exterior’… a fenomenologia abstém-se de tratar os problemas                                concernentes à natureza dessa suposta exterioridade então abstraída,                              cuja investigação… – é… sumariamente – relegada à… metafísica.

2) Imanência puraé constituída pelos conteúdos fenomenológicos daqueles dados evidentes e absolutos…apreendidos com o propósito de descobrir estruturas essenciais        dos atos (noesis) … e suas entidades objetivas correspondentes (noema). A “imanência inata” é apenas um caso especial da imanência pura“, a qual pode ser circunscrita a 3 níveis de consideração fenomenológica. No 1º (onde se inclui a imanência inata), trata-    se do cogitotomado em sua singularidade. No 2º, os eidosuniversais. No 3º – os correlatos de toda espécie, que…formados na ‘consciência’, fazem da fenomenologia uma…ciência universal baseada na correlação consciência (noesis)/objeto (noema).

No caso da…’percepção externa’… – tais correlatos fazem                                                        parte da ‘imanência pura’…mas não da ‘imanência inata’.

3) Imanência inata…Designa o fluxo constituído pelas vivências (atos da consciência)  purificadas de suaapercepçãopsicológica…sem contaminações transcendentes. Em “A Ideia da Fenomenologia”, Husserl exemplifica: “Ao efetuar a reflexão, o imanente surge como incontestável – pois nela (‘reflexão‘)… nada mais existe para além de si mesmo”.

O conceito de ‘transcendência’…obtido por contraposição a esse conceito de imanência é distinto do conceito anterior. Todo conteúdo impróprio de um ato (…conteúdos ideais, e os objetos intencionais dados em atos não reflexivos) é…nesse sentido…”transcendente”, pois o próprio ‘sujeito psíquico’ (tomado como parte de um sujeito real), bem como suas vivências (oriundas da consciência) é também algo transcendente deste “ser psicofísico”.

imanênciaEm suma, inicialmente temos o ‘conceito real’ de imanência…que compreende a consciência como uma região ontológica do mundo, junto    a outras regiões – que lhe são transcendentes. A… “imanência pura”… é considerada apenas, um objeto passível de ‘investigação científica’.  Já o conceito de imanência inata‘…traz como exemploas essências e ‘correlatos objetivos’ das…”vivências intencionais” – onde o objeto percebido pela consciência, é ‘transcendente’.

Mas, se em termos de “transcendência”os 2 primeiros conceitos de imanência se encontram bem definidos, isto não se pode dizer do 3º. Aí, o problema é acharmos              um conceito de “transcendência”…contraposto ao de…”imanência transcendental”. 

4) “imanência transcendente” (do paradoxo metafísico à “virada transcendental”)     “Cada conceito de imanência tem como contraponto…um conceito de transcendência.”

Para a filosofia fenomenológica… a própria “objetividade”, em termos gerais, transcende ao ato. Independente de saber em qual sentido, e com que direito se fala do ser…ou de saber se é real ou ideal, verdadeira ou falsa, possível ou impossível…o ‘ato’ se dirige a ela.    A pergunta que se coloca então; em especial na esfera da percepção“…é sobre a relação entre 3 instâncias: a) a aparição do objeto; b) o objeto que aparece; c) o objeto da física. Sabemos que a aparição do objeto é imanente e o objeto percebido é transcendente, mas    e o objeto da física?… Se o tratarmos como uma transcendência não percebida – haveria implicitamente – não um único…mas sim, dois conceito de… “transcendência”…a saber:

  1. Uma transcendência metafísica…que, por princípio, faz parte da intuição;
  2. Uma transcendência que não se confunde com a vivência de sua aparição.

floraçãoEsse último conceito…para Husserl, depende da consciência, na medida que advém de operações imanentes, pressupondo uma…’transcendência oculta’…O campo fenomenológico”    é assim delimitado…excluindo-se o corpo físico; hipótese incompatível com uma ‘fenomenologia do saber’. Mas, tal revés é fundamental, ao se definir tal campo pelo ‘absoluto’ de Husserl (imanência transcendente).

Ao examinar a ‘teoria da percepção’ de Husserl podemos obter valiosas informações sobre o problema da dependência (ou não) do objeto percebido em relação à consciência. Nesta, a percepção é compreendida como uma…”apreensão objetivante de sensações”…pela qual se constitui a aparição do objeto‘. Em função dessa assimilação à manifestação do objeto, ou de suas propriedades objetivas, as ‘sensações‘ são interpretadas como ‘transcendentes’.

“sentidos & sensações”                                                                                                                Por “sensações”… devemos entender algo que pertence a um “fluxo subjetivo“… – Nas percepções normais… sensações são vividas…mas não percebidas. É apenas por meio de uma apreensão deste algo, pertencente ao fluxo…que um ‘objeto transcendente’ aparece.

Tomemos como exemplo o caso da percepção sensível de uma esfera amarela. O termo “amarelo” pode designar tanto uma ‘sensação’, entendida como pertencente à aparição, quanto uma… “propriedade transcendente”… (qualidade cromática amarela) do objeto.    Ao afirmarmos que o objeto percebido é ‘amarelo‘…designamos uma propriedade dele; pois a sua qualidade amarela – resulta da interpretação de uma…”sensação específica”.

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O Sol nos aparenta amarelo devido à refração atmosférica (na verdade, é branco)

O objeto transcendente – dado na percepção possui a propriedade transcendente de ser… amarelo, graças à interpretação objetivante       da sensação imanente do amarelo. Para Husserl, esta interpretação é sempre realizada pelo“sentido”.    Ou seja – perceberé interpretar objetivamente as sensações – por     um determinado sentido… – E as propriedades do objeto, resultam      dessa interpretação de sensações.

Conclui-se daí que a transcendência do objeto observado, bem como suas propriedades, são dependentes de operações imanentes; e, que propriedades objetivas de um corpo se devem à sensações. – Sua propriedade amarela resulta de uma ‘sensação imanente’…ou seja, a relação entre ‘sensação‘ e “propriedades transcendentes” não é casual, e o sentido pelo qual se interpreta o ‘conteúdo imanente’ é limitado por estas propriedades.    

Husserl compreende por “espacialidade”… “O momento de sensação cuja ‘percepção objetiva’… se constitui numa autenticidade espacial emergente”Daí, conclui-se que o espaço objetivo transcendente resulta da apreensão do espaço imanente das sensações, onde os objetos percebidos se encontram. Entretanto, tudo leva a crer que esse ‘espaço constituído’ ainda não é o “espaço físico”…tal como concebido pelas teorias físicas. – A física não estuda o espaço produzido em operações na ‘consciência psíquica’…mas sim,      um espaço, cuja existência independe da consciência de toda e qualquer “espécie viva”.

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fenomenologia (grego): ‘reflexão sobre aquilo que nos aparece”.

o “objeto intencional”

Sendo a transcendência do objeto percebido uma ‘função descritiva’ não ontológica…independente do conhecimento…segundo Husserl:

O objeto…por si próprio, se faz transcendente… à vivência do      ato de observar”No entanto, é preciso notar que tal afirmação:

  1. Não implica, a princípio – ontologicamente, sua independência ou não da consciência.
  2. Não implica, a princípio… que este seja real – exista…ou, muito menos, que seja irreal.

Entendendo a fenomenologia como uma ciência “metafisicamente neutra”, Husserl se abstém de abordar frontalmente a relação entre o “objeto intencional” …e um suposto mundo físico, ontologicamente independente da consciência. Para ele: “A consciência        visa um objeto transcendente, sendo fenomenologicamente irrelevante, se este objeto        é, ou não uma ilusão. A existência da ‘realidade externa’, é pois, problema metafísico”.

Como a intencionalidade da consciência independe da existência ou não do objetoa relação intencional do sujeito ao objeto não é uma relação entre 2 realidades, ou uma relação causal entre objeto e consciência…ou uma realidade interior, e uma realidade exterior.  A vivência intencional não é produzida pelo objeto exterior…que ao afetar a sensibilidade do organismo, acaba por afetar sua consciência. – Ao contráriosão os componentes internos à própria vivência, que determinam sua referênciaa este, ou àquele objeto…Ou seja, a intencionalidade da consciência, sua direcionalidade a uma transcendência, é produzida por elementos imanentes à vivência. – Assim…portanto, quando Husserl considera ‘exterior’…o ‘objeto intencional’, essa é uma determinação descritiva – da qual não se pode inferir que este objeto se identifique à…”coisa física”.

“O ‘objeto intencionado’ é transcendente ao ato… e a natureza desta transcendência se torna evidente, quando a percebemos ao se manifestarem à consciência. Contudo, tais objetos mentais não se identificam com sensações, também presentes na consciência”.

imanência transcendenteo‘impasse transcendental’

Do que foi exposto até agora devemos considerar que, apesar de todos os esforços de Husserl, algo permanece em aberto… – Qual o tipo de “vínculo ontológico” que existe… – entre o objeto… e suas ‘aparições’?…O que significa sua ‘transcendência‘  nesses termos?… – E tais problemas se agravam, levando em conta que tal fenômeno…é obtido da abstração do “sujeito empírico”. Por conseguinte, isso nos leva a considerar como um ‘mistério… a transcendência do objeto… – pois, se de um lado este objeto que aparece ‘transcendente‘… resulta      de operações ‘puramente imanentes’ por outro lado essas operações se passam em um “domínio      de imanência” obtido, justamente pela abstração    de um domínio físico real próprio da natureza.

Desse paradoxo, surge a seguinte questão: A transcendência                    do…”corpo físico”…é semelhante…à do…”objeto observado”?

Para que tal identificação fizesse algum sentido…teríamos de supor que a transcendência constituída na ‘imanência psíquica’, milagrosamente coincidisse com a realidade exterior física… que, de saída, foi excluída para a obtenção do campo fenomenológico. Mas, como uma transcendência (produzida pela imanência)…poderia então, coincidir com a suposta realidade exterior, que por definição, independe da consciência?…Ou melhor – “Qual a relação entre um objeto transcendente tangível, e o ‘objeto da física’?…Seria este, apenas uma entidade ideal?…E qual a relação entre o ‘objeto sensível intuído’, e o ‘objeto físico’?  De semelhança?… De imagem?… De signo?… Será que temos ‘acesso imediato’ ao objeto transcendente da percepção e apenas mediato ao mundo físico? Ou seria essa uma pergunta que a…’fenomenologia‘… – como ‘psicologia descritiva’…não pode responder?”

A física se dispõe a estudar a realidade observável que não se identifica ‘ipsis litteris’ com  a…’realidade exterior’. Por isso, o antigo problema – da relação entre sujeito…e realidade externa… – problema este levantado por Descartes…o qual Locke busca responder, não é eliminado pela… “fenomenologia” … — ressurgindo, pois… sob uma forma mais refinada. 

O problema de relação entre ‘experiência sensível’ e ‘realidade exterior’ torna-se agora… – o da relação entre uma transcendência imanente à consciência subjetiva…e uma transcendência física (‘fenomenológica’).

A ‘teoria do conhecimento’…que se originava a partir do pressuposto de um mundo exterior, era incapaz do legitimar qualquer forma de conhecimento a respeito deste      mundo … externo ao sujeito. – Sua epistemologia, fundamentada numa “psicologia descritiva”… cujo domínio era alcançado pela exclusão do ‘mundo físico’, carregava ‘pressupostos ontológicos’ (conflitantes com ‘premissas epistemológicas’); os quais permaneciam implícitos na ‘visão fenomenológica’, como ‘teoria do conhecimento’, fundamentada na consciência individual. Assim, a fenomenologia, já em seu início,      trazia consigo uma paradoxal concepção não fenomenológica de…’transcendência‘.

“fenomenologiauma metafísica transcendente”                                                      “Denomino transcendental todo conhecimento que, em geral, se ocupa não tanto com os objetos, mas com nosso modo intuitivo de entendê-los” (Kant – “Crítica da Razão Pura”)

Husserl, guiado pela ideia da ‘fenomenologia’ como uma ‘ciência puramente descritiva’ — e metafisicamente neutralimita-se a afirmar, que o objeto em seu psico-conteúdo…“não se acha descritivamente no ato”. Portanto estar consciente de algo “transcendente”, significa consciência de algo distinto de uma vivência. Assim – a estratégia de Husserl na defesa da transcendência do objeto é mostrar que seus ‘traços descritivos’…não são  “vivenciais”.

Toda transcendência é uma não-vivência…portanto, um objeto exterior sensível,              um ‘estado de coisas’…ou, uma ‘entidade ideal’…não podem ser vivenciados. – E,              uma vez que a vivência é uma ocorrência real, esta não se repete…apesar de um      mesmo objeto poder ser ‘intencionado’…através de múltiplas vivências distintas.

Cada percepção do objeto é um…’evento psíquico’…que dura – ao longo da percepção, ao passo que o objeto deve ser descrito…como algo que permanece absolutamente o mesmo. Se o objeto fosse uma ‘vivência’ – não poderia se repetir… pois uma vivência é distinta da outra. O “objeto intencional” também não pode ser parte dessa vivência, pois toda sua parte, abstrata ou concreta, compartilha da mesma natureza singular. Por outro lado, No caso da “percepção exterioré possível que 2 vivências de percepção distintas sejam direcionadas ao mesmo objeto. “Vejo essa mesa”…logo tenho uma vivência à ela dirigida. “Fecho os olhos, abro-os novamente”, e agora tenho nova vivência de percepção da mesa.  As vivências são distintas – tanto no todo … como em cada uma de suas partes…contudo,  o objeto deve ser descrito como “permanente”…embora as vivências e suas partes, sejam consideradas distintas umas das outras. Ora, se o objeto não pode ser imanente, logo ele transcende, ou seja, a consciência visa – por operações imanentes…algo “transcendente”.

holograma

A fenomenologia, como ‘filosofia transcendental’, passa a ser para Husserl, uma nova ‘teoria do conhecimento’.

“redução fenomenológica” (Epoché) Epoché (redução fenomenológica)é o exercício de ‘suspensão‘ da existência do mundo, a fim de alcançar algo “absoluto”.

Na 1ª edição das “Investigações Lógicas“,  Husserl concebeu sua“fenomenologia”, conforme a uma ‘epistemologia’ fundada na psicologia da…”vivência cognitiva“.

Achava ele que a partir de uma imanência fenomenológica “metafisicamente neutra” existiria a possibilidade de se construir algo como umateoria do conhecimento“.

É bom também frisarque, em 1901, apesar de assumir uma ‘metafísica neutra, Husserl não a rejeitou, muito menos negou existir uma realidade exterior…deixando a entender, por exemplo, que uma mera rejeição do ‘pressuposto metafísico’sobre o qual a física se efetiva, não traria nenhuma vantagem, a menos que a fenomenologia fosse capaz de uma ‘proposta alternativa’, restabelecendo-a, sobre novas bases. – E assim, entre 1906 e 1907, ao constatar que sua “teoria do conhecimento” extrapolava o “âmbito psicológico” – com implicações ontológicas até então despercebidas – Husserl propõe o método daredução transcendental, rejeitando uma ‘fenomenologia neutra’ ao afirmar…“a necessidade de uma…’autêntica metafísica‘…como condição à existência de uma efetiva epistemologia”.

Assim, ao invés de abordar o ‘problema do conhecimento’ pela relação entre ‘realidade psíquica’ e ‘realidade exterior’…Husserl se propõe a recolocar o problema a partir da imanência; ou seja, como concernente à relação entre diferentes formas de vivências intencionais, nomeadamente intuitivas…Se o ‘problema do conhecimento’ recebesse tratamento adequado a partir desta imanência, aparentemente não haveria razão para      ir da esfera da ‘psicologia descritiva’, aos ‘problemas metafísicos’ da realidade exterior.

Um dos maiores ganhos da “redução” é revelar o vínculo essencial que há entre ser e aparecer. O “sujeito transcendental” – é condição do aparecimento de qualquer ente possível, pois a essência de um ‘objeto transcendente’…diz respeito ao próprio modo          como o objeto deve se mostrar. A demanda do ser que, a princípio, não se manifeste,        nem mesmo ao pensamento teórico – para Husserl, não mais faria qualquer sentido.

“objetos da percepção”…                                                                                                            Se há algo que a ‘epoché’ exclui…esse algo não é a própria realidade,                                      mas apenas uma “concepção absurda” da mesma – nomeadamente,                                      uma realidade independente de toda teoria… – de toda experiência.

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‘Objeto intencional’ não é a soma das aparições, nem algo destas separado, mas sim algo que as unifica.

A partir de 1906 com a ‘virada transcendental’, Husserl entende que a epistemologia não deve se fundamentar na ‘psicologia descritiva’, mas sim, numa… ‘filosofia transcendental’… Desde então, o domínio autêntico da ‘fenomenologia’ não é mais a ‘imanência psíquica’, mas sima ‘imanência pura’Nesta, se incluem não só as ‘vivências’…mas também as…‘essências’, e todo correlato – constituídos pela consciência. Assim, o objeto emergente passa a ser visto por uma ‘dupla chave’: como transcendente aos conteúdos inatos; embora imanente, em “sentido puro” — Essa ampliação do ‘campo fenomenológico’ identifica o status do objeto intencional em ‘múltiplas aparições coerentes’.

Se em 1901 Husserl faz distinção…entre a ‘aparição’ – e ‘o que aparece’…em 1907, ele diz que tal distinção deve ser realizada no interior da imanência pura, isto étanto aparição quanto objeto são imanentes, em termos absolutos. Contudo, a aparição do objeto é uma ‘imanência inata, enquanto  o objeto “transcende com relação à ela. E assim temos    2 dados absolutos; um do fenômeno e outro do objeto, que não é imanente no sentido incluso (inato). — Após 1907, o domínio da…’fenomenologia‘ – já não mais é obtido pela exclusão daquilo que transcende ao conteúdo inatomas sim, pela desconexão do que transcende à “imanência pura” — ou seja, tudo aquilo que não é dado após a “redução transcendental”, e a princípio, não poderia ser criado na “consciência”… Mas, o que será isto?… – A resposta mais óbvia para essa pergunta parece ser o mundo real; ou seja, o mundo em si…ontologicamente independente da consciência. — Porém, ainda que seja essa a resposta mais óbvia…é problemática. Como Husserl mostrou em 1913, a “redução não implica em perdas, pois caso algo desconectado possua algum tipo de validade, será reconectado. Assim, a objeção da redução limitando o campo de pesquisa ao…”interior”só pode ser o resultado de se confundir a atitude transcendental, com a vivência natural.

A doutrina husserliana sobre a redução transcendental foi objetivado na tentativa de se construir conhecimento através de uma ordem sistemática entre os ‘níveis de evidência’. Consiste em nossa reflexão a respeito do ato em si mesmo, em lugar de seu objeto. Isso    se justifica pelo fato de que nosso estar direcionado ao objeto consiste numa intrincada interação de 3 elementos, a saber: 1) as experiências estruturadas no ato (noese); 2) a estrutura correlata dada no ato (noema); 3) experiências supridoras/restritivas (hylé).

Todo objeto passível de ser conhecido, predicado e experienciado é correlato de operações noéticas. Mas, quando esta consciência é vista a partir de uma ‘perspectiva externa’, não é possível revelar sua ‘dimensão transcendental’…Querer assim compreender a constituição do mundo é recair em psicologismo e contrassenso…Contudo, quando a consciência não é vista sob esta perspectiva naturalística, mas a partir de uma ‘redução transcendental’, não há exterioridade, nem interioridade…Estes são 2 dados correlatos a uma ‘imanência pura’.

a relação entre o objeto físicoe o percebido‘                                                                  Para Husserl…do ponto de vista ‘transcendental’, a concepção de um mundo                  ontológico independente da consciência — não passa de um… ‘contrassenso’.

Com a defesa do ‘primado’ da consciência…em relação ao “ser transcendente”,              Husserl rejeita adoutrina de Lockeda existência de qualidades secundárias                  (cor, som, cheiro) – pois… as qualidades primárias (solidez, extensão, inércia)                  não teriam privilégios frente a elas. E rejeita a ideia do objeto da ‘intuição’ ser                    um ‘signo’ do objeto físico. Mas qual seria a relação entre ambos?…Husserl                  oferece uma solução para o problema – a partir da concepção de que o objeto                          da física é constituído a partir de ‘operações lógicas’ realizadas sobre o objeto                      da percepção. Isto é, o portador das ‘determinações sensíveis’ será concebido                  como idêntico ao portador das‘determinações físicas’ – de maneira que, do                  ponto de vista transcendental, não se poderá afirmar a coisa física como algo                    que exista por trás do ‘objeto sensível’que pode ser considerado sua ‘causa’.

Se o objeto físico fosse uma causa escondida por trás do objeto que aparece,                    teríamos como consequência…uma “teoria dos 2 mundos”, na qual haveria                        uma “realidade fenomênica” – e…por detrás desta, uma…”realidade física”.

É verdade que o objeto da física possui atributos que não são dados no objeto tal qual    este se manifesta na experiência direta, e vice-versa…mas isso não é problema, já que          é preciso distinguir entre o portador das determinações, e as próprias determinações.         O portador é o mesmojá as determinações de um e outro, variam segundo o tipo de       ato e sentido com o qual é intencionado. E isso não significa uma ausência de relação       entre as determinações físicas e as percepcionadas. O objeto enquanto portador das determinações sensíveis, tal como dado na intuição original…possui, não só primazia epistemológica, mas também ontológica frente ao objeto da física. Este por sua vez, é constituído no processo de idealização, desenvolvido sobre a objetividade intuitiva.      Em suma, as próprias “determinações físicas” se anunciam, antes de qualquer teoria     em suas próprias “condições sensíveis”…e dessa forma, todo conhecimento científico teórico encontra sua raiz, dentro de uma intuição originária. (texto base, Savio Peres)    *******************************************************************************

Redução transcendental (uma proposta fenomenológica)                                                      Para Husserl, a ‘fenomenologia’ não deve ser uma doutrina da aparência                            dos fenômenos reais, mas sim, dos fenômeno transcendentais reduzidos.

Segundo Husserl, tendo em vista grandes conflitos surgidos no horizonte da Europa em um momento histórico de mudanças, se fez necessário um “novo modo de se orientar frente à orientação natural da experiência e do pensar”. – Para realizar tal tarefa,  ele propõe partir de uma ‘ideia natural do mundo’, significando: “o fenômeno que se apresenta”. Mas, não satisfeito com esse primordial ‘ponto de vista’, Husserl também faz questão de investigar – o que      se revela diante do ‘fenômeno’ – realizando assim, uma ‘redução transcendental’, a fim de capturar a essência do fenômeno observável; algo como uma consciência pura sujeita à experiência psicológica.

O método de ‘redução fenomenológica’ tem a finalidade de derrubar barreiras tradicionais de investigação – diversificando a direção unilateralprópria dos métodos tradicionais de ciências, utilizados até o começo do século 20segundo Husserl para assim obtermos o “livre horizonte dos fenômenos transcendentais purificados, e descortinarmos o campo da fenomenologia”…no sentido próprio que o termo deve ser entendido. – Assim, ele observa que devemos entender que a fenomenologia proposta, isto é, a “transcendental”…não será fundante como ciência dos fatos, mas como ciência exclusivamente de essências. Portanto, a redução fenomenológica de Husserl levará, do fenômeno psicológico – à “essência” pura do objeto estudado…ou seja, do pensamento que forma juízos simples de ‘universalidades empíricas’ – à universalidade do conhecimento da essência dos fenômenos. (texto base************************************************************************************

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Imaginação, espaço, tempo, e eventos são fornecidos ao sujeito por um “desenrolar” de um estado consciente que os apreende.

Breves noções de “fenomenologia”        ‘Fenomenologia’ é uma filosofia que rompe com o “pensamento moderno”a partir da matemática e psicologia…abrindo portas a  um‘raciocínio’ – às voltas com a maneira com que fenômenos se mostram ao sujeito.

Em sua obra A Ideia da Fenomenologia“, Husserl apresenta as “raízes” da sua “reflexão filosófica” expressas em Göttingen (1907) por    5 lições, numa nova perspectiva dessas ideias. 

No resumo a seguir (1ª e 2ª lições), além das definições básicas fenomenológicas, Husserl também se preocupa em analisar a essência do conhecimento de um modo mais acessível.  Na 1ª lição Husserl mostra a diferença entre a ‘atitude espiritual natural’, da qual provém    a…”ciência natural“…e a ‘atitude intelectual filosófica’ (fonte da “ciência filosófica“).  A ‘atitude natural’ não se atém à ‘crítica do conhecimento’, portanto não é capaz de atingi-lo, pois todas as coisas no mundo tornam-se … de alguma forma … objeto da investigação natural, se colocando naturalmente sob o domínio da percepção. Assim, ciências naturais podem ter sua própria natureza… – como ciências psíquicas…ou – ‘ciências matemáticas’.

Na ‘atitude filosófica’, Husserl mostra ser ela esclarecida em seus propósitos, por meio da percepção de um mistério acerca da possibilidade do conhecimento… de modo à essência do conhecimento se apresentar como um problema…isto é, um mistério a ser investigado. Desse mistério sobre a busca da “essência do conhecimento”… surge a “atitude filosófica”.metafc3adsica ‘Conhecimento’ é uma “vivência de natureza psíquica”, pois o homem busca a consciência de seu próprio conhecimento…enquanto a percepção é uma forma de vivência do sujeito (pela consciência). Nessas vivências, fenômenos se vinculam diretamente ao cognoscente.

‘Fenomenologia’… uma definição                                                                                          A transcendência segundo Husserl é o problema inicial e guia da crítica do                conhecimento, isto éo enigma que bloqueia o caminho do conhecimento                    natural… constituindo assim… o ‘impulso‘… para as novas investigações.

Finalizando a 1ª lição, Husserl apresenta a definição de…’fenomenologia‘ – como sendo uma ciência – ou conexão de disciplinas científicas…sobre o estudo do ‘fenômeno‘ … (tudo aquilo que se manifesta…e se revela à consciência). E assim, a ‘fenomenologia’ designa um método (filosófico), bem como uma atitude intelectual filosófica, propriamente dita. Já na 2ª lição, Husserl afirma que… — ao iniciar uma crítica ao conhecimento o importante é submeter o índice de questionabilidade da natureza física e psíquica do mundo ao próprio ser humano, bem como às ciências que dizem respeito a essas realidades. O conhecimento, portanto…é um mistério – cuja ‘obscura cognitividade crítica’ o faz de difícil compreensão.

descartes_frasesEdmund Husserl faz uma referência à meditação de Descartes quanto à ‘dúvida hiperbólica’ citada em suas “Meditações Metafísicas“. – Ele diz que, mesmo que se duvide de tudo – da maneira mais cética, é impossível de se duvidar da existência, à medida que se duvida…isto é, nem tudo pode ser duvidoso… — pois, ao afirmar isto, seria absurdo manter uma dúvida universal. E esse argumento, como se pode ver…vale para todos atos do cogito.

Husserl compara a “percepção intuitiva” com a “imaginação”…Para isso, a fim de elucidar sobre sua essência, propõe uma nova crítica da ciência do conhecimentoonde apesar de questionar o saber – Husserl mostra que não se deve colocar em questão, tudo aquilo que transcende a imanente experiência intuitiva da percepção, tentando recuperar algo além.  O conhecimento é uma coisa distinta do seu objeto – ou seja – o conhecimento está dado, mas o objeto não… Assim, apesar do conhecimento ser questionado… isso não implica na negação de sua possibilidade. Não se pode interrogar o que é conscientemente percebido, uma vez que este, enquanto possível objeto transcendente, já fora repudiado pela dúvida.  Dessa forma… – ao tratar da “redução gnosiológica“… – Husserl conclui sua 2ª lição.  Nessas lições, Husserl se propõe a trabalhar como – em geral, é possível o conhecimento,    e…o que pode ser conhecido (seu objeto)… – Pode-se concluira partir da leitura dessas duas primeiras lições que fenomenologia é a ciência de tudo aquilo que se manifesta…e se revela à consciência. A partir de um método original, objetiva dar bases sólidas a uma ciência que busque alcançar a ‘coisa’ como ela é. Para ele, consciência é intencionalidade,  uma vez que toda ‘consciência’ se refere a algo – e sendo assimconstitui uma atividade formada por atos (imaginação/percepção) dispostos numa ‘perspectiva vivencial’. Sendo considerada como um…transcender“…em direção à outra coisa, a “intencionalidade” também pode ser tratada – simplesmente – como um “modo de ser da consciência“.

Husserl propõe uma reflexão científica sobre o conhecimento…tornando a fenomenologia não apenas atitude intelectual natural, mas atitude intelectual filosófica…ao colocar todas as coisas, enquanto fenômeno da consciência. E sendo assim, se pode perguntar – como é possível quetudo o que está em torno de um “sujeito” – exista somente em relação à ela.  De fato, o objeto só se referencia no sujeito, mas sendo a consciência transcendental (fora do mundo). Nesse caso então, só é possível definir o objeto em relação à uma consciência.

Para que a verdade filosófica se torne permanente… é preciso que a consciência                  alcance as coisas, do modo como estas à ela se mostram. A filosofia assim, deve                  sempre buscar a essência do conhecimento. Flávio Nogueira Cunha (texto base)  **************************(texto complementar)***************************

Filosofia da Mente: Neurônios-espelhoe “representação mental” (mar/2010)  É possível que em certas áreas do cérebro — não exista qualquer separação entre realizar uma ação e pensar sobre ela. Sendo que esta última opção seria apenas uma ação inibida.

Na década de 90 … descobriu-se que, certos neurônios específicos de áreas motoras do cérebro, eram capazes de responder…quando a ação executada era a mesma; percebida visualmente. Eles então ficaram conhecidos como: “neurônios-espelho” – base da nossa capacidade de imitar. Tais neurônios porém, podem também ser a base da nossa ‘compreensão’, e da “empatia”.

Neurônios-espelho são uma descoberta recente das neurociências (início dos anos 90),  sendo já considerados como uma das grandes promessas da área, capazes de revolucionar a forma como o ‘cérebro’ é entendido… principalmente no que diz respeito à um tipo de “compreensão imediata”, através de um…”mimetismo simulado sem a necessidade de passar por qualquer tipo de “intermediação” — do “controle central” — do cérebro.

É comum acreditar, não só por causa dos estudos científicos, mas também por nossas próprias intuições a respeito – que para a mente imitar, ou compreender uma ação, o cérebro deve utilizar áreas distintas. – A 1ª área deve perceber tal ação, a 2ª ser capaz      de traduzir tal ação alheia, em uma ação do nosso próprio corpo; e a 3ª, de comandar          e coordenar o corpo para realizar tal ação…Contudo, uma das grandes descobertas da neurociência — foi que, ao invés do que se pensavao cérebro não usa áreas distintas,    para certas percepções efunções motoras‘. – Sabemos agora, que áreas até há pouco consideradas exclusivamente motoras, têm papel crucial no reconhecimento de ações vindas de outras partes. Ao invés de dividir funções, o cérebro faz tudo de uma vez só.  Surpreendentemente, Darwin chegou perto de prever algo semelhante; quando disse:

“Não parece improvável que…quando pensamos muito numa determinada sensação,            a mesma parte do sensório, ou uma bastante próxima, seja da mesma forma ativada,      que quando temos de fato a sensação. – Se isso realmente acontece, mesmas células        do cérebro serão estimuladas…ainda que talvez num menor grau, quando pensamos intensamente num gosto azedo…e, quando o sentimos de fato. E em ambos os casos, transmitirão forças nervosas para o centro vasomotor, com os mesmos resultados”.

Existem também, os chamado neurônios-espelho emocionais que estariam                        na base de nossa capacidade de empatia…principalmente no que diz respeito                      às emoções primárias…como medo…dor…nojo e alegria. Foi descoberto…por                      exemplo, que a mesma área cerebral, que nos habilita a uma expressão facial                      de nojo, nos permite também identificar tal expressão, em outros seres vivos.

Por acaso, uma grande descoberta

A descoberta dos neurônios-espelho se deu por acaso no estudo da área motora, conhecida como F5 — em cérebros de macacos. Foi observado que um mesmo neurônio individual disparava… – tanto quando um determinado tipo de ação era realizada quanto… – quando esta mesma ação — ocasionalmente — era observada — por este mesmo macaco.

Tais ações, é claro, não eram quaisquer ações, mas ações evolutivamente relevantes como, por exemplo: pegar algo com precisão – segurar algo – mover os lábios para pegar ou mastigar algo, etc. Já se sabia do fato de que tais áreas não diziam respeito a movimentos individuais, e sim ‘atos motores‘…ou seja, um dado neurônio disparava não quando um certo movimento (por exemplo, pegar algo com a mão esquerda) era executado…mas sim, quando era executado um determinado ato motor — como pegar algo… Não importava se este algo era pego com a mão esquerda, direita ou mesmo com a boca o que importava, era a própria ação de pegar algo. – E se este mesmo movimento físico de pegar algo fosse realizado dentro de outra ação; como se coçar, por exemplo tal neurônio não disparava.

Tais ações foram chamadas de ‘ações intransitivas‘, ou seja, não envolvem um objeto específico para o qual a ação é voltadaTudo isso indicava que aquele neurônio da área motora F5 do cérebro dos macacos não dizia respeito à codificação de dado movimento muscular da mão. — O que ele codificava era algo de certa maneira mais abstrato ele era ativado sempre que algo era agarrado de forma precisacom a mão, ou com a boca.

Para surpresa dos pesquisadores…foi descoberto que este mesmo neurônio, que deveria ser exclusivamente motor, também era ativado quando o macaco observava exatamente esta mesma ação específica – realizada por outros animais. Ele era, então, umneurônio visuomotor a mensagem mandada por tais neurônios era exatamente a mesma não importando se a ação estava sendo realizada ou observada…Mais impressionante ainda,      é que em certas ações que produzem sons como quebrar a casca de amendoim para comer sua noz, os neurônios-espelho podem ser ativados – até mesmo só com este som; deixando claro que para estes neurônios…o que importa é a própria ação, e não o modo como ela é realizadaou percebida. De certo modo este neurônio é ativado não por um determinado ato, seja ele motor ou visual (ou, até sonoro), mas sim, pela compreensão    do significado do ato. Isto indica que a função primordial dos ‘neurônios visuomotores’  em macacos está na capacidade de compreender, de forma imediata, a ação dos outros.

Empatia (enxergando os outros)

Nos seres humanos, como nos macacos, a visão dos atos realizados pelos outros produz uma imediata ativação de ‘áreas motoras’…incumbidas da organização e execução destes atossendo que — por meio dessa ativação, é possível decifrar o significado dos ‘eventos motores’, em termos de movimentos…com objetivos.

Tal entendimento é totalmente isento de qualquer mediação reflexiva conceitual, e        /ou linguística…uma vez que é baseado exclusivamente no vocabulário de atos…e, no ‘conhecimento motor’…do qual depende nossa capacidade de agir. Ademais, também como ocorre ao macaconão é limitado a atos motores singulares, mas é extensível a        toda uma cadeia de atos. – Com efeitoestes neurônios estariam envolvidos em uma capacidade motora de compreensão que seria imediata – ou melhor dizendo … sem a necessidade de…’análise conceitual’…da ação que está sendo observada, ou realizada.  Simplesmente…observando uma ação — sem nenhum ato conceitual mais elaborado,          um macaco poderia, por exemplo, reconhecer que outro macaco estava pegando algo      para comer. Para Giacomo Rizzolatti e Corrado Sinigaglia, autores do livro: Mirrors          in the Brain, esta seria a função primordial dos neurônios-espelhoem macacos ou humanos. Porém, tão interessante quanto a semelhança do nosso cérebro com o dos macacos, são as diferenças encontradas entre eles – no que diz respeito a estas áreas.

Existem algumas diferenças fundamentais entre neurônios-espelho dos macacos, e            dos humanossendo de extrema relevância, por tratarem justamente do substrato          neural que nos dá maior poder de aprendizagem, imitação e linguagem. Tal “poder superior” fica evidente, com o fato de que tais neurônios ocupam um maior espaço            cortical nos humanos que nos macacos. Uma destas diferenças é que…ao contrário            dos macacos — nos humanos… — os neurônios-espelho também respondem a atos intransitivos, isto é…movimentos que não são diretamente relacionados a nenhum            objeto em particular – comopor exemplo, simplesmente mover o braço. Embora            esta não pareça ser uma diferença importantesua conexão com a linguagem, por expressões corporais que buscam passar um significado — permite ao ser humano                uma gama maior de atos motores, entendidos e imitados pelos neurônios-espelho.

Outra diferença importante é a capacidade de reproduzir fielmente a duração no tempo de vários movimentos observados. Este fato permite ao cérebro não só imitar os movimentos, mas imitá-los mais fielmente – respeitando a duração de cada movimento – assim como a sua conexão temporal. Imitar um ato respeitando seu tempo, é importante também para a nossa capacidade linguística – pois esta, ao se tornar mais complexaexige cada vez mais um ritmo exato para ser compreendidahavendo significado nesse próprio ritmo. Uma mesma expressão – conforme o ritmo e a entonação – pode ter significados bem distintos.

Neurônios-espelho de certo modo imitam imediatamente o que outra pessoa faz;        imitação esta que é inibida por outra parte do cérebro, mas que quando esta área              falhasurge prontamente. Esta ‘compulsão’ de imitar que o cérebro tem, parece incontinentemente ligada à nossa capacidade de apreender e de entender. Tal capacidade pode indicar que o que chamamos de “compreender”, seja entendida              apenas como “fazer internamente”ou “imitar internamente”. É possível que                algumas das nossas funções cerebrais, parte do que normalmente chamamos de              “mente”, possam ser entendidas através da ativação desses ‘neurônios-espelho’.

Paridade na Comunicação                                                                                                            Há uma hipótese…relativa ao surgimento da linguagem humana defendendo que esta surgiu de gestos realizados principalmente com os braços…e também expressões faciais. Partindo desse princípio – é bem possível que os “neurônios-espelho” tenham um papel fundamental em tal origem – ajudando então a resolver uma série de questões sobre ela.

Grande parte dos “neurônios-espelho” diz respeito a atos relacionados com alimentação; tais movimentos se assemelham bastante aos movimentos empregados na comunicação verbal. – Os movimentos necessários para morder e para falarsão muito semelhantes, mesmo assim os resultados são díspares entre espéciesNeurônios-espelho são capazes de compreender a mordida do cachorro, mas incapazes de compreender movimentos do latido. Já na observação dos movimentos humanos, houve resposta eficaz, a ambos os movimentos. Tais resultados indicam…nitidamente, que certos neurônios não disparam apenas para movimentos labiais sendo também seletivamente direcionados para atos comunicativos. Teríamos então…neurônios-espelho “exclusivos” para a comunicação.

Algumas pesquisas também indicam uma ligação direta entre os gestos dos braçose o movimento da boca. – De fato, na busca desse processo, podemos encontrar, ao menos parte da origem da linguagem em nossa habilidade de gesticular. Há ainda uma ligação forte entre a comunicação oral e os gestosMesmo após milênios, nossa capacidade de gesticular, e modificar o tom e ritmo da voz…ainda é de extrema importância para uma comunicação efetiva. Note-se que o próprio modo como tais neurônios funcionam … já      nos dá uma excelente indicação da sua importância à comunicação  pois para um ato comunicativo ter sucesso deve haver uma espécie de ‘paridade’, onde só podemos dizer que algo foi devidamente comunicado… – se a mensagem que foi recebida é de alguma forma similar (ou melhor igual) à enviada. Sem isso, concluímos que a comunicação falhou. Mas, para que uma tal comunicação ocorra, parece ser necessário que a mesma ação seja compreendida de uma forma razoavelmente idêntica, em cérebros diferentes.

Uma última observação que aproxima neurônios-espelho do surgimento da linguagem pode ser tirada da“neuroantropologia” – o estudo das estruturas cerebrais de fósseis humanos – mesmo que tais estudos não sejam muito precisospois devem se realizar,        não com cérebros, mas com caixas cranianas fossilizadas. Mesmo assim, há indicações      de que o desenvolvimento do sistema de ‘neurônios-espelho’foi umas das mudanças cerebrais relevantes para a evolução dos humanos… — Segundo Rizzolatti e Sinigaglia:

“Análises realizadas em traços de circunvoluções nas cavidades de um grande número      de crânios de Homo habilis de quase 2 milhões de anos de idade mostram que regiões frontais e têmporo-parietais desenvolveram-se, fortemente, naquele estágio evolutivo.  Isso sugere que a transição do australopitecos para o Homo habilis coincidiu com um ‘sistema espelho’ mais diferenciado, o qual forneceu o substrato neural à formação da ‘cultura da imitação’…que, para Merlin Donald, chegou ao ápice com o Homo erectus caminhando na Terraentre 1,5 milhões e 300 mil anos atrás. Também é plausível supor que os neurônios-espelho evoluíram ainda mais, durante a transição do ‘Homo erectus’ para o ‘Homo sapiens’, ocorrida há 250 mil anos – e responde pela expansão, tanto dos ‘atos motores’ quanto da habilidade…’recém adquirida’…de se comunicar intencionalmente por meio degestos manuais — que gradualmente vão se tornando    cada vez mais articulados…e frequentemente, eram acompanhados por vocalizações”.

O behaviorismo interno (“anti-behaviorismo”)                                                                          “É inquestionável que existe no homem uma forte tendência para a imitação, independente da vontade consciente. É o chamado de ‘sinal de eco’. (Darwin)

As áreas hoje correspondentes à linguagem se situam na região temporal do hemisfério esquerdo, causando certa assimetria do crânio … que já pode ser encontrada no “Homo habilis”. – Por esse motivo, cerca de 2 milhões de anos atrás é também a data estimada para o início de pressões seletivas para uma vocalização aumentada, que ocasionaram        o surgimento do que hoje chamamos “linguagem”. Vemos entãoe provavelmente não por coincidência…nosso principal instrumento para a transmissão de cultura, surgindo praticamente junto, ao aumento substancial em nosso sistema de neurônios-espelho.

Neurônios-espelho estariam hoje, na base da nossa linguagemcompreensão, e habilidade de adquirir cultura por meio da imitação… e outras formas de ‘aprendizagem social’. Todavia, o mais relevante é a maneira inusitada de pensar o…’funcionamento cerebral’ que surge com esta teoria…Os “neurônios-espelho” nos mostram que o processo envolvido na imitação é muito provavelmente bem diferente dos processos que intuitivamente acreditamos estarem envolvidos. Não seria preciso o cérebro primeiro perceber, depois traduzir para nosso corpo e por fim coordenar nossa ação. Ele parece fazer isso de uma maneira mais simplesbem mais econômica.

Não são necessárias áreas distintas do cérebro envolvidas em complexas                              transformações. O mesmo neurônio que percebe, é capaz de fazer aquilo                                que percebe…e vice-versa. A separação entre neurônio visual e neurônio                                motor não é necessária. Para tal neurônio perceber é fazer, e vice-versa.

Talvez o mais interessante de tudo seja a capacidade que esses neurônios têm para compreender determinada ação. Podemos conceber um neurônio para ‘pegar algo’,            não importa como este algo é pego. Além disso, ele não é disparado com o simples movimento intransitivo – que copia todos movimentos musculares, mas não pega              nada. – Ao observar algo sendo pego…o neurônio é capaz de entender este evento            motor em termos de objetivos, sem qualquer mediação reflexiva, conceitual, e/ou linguística – uma vez que é baseado exclusivamente no vocabulário de atose no conhecimento motor – do qual depende nossa capacidade de agirCompreender                  e fazer, nesse casosão muito mais próximos do que intuitivamente acreditamos.

De fato, para que uma pessoa, ou mesmo um macacocompreenda o ato de “pegar algo”, não parece ser preciso que esta ação seja antes observada ‘passivamente’ para que depois este ‘dado cerebral’ seja levado para outra área “onde a compreensão ocorre”. Existe uma espécie de “compreensão visuomotora imediata”. Isto tudo pode parecer ‘contraintuitivo’, pois não precisa da criação de complexas representações internas…ou ‘centros decisórios autônomos’. Com efeito, a área inibidora não é um “centro decisório”…pois não decide se queremos ou não fazer certo movimento; e só ao decidir fazer o movimento é que envia o sinal às áreas motoras, que aguardavam passivamente. – O centro inibitório, na verdade, apenas reprime um movimento – que já está em vias de ser realizado…automaticamente.

A relação é justamente a inversa: um centro decisório serve para ativar ou não áreas motoras; o centro inibitório serve para inibir ou não estas áreas.

Historicamente diferenciamos entre aquilo que o corpo faz, e o que a mente faz. Andar e pensar em andar seriam 2 coisas completamente diferentes…Mas os ‘neurônios-espelho’ indicam que pode existir um novo modo de tratar este problema. Pensar em andar pode ser muito mais parecido com andar do que a psicologia popular admite. – Talvez para pelo menos partes do nosso cérebro ‘andar’…e ‘pensar em andar’, sejam exatamente a mesma coisa. E, mesmo não podendo deduzir isso desses neurônios-espelho…podemos ver que eles trazem uma nova maneira de pensar…sobre a mente…e seu funcionamento.

RepresentaçõesPrimitivasEvolutivasContraintuitivas…                                        ‘Pensar’ talvez seja apenas uma consequência de ‘inibir o movimento’.                              

O cérebro pode funcionar de um modo bem mais econômico e contraintuitivo, do que a psicologia tradicional é capaz de conceber. A diferença entre realizar um movimento físico e pensar neste movimento pode ser apenas que no 2º caso…uma área inibitória do cérebro está agindo… O cérebro pode precisar    de mais esforço…’para não fazer algo’, do que fazer alguma coisa. — E, antes desta área existir a própria ideia de ‘pensamento’ poderia não ter sentido.

Segundo a noção mais intuitiva e simples de…“representação” – o mundo precisa ser representado internamente na mente para que possamos nos relacionar com ele. Nossa relação com o mundo externo portanto é indiretamediada pela representação interna que fazemos dele. O mundo externo, por sua vez, serve como base para a construção de uma representação interna, ou imagem mental. – Se há uma representação interna que não corresponde a nada no mundo temos uma… “alucinação”. De imediato, podemos perceber não ser esta uma relação das mais econômicassomos ‘seres do mundo’, mas não nos relacionamos com o mundo que vivemos, sem uma representação interna dele.

Nessa noção popular, antes de fazer ou falar algo, devemos pensar o que vamos fazer, ou falar; mesmo que inconscientemente isto tenha que ser decidido dentro do cérebro, para depois o comando de execução ir às áreas motorasou ser inibido pelas áreas inibidoras.

Este tipo de ‘representacionalismo’ é bastante comum; sendo frequente tanto em teorias dualistas, como em teorias materialistas também. Boa parte das teorias neurocientíficas, por exemplo…admitem que o mundo externo é de algum modo representado no cérebro,    e que áreas motoras são de certa forma passivas, e comandadas por uma área de decisão, que é autônoma em relação a elas. Neurônios-espelho‘ servem para mostrar que o funcionamento do cérebro exige uma revisão dessas intuições sobre as nossas mentes.  O esperado é que tal explicação não seja intuitivapois é preciso tratar o que está sendo analisado a partir de termos diversos dele mesmoUma explicação das nossas intuições deve ser ‘contraintuitiva’, pois intuição é aquilo que achamos não precisar de explicação.

Não há motivos para achar que estas intuições mais primitivas, necessariamente estejam certas. — Elas são apenas mais adaptativas para o ambiente — onde…e quando surgiram. As intuições sobre o funcionamento das nossas mentes … e das mentes dos outros, nessa época dificilmente demandavam explicação mais aprofundada, só precisavam ser boas o suficiente para permitir nossa sobrevivência e reprodução diferencial. Não há motivos para que explicações mais primitivas sejam a verdade sobre a mente‘, muito menos que nossas intuições sobre o seu funcionamento também sejam verdadeiras. — Estas, não só podem, como devem estar erradaspois quando surgiram, as necessidades eram outras.

A existência dessas intuições primitivas, provavelmente têm origem evolutiva, e portanto, devem estar adaptadas a um ambiente local ou em alguma época foram a ele adaptadas. No que diz respeito à física e matemática o ambiente local era newtoniano, e euclidiano. Mas não devemos esperar adaptações ao ambiente einsteiniano ou quântico, por exemplo. Não é sem razão – que essas 2 novas fronteiras da física nos pareçam tão contraintuitivas: em velocidades próximas à da luz o tempo passa mais devagar, objetos se encurtam, e sua massa aumenta já em escalas quânticas…partículas se encontram ligadas e sem estados definidos, etc. – O mesmo, aliás, se dá com a biologia – onde o ‘pensamento populacional’ trazido por Darwin vai contra nossas intuições mais íntimas sobre separação das espécies.

A complementaridade Mente/Cérebro                                                                              Um dos argumentos mais contundentes do dualismo é o nosso acesso imediato à mente; mas o cérebro não precisa funcionar…da forma como nós intuitivamente achamos que a mente funciona… – Na verdade, o oposto parece mais razoável é mais provável que o cérebro funcione segundo regras, que para nós … seriam consideradas ‘contraintuitivas’. 

Sabemos desde meados do século 20, que não há como discutir sobre a mente sem incluir o cérebro na conversa…Mas talvez…por dificuldades no desenvolver das “neurociências”, a profundidade desta relação … ficou meio obscurecida.

A descoberta do “neurônioespelho” promete revolucionar a neurociência, em especial, na compreensão … sobre o funcionamento de nossa própria mente em relação ao procedimento de como o nosso cérebro…seu substrato, funciona.

A questão já foi tratada no clássico “Consciousness explained” (1991)…do filósofo Daniel Dennett, onde, em poucas palavras, ele tenta mostrar que a mente não tem, nem precisa de qualquer espécie de…”significador central“…“onde tudo se une…faz sentido”. Os neurônios-espelho surgem então, como uma das evidências mais contundentes disso.    O livro é um excelente exemplo de como nosso conhecimento sobre o funcionamento do cérebro pode servir de base para redesenhar o modo como nossa mente funciona. – Se a mente é “o modo como o cérebro funciona” então para entender a mente é essencial que entendamos o funcionamento do cérebro. – O próprio David Chalmerscom suas 3 leis psicofísicas, mostra que ambos estão intimamente ligados. O modo como materialistas cartesianos abordam a noção de “representacionalismo” nas neurociências…é mais um exemplo de como ambas noções se confundem— Procura-se no cérebro o local para o que acreditamos existir — com base em nossa intuição sobre o funcionamento da mente.

Não há, portanto, motivos para acreditar que o nosso cérebro deva necessariamente trabalhar da forma como intuitivamente acreditamos que trabalha – e os neurônios-espelho surgem como evidência de que o seu funcionamento é bem diferente do que intuitivamente acreditamos. O mesmo se dá com a noção de ‘representação mental’.            Por mais intuitiva que esta noção seja, necessariamente, não significa que o cérebro         precise criar uma imagem do mundo para poder atuar nele, e os neurônios-espelho,        nos mostram que o cérebro consegue atuar de maneira mais direta; mais ‘imediata’.        Isso, porém, não significa que o cérebro não precise processar os inputs que recebe,        apenas, que tal processamento não precisa se dar na forma de uma representação          interna do mundo exterior, para que então um controle central decida o que fazer.

A relação do cérebro com o mundo pode ser muito mais imediata do que as teorias do representacionalismo nos fizeram acreditar. Uma nova perspectiva das neurociências        nos indica um novo horizonte na filosofia da mente…A separação entre pensamento e comportamento, realizada nas críticas aos behavioristas pode ser revista dentro desta        nova perspectiva. Não é o caso de se propor uma retomada do ‘behaviorismo’; apenas        de certas intuições fundamentais – especialmente a que liga mente e comportamento. Com o desenvolvimento da pesquisa sobre “neurônios-espelho” abre-se a perspectiva        de que o pensamento é uma ação inibida. Uma espécie de ‘behaviorismo negativo’ ou “anti-behaviorismo” surge…Ao contrário de negar a mente…ou recusá-la – dentro do ‘processo explicativo comportamental’, ela seria retomada: a mente existe, mas como   uma forma de “comportamento interno inibido”. Pensar seria não fazer. (texto base*******************************************************************************

Físicos afirmam ter detetado o quinto elemento – a quintessência (nov/2020)    Até Einstein, o éter era a substância essencial a partir da qual todas as partículas e ondas eram medidas, e o meio no qual elas se deslocavam. Mas a teoria da relatividade especial dispensou o éter; e o termo foi logo banido…criando-se muito preconceito em torno dele.

eter-quintessencia

À medida que a radiação cósmica de fundo de micro-ondas viaja pelo Universo até ser observada na Terra (imagem à direita), a direção na qual a onda eletromagnética oscila (linha laranja) é girada em um ângulo β. A rotação pode ser causada pela matéria escura ou pela energia escura interagindo com aquela radiação. Regiões vermelha e azul mostram, respectivamente, regiões quentes e frias da CMB. [Ilustração: Y Minami / KEK]

Todavia, mesmo após sua rejeição, não têm faltado tentativas de ressuscitar o éter, sendo que a versão mais moderna equivale ao chamado…vácuo quântico, que descreve o “vazio quântico” do espaço como uma…”sopa de partículas”…surgindo e sumindo, o tempo todo.  Todavia agora, Yuto Minami (KEK/Japão)…e Eiichiro Komatsu (Instituto Max Planck de Astrofísica, Alemanha) encontraram algo que pode colocar um fim à discussão…trazendo    o éter definitivamente à ‘superfície’. – E, para evitar controvérsias infrutíferas, em vez de chamar a substância detetada de éter — eles preferiram batizá-la dequintessência – ou “campo quintessencial”…uma referência ao quinto elemento, ao lado do ar, terra, água     e fogo… – propostos na “Grécia Antiga”… para explicar a origem de todas as substâncias.

Minami e Komatsu revisaram os dados da ‘radiação cósmica de fundo’ coletados pelo telescópio espacial Planck, usando uma nova técnica…desenvolvida por eles mesmos,      para medir o ângulo de polarização dessa luz ancestral – calibrando-a com a emissão          de poeira da Via Láctea. E eles descobriram algo que ninguém havia visto. – Essa luz residual sofre uma “torção” conforme viaja pelo Universo. E esse giro na polarização          das ondas de luz só pode ser explicadoatravés de um meio no qual as ondas viajam.        E esse meio, naturalmente, seria a “quintessência”…ou “quinto elemento”…ou “éter”.

Os resultados ainda são preliminares, não alcançando a significância                                    conhecida como “5 sigmas” — necessária para que os físicos declarem                                    uma descoberta… – Mas, foi o mais perto que qualquer um chegou de                                      ressuscitar o éter…desde a publicação da relatividade geral, em 1905.

The-CCMB-anisotropy-polarization-map

O mapa de polarização de anisotropia CMB pode ser decomposto em modos E de paridade par (sem ondulação), e modos B de paridade ímpar (sem divergência). Os modos B primordiais somente são criados por perturbações de tensor (ondas gravitacionais inflacionárias). [Edward J. Wollack]

As prováveis consequências

O resultado, tendo como consequência    a eventual existência da ‘quintessência’, muda totalmente de figura o estudo da ‘matéria escura’ e ‘energia escura’ as substâncias hipotéticas — que até hoje ninguém conseguiu explicar… — Uma, tem efeito atrativo, mantendo galáxias coesas, enquanto a outra, por meio de seu efeito de repulsãofaz o Universo  se expandir… — cada vez mais rápido.

A chave de tudo é a luz polarizada da CMB. Sendo a luz uma onda eletromagnética se propagando, quando essas ondas oscilam em uma direção preferencial, se trata de ‘luz polarizada’. Esta polarização surge da dispersão da luz por algo. Por exemplo…a luz solar consiste em ondas com todas as direções oscilantes possíveis, portanto, ela não é polarizada. A luz do arco-íris, por outro lado, é polarizada pelo espalhamento da luz        do Sol por gotículas d’água na atmosfera. Da mesma forma, a luz da radiação cósmica      de fundo (CMB) inicialmente se polarizou quando foi espalhada por elétrons, 380 mil      anos após o ‘Big Bang’. – Como esta luz viajou pelo Universo por 13,8 bilhões de anos,        a interação da ‘radiação cósmica de fundo’ com a ‘matéria escura’…ou ‘energia escura’, pode fazer com que seu plano de polarização gire em um ângulo β… E foi esse o giro    que foi medido – muito embora os resultados ainda não tenham…a precisão desejada.

E Minami concluiu: “Desenvolvemos um novo método para determinar a rotação usando    a luz polarizada emitida pela poeira em nossa ‘Via Láctea’. Com este método, alcançamos uma precisão que é o dobro do que já havia sido feito até agora – e finalmente…pudemos medir o ângulo β. O resultado mostrou um nível de confiança de 99,2%, mas…como para reivindicar uma descoberta na física … a significância estatística precisa ser muito maior, com um nível de confiança de 99,99995% – precisaremos esperar a construção de novos observatórios…para medir a polarização da CMB com uma precisão maior”. (texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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3 respostas para Imanência & Transcendência em um ‘Campo Fenomenológico’

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