A saga dos ‘Neurônios cibernéticos’

“Cibernética é a maior mordida no fruto da árvore do saber… que a humanidade experimentou nesses últimos 2000 anos.” (G. Bateson)

Homens biônicos não são mais parte apenas da ficção científica; os avanços da neurologia, desvendando o comportamento do cérebro, e da bioengenharia, com membros mecânicos, podem fazer – em décadas… – com que cegos voltem a enxergar, e paralíticos a caminhar.  Na “bioengenharia”…membros com movimentos automáticos – apesar de seu alto custo…já são uma realidade – permitindo que o homem supere limitações impostas ao corpo. Na “neurologia” – pesquisas desenvolvem soluções…que tomam por base o uso dos impulsos cerebrais, para que um paciente possa, via pensamento executar tarefas ditas impossíveis.

Por meio de eletrodos implantados no cérebro… ou colocados sobre a cabeça do paciente, como um capacete, os sinais cerebrais são utilizados por exemplo, para movimentar uma cadeira de rodas… – Os ‘eletrodos’ – pequenos condutores metálicos de corrente elétrica, captam impulsos transmitidos por neurônios, ou células nervosas…Os impulsos ocorrem de forma caótica no cérebro… A intensidade e o local das transmissões variam segundo o indivíduo. – Por isso… – procura-se fazer com que o paciente (imobilizado)eduque‘ sua transmissão de impulsos nervosos… – Esse controle os torna inteligíveis para o eletrodo, que os traduz em informação.

As pesquisas ainda são recentes…Apesar da primeira leitura de impulsos cerebrais ter sido realizada na década de 20…o seu uso na movimentação de aparelhos, teve início na década passada. – Uma das mais recentes pesquisas usa neurônios relacionados ao movimento da mão esquerda de pacientes para mover o cursor de um computador e fazer com que eles se comuniquem… O estudo, realizado por Roy Bakay e Philip Kennedy, da Emory University,  Atlanta/EUA, implantou o eletrodo em 2 pacientes paralíticos, incapazes de se comunicar.

brain-computer-interfacesNo estudo … o paciente imagina que está movimentando a mão esquerda. Isso ativa um grupo de neurônios no córtex motor do cérebro…O eletrodo implantado no local…então, registra os dados…e os envia ao computador.

Os sinais fazem com que um cursor, na tela do micro, se movimente para cima, ou para baixo. Vendo o cursor se movimentar na tela…o paciente é capaz de… treinando, conseguir que seus neurônios transmitam frequências que controlem o cursor…Este exercício mental, faz com que os neurônios atuem de forma sincronizada, sendo assim mais facilmente detetado pelo eletrodo…Com abordagens semelhantes, o uso de impulsos nervosos é pesquisado por vários outros centros de pesquisa.

Audição e Visão

O eletrodo pode servir ainda como receptor de estímulos do ambiente. É o caso de implantes, que ajudem os pacientes a enxergar ou a ouvir. O processo, nesses casos é inverso: o eletrodo capta sinais do exterior,  e os decodifica, para que o cérebro seja capaz de entendê-los.

Na audição, estes são implantados na parte interna do ouvido – mais especificamente na ‘cóclea’. Nessa região…os eletrodos detetam sons do ambiente – estimulando assim, eletricamente o cérebro. No Brasil, tais implantes já existem…INCOR.

Processos que façam com que uma pessoa cega possa enxergar…contudo – ainda estão em fase de desenvolvimento. Cientistas estudam o implante de eletrodos no olho ou no córtex visual… – região do cérebro ligada à visão. No caso de eletrodos corticais…a pesquisa deve levar mais tempo. Tais estudos procuram fazer com que eletrodos, no cérebro ou na retina reproduzam imagens captadas por uma “câmera de vídeo”… – Dessa forma…uma imagem simplificada… – similar à de um “placar eletrônico”… – seria então recebida pelo paciente.

Pelo visto, portanto… os eletrodos não devem, de imediato, trazer muita qualidade visual. Assim sendo, se uma solução biológica for encontrada (…regeneração de “células visuais”, p.ex), uma restauração poderá ter melhor qualidade que a solução mecânica. (texto base***********************************************************************************

cibernéticaAs informacionais raízes cibernéticas

Cibernética é a ciência que, intimamente relacionada à… ‘teoria geral de sistemas‘, estuda os mecanismos de comunicação e controle de sistemas físicos e sociais…ou seja … — “máquinas”… — e “seres vivos“.

Já para Gregory Bateson … é o ramo da matemática que lida com problemas de controle e recursão de informações, dentro dos quais, ‘sistemas complexos’ afetam seu meio externo, para, a seguir, a ele se adaptar.

Nascida por volta de 1942…e inicialmente orientada por Norbert Wiener e Arturo Stearns, a cibernética é uma ciência que visa o controle e comunicação das máquinas e/ou animais, desenvolvendo para isso ‘técnicas de linguagem’ que nos permitam resolver problemas de controle e comunicação em geral. Quando em 1950 , o matemático Ben Laposky criou em um computador analógico, abstratas oscilações eletrônicas, considerou-se a possibilidade de manipular essas ondas…e gravá-las eletronicamente – como o despertar do que viria a ser conhecido como ‘computação gráfica’. Posteriormente, ao longo dos anos 50, William Ross Ashby propôs teorias relacionadas à ‘inteligência artificial‘… – Já em meados da década de 60…a ‘cibernética‘ deu grande impulso à ‘teoria da informação‘…quando    o “computador digital” substituiu o processamento da “imagem eletrônica analógica”.

São dos anos 50/60…a 1ª geração de computadores (c/desenhos gráficos); a 2ª geração (c/transistores); a 3ª, em 1964 (c/circuitos integrados); bem como as 1ªs “linguagens de programação“…Fortran, Cobol, Algol… e Lisp.

A extrema rapidez com que essas mudanças ocorrem… está afetando os modos de vida    na sociedade… – promovendo assim…em vários casos, o abandono daquelas crenças e tradições profundamente enraizadas… – nos mergulhando numa cultura de constante relatividade… – com sérias limitações nas relações pessoais e sociais, entre indivíduos.

Cibernética é uma ciência interdisciplinar, tão ligada à física, e ao estudo do cérebro, quanto ao estudo dos computadores…e às linguagens formais da ciência, fornecendo ferramentas para descrever, objetivamente, o comportamento destes todos sistemas.    Muitos associam cibernética com a ‘robótica’, e o conceito de ‘cyborg’, devido ao uso      que tem sido dado em certas obras de “ficção científica“… – mas… do ponto de vista puramente científico, cibernética são sistemas de controle, com ‘retro-alimentação‘.

Stafford Beer…filósofo organizacional, a quem o próprio Wiener considerava como o pai da gestão cibernética, a definia como ”a ciência da organização eficaz“… – Nesse sentido,    a “cibernética” estudaria a informação que flui em torno de um sistema – animado, ou inanimado, e como essas informações são usadas pelo sistema para uma auto-regulação, mantendo sua estabilidade…em processos que – por mecanismos de “retroalimentação”, relacionam e controlam a operação sistêmica.

A característica de um sistema não-trivial “auto-regulado” é que, apesar de lidar com variáveis incomensuráveis, incertas demais para se identificar, e difíceis de se entender, algo pode ser feito para gerar uma “previsibilidade”.

Fundamentos da teoria cibernética

As teorias que embasaram o desenvolvimento desta disciplina — foram formuladas em 1948, quando o filósofo matemático Norbert Wiener publicou seu livro ‘Cibernética‘…O princípio básico é a “retro-alimentação” (feedback), que consiste na ‘contínua correção’ – pelo sistema, dos erros cometidos…O cérebro humano aliás, se utiliza desse princípio, ‘inconscientemente’.

Do ponto de vista cibernético, todo sistema transforma uma variável… – ou conjunto de variáveis de entrada…nas correspondentes variáveis de saída. A relação matemática que exprime a dependência das variáveis de saída…em relação às de entrada – denomina-se “função de transferência“…e sua complexidade é ‘diretamente proporcional’, àquela      do próprio sistema…Nos ‘sistemas realimentados‘, entretanto, as variáveis de saída dependem – não só das variáveis de entrada, como também de si próprias, aumentando consideravelmente a complexidade da ‘função de transferência‘.

A possibilidade de um sistema controlar a si mesmo… – até automatizar o processo que realiza, pode ser considerada a principal vantagem dada pelo ‘princípio cibernético‘. Isso permite aumentar a complexidade do sistema e acrescentar várias partes ou etapas independentes – que funcionarão realimentadas entre si…de modo a não ser necessário vigiar o correto funcionamento de cada uma delas, separadamente. Assim, as máquinas projetadas de acordo com tais critérios parecem mais ‘inteligentes’…do que aquelas que requerem permanente operação revisora, além de sofrerem menor perturbação externa.

Automatização de sistemas retro-alimentadores                                                            “O tema fundamental da ‘cibernética’ – é a regulação e                                                          controle de sistemas abertos”… (Mervyn Cadwallader)

Em processos complexos, como, por exemplo, nos mecanismos que entram em jogo nos pilotos automáticos das aeronaves, deve existir um retardo mínimo, entendendo-se como tal o ‘tempo de reação’ do sistema frente a ‘perturbações externas‘. – Quando um sistema realimentado é ativado, na realidade, se deve a um ‘sinal de erro’…ou seja, uma diferença entre a saída registrada em um momento dado, e a fixada como objetivo. Isso exige que o sistema atue por impulsos…e não de modo contínuo…oscilando de um lado para outro, em relação à posição de equilíbrio. Quanto mais rápida a reação do sistema, mais difícil será mantê-lo dentro de suas margens de estabilidade.

Na prática, verifica-se uma preferência pelos “sistemas estáveis”, cujo controle possa ser totalmente efetivado – com comportamento… para      todos efeitos, previsível. Isso limita em estreitas margens a rapidez de funcionamento, e a possibilidade aplicativa dos ‘sistemas de correção’.

Em grandes sistemas, costuma-se manipular um grande número de variáveis de entrada e saída, relacionadas entre si de uma forma complexa. Por consequência… tais sistemas não podem ser abordados diretamente – sendo decompostos em modelos mais simples – cujo comportamento seja equivalente ao do ‘sistema original’…O estudo assim enfocado é feito por simulação, ou observação da resposta do modelo nas várias condições a que o sistema se submete sucessivamente… As conclusões então obtidas são utilizadas para projetar um “controlador“… que servirá de base ao modelo definitivo de automatização do processo.

Processos cibernéticos                                                                                                                O computador só terá comportamento cibernético, quando estiver processando uma informação que lhe exija certo grau de adaptação…para manter um ou mais efeitos constantes quando variarem as causas.

De modo geral… os procedimentos mecânicos (‘não eletrônicos’) carecem das características adequadas para reagir com rapidez e precisão de uma maneira controlada e previsível… Um procedimento cibernético entretanto, é capaz de exercer funções dessa natureza. O modelo, variáveis e funções que o configuram … são o suporte lógico de controle, ou “software. O controlador, os sensores…e todo conjunto de dispositivos físicos — geralmente eletrônicos, são o suporte físico do sistema, “hardware.

O tratamento matemático realizado pode ser analógico, isto é, contínuo no espaço e no tempo, e digital ou discreto, tanto no espaço, como no tempo. Os ‘processos analógicos’ permitem realizar uma grande variedade de ‘operações matemáticas’…mas o custo dos circuitos e seu consumo aumentam consideravelmente…ao modelo exigir quantidades maiores de tratamentos. Nesse caso impõe-se o emprego de um ‘procedimento digital’,    via computador.

Considera-se, de modo geral, que a evolução da astronáutica, e a consequente corrida espacial, constituíram o fator que desencadeou o desenvolvimento da cibernética. No entanto, são inúmeras as aplicações industriais de suas teorias, todas dirigidas a uma automatização dos processos de produção, com a principal missão de comprovar que efetivamente, tudo funcione segundo o previsto.

Podem-se considerar como manifestações avançadas da cibernética…a “robótica (criação de máquinas que substituem atividades físicas humanas) e, em especial, a “inteligência artificial“, cuja finalidade consiste…em dar capacidade de decisão            às máquinas. Embora não se possa conferir à elas…”juízo crítico“… seu poder de        decisão, programado para resolver situações previamente definidas…é, em muitas ocasiões, superior ao humano. Todavia, a capacidade de adaptação, e resolução de problemas completamente novos, incluída aí a de concebê-los… são dons naturais,      situados fora dos princípios cibernéticos.

O Modelo Neuronal

O início das ciências cognitivas se deu no período 1945-55, nos EUA, quando do incremento de extensas discussões sobre o funcionamento do ‘cérebro’, a partir da ideia de ‘redes neurais‘ de processamento e retroalimentação de informações, dando origem ao termo cibernética… proposto por Norbert Wiener, em 1948.

Von Neumann, Norbert Wiener, e Warren McCulloch…pais da cibernética…trabalhavam, cada um em sua universidade e com sua equipe, na articulação da matemática e da lógica no funcionamento do sistema nervoso. McCulloch desenvolveu para o funcionamento do cérebro um modelo teórico, Wiener sintetizou os conhecimentos…e Neumann aplicou-os na construção do computador.

Enquanto para Neumann, o desafio era criar uma máquina capaz de realizar operações a partir de um programa armazenado nela mesma (a ideia básica do ‘computador digital’), para McCulloch o desafio era formular uma explicação do funcionamento dos neurônios baseada numa lógica matemática. Ambos se valeram da “Teoria da Informação“, criada por Claude Shannon em 1938, na qual a informação é proposta como um ‘dígito binário’ [origem do termo bit (binary digit), unidade básica da informação], capaz de selecionar uma mensagem entre duas alternativas.

Com esta ideia, McCulloch e Walters Pitts formulararam seu modelo lógico-neuronal, em 1943, no qual surge a primeira visão de que o cérebro funcionava com base no sistema de informação binária (0 ou 1)…onde a sinapse só tem 2 possibilidades – conectada, ou não.

É a ideia do tudo ou nada (“all-or-none”).  E assim… esta característica da atividade cerebral, poderia ser então tratada – por uma lógica proposicional matematizável. Isto abriu a perspectiva de se imaginar o cérebro, como uma “rede de conexão” entre as células, fechada em si mesma, e não de uma forma ‘comportamentalista’, analisada em função … só de “estímulos externos” … como anteriormente, assim fazia o ‘paradigma behaviorista‘ vigente.

Wiener, por fim, sistematizou todo este conhecimento, juntando a ele… o popular conceito de feedback (“retroalimentação“), oriundo da teoria da homeostasecriada por Walter Cannon em seu livro “Cybernetics”, de 1948.

“Eco-cibernética”

A era cibernética deixou um legado de conceitos, e um consequente domínio linguístico às “ciências cognitivas”…em especial, à visão ecológica de mundo…que também se formava à época – tão imprescindível… que sua ausência faria se sentir dentro do entendimento que temos hoje destes fenômenos. A teoria Gaia, por exemplo, formulada por James Lovelock e Lynn Margulis… está totalmente baseada na ideia cibernética dos “auto-reguladores” sistemas homeostáticos…sem a qual seria impossível pensar a Terra como um organismo que se auto-organiza a partir de suas próprias relações internas.

Outro exemplo fundamental ao modelo ecológico foi o conceito proposto por Wiener de “neguentropia“, uma entropia negativa que sistemas cibernéticos teriam a disposição para explicar o aumento de ordem dentro de um fluxo termodinâmico em que continua valendo a segunda lei entrópica…que explica a perda inexorável de ordem dos sistemas.

A neguentropia, juntamente com a homeostase são as 2 ‘ideias-chaves’    que hoje explicam a emergência, e a sustentabilidade dos ecossistemas.

Gregory Bateson… que em 1984 recebeu postumamente o prêmio “Norbert Wiener” da Academia Americana de Cibernética por sua contribuição ao desenvolvimento daquela ciência, também foi seu principal crítico… – notadamente quanto à tendência belicista, implícita na constante tentativa de reprodução das ‘qualidades mentais’, em máquinas controláveis pelo homem — pela adaptação de uma emergente “inteligência artificial“.

Mas Bateson foi além; usando o âmago da cibernética para criar seu modelo ecológico, ao mesmo tempo em que construía a principal crítica ao pensamento ciberneticista… ou seja, utilizou a teoria da informação para dizer que um “sistema vivo” não se sustenta só com a energia que recebe de fora…mas, fundamentalmente da organização da informação que o sistema é capaz de processar.

sistema autorganizadoE ainda, que esta informação, mesmo aquela considerada não explicada, que a cibernética, tentando eliminar, tratava como ruído, pode ser geradora de ordem e sustentabilidade…É a ideia de ordem a partir do ruído… – a ideia de sistemas autorganizadores, identificados como o 2º momento das ‘ciências cognitivas’. Bateson pôde manter seu “foco de pesquisa” preocupado com a vida…e suas implicações, dentro de um momento histórico, no qual o objetivo era inventar uma “máquina”… que agisse livremente… — “conscientemente“…

Os “Sistemas Auto-Organizados”

O segundo movimento na formação das ciências cognitivas inicia-se com os trabalhos de Bateson, e Heinz von Forster, ainda na primeira década da era cibernética (45-55). Estes    2 pesquisadores aplicaram todos conceitos modernos da cibernética a “sistemas abertos”, criando uma cibernética de 2ª ordem… – cujos sistemas evoluem com o próprio trabalho, não podendo portanto serem dissociados do observador. Seu rumo diferenciava-se assim, de seu núcleo original, que continuava perseguindo os objetivos da Inteligência Artificial.

A ideia de sistemas auto-organizados surge a partir dos resultados inesperados (como é comum acontecer nas descobertas científicas) das simulações dos modelos cibernéticos    de “all-or-none“…Observou-se que, mesmo com um mecanismo determinista, como as “redes binárias” … depois de um certo tempo… as simulações apresentavam um padrão novo de desenho, uma nova organização no circuito de alternativas, isto é, algo de auto-organização estava acontecendo com o sistema. Foi esta ideia de ordem emergente que físicos, biólogos e matemáticos começaram a aplicar dentro de seus ‘campos de estudo’.

William Ross Ashby foi um dos primeiros a dizer que o cérebro era um sistema auto-organizador, em 1947. Forster trabalhou durante as duas décadas seguintes com este    foco, cunhando o conceito de “redundância“…e a famosa frase…“ordem a partir do ruído, ordem a partir da desordem”, para indicar o processo de captura de desordem      que os sistemas vivos realizam… transformando esta entropia externa em aumento e manutenção da organização interna.

As pesquisas com os modelos simuladores de sistemas auto-organizados permitiram verificar 3 características distintas da 1ª cibernética…a ‘componente neguentrópica’,  que explica o aumento de ordem… a criatividade dos sistemas abertos… e a condição      de estarem fora da zona de equilíbrio; a presença de redes de retroalimentação para conectar o sistema — que, necessariamente, exigem um tratamento matemático com equações não-lineares…Deste 2º segmento cibernético, 2 modelos teóricos emergem:  neguentrópico e o caótico.

O Modelo Neguentrópico

O “modelo neguentrópico” é dado pela ideia de que sistemas vivos são abertos, com o poder de se “auto-organizarem”, garantindo assim, sua permanência no ambiente em que vivem. Tal ambiente, considerado em sua máxima extensão, é isolado e fechado… estando sujeito à 2ª lei da termodinâmica (da entropia), que nos explica a irreversível perda de ordem de ‘sistemas fechados‘…pela assim chamada… – “morte térmica“.

A entropia que mede a perda de organização em um sistema – por              ser inexorável, tem um sinal positivo…seguindo a flecha do tempo.

A neguentropia age no sentido inverso da flecha do tempo, tendo, portanto, sinal negativo, e assim podendo ser chamada de “entropia negativa”. A grande vantagem da neguentropia é poder explicar como surgem e se mantêm os sistemas auto-organizados, num cenário de perda irreversível de organização… – sendo, inclusive…utilizada como uma das principais medidas da auto-organização de um sistema.

Diversos autores vêm disseminando este modelo, entre os quais se destaca Ilya Prigogine, pesquisador pioneiro com seu trabalho de 1945 sobre “estruturas dissipativas“…e sua conclusão de que elas podem ser geradoras de ordem. Já pelo lado das ‘ciências sociais’ o pensador Edgar Morin realizou a mais ampla e radical aplicação deste conceito — em sua síntese civilizatória ‘O Método‘…conjunto de 4 volumes, com o 1º dedicado à organização da natureza… – o 2º…à vida – o 3º…ao conhecimento – e, o 4º…à organização das ideias.

Morin trabalha a ideia de ‘neguentropia‘…tanto para explicar a ‘auto-organização‘ da natureza, como para o próprio surgimento e morte das ideias. O conceito de neguentropia – enquanto força emergente e organizadora do ambiente, assumirá um papel de destaque neste trabalho, seja por seu poder de explicação das dinâmicas dos ecossistemas, seja por seu “papel pedagógico”… – ao tornar possível… uma reversão da “degradação ambiental”.

O “modelo caótico

O “modelo caótico” é dado pela ideia extremamente simples de que sistemas auto-organizadores são muito sensíveis    à mudança em suas ‘condições iniciais’. Caos, nesse caso, representa a evolução destes sistemas. – A grande surpresa é …’simulações matemáticas’ mostrarem    que todo ‘fenômeno caótico possui um padrão indefinidamente reproduzido a todamudança de fasedo sistema.

Este padrão é o atrator do sistema. Estes atratores, uma vez plotados, mostraram figuras geométricas muito estranhas – até então nunca vistas… com uma beleza de simetria impressionante… – Daí, receberem o nome de… “estranhos atratores“.

O “modelo caótico” é hoje o mais difundido entre as ciências cognitivas… Noções como “não-linearidade”, explicam fenômenos cuja reprodução não acontecem em uma escala linear e aritmética…”complexidade”, explicam fenômenos que têm sensibilidade a tudo que lhes diga respeito, ou seja…a complexidade é a ciência das emergências relacionais.    E “fractabilidade”… explica a geometria de sistemas com dimensionalidade fracionária,    ou seja, múltiplos de uma fração (daí o termo ‘fractal‘)… revelam uma nova realidade.

Os fractais são a geometria dos atratores e possuem a propriedade da auto-similaridade: estar presente em toda ampliação de parte de um sistema caótico…O que une os modelos neguentrópico e caótico é o ‘princípio ecológico das propriedades emergentes. A emergência é uma propriedade da natureza que nos diz que determinado estado ou nível de organização gera uma qualidade única, não presente em estados, ou níveis anteriores, ou posteriores de organização dos mesmos componentes.

O modelo caótico, entretanto, diferencia-se do neguentrópico, ao afirmar que é possível identificar, em qualquer emergência, padrões geométricos com comportamentos extremamente simples, os atratores, através dos quais é possível conhecer as dinâmicas próprias dos sistemas complexos.

A Presença da Autopoiesis

Por fim a 3ª característica das ciências cognitivas… vem a partir dos trabalhos de H. Maturana, e F. Varela – biólogos chilenos que propuseram, entre 1970 e 1973…uma “biologia da cognição“, e o paradigma da ‘autopoiesis‘, como uma solução necessária e suficiente…para o entendimento dos… – “sistemas vivos”.

Maturana foi aluno de McCulloch…e Varela foi aluno de Maturana…tendo trabalhado com Gregory Bateson…E, ambos foram amigos e colegas de Heins von Forster, sendo portanto, herdeiros diretos dos pais da 1ª e 2ª geração cibernética. Maturana define autopoiesis como uma rede molecular de produção de componentes, fechada em si mesma…de onde os componentes produzidos servem apenas para constituir a dinâmica da própria rede…determinando sua extensão no espaço físico em que materializa sua individualidade, e gerando um ‘fluxo energia/matéria’ alimentador da própria rede. Dessa forma, a ‘autopoiesis‘ descreve a capacidade de auto-organização, autodeterminação e autocriação dos sistemas vivos.

O modelo autopoiético está assentado em algumas “categorias epistêmicas”…1º) a ideia de determinismo estrutural, pela qual sistemas vivos são determinados ‘estruturalmente’ e sua história é a história das mudanças desta estrutura… conservando sua organização de sistema vivo… 2º) a ideia de “clausura operacional“… que trata de explicar os sistemas vivos como sistemas fechados operacionalmente – onde sua autonomia de processamento interno define um espaço próprio de realização. E, finalmente…a ideia de “acoplamento estrutural“, explicando mudanças estruturais de um sistema em função de perturbações vindas do meio em que vive.

No modelo autopoietico os sistemas são concebidos circulares, retroalimentadores e auto-referenciais… Esta última qualidade de monitorar-se a si próprio é dada por uma capacidade inata de aprendizagem, dentro do processo de relações entre os componentes de uma ‘rede molecular’. Esta capacidade de apreender e determinar comportamentos é a cognição. Daí a afirmação de que ‘sistemas vivos são cognitivos. — Varela destaca, que as 2 redes biológicas de maior evidência nos sistemas vivos, isto é, o ‘sistema nervoso’,  e o imunológico são “sistemas cognitivos”, e só isso explica seu funcionamento autônomo.

O modelo cognitivo autopoiético diferencia-se das outras abordagens, ao propor que todo conhecimento faz parte de uma conduta descritiva — criando assim seu próprio campo epistêmico… – um domínio de condutas cognitivas resulta das interações nas quais o sistema vivo participa sem perder sua identidade… sua própria organização, única variável que permanece constante numa experiência autopoiética. (texto base*****************************(texto complementar)******************************

sistemas neuronaisQuem tem medo de Stafford Beer?

Stafford Beer, preocupado com problemas extra-orbitais (…”organizações sociais”) se decidiu a redefinir a jovem “cibernética“, como a ciência da organização efetiva. Stafford ressaltava que há leis de sistemas complexos que são “invariantes” … não só    a transformações em sua forma… — como também de conteúdo…Ampliava-se assim,  a abrangência da cibernética, incitando a expansão de seu escopo; de sistemas mecânicos    e neurofisiológicos… aos sistemas sociais e econômicos. Para Beer, contudo, essa enorme abrangência não significa que todos sistemas são iguais – ou… de certo modo “análogos”.

O que ele afirma é a existência de leis fundamentais, que desobedecidas, levariam qualquer sistema complexo à instabilidade… e ao crescimento explosivo… – incluindo aí… a incapacidade de se adaptar… – e ‘evoluir’.

Poderia, a cibernética ajudar no estudo e forma das estruturas organizacionais?… Traz ela argumentos a favor… ou contra a centralização das instituições sociais?… Traz respostas à questão da liberdade individual versus planejamento?…Receitas para curar o mal crônico da burocracia?… – A resposta de Staffod Beer é…SIM!… E o critério que ele resgata…dos ensinamentos de Wiener é o de “viabilidade“… — Mas, em que consiste esse critério?…

Beer argumenta que… um sistema viável não oscila a ponto de levar suas dimensões vitais a posições extremas…sistemas complexos preferem “estados de equilíbrio“…provando uma tendência que a cibernética denominou “homeostase(propriedade de um sistema de absorver a capacidade que tem cada um de seus diferentes componentes em perturbar  o conjunto). Esse é o motivo por que organismos não toleram a temperatura do corpo, ou pressão sanguínea…acima ou abaixo de certos limites.

Nesse caso, a estabilidade que interessa ao sistema não é a da rigidez, mas a do equilíbrio dinâmico – em interação adaptativa ao meio que o circunda… respondendo às mudanças ambientais. Essa tendência é denominada “adaptação“… E Stafford Beer ressalta… que, um “mecanismo homeostático”, voltado para garantir esse equilíbrio, move seu ponto de equilíbrio, em resposta às perturbações do ambiente… Essa trajetória cumpre-se em um certo período de tempo, chamado “período de relaxamento do sistema”…Sendo que, nas situações em que o intervalo médio entre os ‘estímulos perturbadores’ for menor que tal período, o sistema ingressa em ‘regimes oscilatórios‘, que podem resultar explosivos.

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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