No ‘ASSOMBROSO’ Mundo da Computação Quântica

Além da física clássica, existe a física quântica…desenvolvida no começo do século XX.   É uma física desconcertante – e, se a física quântica é assim…computadores baseados nela não seriam muito diferentes… Computando inúmeras possibilidades e resultados   de uma só vez – são capazes de realizar…literalmente… ‘tudo ao mesmo tempo agora’.

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Computador pessoal completa 25 anos…          Este é o computador para todos que desejam um sistema pessoal no escritório, no campus…ou, até mesmo… em casa’

O primeiro computador pessoal – o ‘PC’… foi lançado pela IBM, no dia 12 de agosto de 1981, causando uma revolução – tanto no ambiente de trabalho, como nas residências.

Ele foi lançado com jogos e ferramentas rudimentares, incluindo um tutorial de música – gráficos em 4 cores diferentes…24 em texto; e linguagem de programação Microsoft BASIC.

A versão mais barata vinha com CPU e teclado, sem incluir monitor, e o drive de disquete, mais um alto-falante mono embutido, para música e áudio – com apenas 16k de memória; o que corresponde, hoje, à capacidade de 2 e-mails convencionais.

Havia também um jogo de aventura  –  que não usava gráficos, apenas texto … chamado Microsoft Adventure. A Microsoft também fornecia o sistema operacional das máquinas originais, o DOS. Os drives de disquete eram opcionais…e um de 5.25 polegadas poderia armazenar outros 160k de informação.

Já o consumidor atual tem disponível, por exemplo, um processador duplo de 1.8 GHZ – acima de 765 vezes mais potente do que o PC original…Com 1GB de memória, ela tem 65 mil vezes mais capacidade do que o IBM original…O disco rígido de 160GB é equivalente     a mais de 1 milhão de disquetes dos usados nas máquinas de 1981.

Dessa forma, o PC ajudou a padronizar a informação mundialmente… Seus dados passaram a ser lidos em outros PCs… e  –  existem mais de um bilhão deles em operação no mundo de hoje. (16/11/2006)

Computadores quânticos

Se você possui um computador, esteja certo de que ele é um ‘clássico’… Não que seja velho, ou de um modelo venerado pelo estilo, mas porque funciona basicamente de acordo com a chamada física clássica criada pelo inglês Isaac Newton há 300 anos… – Nesse sentido, ele não difere muito de um ‘ábaco‘ de mais de 2.500 anos atrás… que era pouco mais que um amontoado de pedrinhas movidas manualmente para efetuar cálculos. – A diferença é que, ao invés de pedras, os computadores de hoje lidam com elétrons…e, em lugar de mãos… — possuem milhões de chips repletos de minúsculos componentes para mover esses elétrons à velocidade da luz.

Existem 3 maneiras de fazer um computador trabalhar mais rápido…Uma é usando vários computadores para um mesmo fim. Outra, é construindo novos computadores (hardware) mais eficientes… – E a 3ª é elaborar ‘algoritmos computacionais’ (software) que permitam maior rapidez em suas atividades.

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Um algoritmo é qualquer ‘equação computacional’  –  que recebe algum valor… ou conjunto de valores como entrada — e produz algum valor, ou conjunto de valores como resultado; levando em conta todas as variáveis que possam surgir.

Os ‘algoritmos’ utilizados nos atuais computadores (algoritmos clássicos) são baseados em procedimento passo a passo… – ainda que muitos milhões de procedimentos sejam feitos em 1 segundo, por meio de milhões de transistores – que são ligados e desligados… para representar os valores 0 e 1.

Os computadores quânticos, usando, por exemplo… – átomos como bits quânticos, ou qubits... podem ter alterado seu magnetismo, ou outras de suas propriedades, a fim de representar 0 e 1… ou mesmo, os 2 estados sobrepostos. – Sendo capazes de executar muitos procedimentos em um único passo… – por meio de ‘algoritmos quânticos(muito diferentes da lógica utilizada nos programas atuais) poderão fatorar grandes números, revolucionar a ‘criptografia’, e ajudar em projetos intensivos de cálculos – em assuntos tão complexos… como ‘previsão meteorológica’. 

Processamento quântico

Os computadores atuais têm em sua menor unidade de armazenagem um dígito binário – ou bit, que é a unidade fundamental de informação…só podendo assumir 2 valores… zero ou 1… – Eles formam a base da armazenagem de informação usada na computação digital.

Uma série de bits em conjunto formam valores que, quando combinados em grupos de 8 – em um computador pessoal… esses bits se tornam bytes. Já computadores quânticos não são baseados em bits, mas sim em qubits (bit quântico), que representa sua unidade fundamental de informação.

Nesse caso – em vez de operarmos apenas com os números 0 e 1 – há uma gama maior de possibilidades… – Além do qubit poder estar em um estado de ‘superposição‘…que é ao mesmo tempo 0 e 1, ele também podem oscilar no espaço intermediário destas posições – como interruptores de luz que pudessem estar 1/2 desligados…Essa flexibilidade os torna úteis para armazenar e processar dados, quanticamente.

Pares de átomos, quando forçados a conviver em espaços limitados em um computador quântico, podem ser manipulados para estar em diferentes estados simultaneamente – enquanto se entrelaçam, e assim, processar exponencialmente mais informação do que       um computador tradicional.

Para se ter uma ideia da eficiência de seu desempenho, enquanto os computadores atuais processam dados em blocos de 64 bits de cada vez… um ‘computador quântico’ – no qual um qubit consegue guardar os valores 0 e 1 ao mesmo tempo – com os mesmos 64 qubits – será nada menos do que 264 vezes mais rápido.

Para desenvolver o processamento na computação quântica, porém, é preciso descobrir como fazer para que cada par de átomos oscile, e se mova independente dos demais… – como 2 moedas que estivessem girando, simultaneamente no ar… – correlacionadas de modo a que – sempre que uma delas tem o lado cara para cima…a outra assume coroa. Essas propriedades na computação quântica correspondem aos clássicos ‘transistores’  (chaves liga-desliga em um circuito eletrônico).

Superposição quântica

A “superposição quântica representa a possibilidade de um objeto quântico assumir uma combinação peculiar de propriedades que… — de acordo com nossa velha intuição clássica, seriam mutuamente excludentes.

Ou seja, a superposição é uma lei da mecânica quântica que postula que, para qualquer ‘sistema quântico‘ no qual exista uma certa quantidade de informação observável, ocorre sempre uma sobreposição de 2 ou mais estados possíveis.

Isso implica, para a computação quântica, que o qubit pode assumir os valores 0 e 1, além de uma sobreposição destes 2 valores…Tomando como exemplo uma bola de gude, que só pode ser inserida em 2 buracos diferentes, os quais chamaremos de buraco 0 e buraco 1 – este formato clássico, usando apenas um bit de informação, nos deixa ver completamente a situação da bola de gude, que só pode assumir o valor 0 ou 1.

Idealizemos agora, um análogo microscópico dessa bola de gude – um pequeno objeto que satisfaça às leis da mecânica quântica…Há alguns anos já é possível colocar microeletrodos numa placa de silício, de maneira a prender o elétron individual em uma de 2 posições próximas

Essas 2 regiões onde o elétron pode estar são ditos pontos quânticos – e, como no caso da bola de gude, chamamos de ponto 0…e o outro de ponto 1.

Segundo a mecânica quântica…é possível colocarmos o elétron numa situação em que 2 propriedades mutuamente excludentes se combinem de uma forma especial. No caso do elétron, além de podermos colocá-lo no ponto 0, ou no 1, podemos também colocá-lo em uma situação na qual ele se comporte, de certa forma como se estivesse nos 2 pontos ao mesmo tempo. Diz-se então que o elétron está num estado de superposição entre os 2 pontos.

Amplitudes de probabilidade

Essa superposição pode ser criada com várias gradações – ou seja – podemos escolher o “peso” de cada uma das possibilidades clássicas de posição. Esses pesos são conhecidos como amplitudes de probabilidade. Essas amplitudes descrevem completamente     a situação de superposição do elétron (ou ‘estado do elétron‘)… Se colocarmos a bola de gude no buraco 0…p. exemplo, sabemos que nada do que fizermos no buraco 1 afetará a bola de gude.

É neste ponto que a condição do elétron é diferente. — Num estado de superposição das 2 posições  –  o elétron é afetado pelo que se faz nos 2 pontos quânticos … Suas  propriedades mensuráveis se alteram, de acordo com aquilo que se faz com os 2 conjuntos de eletrodos  –  aqueles que controlam o ponto 0… e os do ponto 1.

Isto porque o elétron é … “quanticamente” descrito por ‘amplitudes de probabilidade’, e estas são afetadas por manipulações dos eletrodos em cada ponto.

Inexplicavelmente, se for aferida a posição depois da criação da superposição, o elétron será encontrado em um dos pontos – e, daí para a frente… passará a ser influenciado só pelos eletrodos desse ponto. – Em outras palavras… ao medirmos a posição do elétron, destruímos a superposição – e, daí em diante, o elétron volta a ser como a bola de gude, com sua posição estável.

Essa fragilidade dos ‘estados quânticos’ — com efeito — é uma questão fundamental para a confiabilidade dos computadores quânticos do futuro. Uma das principais razões para isso é que os sistemas quânticos — os qubits aí incluídos — podem ser alterados por ruídos eletromagnéticos mínimos…Construí-los, portanto…provou ser um grande desafio, pois a propriedade que lhes garante efetuar cálculos simultâneos é fruto dessa delicada condição de ‘sobreposição de estados‘.

Para que a computação quântica atinja seu máximo potencial, é pois…necessário preservar o “estado quântico puro nos sistemas quânticos… tornando os qubits imunes à influência do meio ambiente. Este é, aliás, o grande gargalo de estudo nesta área; chamado de ruído ou “mistura estatística“…termo cunhado para descrever a ausência desseestado puro’Como diz Miled Hassan Youssef Moussa … professor do Instituto de Física da IFSC-USP:

“O meio ambiente – necessariamente – conduz o estado puro do           sistema quântico à uma mistura estatística (caótica) de estados”.  

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[Imagem: Irfan Siddiqi/ UC-Berkeley]

‘Trajetória das partículas quânticas  A definição entre a vida e a morte do Gato de Schrodinger não é instantânea – ainda que não seja tão suave e contínua, quanto um evento clássico. 

Se você joga uma bola para outra pessoa — a bola seguirá sua rota de forma contínua e direta… Mas, se a bola for pequena demais, um átomo ou uma molécula…por exemplo, ela obedecerá às leis da mecânica quântica, e não da mecânica clássica – o que tornará as coisas um pouco mais complicadas.

Partículas quânticas podem existir em uma ‘sobreposição de estados’ – como estarem em dois lugares ao mesmo tempo, só “escolhendo” um deles quando se tenta medir onde elas realmente estão. Assim, parecia impossível estabelecer uma trajetória contínua para uma partícula quântica… – só podendo localizar pontos bem discretos de sua rota…ou lá ou cá.

O exemplo mais conhecido desse fenômeno é o famoso experimento mental conhecido como Gato de Schrodinger, em que um gato é posto em uma caixa…onde um frasco de veneno pode ser aberto pelo estado de uma partícula quântica. – O gato estaria em um estado de superposição, vivo e morto ao mesmo tempo… já que sua condição definitiva       só se determinaria quando a caixa fosse aberta… – o que equivale a fazer uma medição     da partícula quântica.

Mas agora, uma equipe de físicos das universidades de Rochester, Berkeley e Washington, todas nos EUA demonstrou que não é bem assim… – estabelecendo um caminho provável entre a vida e a morte do gato… O evento não seria instantâneo, com o gato seguindo uma rota contínua de sua vida até sua morte… – o gato morre suavemente… – por assim dizer.

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Os dados mostram o caminho “mais provável” (em vermelho) entre estados quânticos iniciais e finais (pontos pretos). As medições são mostradas em uma representação conhecida como esfera de Bloch. [Areeya Chantasri]

Conforme um estado quântico colapsa, saindo de uma superposição, e assumindo um estado clássico… ou, até uma superposição diferente, ele segue um caminho…conhecido como uma ‘trajetória quântica’.

Para cada estado origem, e estado final, há um caminho “mais provável” ótimo. O problema é que é complicado prever esse caminho … – ou mesmo rastreá-lo experimentalmente.

Para conseguir isso — a equipe criou um qubit supercondutor com propriedades de coerência muito precisas… Esse tipo de sistema quântico é chamado de “átomo artificial“… podendo ele permanecer em uma “superposição quântica” durante um monitoramento contínuo.

O experimento tirou proveito do fato de que…  —  qualquer medição perturba um sistema quântico…exceto as chamadas medições fracas. Isto torna possível traçar o caminho ideal da partícula…efetuando medições contínuas, ou seja, forçando-a a passar, continuamente, de um estado quântico para outro. Como explicou Andrew Jordan, pesquisador da equipe:

“O experimento mostra que, para qualquer escolha de estado quântico final, o ‘caminho ideal’ mais provável em um determinado momento pode ser encontrado e previsto. Isto confirma a teoria… — e abre caminho para novas técnicas de controle quântico ativas.”

Controle quântico das reações químicas                                                                             Os químicos controlam o campo quântico com o laser, e                                                            esse campo controla a dinâmica de uma reação química”.

Kater Murch, coautor do estudo, ressalta que esse “controle quântico ativo” é de especial interesse para os químicos, já que estes, nos últimos 20 anos desenvolveram uma técnica chamada “controle quântico“… na qual pulsos de laser são usados para dirigir reações químicas – ou seja… conduzi-las entre 2 estados quânticos. E ainda confidenciou o físico:

“Eventualmente, seremos capazes de controlar a dinâmica das reações químicas com lasers – em vez de apenas misturar um reagente (1) com     um reagente (2)… – e deixar a reação evoluir por conta própria”.

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O qubit supercondutor usado no experimento – um átomo artificial – é mantido a uma temperatura de 7 milliKelvin. Com o ruído termal suprimido a esse nível, o dispositivo entra naquilo que os físicos chamam de “espaço quântico”. [Imagem: Joe Angeles/WUSTL]

Interpretação de Copenhague

O resultado também tem impacto sobre a “computação quântica“…desafiando a interpretação clássica da teoria…também conhecida, interpretação de Copenhague, que estabelece a “passagem instantânea” entre os estados clássico e quântico.

Mas, o monitoramento em tempo real de um ‘sistema quântico’ mostra, que este é um processo contínuo … e que podemos, constantemente, extrair informações do sistema conforme ele “passa de estado”; detalhe aliás que nunca foi considerado acessível, pelos fundadores originais da teoria quântica.

‘Computador pessoal’ # ‘Superposição Quântica’ # ‘acoplamento de átomos à laser’  ‘1º cálculo de programa quântico’  ‘estado-quantico-puro’ ‘trajetoria-particulas-quanticas’ *********************************************************************************  Qubits positivos – Os spins das lacunas, quando comparados aos spins dos elétrons, permitem guardar dados no mesmo estado físico por um tempo 10 vezes maior.  —  Ao contrário dos spins dos elétrons, spins de cargas positivas não interagem com spins do núcleo, o que os torna muito mais estáveis. ‘qubit-positivo’  (18/03/2013) ***********************************************************************************   Qubits codificados no tempo – Apesar das estranhezas da mecânica quântica, é fácil ver que o qubit está implementado em um sistema físico real – um cristal, uma nuvem de átomos de rubídio, uma vacância de nitrogênio no diamante etc. Nos fótons, por exemplo, a informação pode ser codificada na polarização, no momento angular…ou em outro grau de liberdade da luz… Assim, os qubits podem vir em vários “sabores” – eles podem ser de estado sólido, nuvens de átomos superfrios, defeitos no interior de diamantes…ou fótons. Mas, as possibilidades não estão esgotadas… A mais nova adição ao arsenal à disposição dos projetistas de computadores quânticos é o ‘qubits-codificado-no-tempo’ (out/2013) **********************(texto complementar)***************************************

Simulando um futuro quântico 

No mundo virtual do filme Matrix, não há realmente… cidades, e nem prédios, que, assim como as colheres e os gatos, são bits … no “processamento” de um programa de simulação, rodando num computador ‘incrivelmente‘ poderoso.

A vida não acontece numa ‘realidade’ tipo Modelo Padrão da física clássica, mas sim…virtualmente…na memória desse supercomputador.

Talvez soe como disparate para alguns — mas o fato é que muito das nossas vidas atuais já acontece apenas no mundo virtual, na forma de bits: as músicas que ouvimos, as fotos que olhamos, as mensagens que trocamos não existem mais em discos, porta-retratos e papéis. Tudo se reduz a uma fileira de bits armazenada em uma “nuvem computacional” — cuja localização é incerta… — e, embora não gostemos muito disso… essencialmente volátil.

Assim, simular um mundo virtual do tipo Matrix não deve mais soar tão estranho quanto o seria há alguns anos – por exemplo…hoje já existem esforços no sentido de simular a Terra inteira, embora sem os meandros das vidas pessoais.

O conceito não é difícil de entender… — O que é fundamental numa simulação do tipo Matrix é a criação de um programa que contenha, e seja capaz de simular todas leis da física, de forma a recriar um mundo como o que os nossos sentidos experimentam…E,   para isso, será então necessário criar interfaces que possam transferir informações de todos nossos sentidos para o computador, e vice-versa.

É claro que é tudo especulativo, em termos de realização prática…             mas, não em termos de verificação matemática das possibilidades.

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Modelo do simulador quântico de processos estocásticos projetado pelos pesquisadores. [Nature]

E… é exatamente isso o que estão fazendo Mile Gu, Elisabeth Rieper e Vlatko Vedral, da Universidade Nacional de Cingapura… e Karoline Wiesner … (Bristol University).

Embora ‘simuladores computacionais’ já sejam essenciais na pesquisa científica… no desenvolvimento de novos produtos e materiais e até para lidar com o mercado financeiro, sabe-se que os computadores clássicos, não são páreo para simulações da vida real.

Para isso, os pesquisadores desenvolveram uma nova maneira pela qual os computadores baseados na física quântica poderão superar o desempenho dos computadores clássicos – sim, porque, se ainda não conseguimos fazer programas para computadores comuns, sem erros… — nem mesmo sabemos como ou quem irá programar os computadores quânticos.

O trabalho agora divulgado implica que uma simulação da realidade do tipo Matrix exigiria menos memória de um computador quântico do que,   de um computador clássico… – Mas, o melhor está por vir…

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Os simuladores quânticos já estão se aproximando do uso prático – aqui estão ilustrados 3 tipos deles. [Riken Research]

Os resultados deixam uma enorme lacuna, mostrando a possibilidade…de uma teoria mais básica e geral… que a teoria quântica.

E a pesquisa tem ainda outro aspecto para mexer com a imaginação…essa descoberta emerge da ‘consideração fundamental‘ de quanta informação é exigida…na predição  do futuro.

Com um pouco de imaginação, é possível dizer que … numa simulação quântica da realidade – do tipo Matrix…parece haver espaço para algum “Escolhido” entrar na simulação e atuar de modo mais eficiente.

Mas, para isso… é preciso seguir os passos do Arquiteto,                                                             e tentar descobrir a maneira como ele projetou o mundo.

Processos estocásticos

O grupo de cientistas analisou a simulação de ‘processos estocásticos’, onde existem vários resultados possíveis para uma certa conduta, cada qual com uma probabilidade calculável. Muitos fenômenos… de movimentos do mercado de ações – até difusão de gases … podem ser modelados como processos estocásticos. Os detalhes de como simular esses processos, são a chave da questão.

A quantidade mínima de informação necessária para simular determinado processo estocástico…é importante tema de estudo no campo da ‘teoria da complexidade‘… — sendo conhecido como “complexidade estatística“.

Os pesquisadores sabem como calcular a quantidade de informações inerentemente transferidas em qualquer processo estocástico. – Teoricamente, isso define a menor quantidade de informação necessária para simular o processo. Na realidade, porém, simulações clássicas de processos estocásticos, pedem mais armazenamento do que     esses cálculos indicam.

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No simulador quântico aberto, um íon interage com o sistema quântico e, ao mesmo tempo, estabelece um contato controlado com o ambiente. [Harald Ritsch]

Além da física quântica

O que o grupo agora demonstrou…é que os ‘simuladores quânticos precisam armazenar bem menos informação — do que os clássicos… — e…mesmo os ideais.

Isto porque, as ‘simulações quânticas‘ podem codificar informações sobre as probabilidades em uma ‘superposição’, onde um bit quântico de informação… representa mais … que um bit clássico.

Mas, então veio a surpresa…Os cálculos revelaram que as ‘simulações quânticas’ ainda não são tão eficientes… — quanto poderiam ser… – elas ainda necessitam armazenar mais informações do que o processo parece precisar… – Isto então, sugere que a teoria quântica pode ainda não estar tão “otimizada”… — como assim comentou Vedral:

“O que é fascinante para nós é que ainda há lacunas… Isso faz                           pensar na possibilidade de uma teoria além da física quântica.”

Então…se for assim… – antes de pensar em programar um computador quântico para criar sua própria Matrix, será necessário descobrir essas leis mais fundas da natureza, para que então elas possam ser simuladas num computador…e dê o senso de realidade esperado… Afinal, se não forem compreendidos todos meandros da realidade — não se pode candidatar a Arquiteto. (texto base)  (31/03/2012) **********************************************************************************

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O chip de 4 qubits foi capaz de simular um dos eventos mais intrigantes da mecânica quântica, quando partículas e antipartículas emergem virtualmente “do nada” – do chamado vácuo quântico.[IQOQI/Harald Ritsch]

Simulador quântico vira realidade

Estamos ainda muito longe de compreender totalmente… as partículas elementares — os átomos, e seus constituintes — porque estes se comportam segundo as leis da ‘mecânica quântica’… apresentando comportamentos probabilísticos muito difíceis de monitorar.

Se não dá para monitorar ao vivo…a saída é simulá-las em computador. Contudo, como as partículas não obedecem às leis da ‘física clássica’  –  simular seu comportamento em um computador clássico é tarefa impossível.

A saída então… é construir ‘simuladores quânticos‘, para rodar em computadores quânticos, capazes de reproduzir qualquer comportamento de partículas subatômicas, pois seus componentes básicos funcionam com base no mesmo princípio. A ideia é ótima, e físicos vêm trabalhando nela há algum tempo, aperfeiçoando experimentos… e, passo a passo… aproximando-se de um simulador quântico prático.

Matéria e antimatéria surgem do vácuo

Agora, a primeira simulação de um evento quântico real utilizando um simulador quântico foi executada. – Sua construção, e uso prático foi anunciada por Esteban Martinez… e uma equipe de físicos da Universidade de Innsbruck/Áustria… — em um experimento inédito, e histórico…  —  A simulação mostrou como pares de partículas e antipartículas emergem do vácuo quântico…usando para isso, um processador quântico básico – com apenas 4 qubits.

Como disse a pesquisadora Christine Muschik … “Nós desenvolvemos agora um novo conceito que nos permite simular num computador quântico a criação espontânea de pares elétron-pósitron a partir do vácuo” … (pósitrons são a antimatéria do elétron).

O processador quântico é composto por 4 íons de cálcio presos eletromagneticamente… e controlados por pulsos de laser. Cada par de íons é formado de partícula/antipartícula. E, como explicou Martinez:

“Usamos pulsos de laser ao simular o campo eletromagnético do vácuo… assim pudemos observar os pares criados pela ‘flutuação quântica’ de energia do campo… Observando a fluorescência do íon, sabemos se partículas e antipartículas foram criadas. Modificamos os parâmetros do sistema quântico – e estudamos então o processo dinâmico da criação do par”.

Isto confirma grande parte das expectativas quanto aos simuladores quânticos. Muito embora computadores quânticos vão exigir muitos mais qubits – mesmo os primeiros processadores que já estão sendo construídos…serão, de fato, extremamente úteis nas pesquisas fundamentais da física. Afinal, um sistema simples com apenas 4 bits, já foi capaz de simular um dos eventos mais intrigantes da mecânica quântica…partículas e antipartículas fugazes emergindo virtualmente “do nada” do chamado vácuo quântico.

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As partículas (elétrons) e antipartículas (pósitrons) são “sentidas” pelos 4 qubits do simulador, que denunciam sua presença por meio de variações no feixe de laser. [Imagem: Esteban A. Martinez et al.]

Esta demonstração também estabelece uma ponte entre 2 campos da física — um teste     de ‘física atômica‘ foi utilizado…para estudar questões da ‘física de alta energia‘.

Enquanto milhares de físicos trabalham nas teorias de alta complexidade do ‘Modelo Padrão’ e os experimentos propostos são executados em laboratórios grandes e caros,     como o LHC, simulações quânticas podem ser realizadas em laboratórios pequenos –     em experimentos de mesa… E, assim complementou o professor Peter Zoller, um dos pioneiros no campo dos simuladores quânticos:

“Estas 2 abordagens se complementam perfeitamente… — Não podemos substituir os experimentos que são feitos com aceleradores de partículas. Contudo, com o desenvolvimento dos simuladores quânticos poderemos     ser capazes de compreender… — no futuro… melhor essas experiências”.

“Além disso…estudamos novos processos utilizando a simulação quântica… Por exemplo, em nosso experimento também investigamos o entrelaçamento de partículas produzidas durante a criação do par, o que não é possível num acelerador de partículas”completou seu colega Rainer Blatt. 

A equipe diz estar convencida de que os futuros simuladores quânticos, maiores e mais poderosos serão capazes de resolver questões importantes na física de alta energia, que não podem ser resolvidas por métodos convencionais… ou, simplesmente, construindo aceleradores e colisores ainda maiores. ********* (texto base) *****(24/06/2016)***** *********************************************************************************

Simulador quântico mais rápido do mundo

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O simulador quântico fez em um bilionésimo de segundo algo que o supercomputador mais rápido não conseguirá fazer nem com todo o tempo do mundo.[Imagem: NINS/IMS]

Uma equipe do Japão e da Alemanha desenvolveu o simulador quântico mais rápido do mundo…capaz de simular a dinâmica de um grande número de átomos interagindo uns com os outros em intervalos de um bilionésimo de segundo.

Grupos de partículas interagentes são chamados “sistemas fortemente correlacionados”. Compreender as propriedades desses sistemas é um dos maiores desafios atuais, já que     a dinâmica de muitos elétrons…ou outras partículas quânticas, interagindo uns com os outros governa uma variedade de importantes fenômenos físicos e químicos, incluindo       a ‘supercondutividade’, o ‘magnetismo’, e as ‘reações químicas’.

No entanto, é extremamente difícil prever as propriedades de um desses sistemas, mesmo usando os supercomputadores mais rápidos já construídos, ou projetados.           O supercomputador ‘Post-K’, por exemplo, que está sendo construído no Japão…e           deverá ficar pronto em 2020, não conseguirá calcular exatamente, nem mesmo a energia… — propriedade mais básica da matéria — quando o nº de partículas no     sistema for superior a 30.

Simulador quântico

Um conceito alternativo… ao uso de computadores clássicos envolve um “simulador quântico” no qual as partículas como átomos ou elétrons, são montadas em um sistema, cujas propriedades são ‘controláveis‘ — e triviais… tais como um condensado de “Bose-Einstein”… ou um “átomo de Rydberg“.

Este sistema é, então… – usado para simular as ‘propriedades’ do sistema fortemente correlacionado que se pretende estudar, cujas propriedades são desconhecidas.

Nobuyuki Takei e seus colegas montaram a partir daí, um simulador quântico capaz de replicar a dinâmica de um sistema fortemente correlacionado de mais de 40 átomos em apenas 1 bilionésimo de segundo – algo que o supercomputador ‘Post-K’ quando estiver pronto, não conseguirá fazer nem “com todo o tempo do mundo”…

A construção desse simulador foi possível usando uma nova abordagem na qual um pulso ultracurto de laser – cada pulso dura apenas 100 bilionésimos de segundo…é usado para controlar um conjunto muito denso de átomos  —  resfriados a uma temperatura próxima do zero absoluto. – Como prova de conceito a equipe simulou o movimento em conjuntos de elétrons, alterando a força das interações entre seus átomos. Como primeira aplicação prática, eles pretendem estudar como os elétrons interagem entre si … para dar origem à supercondutividade.(texto base) p/consulta: Simulador quântico permite pilotar átomos

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Enigmas & Circunstâncias de um ‘Planeta Vermelho’

“Combinaram religião, arte e ciência…pois, na verdade, a ciência não é mais do que a investigação de um milagre inexplicável… e,  a arte… – a interpretação deste milagre.”   (Ray Bradbury – ‘Crônicas Marcianas’)

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geologia planetária comparada

Estar cada dia mais perto de Marte, sem precisar de uma nave espacial é, para o geólogo Carlos Roberto Souza Filho, do Instituto  de Geociências da Unicamp — uma das peculiaridades interessantes do seu trabalho atual. 

O docente, alunos do Instituto, e uma numerosa equipe de pesquisadores… nacionais e internacionais…  –  estão há tempos…envolvidos num projeto de  ‘planetologia comparada… estudando ambientes análogos aos planetas Terra e Marte…  —  sob o patrocínio da NASA.

Além do mérito e impacto do trabalho, ele tem revelado várias descobertas científicas, ainda que ‘à distância’… Foi um trabalho desse tipo – que revelou que pode ter havido oceano em Marte… correspondendo a 30% de sua superfície. 

As pesquisas desenvolvidas pelo grupo são fundamentadas em dados…e, métodos de sensoriamento remoto (SR), ramo da ciência que aborda a obtenção de informações sobre determinado alvo através de um dispositivo qualquer (sensor) – sem que haja contato direto com o fenômeno sob investigação.

Em Marte…o SR é utilizado para extração de informações sobre a composição mineralógica de solos e rochas presentes na superfície,               a partir de suas respostas espectrais – a capacidade de refletir ou absorver luz solar em diferentes comprimentos de onda do espectro eletromagnético.

Estas respostas são estudadas analogamente na Terra… — e, vice-versa — na tentativa de compreender o ambiente de formação dos minerais… e, de mapear materiais favoráveis à preservação de bioassinaturas (fósseis), ou até para manutenção de alguma forma de vida.

Os primeiros trabalhos foram conduzidos em uma área da Serra dos Carajás, no Pará, que reúne um conjunto de rochas muito antigas – portadoras de microrganismos fossilizados, cujos registros aparecem em imagens de SR – o que potencializa sua detecção análoga na superfície de Marte...   —   caso um conjunto similar de rochas exista naquele planeta.

Outros 2 ambientes, na Terra, que têm sido abordados como análogos… são lagos salinos e crateras de impacto…

O geólogo explica que… lagos salinos…  envolvem situações extremas – para a sustentação da vida na Terra…porém, a do tipo microbiana é amplamente observada… em lagos situados nas áreas desérticas presentes em quase todos os continentes.

Várias evidências reveladas em Marte nos últimos anos apontam para a ocorrência desse tipo de ambiente durante a sua evolução, onde água líquida acumulada em amplas áreas no planeta teria evaporado, propiciando o acúmulo de minerais hidratados na superfície.

Estudos sobre a origem desses minerais formados na presença de água líquida, justamente considerando a presença de sais e argilas…levaram à hipótese de que, em algum momento, houve uma mudança em escala global no ambiente de Marte – que passou de condições de alteração aquosa em condições “quasi-neutras” (o que favorece a formação de argilas) no período denominado Noachiano… – para um sistema evaporítico ácido (o que favorece a decantação de sais) no período Hesperiano.

Essa hipótese defendida pelos pesquisadores europeus teve grande impacto e aceitação na comunidade internacional. – Perdurou inquestionável por anos… até que uma importante descoberta realizada pela equipe de Carlos Roberto foi publicada em outubro de 2009, na revista Geophysical Research Letters.

O trabalho – liderado pela pesquisadora Alice Baldridge (pós-doutoranda da NASA, e orientanda do professor) – revelou que os lagos salinos da Austrália têm como principal característica uma grande variação de pHs…  entre ácido, neutro e alcalino – separados vertical, e horizontalmente por poucos metros.

Os dados foram suficientes para demonstrar que ambientes aquosos mais diversos e variáveis podem ter coexistido em Marte… — numa associação geográfica de argilas e sais…  —  em analogia ao que se verifica na Terra.

crateras marcianas

Carlos Roberto explica que, 2 minerais marcam as diferenças ambientais mais importantes para os lagos australianos: sulfatos (sais), e filossilicatos (argilas).

E o mais interessante, é que ambos são detectáveis a distância, por sistemas de sensoriamento remoto em satélites, ou aviões — como dimensiona o geólogo:

“Descobrimos…a partir de observações no terreno, e com base em imagens hiperespectrais obtidas a partir de aviões e satélites – que as argilas e sais presentes nos lagos salinos australianos… se formam em ambientes super dinâmicos; e, sua decomposição pode ocorrer de forma quase simultânea.

… Situações similares em Marte foram mapeadas por outros grupos, com base em dados gerados pelos robôs Spirit e Opportunity, e por satélites – mas, nossa interpretação do sistema é o que muda tudo – e, isso terá um impacto significativo para as futuras missões em Marte…

Por exemplo, vista a comum associação de microorganismos com ambientes de lagos salinos ricos em argilas e sais na Terra… – por que não podemos ter microrganismos marcianos equivalentes? Acredito também que, com esse trabalho, abrimos um leque     de opções sobre locais – para onde próximas sondas deverão ser enviadas à Marte.”

Crateras de impacto de meteoritos são ambientes que também têm sido explorados como análogos. O estudo sobre impactos na Terra, e a analogia do processo ocorrido em outros planetas é um tema que passou a ocupar um espaço especial na “agenda de interesses planetários” de Carlos Roberto – desde que publicou seu 1º artigo – na revista ‘Science‘, em maio de 2002, sobre o tema.

Essas pesquisas visam – não somente conhecer os processos, e produtos de impacto na Terra, que têm implicações para a prospecção de minerais, óleo e gás, e aquíferos…mas também, estabelecer comparações com crateras de Marte – e, outros planetas rochosos.

Entre outras consequências positivas, os impactos revelam o substrato rochoso de Marte —  o qual se encontra muitas vezes encoberto por solo e poeira  —  impedindo o acesso à informação sobre sua composição mineralógica… — a partir de sensores remotamente situados… como esclarece o geólogo:

“A investigação das crateras na Terra pode subsidiar a interpretação sobre quais são as rochas transformadas por impacto; e, quais as pouco afetadas pelo choque – sendo, portanto, mais próximas da rocha primordial… – que pode conter análogos terrestres mais interessantes”.

Jipes robóticos

Carlos Roberto sugere que – do ponto de vista dos custos…e dos riscos – é muito melhor enviar numerosas missões não-tripuladas à Marte… — particularmente as que incluam a locação de robôs – em veículos automatizados…no terreno – e, aéreos não-tripulados de baixa altitude… para o conhecimento detalhado do planeta.  —  A exploração através de programas robóticos proporcionará os conhecimentos fundamentais para exploração mais segura e previsível de Marte por humanos.

O problema é que, mesmo Marte tendo uma dimensão cerca de 50% menor que a Terra,  o planeta ainda assim é enorme. – Os robôs, mesmo das gerações futuras, dificilmente terão autonomia suficiente de energia e robustez para cobrir grandes extensões num terreno tão heterogêneo, e mesmo inóspitoNesse caso, considera o professor:

“Será fundamental manter os trabalhos que nós e outros especialistas estamos fazendo quanto ao estudo de ambientes análogos Terra-Marte. Estes estudos nortearão o envio de missões robóticas futuras para locais relevantes que possam mostrar cada vez mais evidências sobre a presença de água líquida passada e presente, e talvez algum tipo de vida naquele planeta”.

Em julho de 1997, a missão Mars Pathfinder obteve sucesso na colocação do pequeno jipe robótico Sojourner na superfície de Marte. Esta foi a primeira sonda terrestre que pousou em solo marciano, desde a era das sondas Vikings 1 e 2 (americanas) e das sondas Mars 2,   e 3 (russas), na década de 70. Embora tenham gerado uma coleção de imagens inéditas da região em torno do pouso, a chance de locomoção desses jipes robóticos era bem limitada.

Mas, foi a partir de 2004, com a chegada dos ‘jipes robóticos’ Spirit e Opportunity… que um salto substancial ocorreu nos estudos sobre Marte.

A missão dos jipes robóticos era prevista para durar, no máximo 6 meses… mas eles continuam se locomovendo pela superfície marciana…   há 6 anos.

Essa foi a 1ª missão com robôs móveis, com possibilidade de locomoção a maiores distâncias. Ambos os jipes robóticos foram dotados de instrumentos de análises microscópicas, e espectrais —     bem como aparelhos para calcular o desgaste abrasivo dos materiais.

Quando os jipes robóticos chegaram a Marte, um deles – o ‘Opportunity‘, acidentalmente caiu dentro de uma cratera. O que parecia um problema, logo se revelou como um achado de sorte. Esta cratera – gerada pelo impacto de um meteorito, apresentava uma formação rochosa…exposta em seu interior – que continha numerosas evidências geológicas de que a rocha observada era de origem sedimentar… – alterada superficialmente, em ambiente evaporítico… – ou seja – 2 processos em que a profusão de água líquida é fundamental. 

“Essa foi uma das principais descobertas, dos últimos tempos… em Ciências Planetárias… Com tantas situações favoráveis para o surgimento de algum tipo de vida em Marte, há uma boa possibilidade de que sejam encontrados indícios num futuro próximo”… comentou Carlos Roberto. 

O futuro da exploração em Marte

Marte é um dos planetas mais perto da Terra  —  em distância… e constituição, compreendendo condições locais ainda “habitáveis”.

Considerando a melhor situação entre órbitas relativas (o que ocorre a cada 25 meses na Terra)  e, com o plano de uso mínimo de combustível…somente cerca de 7 meses são necessários para atingir o planeta.

É um planeta coberto por sedimentos transportados pelo vento, possuindo fina atmosfera saturada em CO2. Algumas regiões são tão frias que o CO2 condensa-se sobre a superfície. Durante muito tempo, sustentou-se uma crença de que Marte seria um planeta “desértico e morto”. Entretanto, Marte não foi, e não é o que parece. — Quase 40 anos de pesquisas, baseadas em sensores imageadores e não-imageadores revelaram que o planeta pode ter sido similar a alguns ambientes conhecidos na Terra, com água líquida correndo em sua superfície.

Tudo indica que Marte teve uma história muito parecida com a Terra até determinado ponto de sua evolução geológica, incluindo a presença de amplas redes de água (talvez oceanos) em sua superfície… É um planeta rochoso com atmosfera, hidrosfera e clima.

Apresenta registros de condições, e materiais…a partir dos quais a vida poderia ter surgido (ou ainda existir) naquele planeta, em analogia à Terra. Portanto, entender quando e o que aconteceu, para efetivamente explicar a sua distinta condição atual em relação à Terra — é um desafio que pode trazer repercussões relevantes para o futuro.

O registro da presença – no passado – de água líquida… em abundancia no planeta, foi destacada  –  pela 1ª vez  –  a partir de imagens do satélite Mars Global Surveyor, que proporcionaram a visão de formas de relevo na superfície marciana …  —  como grandes canais e ravinas  —  os quais… só poderiam ter sido formados – por erosão, em fluxos de água.

Com a chegada ao solo marciano dos jipes robóticos Spirit e Opportunity… em 2004, evidências incontestáveis da presença de água líquida no passado de Marte foram reveladas…incluindo a deteção de vários tipos de argilasais… e, recentemente, carbonatos.

Marte dá indícios de ter – como a Terra – cerca de 4,5 bilhões de anos, período quando se formou boa parte dos planetas do sistema solar. Na época da Guerra Fria – na corrida espacial entre americanos e russos, uma série de sondas, de ambas as partes, foram enviadas a Marte…e – efetivamente – pelo menos 3  delas pousaram em sua superfície.

Paralelamente, as missões Viking compreenderam imageadores orbitais que enviaram as primeiras imagens mais detalhadas de um planeta distante…Hoje, a tecnologia envolvida na exploração é muito maior…

Além da maior densidade de programas em Marte, os jipes robóticos e sondas estáticas, como a Phoenix (atualmente em operação no pólo norte de Marte)  —  são verdadeiros laboratórios ambulantes e, segundo Carlos Roberto: “Novidades são produzidas quase diariamente em Marte com tantas missões em andamento”.

As próximas missões envolverão jipes robóticos e sondas ainda mais completas e complexas. O Mars Science Laboratory – jipe robótico que deve iniciar suas operações em 2011, incluirá instrumentos específicos para a detecção de matéria   orgânica na superfície marciana.

As avaliações estão se tornando cada vez mais sofisticadas, revelando novos dados sobre Marte, sua mineralogia, e história evolutiva geológica, mas sem perder um dos objetivos principais de todas as missões – encontrar evidências de algum tipo de vida no planeta vermelho… E, isso tem impacto em várias esferas – conforme concluiu Carlos Roberto:

“Se conseguirmos comprovar a existência de vida em qualquer outro planeta — esta será a 2ª evidência conhecida na história —  …  e isso, modificará definitivamente a probabilidade da existência de vida no Universo… Mas,  por enquanto… nós  –  seres vivos que habitamos a   Terra, somos a única evidência conhecida.” — ‘texto original’ (2009)

P.S.  O roverCuriosity, como parte da missãoMars Science Laboratory‘   foi lançado em novembro de 2011…chegando à Marte em agosto de 2012. *******************[texto complementar] *****************************

Meteorito contém minerais da pré-história de Marte

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O pequeno meteorito, de 84 gramas, contém minerais com idades que vão de 2 a 4 bilhões de anos. [Imagem: Luc Labenne]

Uma minúscula rocha — encontrada no deserto do Saara parece ser o meteorito de Marte mais antigo já descoberto.

Pesquisas anteriores já sugeriam que a rocha tinha cerca de 2 bilhões de anos, mas…novas análises indicam minerais       em seu interior com mais de 4 bilhões       de anos.

O meteorito negro e brilhante, pesando apenas 89 gramas,,, recebeu o nome de “Beleza Negra” – mas… oficialmente, é NWA 7533 (Northwest Africa 7533).

Com essa idade, pelo menos uma parte da rocha teria se formado ainda na infância de Marte…Como assim afirmou o autor da pesquisa… Munir Humayan, da Universidade Estadual da Flórida, EUA:

 “Esta rocha nos conta, sobre uma das épocas                                                          mais importantes da (pré) história de Marte”.

Já foram encontrados cerca de 100 meteoritos marcianos na Terra. A grande maioria deles é bem mais jovem, datados entre 150 milhões, e 600 milhões de anos. Eles teriam caído na Terra depois de um asteroide ou cometa ter-se chocado contra Marte… – desprendendo as rochas, que viajaram pelo espaço até acabarem no nosso planeta.

O “Beleza Negra” é formada por cinco fragmentos. Um deles, o NWA 7034, foi examinado no passado e sua idade foi calculada em 2 bilhões de anos. Porém… pesquisa mais recente descobriu que outro pedaço, o NWA 7533, tem 4,4 bilhões de anos…Se isto estiver correto, essa rocha pode ter-se formado quando Marte tinha apenas 100 milhões de anos de idade.

Foi o professor Carl Agee, da Universidade do Novo México quem na análise anterior concluiu que a rocha NWA 7034 tinha 2 bilhões de anos de idade. Mas agora com sua equipe também encontrando partes da rocha com cerca de 4,4 bilhões de anos … – ele afirma que a diferença entre idades das rochas pode ter ocorrido…porque o meteorito     é na verdade, uma mistura de componentes… – “Com toda certeza há um componente antigo na rocha…mas acreditamos que pode haver uma mistura de eras”. (texto base)  **********************************************************************************

Brasileiros desenvolvem modelo da formação de Marte  (junho/2014)                     Embora ainda não saibam quase nada em relação à origem e formação da Lua,                 astrônomos dão os 1ºs passos significativos… para entender a origem de Marte. 

marte

Os modelos de formação dos planetas rochosos do Sistema Solar elaborados nas últimas 2 décadas, têm sido bem-sucedidos na explicação da origem de Vênus… e da Terra — com tamanhos similares, e de Mercúrio, com apenas 5% da massa da Terra. – No entanto, simulações computacionais…de alta resolução  —  ainda não explicaram como Marte se formou, nem por que tem apenas 10% da massa da Terra.

Segundo pesquisadores, a questão é intrigante, já que os 4 planetas são constituídos pelos mesmos embriões planetários…  –  corpos celestes com dimensões similares aos planetas atuais, que se fundiram ao longo de dezenas de milhões de anos.

A novidade é que o tamanho de Marte pode estar relacionado à densidade da nebulosa protossolar  –  a nuvem de gás e poeira que deu origem ao Sistema Solar  –  na região orbital onde se formaria o planeta vermelho… Essa ideia está sendo defendida por uma equipe internacional de astrônomos – liderada pelo Grupo de Planetologia & Dinâmica Orbital da Universidade Estadual Paulista (UNESP), no campus de Guaratinguetá…  E, assim comentou Othon Winter, coordenador do projeto:

“A maioria das simulações de formação dos planetas terrestres do Sistema Solar não consegue gerar um objeto do tamanho, e na órbita de Marte…que está a 1,5 unidades astronômicas [1ua… equivalente a aproximadamente 150 milhões de quilômetros] de distância do Sol. Quando a simulação computacional termina de rodar… aparece na       tela um planeta do tamanho da Terra – seu vizinho próximo”.

Há também um modelo alternativo – chamado Grand Tack (vide figura abaixo), mas que envolve idas e vindas orbitais de Júpiter – que parecem muito fora da realidade. Apesar de um modelo válido, é muito questionável – por ser improvável que tenha assim acontecido.

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No Grand Tack (direita), Júpiter precisaria ter “varrido” o material que falta em Marte. Na nova teoria (esquerda) o processo de “depleção” de forma mais suave – explica a menor massa de Marte. [Imagem: P. Huey/Science]

Tendo em vista a necessidade de se desenvolver um modelo alternativo ao Grand Tack, a equipe liderada por pesquisadores brasileiros…realizou uma série de simulações do fluxo de gás e poeira dentro da nebulosa protossolar durante a sua formação.

As simulações sugerem que o material fluiu em direção ao Sol, movendo-se a velocidades diversas, em diferentes distâncias da estrela…Na região entre 1 e 3 UA do Sol, a nebulosa protossolar pode ter sofrido perda, ou redução (depleção) de matéria equivalente a entre 50% e 75% de sua densidade.

A perda desse volume de “blocos de construção planetários” pela nebulosa protossolar nessa região – próxima da órbita de Marte – teria causado a redução da massa final de Marte, e o crescimento da Terra e de Vênus, supõe o modelo…E, Winter assim explica:

“Estudamos diversos parâmetros, e concluímos que, se houve uma depleção de matéria entre 50% e 75% da nebulosa protossolar…na região entre 1 e 3 UA, há mais de 50% de chance de ter sido formado um planeta – com massa similar, na atual órbita de Marte, além da Terra, Vênus, e alguns poucos objetos no cinturão de asteroides. – O modelo é bem completo, pois abrange não só o problema da formação de Marte, mas mantém e consegue gerar os outros planetas terrestres…  –  com suas massas…  e órbitas atuais”.

Na avaliação de Winter — o novo modelo preencheu uma lacuna, que havia no modelo de formação… — do Sistema Solar, indicando que o perfil de  ‘densidade de massa‘ da nuvem protossolar não era uniforme…e sofreu depleções. Esse dado afetaria estudos da formação do… – “cinturão de asteroides” … – por exemplo.

O modelo também poderá contribuir em pesquisas na área da astrobiologia – interface entre astronomia, biologia, química, geologia, e ciências atmosféricas… entre outras  – relacionadas a objetos vindos de Marte rumo a Terra; bem como… estudos de planetas extrassolares, ou exoplanetas.

“Os objetos e planetas extrassolares já descobertos atingiram a casa do milhar, e têm uma distribuição muito variada e diferente dos corpos do Sistema Solar. – O modelo que desenvolvemos pode auxiliar a entender como eles foram formados”, concluiu Winter…‘texto base’ (junho/2014)

O sonho (possível) de tornar Marte habitável  – (09/mar/2017)

terraformação-marte

Qualquer semelhança com a Terra é mera coincidência: à esquerda é como os cientistas imaginam que Marte era no passado; à direita, como ele é hoje.[NASA]

Seus próprios criadores reconhecem se tratar de uma estratégia parecida com uma obra de ‘ficção científica‘…mas também acreditam já ser possível sonhar com esse efeito… de….. — ‘terraformação‘.

Cientistas da Nasa dizem que Marte já poderia ser habitável…se fosse criada artificialmente algo que a Terra ainda tem… campo magnético protetor.

Esse escudo é essencial para evitar o impacto da radiação, e ventos solares, que assolam continuamente a atmosfera dos planetas. E, de acordo com pesquisadores da Divisão de Ciência Planetária…é possível gerar um campo parecido ao redor do ‘Planeta Vermelho’.

Hoje, Marte é um planeta dominado pelos extremos. A falta de atmosfera, por exemplo, faz com que a temperatura média seja de -63°C… – mas com variações que vão de 35°C durante o dia até -140°C durante a noite…Mas, Marte era muito diferente no passado…

Dados das missões Maven, da Nasa, e Mars Express, da ESA (agência espacial europeia) sugerem que havia um campo magnético natural. – Essa proteção sumiu há cerca de 4,2 bilhões de anos eventualmente pelo resfriamento do núcleo do planeta. Como resultado,   a atmosfera marciana desapareceu gradualmente ao longo do tempo, varrida pelo vento solar. (Na Terra, a magnetosfera impede essa varredura cósmica.)

O que os pesquisadores estão propondo agora é recuperar a atmosfera marciana usando tecnologia para criar uma magnetosfera artificial, e restaurar, em parte, o planeta Marte do passado, com sua atmosfera, temperaturas mais altas, e eventualmente, até com parte de seus antigos oceanos…como disse Jim Green, da divisão de ciência planetária da Nasa.

“No futuro, é bem possível que ela (a tecnologia) possa gerar                             um campo magnético de 1 a 2 Teslas … contra o vento solar”.

Green e seus colegas propõem a instalação de um dipolo magnético… na forma de 2 satélites, acompanhando o planeta em sua órbita, produzindo um campo magnético dipolar (2 polos magnéticos opostos)…protegendo-o.

O cientista lembra que estão em andamento projetos para criar magnetosferas artificiais em miniatura para proteger tripulantes de naves espaciais e mesmo escudos magnéticos para proteger naves na reentrada. – De acordo com as simulações, um campo magnético implantado no ponto de Lagrange L1 – ponto de equilíbrio gravitacional entre Marte e o Sol, ampliaria a espessura da atmosfera … elevando em 4°C sua temperatura superficial.

O aumento na temperatura do planeta é bem menor, daquele que os cientistas esperavam… mas é possível que este efeito possa se multiplicar… — Isso porque…com o aquecimento,      o dióxido de carbono no polo norte do planeta derreteria… criando um efeito estufa, que aqueceria ainda mais … até a temperaturas compatíveis à  presença de água no estado líquido…Como disse Green:

“Uma atmosfera marciana com maior temperatura e pressão…permitiria a existência de água em estado líquido na superfície suficiente para melhorar a exploração humana na década de 2040”.

Para ele… se fosse criado um campo magnético artificial – as novas condições em Marte permitiriam que os pesquisadores e exploradores estudassem o planeta com muito mais detalhes… Se isso for alcançado, a colonização de Marte não estará muito longe. Porém,   os planos para colocar o homem em Marte em 2039… ainda estão parados. (texto base)

O Paradoxo marciano (22/03/2017)

Alguma coisa não está batendo… Marte tem calotas de gelo de água nos polos e há marcas no solo indicando que a água fluiu em rios e lagos, há bilhões de anos.

Recentemente, a ‘ESA’…agência espacial europeia apresentou…’estudo detalhado’ sobre uma “mega-inundação em Marte“. De fato…temos alguma compreensão de como a água se comporta na Terra, e não há razão pra pensar que leis físicas ou geológicas  sejam diferentes em Marte… – Contudo, mais do que não encontrar água hoje, no planeta vermelho…ninguém consegue explicar, sequer, como a água poderia ter existido em forma líquida em Marte, mesmo no passado.

Este mistério é conhecido como o “Paradoxo de Marte” – os dados e as teorias mostram que parece ter havido água lá, mas os dados e as teorias também indicam que nunca houve condições de ter havido água lá… Se, e quando esse paradoxo for resolvido, provavelmente será necessário jogar fora um monte de livros didáticos.

Sinais de água sem água

O atual terreno frio e rochoso de Marte…seco e coberto de poeira, apresenta minerais de argila… e ‘sedimentos’ que devem ter sido depositados… — por lagos e rios, de 3,5…a 4 bilhões de anos atrás.

O problema começa … quando se olha para as condições em Marte naquele tempo… – Ainda hoje, a fina atmosfera do planeta, e a distância do Sol…mantêm-no a uma temperatura média em torno dos -60° C, frio o suficiente para água congelada em permanentes depósitos polares.

Há bilhões de anos, contudo, quando a água deveria estar fluindo pela superfície, o Sol era mais jovem e mais frio… significando que Marte também era ainda mais frio do que é hoje. Assim, dado que o ponto de congelamento da água é o mesmo aqui e lá…como Marte pode ter sido algum dia quente o suficiente para que a “água líquida” fluísse em sua superfície e formasse o relevo e as rochas que encontramos lá hoje?…

Efeito estufa improvável

Uma hipótese plausível seria que os gases de efeito estufa prenderiam o calor como na Terra…O problema é que nenhuma quantidade de CO2… poderia aquecer Marte, o suficiente, para manter a água líquida. Mesmo com uma “atmosfera pura” de CO2, sua temperatura só subiria… – até próximo dos -33° C.

Mas, mesmo este cenário hipotético é impensável… – Thomas Bristow e colegas da ‘NASA calcularam…com base em sedimentos formados há 3,5 bilhões de anos…que a atmosfera marciana naquela época continha apenas quantidades-traço de dióxido de carbono.

Se adicionássemos um pouco de metano ou hidrogênio – também não daria certo, pois com essa escassez de CO2, não importa quanto hidrogênio ou metano, ou outros gases sejam adicionados à equação, seria preciso uma atmosfera enormemente espessa para blindar esses gases de ‘efeito estufa’ sensíveis contra a radiação solar.

Bristow e seus colegas apresentam agora uma outra alternativa… – “água salgada”, o suficiente para permanecer líquida… – mesmo a temperaturas muito abaixo de 0º C. Nesse caso, a atmosfera não precisaria de muito CO2…Porém, esta hipótese também       não parece suficientemente plausível. – Uma água ‘ultrassalina’ pode até fluir… – na Terra, pelo menos… – mas o frio de Marte não permitiria chuvas suficientes… – para explicar a água parada gravada no arenito e xisto de Marte…durante milhões de anos.

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Mistérios da água

Então, será que existe algum mecanismo planetário ainda desconhecido? Uma mistura de gases de efeito estufa que ainda não identificamos?…

Talvez o verdadeiro problema seja a nossa compreensão da própria água. Sabemos que a água tem mais de 70 anomalias, muitas delas incomodando algumas das nossas bem-amadas leis da física — como quando a água mais fria flui para o topo de um copo, por exemplo.

Seja qual for a resposta – estamos ficando sem soluções óbvias para o Paradoxo de Marte. Quando ele for resolvido… talvez nos vejamos em territórios mais estranhos e desafiadores que os de Marte. (texto base)

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Da ‘transcendência imanente’…ao ‘Potencial Transfinito’

“A física clássica interessava-se, antes de tudo, por relógios… – Já o interesse da física moderna é, sobretudo, em nuvens.” (Karl Popper) 

transcendental

‘A essência transcendental da vida está na aprendizagem que a alma adquire, continuamente, entre a realidade complexa, e o sonho que pode ser alcançado’. (Juliana Silva Valis)

Não existe – obviamente – um conceito único de ‘transcendente’. A palavra tem sido usada em vários sentidos – porém, sempre significando… literalmente…”o que é…ou vai além“.

Na  filosofia medieval – chamavam-se ‘conceitos transcendentais’… aos mais universais – ou seja – àqueles que vão além…das diferenças entre categorias.

Já na idade moderna, designa o ‘supra-sensível’… — além do ‘espaçotemporal’.

Se acreditarmos que o homem tem uma relação essencial com algo supra-sensível, tal como nas ideias de Platão; ou um Deus além do espaçotempo; então, esta relação poderia se chamar de… – ‘relação transcendental.

Hoje, duvidamos do ‘transcendente‘… — muitos não acreditam ter alguma relação com algo transcendente…uma região divina, ou ‘extramundana’. Muitos falam do metafísico neste mesmo sentido, e quando dizem que a metafísica acabou querem dizer que a crença numa coisa transcendente não mais se pode justificar. Porém, o transcendente tem em 1ª  instância um sentido ontológico, quer dizer, refere-se a um tipo de ente, mas também pode-se dizer que este uso tem um sentido antropológico.

Na verdade somos uma ‘espécie animal’, mas isto não significa que não haja nada que nos distinga dos outros animais… – Existe, mas o traço distintivo tem que se entender de uma maneira natural. Ele tem que ter surgido por meio da evolução, da mesma maneira que as outras características surgiram. Esta postura é chamada de “naturalismo”.

Nietzsche foi um dos filósofos mais importantes, entre os que propuseram a doutrina naturalista – criticando, por consequência, o ‘transcendentalismo‘. Segundo ele, já não temos boas razões, nem bons motivos para acreditar em Deus…Num célebre aforismo, descrito na ‘Gaia Ciência’… Nietzsche designa este fato comoa morte de Deus’.

Aliás, Nietzsche se distingue de outros naturalistas, pelo fato de ter levado muito a sério a característica humana de transcender para algo… E, com efeito – para a vontade humana parece ser necessário que ‘todo querer’ seja entendido em relação a um ‘sentido de vida’.

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A ‘transcendência imanente’…  ‘Ao invés de obedecer aos valores dados, o homem cria seus próprios valores’.

O sentido da vida consistia precisamente, na relação com o ‘transcendente sobrenatural’… ou seja, com Deus…Nietzsche afirma, porém, que já não podemos manter esta crença, pois nossa vontade mergulha primeiro num vazio. E – a isto, Nietzsche denomina…’niilismo’… ‘Antes de nada querer a vontade quer o nada‘. 

Para ele, o conceito do transcender humano – do ir além, adquire um sentido mais amplo. O conceito básico agora é — o de estar dirigido a um sentido de vida e, o fato deste sentido consistir em algo supra-sensível é – somente, um conteúdo entre outros (um mero detalhe).

Nietzsche, por isso, viu sua tarefa numa reavaliação dos valores, segundo a qual os homens considerariam o sentido da vida na própria vida. Isso significa que a transcendência para o caso, voltar-se-ia para o interior do próprio ser humano… Poder-se-ia, então, falar de uma ‘transcendência imanente‘…quer dizer, de um ir além que, precisamente não seria um ir a algo além do natural… mas – um ir além do ‘ser do homem

Segundo Nietzsche… — se os valores da vida não nos são dados                       por Deus…então teriam que ser criados pelos próprios homens.

A ideia de ‘criação’ é central em Nietzsche…mas como entendê-la? Uma possibilidade aqui é a arte…Pode até soar muito convincente que a arte é o que dá sentido à vida… Nietzsche acreditava porém…que os valores morais – se não vindos da religião – devem ser vistos como fundamentados no estético… – No entanto…isto deveria ter uma base mais sólida.

Como devemos redefinir a vontade humana – se devemos entendê-la como sendo a base, tanto da moral como do estético?…Sua resposta foi…o ser do homem (… e, não só do homem…mas de todo ser vivo) tem que se entender como ‘vontade de poder‘.

Com este conceito  —  ‘vontade de poder’  —  Nietzsche acreditou responder todas as perguntas que lhe teriam ficado abertas… Por um lado, acreditou poder interpretar toda arte como expressão do poder – por outro, o egoísmo seria a motivação básica de toda atividade do homem… inclusive, das atitudes morais.

Além disso – e, isso… para Nietzsche, era o aspecto central – a ideia de vontade de poder podia cumprir com o requisito de transcendência dentro da imanência. A vontade de poder seria entendida como uma fonte de ação que – por si mesma, pressiona a um ir além – o que daria sentido à vida.

Dessa forma, Nietzsche pensava afinal, ter encontrado a estrutura, não só do homem; mas, de todo ser vivo; e ainda de todo ser natural. Mas há, obviamente, uma série de objeções… O problema mais grave é que Nietzsche nunca esclareceu, rigorosamente, sobre como se deve entender a palavra “poder“…

Assim como ele a usa, misturam-se 2 sentidos. A princípio, significa ter poder sobre a vontade dos outros. Porém, Nietzsche também entende a palavra num sentido de força e potência – de capacidade.

Antropologia filosófica                                                                                                              Somente com a palavra poder entendida no sentido de capacidade, é que Nietzsche é capaz de interpretar criação e arte como manifestação de uma ‘vontade de poder’.

egiptos

Naturalmente, o uso da palavra  “força” pode ter uma multiplicidade de sentidos. Pode…por exemplo, ter sentido de força física como poder dominador — apesar de Nietzsche também a usar no sentido de domínio de si mesmo.

Não obstante, ainda que admitíssemos que a motivação de toda ‘ação humana’ fosse egoísta…não parece plausível que     a meta de todo egoísmo seja o domínio   do outro… É isso que se pode contestar também contra a ideia de que … toda a ‘atividade biológica‘ visa a dominação.

Como os outros animais, evidentemente, não se relacionam com o problema do sentido da vida, não parece que com a tese de que…‘a vontade de poder é essencial para o conceito de vida, Nietzsche tivesse encontrado resposta à questão de como entender o biológico, em geral; nem como entender o especificamente humano – e, em particular, aquele traço de ‘transcendência imanente’.

Assim, Nietzsche perde o fio condutor que tinha sido a pergunta pelo ‘ir além’, e pelo ‘sentido da vida‘ – pois, afinal…o que é essencial no ser do homem é uma pergunta a ser tratada pela ‘antropologia filosófica‘.

Esta, por sua vez, distingue-se da antropologia…enquanto etnologia (estudo de diferentes culturas humanas); sendo usada para designar o que é que distingue o homem…em geral, de outros animais. – O fato de que hoje pouco se conheça sobre essa disciplina entretanto, só pode ser explicado historicamente.

Com efeito, apesar de toda filosofia, a partir de Platão, ter como núcleo a pergunta pelo modo como devemos entender a nós próprios — ou seja…”o que é o homem?“… – na filosofia tradicional, a orientação para o “supra-sensível” fez com que se considerasse a metafísica como a disciplina primária da filosofia.

No entanto, o que Nietzsche fazia, não era outra coisa senão antropologia filosófica.         Além disso, um pouco mais tarde, nos anos 20 (século XX), formou-se na Alemanha       uma corrente denominada ‘antropologia filosófica’, cujos principais representantes       foram Scheler, Plessner, e também Heidegger.

Pode-se dizer, então, que a antropologia filosófica é a herdeira da metafísica, e, portanto, deveria ser considerada a filosofia primitiva de hoje. Foi por esta razão que se estabeleceu tal disciplina na primeira metade do século passado. Mas, então, por que desapareceu?…

Na Alemanha, o seu desaparecimento se deve à excêntrica filosofia de Heidegger, onde a pergunta pelo ser, supostamente, substituiu a pergunta pelo homem. Por outro lado, nos países anglo-saxônicos, a antropologia filosófica nunca chegou a estabelecer-se – porque ali, a filosofia se compartimentou em disciplinas tradicionais, como a  ‘teoria da ação’, ‘teoria da mente’, etc.

Nietzsche

O desafio de Nietzsche… ‘O ideal… não é que o indivíduo imponha-se ao resto do mundo; mas sim … — o encontro de um equilíbrio entre sujeito e objeto.’ 

Talvez Nietzsche tivesse razão ao afirmar que quando prescindimos do sobrenatural…temos que continuar entendendo o ser do homem como indo além — ou seja — como transcendental… Mas, Nietzsche poderia estar equivocado quando entendeu esta ‘transcendência imanente como vontade de poder.

A tarefa consistia então, em retomar a problemática da antropologia filosófica, e repensá-la…dando ênfase – precisamente – à questão da ‘transcendência imanente’.

No início do século XX – efetivamente – já havia surgido um novo sentido para a palavra “transcendência” na teoria do conhecimento. O problema parecia ser…como o sujeito sai de si mesmo, e chega ao conhecimento dos objetos da realidade?…Esta relação do sujeito com objeto foi chamada por alguns epistemólogos alemães da época de “transcendência” – o sujeito transcende a um objeto.

Heidegger, porém, indicou – como Husserl já tinha feito – que isso era um falso problema. O sujeito não existe primeiro dentro de si, e depois sai para o exterior; mas, sempre já está em relação com objetos… ‘intencionalmente’ – como expressava Husserl. Contudo, apesar de rechaçar este falso ‘problema epistemológico‘…Heidegger não consegue se livrar dessa terminologia, totalmente…Mantém a expressão ‘transcendência‘ para a intencionalidade, numa relação do ser humano com entes.

Ocorre porém, que este conceito de ‘transcendência imanente’ não representaria uma alternativa à concepção de Nietzsche… O equívoco na antropologia de Heidegger – na verdade – se deve ao fato deste repudiar certos indispensáveis ‘conceitos tradicionais’. Segundo ele, o que os gregos tinham chamado de lógosa ‘oração proposicional’, e junto com ela a racionalidade — seria algo derivado…não primordial.

Hoje em dia, pode-se considerar que Scheler e Plessner empreenderam um caminho mais produtivo…apesar de nunca terem chegado muito longe nos detalhes…Entre si se indagavam, — como distinguir uma consciência humana, da dos outros animais?… Qual essa característica humana?

E a resposta era que…enquanto que um animal encontra-se no seu meio ambiente, e reage a ele; no homem tem lugar uma ‘objetivação‘ — ele objetifica o meio ambiente relacionando-se com as coisas como objetos; e assim também, objetifica-se a si próprio.

Este pensamento está em evidente contraste com o de Nietzsche…e, de outra maneira, também com o de Heidegger… — O contraste em relação ao pensamento de Nietzsche         deve-se ao fato de que este entende seu ‘naturalismo’ de uma maneira que a diferença   com os outros animais pareça secundária – o homem é movido pelo instinto de poder, tanto quanto os outros animais.

Em relação ao pensamento de Heidegger, porque este negou-se a entender o homem como um animal, e – não aprovando assim, o método de explicá-lo comparativamente… recusou o conceito de ‘objeto’.

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‘pyramid technology’ (by maspix)

A linguagem transcendental  Que consequências pode ter então, a ‘objetificação‘ de Scheler e Plessner?

Em relação a Plessner, 2 aspectos são observados… em 1º)…o fato de que o homem… ao confrontar-se com o seu próprio ser (na ‘objetificação‘) é logo conduzido a uma ruptura que o obriga a se questionar…o que fazer? como viver?

Este aspecto de ‘pôr-se em questão‘ – por diversas razões… não está nem em Nietzsche… muito menos em Heidegger.

Em 2º)… O homem não se encontra em equilíbrio nem consigo próprio, nem com o mundo. Por conseguinte, tem de buscar criar um equilíbrio, encontrando coisas que contrabalancem o peso do ‘desassossego’, que sente pela própria existência.

Nesse sentido… Plessner enfatiza – tal como Nietzsche – a significação da arte e da criação para o ser humano. Mas, enquanto Nietzsche tentou, com pouca plausibilidade, entender a criação como um broto da fonte puramente subjetiva da ‘vontade de poder’…Plessner a viu – como a manifestação de seu desequilíbrio, e como busca de contrapesos.

Em Nietzsche, a transcendência imanente consistia numa dinâmica de mero crescimento em direção a um além, que nunca deixa de ser puramente subjetivo. Já na ‘epistemologia’ a transcendência consiste numa relação estática entre sujeito e objeto…De igual maneira, fundamentalmente estática, foi a concepção heideggeriana de transcendência; a despeito de uma certa dinâmica na sua concepção de consciência…enquanto ‘desvelamento’.

Em Plessner, por outro lado, se estabelece um novo sentido de transcendência imanente,  que é tão dinâmico quanto o de Nietzsche, mas que não é unilateralmente subjetivo, nem tampouco consiste numa mera relação sujeito-objeto – mas, num aprofundamento desta relação. O sujeito não se pode contentar com a superfície das coisas; e, por isso, tem que penetrá-lastem que aprofundar sua relação com elas.

Assim, constitui-se um  “ir além“…  uma  ‘transcendência‘  –  que não é, simplesmente, uma dinâmica de crescimento do poder – ou da capacidade do sujeito; nem tampouco, como em Heidegger, uma relação entre homem e o ser; mas o transcender da aparência superficial – em direção ao fundo das coisasPode ser que o tipo de ‘consciência humana‘ permita — em todas suas relações consigo, e com o mundo, dar vários passos na direção deste fundo… — Mas, então, como devemos entender isso?…

Plessner contenta-se em meras indicações superficiais – com sua ideia ‘objetificadora’;   enquanto que, aquela antropologia filosófica simplesmente constata uma estrutura na qual o homem distingue-se dos outros animais — sem, ao menos… se perguntar como esta diferença pode ter-se desenvolvido no curso da evolução biológica.

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A estrutura proposicional linguística                     ‘Entende-se que a linguagem instrumental tem tido uma função biológica… e, uma vez que surgiu, esta estrutura estende-se por toda a vida humana’.

Parece, então, necessário encontrar uma nova base para entendermos melhor a transcendência imanente – neste sentido de ter que dar vários – e, sempre mais passos a um fundo das coisas.

Na verdade… Aristóteles já tinha dado uma resposta à pergunta de como se distinguem os homens dos animais — que parece mais produtiva como fio condutor, em vez do conceito de ‘objetificação’ – e… fez isso recorrendo à linguagem… – Scheler e Plessner não refletiram sobre ‘linguagem’…enquanto Heidegger falou muito dela – porém, nada dizendo estruturalmente útil.

Aristóteles — por sua vez… diz que é característico da linguagem humana possuir uma estrutura proposicional…Enquanto a linguagem dos animais tem uma função segundo a qual reagem ao ambiente, a estrutura predicativo-proposicional proporciona ao homem a possibilidade de dizer coisas que são independentes da situação corriqueira.

Com isso, Aristóteles vê conectado o fato de que os homens possam falar do bom – e, por conseguinte, do justo… (esta reflexão encontra-se no início da sua Política.)  —  E assim, conclui que os homens podem formar agrupamentos políticos só porque podem entender que algo é, mutuamente, bom para eles.

Em Aristóteles, tem-se que entender a motivação para o ‘bom’, em contraste com a motivação para o prazer… E, o que distingue a perspectiva do bom da do prazer é a deliberação. – O objeto formal da deliberação prática é o ‘bom’, enquanto que o             objeto da deliberação teórica é o ‘verdadeiro’.

“A característica do homem é que ele fala e pensa em proposições teóricas e práticas – sendo, por isso, um ente deliberativo que se relaciona com o bom e o verdadeiro…Nenhum desses aspectos é encontrada nos outros animais”.

Confrontado com uma proposição, o homem pode consentir ou negá-la; e, por isso, pode também pô-la em dúvida, questioná-la; e, por conseguinte, deliberar. Confrontar-se com algo dito, ou pensado na modalidade da deliberação – portanto… significa perguntar por razões; e, isso significa perguntar-se pelo que se pode dizer a favor, ou contra a asserção,   ou o imperativo

Nesta “tomada de distância” … — neste poder de tomar                           posição, a favor ou contra, estamos livre, temos opções.

(Observe-se que este pensamento demonstra o erro de uma moda recente — que consiste em pensar que a ‘sociologia’ poderia substituir a ‘antropologia filosófica’…como filosofia primordial… Não pode fazê-lo, porque a maneira como os seres humanos reúnem-se em grupos sociais fundamenta-se na capacidade dos indivíduos de se comunicarem sobre o ‘bom’ – proposicionalmente… Enquanto que uma sociedade de formigas — por exemplo, está organizada à base de estímulos químicos; na sociedade humana…os indivíduos unem-se uns com os outros por uma ‘finalidade além’…e, portanto, têm a capacidade de separar-se, e dar explicações sobre isso. A sociologia tem pois, esta base antropológica!)

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Joan Miró – ‘Characters and birds party for the night that is approaching’. 1968

Procurando explicações

Plessner insistia que o homem tem que se “pôr em questão”… por objetificar as coisas. Todavia, torna-se mais evidente justamente o contrário… – a razão pela qual o homem está objetificando coisas e, a si próprio é que se relaciona a tudo — através de uma lógica proposicional.

E, junto a esta linguagem proposicional, necessariamente… aparecem diferentes aspectos…representando diversos lados da mesma moeda…’questão’…’razões’… ‘deliberação’ … e ‘liberdade’.

Quando Aristóteles diz que – para o entendimento humano, a linguagem proposicional (lógos) é essencial – isso significa que o homem é o animal racional, que pode perguntar por razões – ou seja…o ente deliberativo…’livre’. Confrontando com o que tínhamos visto em Plessner – trata-se de uma estrutura bem mais fundamental que a mera objetificação.

Um aspecto relevante dessa linguagem é a relação sujeito/predicado. Se o homem tem que falar das coisas, consequentemente, tem que objetificá-las; e, deste modo, chega a ser também objeto para si próprio. – E, como tudo o que diz, ou pensa, pode ser colocado em questão, isso afeta também sua relação consigo próprio. Assim, pode-se entender por que razão – uma espécie com tal característica…desenvolveu-se tanto na evolução biológica…

Se, simplesmente, assumirmos que o homem objetifica-se a si mesmo isso é algo que não se pode explicar ‘funcionalmente’. Entretanto, isto também acontece se dissermos, como no existencialismo, que o homem é essencialmente livre…  Ser livre seria algo sem função biológica compreensível…Mas, se dissermos que a espécie tem capacidade     de ‘se questionar por razões‘…esta é uma nítida vantagem dentro da evolução – pois implica em um novo ‘nível cognoscitivo’… que permitiu ao pensamento uma ‘evolução instrumental’ em larga escala.

Assim, também o conceito de uma ‘transcendência imanente pode agora adquirir um sentido mais claro…Vimos que em Plessner – trata-se de um aprofundamento na maneira como nos relacionamos com objetos. – Este aprofundamento, porém, adquire um sentido transparente quando o clarificamos por meio do conceito de dar razões.

Trata-se aqui, da tensão entre ‘aparência’ e ‘verdade’…ou, na deliberação prática entre o bem aparente e o bem verdadeiro. A mera opinião seria a aparência e, ao invés desta, se podemos dar razões – e, sempre melhores razões, passamos então, de um nível a outro. Nisto consiste, exatamente,    a ‘transcendência imanente’…que parece constitutiva do saber humano.

Com efeito, Plessner aplicou sua estrutura também para a arte… Porém – neste caso, o aprofundamento não é um aprofundamento relativo a razões. Como então, entendê-lo? E, qual a sua consequência para a discussão de Nietzsche – levando em consideração a concepção de distinção aristotélica?… Podemos entender, a partir daí, o ser do homem na sua totalidade?  

Erich FrommDe volta à Fenomenologia

É certo, que essa é uma matéria onde apenas podemos especular…  – Empiricamente, não sabemos como nossa espécie se desenvolveu, contudo…podemos, ao menos, elaborar uma hipótese que faça sentido

Ao invés de nos confrontarmos, diretamente com esta pergunta…peguemos o exemplo de 2 pensadores do século XX… que se encontram à margem da filosofia …  —  o psicanalista Erich Fromm e a novelista e filósofa Iris Murdoch, que muito têm contribuído para o esclarecimento da questão.

Fromm não compartilha da preocupação dos antropólogos, de procurar uma característica central que diferencie o homem dos outros animais. Com base numa concepção hegeliana, segundo a qual, todo o ser – e, em particular, o ‘ser humano’ – consiste numa síntese de antíteses’, ele parte da pergunta pela felicidade humana

Na ‘Fenomenologia do Espírito’, Hegel mostra que o homem não chega a satisfazer-se…se somente devora, ou domina o que encontra… O que pode satisfazê-lo só pode ser algo tão independente quanto ele; algo que tenha também autoconsciência e autonomia. – A mera dominação dos outros não leva a uma satisfação alguma.

Com isso, Hegel (1770-1831) anteviu a refutação de Nietzsche (1844-1900)… Só no espelho do outro – e, de um outro reconhecido como igualmente autônomo, o homem chega a uma satisfação. E, assim se faz a ‘experiência‘, que só na medida em que se afirma no outro, sua afirmação tem significado.

Toda Fenomenologia do Espírito‘ consiste…em graus sempre mais complexos, desta simetria; e, é esta concepção que Fromm aplica à psicologia, em sua busca pela felicidade. O homem encontra-se, segundo Fromm, em dicotomias: vê-se isolado, e só pode chegar à felicidade dando ao outro o peso que dá a si próprio. Fromm demonstra este princípio de simetria, particularmente, em 2 aspectos do comportamento humano: o ‘entendimento’,   e o ‘amor’.

No amor, forma-se uma convivência, cujo perigo é a unilateralidade: ou cada parte quer dominar a outra, ou uma quer dominar, e a outra, submeter-se. Somente se cada um tem suficiente peso; e, ao mesmo tempo, aceita a igualdade do outro  –  é que ambos podem alcançar o bem-estar.

Fromm constrói uma concepção análoga para o entendimento: não podemos chegar a entender uma coisa, ou uma pessoa, se somos meramente passivos como uma copiadora. Para que nosso entendimento possa penetrar na realidade, além da superfície, temos que ativar o nosso ‘poder imaginativo.

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Dimensões de profundidade   (da ‘transcendência imanente’…)

O peso e ativação do sujeito devem estar em concordância com o peso,   e respeito para com o objeto. Trata-se da ativação de nossas próprias capacidades, dirigida pelo respeito por tudo aquilo com que lidamos…

Disso resulta – para Fromm…uma recusa total à ‘concepção nietzschiana‘, que confunde poder e potência… – Segundo ele, relacionar-se ‘simetricamente com as coisas e com as pessoas, depende da ativação das próprias potências… – Opoder‘, no sentido de domínio, é uma perversão do poder no sentido de ‘potência(capacidade de relacionar-se com o mundo) … é uma ‘perversão’ pela unilateralidade da dinâmica.

Qual a contribuição de Fromm à problemática da ‘transcendência imanente‘? Fromm não usa a palavra ‘transcendência’, mas fala de profundidade da realidade das coisas e pessoas. Segundo ele… – o ‘desejo de poder’ nasce da incapacidade do indivíduo para relacionar-se produtivamente com o mundo.

Em Fromm, encontramos conceitos que já tínhamos encontrado em Plessner…simetria na relação entre sujeito e objeto – (peso e contrapeso)…Há, porém, uma ‘diferença estrutural’ entre o que dizem Plessner e Fromm… e a filosofia de Aristóteles – na qual… na ‘estrutura proposicional a ênfase está nas razões…“Para eles há uma estrutura entre sujeito e objeto, sendo que estas estruturas parecem ‘dimensões de profundidade‘ em diferentes sentidos”.

Iris Murdoch, por sua vez, também usa o conceito de ‘transcendência’… mas o seu interesse é menos descritivo, e mais normativo. A pergunta é…como devemos ser?           Seu termo central é ‘atenção‘…termo tomado emprestado de Simone Weil, que a         tinha influenciado profundamente. A obrigação central do homem para Murdoch,               é desenvolver uma viva atenção para a ‘realidade‘.

Realidade‘, que é sua 2ª palavra central…usada no sentido de verdade das coisas. A verdade nunca está na superfície…e por isso, a atitude da atenção exige esforço contra         a preguiça e egoísmo. O que ela quer dizer com ‘atenção‘ é semelhante ao que Fromm chama de ‘compreensão equilibrada‘.

Uma das preocupações de Murdoch é mostrar que o problema de abrir-se para a realidade das coisas é universal — igualmente constitutivo da estética e da moral. É uma experiência de profundidade da realidade. É como se dissesse diante de uma obra de arte – isso é mais real que o resto da realidade. Assim a palavra “realidade” adquire um sentido comparativo, tal como o tem em Murdoch o conceito correspondente de ‘atenção’.

A aprendizagem humana é diferente da aprendizagem de outros animais. – O homem aprende a fazer bem alguma coisa, e encontra-se como diz Murdoch…“numa escala de excelência”, em que pode avançar mais ou menos. Este avanço na escala de excelência, seria, então, o sentido não metafísico da ideia de transcendência.

O deliberado poder funcional da arguição                                                                      Comparemos agora, a posição de Murdoch com a de Nietzsche… – enquanto a transcendência imanente e o sentido da vida em Nietzsche, consistia num puro crescimento de si próprio; para Murdoch consiste no crescente abrir-se para a                 realidade… e na aprendizagem de uma coisa boa’.                                 

Poder-se-ia imaginar um debate entre Nietzsche e Iris Murdoch – em que Nietzsche diria que todas estas escalas de excelências seriam simplesmente passos de alguém para poder desfrutar-se de si mesmo. Porém, para Murdoch, ainda que seja certo que o homem ache satisfação quando faz bem as coisas; é, em primeiro lugar, notável que, grande parte da felicidade humana consista, justamente, em fazer coisas boas.

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“O desejo esmagador de um corpo humano por outro, em particular, e sua indiferença aos outros é um dos maiores mistérios da vida.” (Iris Murdock)

Um exemplo seria amar uma pessoa. Nietzsche tinha insistido no aspecto possessivo de todo amor… e este aspecto inegável… – está, igualmente, em tudo o que queremos fazer bem.

Por outro lado… amar uma pessoa…implica estar impressionado pela profundidade de seu ser, que Murdoch chama “sua realidade“…e isso abre a possibilidade, ainda que só uma possibilidade de preferir a felicidade desta pessoa… – a ‘possuí-la’.  

Mostra-se então, que o conceito de deliberação é mais amplo; ou – segundo Platão…o conceito de ‘bom‘ está além do de ‘ser’.

A volta de Murdoch às especulações de Platão nos faz estender o conceito de ‘dimensões de profundidade’ a esta característica humana na “evolução biológica”… que nos distingue dos outros animais, isto é, o poder perguntar por razões pelo que é ‘praticamente‘ melhor, assim como sobre a extensão do conceito de deliberação sobre o que é bom… ou… pela busca do ‘melhor juízo’.

Esta capacidade de relacionar-se com o mundo, e consigo mesmo…uma   vez surgida… — teria a necessidade de se estender às demais atividades humanas. Mas daí então…o que devemos entender pela palavra “bom”?

Com efeito, esta palavra refere-se a um comparativo de preferência, que além disso, tem uma pretensão de ‘objetividade’, ou pelo menos de ‘intersubjetividade’. Quando dizemos que uma coisa é melhor… – trata-se primeiro de uma ‘preferência‘ – e segundo…de uma preferência da qual se supõe não ser só minha… – Já o conceito de preferência, remete a um querer…e este o temos em comum com outros animais. O que os outros animais não têm é a capacidade de compreender-se dentro de uma escala — em que a multiplicidade   de coisas — ou ações…são classificadas como melhores ou piores…

Isto equivale a dizer que nos encontramos em ‘dimensões de profundidade’.

Sobre isso, ainda cabe esclarecer a ambiguidade que consiste na diferença de dimensão de profundidade, a partir de Aristóteles – que é a dimensão de deliberação – e a dimensão de profundidade como se apresentou a partir de Plessner e Fromm – que é uma dimensão entre sujeito e objeto… e que conduz à ideia de ‘simetria‘.

Estes 2 tipos de dimensões de profundidade são considerados diferentes, mas com origem comum. Uma vez que surge uma ‘linguagem proposicional‘ surge, por um lado, a pergunta por razões; e por outro lado, a objetivação de entes, seja no mundo, seja no sujeito mesmo. Com isso, surge também algo que – de certa maneira, está na base de toda moral humana:

Com a consciência de si e com o saber dos outros (que também tem uma consciência de si), aparece, necessariamente, a ideia de que os outros são como eu, e isso significa que, junto com o egoísmo surge a possibilidade de um ‘altruísmo explícito’, sem regras fixas. Ora, se Fromm tem razão, este altruísmo – especificamente humano – não é uma mera possibilidade abstrata. É, naturalmente, uma possibilidade real – e, como tal, faz parte do que é para os homens uma ‘vida boa‘. (Ernst Tugendhat)…artigo original (em PDF)  **************************(texto complementar)************************************

CONTINGÊNCIA E TRANSFINITO  (introdução)                                                                 ‘Envoltos num fundamento fenomenológico, pautado na inseparabilidade entre mente e mundo, grandes mestres da filosofia; mesmo quando tratam de se afastar do idealismo; não conseguem fugir à finitude essencial que se encerra na discussão sobre a correlação (pensamento/ser), e sua inegável refutação da ideia de absoluto’…

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Quentin Meillassoux, filósofo e professor da Universidade de Paris…tem ganho notoriedade por suas ideias originais inseridas no panorama do “realismo especulativo“… atual movimento filosófico que representa um ‘contraponto‘ às mais atuais influências da filosofia ‘pós-kantiana’.

Aluno de Alain Badiou, Meillassoux propõe uma inclusão da ‘filosofia matemática’ em problemas ontológicos — na tentativa de retirar o ‘privilégio humano’ sobre o real; em uma crítica ao idealismo…com vistas ao realismo, imerso em uma moldura ‘filosófica contemporânea‘.

Em seu livro… “Après la Finitude” (2008), Meillassoux elabora um ‘empreendimento especulativo‘ – em oposição ao ‘correlacionismo‘… nome dado pelo próprio autor à abordagem filosófica… – iniciada com Kant… e…posteriormente desenvolvida por Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty, definida pelo autor como uma… — emblemática insuficiência em lidar com vários problemas metafísicos… – com os quais a filosofia contemporânea, cada vez mais se depara.”

As condições de verdade do ‘correlacionismo’ são… deve ser experimentável no presente; deve ser universalizável; deve ser experimentável por qualquer um. Portanto, no caso de um evento não-testemunhável… conclui-se que tal é ‘impensável’.

O modelo correlacionista                                                                                                    

Um dos elementos que mais chama a atenção na proposta de Meillassoux é sua ousada leitura da filosofia contemporânea como uma filosofia acanhada diante dos desafios de     seu tempo. O paradigma correlacionista não seria alvo de tão dura crítica, se estivesse   em condições de propor soluções para grandes questões da atualidade… – mas…parece confortável ao apontar a materialidade da correlação ‘pensamento/ser’...a cada vez que uma questão sobre o mundo é lançada.

É como se o correlacionismo dissesse repetidamente: “é ingênuo indagar sobre o mundo, pois há que se reconhecer que a cognoscibilidade é definida pelas regras do saber”. E ao fazê-lo, a filosofia se fecha sobre si própria – em um ambiente seguro – porém limitado. Enquanto isso, a ciência avança…A tirar pelas recentes conquistas na física quântica, a ciência propõe soluções para os limites do universo… – até em questões eminentemente filosóficas.

Foi Kant quem instaurou a correlação como uma abordagem fundamentalmente crítica; para a consciência e linguagem. Até então, o ‘problema do ser‘ tratava-se do problema da substância…era pré-crítico, mas a partir daí, torna-se um ‘problema de correlação’, o que afasta de certo modo o interesse pelo que está fora dela… – Contudo…paradoxalmente, a “abordagem correlacionista” consegue se aproximar ao externo na medida em que estar consciente é consciente de algo; falar é falar de algo; ou seja… conhecer…é conhecer algo.

De qualquer modo, o foco do correlacionismo está no modo como um A se aproxima de um B  –  mesmo que esse B seja essencialmente inacessível…  A questão não mais diz respeito ao “acessar algo”, mas sim ao “como” se pode acessar esse algo – tendo em vista que essa relação é o que permite qualquer mudança de estado cognitivo.

A partir desse cenário, Meillassoux apresenta um problema para o correlacionismo, que pode ser exemplificado na questão da ‘ancestralidade‘… – A exemplo dos fósseis, que indicam a existência de matéria primitiva…”ancestral“… como uma realidade anterior à percepção humana… – a ‘questão filosófica’ da ancestralidade é…sob quais condições…abordagens sobre ancestralidade são relevantes?…

Para Meillassoux, só há 2 possíveis: a ‘transcendental’ (Kant)                          e uma abordagem ‘especulativa’ (… seja metafísica… ou não).

Do ponto de vista ‘correlacionista transcendental, o real ancestral é resultado de um evento atual que   se refere a um ‘passado virtual

Mas – para Meillassoux…ao se referir a um passado virtual, anterior à ‘mente humana‘ – o “correlacionismo entra em contradição – com seu próprio ‘princípio correlacionista‘.

De um ponto de vista estritamente correlacionista, tudo o que se pode dizer – uma vez que ninguém estava lá, se resume ao que dizem os dados matemáticos; de modo que o real é construído pela mediação de dados atuais… — Nesse sentido, o que se faz é uma afirmação atual (“presente”) a cerca de um concernente real… ausente (“passado”).

Mas o ausente desprovido de pensamento é justamente o que o correlacionismo não pode, por princípio, admitir… Logo, da perspectiva correlacionista, a interpretação da afirmação ancestral é inadmissível, e o papel do filósofo – nesse caso – consiste apenas em adicionar um tipo de conhecimento…que impõe uma correção mínima na afirmação científica (algo como – “não há como assegurar a materialidade do real…que está além da correlação”).

O objetivo da empresa de Meillassoux é justamente questionar o que a filosofia moderna tem-nos dito nos 2 últimos séculos…que há uma ‘impossibilidade real’ em sair de si para tocar a coisa em si (para saber o que há – quer quando somos… quer quando não somos). 

Kant e a filosofia transcendental                                                                                       A virtude do transcendentalismo está na desconstrução de um realismo ilusório, e na sua habilidade em torná-lo impressionante e problemático: verdadeiro e impensável’.

A filosofia transcendental insiste que a condição da ciência consiste em revogar todo o ‘conhecimento não-correlacional’ … taxando o realismo como aparente, derivado, ingênuo, natural…Pela ‘revolução crítica’ de Kant, os objetos se conformam ao nosso conhecimento, promovendo a morte da metafísica, em nome da ciência; e aqui há uma falha fundamental, foi ignorado o aspecto mais revolucionário do saber científico… – seu caráter especulativo.

Há, portanto, um paradoxo para o ‘transcendentalista’…na medida em que ele enxerga uma coisa fora da correlação…e diz não haver possibilidade de atingi-la. – É como se o pensamento fosse capaz de ultrapassar seus próprios limites — mas, ao mesmo tempo, devesse se restringir ao que lhe foi dado, não indo além… (O que não fica claro… – é o porquê dessa limitação.)            

O filósofo dos dias de hoje evita indagar a respeito do real. Isto porque sua comunicação, e o tempo em si, apenas têm sentidona medida em que forem fenômenos do tipo ‘sempre-agora’ (pressuposto na relação humana com o mundo) – e, nesse sentido…  o mundo só teria sentido se fosse pensável… Contudo – nesse particular, a questão da ‘ancestralidade’ permanece incompleta… – Como conceber um tempo em que o sujeito, como tal, passa de um estado de não-ser para o ser?… Ou ainda…como a anterioridade do ser pode se revelar (para a correlação)?

Nesse sentido, uma reformulação especulativa do problema de Kant pode ser exposta nas 2 indagações para a questão…“como a matematização da ciência da natureza é possível?

1) o que é matematicamente concebível é absolutamente possível?…2) as leis da natureza derivam sua estabilidade factual de uma propriedade da temporalidade em si… ‘absoluta’ (indiferente à nossa existência)?

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Uma contingência absoluta!?…

A partir desse problema, Meillassoux desenvolve o 2º argumento — sobre a relevância de um problema metafísico – supostamente superado por Kant através da ‘especulação‘.

O autor defende a ideia de que se deve buscar um absoluto — isto é…algo que independa de nossa consciência, ‘uma vez que só assim — se pode dar conta da … questão da ancestralidade‘.

A tarefa consiste… portanto, em tentar entender como pode o pensamento ser capaz de acessar o ‘incorrelato’…quer dizer, um mundo capaz de subsistir sem ter sido percebido. Mas, isto significa dizer…’apenas‘… que devemos entender como o pensamento é capaz     de acessar um absoluto, cuja atividade de independência seja tal… que se apresente a si mesmo como não relativo a nós, mas ainda assim capaz de existir… – existamos ou não.

Para Kant, a coisa em si é incognoscível, apesar de pensável… Mas, como mesmo não conhecendo o absoluto, posso pensá-lo… por isso, a coisa em si deve existir. Portanto, mesmo em Kant a coisa em si é ‘não contraditória’… – em sua existência autônoma…

“O espaço não é um conceito empírico – retirado de experiências externas – nem pode ser visto como um conceito discursivo da relação das coisas em geral…ao contrário, é uma representação necessária a priori, que serve de fundamento às demais intuições.   Ele é uma ‘intuição pura‘ – sobre a qual se funda a certeza evidente e necessária de todos princípios geométricos; e, a possibilidade sintética de sua própria construção.”  (Immanuel Kant – ‘Crítica da Razão Pura’)

Partindo dessa ideia, Meillassoux acrescenta que, no trato da ‘questão da origem’ (por que existe algo ao invés do nada?…) é necessário ter-se uma abordagem oposta ao princípio da razão suficienteAo estilo cartesiano — o autor busca então estabelecer a existência de um “absoluto primário“… para – em seguida… derivar daí o seu… ‘alcance absoluto‘.

Com efeito, para caminhar nessa direção sem correr o risco de um retorno à ‘metafísica ingênua’ – é preciso que aquela “visão absolutista” fique no passado… Para Meillassoux, deve-se buscar a necessidade absoluta sem se recorrer a algo absolutamente necessário. Deve-se buscar um ‘absoluto’ – sem a ajuda de uma ‘entidade absoluta’… Desse modo, o ‘pensamento especulativo’…  que almeja a ‘forma do absoluto’…não se confunde com o ‘pensamento metafísico’ – que almeja o ‘ente absoluto’.

Da abordagem metafísica apenas é útil a tese de que existe algo,                   mesmo quando não há ‘pensamento consciente’ em sua direção.

Neste cenário, Meillassoux defende a tese de que há uma ‘contingência absoluta’. Dito de outro modo… – a renúncia contemporânea do absoluto…corresponde a uma primazia da correlação… Se o correlacionismo insiste na materialidade das formas correlacionais, tal materialidade evidencia a nossa incapacidade de falar do impossível… — Encontrar essa incapacidade é marcar uma ausência de razão dos fatos, e suas invariâncias… E, a partir daí, o que Meillassoux defende é a possibilidade de que toda hipótese para a ‘coisa em si’ permaneça igualmente válida.

infinito

Sobre essa ideia, o correlacionista enfatizaria apenas a materialidade da correlação entre ‘pensamento/ser’ para dizer que “não há outra condição possível” … O problema que Meillassoux nos coloca então de modo bem claro é que o impensável apenas sugere a nossa incapacidade de se pensar de outro modo – mas não leva à ‘absoluta impossibilidade’ das coisas serem de outro modo.

A Contingência e o ‘Princípio Surreal’        ‘Afirmar a impossibilidade real do impensável seria demarcar ‘dogmaticamente’…quase religiosamente, um terreno para se erigir filosofia’.

Para dialogar com o correlacionista, Meillassoux elabora um método bastante fiel à proposta do correlacionismo: o ‘cogito correlacionista‘… seu método para acessar o absoluto. Há aqui uma ‘função de correlação entre pensamento e ser…por meio da           qual se extrai verdades especulativas de um consenso intersubjetivo… Para tal, são assumidas 3 ideias básicas:

  • se o ancestral é pensável – então um absoluto deve ser pensável;
  • o ‘absoluto’ que se procura não pode ser dogmático… (desqualificando-se todo                 argumento que pretenda estabelecer a absoluta necessidade de uma entidade)
  • deve-se superar o círculo correlacionista (segundo o qual, pensar um absoluto                 é pensar um absoluto para nós – e, portanto… não é pensar nenhum absoluto)

Para o correlacionismo, podemos apenas acessar o ‘para nós‘, nunca o ‘em si‘. Crer neste fato é crer na absoluta materialidade da correlação, e assim a materialidade pode revelar-se uma espécie de “conhecimento absoluto”, pois a estamos colocando de volta nas coisas mesmas – o que nós… erroneamente…tomamos como uma incapacidade do pensamento.

A ‘falta de razão’ revela uma propriedade do ‘ente’ – uma limitação sua... e, representa do absoluto, no máximo, uma ausência de lei… – Isto é, a ‘materialidade’ é uma propriedade real…pela qual tudo é desprovido de razão… Neste sentido, diz Meillassoux, o ‘surreal‘ é uma propriedade ontológica fundamental. Para o autor…a materialidade não se associa à necessidade da mesma forma que com a contingência. Esta é absoluta, a necessidade não.

Assim, a capacidade de deixar de ser é uma possibilidade absoluta (ontológica)…Por exemplo, não posso pensar que a morte dependa do meu pensamento, pois isso seria equivalente a dizer, que só posso morrer depois que eu pensar a morte…Mas, minha morte não precisa do meu pensamento para acontecer.

Há aqui uma absolutização da capacidade de se tornar outro. A própria diferença entre o “em si” e o “para nós” mostra um absoluto, pois algo sem razão não pode ser atribuído ao pensamento. Meillassoux, porém, recoloca o conceito de absoluto como um problema filosófico – e propõe uma abordagem especulativa (não metafísica) para dar conta dele.

Meillassoux declara – desse modo, a verdade absoluta do ‘princípio surreal não há qualquer razão para algo ser do jeito que é – que, caracteriza um princípio dito absoluto, mas sem nenhuma entidade absoluta (absoluta seria a impossibilidade da necessidade de ser)…Este princípio representa uma espécie de inversão do ‘princípio da razão suficiente (pelo qual, tudo tem uma razão de ser).

A contingência necessária                                                                                                        ‘Necessária é a possibilidade da representação. Nós somos efêmeros, mas o absoluto como possibilidade é perene… E, ele não é razão, mas… ao contrário – contingência’.

Parece absurdo manter-se que, não apenas as coisas mas também as leis da física sejam realmente contingentes, uma vez que se esse fosse o caso, nós teríamos que admitir que, tais leis poderiam de fato mudar a qualquer momento…sem qualquer razão. – Podemos,   no entanto, confirmar que as leis da natureza poderiam mudar; não só em concordância com alguma ‘lei superior’ escondida… – mas, sem qualquer causa… – ou razão aparente.

ciencia

Apesar de improvável, nosso universo se estabiliza como resultado de um nº gigantesco   de ‘emergências caóticas‘… E, em tal argumento… o próprio acaso pode ser mensurado matematicamente…podendo evoluir, para se tornar um ‘princípio de lei física’ (caótica).

Porém…a questão essencial ainda não foi respondida –                                   qual a condição para a manifesta estabilidade do caos?

Hume havia detectado uma falácia no  ‘princípio da razão suficiente’ — tendo denunciado que tal princípio não era absoluto. Kant – por sua vez, propôs estágios para se esclarecer o engano metafísico da ideia objetivável de um conhecimento matemático da natureza, com a inutil tentativa de dar à física uma ‘fundamentação metafísica’, e com a renúncia a todo absoluto teórico.

Dada a proposta de repensar o problema da contingência, Meillassoux relembra a questão de Hume, a respeito da continuidade da regularidade do mundo… Este problema pode ser assim expresso– “a partir das mesmas causas…pode-se esperar os mesmos efeitos?”… ou… “qual é a nossa capacidade em demonstrar a necessidade de uma conexão causal?”

O problema da causalidade (em Hume) vale tanto para as leis determinísticas quanto para as probabilísticas; e a questão ressurge, em um caráter ainda mais absoluto: o que garante que as leis da física, como tais, continuarão a ser possíveis no futuro?…ou melhor dizendo:

O verdadeiro problema de Hume não é sobre a validade futura de nossas teorias – mas sim, sobre a estabilidade futura da natureza, em si mesma.

O problema, nesse ponto, ultrapassa o alcance da física… As condições de possibilidade, para a física, são garantidas pela incessante repetição dos experimentos. Mas, a questão aqui não diz respeito aos experimentos, e sim às condições de recorrência, e poderia ser colocada do seguinte modo:

“poderíamos demonstrar que a ciência experimental – possível hoje… será possível amanhã?”… Para essa questão, há 3 respostas…  a metafísica, a cética, e a transcendental.

A abordagem metafísica pretende dar conta do problema invocando a existência de um ‘princípio supremo‘ que governa o mundo…garantido pela eternidade de uma perfeição divina. Por outro lado a proposta cética (de Hume) diz respeito a uma dupla articulação entre a ideia de ‘não-contradição’, e a ideia de ‘hábito‘…como um modo de fixar crenças, e como uma tendência humana não racional… — de atribuir alguma “necessidade” às leis.

Já a resposta transcendental (kantiana), baseia-se na materialidade da representação para declarar que a ‘necessidade causal‘ é uma condição necessária para a existência de uma consciência. É como se Kant dissesse a Hume… – você não pode me pedir para provar a existência de leis naturais, e causalidades – quando o que estou fazendo é, justamente, partir do pressuposto que causalidades são postulados para as regras do entendimento serem do jeito que são… – de modo a me permitir conhecer tais leis”.

Nem a resposta metafísica, nem a cética, nem a transcendental, coloca em dúvida a ‘necessidade causal’. Se bem que o ceticismo chega à ideia de que   a razão é incapaz de firmar nossa crença na necessidade (assumida real).

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Meillassoux tentou mostrar que o ceticismo agnóstico daqueles que duvidam da realidade da causa e efeito, deve ser transformado numa certeza radical de que não existe tal realidade – como necessidade causal. Isto o leva a proclamar que é absolutamente necessário que as leis da natureza sejam contingentes. (Wikipédia)

Mas, essa descrença na garantia de apreensão da necessidade não chega, de todo modo…a negá-la. A impossibilidade de se conhecer a ‘necessidade’ pelo ‘raciocínio’…diz respeito apenas aos limites da razão — e da nossa tendência em substituir o ‘juízo racional’ por um ‘juízo sensível’ … quando a “estabilidade aparente” nos impele a crer nos hábitos, e experiências anteriormente gravadas em nosso ser.

Nesse sentido o ponto de vista cético acaba por se mostrar o mais paradoxal… pois, ao mesmo tempo em que admite uma ‘insuficiência‘ no ‘princípio da razão’, para com suas “pretensões ontológicas” … – ainda assim … acredita numa necessidade real (sem qualquer razão para tal).

Entretanto…se a necessidade de uma ‘conexão causal‘ entre eventos não pode ser demonstrada, tal conexão é simplesmente desprovida de necessidade. Assim, a questão não mais deve ser ‘como explicar a suposta necessidade das leis‘…mas… ‘como explicar a estabilidade manifesta das leis, as tendo tomamos como contingentes‘.

Podemos dizer que…tanto Kant quanto Hume acreditam na ‘necessidade causal‘… pois a contingência implicaria numa transformação constante da realidade. A necessidade está assim provada, dada a imensamente improvável estabilidade das leis da natureza – e… do mesmo modo, à consciência de um sujeito capaz de observar cientificamente sua duração.

Se o absoluto é a pura ausência de necessidade…então o ‘princípio da razão suficiente’ é totalmente equivocado. E, não havendo razão alguma para a existência ser do jeito que é… com tudo podendo vir a ser de outro modo — sem qualquer razão aparente — então, nesse caso, a única necessidade é a da ‘contingência‘.     

Distinção (matemática) entre acaso e contingência                                                            A possibilidade de diferentes infinitos (uns maiores que                                                         outros) pode distinguir entre “contingência” de “acaso”.                                  

O acaso (no sentido de sorte, jogo, chance) diz respeito a um ‘raciocínio probabilístico’, passível de matematização através de um princípio de variação baseado nas técnicas de contagem… Para o raciocínio probabilístico ser válido – a priori – deve ser pensável em termos de uma ‘totalidade numérica’.

Portanto, o conceito de acaso (como um cálculo de frequência) se aplica melhor à lógica  da probabilidade. Mas se ao contrário, não há motivos para associar o concebível com o totalizável, então há espaço para um ‘princípio de variação‘, sem recurso a números.

Já o termo contingência diz respeito a algo que simplesmente acontece…sem causa nem previsibilidade possíveis (se opõe ao jogo, no qual tudo…mesmo o improvável, é previsto). O ‘contingente’ continua matemático… – mas, mais próximo do conceito de ‘transfinito‘, sendo, desse modo… incalculável e imprevisível (assim como uma ‘flutuação de vácuo’!…)

‘Matemática é o que atinge a qualidade primária das coisas, em                       oposição às qualidades secundárias – manifestas na percepção’.  

Desde Heisenberg é certo que a presença do observador afeta o observado… Porém — essa proposição é vista pelos próprios cientistas como uma propriedade de lei que não depende dele (observador). – Aqui, o importante não é o caráter realista da ciência, mas o processo que distingue a realidade do nosso próprio ser…o processo de matematização da natureza.

A “matematização” é a forma que permite separar, mundo e homem…(Descartes), assim como descentralizar o pensamento em relação ao mundo…no processo de conhecimento (Kant). O que a ‘revolução copernicana‘ nos permitiu concluir, segundo Meillassoux, foi uma revelação paradoxal da capacidade do pensamento supor o que ‘‘, quer o mesmo exista, ou não.

Nesse sentido, poderia ainda ser acrescentado que, o que quer que seja matematizável é absolutamente possível — isto é, pode continuar existindo independentemente do ser. E, ainda, que este matematizável não pode ser reduzido a um ‘correlato‘ do pensamento, sendo, portanto…’absoluto‘.

Diacronicidade & Transfinito                                                                                                 ‘O abandono da concepção do em si… e do cosmos — acompanhado de uma sensação de desamparo…não teve outra causa senão o reconhecimento que o pensamento se tornou capaz de pensar um mundo… que dispensa o pensamento’.                                                  

Meillasoux retoma o argumento arquétipo (ancestral) e sua discrepância temporal entre pensamento e ser. A questão inicial era: “como a ciência é capaz de criar tal discrepância?” e agora passa a ser… “como pode a ciência ser capaz de se utilizar dessa aleatoriedade?”…

Para entender melhor essa ideia, o texto de Meillassoux…faz menção ao conceito de transfinito – apresentado por Cantor como uma…“destotalização do número”.

Sabe-se que o conjunto das partes de A é sempre maior que A. Do mesmo modo, o conjunto das partes … – do conjunto das partes de A será ainda maior. O conceito de ‘Aleph‘…diz respeito à cardinalidade desses conjuntos … onde sua sucessão é ilimitada. Sua série, ordenada por Alephs se aproxima do conceito de “transfinito“.

Tal série não pode ser totalizada, pois não há quantidade última para ela, sendo ela mesma uma “série infinita“…Daí resulta a conclusão de que o que é quantificável (pensável) não constitui uma totalidade. – Ou seja…a totalidade (quantificável) do pensável é impensável.

Há assim, uma incerteza fundamental na ideia totalizadora do possível – as possibilidades não são totalizáveis – isto é… continuam abertas…já que não chegam a um fim. – É errado, portanto…estender o ‘raciocínio aleatório’ para além da totalidade dada numa experiência.

Considerações finais                                                                                                   

A solução correlacionista para a diacronicidade é apenas, e tão somente, apelar para a reintrodução do passado no pensamento presente. A ciência, por sua vez, trabalha com a ideia de temporalidade (causal)… pela qual o que vem antes, vem antes – e vem antes de nós. Esse formidável paradoxo da manifestação/anterioridade da diacronia, nos permite restabelecer a possibilidade de um real fora da correlação que alia pensamento e mundo.

Meillassoux declara então…que as consequências do “correlacionismo” são nefastas para a filosofia de um modo geral, pois a torna tão limitada que a impede de dar sua contribuição para qualquer “conhecimento objetivo”, tornando impossível atribuir-lhe a tarefa de saber como uma afirmação é possível, em seu significado último.

Dessa forma então, podemos caracterizar a solução de Meillassoux para o problema de Hume, e para o problema da ‘diacronicidade‘ como – a) uma solução especulativa, e anti-metafísica para o problema geral do mistério da ‘necessidade‘; – b) uma solução especulativa para o problema geral da diacronicidade, sem o que a ciência perderia seu intrínseco senso copernicano.

O pensamento de Meillassoux visa resolver um mal-estar da “filosofia contemporânea”, ao se esquivar do absoluto. – Ao propor solução pra tal dilema ele arrisca novo ‘mergulho’ no cerne da metafísica, buscando conceitos como o real, o ser, e uma correlação casual factual, questionando o problemático ponto de vista… acerca de um absoluto, cada vez mais longe do escopo da “filosofia atual”.

Resgatando a questão de Hume (sobre a origem da crença na necessidade)… e somando uma visão matemática sobre o conceito de “transfinito” … o autor enfatiza a diferença semântica entre ‘contingência e acaso‘… a fim de manter a finalidade aleatória da pura possibilidade cerne da ideia de “contingência.

E é esse conceito de contingência (reavaliado por Meillassoux) o responsável por conciliar a materialidade da ‘correlação’, com uma falha na inevitável ‘necessidade’, de modo a não ser mais preciso crer cegamente nesta sina, como o fez toda filosofia, desde Hume e Kant. Tais ideias – bem como suas consequências…podem e devem ser confrontadas com as do ‘correlacionismo‘, de modo que, seja possível esclarecer se há, de fato, uma incapacidade deste último… em lidar com o problema da ‘ancestralidade’… – como o autor faz parecer.

O problema final de Meillassoux, a saber…o problema da ‘diacronia‘, ressalta a fraqueza tanto da metafísica, quanto do ceticismo… e, do próprio ‘transcendentalismo‘…em questionar o ‘necessário’. Mas a ‘contingência absoluta’ é uma ideia que resolve a questão da diacronia, divisando uma solução satisfatória e oposta ao ‘pensamento correlacionista’.

Se o ‘sistema correlacionista‘ sempre resulta para o autor num ‘idealismo tímido‘… o ‘sistema especulativo’, centrado na contingência, é uma tentativa de resposta à altura       do correlacionismo. Com efeito, a solução de Meillassoux permite um retorno ao real,     que na sua acepção – tem características de um absoluto…’transfinito’ e ‘contingente’. ********************************************************************************

Adendos metafísicos 1) Contingência

A ideia de hipercaos pressupõe a de contingência, entendida por Meillassoux como tudo aquilo que acontece sem ser regido por uma causalidade determinística… – por uma regra, lei, ou necessidade. ‘Contingência’ se aproxima da pura possibilidade desprovida de razão; uma qualidade que sequer pode ser apreendida por cálculo probabilístico.

https://es.wikipedia.org/wiki/N%C3%BAmero_ordinal_(teor%C3%ADa_de_conjuntos)

2) Transfinito

O conceito de ‘transfinito’…tomado da teoria dos conjuntos de George Cantor… – é utilizado como metáfora para expressar o contingente hipercaos que aparece no conceito de factualidade.

Na teoria de Cantor, transfinito diz respeito a uma prova matemática de uma ideia contra-intuitiva de cardinalidade de conjuntos infinitos. Na teoria dos conjuntos, o infinito aparece no conjunto dos nºs naturais – dos nºs inteiros – dos nºs racionais, etc.   mas, nem sempre infinitos têm o mesmo tamanho.

Cantor provou que os números racionais não podem ser pareados com     os números naturais – sendo assim… um infinito é maior do que o outro.

Na teoria de Meillassoux, a ideia de transfinito é aludida como conotando uma capacidade de coexistência, não intuitiva, entre a estabilidade do cosmo e a sua contingência essencial. Estabelecer a relação entre contingência e estabilidade é importante… pois o próprio autor sugere que haja uma tendência natural a rejeitar a ideia de factualidade…

Como postular a existência de um ‘Universo caótico‘, em que suas aparências são fortemente regidas por leis, padrões, regularidades?           E… – se for caótico…por que os eventos não variam o tempo inteiro?

A resposta de Meillassoux é, ao mesmo tempo, ousada e sugestiva: o universo parece todo regido por leis, porque a regularidade está sendo colocada em primeiro plano…Mas, estes eventos podem deixar de ser regulares sem razão alguma. Como Hume, Meillassoux diria que não há garantia de que amanhã as leis de hoje continuem válidas.

Hume já havia provado que não há possibilidade de se demonstrar anecessidade’, mas Meillassoux vai além ao sugerir que não haja qualquer necessidade — excluindo-se a da contingência. E além disso, sendo a escala de tempo da existência essencialmente finita;     a experiência regular local é insignificante – ao transfinito…na contingência primordial.

3) Absoluto

A ideia de absoluto – para Meillassoux, tem íntima relação com o objetivo de acessar um mundo não-correlacional. Além disso, o tema do absoluto (central na sua filosofia) serve de base para denunciar a timidez da ‘filosofia correlacionista’…Para o autor, este sistema  nem sempre nega a existência do absoluto (vide Kant) mas tira-lhe a devida importância, demovendo da filosofia o ‘risco’ de alcançá-lo.

O correlacionismo estabelece um limite para suas indagações, e descredita a tentativa de indagar sobre o que vai além… – taxando-a de ingênua. Essa abordagem é fácil, mas não contribui para capacitar a filosofia a elaborar teorias a respeito de temas – que a própria ciência cada vez mais tangencia… – haja vista recentes estudos em ‘sistemas complexos’, ‘física subatômica’…’redes neurais’…etc.

Por um viés anticorrelacionista, Meillassoux propõe uma volta ao absoluto, como algo que está além da correlação, e especula sobre um universo fundamentalmente contingencial, e imensuravelmente maior do que nossa mente…Tal noção de absoluto parece deixar claro que o ‘deslocamento antifenomenológico’ do autor…pretende colocar o cerne da filosofia não mais na correlação ‘mente-mundo’ – mas, incluir a ‘especulação’… método capaz de versar sobre um mundo, independente de qualquer mente, mas talvez acessível… – pelo ‘materialismo especulativo’. consulta: ‘Reflexões sobre as ideias de Quentin Meillassoux’

‘Contingência e transfinito: em Quentin Meillassoux’ – Tarcísio de Sá Cardoso  ^^^^^^^^^^^^^^^^^^^(adendo geométrico)^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^

Idealismo x Naturalismo; Construtivistas x Formalistas

Para os Idealistasa razão orienta sua prática … a moldando,                                               de acordo com suas necessidades… – independente das tradições;

Naturalistas – a razão recebe seu conteúdo e autoridade da prática, que                    descreve o modo como esta funciona…e formula seus princípios subjacentes.

A posição filosófica de David Hilberta respeito dos fundamentos da matemática… é chamada de “formalismo“… – Este pretendia reduzir o infinito a um sistema formal,       livre de contradições, cuja validade pudesse ser provada por meios reais. A verdadeira discordância entre ‘formalistas’ e ‘construtivistas’…não é uma disputa da legitimidade acerca de certos métodos de prova matemática; mas sim que os construtivistas negam, enquanto formalistas afirmam… a possibilidade de se concluir um processo infindável. (Carnielli & Epstein – ‘Fundamentos da Matemática’)

Por se tratar de um tema independente da ‘lógica’… aí – a matemática nunca poderá, exclusivamente se fundamentar. Seu objeto com efeito, deverá consistir nos próprios símbolos concretos de sua imediatamente reconhecível estrutura.

A geometria euclidiana… – parte da noção de um espaço plano;                                           sendo utilizada pelas teorias newtoniana e pela relatividade restrita.

A geometria elíptica (esférica) pressupõe uma superfície fechada;                                 sendo utilizada, por exemplo, para navegação na superfície terrestre.

A geometria hiperbólica, por sua vez, pressupõe uma superfície aberta;                           utilizada por Einstein em sua teoria da relatividade geral — apesar deste           considerar o universo finito e ilimitado; assim como uma hiperesfera 4D. 

Uma geometria transfinita deve ser capaz de conciliar as anteriores; através da influência no espaçotempo de um potencial de vácuo…incluindo aí…a aceleração da expansão, bem como fenômenos quânticos de salto, tunelamento, e entrelaçamento.

Geometria não-comutativa

Assim como a mecânica clássica, a mecânica quântica também pode ser formulada em termos de um espaço de fases. A grande diferença agora é que no caso da mecânica quântica, as coordenadas dos pontos no espaço de fases são tais que (x·y) não é igual a (y·x); ou seja, não-comutam.

A geometria não-comutativa aparece, entre vários outros casos…como uma geometria apropriada para espaços dentro do domínio quântico, por assim dizer. Nesse caso a ideia é utilizá-la não apenas para melhor entendermos essa teoria, como também para buscarmos eventuais generalizações. ‘Geometria não-comutativa’  ***********************************************************************************

Heurística  é um método criado com o objetivo de encontrar soluções para um problema.   É um procedimento simplificador (… embora não simplista) que  —  em face de questões difíceis, envolve a substituição destas por outras de resolução mais fácil – a fim de achar respostas viáveis, ainda que imperfeitas.

A capacidade heurística é uma característica humana que pode ser descrita como a arte de descobrir, inventar ou resolver problemas, mediante a experiência (própria ou observada), somada à criatividade e ao pensamento lateral, ou pensamento divergente. Como descrito acima…seja de forma deliberada ou não, heurísticas são procedimentos utilizados quando um problema a ser encarado é por demais complexo… – ou traz informações incompletas.

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Schopenhauer, e a Metafísica da Iminência Cósmica

“O sujeito é mais universal que a própria universalidade… ele pode ser parte minúscula da realidade – mas é…simultaneamente, tanto o ponto de vista singular que a abrange, quanto algo que surge em seu próprio horizonte”… (…’divagações’ Schopenhauerianas)

Abordaremos neste artigo certos aspectos do pensamento de Schopenhauer referentes ao conceito de ‘Vontade‘…Para tanto apresentamos a crítica de Schopenhauer aos filósofos do ‘idealismo’… – com base na impossibilidade da razão alcançar a essência da realidade. Será mediante o ‘corpo‘, que Schopenhauer estabelecerá a metafísica em novos moldes; uma ‘metafísica imanente‘… que permita, não pela razão – MAS sim, pela intuição, alcançar a Vontade como o próprio ‘em-si do mundo‘.

O mundo é minha representação

Schopenhauer concluiu seu livro ‘O mundo como Vontade e Representação’  —  aos 30 anos de idade… Toda produção intelectual posterior… apenas retoma – e, desenvolve temas desta sua obra – publicada em 1818.

Nela, Schopenhauer se afasta da tradição, ao atribuir o predomínio do querer — em relação ao intelecto. Para ele a’razão’ não     é o ‘princípio do mundo‘…ao contrário, o ‘princípio último da realidade’ é bastante irracionalalheio a toda e qualquer racionalidade que tente captar seu íntimo.

A multiplicidade dos fenômenos empíricos não passa de uma manifestação da Vontade no espaço, no tempo e na causalidade. Entretanto, esse distanciamento da tradição…dado no conceito de Vontade pelo querer cego e inconsciente (do ‘em-si do mundo’) é resultado da opção crítica, frente não só a Kant, mas também ao idealismo da ‘filosofia transcendental’.

A postura crítica empreendida pelo filósofo busca fazê-lo distanciar-se…tanto do antigo dogmatismo – que percorre caminhos para além dos sentidos – quanto do dogmatismo moderno, identificado nos filósofos do idealismo…Fichte, Schelling e Hegel… Para eles   não importa em nada o fato de Kant ter provado…com o emprego da maior acuidade       e penetração…que a razão teórica não pode jamais alcançar objetos que estejam fora   da possibilidade de toda experiência…“esses senhores nem ligam para isso”…dizia ele.

Schopenhauer pensa que uma das mais fundamentais diferenças entre o seu pensamento, e o dos filósofos do idealismo, é justamente o fato de não fundamentar a dedução do não-eu, a partir do eu, mediante o princípio da razão…O mundo é minha representação. Esta frase de abertura de sua “obra principal” apresentapara o filósofo uma verdade válida a todo ser – embora apenas no homem atinja a ‘consciência refletida e abstrata’.

Schopenhauer afirma que nenhuma Verdade é tão certa, tão independente, e menos necessitada de provas do que esta, pois ‘tudo o que existe para o conhecimento é tão-somente intuição de quem intui… um objeto de representação em relação ao sujeito’.

paulo-freire

SUJEITO & OBJETO     ‘O mundo só existe como vontade e representação’   

Com efeito… essa afirmação capital de sua obra pode ser compreendida, a partir de 2 considerações…

1ª) o mundo como ‘representação’ é composto de 2 metades, necessárias e inseparáveis…  sujeito e objeto…O sujeitode acordo com o filósofo… – é o “sustentáculo do mundo”, aquele que tudo conhece – enquanto que, por sua vez, todo objeto existe para um sujeito.

Esse objeto, por seu lado, configura-se a partir das formas do espaço, tempo, e da causalidade. Sujeito e objeto coexistem como 2 metades essenciais e inseparáveis,           que formam a ‘representação‘ – de modo que, cada uma delas possui existência e significação … exclusivamente com … e para a outra … – desaparecendo sem ela.

2ª) tal como o sujeito e o objeto — o ‘princípio da razão‘… constituído por tempo, espaço e causalidade, também é uma forma de representação. Tal princípio marca           o limite imediato entre sujeito e objeto; pois tempo, espaço e causalidade constituem         as formas essenciais e universais do objeto – encontradas no sujeito, a priori, em sua consciência.

Sendo o principio da razão’ posterior ao par sujeito/objeto — que é a forma mais geral da representação… – o objeto pressupõe o sujeito… mas este permanece fora da jurisdição do princípio de razão. Contudo, sujeito e objeto são termos correlatos — 2 metades essenciais e inseparáveis que constituem a forma da representação… Por isso – Schopenhauer critica como dogmáticas as filosofias que partem ou do sujeito…ou do objeto – estabelecendo um como causa do outro.

No dogmatismo moderno da filosofia – que parte do sujeito para fundamentar o objeto; do eu para fundamentar o não-eu…Schopenhauer afirma que o caso exemplar é o da “filosofia de Fichte. Segundo ele, este teria interpretado, equivocadamente, a ‘Crítica da Razão Pura’ de Kant, pois teria partido do sujeito…”apenas com o propósito de mostrar como falso…o até então ‘partir do objeto’ – que então, se tornara a coisa-em-si”.

Assim, segundo o autor, o espírito capital da doutrina de Kant é que o princípio da razão, diferentemente das afirmações da ‘filosofia escolástica’ — nunca foi… nem será… uma ‘veritas aeterna‘ — pois tal princípio possui validade – restrita e condicionada – aos fenômenos… sendo a ele vedado o acesso à ‘coisa-em-si’… a ‘essência íntima do mundo’.

Também é objeto de crítica – por parte do filósofo da Vontade – a filosofia da identidade entre ‘sujeito e objeto’ — que… embora não cometa o engano de partir de nenhuma das 2 metades essenciais e inseparáveis da representação, comete o erro de partir do Absoluto. Schopenhauer afirma que essa identidade é impossível de ser atingida… pois, para tanto, seria necessário que a razão fosse intuitiva… ‘algo deveras absurdo’.

A METAFÍSICA DE KANT

Schopenhauer acompanhou o debate sobre a realidade do ‘mundo exterior’ empreendido por…Fichte e Schelling, e os critica duramente… — por terem  ‘corrompido‘ a filosofia kantiana, ao tentarem captar o absoluto, por meio de uma ‘intuição intelectual’… – para além daquela sua intuição do mundo.

O retorno a Kant, e à leitura crítica de sua obra — por Schopenhauer — seria uma saída para os impasses da filosofia de seu tempo… objetivando inscrever sua própria filosofia dentro de um projeto crítico. Assim, mesmo que atribuindo um colorido particular ao ‘transcendental kantiano‘…o ‘princípio da razão’ é concebido de forma cognitiva – a priori – no sujeito.

“a essência íntima do mundo, a coisa-em-si, jamais pode ser encontrada pelo fio condutor do ‘princípio de razão’; pois, este sempre conduz ao que é dependente e relativo – sendo apenas ‘fenômeno’… e, nunca coisa-em-si”.

A proibição de estender a aplicação de tal princípio à ‘coisa-em-si‘…restringindo seu uso para as formas de conhecer relativas ao ‘mundo fenomenológico acaba por não oferecer outra alternativa para ultrapassar os fenômenos…Assim, mantendo como único o ponto   de vista da razão – tanto no domínio teórico … quanto no prático, Kant não pode chegar àquilo que – para Schopenhauer…seria a consequência lógica de suas ideias… o ‘em-si’ como Vontade.

Em face deste negativismo crítico inicial, Schopenhauer busca… rastreando os erros e defeitos de Kant, reconstruir a metafísica em novos moldes – de tal forma que…possa demonstrar um ‘princípio último do mundo‘…sem no entanto, cair nodogmatismo idealista‘ – que tenta captar o ‘Absoluto’ pela intuição intelectual; nodogmatismo realista‘ – que deduz o sujeito… do objeto; ou nodogmatismo escolástico‘ – das provas absolutas da existência de Deus; todos desmontados pelacrítica kantiana‘.

Embora Kant – com méritos, tenha estabelecido os ‘limites da razão‘…refutando assim os preconceitos dogmáticos, ele teria, afinal, abandonado a tarefa – que, para Schopenhauer é própria do filósofo, qual seja…a decifração do enigma do mundo através da metafísica.

Kant é assim censurado, por ter se equivocado na definição de ‘metafísica’. Sua definição teria adotado o ponto de vista dogmático de seus predecessores da filosofia clássica, pois, em conformidade com eles, partiu dos seguintes pressupostos:

a) Metafísica é ciência daquilo que está para além da possibilidade de toda experiência; b) Uma tal coisa jamais pode ser encontrada segundo “princípios fundamentais” – eles mesmos, antes hauridos da experiência (Prolegômenos, § 1) só aquilo que sabemos com antecedência – INDEPENDENTE de toda experiência…pode ultrapassar a experiência; c) Em nossa razão podem ser encontrados, com efeito, alguns princípios fundamentais desse tipo, concebidos sob o nome de ‘conhecimento’, a partir da ‘razão pura’ (intuitiva).

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De certa forma Kant está em conformidade com seus predecessores escolásticos – pois, enquanto estes asseguram seus princípios, como ‘expressão da possibilidade absoluta das coisas — aeterna veritas‘ — Kant as considera meras estruturas do intelecto, aplicáveis somente ao domínio empírico – jamais extensíveis p/ além da experiência. Assim, a metafísica cede lugar à crítica da razão pura… Porém, Schopenhauer pensa ser possível…sim, uma metafísica, mesmo que pra isso precise lançar mão de alguns elementos dogmáticos da arte do filosofar.

Na verdade… – o ‘grande erro de Kant‘… teria sido a           descaracterização da experiência como fonte metafísica.

Schopenhauer, desse modo, refuta a afirmação inicial de Kant dos ‘Prolegômenos’…  “a fonte da metafísica não pode jamais ser empírica… – seus princípios e conceitos fundamentais nunca podem ser obtidos da experiência; nem interna, nem externa”.

Para Kant – o mundo, e nossa própria existência, apresentar-se-iam como enigma, e sua solução não poderia provir de sua compreensão profunda – mas sim, de algo totalmente diferente – para além da possibilidade de toda experiência – e… que daquela solução, teria de ser excluído tudo aquilo que pudéssemos conhecer de modo IMEDIATO.

No entanto, Schopenheuer afirma que teria de ser necessário demonstrar que a matéria para a solução do enigma do mundo não pode estar nele mesmo, mas em algo fora dele, somente alcançável pelas formas puras – ‘a priori’… – como assim, ele próprio explica:

“Porém, enquanto isto não é provado, não temos razão alguma para estancar… a nós mesmos, a mais rica de todas fontes de conhecimento… a experiência. Assim, digo que       a solução do ‘enigma do mundo’ tem de provir de sua própria compreensão. Portanto,  não cabe à metafísica sobrevoar a experiência – na qual o mundo existe…mas, tentar entendê-la, a partir de seu fundamento, na medida da experiência externa e interna”.

Consequentemente, a solução do ‘enigma do mundo‘ só é possível através da conexão adequada, executada na medida certa, entre experiência externa e interna – 2 fontes tão heterogêneas de conhecimento… Fiel a esta opção crítica de retorno a Kant, e à releitura     de sua obra; e, contrapondo-se à filosofia de seu tempo – o idealismo Schopenhauer inicia a decifração deste enigma…com uma metafísica inspirada em novos moldes… que escapam – a seu ver – dos elementos dogmáticos oriundos do pré-kantismo, bem como, do ‘espectro de desespero‘ da crítica kantiana.

Tais análises mostram que, se houve infidelidade na leitura da filosofia crítica — ela não significa uma retomada ao ‘dogmatismo pré-crítico’…mas uma verdadeira ruptura, que abriu novo campo de investigação sobre a questão de Kant da finitude do saber humano.

A METAFÍSICA IMANENTE                                                                                                  “Se a Metafísica é possível, isto se deve a uma ‘visão’, e não à dialética…Esta, apenas nos conduz a filosofias opostas. Apenas uma ‘intuição transcendente’, isto é…uma percepção da realidade metafísica admitiria sua ‘síntese constitutiva’. Fundando-se na inversão do percurso natural do pensamento…o ‘método intuitivo’ – indo da realidade aos conceitos, se coloca – imediatamente – na coisa em si.” (H. Bergson – ‘O Pensamento e o Movente’)

Como é possível – a partir dos dados imediatos da experiência, alcançar a compreensão do ‘em-si do mundo’… sendo este — mera representação?…  De acordo com o pensamento de Schopenhauer, considerar o mundo somente como representação… embora seja um ponto de vista correto, é unilateral – resultado de uma abstração arbitrária. E, o que traz ‘a lume’ esta unilateralidade é uma resistência interior em aceitar a redução de tudo o que existe, apenas a uma mera representação.

Somente pela experiência externa, caracterizada pelas figuras particulares do ‘princípio da razão’, jamais seria possível sair do campo das representações — impossibilitando o sujeito do conhecimento de ultrapassar os limites das formas do intelectoPortanto, o ponto de partida do conhecimento metafísico se encontra nessa ‘encruzilhada‘, entre as experiências — externa e interna — que, segundo Schopenhauer…  é o próprio ‘corpo.

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Ao encontrar no corpo o lugar propício para a elaboração de um conhecimento metafísico… — Schopenhauer introduz modulações, até então impensáveis no pós-kantismo…  —  mediante um forte ‘acento fisiológico’ de seu pensamento.

Muito embora ao buscar o sentido último da ‘representação‘, ele se mantenha…numa mesma linha de pensamento que os idealistas, esse acento fisiológico acaba por remeter – através do corpo – a algo, cujo domínio não é o saber… (o saber se define como representação de algo mais fundamental…se refere às representações abstratas – isto é… aos conceitos produzidos pela razão.)

No entanto, toda e qualquer representação abstrata tem que ter um ponto de apoio que não pode ser ela mesma. – Em outros termos, os conceitos podem se ligar mutuamente, um tendo o outro como ‘fundamento’… contudo, no fim da cadeia deverá existir  não mais uma representação abstrata…mas sim uma ‘representação intuitiva‘. E esta, impreterivelmente, passa pelo corpo.

Não é o saber, portanto, que vai proporcionar o sentido último da representação — pois,   os conceitos precisam de uma ‘fundamentação última’ que não seja abstrata — mas sim, empírica — reflexão não passa de uma aparência refletida em algo mais originário; ou seja, é… umconhecimento intuitivo‘.

Todo conhecimento… inclusive as ciências regidas pela ‘consciência empírica’ – refere-se apenas à representação. Como prova disto… Schopenhauer apresenta a morfologia, e a etiologia – 2 ramos básicos das ciências naturais. A morfologia trata da descrição das formas e estruturas dos organismos vivos, se dividindo sobretudo em botânica e zoologia. A etiologia, por sua vez, trata da origem e causa das transformações materiais, segundo ‘leis de transição‘…  —  com exemplos na mecânica… física… química… fisiologia, etc.

Outro ramo das ciências que Schopenhauer apresenta para atestar como o saber não atinge o sentido último da representação é a matemática…que apenas “fornece de maneira mais precisa…o quão-muito e o quão-grande”; limitando-se, portanto, ao ‘terreno das representações‘.

Assim, de acordo com o filósofo, as ciências, embora importantes, não podem alcançar o sentido último da realidade… elas carregam consigo um limite — impossível de transpor. Este limite é o próprio conhecimento…de onde o princípio da razão restringe esta ciência ao ‘campo das representações‘… O filósofo sabe, contudo, que para buscar o sentido último da realidade – ele precisará optar por outro caminho…que não o da mera representação. É portanto, nesse exato momento que Schopenhauer…mesmo após Kant, discursa sobre a intuição filosófica de um ‘em-si do mundo‘.

E o autor encontrará no ‘sentimento‘… o oposto – propriamente dito…do saber, ou seja, aquilo que “designa algo presente na consciência, que não é conceito – ou conhecimento abstrato da razão”.

Com efeito – o ‘sentimento’ possui uma característica negativa essencial…em relação ao saber, qual seja, não é um conhecimento abstrato. – Entretanto, na tentativa de evitar a entrada no transcendente – é realçado o papel do corpocomo uma manifestação direta       e imediata do ‘em-si‘ – e, assim… o corpo deixa de ser considerado, meramente, sob o ponto de vista da representação.

Esta nova ótica mostra agora, que o corpo revela todo um amplo espectro de atos volitivos e sentimentos… presentes em todos nós – que não são representações – nem conceitos ou saber; de tal forma que, aquilo que inicialmente, em relação ao conceito é negativo, ganha positividade… quando enfocado pelo sentimento mais interior do corpo  —  que é… para o sujeito do conhecimento…uma representação entre representações – objeto entre objetos.

Contudo, se o corpo se limita a ser, para o sujeito que conhece, apenas mera representação – submetida ao ‘princípio da razão’… – todas as ações e movimentos do corpo seriam tão estranhas e incompreensíveis quanto as dos demais objetos intuitivosIsto é, todas ações e movimentos do corpo estariam – conforme uma lei natural…tal qual os demais objetos, sem obter nenhuma intelecção mais profunda a respeito.

VONTADE & REPRESENTAÇÃO                                                                                        “Antes, a palavra do enigma é dada ao sujeito do conhecimento – como indivíduo. Tal palavra se chama VONTADE… Esta, e tão-somente esta, fornece-lhe a chave para seu próprio fenômeno – manifesta-lhe a significação – mostra-lhe a engrenagem interior     de seu ser… de seu agir… de seus movimentos

O corpo é conhecido pelo sujeito do conhecimento de 2 maneiras…totalmente distintas – uma, na qual ele é apenas uma ‘representação’ na intuição do entendimento – e outra, na qual é conhecido de imediato, independente do princípio da razão, isto é, como vontade.

 “A vontade é o conhecimento a priori do corpo, e o corpo é                                    o conhecimento a posteriori da vontade” (Schopenhauer)

Esta afirmação vai tão longe, que diferentemente da denominação de ‘objeto imediato‘ dada ao corpo em sua obra O mundo como vontade e representação” agora, sob esta nova perspectiva, este é denominado (em seu 2º volume) … objetividade da vontade.

Todo ato da vontade… e, toda ação do corpo, não são estados distintos apreendidos pela causalidade – ao contrário – ambos são uma única, e mesma coisa…mas sob 2 formas distintas: uma imediata – e outra, dada na intuição do entendimento.

O  corpo – portanto – é vontade objetivada  –  que se tornou uma representação; ou melhor…uma ‘concreção da vontade.

Esta identidade da vontade com o corpo, por se tratar de um conhecimento imediato que escapa ao âmbito do saber – da razão… só pode ser evidenciada, não demonstrada. – Em outros termosagora a verdade não é mais referência de uma representação abstrata relativa a outra… ou, uma forma necessária do representar intuitivo e abstrato — mas,   a referência de um juízo…à relação que uma representação intuitiva (o corpo) possui…com algo que não é representação…mas… – totalmente diferente dela… – a vontade“.

É exatamente…a referência a este conhecimento duplo do próprio corpo, que possibilitará a Schopenhauer conhecer – a partir da subjetividade, o núcleo volitivo dos demais corpos. Assim, esta ‘dupla referência’ será a chave, que permitirá o conhecimento da essência de todo fenômeno na natureza – pois assim…todos objetos que não são nosso corpo — não são dados de modo duplo – sendo apenas como representações na consciência…e, assim serão julgados – em analogia com aquele corpo.

Este modo de filosofar — que torna o sujeito que conhece…’indivíduo’, possibilitando o conhecimento da essência de todos os demais corpos, objetos, representações – que não o próprio corpo…pode ser descrito     como uma ‘conclusão analógica‘ … — por meio de 2 fundamentos.

Primeiramente devemos ter claro que o corpo – enquanto representação…portanto, como algo dado ao saber…’não-sentimento’…não escapa dalei da causalidade do princípio da razão’. A causalidade mesma, é igual para todo objeto – incluindo o corpo humano. O que diferencia a causalidade no homem… é que nele – há atuação do conhecimentoou seja, no homem “o conhecimento determina…como motivação, os seus próprios movimentos”.

Este intermediar do conhecimento é o que Schopenhauer chama ‘lei da motivação‘. Entretanto, mesmo que cada ação exija motivo – este é tambémcausalidade‘ – o que     faz as ações humanas mais sensatas… E, com identidade na causalidade para todos os níveis – desde o reino mineral, até o animal…passando pelo vegetal; todo objeto dado   pelo ‘princípio da razão‘… fatalmente… – está submetido à ‘lei da causalidade‘.

A seguir, Schopenhauer inclui uma2ª identidade‘…Se os demais objetos são, por outro lado… tal como o sujeito que conhecemera representação – resta-nos identificar sua essência mais pura, a que chamamos ‘vontade‘. Pois…“Que outro tipo de realidade, ou existência, deveríamos atribuir ao mundo dos corpos? Donde retirar os elementos para compô-los?…” pergunta o filósofo – para em seguida reafirmar que…“além da vontade       e da representação, absolutamente nada é conhecido, nem pensável.

schopenhauer

O PRINCÍPIO DA RAZÃO

A teoria do conhecimento de Schopenhauer é tributária da teoria kantiana…estabelecida na “Crítica da Razão Pura” … (e isto Schopenhauer sempre deixou claro)… – Entretanto, cabe salientar também… que Schopenhauer produz… uma significativa mudança na teoria de Kant… ao a absorver na criação de sua própria filosofia.

Tal fato se deve à definição de ‘tempo e espaço‘ como intuições… – isto é… formas puras, a priori – da sensibilidade (de acordo com a filosofia kantiana) … e deslocadas, segundo Schopenhauer, para o entendimento… Em Schopenhauer a ‘intuição‘ não é somente sensual… mas também intelectual…pois o saber é extraído da causa, a partir        do efeito – o que exige uma ‘lei de causalidade‘ dependente do espaço e do tempo.

O ‘entendimento‘, que na obra de Kant, possui 12 categorias, para Schopenhauer se reduz a uma única – ‘causalidade‘…Desta forma, sensibilidade e entendimento, que         na ‘Crítica’ são 2 faculdades separadas, apesar de funcionam juntas na construção do conhecimento… – em Schopenhauer estão unificas… – sob o “princípio da razão“.

Estes novos moldes da metafísica, empreendida por Schopenhauer, buscam solucionar o ‘enigma do mundo’, isto é, a essência em si de toda a realidade; algo que as mais diversas ciências – sejam as que fazem parte da morfologia, ou da etiologia, não foram capazes de descobrir…p0r estarem — segundo o autor — comprometidas com o ‘principio da razão‘.

Assim, mediante o conceito de ‘objetividade da vontade’, Schopenhauer nos leva à compreensão do ‘em-si do mundo’… isto é  –  ao mistério de toda a realidade. Em função do corpo humano; ele nos conduz – em analogia com este microcosmos — à compreensão do macrocosmos… oumacroantropos’.

Contudo, Schopenhauer observa que objetos não são, apenas, uma mera representação. Pois, se todos objetos forem apenas aquilo que surge nas formas do ‘princípio da razão’, eles não passariam de ‘fantasmas vazios’ … não teriam significado algum, além daquele       que as formas do referido princípio lhes confere… As ciências… para o autor, buscaram uma significação para os objetos – todavia, o próprio escopo científico os inscreve num terreno que torna impossível encontrar tal significação.

Assim, se fosse possível reduzir o que aparece, ao como aparece… então não se perguntaria mais pela coisa-em-si, e seríamos obrigados, segundo o filósofo, a render tributo a Fichte e seus “argumentos ocos” – pois o mundo inteiro seria totalmente dedutível do sujeito. Mas, a filosofia de Schopenhauer não busca o ‘conhecimento relativo’ – e sim…o ‘conhecimento incondicionado’ da essência do mundo.

Por sua filosofia ser uma ‘metafísica imanente‘, cuja referência é sempre a realidade – o corpo (único objeto do qual se conhece os 2 lados…a ‘representação’ e a ‘vontade’) é a ‘chave’ para a decifração do ‘enigma do mundo’ … que – a princípio possibilita pensar os objetos – não como meras representações, mas possuidores de uma ‘realidade em-si’.

árvore

Através de seu princípio analógico, Schopenhauer concluirá que, todas as forças vindas da própria subjetividade (que – ao acaso – se exteriorizam na multiplicidade individual da natureza)  são semelhantes, ao que chamamos – Vontade‘… O corpo seria assim…a chave para conhecer… a ‘essência’ da natureza.

Vontade não seria apenas um nome entre outros possíveis para nomear a coisa-em-si… Ao contrário, o próprio termoVontade‘ — se origina de algo conhecido por inteiro… e de maneira imediata … — o único não resultante daqueles fenômenos representativos, mas de uma ‘consciência imediata’… creditada ao próprio indivíduo…que percebe que… – aquele que conhece coincide com o que é conhecido.

A Vontade, como aquilo que Kant denominou coisa-em-si…é portanto, completamente independente de seus fenômenos — livre das formas da representação… Estas formas,   que nada são … além de sua objetividade  –  ou seja…  ‘fenômenos da coisa-em-si.

Schopenhauer afirma que não cabe à Vontade… o ‘tempo e o espaço’ – únicos meios pelos quais o que é uno aparece múltiplo. — Caracterizando-os por ‘principium individuationis’,  tempo e espaço são formas incapazes de captar a “coisa-em-si” … — e, por isso… esta se encontra fora do domínio de tal princípio. – E, assim…ela (‘Vontade’) é sem fundamento.

O que significa dizer que a Vontade não tem razão, ou seja…a ela não cabe nenhuma causa. A ‘Vontade’, desprovida de qualquer fundamento… é pois,   um ‘abismo sem fim‘. 

Toda pluralidade, mudança e duração não compete ao que entra na representação…mas, apenas à forma enquanto tal… Isto é… tudo que não sofre nenhum condicionamento por tais formas do ‘princípio da razão’, não podendo portanto ser resgatável nem explanável por ele… é a Vontade… – que é una…atemporal e livre – núcleo mais íntimo de tudo que existe…Do particular ao todo, toda e qualquer diferença se deve, apenas, aos fenômenos     da Vontade – e não a ela…como essência deles.

Ao dizer que toda diferença fenomênica não compete à Vontade – já que esta não pode ser dividida e espalhada pelo espaço infinito… pois tal extensão convém apenas ao fenômeno; Schopenhauer afirma que tais diferenças ocorrem em função de… – ‘graus de objetivação’.

“Os fenômenos – enquanto visibilidade da Vontade, ao se fragmentarem   no mundo como representação, o fazem mediante graus de objetivação”.

Frente a esta característica da Vontade…e toda a miríade de fenômenos engendrados por ela, Schopenhauer explica que… “O aparecimento da Vontade (sua objetivação) … possui tantas infinitas gradações…como a existente entre a mais débil luz crepuscular,     e a mais brilhante claridade solar; entre o tom mais elevado, e o mais baixo eco…Bem como existe um grau consciente maior na planta que na pedra … e, um grau maior no animal que na planta… Mas não há uma parte pequena de vontade na pedra, e maior   no homem…pois a relação entre parte e todo pertence – exclusivamente, ao espaço…e perde todo seu sentido… quando nos despimos dessa forma de intuição. Mais e menos, concernem tão-somente ao fenômeno – ou seja… à sua visibilidade e objetivação”.

DE VOLTA A PLATÃO    

Se o autor de ‘O mundo como vontade e representação’  já havia se inspirado em Kant  –  quando da caracterização de seus 2 operadores fundamentais – o ‘fenômeno’ e a ‘coisa-em-si’ … agora é ao ‘divino Platão’ que Schopenhauer se mostrará tributário…ao utilizar seu conceito de Ideia…

Após estabelecer o conceito de uma ‘essência do mundo’, caracterizada como Vontade una e indivisa que se manifesta em toda realidade fenomenal – sem contudo, ter um fundamento próprio para ela, Schopenhauer investiga essa atividade, antes de atingir sua mais complexa forma de manifestação… – o homem e sua consciência.

É neste momento de sua reflexão que outro filósofo será invocado para         a fundamentação necessária a este ‘processo de objetivação’ (Platão).

Com efeito, os diferentes graus de objetivação da Vontade expressos em inumeráveis indivíduos, e que existem como seus protótipos inalcançáveis – ou, formas eternas das coisas que nunca aparecem… no tempo e no espaço do indivíduo – mas, existem… não submetidos à mudança alguma… são – segundo concepção do filósofo – os ‘graus de objetivação da vontade‘… ou… melhor dizendo — as ‘IDEIAS DE PLATÃO’.

Schopenhauer compara a existência às Ideias eternas‘… em tudo o que, em diversos graus…a partir da objetivação da Vontade…ela comporta – de tal modo que – cada grau corresponderia a determinada “espécie natural”.

Nesta passagem da unidade da coisa-em-si à pluralidade fenomênica – o autor divisa as Ideias de tal forma, que a coisa-em-si, antes de se multiplicar nos incontáveis indivíduos da representação mediante o ‘princípio da razão…irá inicialmente, se objetivar por meio das Ideias que se reportam a um ‘universo atemporal’… – Mas… é preciso ficar claro que, para ele, tais Ideias não são efeito da Vontade… pois Esta – una e indivisa – mediante as Ideias, na verdade, torna-se ‘imagem arquetípica’ – nelas se objetivando, fora do espaço   e do tempo… As Ideias – por sua vez…sendo ‘graus de objetivação’ do em-si…pluralizam-se nos mais variados fenômenos e graus de objetivação. 

Schopenhauer estabelece uma hierarquia – forças da natureza seriam graus inferiores da objetivação — ao passo que o homem seria o grau superior… — Esta diferença, com efeito, se refletiria no fato de que o homem – por possuir consciência, entendimento…e razão — é fruto de um grau de objetivação mais elevado.

O MUNDO COMO VONTADE…                                                                                             A consciência imediata de nossa própria essência, deve ser                                                     a chave para a compreensão da essência de todas as coisas’.

Ora, como a Vontade é o em-si do mundo, ela atua em tudo o que existe, pois… como diz o filósofo…“além de representação e Vontade, nada existe”… Assim portanto, o recurso à ‘conclusão analógica‘… deve – necessariamente – ser usado…em todos os fenômenos.

Os graus mais baixos de objetivação da Vontade são aquelas forças mais universais da natureza, que…normalmente…aparecem em toda matéria: gravidade…eletricidade…magnetismo…rigidez…fluidez…polaridade; as propriedades químicas, etc. 

Frente a isto… Schopenhauer nos apresenta uma gama variada de exemplos – a poderosa força com que a massa de água se precipita nas profundidades…o imã que sempre aponta para o ‘pólo norte’…a constante ‘atração ferromagnética’…a regularidade de configuração que se manifesta no cristal, etc… Não obstante, não só de casos exteriores ao homem que   o autor se reporta. Por exemplo, ele diz que essa Vontade também atua – cegamente, em todos processos vitais e vegetativos do corpo humano…tais como… circulação sanguínea, digestão, secreção, crescimento, reprodução, etc.

“Precisamente, aquela essência que em nós segue seus fins, à luz do conhecimento; aqui, nos mais tênues de seus fenômenos esforça-se               de maneira cega…silenciosa…unilateral e invariável”…

ninho

Por essa gradação ideacional – o filósofo nos conduz aos instintos e impulsos industriosos dos animais, mostrando que mesmo na ação destes – não levadas por motivos, a Vontade é ativa…

“O pássaro de 1 ano não tem representação alguma dos ovos… para o qual constrói seu  ninho – nem a jovem aranha tem da presa, para a qual tece sua teia”.

O não reconhecimento da Vontade, nestes casos menos evidentes, pode ser creditado ao fato de que no homem – mais alto grau de objetivação da Vontade — a ação é conduzida pelos motivos, e pelo caráter — o que não ocorre nos casos acima citados… Contudo, diz Schopenhauer, se obtivermos a compreensão de que a representação, enquanto motivo, não é uma condição fundamental, nem necessária, para a atuação da Vontade, veremos que sua atividade ocorre em qualquer fenômeno, até mesmo naqueles menos evidentes.

Para obter a intelecção da essência em-si das coisas, basta a compreensão da nossa   própria essência. Neste sentido, em cada coisa na natureza há algo que jamais pode         ser atribuído um fundamento – para o qual, nenhuma explanação é possível – nem     causa posterior pode ser investigada. – Nesses casos, o que ocorre é emanação da Vontade…Todavia, ela própria não emana de coisa alguma…em-si do mundo que é.

Existe, sim, uma ordem de aparecimento destes fenômenos nas ‘formas       da multiplicidade’ – ordem esta…determinada pela “lei de causalidade”.

Percebe-se que nessa hierarquia natural da objetivação da Vontade – desde as forças naturais até o homem (como ápice da objetividade) nada ocorre pacificamente, pois,           a manifestação das Ideias nos fenômenos ocorre…mediante luta perene pela matéria.

Sendo a matéria finita, a luta por sua posse é infindável. Assim, ora esta ora aquela Ideia adquire o direito sobre ela, manifestando sua essência. Entretanto, a determinação deste direito é dada pela causalidade. Uma devida objetividade superior, por exemplo, só se manifesta no ‘mundo dos fenômenos‘ depois de tomar posse de outras ‘Ideias inferiores’, que também lutavam por tornar-se representação.

Por isso Schopenhauer diz que…a Ideia mais perfeita…resultante dessa vitória sobre Ideias, ou objetivações inferiores da Vontade – ganha um caráter inteiramente novo, precisamente pelo fato de absorver em si – de cada uma das que foram dominadas –       um análogo mais elevadamente potenciado.

Essa dominação de uma objetividade inferior por outra superior, Schopenhauer batizou de … “assimilação por dominação”.

Isso ocorre porque se trata de uma ‘Vontade Una’ que se manifesta em Ideias, buscando sempre o mais alto grau de objetivação — renunciando aos mais baixos — para, por fim, manifestar-se num grau mais elevado e, portanto…mais poderoso. Contudo, a vitória de     um grau mais alto – frente ao mais baixo, não se conserva para sempre – pois… embora submetido à servidão por ter perdido a luta pela matéria – o esforço pela exteriorização     e autodeterminação, faz parte da essência de toda espécie.

'Universo Primordial'. Esta simulação computacional mostra o universo como ele deve ter sido quando tinha uma fração de sua idade atual. As manchas brilhantes e as fibras correspondem às galáxias e aos filamentos.

‘Universo Primordial’. Esta simulação computacional mostra o universo como ele deve ter sido logo após o período inflacionário. Os pontos brilhantes e as fibras correspondem às galáxias e filamentos, respectivamente.

VONTADE & AUTODISCÓRDIA    ‘Todo organismo é… ao mesmo tempo, inorgânico — ele guarda, em si, ideias inferiores… dominadas e assimiladas’.

Aqui, vale aquela sentença latina citada por Schopenhauer…  —  serpens… nisi serpentem comederit, non fit draco’ —   isto é… uma serpente precisa devorar outra serpente para se sentir dragão.

Porém, tais ‘Ideias dominadas‘ lutam por independência e exteriorização … — até o conseguirem… por isso…todo organismo, impreterivelmente, trava uma luta com o inorgânico

‘Não há vitória sem luta’… – Em face dessa luta eterna por matéria… toda existência é permeada por conflito, que leva à discórdia da Vontade consigo própria… afinal, cada Ideia, enquanto grau de objetivação da Vontade…se insere numa luta eterna em busca   de matéria, espaço e tempo.

Para Schopenhauer – não há maneira mais nítida de perceber essa discórdia essencial da Vontade consigo mesma, do que no mundo animal; onde estes sobrevivem, se devorando.

“A Vontade de vida crava… — continuamente… seus dentes na própria carne; e, em diferentes formas, é seu próprio alimento; até que, enfim,         o gênero humano, por dominar todas demais espécies – vê a natureza   como seu instrumento de uso”.

Ainda no que compete a esta discórdia essencial da Vontade, 2 exemplos marcantes caracterizam, fielmente, esta luta infindável. – A formiga ‘bulldog-ants’ da Austrália, possui a excêntrica particularidade de, ao ser cortada, iniciar um ‘autocombate’, por          cerca de meia hora, entre a cabeça e a cauda, de modo que…uma luta com mordidas, enquanto a outra se defende, atacando com seu ferrão… — Ao final, ambas as partes morrem, dilaceradas.

O outro exemplo, diz respeito ao gênero humano – que… por onde quer que esteja, perpetua o conflito; na violência, nas guerras, discórdias e disputas, manifestando a máxima de Hobbes – ‘homo homini lupus’ (o homem como lobo do homem).

Com efeito, a discórdia essencial da Vontade (consigo mesma)… se estabelece em todos os âmbitos da ‘existência fenomenológica’ – já que esta é espelho da Vontade… Entretanto, o conflito dos graus de objetivação faz surgir novos graus superiores…graças à assimilação por dominação – chegando ao ponto no qual o indivíduo… expressando a Ideia, não mais consegue seu alimento para assimilação, devido ao movimento provocado…por excitação.

Há então a necessidade do movimento consciente em nome ao ‘saber’…exigência vital neste grau de objetivação. Assim o conhecimento aparece representado pela técnica, e junto com ela, surge – de um só golpe…o ‘MUNDO COMO REPRESENTAÇÃO‘… com todas as suas formas … objeto e sujeito … tempo e espaço … pluralidade e causalidade.

O mundo mostra agora o seu ‘lado B’. Até então, pura e simples VONTADE, doravante, também… ‘REPRESENTAÇÃO’ – objeto do sujeito…que conhece.

yin-yang

Porém, mesmo com “graus de objetivação, jamais devemos perder de vista a noção de que, em todas Ideias…sejam elas forças da natureza, ou corpos orgânicos, é sempre a Vontade una e indivisa quem se manifesta.

Mesmo que – dentro do homem – surja o mundo como representação – mostrando que todos os ‘reinos da natureza formam uma pirâmide – cujo topo lhe faz sombra, ainda assim… todos fenômenos possuem   um ‘parentesco interior

Parentesco, que a ‘filosofia schellinguiana‘ chamou de ‘polaridade‘, que seria a ideia de uma única força separada em 2 atividades, distintas e opostas – objetivando sua reunificação. Aliás, Schopenhauer esclarece que tal polaridade já estava presente há muito tempo na filosofia chinesa, na oposição entre yin   e yang… — Segundo esta sabedoria, há em todo o universo um princípio único chamado tao, que não pode ser alterado, nem dividido.

Frente a esta perspectiva, de distintas escolas filosóficas apresentarem o mesmo conceito, Schopenhauer mostra que esta ideia também se apresenta em seu pensamento filosófico:  “Justamente porque todas as coisas do mundo são objetividade de uma única e mesma Vontade – e portanto, idênticas segundo sua essência mais íntima…não apenas tem de haver entre elas uma ‘analogia inegável’, como também, em cada coisa imperfeita…já tem de se mostrar o vestígio… – a alusão… – o ‘dispositivo’ das coisas mais perfeitas”.

Aquilo que o taoísmo chama de tao – o ‘princípio uno‘ – assemelha-se àquilo que, na ‘filosofia schopenhaueriana’ chama-se Vontade cósmica. Esta polaridade de que fala a ‘filosofia schellinguiana’…assim como a ‘filosofia chinesa‘… estaria presente no fato da Vontade ser sempre una e indivisa em todos seus fenômenos … ou, até mesmo, dentro do conceito de ‘assimilação por dominação‘, onde uma objetivação superior ao dominar uma inferior, carrega consigo as suas características.

Pode-se inclusive, considerar esse paradigma como uma espécie de equilíbrio dentro do conflito de interesses, inerente à Vontade – permitindo com que, dessa forma, nenhuma espécie se sobreponha em definitivo sobre outra… Bruno Teixeira Wendling (texto base)   ***************************(texto complementar)************************************

“O homem vive em um mundo de sonhos, antes que de fatos… e um mundo de sonhos, organizado em torno de desejos… — cujo sucesso ou frustração, constitui sua própria essência” (J. Dewey…’Reconstruction in Philosophy’)

O Eu(por Alan Moore)                                                                                                            O único lugar em que deuses e demônios existem – indiscutivelmente… – é na mente humana, onde são reais em toda sua grandiosidade e monstruosidade” (Alan Moore)

krishnamurti

Quando cumprimos a vontade de nosso verdadeiro Eu… – estamos inevitavelmente, cumprindo com a vontade do universo — em que cada alma … é a alma do ‘Todo‘. 

Nessa tradição mística… já os  alquimistas buscavam a ‘coisa interior’ – por trás do intelecto, do corpo, e dos sonhos… Nosso ‘dínamo interior’ é a coisa mais importante que podemos ter… — o conhecimento do verdadeiro ‘Eu‘.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu…mas também, parecem ter a urgência por obliterarem-­se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos pode-se entender o desejo de simplesmente sumir com essa consciência, pois é muita responsabilidade possuir tal coisa tão preciosa, como uma ‘alma’.

Não seria melhor anestesiá­-la, acalmá-­la, destruí-­la…  –  para não viver com a dor de lutar por ela, e tentar mantê-­la inocente? Creio que é por isso que pessoas mergulham no álcool, nas drogas, na televisão…em qualquer dos vícios que a cultura nos faz engolir, e que pode-se considerar como a tentativa deliberada de destruir qualquer “conexão pessoal” que nos faça aceitar a responsabilidade de possuir um Eu superior… – e então ter que o alimentar.

Tenho estudado a escola da história do pensamento mágico e o ponto em que começou a dar errado. No meu entender, o ponto em que começa a dar errado é com o monoteísmo. Ou seja, ao olharmos a história da magia, vemos suas origens nas cavernas, suas origens no Xamanismo…Animismo…na crença de que tudo o que nos rodeia…cada árvore, cada rocha, cada animal… foi habitado por algum tipo de essência, um tipo de espírito com o qual talvez possamos nos comunicar.

E, ao centro, você tinha um xamã…um visionário – que seria o                       responsável por canalizar as ideias úteis para a sobrevivência.

No momento em que se chega às ‘civilizações clássicas’ – até certo ponto…tudo isto foi formalizado.

O “xamã” atuava puramente como um intermediário entre os espíritos e as pessoas…Sua posição na aldeia ou comunidade, imagino… era a de um “encanador espiritual“…

Cada um no grupo tinha seu papel. A melhor pessoa durante a caçada, tornava­-se caçador… a pessoa que melhor falasse com os espíritos —  talvez, porque estivesse um pouco louco…um pouco separado do nosso mundo material, assim, tornavam-­se ‘xamãs

Eles não seriam mestres de uma arte secreta – mas simplesmente… os que espalhariam sua informação pela comunidade, pois se acreditava que isto era útil para todo o grupo.

Quando vemos o surgimento das culturas clássicas…tudo isso se formalizou para que houvesse panteões de deuses, e cada um destes deuses tinha uma casta de sacerdotes,     que – até certo ponto, atuariam como intermediários, instruindo na adoração a estes deuses. Então, a partir daí… a relação entre homens e seus deuses; que pode ser vista       como a relação entre humanos e seus ‘Eus‘ superiores, passa para um modo indireto.

Quando chega o Cristianismo…quando chega o Monoteísmo – de repente, surge uma casta sacerdotal movendo­-se entre o adorador e o objeto de adoração. Tem uma casta sacerdotal convertendo­-se numa espécie de gerência intermediária entre a humanidade e a divindade que está se buscando. Já não se tem mais uma relação direta com os deuses. Os sacerdotes não têm necessariamente uma relação com Deus.

Eles só têm um livro que fala sobre gente que viveu há muito tempo que teve relação direta com a divindade… E assim está bom… – Não é preciso ter visões milagrosas…não é preciso ter deuses falando contigo… — Na verdade… se isso acontece – você é considerado ‘louco’.

No mundo moderno, as únicas pessoas as quais se permite falar com os deuses, e de um modo unilateral – são os ‘sacerdotes’… – E assim, o Monoteísmo me parece uma grande simplificação. Com isso quero dizer que a ‘Cabala’ tem uma grande variedade de deuses,   mas acima da escala da ‘Árvore da Vida’ há uma esfera que é ‘Deus Absoluto’, a Mônada. Algo que é indivisível…

E… todos os outros deuses… e, de fato — tudo o mais no universo…é um tipo de emanação daquele Deus… isto ainda está bem. Mas, quando lá está somente esse único Deus…a uma altura inalcançável acima da humanidade… – se está limitando, e simplificando o assunto.

Eu tendo a pensar o Paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem…É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma forma  de significado, certa sutileza de ideias…enquanto o Monoteísmo é só uma vogal onde tudo está reduzido a uma simples nota…que quem emite, nem sequer a entende. ‘texto original’

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Da Filosofia da Ciência do Caos (Deleuze & Guattari)

“A natureza usa um fio muito longo para tecer suas tramas – mas…apenas um pequeno pedaço do tecido… já revela toda a organização de sua tapeçaria.”  (Richard Feynman) 

filociênciaFilosofia e ciência seguem 2 vias opostas; conceitos filosóficos têm por consistência ‘acontecimentos; enquanto as funções científicas têm como referência ‘estados de fase ou seja, enquanto a filosofia é ‘sintagmática’; ciência é ‘paradigmática’.

A filosofia busca no interior destes estados acontecimentos emblemáticos; enquanto a ciência atualiza – por funções – tais fatos, por sobre um ‘estado de coisas’ referencial.

A filosofia procede sob um plano conceitual de imanência;                                 e a ciência atua sobre um sistema funcional de referência.

Na imanência conceitual’ filosófica…temos um conjunto unificado de variações sob a influência de uma ‘razão contingente’ — enquanto na ‘referência funcional’ científica,       um conjunto de variáveis independentes atua sob controle de uma ‘razão necessária’.

Dessa forma, o conceito filosófico de ‘acontecimentos entrelaçados’…sob um plano imanente se distingue da função científica de um ‘estado de variáveis independentes’, em um sistema de referência.

Contudo, esta oposição natural entre ‘multiplicidades(intuitivas ou discursivas) com relação aos conceitos fragmentários sob um ‘plano de imanência‘, ou às ‘funções de estado’ nos ‘sistemas de referência… também está apta a julgar a correspondência       entre ciência e filosofia, em sua eventual colaboração… – ou mútua inspiração criativa.

A ciência…destarte, não tem qualquer necessidade da filosofia para efetuar suas tarefas, porém, quando um objeto é cientificamente construído por funções…por exemplo – um espaço geométrico — resta buscar seu ‘conceito filosófico’…que nunca é dado na função.

Os Pré-Socráticos…a propósito, já detinham o essencial de uma determinação científica válida até nossos dias, quando faziam da física uma teoria da mistura de seus diferentes elementos…Anaxágoras, por exemplo…mostrou que todo objeto contém, em todas suas partes  –  mesmo aquelas mais ínfimas  –  uma multiplicidade infinita de propriedades qualitativamente diversas, e intimamente misturadas… (água/terra/ar/fogo).

“Enquanto Filosofia é a arte de fabricar conceitos, a Ciência tem por objeto funções — que se apresentam como ‘proposições’ nos sistemas discursivos” 

Ciência, Filosofia & Arte

Conceito filosófico e função científica se distinguem por 2 características interligadas…  a) variações interligadas ou independentes; b) acontecimentos num ‘plano de imanência’, ou ‘estado de coisas’ em um sistema de referência, respectivamente.

Os conceitos e as funções se apresentam assim, como 2 tipos de variedades, ou multiplicidades — que se diferem em natureza… Mas, há uma 3ª grande diferença… que se refere ao  ‘modo de enunciação’.

Com certeza, há tanta experimentação mental em termos filosóficos quanto científicos; e, nos 2 casos, os resultados podem ser perturbadores – estando próximos do caos. Porém, também há criação – tanto em ciência, quanto em filosofia… Sendo que, assim como nas artes, nenhuma criação existe sem experimentação.

Aliás, o fato de existir percepções sensíveis basicamente filosóficas ou científicas, já indica uma relação fundamental entre ciência e filosofia, de um lado  —  e arte, de outro…  de tal forma… que se costuma dizer da “beleza” de uma função… — assim como de um conceito.

É verdade que os respectivos ‘campos de criação’, se encontram balizados por entidades muito diferentes nos 2 casos, mas que não deixam de apresentar certa analogia em suas tarefas – resolver um problema, em ciência ou filosofia não é simplesmente responder a uma questão, mas adaptar os elementos correspondentes em um curso predeterminado.

Para a ciência – por exemplo…é escolher boas variáveis independentes; instalar o observador em determinado percurso; construir as melhores coordenadas de uma equação, ou função, etc.

Nesse sentido — é notória a incessante reafirmação da ciência na eterna oposição a toda forma de religiosidade, através da integral substituição do fenômeno da transcendência, pela correspondente funcional do paradigma, a um sistema de referência. Determina-se assim – com rigor científico…a forma pela qual esta deva ser construída, e interpretada. 

Ciência, Filosofia & Caos

Da confrontação direta entre filosofia e ciência podemos deduzir que esta se dá sob 3 instâncias principais: a) plano de imanência – ou ‘sistema de referência’;  b) variações contínuas – ou, variáveis independentes; c) personagens mítico- conceituais, ou observadores parciais.

Uma importante consequência prática desta diferença de abordagem, está na  posição de atitude peranteCaos

Define-se ‘Caos‘… – menos por sua desordem, que pela velocidade infinita…              pela qual toda forma que nele se esboça – é dissipada… Segundo Ilya Prigogine:

“É um vazio que não é nada mais do que um ‘Virtual’ contendo, potencialmente, todas as partículas possíveis  –  e, suscitando todas as formas possíveis  –  para desaparecer logo em seguida, sem consequência, consistência ou referência, numa velocidade infinita… de vida ou de morte.”  (‘Entre le temps et l’éternité’)

Como consequência lógica, a filosofia, então, pergunta – como conceber essas infinitas velocidades, mantendo (ao mesmo tempo) uma virtual consistência própria? A ciência,   por sua vez, possui uma maneira peculiar  –  quase inversa, de abordar essa infinitude caótica  –  ela renuncia à velocidade infinita  –  por meio de um limite relativístico  ‘c’, para ganhar uma referência capaz de atualizar o virtual.

Ou seja, ‘guardando’ (potencialmente) o infinito, a filosofia dá ao virtual uma consistência conceitual… enquanto que a ciência — renunciando ao infinito — fornece ao virtual uma referência que o atualiza… por meio dasfunções de estado’.

No caso científico — é como uma ‘suspensão’ da imagem virtual — numa fantástica desaceleração. Ou seja, desacelerar é colocar um limite no caos virtual, sob o qual todas velocidades são variáveis desse referencial… seu limite relativístico – uma constante universal ‘proibida de ultrapassagem’. 

Os primeiros elementos de uma função científica são, portanto, o limite e a variável; sendo que, a referência é uma relação entre os valores da variável com seu limite. Aliás, são esses limites (ou constantes universais) que constituem a ‘desaceleração no Caos’ – ou seja, o ‘limiar da suspensão no infinito’…como referência interna nos sistemas de coordenadas.

Não são relações – mas nºs (constantes cosmológicas) – e, toda teoria das funções depende deles. Por exemplo, a velocidade da luz (299.796 km/seg), onde os comprimentos se contraem até zero… e, os relógios param; ou… o Zero Absoluto das temperaturas (-273,15ºC) onde…na teoria, velocidades termodinâmicas deixam de existir.

Assim, a ciência está impregnada por um ‘plano de referências’, constituído por todos esses limites  –  ou ‘bordas’  –  sob os quais ela ‘espreita o caos’. (Estas bordas dão ao plano suas referências, sob sistemas de coordenadas)

georg-cantor

Teoria dos Conjuntos (de Cantor)

É difícil compreender, como o limite corrói imediatamente o infinito  –  o ilimitado; pois não é a coisa limitada que define o infinito… é o limite que torna possível uma ‘coisa limitada’.

Todo limite é ilusório, e toda determinação é negação… se a determinação não está numa relação imediata com o indeterminado. – A teoria da ciência e das funções depende disso, e é Cantor quem a formula matematicamente, de um duplo ponto de vista – intrínseco, e extrínseco… A teoria dos conjuntos, de fato, é a constituição de um ‘plano de referência‘, que não comporta somente uma determinação intrínseca de um conjunto infinito – mas, também uma determinação extrínseca…

  1. do ponto de vista intrínseco, um conjunto é dito potencialmente infinito… — se apresentar uma correspondência biunívoca, termo a termo — com o conjunto dos nºs inteiros (Alef =0), gerando assim, funções contínuas.
  2. Do ponto de vista extrínseco, um conjunto é dito  –  potencialmente transfinito, se apresentar uma correspondência biunívoca com um conjunto maior que o dos inteiros (Alef >0) – por exemplo – o conjunto dos números reais… gerando assim,  funções probabilísticas.

Desse modo, o que, na prática, a teoria dos conjuntos faz, é inscrever um limite ao próprio infinito – ou seja – ela instaura uma ‘desaceleração’ como plano de referência, sem o qual, haveria umconjunto de todos os conjuntos’ – o qual, Cantor definia como umconjunto caótico’… (Georg Cantor – ‘Fundaments d’une théorie générale des ensenbles’)

É no plano de referência, quando o limite gera – pela desaceleraçãouma abscissa das velocidades, que as formas virtuais caóticas – independentemente, tendem a se atualizar conforme a uma ordenada. Portanto, o limite é a origem de um sistema de coordenadas, composto por, ao menos, 2 variáveis independentes – as quais se relacionam de forma a gerar uma 3ª variável, correspondente aos ‘estados’ matemáticos, físicos, ou biológicos da matéria formada no sistema.

O ‘estado do sistema’ é representado por uma função/variável complexa, que depende da relação entre, ao menos 2 variáveis independentes. A independência das variáveis, por sua vez, aparece, matematicamente, quando uma delas possui uma potência mais elevada que outra (exemplo: Y²/x = P). Então, uma relação pode ser, diretamente, determinada como função diferencial (dy/dx), sob a qual, o valor das variáveis não tem outra determinação, a não ser, nascer e morrer – muito embora, extraído das velocidades infinitas. De uma tal determinação – aliás – depende um ‘estado de coisas’… ou uma ‘função derivativa’.

‘Estado de coisas’ x ‘Estados do sistema’…                                                                     Os ‘estados de coisas’, de objetos ou corpos, e os ‘estados vividos’ são referências das funções – enquanto que os “acontecimentos” … formam a consistência dos conceitos. 

O ‘estado de coisas’ é definido como a mistura dos dados atualizados pelo mundo, em seus estados anteriores – ao passo que, os ‘corpos’ são novas atualizações, cujos ‘estados privados’ reproduzem ‘estados de coisas’ para novos corpos decorrentes.

Já ‘estados do sistema’ são as funções – cujas coordenadas geométricas dos sistemas…(supostos fechados) conferem às coisas, nas interações de energia dos sistemas acoplados, as informações necessárias aos corpos… em seus sistemas de coordenadas independentes. 

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Em todo e qualquer domínio — a passagem de um estado de coisas ao estado de corpo… por meio de um potencial correspondente  — retrata um “momento essencial”.

O privilégio do ser vivo é… — pois, reproduzir de dentro – o potencial associado a si próprio… — no qual atualiza seu estado… e individualiza seu corpo.

Passa-se aqui, da mistura à interação…as interações dos corpos condicionam uma sensibilidade, que se exprime nos observadores parciais; completando, enfim, sua atualização nos seres vivos. Pela ‘percepção‘ – a interação se torna comunicação.

Porém, nenhuma dessas operações se faz de per si… Mesmo não viventes, ou melhor, não-orgânicas, as coisas têm um vivido, pelo qual são motivo   de percepções… e ‘tempos de vida’.

A lógica dos conceitos                                                                                                             Por querer fazer do conceito uma função – a lógica se torna… necessariamente, reducionista. É preciso pois, inventar novo tipo de função, propriamente lógica.’

Uma ‘função completa’ é definida como a relação de dependência, ou correspondência de um, ou vários pares ordenados, onde a referência à variável (argumento independente da função proposicional) define a referência da proposição (ou, seu valor-verdade) para o determinado argumento.

Todo ‘conjunto completo’ tem um nº determinado de elementos — chamados ‘objetos do conjunto’. O conjunto dos ‘valores-verdade’ de uma função, que determinam proposições afirmativas verdadeiras, constitui a extensão de um conceito. – Os objetos do conceito, por sua vez, ocupam o lugar das variáveis (ou, argumentos da função proposicional) para as quais a proposição é verdadeira (ou, sua referência preenchida).

O conceito  —  ele mesmo…  é assim, uma função para o conjunto dos objetos que constituem sua extensão. As funções tiram toda sua potência da referência e, é fatal       que a redução do conceito à função  –  o prive de todos os seus caracteres próprios. 

O pensamento… como tal – produz algo de interessante, quando alcança o ‘movimento infinitoque o libera do verdadeiro… como paradigma suposto… e reconquista um poder imanente de criação.

Mas, para isso acontecer… é necessário que vá até o ‘fundo do poço’ — o interior do estado de coisas… a fim de penetrar em sua consistência, sua ‘esfera do virtual‘ – para aí atualizar-se.

Porém, este “pensamento natural” … é o que a lógica só pode mostrar, sem jamais aprendê-lo (ou seja, remetê-lo a uma referência)A lógica, então assim se cala, e paradigma por paradigma    se identifica com uma espécie de ‘budismo-zen’.

Confundindo os conceitos com funções  –  um verdadeiro ‘ódio’ anima a lógica… em sua vontade de suplantar a filosofia. Todavia, o conceito renasce (… das cinzas) porque não é uma função científica – muito menos uma proposição lógica; ele não pertence a nenhum sistema discursivo – portanto, não tem qualquer referência.

Os ‘conceitos‘ se mostram, e não fazem nada além disso. – Monstros que renascem de seus próprios destroços, são conjuntos vagos e difusos, simples agregados de percepções, que se formam no ‘vivido’, imanentes a um sujeito, a uma consciência. Entretanto, não é nesses juízos empíricos que se encontra, de pronto, o ‘refúgio’ dos conceitos filosóficos. É preciso achar funções das quais esses “grupos de conteúdos vividos” só sejam ‘variáveis’.

ConceitoFunçãoAcontecimento                                                                                    

A relação (difusa) entre conceito e função é suscetível à filosofia, sob vários aspectos:

  1. ela faz da ciência, o conceito, por excelência, que se exprime na proposição científica;
  2. ela substitui o conceito filosófico por um conceito lógico  —  nas proposições de fato;
  3. ela deixa ao conceito filosófico uma parte reduzida, ou degenerada — no domínio da opinião, servindo-se de uma suposta sabedoria superior, ou de uma ciência rigorosa.

Mas, o conceito não tem seu lugar em nenhum desses 3 sistemas discursivos. – Ele não é uma função do vivido, nem uma função científica, ou lógica… De fato, a ‘irredutibilidade‘ dos conceitos às funções só se descobre… se — ao invés de confrontá-las de uma maneira indeterminada, compararmos o que é referência nos conceitos, ao que dá consistência às funções.

A ciência opera todas espécies de bifurcações, sobre um plano de referência não preexistente. É como se a bifurcação fosse procurar – no infinito do caos virtual,           novas formas por atualizar…usando uma espécie de ‘potencialização da matéria’.

Carbono, por exemplo, introduz na tabela periódica uma bifurcação, que faz dele,     por suas próprias propriedades conectivas…o estado apropriado da matéria orgânica.         É que o ‘estado de coisas’ atualiza uma virtualidade caótica… carregando consigo um espaço não mais virtual… — mas, que ainda mostra sua origem … servindo como um ‘correlato’, propriamente indispensável ao acontecimento. 

Um ‘núcleo atômico‘, por sua vez… se encontra próximo ao caos — cercado por uma   nuvem probabilística‘ de partículas virtuais, constantemente emitidas e reabsorvidas. Mas, num nível mais avançado de atualização…o elétron está em relação com um fóton potencial – que interage com o núcleo – para gerar um novo estado da matéria nuclear.

Contudo, não se pode separar um ‘estado de coisas’…do seu próprio potencial… através do qual opera; sem o que, não haveria atividade, ou evolução.

Por esse potencial o estado pode passar a um “espaço de fases  cujo número dimensional cresce  com o número de variáveis – ou, individualizar corpos que forma em seu ‘campo potencial‘. 

Um ‘estado de coisas’, em geral, não atualiza o ‘virtual caótico’… sem lhe fornecer um potencial, distribuído ao longo dos sistema de coordenadas.

Consagrando-se ao funcional…a matemática e a física tomam por objeto a própria formação evolutiva…e não, sua forma acabada. Por seu lado, o único interesse dos conjuntos é a atualização de seus limites – eles dependem das funções – e… não o contrário  —  por conseguinte…  —  a função é o verdadeiro ‘objeto da ciência‘.

Nesse sentido, as funções podem ser classificadas como:

  1. funções de coisas, objetos, ou corpos individuais – que constituem ‘proposições lógicas’ em termos singulares – os quais exercem descrições, que determinam seus predicados;
  2. funções de estados de coisas, ou ‘proposições científicas’; e, as opiniões, ou ‘funções do vivido’.                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Podemos, então, definir que, na ciência, a função determina um ‘estado de coisas’ (ou corpos), que atualizam o virtual, sobre um sistema de referência, ou coordenadas.

Já na filosofia, o conceito exprime um ‘acontecimento’ … que empresta ao virtual, uma consistência ordenada, sob um ‘plano de imanência‘…Ou seja, o acontecimento fornece sua consistência virtual ao ‘conceito’…enquanto a atualização do ‘estado de coisas’ dá suas referências à função.

Efetivamente, o acontecimento é inseparável do seu ‘estado de coisas’, dos corpos… e do vivido, nos quais se atualiza, ou efetua… Atualizamos o acontecimento todas as vezes que o investimos num estado de coisas. Mas, podemos dizer também o inverso – o ‘estado de coisas’ é inseparável do ‘acontecimento, o qual transborda sua atualização a toda parte.

conceito, por sua vez, possui uma ‘potência de repetição’ que se distingue da potência discursiva da função. Em sua produção e reprodução … ele tem a realidade de um virtual, inversamente às funções de atualização dos estados de coisa/corpo…e de vivido. Por isso, erigir um conceito não é a mesma coisa que traçar uma função… — embora os 2 tipos de multiplicidade, em criações e transformações, se entrecruzem.

‘Conceitos fenomenológicos                                                                                                  O conceito, como significação, é tudo isso…ao mesmo tempo – imanência do vivido ao sujeito, com relação às variações do vivido; totalização do vivido; e função destes atos’.

Há uma longa série de ‘mal-entendidos’ sobre o que é ‘conceito‘. A ciência, por exemplo, o arrogou para si mesma – porém… há também ‘conceitos não científicos‘… os quais suportamos em doses homeopáticas – ou…melhor dizendo…em ‘doses fenomenológicas’.

A verdade é que o ‘conceito’ é confuso e vago, não porque lhe falte contorno, mas por ser não discursivo, em deslocamento sobre um plano de imanência onde – variações intrínsecas mudam constantemente seu próprio contorno.

Não há, de maneira alguma, referência, nem ao vivido, nem aosestados de coisas… mas,    uma consistência definida por seus componentes internos. O conceito é o acontecimento, como sentido que percorre, imediatamente, todos seus componentes. – O conceito é uma forma ou força… jamais função – em qualquer sentido possível…  Assim, não há conceito, senão filosófico, sobre o plano de imanência – e, as funções científicas, ou as proposições lógicas, não são conceitos…Todavia, é preciso que a compreensão seja transcendente – e, se acrescente à opinião; se distinguindo dela em sua imanência, para torná-la verdadeira.

A filosofia grega permaneceu atada a este dilema – inteiramente disposta a ‘redesdobrar’ sua transcendência, mas para isso necessitava da imanência a algo de transcendente, isto é, a idealidade‘… A beleza e a bondade não cessam de nos reconduzir à transcendência. 

É como se a opinião ‘verdadeira’ exigisse ainda um saber… que ela – todavia, destituiu. Mas, sendo assim…a fenomenologia(que necessita da arte, como a lógica da ciência) também não recomeçaria uma tentativa semelhante?…

O vivido não faz do conceito, outra coisa, senão uma ‘opinião empírica’ – é preciso então, que a imanência do vivido a um sujeito transcendente faça da opinião um acontecimento, do qual pertençam arte e cultura – e, que se exprima como um ato desse sujeito… em sua própria experiência vivida.

Assim, os gregos – com suas cidades; e a fenomenologia – em nossa sociedade ocidental, têm, certamente, razão de supor a opinião como uma das condições da filosofia. Porém, será que esta encontrará a via que a conduza ao conceito – invocando a arte como meio   de se aprofundar na descoberta de ‘opiniões originárias’ – ou…ao contrário, será preciso, com a arte, subverter a opinião – elevando esta, ao movimento infinito…que substitui o próprio conceito?…

Lógica Transcendental Dialética                                                                                         “Se o tempo é infinito, é por conta do movimento instaurado pelas diversas forças         em relação – mesmo sendo elas finitas.”  (Gilles Deleuze – ‘Nietzsche e a filosofia’)

Se o mundo vivido deve fundar, e suportar a ciência — bem como a lógica do ‘estado de coisas‘… — é natural a utilização de conceitos filosóficos… – para edificar essa ‘fundação’.

Não que o conceito se confunda com o vivido  —  este só fornece variáveis — enquanto conceitos devem ainda…definir funções. Estas, por sua vez, só farão alusão  ao ‘vivido’ — assim como ‘funções científicas’, aos ‘estados de coisas’.

Será preciso – então, que no seio da imanência do vivido a um sujeito, se descubram atos de transcendência do sujeito  —  capazes de constituir as novas funções de variáveis, ou referências conceituais. — O sujeito, nesse caso, não é mais o solipsista empírico; mas um indivíduo transcendental.

Kant começou a realizar essa tarefa — mostrando como os conceitos filosóficos remetiam, necessariamente, à experiência vivida por proposições – ou juízos a priori – como funções de um todo da experiência possível; entretanto, é Edmond Husserl quem vai descobrir nas ‘multiplicidades imanentes‘…a tríplice raiz dos atos de transcendência – pelas quais o sujeito constitui um mundo sensível… povoado dos objetos que — as formações científicas, matemáticas e lógicas, demarcarão.

Não são mais subconjuntos vagos, ou confusos; mas sim, totalizações… que excedem toda potência dos conjuntos. Não são os conteúdos sucessivos do fluxo de imanência,   que determinam as significações da totalidade potencial da realidade – mas atos de transcendência.

A ciência dos acontecimentos transcendentes                                                                “Todo acontecimento está, por assim dizer, no tempo em que nada                                        se passa” (Bernard Groethuysen – ‘De quelques aspects du temps’)

A ciência passa da virtualidade caótica aos ‘estados de coisas e corpos’ que a atualizam; todavia, ela é menos inspirada pela preocupação de se unificar e atualizar num sistema ordenado, do que por um desejo de não se afastar demais do caos – cavando potenciais para aprender a domesticar uma parte do que a impregna – o segredo do caos por trás dela (a ‘pressão do virtual’).

Entretanto, ao remontarmos a linha na direção contrária — dos estados de coisas, ao virtual  —  este não mais é a ‘virtualidade caótica’… mas uma virtualidade, tornada consistente — entidade que se forma sobre um plano de imanência que corta o caos.

É o que chamamos de ‘acontecimento’, ou a parte do que escapa à sua própria atualizaçãoem tudo o que acontece.

O acontecimento não é, de maneira alguma, o ‘estado de coisas’ – ele se atualiza num estado de coisas, mas possui uma sombria parte secreta, que não para de se atualizar.

Contrariamente ao ‘estado de coisas’, ele não começa nem acaba – apenas, retém o movimento infinito, ao qual dá consistência.

É o ‘virtual‘ que se distingue do atual, mas um virtual que não é mais caótico – e sim, tornado consistente … ou real, sobre o plano de imanência, que o arranca do caos… – Real, sem ser atual, ideal sem ser abstrato – diríamos… transcendente – porque  ‘sobrevoa’ o ‘estado de coisas’…sendo a própria imanência que lhe dá a capacidade de sobrevoar a si mesmo, em si mesmo, sobre   o plano imanente.

“O acontecimento é imaterial… incorporal… invisível  —  pura ‘reserva potencial’ de um imanente interior. O que transcende é antes…o ‘estado de coisas’ no qual ele se atualiza”. 

Ao longo de um ‘estado de coisas’ procuramos isolar variáveis em determinado instante; para ver a partir de um certo potencial quando estas variáveis intervêm entre si, ou com outras; suas relações de dependência; suas singularidades; quais limites cruzam e quais bifurcações percorrem. Traçamos assim suas ‘funções de estado’, cujas diferenças entre ‘local‘ e ‘global‘… bem como diferenças entre o físico e matemático, o lógico e o vivido, pertencem ao seus domínios.

Um ‘sistema atual’, um ‘estado de coisas’, ou um ‘domínio de função’ se definem então, no intervalo de tempo entre 2 instantes; mas, quando nos voltamos para a virtualidade – que se localiza no ‘estado de coisas’ – descobrimos uma realidade inteiramente diferente…que transborda toda função possível… – Segundo James Gleick…em ‘La Théorie du Chaos’…

“O acontecimento não se preocupa com o lugar em que está, muito menos em saber desde quando existe… A arte, e mesmo a filosofia, podem apreendê-lo melhor do que a ciência.”

Não é mais o tempo que está entre 2 instantes…mas, o ‘acontecimento’ que é um ‘entretempo’…que não é eterno – é devir…duração. Em cada acontecimento há inúmeros, e diferentes componentes simultâneos que são singularidades de uma           nova ordem infinita. Nada se passa (na virtualidade) e… todavia… tudo muda —               pois o devir não para de atualizar o acontecimento a outro momento… – alhures.

Quando o tempo passa, e leva o instante – há sempre um entretempo para trazer o acontecimento. Enquanto que a função apreende um ‘estado de coisas’ – com suas relações temporais – é um conceito que apreende o acontecimento, seu devir, suas variações inseparáveis.

A finalidade filosófica                                                                                                               “A filosofia não tem outro objetivo, além de tornar-se digna do acontecimento”

nuvens

Caminhamos do virtual… ao atual ‘estado de coisas’  —  ou vice-versa, sem poder isolá-los uns aos outros.  – A linha na qual subimos não é a mesma pela qual descemos … são linhas diferentes.

Ou seja — podemos dizer, que elas não se deixam isolar de um virtual caótico que atualizam…Por isso, a filosofia parece à ciência… — não     a realidade de um acontecimento ordenado no conceito – mas, uma névoa que alucina.

A linha da atualidade científica traça um plano de referência, que recorta o caos, retirando dele estados de coisas – que também atualizam (em suas coordenadas) os acontecimentos virtuais – mas, só retém dele potências…já em vias de atualização.

Inversamente, considerando os conceitos filosóficos do acontecimento, sua virtualidade remete ao ‘caos‘ – mas…sobre um ‘plano de imanência’ – que dele só extrai a consistência do virtual.

As 2 linhas são portanto – inseparáveis… mas, independentes entre si – a filosofia só pode falar da ciência por alusão – e, a ciência só pode se referir à filosofia… como a uma nuvem.

O conceito não reflete sobre a função, nem a função se aplica ao conceito; conceito e função se cruzam — mas…  com cada um seguindo a sua linha.

Se a filosofia precisa, fundamentalmente, da ciência que lhe é contemporânea, é porque esta cruza – sem cessar – a possibilidade do conceito… e, porque este, necessariamente, comporta alusões à ciência. Por exemplo, as funções riemmanianas de espaço não nos dizem nada de um conceito de espaço próprio à filosofia – só quando esta estiver apta       a criá-lo, que teremos o conceito desta função.

Igualmente, o número irracional é definido por uma função…como o limite comum de 2  séries racionais – das quais… uma não tem máximo, ou a outra, não tem mínimo. – Seu conceito todavia, não nos remete a séries de números, mas sim, a sequência de ideias se encaixando por sobre lacunas.

A morte, por outro lado, pode ser assimilada a um ‘estado de coisas’ cientificamente determinável – como uma função de variáveis independentes, ou mesmo, como uma (dis)função do ‘estado vivido’; mas, aparece também, como um acontecimento puro,         cujas variações sejam inerentes à vida.

supertramp

A função caótica…                              O conceito filosófico requer…não mais uma identidade ao conjunto – e sim ao sujeito’.

Assim como um ‘anticaos’; não haveria nem um pouco de ordem nas ideias, se não houvesse também nas coisas – ou, em seus estados naturais.

Para que haja um acordo objetivo entre as coisas e o pensamento…é necessário que a sensação se reproduza  –  com a garantia, ou testemunho desse acordo. Com efeito, isso é tudo o que pedimos para formar uma opinião – como uma espécie de guarda-sol, a nos proteger do caos.

Mas arte, ciência e filosofia exigem mais, ao traçar seus planos caóticos. Essas 3 disciplinas querem que rasguemos o firmamento para um mergulho no caos da criação. Este é o preço que filósofos, cientistas e artistas têm de pagar pra retornar vitoriosos do país dos mortos.

Nessa batalha diária, ao longo de um plano de imanência, o filósofo tira do caos variações que permanecem infinitas — construindo conceitos…  O cientista por sua vez… produz variáveis… tornadas independentes por ‘desaceleração’ – isto é, eliminação de quaisquer outras variabilidades...tornadasconstantes universais’…numa representação funcional, através de coordenadas finitas sobre um plano de referência que vai das probabilidades locais, a uma cosmologia global universalizante.

O que o artista recolhe…são variedades – que não constituem uma reprodução exata, mas sensível, sob um plano de composição capaz de restituir o infinito através de uma intuição.

A luta contra o caos se encontra, de diferentes formas, nestas 3 atividades humanas. Mas, esse embate parece pertencer, de direito, à ciência, quando esta se utiliza da variabilidade sob constante…ou ‘limites’ – assim ordenando todo movimento em torno de ‘centros de equilíbrio‘…(atratores)… reduzido a um número limitado de variáveis independentes.

Também, quando instaura – entre essas variáveis – relações cujo estado futuro pode ser determinado a partir do presente; ou, ao contrário, quando faz intervir tantas variáveis ao mesmo tempo, que o ‘estado de coisas’ (caótico) se torna apenas provável e estatístico.

Variáveis diferenciais ocultas                                                                                           “Haveria 2 infra-estruturas…a mais profunda, estruturada como um conjunto qualquer (pura multiplicidade…mistura aleatória de signos) — já a mais rasa seria recoberto por esquemas combinatórios desta multiplicidade” (Michel Serres – ‘Le Système de Leibniz’)

Se a desaceleração é a fina borda que nos separa docaos absoluto’, a ciência se aproxima tanto quanto pode, ao estabelecer relações que se conservam, pela aparição e desaparição das ‘variáveis diferenciais ocultas’. – A diferença se faz, cada vez menor, entre o ‘estado caótico’ – em que a aparição e desaparição de uma ‘variabilidade’ se confundem – e, oestado semicaótico’, que traz uma relação como limite dessas variáveis que aparecem, ou desaparecem.

A opinião popular nos apresenta uma ciência que sonharia com a unidade – em leis unificadas  –  sob a ação das 4 forças fundamentais. Mais obstinado, porém, o sonho de captar um pedaço   do caos daria à ciência toda unidade racional à qual ela aspira.

Um dos aspectos mais importantes da física/matemática moderna, surge em transições na direção ao caos – sob a ação de “estranhos atratores — 2  trajetórias vizinhas…em determinado sistema de coordenadas – divergindo   de um modo exponencial, antes de se acercarem – em repetidas operações não-lineares.

Se os atratores (fixos ou limitados) de equilíbrio exprimem bem a luta da ciência com o caos – os ‘atratores estranhos’ desmascaram sua profunda atração pela turbulência caótica.

Encontramos aqui, uma conclusão análoga àquela que nos conduz à arte…a luta com o caos é o instrumento de uma luta mais profunda contra a ‘opinião’ — pois é da opinião que vem a confusão. A ciência, então…volta-se contra a opinião geral, substituindo sua comunicação formal, por condições de criatividadevariedades estéticas, ou variáveis científicas… – que surgem sobre um plano, capaz de absorver a ‘variabilidade caótica’.

A filosofia caótica                                                                                                                       A filosofia também luta com o caos – por meio de uma                                                          variedade conceitual…num oceano de dessemelhança’.

Um conceito não é um conjunto de ideias associadas, como uma opinião; muito menos uma série de razões ordenadas. Para atingir o conceito, não basta que os fenômenos se submetam a princípios que associam ideias…ou coisas – a fim de ordenar a razão.

As ideias só são associáveis como imagens…e ordenáveis, como abstrações;                   para conseguir alcançar o ‘conceito’ — é preciso ultrapassar umas e outras.

Um conceito é um conjunto de variações inseparáveis, que se produz, ou constrói sobre um plano de imanência, na medida em que este recorta a variabilidade caótica, e lhe dá consistência real. O conceito é, pois, um ‘estado caótico’ por excelência, remetendo-nos       a um caos, tornado consistente em pensamento, sob um plano que o conduz ao infinito.

http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2013/05/fenomenologia-da-elegancia-ii/

Mão com Esfera Espelhada – M. S. Escher 1935

Aliás…não é de se surpreender que o cérebro, tratado como objeto constituído da ciência – só possa ser um órgão de formação e comunicação de opinião… É que suas conexões e integrações  –  permaneceram sob o modelo estreito do reconhecimento lógico das coisas.

Isso significa dizer que o pensamento criativo, mesmo sob a forma ativa que toma na ciência, não depende de um cérebro…feito de conexões e integrações orgânicas; de acordo com a ‘fenomenologia’…dependeria apenas das relações do homem com o mundo.

Mas, esta reação fenomenológica – que ultrapassa o cérebro na direção de um ‘ser no mundo’…através de uma dupla crítica do mecanicismo e dinamismo; não nos faz, absolutamente, sair ainda da esfera esotérica das opiniões. Ou seja, filosofia, arte, e ciência não são objetos mentais de um cérebro objetivado – mas sim, os 3 aspectos sob os quais o cérebro se torna sujeito…ou, os 3 planos da jangada com a qual ele mergulha no caos, e o enfrenta.

Assim, o conhecimento não é uma forma, nem uma força, mas uma função. As projeções geométricas, as substituições e transformações algébricas, não consistem em reconhecer algo através das variações…mas em distinguir ‘variáveis e constantes’ – ou, em discernir, progressivamente, os termos que tendem na direção de limites sucessivos…

De modo que, quando numa ‘operação científica’ uma constante é determinada, se trata de estabelecer uma relação necessária entre fatores que, permanecem independentes… E, por conseguinte – os atos fundamentais da faculdade científica de conhecer… são os seguintes:

  1. limitar as velocidades infinitas…construindo um ‘plano ordenado de referência;
  2. determinar variáveis que se organizam em séries, tendendo no sentido desses limites;
  3. coordenar as variáveis independentes, de modo a estabelecer, entre elas, seus limites; relações necessárias das quais dependem funções distintas, num plano de referência;
  4. determinar as misturas, ou estados de coisas, que se relacionam com as coordenadas, às quais as funções se referem.

Porém, não basta dizer que estas operações do conhecimento científico são funções do cérebro…são elas mesmas, dobras do cérebro – que planeja as coordenadas variáveis     de um ‘plano referencial de conhecimento’. Cabe pois – à ciência – por em evidência o caos, no qual… enquanto sujeito do acontecimento, o próprio cérebro mergulha – não apenas nas ‘sinapses elétricas’ … que indicam um ‘caos estatístico‘ – como também     nas ‘sinapses químicas’, que remetem a um ‘caos determinista‘.

A síntese criadora                                                                                                                     “Não são as ideias que contemplamos pelo conceito – mas sim,                                                 os elementos da matéria…por sensações.” (Plotino – Enéadas)

O cérebro é definido como a faculdade dos conceitos, e de sua criação – ao mesmo tempo em que estende o ‘plano de imanência’ … sobre o qual os conceitos se alocam… deslocam, mudam de ordem e relação, e não param de se renovar – mas, é a filosofia quem carrega os conceitos…e planeja o cérebro… — engendrando seus… ‘personagens conceituais.

Contudo, não se trata somente de dizer que a arte deva nos formar…nos despertar,         nos ensinar a sentir; e a filosofia, nos ensinar a conceber; e a ciência, a conhecer             o desconhecido — tais pedagogias só são possíveis, se cada uma das disciplinas se dispuser numa relação essencial com sua própria negação.

O plano da filosofia é pré-filosófico… independente dos conceitos que venham a ocupá-lo – e a ‘não-filosofia’ já se encontra lá… onde o plano enfrenta o caos. A filosofia, em suma, assim como a arte e a ciência – precisa de uma ‘anti-filosofia‘ que a possa complementar.

E a razão para isso…é que conceitos, sensações, e funções se tornam indecidíveis… ao mesmo tempo em que a filosofia, a arte, e a ciência, indiscerníveis; como partilhassem da mesma sombra, se estendendo através da natureza bruta, que não cessa de os acompanhar.

(Trechos selecionados do livro “O que é filosofia?” de Gilles Deleuze e Felix Guattari) *************************(texto complementar)**********************************

A utopia imanente… (Peter Pál Pelbart)                                                                                     A tarefa da Filosofia consiste – para Deleuze…em elaborar um material de pensamento capaz de captar a miríade de forças em jogo, e fazer dele próprio uma força do Cosmos.

O pensamento de Gilles Deleuze deu impulso a vários termos que circulam na cena filosófica das últimas décadas, tais como… diferença…multiplicidade, intensidade…fluxos…virtual… e — até mesmo…’simulacro‘.

No entanto…é de se notar a ausência, quase absoluta…de qualquer menção   ao filósofo  —  na bibliografia sobre a pós-modernidade…Deleuze foi posto inteiramente à margem deste debate.

Mas… longe de deplorar essa situação, muito menos corrigi-la…é preciso partir dessa constatação – que Deleuze parece ser carta fora dobaralho pós-moderno‘… — Tal situação se deve ao fato, de que ele inventou suas peças – outras regras… um novo jogo. — Pois…em Deleuze não se ouvirão lamúrias…ou profecias sobre o fim do sujeito ou da História, da Metafísica ou da Filosofia… do social, do político, do real ou mesmo das artes… Por suas próprias palavras…

Jamais me preocupou a superação da Metafísica ou a morte da Filosofia, e quanto à renúncia ao Todo, ao Uno, ao Sujeito…nunca fiz disso um drama.

Cada um dos conceitos de que a teorização contemporânea faz o luto pomposo, uma vez lançados no plano que Deleuze ajudou a criar, rodopiam, alegremente, em favor daquilo que pedia passagem, e que cabe à Filosofia experimentar a partir das forças do presente. Desse modo…seu pensamento produziu uma sonoridade filosófica pouco sintônica com     a música enlutada do pós-moderno, ou com algumas de suas fontes.

Nenhum pathos em relação à origem ou ao destino (do ser…do pensamento…da história, do Ocidente), nenhum ódio ou desprezo pelo mundo, nenhum ressentimento ou culto da negatividade – mas, tampouco complacência alguma em relação à baixeza do presente, e sobretudo uma abertura extrema ao improvável… à multiplicidade contemporânea, e aos processos que ela libera.

Tal prática filosófica tem todos os riscos de ser mal-entendida por quem está habituado a um ponto de vista histórico-filosófico – a partir de uma exterioridade crítica ou reflexiva, mas também para aqueles que, ao contrário, contentam-se em descrever com deleite, em um misto de melancolia e volúpia, o niilismo contemporâneo…

O ‘exercício imanente’ em Deleuze traça uma neutra linha transversal na atualidade, recusando o catastrofismo e a complacência, bem como seus efeitos de paralisia ou cinismo.

Se é a utopia que faz a junção da Filosofia com sua época … Deleuze se pergunta se este é ainda o melhor caminho… — distinguindo entre as utopias libertárias, revolucionárias, e imanentes  —  por um lado… daquelas totalitárias… – seja religiosas, ou estatais.

Em todo caso — a utopia em Deleuze jamais remete a um tempo futuro… e uma forma ideal. Designa antes o encontro entre o conceito e o meio presente, entre um movimento infinito e o que há de real aqui e agora… — que o ‘estado de coisas’ impedia de vir à tona.

Ao embaralhar as cartas…do desejo e da economia…do homem e da máquina…da natureza e da cultura  —  e, pressentindo o ‘grau de hibridação’ que as décadas subsequentes apenas intensificariam… inventou-se uma nova maneira de sondar o presente — ‘detetando nele o intolerável’… não a partir de uma universalidade ideal desacreditada, mas sim a partir das forças que pediam novos maneiras de existência…redistribuições de afeto…bifurcações da subjetividade individual e coletiva.

E essa é uma das principais funções da Filosofia para Deleuze  –  sondar o feixe de forças que o presente obstrui, fazer saltar as transcendências que nos assediam, acompanhar as linhas de fuga por toda parte em que as pressentimos. — Sobre o traçado de um plano de imanência, forjar conceitos que configurem acontecimentos por vir – fazendo daí, novos modos de existência… sem qualquer anseio de totalização.

É à luz desse preceito que se pode apreender os conceitos criados por Deleuze. Mas, como avaliar se os acontecimentos que uma filosofia invoca, e as formas de ser que ela faz advir, são ‘melhores’ do que aqueles aos quais se contrapõe?… – Não há outros critérios que não imanentes — como responde Deleuze…na esteira de Nietzsche…

“Uma possibilidade de vida se avalia nela mesma – pelos movimentos que ela traça, e pelas intensidades que cria…não havendo nunca outro critério senão o teor da existência, a intensificação da vida”.

A vida como virtualidade pura, potência pré-individual, campo de imanência do desejo. A ‘morte de Deus’ não significa outra coisa – que a emergência desse plano povoado de singularidades nômades…individuações inumanas…vitalidade impessoal.  (texto base)

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O Princípio Filosófico da ‘Verdade’

Os filósofos costumam pensar em sua área como aquela em que se discutem problemas universais e eternos… — O mérito da filosofia contemporânea, todavia… é o de chamar atenção para diversas refutações… desempenhando assim, a ‘função social’ de impedir     a ilusão de se obter falsas verdades. – Mas será que, realmente, existe uma verdade?…

O contexto histórico

A filosofia nasceu, a partir da escravidão na Idade Antiga… – a qual permitiu o ócio a uma minoria da população grega – questionando o senso comum, e os mitos.  Segundo consta, Pitágoras (582-497 a.C) foi quem inventou o termo filosofia, muito embora, seu surgimento conceitual remonte a um processo, que começou – provavelmente – no século VII a.C.

Na antiguidade, os gregos estavam organizados em “Cidades-Estado”…onde prisioneiros de guerra, ou pessoas endividadas, se tornavam escravos. Assim, escravidão na Grécia — na realidade… não possuía qualquer vinculo com o contexto étnico ou racial…

Quando alguém se via sem dinheiro – pedia empréstimo – dando esposa e filhos como garantia. – Caso não pagasse a divida… o devedor tinha sua família escravizada…e, ele mesmo, podia se tornar escravo…Por este motivo, pessoas sem posses eram chamadas ‘proletários‘, que significava…“aquele que possui como posse sua prole – seus filhos,       e esposa”.

Nesse contexto – até o surgimento da filosofia…as opiniões eram senso comum…crenças coletivas baseadas nas aparências. E, essa situação só mudou a partir do momento em que, alguns poucos privilegiados – no caso… cidadãos das Cidades-Estado – graças ao trabalho escravo, passaram a gozar de tempo livre pra pensar…refletir sobre o mundo a sua volta, e investigar o que existia por trás das aparências.

Opiniões de senso comum – inicialmente questionadas…eram aquelas que embasavam os mitos – na verdade… – ‘explicações sobrenaturais’ para aquilo que a razão não conseguia compreender. Muito embora os mitos fossem mais amplos que isto…pois normatizavam a vida em sociedade – fornecendo um código de ética primitivo… ao demonstrar às pessoas como se comportar, através de lições transmitidas de geração em geração.

O mito de Édipo, por exemplo… aquele no qual o filho, sem saber, se apaixona pela mãe, e acabando em tragédia – servia para renegar relações incestuosas. Já o mito     de Narciso, que teria se apaixonado pela própria imagem refletida num lago; e, se afogado – simbolizava como a vaidade poderia acabar em tragédia.  

Assim – quando a filosofia surgiu…os mitos eram tidos como ordenadores do mundo. Ao questioná-los… – os primeiros filósofos passaram a procurar por um ‘elemento racional’, que ordenasse o Kaos; e assim, entender o Kosmos, principio organizador do universo.

Sócrates nunca existiu!?…

Os “filósofos” foram os 1ºs cientistas a questionar o mundo…antes mesmo da escrita, por meio de ‘grandes debates‘       em praça pública … — na tentativa de desvendar as ‘verdades estabelecidas’.

Nessa ocasião, atribui-se a Sócrates a criação da ‘maiêutica‘ … um processo pedagógico constituído em multiplicar perguntas para se obter… por indução,       um conceito geral.

A figura de Sócrates – na verdade, sintetiza a essência do que é a filosofia. Ele teria vivido em Atenas, no século IV a.C… – Era um homem que… quando falava, fascinava… Passava horas em praça pública, interpelando os transeuntesdizendo que quanto mais aprendia, mais percebia nada saber – pois, ainda restava muito por conhecer… Ideia expressa pela famosa frase: “Apenas sei, que nada sei”.

Seu método consistia em destruir a ilusão do conhecimento, levando seu interlocutor a concluir, por si só, afirmações contraditórias – não tendo outra saída… a não ser reconhecer sua própria ignorância.

Por este motivo, Sócrates terminou condenado a escolher entre o exílio e a morte; optando por tomar cicuta (um veneno)… Na antiguidade, o exílio era considerado pior que a morte, pois isolava o sujeito — os gregos consideravam os estrangeiros com status social abaixo dos escravos…Ninguém dava atenção ou oportunidades aos estrangeiros; daí, ser exilado, para Sócrates, significaria viver a margem da sociedade, sem poder interferir em nada, para mudar as coisas.

A vida de Sócrates simboliza o que é a filosofia – um questionamento da realidade que pode ser incômodo e perturbador para a ordem estabelecida… — Não é a toa que…nos Estados totalitários e ditaduras… a filosofia é sempre eliminada… ou, minimizada nos currículos escolares… enquanto os filósofos são perseguidos.

Inspirado por sua filosofia, e narrado por Platão na obra ‘A República‘, o “Mito da Caverna” diz muito sobre quem somos nós, seres humanos, e como nos comportamos até hoje… – Segundo o mito… 3 homens teriam sido criados em uma caverna … vendo apenas sombras do que se passava lá fora, pois estavam acorrentados junto à parede. Um dia, um deles consegue se soltar, e sair da caverna… No inicio fica meio cego pela     luz do sol que nunca havia visto… – mas depois… começa a enxergar, e percebe que o mundo real não eram as sombras que conhecia. – Maravilhado, retorna, e conta aos outros 2 o que havia visto… – Então… um dos companheiros de caverna… assustado, propõe ao outro matar aquele homem que estava perturbando a ordem estabelecida. Mais ponderado, o 3º afirma que … aquele companheiro que dizia ser a realidade de dentro da caverna apenas sombras era somente um louco, que não merecia atenção.

O ‘grande problema’ com relação a Sócrates é que  –  grande parte dos entendidos em história da filosofia antiga crê que ele nunca existiu — sendo um personagem criado por Platão — o qual em seus textos se dizia…dele, um discípulo.

Segundo Platão — por Sócrates ser analfabeto… – não deixou registro escrito; com todo seu pensamento narrado pelo…”suposto discípulo”.

Platão era aristocrata, e talvez por isso tenha usado seu personagem, ‘Sócrates’ para abordar problemas que não poderia tratar diretamente…até indicando o seu destino, caso tivesse optado por se opor aos aristocratas…ao narrar o julgamento de Sócrates, e seu trágico fim.

A origem da construção evolutiva                                                                                       A filosofia permite desvendar o que está por detrás das aparências. Por isto, ela – que nasceu na antiguidade…agregando todas áreas do ‘saber humano’ – era o que mais se aproximava do que hoje chamamos ciência’.

Embora a definição de ciência comporte múltiplas explicações — tal como a afirmação de Aristóteles de que seria a busca do universal e eterno; a ciência – diferente da filosofia – a qual pretende alcançar a verdade… – busca o entendimento da realidade.

Na Idade Média, restrita aos mosteiros, e manipulada pelos religiosos católicos, a filosofia assumiu o caráter de defesa da fé… contexto aliás, muito bem ilustrado pelo livro de Humberto Eco — “O nome da Rosa”.

A filosofia somente retomou sua vocação questionadora no inicio da ‘Idade Moderna’,  quando René Descartes…separando a fé da razão…deu luz ao método racionalista, no   qual opiniões sistematizadas em uma teoria do conhecimento forneciam as bases   para a fundação da ciência.

No entanto, até o século XVIII, no surgimento das universidades, na Idade Média… – todas áreas do conhecimento humano se dividiam em apenas 4: teologia, direito, medicina e filosofia.

Portanto, excluindo os assuntos no âmbito da teologia, direito e medicina; todas as outras áreas do conhecimento humano eram consideradas ‘filosofia‘ – tal como … por exemplo, matemática, física, química, história, geografia, etc… — Ciência e filosofia se confundiam, tornando o conhecimento filosófico extremamente amplo.

Foi quando os iluministas propuseram a ‘enciclopédia‘, iniciando a separação da filosofia em várias áreas especializadas. Para eles, o conhecimento acumulado pela humanidade havia se tornado ‘vasto demais’ para ser contido apenas pela filosofia,         sendo necessário sistematizar a continuidade de sua evolução. – O que fez, a partir         de então, a filosofia começar a se distinguir da ciência.

Durante a antiguidade… filosofia e ciência eram sinônimas, confundiam-se. Na Idade Média aconteceu o mesmo; com a diferença, que teólogos cristãos usaram o conhecimento filosófico para manipular o senso comum em favor da fé… A situação só começou a mudar com Galileu, Copérnico, e Descartes.

http://sesi.webensino.com.br/sistema/webensino/aulas/repository_data//SESIeduca/ENS_MED/ENS_MED_F02_FIL/686_FIL_ENS_MED_02_06/investigando_caminhos.html

Galileu(1564-1642)…Copérnico(1473-1543)…Descartes(1596-1650)

No século XV, Nicolau Copérnico iniciou, oficialmente…o processo para a mudança da mentalidade humana, sendo complementado       por Galileu Galilei.

O ‘mundo aristotélico’ geocêntrico é deslocado para o heliocêntrico, e antropocêntrico.

Já no século XVI… Galileu inicia a ‘matematização da realidade’…auxiliado por alguns instrumentos que ampliaram os sentidos, sistematizando a observação dos fenômenos, descobrindo regularidades e afirmando leis gerais. – René Descartes então referendou   esta tendência… — construindo o método… — e inaugurando a modernidade.

No entanto, a ciência só adquiriu autonomia, separando-se da filosofia e da religião, no século XVIII. E, a partir do século XIX, a ciência passa a ser vista como um processo de investigação a fim de alcançar um conjunto teórico de conhecimentos… – considerados verdadeiros, por generalizações verificáveis.

A busca da neutralidade científica

A partir do século XVIII, dentro do espírito iluminista da revolução francesa, a ciência passou a pretender ser objetiva, neutra, isenta de ‘influências ideológicas’…e voltada à construção de um conhecimento desinteressado em prol do beneficio comum.

Através da ‘enciclopédia iluminista’, teve inicio a separação entre filosofia e ciência, com a especialização do conhecimento humano – uma tendência completada no século XIX pelo ‘positivismo’que, a despeito dos estragos que seriam efetivados pelo ‘pragmatismo’ – no século XX – teve como consequência, a aceleração do progresso cientifico.

Sem embargo, não podemos esquecer que a ciência reflete interesses os mais diversos, apresentando um modelo que pretende desvendar a realidade; mas, que é fruto desta mesma pretensa realidade…e, que são homens que fazem a ciência, portanto, sujeitos       a influências sociais, culturais, políticas e econômicas… – Além disto, existem fatores, tais como a pressão exercida pelos órgãos de fomento – que levam a questionar uma possível ‘neutralidade cientifica’.

etica-cientifica

Nesse sentido…o contexto especifico elabora os ‘problemas analisados’ — bem como suas soluções… – levando a questão da ‘neutralidade científica’ para o campo da ética, em nome de um pretenso ‘progresso humano‘.

Em outras palavras…cabe questionar os limites da ciência, ou seja, até que ponto certos atos justificam métodos e recursos empregados… – É por isto que … a partir do século XIX – a filosofia passou a discutir a ‘questão da ética científica’ (mais ainda justificada quando humanos ou animais são experimentados como cobaias.)

Filosofia, Ciência & Ética

Enquanto a filosofia busca a verdade, dentro de um sistema inquestionável e inabalável; a ciência encontra sempre verdades provisórias. Segundo Karl Popper, toda hipótese deve ser considerada verdadeira – obviamente… desde que fundamentada – até que uma outra demonstre sua falsidade (princípio da ‘falseabilidade’)… Este conceito  –  mais tarde…foi complementado pela ideia de ‘paradigma‘ de Thomas Kuhn…segundo a qual, qualquer hipótese seria circunscrita a uma base referencial…da qual se faz um ‘conjunto teórico‘.

Na ciência, a despeito de se trabalhar com hipóteses e teses, a convivência de paradigmas não é possível, pois as contradições não são aceitas – uma verdade, mesmo que provisória, anula a outra. Quando uma contradição é verificada, isto conduz à ‘quebra de paradigma’, e sua substituição por outro conjunto teórico referencial – pois uma teoria se contrapondo à sua base teórica de sustentação leva à construção de um novo paradigma — no que Kuhn chamou revolução cientifica (O paradigma não admite contradições, nem paradoxos.)

Já na filosofia, a verdade é dogmática e, ao mesmo tempo, relativa.  –  A verdade é bem definida para determinado sistema filosófico – dentro de certos argumentos lógicos, mas esta verdade coexiste com outras. A ‘quebra de paradigma‘ não acontece — conjuntos teóricos paradoxais coexistem…  –  a exemplo do que acontece nas ciências humanas.

Cada concepção filosófica espelha  —  apenas  —  uma coerente visão             distinta, de uma mesma verdade oculta, fora da “caverna platônica”.

Quando a ciência começou a tornar-se complexa – se multiplicando e particularizando, sua especialização passou a comportar forte influencia ideológica. Simultaneamente, o avanço da tecnologia tornou a fé na ciência dogmática, uma contradição dentro de sua base de sustentação, tida como provisória. Esta fé quase nunca reconhece as limitações     da ciência, impedindo uma reflexão ética sobre sua utilidade e seus limites.

Como consequência, passa a ser função da filosofia também analisar os fundamentos da ciência, questionando seu próprio conceito…e papel no mundo… – além das possíveis consequências de seus inventos.

PENSADOR

Além disso… cabe à filosofia questionar sobre a neutralidade dos cientistas na manipulação de resultados, e condução das pesquisas em termos ideológicos. Quais os limites da ciência? Até que ponto as pesquisas são benéficas à humanidade?…E, quais limites éticos o avanço científico deve respeitar? Essas perguntas conduzem a outras, tais como – O que é a ciência? O que pode e o que deve a ciência realizar? Qual sua função? Existe a neutralidade cientifica?…Até que ponto é confiável? Podemos questionar a ciência?… — Será que a ciência é boa para a humanidade? Dúvidas que multiplicam as perguntas.

A filosofia é hoje uma espécie de “debate adjacente, e implícito” sobre as condições das diversas discussões presentes nas ciências… E, os debates filosóficos não cessam, enquanto novas discussões não param de surgir. 

A crítica do sistema filosófico

No inicio da década de 1960, o francês Victor Goldschmidt escreveu um texto – hoje clássico…Trata-se de “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” – presente em sua obra “A religião de Platão” … Pensando na história da filosofia – para ele existem 2 modos de interpretar um ‘sistema filosófico‘ – fazendo questionamentos do texto sobre sua origem, ou sobre sua verdade.

Em outras palavras, um sistema filosófico compõe uma verdade dogmática, perfeito na sua explanação lógica, e na sua pretensão de ser inquestionável…Por esse motivo, é passível de ser questionado através do contexto de sua construção – e/ou pelos embates suscitados na época de seu surgimento. Desse modo portanto seria possível contestá-lo através de outro, construído justamente para questioná-lo.

Por exemplo, questionar o sistema cartesiano por ele mesmo é impossível; Descartes tem respostas para todas as objeções através de suas obras. No entanto, o ‘sistema cartesiano‘ pode ser questionado pelo ‘empirismo‘.

Nasce ai o grande dilema — a existência de sistemas filosóficos que se contrapõem sem causar a anulação mútua. Estes sistemas coexistem de forma paradoxal, inclusive com novos conjuntos de pensamento tentando conciliar as contradições — criando soluções para o paradoxo, que não fazem mais que multiplicar verdades, sobre o mesmo objeto.

É o caso do sistema kantiano – que… através do                                   ‘criticismo‘, conciliou ‘racionalismo’ e ‘empirismo’.

Desse modo, a ‘filosofia contemporânea’ dividiu-se em várias correntes diferenciadas. De um lado, a filosofia analítica inglesa – que evoluiu até o ‘positivismo lógico’…e do outro, o pensamento alemão e francês… relacionado com Nietzsche, Heidegger e Freud. Assim… a filosofia tornou-se ainda mais eurocêntrica…pondo de lado tudo que não fosse produzido por lá…(inclusive a ‘filosofia brasileira’.)

O ponto comum entre as tendências, apesar das diferenças, passou a ser a preocupação comum com a ‘crítica da linguagem… Dentro deste contexto, a ‘lógica‘ passou a ter papel decisivo. O que é facilmente compreensível…uma vez que a filosofia se inseriu na discussão sobre as condições do ‘debate cientifico‘… ao analisar suas argumentações.

A crítica da linguagem, abordando a utilização da construção objetiva do discurso como instrumento de conhecimento nas ciências, tentava definir suas possibilidades e limites. O papel da filosofia, assim… passou a ser mostrar erros e ilusões na pretensão cientifica da verdade. – Mas, qual seria o papel da linguagem na descrição do mundo?   

Filosofia, Educação e Linguagem

Pensando na linguagem como articuladora de teorias cientificas…a filosofia encontrou 2 alternativas.

1ª hipótese parte da premissa de que ‘verdades cientificas’ são representações vinculadas ao sujeito formador da teoria;  fruto portanto, da sociedade e sua época.  O que – embora particularizada, geraria uma verdade aceita em dado momento e espaço — articulada por uma linguagem convincente… Remetendo a uma gênese constitutiva de um objeto – pelo ângulo psicológico e histórico.

A segunda hipótese afirma que uma teoria tem um ‘valor objetivo’, independente da história, e das representações daquele que capta a realidade, e a transforma em ciência. Definição que escapa da “jurisdição psicológica“… para tornar-se objeto de uma lógica renovada… admitindo a possibilidade de se alcançar a verdade.

Neste caso, a teoria também carece do uso da linguagem para ser expressa; mas, como toda linguagem está vinculada ao tempo e espaço… a verdade – mesmo cientifica, não existe – no máximo, apenas há verdades provisórias.

A filosofia tradicional – por seu lado…através de um fundamento único, busca a correta compreensão epistemológica da capacidade humana de representar – de modo exato, a natureza e a realidade…Kant, buscou esse fundamento para a renovação da filosofia, o qual só pode ser definido como a ‘ciência da linguagem‘.

Considerando a filosofia como linguagem, em lugar do conhecimento único e seguro, devemos procurar fatos dentro de um discurso…Este, por sua vez, deve ser encarado apenas como ‘encadeamento de palavras’. – Estando estas, ligadas umas as outras, e       não ao mundo… – a filosofia – com efeito…não pode atingir a ‘verdade’.

Entretanto, o grande mérito da filosofia é questionar a verdade, derrubando a pretensão de um conhecimento absoluto… Não importa a posição que se adote, tampouco importa     se a verdade é alcançável ou não…Seu lema deve ser modificar o homem por intermédio do debate, fomentando uma busca incessante por novos, e melhores valores… – Ou seja:

A principal tarefa da filosofia deve ser a de garantir as condições do dialogo – tornando a discussão permanente e ininterrupta. Abandonar a analise funcional do conhecimento para abrir espaço à conversação, favorecerá o renascimento da filosofia. A ‘diversidade filosófica’ ganha nova dimensão… – e a verdade em si passa a ser menos importante do que o processo de sua busca.

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CiênciaMétodo & Técnica

Não obstante a definição de ciência comportar múltiplos conceitos… — a teoria que remete aos seus princípios — é dependente de métodos, e técnicas para tornar-se viável.

Para Aristóteles, por exemplo – a ciência seria a busca do universal e eterno…Já no âmbito atual,   é tida como o processo de investigação, a fim de obter um conjunto de conhecimentos, supostos verdadeiros, por meio de generalizações verificáveis.

Para compor hipóteses e verificá-las, cerne do conhecimento cientifico, responsável por sua distinção do senso comum; o método é essencial; estando – por sua vez… estritamente vinculado à técnica.

O método é definido como a ordem estabelecida na investigação da verdade, carecendo da técnica para ser efetivado, ou seja, de um grupo de processos específicos, ordenados em consonância com a metodologia. – Segundo o historiador Júlio Arósteguio método atuaria como uma bússola para a teoria – um sistema de orientação dos rumos a serem seguidos para obter certezas.

Enquanto a teoria proporia explicações aos fenômenos – e soluções para os problemas observados – o método seria o procedimento adotado ao se determinar os ‘passos vitais’ para explicar e demonstrar a realidade, comprovando hipóteses.

Entretanto, paradoxalmente – assim como a teoria depende do método, este último também só poderia existir dentro do âmbito dos procedimentos lógicos, formulados           a partir de pressupostos teóricos… – formando o que os lógicos chamam de ‘circulo’.

A técnica, segundo uma definição alcançada em 1890 pelo filosofo Alfred Espinas,     seria, justamente, o conjunto de procedimentos ordenados pelo método… – ou…a     prática necessária para sua efetivação — de forma que o método poderia empregar diversas técnicas – e uma técnica ser útil a diversos métodos.

Apesar de um certo interesse de Aristóteles, na antiguidade, pela composição de um “método — chamado por ele ‘investigação‘, foi René Descartes — no século XVII… — o primeiro a formalizar  um método científico… tentando, com seu ‘Discurso do Método‘, fornecer um caminho…pelo qual fosse possível obter “resultados”.

Descartes pretendia assim,  criar um programa que regulasse… de antemão uma série de operações que evitassem erros — dividindo problemas complexos em partes menores para facilitar sua resolução… à semelhança     de uma equação matemática – resolvida parte a parte – até atingir a solução do todo.

A teoria, o método e a técnica – unidos, compõem um sistema, constituindo um modelo que torna a ciência possível…O conceito de modelo implica em operações visando representar as relações e funções que ligam as unidades de um sistema, por meio de generalizações, que permitam suas explicações.

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Atitude filosófica

Devemos sempre lembrar que  —  ao longo da história da construção do conhecimento humano nunca existiu uma distinção entre filosofia e ciência. – Esta, só apareceu após  Kant – no século XVIII…quando a filosofia passou a ser considerada como área básica,   ou seja, ciência… no sentido mais elevado.

Iniciou-se, então, o tempo dos historiadores da filosofia passarem a se dedicar ao paciente trabalho de seleção e analise do pensamento filosófico já estruturado…Operação que fez o conceito de filosofo, e historiador da filosofia, muitas vezes se confundir.

Não obstante – seja qual for a profissão ou ocupação, o mundo contemporâneo exige dos indivíduos senso critico. E, a passagem do senso comum para o senso crítico é operada, justamente, pela filosofia – estimulando a reflexão e o questionamento sobre as verdades estabelecidas. Assim, a filosofia elimina o achismo, e torna as opiniões mais embasadas e sistematizadas, possibilitando a construção de ‘metodologias‘.

Substituindo afirmações por indagações, a filosofia ajuda a enxergar além das aparências. Permitindo a obtenção de um instrumental… para pensar de forma lógica… — com maior coerência, possibilita a formulação do discurso de maneira clara… – Poderia existir uma poderosa ferramenta mais valiosa?

‘Uma introdução à Filosofia da Ciência’ # ‘História, Métodos e Técnicas’                         ‘Diversidade filosófica e a busca da verdade’  #  #  #  ‘O que é filosofia?’

Textos: Fábio Pestana Ramos. Doutor em História Social pela FFLCH/USP.         Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo… (USP) ***********************(texto complementar)****************************

Breves Considerações Filosóficas sobre a ‘Verdade’                                                 A Filosofia nos reserva a alegria de conhecer a verdade sobre a existência, que só a experiência nos revela. Sua legítima função é a de nos oferecer uma percepção mais completa da realidade. Ao mesmo tempo em que essa realidade é criada (contínua e imprevisivelmente), sua imagem se reflete por trás dela – num passado imaginário. Descobre-se, então, ter sido ela… desde sempre… possível e realizável” (H. Bergson)

Sergei Aparin - Entre les époques I

Sergei Aparin – Entre les époques I

A filosofia sempre foi uma luta pela clareza e coerência, e sob esse aspecto, é uma obra linguística particular e privilegiada. É na reflexão e especulação filosófica que todos os problemas do sentido vêm refletir … Sua história demonstra que ela sempre combateu       as “armadilhas da linguagem”… e, portanto — sempre estará em luta consigo própria.

‘O valor da verdade para a filosofia é a sua própria essência’…

Esperamos estar com a verdade… – mas não podemos consignar a verdade a um sistema filosófico produzido pela história cultural… Como não existem categorias preexistentes à ciência… o “meio cultural” é o local histórico da confrontação dos valores… – O homem descobre o verdadeiro como uma forma cultural que de certo modo institui em terreno válido a questão filosófica do existir.

 A finalidade científica

Não existe ‘verdade filosófica‘. A filosofia não é um tipo de especulação cujo valor possa   ser medido por falso ou verdadeiro. Seu valor intrínseco é diferente do valor da verdade, que – a rigor, só pode convir ao conhecimento científico.

A ciência constitui a verdade, mas, não como um fim em si mesma. Então, a questão da interrogação sobre sua finalidade prática é uma questão, fundamentalmente, filosófica,     e não científica. A ciência não descobre a verdade, ou não revela uma realidade que lhe seja anterior. Ela, em suma, institui, e constitui o problema da verdade, e os processos efetivos pelos quais — este problema pode receber…uma série de respostas ordenadas.

Sendo o homem, historicamente, produtor da verdade — sob a forma prática científica, então – para toda produção se coloca o problema do fim (telos) do produzir. A filosofia,   no entanto, não é uma produção da verdade (como tal…) mas… de certa forma — ela se interroga sobre seu fim  –  sobre a destinação deste particular acontecimento produtor.

 A filosofia será tão mais indispensável, quanto                                                       mais técnica e específica — a ciência se tornar. 

O ser e a totalidade

Não havendo uma verdade filosófica…esta só aparece numa relação com a totalidade‘… (Natureza, Homem, Cosmos) – pois… sendo a ciência restrita a aspectos extremamente especializados, que estabelecem tecnicamente sua própria verdadepara ela não há um ‘objeto absoluto’… Assim sendo, reservamos esta totalidade na qual estamos inseridos à relação com a questão filosófica da verdade.

Por ser própria à filosofia, a totalidade não está na natureza…no cosmos,   no mundo. A ideia de totalidade figura na maneira pela qual se recupera, racionalmente … a relação do ser — com o fenômeno singular do ‘existir’.

A função cosmológica

As ciências falam uma linguagem técnica, aproximadamente unívoca, e se constituem apenas de verdades – no senso estrito do termo. Esta linguagem, que possui um certo código restrito, está ligada a uma linguagem natural, que – antes da filosofia…era, ela mesma, espontaneamente ontológica.

Depois de Einstein, a cosmologia, com efeito, passa a ser usada pelo imaginário – e, não mais pelo racional… Hoje, as verdades científicas, perdendo o seu sentido ontológico, se tornaram – essencialmente… culturais.

O problema da incompletude   

Em filosofia não há erro – nem progresso. Uma grande filosofia é aquela que se aproxima de uma relação com a realidade – abarcando a totalidade das questões de sua época; e, da qual sentimos que obtemos uma impressão verdadeira.               

Toda filosofia moderna – sobretudo após Kant – que se caracteriza pelo conhecimento da verdade – não basta para resolver a questão filosófica da totalidade…A verdadeira filosofia hoje, é obrigada a certa vulgarização (no bom sentido) para poder retraduzir     o que jamais se traduzirá — a ‘essência da verdade’…  seu projeto de início, ou destino.

Philosophie et Verité‘…  —  debate de ideias entre Jean Hyppolite, Georges Canguillem, Paul Ricoeur, Michel Foucault, e Alain Badiou. 1965 (youtube) *********************************************************************

TARSKI E A CONCEPÇÃO SEMÂNTICA DA VERDADE

O que significa dizer de um enunciado, que ele é verdadeiro?… – Responder a essa pergunta é, necessariamente…comprometer-se com algum tipo de ‘teoria da verdade.

Dentre as mais diversas teorias da verdade elaboradas ao longo da história da filosofia ocidental a chamada ‘teoria da verdade por correspondência’…é – sem dúvida – a mais conhecida (e, muito provavelmente, a mais conforme às crenças… do que poderíamos chamar de senso comum).

Segundo ela…o que torna um enunciado verdadeiro (…ou falso) é uma relação de correspondência (ou não) entre o que é enunciado, e certos fatos, ou estados de               coisas…realmente existentes no mundo.

O enunciado “A capital da China é Pequim”, por exemplo é verdadeiro se realmente há uma cidade chamada “Pequim”…  —  e, se realmente esta cidade é a capital do país que convencionalmente chamamos “China”…  Já o enunciado “A capital do Japão é Seul” é falso, segundo essa teoria, porque… embora realmente exista a cidade chamada “Seul”,     ela não é a capital do país a que denominamos de “Japão”, mas sim…do país chamado “Coréia do Sul”.

Portanto, segundo a teoria da correspondência, a verdade ou a falsidade de um enunciado é determinada pela existência de fatos que correspondem…inequivocamente, ao conteúdo que está sendo enunciado. Mas, apesar de sua ampla aceitação e de sua aparente correção, essa teoria, já desde suas 1ªs elaborações mais explícitas (provavelmente com Aristóteles), viu-se presa de dificuldades teóricas bastante contundentes.

Uma dessas dificuldades pode ser bem ilustrada… por qualquer uma das variações do chamado paradoxo do mentiroso. Consideremos, por exemplo, o seguinte enunciado: “Este enunciado é falso”… Segundo a teoria da correspondência, este enunciado seria verdadeiro se existisse um fato correspondente ao que está sendo afirmado … ou seja,       ele seria um enunciado verdadeiro se realmente fosse um enunciado falso… mas, se o enunciado fosse falso, isto é, se nenhum fato correspondesse ao que afirma… – então,         o enunciado “Este enunciado é falso” deveria ser verdadeiro.

Nada poderia ser mais incômodo para a ‘teoria da correspondência‘… ou qualquer outra teoria que pretendesse explicar em que consiste a verdade, do que ter em seu encalço um paradoxo dessa natureza. É justamente como um meio claramente deliberado de se livrar das dificuldades geradas pelo paradoxo do mentiroso (e outros semelhantes) que o lógico polonês Alfred Tarski elaborou sua chamada ‘teoria semântica da verdade’.  (texto base)

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Consciência & Hiperespaço (com Saul-Paul Sirag)

“Qualquer tecnologia alienígena mais avançada                                                    seria indistinguível da magia”  (Arthur Clarke)

JEFFREY MISHLOVE:  Boa noite, e bem vindos à ‘Rede Intuitiva‘. Nosso tópico         esta noite é ‘realidade multidimensional’, ou ainda … o que os físicos chamam             de “hiperespaço“. Meu convidado, Saul-Paul Sirag, físico norteamericano que desenvolveu teorias sobre idade e tamanho do universo… – assim como “estrutura matemática” de partículas subatômicas… – Saul-Paul, bem-vindo ao programa…

Sirag: É um prazer estar aqui.

Mishlove:  É  um prazer tê-lo aqui, também. Você sabe, o hiperespaço é um conceito muito confuso… Eu me lembro, quando jovem estudante na faculdade — talvez 20 anos atrás, as pessoas zombavam da possibilidade de mais que 3 dimensões. – E agora, ao meu ver a noção de ‘hiperespaço’, ou ‘realidade multidimensional‘…já   é considerada pelos físicos… – uma “questão consolidada”

Sirag: Bem… – talvez ainda não… totalmente ‘consolidada’ , mas eles estão levando isso bastante a sério. Mas, é interessante que você tenha mencionado uma grande confusão,   há anos, sobre o “hiperespaço“…

 Com efeito, a ideia moderna de hiperespaço remonta ao matemático do  século XIX…Charles Hinton — quem primeiro pensou sobre um espaço de    4 dimensões – ideia que foi… de certa forma…suplantada pela teoria de Einstein do espaçotempo, em meados do século seguinte.

Em outras palavras…Einstein mostrou que, espaço e tempo estavam conectados em um sistema de 4 dimensões – e por causa disso, as pessoas passaram a ridicularizar as ideias anteriores de uma 4ª dimensão espacial, porque diziam – bem, a 4ª dimensão realmente não é espacial, é temporal… Porém, mais recentemente…descobrimos na física que o que estávamos há muito tempo chamando de ‘espaços internos das partículas subatômicas’, são realmente espaços, assim como o “espaçotempo“.

Na verdade, o quadro que emergiu agora, o qual é muito interessante, é que, na verdade, há um sistema dimensional muito maior do que apenas uma ou 2 dimensões a mais. Há muitas dimensões extras; e dependendo de como você contar dimensões, e de como sua teoria funciona, você pode ter 10 dimensões, 26 dimensões…ou até muito mais que isso.

Mishlove: Estas são consideradas, literalmente, dimensões do espaço, de fato?

Sirag:  Os  físicos que trabalham com essas teorias as consideram dessa maneira, sim. E toda a ideia, realmente, é que o ‘espaçotempo’ – o sistema de 4 dimensões de Einstein, é, na verdade, apenas um subespaço deste espaço dimensional muito maior.

Isso me lembra muito a alegoria de Platão sobre o mundo das sombras         no interior de uma caverna… mais conhecida como o ‘mito da caverna’.

Platão disse que o povo acorrentado nesta caverna… – sem poder mover a cabeça … ou seus membros – identificaria sua própria consciência… e a si mesmos, com as sombras bidimensionais. – Claro que, obviamente Platão estava tentando dizer que somos mais       do que seres tridimensionais – porém, tendemos a nos identificar com nossas sombras tridimensionais, ou seja, nossos corpos.

É certo que a geometria não estava tão desenvolvida – estava então, apenas começando, e por isso ele não tinha a linguagem para falar sobre o hiperespaço da forma como fazemos hoje, mas eu acho que ele teve a ideia, intuitivamente.

planolandia

Mishlove: Nós temos agora, uma noção semelhante – os   “planolândios”… não é?     

Sirag:  Sim… – bem, na verdade … a ideia de Planolândia foi criada no século XIX… – pelo reverendo Edwin Abbott, para tentar fazer mais compreensível … a noção do “reino espiritual“, de acordo com um conceito ainda mais antigo que o de Platão…adaptado à nossa terminologia moderna.

Um domínio hiperespacial é certamente um território em que o cotidiano é apenas uma visão parcial da realidade… assim como o mundo espiritual possui um alcance, e uma riqueza muito maior. E isto, lógico… depende do domínio de sua própria existência.

E esta é bem a maneira como a “teoria do campo unificado” vê o mundo, hoje em dia… – Onde as diferentes vertentes desta teoria… – e há várias dela – em certo sentido…implicam, cada uma, certo tipo de hiperespaço.

Mishlove: Supradimensional…

Sirag: Diferentes dimensões acarretam diferentes estruturas daquele espaço.

Mishlove: Então, o que eles estão discutindo é sobre a natureza das dimensões                 superiores do espaço… – e não, se dimensões superiores existem, ou não…certo?

Sirag: Sim, e da forma como testar essas teorias.

A verdade é que cada dimensão corresponde, de acordo com a teoria clássica, a um tipo diferente de partícula subatômica. Então, essa é a maneira que poderíamos testar essas teorias… – encontrando provas da existência destas partículas…Mas, elas não são nada parecidas com ‘mini Big Bangs’… Aliás, são muito diferentes — razão porque poderiam,   de fato, corresponder à dimensões hiperespaciais. Mas…explicar isto nos levaria talvez, numa direção demasiadamente matemática.

Mishlove: Bem, é certo que não queremos seguir esse caminho. – Deixe-me, então, lhe lançar outra pergunta. Nós olhamos para a consciência humana, que, normalmente, parece ter estranhas dimensões de tempo e espaço. Fechamos nossos olhos e sonhamos;   e, todos nós temos fantasias, e imagens mentais de vários tipos… – Com a velocidade do pensamento, podemos ir, por exemplo, do Egito a Atenas, num piscar de olhos. Existiria, então algum sentido em que o espaço interior… – assim como nós o experimentamos, possa ser descrito nessa mesma linguagem a que você está se referindo…hiperespaço?

Sirag: Bem, isso é realmente o que eu acredito. E acredito nisso, a partir da noção total de ‘hiperespaço’ — seja quantas dimensões for — e, em certo sentido, o é… provavelmente, de dimensão infinita. Existem muitas projeções – subprojeções, poderíamos dizer, a partir de um espaço de dimensão infinita — digamos, um espaço de 192 dimensões, para um espaço 96 dimensões, e daí para um espaço de 48 dimensões; para, em seguida, uma redução a 12 dimensões; até o conhecido espaçotempo quadridimensional. Sendo que, cada uma dessas projeções implica diferentes condições sendo deixadas de lado… – por assim dizer.

http://labellateoria.blogspot.com.br/2007/03/espacios-fibrados-y-renglones-torcidos.html

Gordian Knot – John Robinson

Mishlove: Estamos falando agora da ‘teoria das cordas’, ou ‘teoria dos fibrados’?

Sirag: Bem, ‘teoria das cordas’ é um conceito que está sendo agora usado na ‘física unificada de partículas’. – Já ‘teoria dos fibrados’ significa a matemática por trás disso. Certamente quase todo mundo que trabalha em teoria do campo unificado hoje está…em essência, trabalhando em alguma versão da ‘teoria dos fibrados’, matematicamente falando. 

Mishlove: Com essas várias dimensões se reduzindo, ou se projetando uma na outra, como você acabou de dizer…

SIRAG: Sim.

Mishlove: Agora, uma coisa que temos de deixar claro para nossos telespectadores é… O que significa a teoria do campo unificado’?…Por que ela é tão importante?

Sirag: Bem, na verdade, toda a história da física tem sido a busca de unificar as forças da natureza. Newton – por exemplo, unificou o que chamavam de gravidade celestial com a gravidade terrestre – em outras palavras…a força que faz a terra girar ao redor do sol, e a lua em torno da Terra — que chamamos degravidade celestial’ — com a força que faz as pedras caírem.

Ele  unificou  essas  2  forças  em  um  belo  esquema…  Essa é a mecânica newtoniana. E, mais tarde, no século XIX, James Clerk Maxwell unificou eletricidade, magnetismo, e luz, em uma única teoria – assim…ele estava unificando 3 coisas muito diferentes.

Mishlove: No que chamamos de eletromagnetismo…

Sirag: Claro… Portanto, a luz é uma onda eletromagnética… E, bem mais recentemente, fomos capazes de unificar o eletromagnetismo, com o que chamamos de “força nuclear fraca – a força que controla, por exemplo, o decaimento radioativo. Então, decaimento radioativo é apenas um aspecto da “força eletrofraca“, assim como a chamamos agora.

Ademais, há outra força nuclear, denominada “força forte“, a qual mantém o núcleo do átomo unido contra a repulsão elétrica – que estamos tentando unificá-la… Mas, o maior problema de todos é unificar a “gravidade” com todas essas forças, e também descobrir se existem mais forças, de fora desse modelo… – à espera de novos dados experimentais.

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As interações spin-spin de longo alcance (linhas azuis) permitem que os elétrons na superfície “sintam” seus parentes no interior da Terra, a milhares de quilômetros de profundidade.[Imagem: Marc Airhart (UTexas-Austin)/Steve Jacobsen (Northwestern University)]

Por exemplo, eu e alguns colegas temos razões para acreditar que há outra força, que, às vezes, é chamada de 5ª forçaou força virtual; e, que precisaria também ser unificada…  –  junto com as demais.

Agora, é lógico que a razão para isso é sempre procurarmos uma forma mais abrangente – que consideramos, uma visão mais simples da realidade.

E a ironia é que para alcançar este nível mais simples da realidade, algo tem que se compensar… e esse algo, representa a dimensionalidade do sistema que se faz, em certo sentido, bem mais complicada.

Mishlove: Então, a teoria unificada final seria aquela em                                                       que a consciência também se encaixa no esquema, não é?

Sirag: Bem, não só se encaixa no esquema.

O que eu realmente penso sobre consciência, é que, no fundo, de alguma forma, em algum tipo de sentido realmente cósmico, há apenas uma consciência, e isso é verdadeiramente a coisa toda… Noutras palavras, o hiperespaço é a consciência agindo sobre si mesma; e, o ‘espaçotempo’ é, apenas, uma espécie de  ‘oficina sideral’  para que ele possa encenar suas várias obras. E, certamente, essa ideia é o arquétipo de mil diferentes tradições espirituais.

Mishlove: Uma mente cósmica… – Mas, o que você está dizendo é que, usando               apenas as ferramentas da ‘física moderna’, você pode chegar a essa conclusão?…

Sirag:  Sim… Bem, basicamente o processo que estamos fazendo, atualmente, é descrever esse domínio. Pode-se dizer que estamos descrevendo o domínio espiritual, se você quiser. Apesar da maioria dos físicos – obviamente, ainda não enxergar dessa forma, eu acho que daqui há algumas décadas, entenderão, com certeza.

Mishlove: Se não me engano, você foi citado na ‘Newsweek’ dizendo algo semelhante, no sentido de que a física é produzida pela mente humana – e, obviamente…está se referindo à consciência.

Sirag:  Bem… não foi isso exatamente o que eu disse… – Eu comentei que… tudo o que já descobrimos…e, o que ainda temos a descobrir em física – é, na verdade, a estrutura final de nossas próprias mentes. E esta é uma ideia que não modifico. – Eu a obtive a partir de outros físicos… – como Eddington… que a tinham muito bem consolidada.

Eddington, na verdade…era meio que ridicularizado à época… – mas, essa é uma ideia que faz muito mais sentido na física, no contexto do que estamos trabalhando hoje.

Pena que Eddington não mais esteja por perto … para curtir as novidades,   já que ele era “superinteressado” em …”teoria de campo unificado“…

Mishlove: Então, recapitulando… ‘teoria do campo unificado’ carrega   essas noções de ‘hiperespaço’ e ‘múltiplas dimensões’, e de alguma forma, nós estamos olhando para a estrutura… – não só do universo físico…mas da própria mente humana.

Sirag:  Sim, mas a ‘mente humana’ é apenas uma parte… – Assim como o ‘espaçotempo’ é apenas uma parte do ‘hiperespaço’…a mente humana é apenas uma pequena parte de uma mente muito superior… – que pode-se chamar ‘mente cósmica’ … se lhe agrada (ainda não temos muitas palavras para defini-la).

Mishlove: Bem, há muitos teóricos falando sobre superconsciência, inconsciente coletivo, e assim por diante. Ao olhar para a física e matemática de ‘espaços multidimensionais’, e a maneira em que os projetamos – reduzidamente – como você diz… de infinitas dimensões, para até, finalmente, chegarmos ao que consideramos como nossa realidade cotidiana — 3 dimensões de espaço, mais 1 de tempo – percebi que o que você está sugerindo, de alguma forma, é a possibilidade de uma descrição matemática da maneira pela qual a consciência cotidiana está relacionada com esta mente superior.

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Sirag: – Sim… Na filosofia há algo que chamamos ‘problema mente/corpo‘. Ou seja, o mundo físico, lá fora, parece ser tão diferente do mundo vivenciado internamente… – que pensamos como fazer… para que essas duas realidades tenham algo a ver — uma com a outra.

E, assim, algumas pessoas tentam resolver o problema dizendo… – Bem… a coisa toda é a mente!… tudo é mente… – Essa é a solução idealista…E depois…há a solução materialista, que quer dizer que tudo é matéria – e… os fenômenos mentais são essencialmente…

Mishlove: … um ‘epifenómeno… – subproduto da matéria.

Sirag:  Esta maneira de ver as coisas é uma forma um pouco menos rigorosa… no sentido em que se pode inclinar mais na direção de uma posição idealista. Mas, a bem da verdade, pode-se considerá-la também uma ‘solução materialista’…haja visto, estar se construindo, agora, uma ‘física do hiperespaço’.

Mishlove: Você está dizendo, então…que a matéria                                                                 não é o que estamos acostumados a pensar que seja?

Sirag:  Sim, certamente. Com efeito, a matéria tem adquirido ao longo do tempo, e cada vez mais, influências mentais…Por outro lado, as pessoas que estudam a mente por meio das técnicas convencionais de biologia, neurociência, etc, encontram mais e mais formas materiais de explicação, para aquilo que considerávamos…tradicionalmente, fenômenos mentais.  

Então, neste momento da história, os 2 lados se encontram em uma espécie de encruzilhada  —  e, eu acho que a solução para o ‘problema mente-corpo’ será encontrada neste ‘panorama hiperespacial de mundo‘.

Em outras palavras…pela antiga ideia espiritual de que a mente não está no corpo, pode-se imaginar a mente cósmica sendo este hiperespaço – se a mente está no corpo, então temos definitivamente um problema mente/corpo… – Mas é o corpo que está na mente. Assim, o corpo é apenas uma sombra que se projeta – por assim dizer… no hiperespaço… – e então, em certo sentido… tudo bem!… porque nossa experiência interna não está ligada… apenas ao hiperespaço… – ela é, na verdade…uma peça intrínseca ao hiperespaço.

(Nossas próprias mentes são projeções de uma                                               mente muito superior… – e…assim por diante.)

Mishlove: Quais poderiam ser algumas das consequências práticas deste ponto de vista? Como ele deveria mudar minha vida – para que eu possa ser capaz de compreender isso?

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“When I was dead”…(ELYPhAS)

Sirag: Bem, quero dizer, há maneiras éticas de avaliação. Se eu estou… – por exemplo, sendo projetado…a partir de uma ‘mente superior’, então estamos agora todos juntos no “hiperespaço“.

Mishlove: E esses corpos seriam como ‘fantoches‘, com um mesmo ‘mestre superior’, ou algo assim.

Sirag: Sim. – E…claro, pessoas que  adquirem  experiências psíquicas reivindicam para si, diretamente, este tipo de fenômeno; uma espécie de ligação mental com outra pessoa… – Imersos no “reino dos sonhos”… nós também experimentamos certo tipo de unidade… possivelmente… diferente daquela         que ordinariamente vivenciamos.

Mishlove:  E, o que você deve estar sugerindo, então… é que este                                             reino de sonhos é parte dessa noção matemática de hiperespaço…

Sirag: Bem, o reino dos sonhos é definitivamente um reino mental, eu diria.

Mishlove: Que poderia até, seguir as leis as quais você pudesse delinear…

Sirag: Sim, definitivamente. Veja, os físicos nunca levaram a sério o ‘mundo dos sonhos’  – ou mundos (existem muitos…provavelmente)… – Quero dizer…que é um estado muito parecido com um ‘estado físico’…porque, até certo ponto, as coisas fazem sentido em um mundo de sonho…e até certo ponto, já não fazem mais … – Imagine que…um dos reinos dos sonhos, fosse para fazer experimentos de física. – É de se supor que chegasse a uma física diferente, digamos assim. De modo que, seria como que… uma projeção diferente.

Seria uma projeção do espaçotempo, muito diferente da que experimentamos; porque no reino dos sonhos, por exemplo, sua identidade pode mudar muito rapidamente. Como se eu pudesse ter um sonho em que você aparecesse – e… de repente, eu fosse você… e você fosse eu – ou qualquer outra pessoa… e isto pode mudar muito rapidamente.

Nesse instante…não experimentamos a realidade dessa maneira;             mas isso não quer dizer que essa possibilidade não possa ser real.

Mishlove: Há alguns casos na literatura da parapsicologia como este.                                 … Além dos casos “clássicos”… de múltiplas personalidades – até hoje.

Sirag:  Sim. Portanto, este tipo de acontecimento faz mais sentido se a realidade for, verdadeiramente, um hiperespaço; e há toda sorte de tipos de projeções acontecendo.       E, talvez…mesmo assuntos como ‘reencarnação’ poderiam ser reinterpretados em tal modelo – com as necessárias adequações em suas noções mais ingênuas.

Mishlove: ‘Como eu entendo a sua teoria’… Saul-Paul, posso adiantar um pouco aqui   que, todo o universo físico, como nós experimentamos, é em certo sentido, fisicamente regido pela propriedade matemática da constante de estrutura fina   o ‘número 137’;        a partir do qual, tudo emerge… E outros níveis de hiperespaço, universos paralelos, de certa forma… – ou, outras dimensões… poderiam, igualmente… ser atributo de outras constantes matemáticas… – Isso está, basicamente, correto?

Sirag:  Sim… Estamos muito impressionados com certas constantes na física… – que desempenham um papel muito fundamental. – Anteriormente… quando mencionei a unificação das forças, eu poderia ter falado sobre o que isto significa … É que todas as forças têm mesma potência, em algum nível do hiperespaço. A constante de estrutura       fina é uma medida da intensidade da força elétrica…e em suma, a ideia é que todas as forças têm a mesma energia… – uma “energia unificada”… – ao nível de ‘hiperespaço’.

Agora, se essas forças foram sempre tão ligeiramente diferente; quer dizer 1% diferentes; então, um mundo totalmente (causalmente) diferente do nosso, poderia ocorrer…Porém, isso pode ser exatamente o que os mundos de sonho se parecem – eles são simplesmente uma espécie de física, com uma constante de estrutura fina diferente.

Mishlove: Então – usando a matemática apresentada aqui, você poderia prever o que as outras realidades deveriam parecer; ou pelo menos, como as leis físicas deveriam operar?

Sirag:  Bem – a princípio – se poderia tentar fazer isso; mas estamos falando aqui, de um programa de muito longo prazo. Nós, realmente, estamos falando sobre para onde a física deverá se encaminhar no século XXI…

Você sabe que as equações de Maxwell foram escritas no século XIX – na verdade… no início de 1865; e, ainda que todos esses maravilhosos fenômenos elétricos, que são a nossa alta tecnologia atual, surgiram a partir de um conjunto de equações… Assim, no século XX se deu, tecnologicamente…a exploração dessa bela unificação das forças eletromagnéticas.

Mishlove: Isso aconteceu há mais de 100 anos atrás.

Sirag: Sim. Pois bem, o que estou dizendo é que, neste novo século (XXI) ….. evoluirá uma tecnologia bem mais sofisticada que a “tecnologia eletromagnética”… – E… como consequência, a consciência estará … creio eu — intimamente envolvida — com todos esses desenvolvimentos tecnológicos, pela total ‘unificação’ das forças já conhecidas.

E isso será extremamente emocionante…

Porém, com isso não estou dizendo que a física está chegando a qualquer final, em virtude dessa unificação… – É mais como um recomeço – e, em certo sentido… – até mesmo, o verdadeiro início de uma nova tecnologia.

Mishlove: E, quais são algumas das coisas que você prevê?

Sirag:  Bem, eu posso tentar adivinhar algumas coisas; mas, deixe-me lembrá-lo que uma das últimas coisas no mundo que Maxwell teria previsto — seria a televisão saindo de suas equações… Veja bem, a partir de equações de Maxwell, pode-se descobrir que, além da luz visível, tinha que haver luz invisível. Mas, quão grande era esse espectro (eletromagnético) da luz invisível – ninguém realmente sabia. E, em seguida, foram descobertas as ondas de rádio, num tipo, e raios-X, em outro. E, Maxwell não previu nenhuma dessas descobertas, especificamente.

Portanto, é bem difícil prever…se você é físico, apenas transcrevendo algumas equações. Mas, a principal previsão já feita por mim, é que… a partir do hiperespaço projetamos o espaçotempo. – Então, na minha opinião o que já poderíamos estar aprendendo a fazer, tecnologicamente, é, de fato, pesquisar os domínios do hiperespaço.

Em outras palavras, nós estamos vivendo em um filme 3-D agora, OK?…Então, o que nós devemos aprender é a fazer os nossos próprios filmes… ao invés de apenas atuar no filme de outra pessoa. Nós devemos estar caminhando para desempenhar “papel principal” na nossa própria produção… – Então, basicamente essa é apenas uma maneira de dizer que devemos jogar o jogo todo mais conscientemente.

Mishlove: Parece que você está dizendo é que nos tornaremos como deuses, ou como nós imaginamos serem os deuses hoje em dia… Esta noção de criar vida através da engenharia genética, não é uma gota no oceano, em comparação com o que seria possível, se nos fosse permitido dominar a tecnologia do hiperespaço?…

Sirag: Claro que vai ser apenas um pequeno passo em direção ao hiperespaço, e sempre haverá muitas dimensões além da nossa – e, talvez então…devessemos falar sobre ‘seres divinos’, que teriam um posto mais alto na hierarquia da consciência; e assim por diante. E, todo um novo vocabulário evoluiria, para se tornar bem mais preciso.

O ‘lance’ é que a matemática para pensar sobre isso já está desenvolvida, tanto quanto me consta. E nisso, os matemáticos estão muito à frente, no sentido de que eles não precisam de experimentos para testar suas teorias. O único teste de um teorema matemático é uma prova lógicae, assim… se desenvolve muito mais rapidamente.

Novas ideias, em matemática, fluem muito rápido. Por exemplo, a ‘teoria dos fibrados’, que começou a ser trabalhada na década de 30 – se desenvolveu rapidamente na de 50, mas, só agora – realmente – é que estamos começando a aplicá-la — em larga escala… na “física topológica“.

Assim, portanto, os matemáticos estão bem à nossa frente… e os que deles, criam coisas novas… – creio eu … – bebem de sua água.

Mishlove: Bem, isso é bem interessante. Quando eu era criança…me disseram que seriam 12 pessoas no planeta que realmente compreendiam Einstein…porque leva um tempo para novas e brilhantes ideias serem filtradas para o entendimento das massas. – Porém, agora suspeito que há mais de 12 pessoas que entendem as teorias da relatividade. E você está falando também, do que parecem ser teorias de vanguarda. Eu, portanto…não ficaria surpreso se hoje, apenas         12 pessoas no planeta entendessem seu trabalho.

Sirag:  Bem…até onde saiba, o que eu tenho visto é que os matemáticos com quem falo, geralmente, a compreendem muito bem… – especialmente se eles tem conhecimento de uma área da matemática chamada ‘teoria de grupos‘. – E, se conhecem também ‘teoria dos fibrados‘… então, a dominam de verdade.

É evidente que, ambas são áreas enormes da matemática…na qual os físicos – geralmente, encontram muitas dificuldades em acompanhar…Por exemplo, eu apresentei minha teoria numa reunião especial dos deptos. de física e matemática na Georgetown University/EUA; e os físicos, em geral, não participaram (ou, não a entenderam)… – Já os matemáticos … a seguiram muito bem.

Mishlove: Mas, é aos físicos que você está tentando se dirigir…

Sirag: Claro. Mas eu entendo muito bem por que os matemáticos podem acompanhar…

Mishlove: Mas, se os físicos agora estão tendo dificuldade em acompanhar seu trabalho, pode levar, como você diz, 100 anos, até que ele seja, enfim, compreendido pelas pessoas comuns.

Sirag: Bem, talvez não 100 anos. As coisas, hoje em dia, mudam um pouco mais rápido   do que nos tempos de Maxwell, e a tecnologia se move muito mais rápido, ainda. A ideia de hiperespaço seduzirá – definitivamente, a nova geração de físicos, e eles irão adotá-la imediatamente, eu acho.

Mishlove: Bem, Saul-Paul, se suas teorias são como você acredita, e se tornarem reconhecidas a esse nível, então terá sido uma grande honra para mim, e acredito,             para os nossos ouvintes e telespectadores, receber você hoje no programa…Muito obrigado, por estar conosco esta noite.

Sirag: Obrigado. Foi um prazer.

texto p/ consulta: Hyperspace Reality by Saul-Paul Sirag                                                   *************(texto complementar)*******************************************

'Hubble Deep Field'

‘Hubble Deep Field’

O nosso universo observável

A parte do universo que hoje podemos ver, já foi muito pequena (do tamanho   de uma ervilha.. – como dizem alguns cosmólogos). Depois…foi-se esticando, infinitamente… em todas as direções.

Se o espaço não estivesse em expansão, o objeto mais distante que poderíamos ver, estaria a cerca de 14 bilhões de anos luz de nós…(…distância que a luz poderia ter percorrido desde o big bang).

Mas, como o espaço está se expandindo – a distância percorrida por um fóton durante sua viagem, expande-se atrás dele. Por isso, a distância percorrida será cerca de 3 vezes maior. Assim… 46 bilhões de anos luz é a distância do mais afastado objeto que podemos ver.

No entanto, só os fótons que caminham em nossa direção, e estão a menos de 14 bilhões   de anos-luz (a distância de Hubble) de nós, têm uma velocidade… (a velocidade da luz) que consegue vencer a velocidade de expansão do espaço. Fótons mais distantes, nunca poderão chegar até nós, e a sua fonte, para um observador terrestre, ficará para sempre indetectável.

Como a taxa de expansão cósmica parece estar acelerando, estamos rodeados por uma  fronteira – horizonte de acontecimentos cósmicos – para além do qual ocorrem acontecimentos que nunca veremos.

A luz emitida por galáxias que estão além desse ‘horizonte de eventos, nunca chegará aqui… Nossa distância a ele é estimada presentemente como sendo de 16 bilhões de anos-luz – número superior à distância de Hubble – porque, como o espaço percorrido por um fóton, durante sua viagem… se expande atrás dele… — os fótons vindos de galáxias que já estiveram a essa distância… – e, hoje estão para além dela… – conseguem chegar até nós.

Portanto, seremos ainda capazes de ver acontecimentos que ocorreram nessas galáxias, antes delas atravessarem o ‘horizonte’… — no entanto, acontecimentos posteriores … nunca poderão ser visualizados por nós.

(Texto baseado num artigo de Charles H. Lineweaver e Tamara M. Davis: Misconceptions about the Big Bang… Scientific American – Março 2005.)

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