Imanência & Transcendência em um ‘Campo Fenomenológico’

“Como detetives investigando a realidade, somos livres para usar todo tipo de pista. Mas como juízes tentando verificar se uma teoria…de fato, descreve a realidade… precisamos testá-la empiricamente. E isto, é o que torna a ciência tão bem sucedida”. (Carlo Rovelli)

alcançandoespaçotempoNa primeira edição de ‘Investigações Lógicas‘…Edmond Husserl delimita o domínio da “pesquisa fenomenológica”  a uma imanência psicológica…Mas ao examinar, atentamente, os critérios empregados…ele constatou…que estes, implicam numa ‘transcendência‘ do objeto pesquisado…acarretando assim, dilemas epistemológicos numa relação direta entre…objeto físico…e objeto percebido em um plano de realidade.

Com efeito, da edição de 1900/1901 das… “Investigações Lógicas” – para a edição revisada de 1913, Husserl fez importantes alterações, destacando-se uma rearticulação da visão por ele alcançada, de que sua fenomenologia se trata de uma “filosofia transcendental“.

“teoria representacional da percepção”                                                                            O “representacionalismo” postula a existência de 2 entidades implicadas                                na percepção, ou seja, um ‘objeto externo’, e uma ‘representação mental’.

Na relação sujeito/objeto, as ‘ciências naturais’ (em especial…a “física“) não pretendem investigar a realidade interna…psicológica do sujeito…mas sim, a realidade externa. Daí,    a seguinte pergunta…Qual a relação entre o objeto, dado na percepção…e o objeto físico? Uma forma de se responder essa questão é com a teoria representacional da percepção,  segundo a qual…se vejo uma mesa, isso ocorre porque fótons estimularam minha retina, desencadeando“impulsos nervosos” – processados no cérebro…de modo a emergir em mim uma “representação consciente” da mesa. – Noutras palavras, a mesa externa afeta  meu sistema sensorial, produzindo em mim uma “representação”…ou “imagem mental”. Teríamos assim2 mesas uma interna, de processos cerebrais da consciência; e outra mesa externa, que iluminada, difrata a luz…cujos fótons estimulam o aparelho sensorial.

Husserl no entanto, rejeita essa corrente teórica. Para ele, ao ver uma mesa, não estamos conscientes de uma imagem mental da mesa, ou de sua representaçãomas sim da mesa, ela própria como objeto. – É verdade, afirma Husserl, que a impressão sensorial da mesa    é uma vivência – e portanto… ‘conteúdo de consciência’ – mas, o que percebemos não é a impressão, e sim a própria mesa. Os objetos conscientemente percebidos, transcendem à ‘vivência’ do objeto…pois esta é um conteúdo da consciência, que  o objeto percebido não tem. De acordo com Husserl, na ‘percepção’ visamos diretamente o objeto transcendente, sem a mediação de uma representação. E, desse modo, sendo a “consciência perceptiva” um modo intencional do sujeito…sua imagem não pertence ao objeto … mas o interpreta. 

Claude Monet, Impression Sunrise_1872

Claude Monet, ‘Impression Sunrise’ -1872

a “consciência fenomenológica”

A elucidação descritiva do sentido pelo qual o objeto percebido é… transcendente – possui várias implicações — e, pede esclarecimentos.  Nesse sentido uma das melhores maneiras recomendadas… é analisarmos o que Husserl entende por ‘consciência’ e conteúdos da consciência. – Para tanto, observamos que, de acordo com o próprio Husserl…este termo carrega consigo vários tipos de conceitos… os quais a seguir serão devidamente elucidados:

  1. Consciência como interno dar-se conta das vivências psíquicas. Diz respeito ao fato de que toda consciência é também “autoconsciência”… ainda que não seja uma autoconsciência realizada de modo explícito – por meio de um ato reflexivo, ou de um ato de percepção interna. Esta forma de consciência se refere ao “caráter intransitivo” das vivências – isto é…ao fato de que toda vivência é uma unidade de consciência que se manifesta a si mesma … sem a necessária intermediação de um objeto, para existir.
  1. Consciência como designação global para todo e qualquer tipo de ato psíquico. Trata-se da consciência tomada como “consciência de algo”… ou seja,    como vivência intencional… e, portanto…concernente ao seu “caráter transitivo”. Estudar a consciência neste caso – é transcender…rumo a seus atos perceptivos.
  1. Consciência como consistência fenomenológica do eu‘. Este conceito delimita a consciência como unidade do “fluxo total de vivências” (consistência conjunta do “eu fenomenológico” enquanto entrelaçamento de ‘vivências psíquicas’). Segundo Husserl,  rejeitar a noção de um…”eu puro” – significa uma concepção plural de consciência, cujo conteúdo nada mais é do que o próprio fluxo de vivênciasEstas vivências que, marcadas pela temporalidade, são “ocorrências reais” de ‘fatos psíquicos’ – que a cada momento, se interligam e interpenetram…na consciência do indivíduo psicofísico.

husserl-fraseos conceitos de “imanência”                  

A partir de 1907… – com o intuito de… libertar a fenomenologia de sua carga psicológica, Husserl faz algumas ‘modificações’ no texto da 2ª edição das…”Investigações“… Destas, merece destaque  os 3 conceitos de “imanência“…assim definidos:

1) Imanência real. Trata-se da esfera de vivências obtidas pela abstração do corpo físico. Na 1ª edição Husserl denomina de “eu empírico” ao conjunto composto por corpo físico, e uma ‘esfera de vivências’…O domínio da fenomenologia é obtido justamente pela exclusão do corpo físico … como se observa na seguinte passagem: “Se separarmos o eu corporal do eu empírico – e limitarmos, portanto, o eu psíquico puro ao seu teor fenomenológico… ele reduz-se à uma unidade de consciência – por conseguinte… à complexão real de vivências, disponíveis para nós próprios…e, que na parte restante, com fundadas razões supomos”.

Tal conceito de ‘imanência‘…é análogo ao ‘conceito cartesianono sentido de permanecer implícita a suposição, de se tratar de um cogito humanocom o lado físico ‘pressuposto’, e um lado psíquico ‘explícito’. Com seu domínio obtido da “abstração do corpo”, é claro que este, como “base material das vivências” (e não mero correlato objetivo delas) permanece implícito, pois não haveria sentido em apartá-lo; a não ser numa ingênua transcendência.

Na medida em que se constitui da “abstração do corpo” em relação ao                                ‘mundo exterior’… a fenomenologia abstém-se de tratar os problemas                                concernentes à natureza dessa suposta exterioridade então abstraída,                              cuja investigação… – é… sumariamente – relegada à… metafísica.

2) Imanência puraé constituída pelos conteúdos fenomenológicos daqueles dados evidentes e absolutos…apreendidos com o propósito de descobrir estruturas essenciais        dos atos (noesis) … e suas entidades objetivas correspondentes (noema). A “imanência inata” é apenas um caso especial da imanência pura“, a qual pode ser circunscrita a 3 níveis de consideração fenomenológica. No 1º (onde se inclui a imanência inata), trata-    se do cogitotomado em sua singularidade. No 2º, os eidosuniversais. No 3º – os correlatos de toda espécie, que…formados na ‘consciência’, fazem da fenomenologia uma…ciência universal baseada na correlação consciência (noesis)/objeto (noema).

No caso da…’percepção externa’… – tais correlatos fazem                                                        parte da ‘imanência pura’…mas não da ‘imanência inata’.

3) Imanência inata…Designa o fluxo constituído pelas vivências (atos da consciência)  purificadas de suaapercepçãopsicológica…sem contaminações transcendentes. Em “A Ideia da Fenomenologia”, Husserl exemplifica: “Ao efetuar a reflexão, o imanente surge como incontestável – pois nela (‘reflexão‘)… nada mais existe para além de si mesmo”.

O conceito de ‘transcendência’…obtido por contraposição a esse conceito de imanência é distinto do conceito anterior. Todo conteúdo impróprio de um ato (…conteúdos ideais, e os objetos intencionais dados em atos não reflexivos) é…nesse sentido…”transcendente”, pois o próprio ‘sujeito psíquico’ (tomado como parte de um sujeito real), bem como suas vivências (oriundas da consciência) é também algo transcendente deste “ser psicofísico”.

imanênciaEm suma, inicialmente temos o ‘conceito real’ de imanência…que compreende a consciência como uma região ontológica do mundo, junto    a outras regiões – que lhe são transcendentes. A… “imanência pura”… é considerada apenas, um objeto passível de ‘investigação científica’.  Já o conceito de imanência inata‘…traz como exemploas essências e ‘correlatos objetivos’ das…”vivências intencionais” – onde o objeto percebido pela consciência, é ‘transcendente’.

Mas, se em termos de “transcendência”os 2 primeiros conceitos de imanência se encontram bem definidos, isto não se pode dizer do 3º. Aí, o problema é acharmos              um conceito de “transcendência”…contraposto ao de…”imanência transcendental”. 

4) “imanência transcendente” (do paradoxo metafísico à “virada transcendental”)     “Cada conceito de imanência tem como contraponto…um conceito de transcendência.”

Para a filosofia fenomenológica… a própria “objetividade”, em termos gerais, transcende ao ato. Independente de saber em qual sentido, e com que direito se fala do ser…ou de saber se é real ou ideal, verdadeira ou falsa, possível ou impossível…o ‘ato’ se dirige a ela.    A pergunta que se coloca então; em especial na esfera da percepção“…é sobre a relação entre 3 instâncias: a) a aparição do objeto; b) o objeto que aparece; c) o objeto da física. Sabemos que a aparição do objeto é imanente e o objeto percebido é transcendente, mas    e o objeto da física?… Se o tratarmos como uma transcendência não percebida – haveria implicitamente – não um único…mas sim, dois conceito de… “transcendência”…a saber:

  1. Uma transcendência metafísica…que, por princípio, faz parte da intuição;
  2. Uma transcendência que não se confunde com a vivência de sua aparição.

floraçãoEsse último conceito…para Husserl, depende da consciência, na medida que advém de operações imanentes, pressupondo uma…’transcendência oculta’…O campo fenomenológico”    é assim delimitado…excluindo-se o corpo físico; hipótese incompatível com uma ‘fenomenologia do saber’. Mas, tal revés é fundamental, ao se definir tal campo pelo ‘absoluto’ de Husserl (imanência transcendente).

Ao examinar a ‘teoria da percepção’ de Husserl podemos obter valiosas informações sobre o problema da dependência (ou não) do objeto percebido em relação à consciência. Nesta, a percepção é compreendida como uma…”apreensão objetivante de sensações”…pela qual se constitui a aparição do objeto‘. Em função dessa assimilação à manifestação do objeto, ou de suas propriedades objetivas, as ‘sensações‘ são interpretadas como ‘transcendentes’.

“sentidos & sensações”                                                                                                                Por “sensações”… devemos entender algo que pertence a um “fluxo subjetivo“… – Nas percepções normais… sensações são vividas…mas não percebidas. É apenas por meio de uma apreensão deste algo, pertencente ao fluxo…que um ‘objeto transcendente’ aparece.

Tomemos como exemplo o caso da percepção sensível de uma esfera amarela. O termo “amarelo” pode designar tanto uma ‘sensação’, entendida como pertencente à aparição, quanto uma… “propriedade transcendente”… (qualidade cromática amarela) do objeto.    Ao afirmarmos que o objeto percebido é ‘amarelo‘…designamos uma propriedade dele; pois a sua qualidade amarela – resulta da interpretação de uma…”sensação específica”.

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O Sol nos aparenta amarelo devido à refração atmosférica (na verdade, é branco)

O objeto transcendente – dado na percepção possui a propriedade transcendente de ser… amarelo, graças à interpretação objetivante       da sensação imanente do amarelo. Para Husserl, esta interpretação é sempre realizada pelo“sentido”.    Ou seja – perceberé interpretar objetivamente as sensações – por     um determinado sentido… – E as propriedades do objeto, resultam      dessa interpretação de sensações.

Conclui-se daí que a transcendência do objeto observado, bem como suas propriedades, são dependentes de operações imanentes; e, que propriedades objetivas de um corpo se devem à sensações. – Sua propriedade amarela resulta de uma ‘sensação imanente’…ou seja, a relação entre ‘sensação‘ e “propriedades transcendentes” não é casual, e o sentido pelo qual se interpreta o ‘conteúdo imanente’ é limitado por estas propriedades.    

Husserl compreende por “espacialidade”… “O momento de sensação cuja ‘percepção objetiva’… se constitui numa autenticidade espacial emergente”Daí, conclui-se que o espaço objetivo transcendente resulta da apreensão do espaço imanente das sensações, onde os objetos percebidos se encontram. Entretanto, tudo leva a crer que esse ‘espaço constituído’ ainda não é o “espaço físico”…tal como concebido pelas teorias físicas. – A física não estuda o espaço produzido em operações na ‘consciência psíquica’…mas sim,      um espaço, cuja existência independe da consciência de toda e qualquer “espécie viva”.

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fenomenologia (grego): ‘reflexão sobre aquilo que nos aparece”.

o “objeto intencional”

Sendo a transcendência do objeto percebido uma ‘função descritiva’ não ontológica…independente do conhecimento…segundo Husserl:

O objeto…por si próprio, se faz transcendente… à vivência do      ato de observar”No entanto, é preciso notar que tal afirmação:

  1. Não implica, a princípio – ontologicamente, sua independência ou não da consciência.
  2. Não implica, a princípio… que este seja real – exista…ou, muito menos, que seja irreal.

Entendendo a fenomenologia como uma ciência “metafisicamente neutra”, Husserl se abstém de abordar frontalmente a relação entre o “objeto intencional” …e um suposto mundo físico, ontologicamente independente da consciência. Para ele: “A consciência        visa um objeto transcendente, sendo fenomenologicamente irrelevante, se este objeto        é, ou não uma ilusão. A existência da ‘realidade externa’, é pois, problema metafísico”.

Como a intencionalidade da consciência independe da existência ou não do objetoa relação intencional do sujeito ao objeto não é uma relação entre 2 realidades, ou uma relação causal entre objeto e consciência…ou uma realidade interior, e uma realidade exterior.  A vivência intencional não é produzida pelo objeto exterior…que ao afetar a sensibilidade do organismo, acaba por afetar sua consciência. – Ao contráriosão os componentes internos à própria vivência, que determinam sua referênciaa este, ou àquele objeto…Ou seja, a intencionalidade da consciência, sua direcionalidade a uma transcendência, é produzida por elementos imanentes à vivência. – Assim…portanto, quando Husserl considera ‘exterior’…o ‘objeto intencional’, essa é uma determinação descritiva – da qual não se pode inferir que este objeto se identifique à…”coisa física”.

“O ‘objeto intencionado’ é transcendente ao ato… e a natureza desta transcendência se torna evidente, quando a percebemos ao se manifestarem à consciência. Contudo, tais objetos mentais não se identificam com sensações, também presentes na consciência”.

imanência transcendenteo‘impasse transcendental’

Do que foi exposto até agora devemos considerar que, apesar de todos os esforços de Husserl, algo permanece em aberto… – Qual o tipo de “vínculo ontológico” que existe… – entre o objeto… e suas ‘aparições’?…O que significa sua ‘transcendência‘  nesses termos?… – E tais problemas se agravam, levando em conta que tal fenômeno…é obtido da abstração do “sujeito empírico”. Por conseguinte, isso nos leva a considerar como um ‘mistério… a transcendência do objeto… – pois, se de um lado este objeto que aparece ‘transcendente‘… resulta      de operações ‘puramente imanentes’ por outro lado essas operações se passam em um “domínio      de imanência” obtido, justamente pela abstração    de um domínio físico real próprio da natureza.

Desse paradoxo, surge a seguinte questão: A transcendência                    do…”corpo físico”…é semelhante…à do…”objeto observado”?

Para que tal identificação fizesse algum sentido…teríamos de supor que a transcendência constituída na ‘imanência psíquica’, milagrosamente coincidisse com a realidade exterior física… que, de saída, foi excluída para a obtenção do campo fenomenológico. Mas, como uma transcendência (produzida pela imanência)…poderia então, coincidir com a suposta realidade exterior, que por definição, independe da consciência?…Ou melhor – “Qual a relação entre um objeto transcendente tangível, e o ‘objeto da física’?…Seria este, apenas uma entidade ideal?…E qual a relação entre o ‘objeto sensível intuído’, e o ‘objeto físico’?  De semelhança?… De imagem?… De signo?… Será que temos ‘acesso imediato’ ao objeto transcendente da percepção e apenas mediato ao mundo físico? Ou seria essa uma pergunta que a…’fenomenologia‘… – como ‘psicologia descritiva’…não pode responder?”

A física se dispõe a estudar a realidade observável que não se identifica ‘ipsis litteris’ com  a…’realidade exterior’. Por isso, o antigo problema – da relação entre sujeito…e realidade externa… – problema este levantado por Descartes…o qual Locke busca responder, não é eliminado pela… “fenomenologia” … — ressurgindo, pois… sob uma forma mais refinada. 

O problema de relação entre ‘experiência sensível’ e ‘realidade exterior’ torna-se agora… – o da relação entre uma transcendência imanente à consciência subjetiva…e uma transcendência física (‘fenomenológica’).

A ‘teoria do conhecimento’…que se originava a partir do pressuposto de um mundo exterior, era incapaz do legitimar qualquer forma de conhecimento a respeito deste      mundo … externo ao sujeito. – Sua epistemologia, fundamentada numa “psicologia descritiva”… cujo domínio era alcançado pela exclusão do ‘mundo físico’, carregava ‘pressupostos ontológicos’ (conflitantes com ‘premissas epistemológicas’); os quais permaneciam implícitos na ‘visão fenomenológica’, como ‘teoria do conhecimento’, fundamentada na consciência individual. Assim, a fenomenologia, já em seu início,      trazia consigo uma paradoxal concepção não fenomenológica de…’transcendência‘.

“fenomenologiauma metafísica transcendente”                                                      “Denomino transcendental todo conhecimento que, em geral, se ocupa não tanto com os objetos, mas com nosso modo intuitivo de entendê-los” (Kant – “Crítica da Razão Pura”)

Husserl, guiado pela ideia da ‘fenomenologia’ como uma ‘ciência puramente descritiva’ — e metafisicamente neutralimita-se a afirmar, que o objeto em seu psico-conteúdo…“não se acha descritivamente no ato”. Portanto estar consciente de algo “transcendente”, significa consciência de algo distinto de uma vivência. Assim – a estratégia de Husserl na defesa da transcendência do objeto é mostrar que seus ‘traços descritivos’…não são  “vivenciais”.

Toda transcendência é uma não-vivência…portanto, um objeto exterior sensível,              um ‘estado de coisas’…ou, uma ‘entidade ideal’…não podem ser vivenciados. – E,              uma vez que a vivência é uma ocorrência real, esta não se repete…apesar de um      mesmo objeto poder ser ‘intencionado’…através de múltiplas vivências distintas.

Cada percepção do objeto é um…’evento psíquico’…que dura – ao longo da percepção, ao passo que o objeto deve ser descrito…como algo que permanece absolutamente o mesmo. Se o objeto fosse uma ‘vivência’ – não poderia se repetir… pois uma vivência é distinta da outra. O “objeto intencional” também não pode ser parte dessa vivência, pois toda sua parte, abstrata ou concreta, compartilha da mesma natureza singular. Por outro lado, No caso da “percepção exterioré possível que 2 vivências de percepção distintas sejam direcionadas ao mesmo objeto. “Vejo essa mesa”…logo tenho uma vivência à ela dirigida. “Fecho os olhos, abro-os novamente”, e agora tenho nova vivência de percepção da mesa.  As vivências são distintas – tanto no todo … como em cada uma de suas partes…contudo,  o objeto deve ser descrito como “permanente”…embora as vivências e suas partes, sejam consideradas distintas umas das outras. Ora, se o objeto não pode ser imanente, logo ele transcende, ou seja, a consciência visa – por operações imanentes…algo “transcendente”.

holograma

A fenomenologia, como ‘filosofia transcendental’, passa a ser para Husserl, uma nova ‘teoria do conhecimento’.

“redução fenomenológica” (Epoché) Epoché (redução fenomenológica)é o exercício de ‘suspensão‘ da existência do mundo, a fim de alcançar algo “absoluto”.

Na 1ª edição das “Investigações Lógicas“,  Husserl concebeu sua“fenomenologia”, conforme a uma ‘epistemologia’ fundada na psicologia da…”vivência cognitiva“.

Achava ele que a partir de uma imanência fenomenológica “metafisicamente neutra” existiria a possibilidade de se construir algo como umateoria do conhecimento“.

É bom também frisarque, em 1901, apesar de assumir uma ‘metafísica neutra, Husserl não a rejeitou, muito menos negou existir uma realidade exterior…deixando a entender, por exemplo, que uma mera rejeição do ‘pressuposto metafísico’sobre o qual a física se efetiva, não traria nenhuma vantagem, a menos que a fenomenologia fosse capaz de uma ‘proposta alternativa’, restabelecendo-a, sobre novas bases. – E assim, entre 1906 e 1907, ao constatar que sua “teoria do conhecimento” extrapolava o “âmbito psicológico” – com implicações ontológicas até então despercebidas – Husserl propõe o método daredução transcendental, rejeitando uma ‘fenomenologia neutra’ ao afirmar…“a necessidade de uma…’autêntica metafísica‘…como condição à existência de uma efetiva epistemologia”.

Assim, ao invés de abordar o ‘problema do conhecimento’ pela relação entre ‘realidade psíquica’ e ‘realidade exterior’…Husserl se propõe a recolocar o problema a partir da imanência; ou seja, como concernente à relação entre diferentes formas de vivências intencionais, nomeadamente intuitivas…Se o ‘problema do conhecimento’ recebesse tratamento adequado a partir desta imanência, aparentemente não haveria razão para      ir da esfera da ‘psicologia descritiva’, aos ‘problemas metafísicos’ da realidade exterior.

Um dos maiores ganhos da “redução” é revelar o vínculo essencial que há entre ser e aparecer. O “sujeito transcendental” – é condição do aparecimento de qualquer ente possível, pois a essência de um ‘objeto transcendente’…diz respeito ao próprio modo          como o objeto deve se mostrar. A demanda do ser que, a princípio, não se manifeste,        nem mesmo ao pensamento teórico – para Husserl, não mais faria qualquer sentido.

“objetos da percepção”…                                                                                                            Se há algo que a ‘epoché’ exclui…esse algo não é a própria realidade,                                      mas apenas uma “concepção absurda” da mesma – nomeadamente,                                      uma realidade independente de toda teoria… – de toda experiência.

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‘Objeto intencional’ não é a soma das aparições, nem algo destas separado, mas sim algo que as unifica.

A partir de 1906 com a ‘virada transcendental’, Husserl entende que a epistemologia não deve se fundamentar na ‘psicologia descritiva’, mas sim, numa… ‘filosofia transcendental’… Desde então, o domínio autêntico da ‘fenomenologia’ não é mais a ‘imanência psíquica’, mas sima ‘imanência pura’Nesta, se incluem não só as ‘vivências’…mas também as…‘essências’, e todo correlato – constituídos pela consciência. Assim, o objeto emergente passa a ser visto por uma ‘dupla chave’: como transcendente aos conteúdos inatos; embora imanente, em “sentido puro” — Essa ampliação do ‘campo fenomenológico’ identifica o status do objeto intencional em ‘múltiplas aparições coerentes’.

Se em 1901 Husserl faz distinção…entre a ‘aparição’ – e ‘o que aparece’…em 1907, ele diz que tal distinção deve ser realizada no interior da imanência pura, isto étanto aparição quanto objeto são imanentes, em termos absolutos. Contudo, a aparição do objeto é uma ‘imanência inata, enquanto  o objeto “transcende com relação à ela. E assim temos    2 dados absolutos; um do fenômeno e outro do objeto, que não é imanente no sentido incluso (inato). — Após 1907, o domínio da…’fenomenologia‘ – já não mais é obtido pela exclusão daquilo que transcende ao conteúdo inatomas sim, pela desconexão do que transcende à “imanência pura” — ou seja, tudo aquilo que não é dado após a “redução transcendental”, e a princípio, não poderia ser criado na “consciência”… Mas, o que será isto?… – A resposta mais óbvia para essa pergunta parece ser o mundo real; ou seja, o mundo em si…ontologicamente independente da consciência. — Porém, ainda que seja essa a resposta mais óbvia…é problemática. Como Husserl mostrou em 1913, a “redução não implica em perdas, pois caso algo desconectado possua algum tipo de validade, será reconectado. Assim, a objeção da redução limitando o campo de pesquisa ao…”interior”só pode ser o resultado de se confundir a atitude transcendental, com a vivência natural.

A doutrina husserliana sobre a redução transcendental foi objetivado na tentativa de se construir conhecimento através de uma ordem sistemática entre os ‘níveis de evidência’. Consiste em nossa reflexão a respeito do ato em si mesmo, em lugar de seu objeto. Isso    se justifica pelo fato de que nosso estar direcionado ao objeto consiste numa intrincada interação de 3 elementos, a saber: 1) as experiências estruturadas no ato (noese); 2) a estrutura correlata dada no ato (noema); 3) experiências supridoras/restritivas (hylé).

Todo objeto passível de ser conhecido, predicado e experienciado é correlato de operações noéticas. Mas, quando esta consciência é vista a partir de uma ‘perspectiva externa’, não é possível revelar sua ‘dimensão transcendental’…Querer assim compreender a constituição do mundo é recair em psicologismo e contrassenso…Contudo, quando a consciência não é vista sob esta perspectiva naturalística, mas a partir de uma ‘redução transcendental’, não há exterioridade, nem interioridade…Estes são 2 dados correlatos a uma ‘imanência pura’.

a relação entre o objeto físicoe o percebido‘                                                                  Para Husserl…do ponto de vista ‘transcendental’, a concepção de um mundo                  ontológico independente da consciência — não passa de um… ‘contrassenso’.

Com a defesa do ‘primado’ da consciência…em relação ao “ser transcendente”,              Husserl rejeita adoutrina de Lockeda existência de qualidades secundárias                  (cor, som, cheiro) – pois… as qualidades primárias (solidez, extensão, inércia)                  não teriam privilégios frente a elas. E rejeita a ideia do objeto da ‘intuição’ ser                    um ‘signo’ do objeto físico. Mas qual seria a relação entre ambos?…Husserl                  oferece uma solução para o problema – a partir da concepção de que o objeto                          da física é constituído a partir de ‘operações lógicas’ realizadas sobre o objeto                      da percepção. Isto é, o portador das ‘determinações sensíveis’ será concebido                  como idêntico ao portador das‘determinações físicas’ – de maneira que, do                  ponto de vista transcendental, não se poderá afirmar a coisa física como algo                    que exista por trás do ‘objeto sensível’que pode ser considerado sua ‘causa’.

Se o objeto físico fosse uma causa escondida por trás do objeto que aparece,                    teríamos como consequência…uma “teoria dos 2 mundos”, na qual haveria                        uma “realidade fenomênica” – e…por detrás desta, uma…”realidade física”.

É verdade que o objeto da física possui atributos que não são dados no objeto tal qual    este se manifesta na experiência direta, e vice-versa…mas isso não é problema, já que          é preciso distinguir entre o portador das determinações, e as próprias determinações.         O portador é o mesmojá as determinações de um e outro, variam segundo o tipo de       ato e sentido com o qual é intencionado. E isso não significa uma ausência de relação       entre as determinações físicas e as percepcionadas. O objeto enquanto portador das determinações sensíveis, tal como dado na intuição original…possui, não só primazia epistemológica, mas também ontológica frente ao objeto da física. Este por sua vez, é constituído no processo de idealização, desenvolvido sobre a objetividade intuitiva.      Em suma, as próprias “determinações físicas” se anunciam, antes de qualquer teoria     em suas próprias “condições sensíveis”…e dessa forma, todo conhecimento científico teórico encontra sua raiz, dentro de uma intuição originária. (texto base, Savio Peres)    *******************************************************************************

Redução transcendental (uma proposta fenomenológica)                                                      Para Husserl, a ‘fenomenologia’ não deve ser uma doutrina da aparência                            dos fenômenos reais, mas sim, dos fenômeno transcendentais reduzidos.

Segundo Husserl, tendo em vista grandes conflitos surgidos no horizonte da Europa em um momento histórico de mudanças, se fez necessário um “novo modo de se orientar frente à orientação natural da experiência e do pensar”. – Para realizar tal tarefa,  ele propõe partir de uma ‘ideia natural do mundo’, significando: “o fenômeno que se apresenta”. Mas, não satisfeito com esse primordial ‘ponto de vista’, Husserl também faz questão de investigar – o que      se revela diante do ‘fenômeno’ – realizando assim, uma ‘redução transcendental’, a fim de capturar a essência do fenômeno observável; algo como uma consciência pura sujeita à experiência psicológica.

O método de ‘redução fenomenológica’ tem a finalidade de derrubar barreiras tradicionais de investigação – diversificando a direção unilateralprópria dos métodos tradicionais de ciências, utilizados até o começo do século 20segundo Husserl para assim obtermos o “livre horizonte dos fenômenos transcendentais purificados, e descortinarmos o campo da fenomenologia”…no sentido próprio que o termo deve ser entendido. – Assim, ele observa que devemos entender que a fenomenologia proposta, isto é, a “transcendental”…não será fundante como ciência dos fatos, mas como ciência exclusivamente de essências. Portanto, a redução fenomenológica de Husserl levará, do fenômeno psicológico – à “essência” pura do objeto estudado…ou seja, do pensamento que forma juízos simples de ‘universalidades empíricas’ – à universalidade do conhecimento da essência dos fenômenos. (texto base************************************************************************************

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Imaginação, espaço, tempo, e eventos são fornecidos ao sujeito por um “desenrolar” de um estado consciente que os apreende.

Breves noções de “fenomenologia”        ‘Fenomenologia’ é uma filosofia que rompe com o “pensamento moderno”a partir da matemática e psicologia…abrindo portas a  um‘raciocínio’ – às voltas com a maneira com que fenômenos se mostram ao sujeito.

Em sua obra A Ideia da Fenomenologia“, Husserl apresenta as “raízes” da sua “reflexão filosófica” expressas em Göttingen (1907) por    5 lições, numa nova perspectiva dessas ideias. 

No resumo a seguir (1ª e 2ª lições), além das definições básicas fenomenológicas, Husserl também se preocupa em analisar a essência do conhecimento de um modo mais acessível.  Na 1ª lição Husserl mostra a diferença entre a ‘atitude espiritual natural’, da qual provém    a…”ciência natural“…e a ‘atitude intelectual filosófica’ (fonte da “ciência filosófica“).  A ‘atitude natural’ não se atém à ‘crítica do conhecimento’, portanto não é capaz de atingi-lo, pois todas as coisas no mundo tornam-se … de alguma forma … objeto da investigação natural, se colocando naturalmente sob o domínio da percepção. Assim, ciências naturais podem ter sua própria natureza… – como ciências psíquicas…ou – ‘ciências matemáticas’.

Na ‘atitude filosófica’, Husserl mostra ser ela esclarecida em seus propósitos, por meio da percepção de um mistério acerca da possibilidade do conhecimento… de modo à essência do conhecimento se apresentar como um problema…isto é, um mistério a ser investigado. Desse mistério sobre a busca da “essência do conhecimento”… surge a “atitude filosófica”.metafc3adsica ‘Conhecimento’ é uma “vivência de natureza psíquica”, pois o homem busca a consciência de seu próprio conhecimento…enquanto a percepção é uma forma de vivência do sujeito (pela consciência). Nessas vivências, fenômenos se vinculam diretamente ao cognoscente.

‘Fenomenologia’… uma definição                                                                                          A transcendência segundo Husserl é o problema inicial e guia da crítica do                conhecimento, isto éo enigma que bloqueia o caminho do conhecimento                    natural… constituindo assim… o ‘impulso‘… para as novas investigações.

Finalizando a 1ª lição, Husserl apresenta a definição de…’fenomenologia‘ – como sendo uma ciência – ou conexão de disciplinas científicas…sobre o estudo do ‘fenômeno‘ … (tudo aquilo que se manifesta…e se revela à consciência). E assim, a ‘fenomenologia’ designa um método (filosófico), bem como uma atitude intelectual filosófica, propriamente dita. Já na 2ª lição, Husserl afirma que… — ao iniciar uma crítica ao conhecimento o importante é submeter o índice de questionabilidade da natureza física e psíquica do mundo ao próprio ser humano, bem como às ciências que dizem respeito a essas realidades. O conhecimento, portanto…é um mistério – cuja ‘obscura cognitividade crítica’ o faz de difícil compreensão.

descartes_frasesEdmund Husserl faz uma referência à meditação de Descartes quanto à ‘dúvida hiperbólica’ citada em suas “Meditações Metafísicas“. – Ele diz que, mesmo que se duvide de tudo – da maneira mais cética, é impossível de se duvidar da existência, à medida que se duvida…isto é, nem tudo pode ser duvidoso… — pois, ao afirmar isto, seria absurdo manter uma dúvida universal. E esse argumento, como se pode ver…vale para todos atos do cogito.

Husserl compara a “percepção intuitiva” com a “imaginação”…Para isso, a fim de elucidar sobre sua essência, propõe uma nova crítica da ciência do conhecimentoonde apesar de questionar o saber – Husserl mostra que não se deve colocar em questão, tudo aquilo que transcende a imanente experiência intuitiva da percepção, tentando recuperar algo além.  O conhecimento é uma coisa distinta do seu objeto – ou seja – o conhecimento está dado, mas o objeto não… Assim, apesar do conhecimento ser questionado… isso não implica na negação de sua possibilidade. Não se pode interrogar o que é conscientemente percebido, uma vez que este, enquanto possível objeto transcendente, já fora repudiado pela dúvida.  Dessa forma… – ao tratar da “redução gnosiológica“… – Husserl conclui sua 2ª lição.  Nessas lições, Husserl se propõe a trabalhar como – em geral, é possível o conhecimento,    e…o que pode ser conhecido (seu objeto)… – Pode-se concluira partir da leitura dessas duas primeiras lições que fenomenologia é a ciência de tudo aquilo que se manifesta…e se revela à consciência. A partir de um método original, objetiva dar bases sólidas a uma ciência que busque alcançar a ‘coisa’ como ela é. Para ele, consciência é intencionalidade,  uma vez que toda ‘consciência’ se refere a algo – e sendo assimconstitui uma atividade formada por atos (imaginação/percepção) dispostos numa ‘perspectiva vivencial’. Sendo considerada como um…transcender“…em direção à outra coisa, a “intencionalidade” também pode ser tratada – simplesmente – como um “modo de ser da consciência“.

Husserl propõe uma reflexão científica sobre o conhecimento…tornando a fenomenologia não apenas atitude intelectual natural, mas atitude intelectual filosófica…ao colocar todas as coisas, enquanto fenômeno da consciência. E sendo assim, se pode perguntar – como é possível quetudo o que está em torno de um “sujeito” – exista somente em relação à ela.  De fato, o objeto só se referencia no sujeito, mas sendo a consciência transcendental (fora do mundo). Nesse caso então, só é possível definir o objeto em relação à uma consciência.

Para que a verdade filosófica se torne permanente… é preciso que a consciência                  alcance as coisas, do modo como estas à ela se mostram. A filosofia assim, deve                  sempre buscar a essência do conhecimento. Flávio Nogueira Cunha (texto base)  **************************(texto complementar)***************************

Filosofia da Mente: Neurônios-espelhoe “representação mental” (mar/2010)  É possível que em certas áreas do cérebro — não exista qualquer separação entre realizar uma ação e pensar sobre ela. Sendo que esta última opção seria apenas uma ação inibida.

Na década de 90 … descobriu-se que, certos neurônios específicos de áreas motoras do cérebro, eram capazes de responder…quando a ação executada era a mesma; percebida visualmente. Eles então ficaram conhecidos como: “neurônios-espelho” – base da nossa capacidade de imitar. Tais neurônios porém, podem também ser a base da nossa ‘compreensão’, e da “empatia”.

Neurônios-espelho são uma descoberta recente das neurociências (início dos anos 90),  sendo já considerados como uma das grandes promessas da área, capazes de revolucionar a forma como o ‘cérebro’ é entendido… principalmente no que diz respeito à um tipo de “compreensão imediata”, através de um…”mimetismo simulado sem a necessidade de passar por qualquer tipo de “intermediação” — do “controle central” — do cérebro.

É comum acreditar, não só por causa dos estudos científicos, mas também por nossas próprias intuições a respeito – que para a mente imitar, ou compreender uma ação, o cérebro deve utilizar áreas distintas. – A 1ª área deve perceber tal ação, a 2ª ser capaz      de traduzir tal ação alheia, em uma ação do nosso próprio corpo; e a 3ª, de comandar          e coordenar o corpo para realizar tal ação…Contudo, uma das grandes descobertas da neurociência — foi que, ao invés do que se pensavao cérebro não usa áreas distintas,    para certas percepções efunções motoras‘. – Sabemos agora, que áreas até há pouco consideradas exclusivamente motoras, têm papel crucial no reconhecimento de ações vindas de outras partes. Ao invés de dividir funções, o cérebro faz tudo de uma vez só.  Surpreendentemente, Darwin chegou perto de prever algo semelhante; quando disse:

“Não parece improvável que…quando pensamos muito numa determinada sensação,            a mesma parte do sensório, ou uma bastante próxima, seja da mesma forma ativada,      que quando temos de fato a sensação. – Se isso realmente acontece, mesmas células        do cérebro serão estimuladas…ainda que talvez num menor grau, quando pensamos intensamente num gosto azedo…e, quando o sentimos de fato. E em ambos os casos, transmitirão forças nervosas para o centro vasomotor, com os mesmos resultados”.

Existem também, os chamado neurônios-espelho emocionais que estariam                        na base de nossa capacidade de empatia…principalmente no que diz respeito                      às emoções primárias…como medo…dor…nojo e alegria. Foi descoberto…por                      exemplo, que a mesma área cerebral, que nos habilita a uma expressão facial                      de nojo, nos permite também identificar tal expressão, em outros seres vivos.

Por acaso, uma grande descoberta

A descoberta dos neurônios-espelho se deu por acaso no estudo da área motora, conhecida como F5 — em cérebros de macacos. Foi observado que um mesmo neurônio individual disparava… – tanto quando um determinado tipo de ação era realizada quanto… – quando esta mesma ação — ocasionalmente — era observada — por este mesmo macaco.

Tais ações, é claro, não eram quaisquer ações, mas ações evolutivamente relevantes como, por exemplo: pegar algo com precisão – segurar algo – mover os lábios para pegar ou mastigar algo, etc. Já se sabia do fato de que tais áreas não diziam respeito a movimentos individuais, e sim ‘atos motores‘…ou seja, um dado neurônio disparava não quando um certo movimento (por exemplo, pegar algo com a mão esquerda) era executado…mas sim, quando era executado um determinado ato motor — como pegar algo… Não importava se este algo era pego com a mão esquerda, direita ou mesmo com a boca o que importava, era a própria ação de pegar algo. – E se este mesmo movimento físico de pegar algo fosse realizado dentro de outra ação; como se coçar, por exemplo tal neurônio não disparava.

Tais ações foram chamadas de ‘ações intransitivas‘, ou seja, não envolvem um objeto específico para o qual a ação é voltadaTudo isso indicava que aquele neurônio da área motora F5 do cérebro dos macacos não dizia respeito à codificação de dado movimento muscular da mão. — O que ele codificava era algo de certa maneira mais abstrato ele era ativado sempre que algo era agarrado de forma precisacom a mão, ou com a boca.

Para surpresa dos pesquisadores…foi descoberto que este mesmo neurônio, que deveria ser exclusivamente motor, também era ativado quando o macaco observava exatamente esta mesma ação específica – realizada por outros animais. Ele era, então, umneurônio visuomotor a mensagem mandada por tais neurônios era exatamente a mesma não importando se a ação estava sendo realizada ou observada…Mais impressionante ainda,      é que em certas ações que produzem sons como quebrar a casca de amendoim para comer sua noz, os neurônios-espelho podem ser ativados – até mesmo só com este som; deixando claro que para estes neurônios…o que importa é a própria ação, e não o modo como ela é realizadaou percebida. De certo modo este neurônio é ativado não por um determinado ato, seja ele motor ou visual (ou, até sonoro), mas sim, pela compreensão    do significado do ato. Isto indica que a função primordial dos ‘neurônios visuomotores’  em macacos está na capacidade de compreender, de forma imediata, a ação dos outros.

Empatia (enxergando os outros)

Nos seres humanos, como nos macacos, a visão dos atos realizados pelos outros produz uma imediata ativação de ‘áreas motoras’…incumbidas da organização e execução destes atossendo que — por meio dessa ativação, é possível decifrar o significado dos ‘eventos motores’, em termos de movimentos…com objetivos.

Tal entendimento é totalmente isento de qualquer mediação reflexiva conceitual, e        /ou linguística…uma vez que é baseado exclusivamente no vocabulário de atos…e, no ‘conhecimento motor’…do qual depende nossa capacidade de agir. Ademais, também como ocorre ao macaconão é limitado a atos motores singulares, mas é extensível a        toda uma cadeia de atos. – Com efeitoestes neurônios estariam envolvidos em uma capacidade motora de compreensão que seria imediata – ou melhor dizendo … sem a necessidade de…’análise conceitual’…da ação que está sendo observada, ou realizada.  Simplesmente…observando uma ação — sem nenhum ato conceitual mais elaborado,          um macaco poderia, por exemplo, reconhecer que outro macaco estava pegando algo      para comer. Para Giacomo Rizzolatti e Corrado Sinigaglia, autores do livro: Mirrors          in the Brain, esta seria a função primordial dos neurônios-espelhoem macacos ou humanos. Porém, tão interessante quanto a semelhança do nosso cérebro com o dos macacos, são as diferenças encontradas entre eles – no que diz respeito a estas áreas.

Existem algumas diferenças fundamentais entre neurônios-espelho dos macacos, e            dos humanossendo de extrema relevância, por tratarem justamente do substrato          neural que nos dá maior poder de aprendizagem, imitação e linguagem. Tal “poder superior” fica evidente, com o fato de que tais neurônios ocupam um maior espaço            cortical nos humanos que nos macacos. Uma destas diferenças é que…ao contrário            dos macacos — nos humanos… — os neurônios-espelho também respondem a atos intransitivos, isto é…movimentos que não são diretamente relacionados a nenhum            objeto em particular – comopor exemplo, simplesmente mover o braço. Embora            esta não pareça ser uma diferença importantesua conexão com a linguagem, por expressões corporais que buscam passar um significado — permite ao ser humano                uma gama maior de atos motores, entendidos e imitados pelos neurônios-espelho.

Outra diferença importante é a capacidade de reproduzir fielmente a duração no tempo de vários movimentos observados. Este fato permite ao cérebro não só imitar os movimentos, mas imitá-los mais fielmente – respeitando a duração de cada movimento – assim como a sua conexão temporal. Imitar um ato respeitando seu tempo, é importante também para a nossa capacidade linguística – pois esta, ao se tornar mais complexaexige cada vez mais um ritmo exato para ser compreendidahavendo significado nesse próprio ritmo. Uma mesma expressão – conforme o ritmo e a entonação – pode ter significados bem distintos.

Neurônios-espelho de certo modo imitam imediatamente o que outra pessoa faz;        imitação esta que é inibida por outra parte do cérebro, mas que quando esta área              falhasurge prontamente. Esta ‘compulsão’ de imitar que o cérebro tem, parece incontinentemente ligada à nossa capacidade de apreender e de entender. Tal capacidade pode indicar que o que chamamos de “compreender”, seja entendida              apenas como “fazer internamente”ou “imitar internamente”. É possível que                algumas das nossas funções cerebrais, parte do que normalmente chamamos de              “mente”, possam ser entendidas através da ativação desses ‘neurônios-espelho’.

Paridade na Comunicação                                                                                                            Há uma hipótese…relativa ao surgimento da linguagem humana defendendo que esta surgiu de gestos realizados principalmente com os braços…e também expressões faciais. Partindo desse princípio – é bem possível que os “neurônios-espelho” tenham um papel fundamental em tal origem – ajudando então a resolver uma série de questões sobre ela.

Grande parte dos “neurônios-espelho” diz respeito a atos relacionados com alimentação; tais movimentos se assemelham bastante aos movimentos empregados na comunicação verbal. – Os movimentos necessários para morder e para falarsão muito semelhantes, mesmo assim os resultados são díspares entre espéciesNeurônios-espelho são capazes de compreender a mordida do cachorro, mas incapazes de compreender movimentos do latido. Já na observação dos movimentos humanos, houve resposta eficaz, a ambos os movimentos. Tais resultados indicam…nitidamente, que certos neurônios não disparam apenas para movimentos labiais sendo também seletivamente direcionados para atos comunicativos. Teríamos então…neurônios-espelho “exclusivos” para a comunicação.

Algumas pesquisas também indicam uma ligação direta entre os gestos dos braçose o movimento da boca. – De fato, na busca desse processo, podemos encontrar, ao menos parte da origem da linguagem em nossa habilidade de gesticular. Há ainda uma ligação forte entre a comunicação oral e os gestosMesmo após milênios, nossa capacidade de gesticular, e modificar o tom e ritmo da voz…ainda é de extrema importância para uma comunicação efetiva. Note-se que o próprio modo como tais neurônios funcionam … já      nos dá uma excelente indicação da sua importância à comunicação  pois para um ato comunicativo ter sucesso deve haver uma espécie de ‘paridade’, onde só podemos dizer que algo foi devidamente comunicado… – se a mensagem que foi recebida é de alguma forma similar (ou melhor igual) à enviada. Sem isso, concluímos que a comunicação falhou. Mas, para que uma tal comunicação ocorra, parece ser necessário que a mesma ação seja compreendida de uma forma razoavelmente idêntica, em cérebros diferentes.

Uma última observação que aproxima neurônios-espelho do surgimento da linguagem pode ser tirada da“neuroantropologia” – o estudo das estruturas cerebrais de fósseis humanos – mesmo que tais estudos não sejam muito precisospois devem se realizar,        não com cérebros, mas com caixas cranianas fossilizadas. Mesmo assim, há indicações      de que o desenvolvimento do sistema de ‘neurônios-espelho’foi umas das mudanças cerebrais relevantes para a evolução dos humanos… — Segundo Rizzolatti e Sinigaglia:

“Análises realizadas em traços de circunvoluções nas cavidades de um grande número      de crânios de Homo habilis de quase 2 milhões de anos de idade mostram que regiões frontais e têmporo-parietais desenvolveram-se, fortemente, naquele estágio evolutivo.  Isso sugere que a transição do australopitecos para o Homo habilis coincidiu com um ‘sistema espelho’ mais diferenciado, o qual forneceu o substrato neural à formação da ‘cultura da imitação’…que, para Merlin Donald, chegou ao ápice com o Homo erectus caminhando na Terraentre 1,5 milhões e 300 mil anos atrás. Também é plausível supor que os neurônios-espelho evoluíram ainda mais, durante a transição do ‘Homo erectus’ para o ‘Homo sapiens’, ocorrida há 250 mil anos – e responde pela expansão, tanto dos ‘atos motores’ quanto da habilidade…’recém adquirida’…de se comunicar intencionalmente por meio degestos manuais — que gradualmente vão se tornando    cada vez mais articulados…e frequentemente, eram acompanhados por vocalizações”.

O behaviorismo interno (“anti-behaviorismo”)                                                                          “É inquestionável que existe no homem uma forte tendência para a imitação, independente da vontade consciente. É o chamado de ‘sinal de eco’. (Darwin)

As áreas hoje correspondentes à linguagem se situam na região temporal do hemisfério esquerdo, causando certa assimetria do crânio … que já pode ser encontrada no “Homo habilis”. – Por esse motivo, cerca de 2 milhões de anos atrás é também a data estimada para o início de pressões seletivas para uma vocalização aumentada, que ocasionaram        o surgimento do que hoje chamamos “linguagem”. Vemos entãoe provavelmente não por coincidência…nosso principal instrumento para a transmissão de cultura, surgindo praticamente junto, ao aumento substancial em nosso sistema de neurônios-espelho.

Neurônios-espelho estariam hoje, na base da nossa linguagemcompreensão, e habilidade de adquirir cultura por meio da imitação… e outras formas de ‘aprendizagem social’. Todavia, o mais relevante é a maneira inusitada de pensar o…’funcionamento cerebral’ que surge com esta teoria…Os “neurônios-espelho” nos mostram que o processo envolvido na imitação é muito provavelmente bem diferente dos processos que intuitivamente acreditamos estarem envolvidos. Não seria preciso o cérebro primeiro perceber, depois traduzir para nosso corpo e por fim coordenar nossa ação. Ele parece fazer isso de uma maneira mais simplesbem mais econômica.

Não são necessárias áreas distintas do cérebro envolvidas em complexas                              transformações. O mesmo neurônio que percebe, é capaz de fazer aquilo                                que percebe…e vice-versa. A separação entre neurônio visual e neurônio                                motor não é necessária. Para tal neurônio perceber é fazer, e vice-versa.

Talvez o mais interessante de tudo seja a capacidade que esses neurônios têm para compreender determinada ação. Podemos conceber um neurônio para ‘pegar algo’,            não importa como este algo é pego. Além disso, ele não é disparado com o simples movimento intransitivo – que copia todos movimentos musculares, mas não pega              nada. – Ao observar algo sendo pego…o neurônio é capaz de entender este evento            motor em termos de objetivos, sem qualquer mediação reflexiva, conceitual, e/ou linguística – uma vez que é baseado exclusivamente no vocabulário de atose no conhecimento motor – do qual depende nossa capacidade de agirCompreender                  e fazer, nesse casosão muito mais próximos do que intuitivamente acreditamos.

De fato, para que uma pessoa, ou mesmo um macacocompreenda o ato de “pegar algo”, não parece ser preciso que esta ação seja antes observada ‘passivamente’ para que depois este ‘dado cerebral’ seja levado para outra área “onde a compreensão ocorre”. Existe uma espécie de “compreensão visuomotora imediata”. Isto tudo pode parecer ‘contraintuitivo’, pois não precisa da criação de complexas representações internas…ou ‘centros decisórios autônomos’. Com efeito, a área inibidora não é um “centro decisório”…pois não decide se queremos ou não fazer certo movimento; e só ao decidir fazer o movimento é que envia o sinal às áreas motoras, que aguardavam passivamente. – O centro inibitório, na verdade, apenas reprime um movimento – que já está em vias de ser realizado…automaticamente.

A relação é justamente a inversa: um centro decisório serve para ativar ou não áreas motoras; o centro inibitório serve para inibir ou não estas áreas.

Historicamente diferenciamos entre aquilo que o corpo faz, e o que a mente faz. Andar e pensar em andar seriam 2 coisas completamente diferentes…Mas os ‘neurônios-espelho’ indicam que pode existir um novo modo de tratar este problema. Pensar em andar pode ser muito mais parecido com andar do que a psicologia popular admite. – Talvez para pelo menos partes do nosso cérebro ‘andar’…e ‘pensar em andar’, sejam exatamente a mesma coisa. E, mesmo não podendo deduzir isso desses neurônios-espelho…podemos ver que eles trazem uma nova maneira de pensar…sobre a mente…e seu funcionamento.

RepresentaçõesPrimitivasEvolutivasContraintuitivas…                                        ‘Pensar’ talvez seja apenas uma consequência de ‘inibir o movimento’.                              

O cérebro pode funcionar de um modo bem mais econômico e contraintuitivo, do que a psicologia tradicional é capaz de conceber. A diferença entre realizar um movimento físico e pensar neste movimento pode ser apenas que no 2º caso…uma área inibitória do cérebro está agindo… O cérebro pode precisar    de mais esforço…’para não fazer algo’, do que fazer alguma coisa. — E, antes desta área existir a própria ideia de ‘pensamento’ poderia não ter sentido.

Segundo a noção mais intuitiva e simples de…“representação” – o mundo precisa ser representado internamente na mente para que possamos nos relacionar com ele. Nossa relação com o mundo externo portanto é indiretamediada pela representação interna que fazemos dele. O mundo externo, por sua vez, serve como base para a construção de uma representação interna, ou imagem mental. – Se há uma representação interna que não corresponde a nada no mundo temos uma… “alucinação”. De imediato, podemos perceber não ser esta uma relação das mais econômicassomos ‘seres do mundo’, mas não nos relacionamos com o mundo que vivemos, sem uma representação interna dele.

Nessa noção popular, antes de fazer ou falar algo, devemos pensar o que vamos fazer, ou falar; mesmo que inconscientemente isto tenha que ser decidido dentro do cérebro, para depois o comando de execução ir às áreas motorasou ser inibido pelas áreas inibidoras.

Este tipo de ‘representacionalismo’ é bastante comum; sendo frequente tanto em teorias dualistas, como em teorias materialistas também. Boa parte das teorias neurocientíficas, por exemplo…admitem que o mundo externo é de algum modo representado no cérebro,    e que áreas motoras são de certa forma passivas, e comandadas por uma área de decisão, que é autônoma em relação a elas. Neurônios-espelho‘ servem para mostrar que o funcionamento do cérebro exige uma revisão dessas intuições sobre as nossas mentes.  O esperado é que tal explicação não seja intuitivapois é preciso tratar o que está sendo analisado a partir de termos diversos dele mesmoUma explicação das nossas intuições deve ser ‘contraintuitiva’, pois intuição é aquilo que achamos não precisar de explicação.

Não há motivos para achar que estas intuições mais primitivas, necessariamente estejam certas. — Elas são apenas mais adaptativas para o ambiente — onde…e quando surgiram. As intuições sobre o funcionamento das nossas mentes … e das mentes dos outros, nessa época dificilmente demandavam explicação mais aprofundada, só precisavam ser boas o suficiente para permitir nossa sobrevivência e reprodução diferencial. Não há motivos para que explicações mais primitivas sejam a verdade sobre a mente‘, muito menos que nossas intuições sobre o seu funcionamento também sejam verdadeiras. — Estas, não só podem, como devem estar erradaspois quando surgiram, as necessidades eram outras.

A existência dessas intuições primitivas, provavelmente têm origem evolutiva, e portanto, devem estar adaptadas a um ambiente local ou em alguma época foram a ele adaptadas. No que diz respeito à física e matemática o ambiente local era newtoniano, e euclidiano. Mas não devemos esperar adaptações ao ambiente einsteiniano ou quântico, por exemplo. Não é sem razão – que essas 2 novas fronteiras da física nos pareçam tão contraintuitivas: em velocidades próximas à da luz o tempo passa mais devagar, objetos se encurtam, e sua massa aumenta já em escalas quânticas…partículas se encontram ligadas e sem estados definidos, etc. – O mesmo, aliás, se dá com a biologia – onde o ‘pensamento populacional’ trazido por Darwin vai contra nossas intuições mais íntimas sobre separação das espécies.

A complementaridade Mente/Cérebro                                                                              Um dos argumentos mais contundentes do dualismo é o nosso acesso imediato à mente; mas o cérebro não precisa funcionar…da forma como nós intuitivamente achamos que a mente funciona… – Na verdade, o oposto parece mais razoável é mais provável que o cérebro funcione segundo regras, que para nós … seriam consideradas ‘contraintuitivas’. 

Sabemos desde meados do século 20, que não há como discutir sobre a mente sem incluir o cérebro na conversa…Mas talvez…por dificuldades no desenvolver das “neurociências”, a profundidade desta relação … ficou meio obscurecida.

A descoberta do “neurônioespelho” promete revolucionar a neurociência, em especial, na compreensão … sobre o funcionamento de nossa própria mente em relação ao procedimento de como o nosso cérebro…seu substrato, funciona.

A questão já foi tratada no clássico “Consciousness explained” (1991)…do filósofo Daniel Dennett, onde, em poucas palavras, ele tenta mostrar que a mente não tem, nem precisa de qualquer espécie de…”significador central“…“onde tudo se une…faz sentido”. Os neurônios-espelho surgem então, como uma das evidências mais contundentes disso.    O livro é um excelente exemplo de como nosso conhecimento sobre o funcionamento do cérebro pode servir de base para redesenhar o modo como nossa mente funciona. – Se a mente é “o modo como o cérebro funciona” então para entender a mente é essencial que entendamos o funcionamento do cérebro. – O próprio David Chalmerscom suas 3 leis psicofísicas, mostra que ambos estão intimamente ligados. O modo como materialistas cartesianos abordam a noção de “representacionalismo” nas neurociências…é mais um exemplo de como ambas noções se confundem— Procura-se no cérebro o local para o que acreditamos existir — com base em nossa intuição sobre o funcionamento da mente.

Não há, portanto, motivos para acreditar que o nosso cérebro deva necessariamente trabalhar da forma como intuitivamente acreditamos que trabalha – e os neurônios-espelho surgem como evidência de que o seu funcionamento é bem diferente do que intuitivamente acreditamos. O mesmo se dá com a noção de ‘representação mental’.            Por mais intuitiva que esta noção seja, necessariamente, não significa que o cérebro         precise criar uma imagem do mundo para poder atuar nele, e os neurônios-espelho,        nos mostram que o cérebro consegue atuar de maneira mais direta; mais ‘imediata’.        Isso, porém, não significa que o cérebro não precise processar os inputs que recebe,        apenas, que tal processamento não precisa se dar na forma de uma representação          interna do mundo exterior, para que então um controle central decida o que fazer.

A relação do cérebro com o mundo pode ser muito mais imediata do que as teorias do representacionalismo nos fizeram acreditar. Uma nova perspectiva das neurociências        nos indica um novo horizonte na filosofia da mente…A separação entre pensamento e comportamento, realizada nas críticas aos behavioristas pode ser revista dentro desta        nova perspectiva. Não é o caso de se propor uma retomada do ‘behaviorismo’; apenas        de certas intuições fundamentais – especialmente a que liga mente e comportamento. Com o desenvolvimento da pesquisa sobre “neurônios-espelho” abre-se a perspectiva        de que o pensamento é uma ação inibida. Uma espécie de ‘behaviorismo negativo’ ou “anti-behaviorismo” surge…Ao contrário de negar a mente…ou recusá-la – dentro do ‘processo explicativo comportamental’, ela seria retomada: a mente existe, mas como   uma forma de “comportamento interno inibido”. Pensar seria não fazer. (texto base*******************************************************************************

Físicos afirmam ter detetado o quinto elemento – a quintessência (nov/2020)    Até Einstein, o éter era a substância essencial a partir da qual todas as partículas e ondas eram medidas, e o meio no qual elas se deslocavam. Mas a teoria da relatividade especial dispensou o éter; e o termo foi logo banido…criando-se muito preconceito em torno dele.

eter-quintessencia

À medida que a radiação cósmica de fundo de micro-ondas viaja pelo Universo até ser observada na Terra (imagem à direita), a direção na qual a onda eletromagnética oscila (linha laranja) é girada em um ângulo β. A rotação pode ser causada pela matéria escura ou pela energia escura interagindo com aquela radiação. Regiões vermelha e azul mostram, respectivamente, regiões quentes e frias da CMB. [Ilustração: Y Minami / KEK]

Todavia, mesmo após sua rejeição, não têm faltado tentativas de ressuscitar o éter, sendo que a versão mais moderna equivale ao chamado…vácuo quântico, que descreve o “vazio quântico” do espaço como uma…”sopa de partículas”…surgindo e sumindo, o tempo todo.  Todavia agora, Yuto Minami (KEK/Japão)…e Eiichiro Komatsu (Instituto Max Planck de Astrofísica, Alemanha) encontraram algo que pode colocar um fim à discussão…trazendo    o éter definitivamente à ‘superfície’. – E, para evitar controvérsias infrutíferas, em vez de chamar a substância detetada de éter — eles preferiram batizá-la dequintessência – ou “campo quintessencial”…uma referência ao quinto elemento, ao lado do ar, terra, água     e fogo… – propostos na “Grécia Antiga”… para explicar a origem de todas as substâncias.

Minami e Komatsu revisaram os dados da ‘radiação cósmica de fundo’ coletados pelo telescópio espacial Planck, usando uma nova técnica…desenvolvida por eles mesmos,      para medir o ângulo de polarização dessa luz ancestral – calibrando-a com a emissão          de poeira da Via Láctea. E eles descobriram algo que ninguém havia visto. – Essa luz residual sofre uma “torção” conforme viaja pelo Universo. E esse giro na polarização          das ondas de luz só pode ser explicadoatravés de um meio no qual as ondas viajam.        E esse meio, naturalmente, seria a “quintessência”…ou “quinto elemento”…ou “éter”.

Os resultados ainda são preliminares, não alcançando a significância                                    conhecida como “5 sigmas” — necessária para que os físicos declarem                                    uma descoberta… – Mas, foi o mais perto que qualquer um chegou de                                      ressuscitar o éter…desde a publicação da relatividade geral, em 1905.

The-CCMB-anisotropy-polarization-map

O mapa de polarização de anisotropia CMB pode ser decomposto em modos E de paridade par (sem ondulação), e modos B de paridade ímpar (sem divergência). Os modos B primordiais somente são criados por perturbações de tensor (ondas gravitacionais inflacionárias). [Edward J. Wollack]

As prováveis consequências

O resultado, tendo como consequência    a eventual existência da ‘quintessência’, muda totalmente de figura o estudo da ‘matéria escura’ e ‘energia escura’ as substâncias hipotéticas — que até hoje ninguém conseguiu explicar… — Uma, tem efeito atrativo, mantendo galáxias coesas, enquanto a outra, por meio de seu efeito de repulsãofaz o Universo  se expandir… — cada vez mais rápido.

A chave de tudo é a luz polarizada da CMB. Sendo a luz uma onda eletromagnética se propagando, quando essas ondas oscilam em uma direção preferencial, se trata de ‘luz polarizada’. Esta polarização surge da dispersão da luz por algo. Por exemplo…a luz solar consiste em ondas com todas as direções oscilantes possíveis, portanto, ela não é polarizada. A luz do arco-íris, por outro lado, é polarizada pelo espalhamento da luz        do Sol por gotículas d’água na atmosfera. Da mesma forma, a luz da radiação cósmica      de fundo (CMB) inicialmente se polarizou quando foi espalhada por elétrons, 380 mil      anos após o ‘Big Bang’. – Como esta luz viajou pelo Universo por 13,8 bilhões de anos,        a interação da ‘radiação cósmica de fundo’ com a ‘matéria escura’…ou ‘energia escura’, pode fazer com que seu plano de polarização gire em um ângulo β… E foi esse o giro    que foi medido – muito embora os resultados ainda não tenham…a precisão desejada.

E Minami concluiu: “Desenvolvemos um novo método para determinar a rotação usando    a luz polarizada emitida pela poeira em nossa ‘Via Láctea’. Com este método, alcançamos uma precisão que é o dobro do que já havia sido feito até agora – e finalmente…pudemos medir o ângulo β. O resultado mostrou um nível de confiança de 99,2%, mas…como para reivindicar uma descoberta na física … a significância estatística precisa ser muito maior, com um nível de confiança de 99,99995% – precisaremos esperar a construção de novos observatórios…para medir a polarização da CMB com uma precisão maior”. (texto base)

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O fenômeno consciente da ‘percepção subjetiva’

A capacidade de apreensão das coisas por meio dos sentidos, é fundamental                        na formação do conhecimento…Mas como garantir o saber objetivo, e erigir                      uma teoria do conhecimento … se a percepção envolve “objetos subjetivos”?

percepção

Conhecemos o mundo ao redor por meio dos órgãos sensoriais, onde a “percepção sensível, isto é… — nossa capacidade de assimilação das coisas, através da visão, audição, tato… olfato     e paladar… – desempenha um importante papel na formação das nossas crenças…e…’saber’.

Por isso, a percepção tem sido discutida, desde a antiguidade…com inúmeros problemas filosóficos girando em torno dela. – Podemos entendê-la como uma relação entre aquele que percebe e o que é percebido, isto é, entre um organismo com capacidades sensoriais, como o humano, e objetos e eventos do mundo. Na percepção a pessoa informa-se sobre esses objetos ou eventos, e essa informação, então percebida…lhe traz uma ‘experiência’.

Desse modo a fenomenologia envolve uma percepção das ‘qualidades sensíveis’ das experiências que surgem à consciência do sujeito…e que, em ‘Filosofia da Mente‘, denomina-se…’caráter fenomênico‘ do objeto experienciado pelo indivíduo. Como exemplo – ao ver um tomate maduro… a cor vermelha aparece à nossa consciência de    uma certa forma, ou seja, com uma característica qualitativa por mim subjetivamente apreendida. Assim, ao ter a experiência visual do tomate maduro, meu estado mental     tem um caráter qualitativo, que aparece de certo modo à minha consciência. Essa é a ‘consciência fenomênica‘. Daí, surge então a questão sobre o “caráter perceptivo”,    que na concepção ordinária – levando em conta que o…”emergente“…à consciência      diz respeito apenas ao objeto externo…representando a característica de um objeto. 

Contudo, existem argumentos filosóficos defendendo que, as ‘qualidades sensíveis’ comumente atribuídas a objetos, não são suas propriedades … mas sim, caracteres intrínsecos das “percepções“, existindo somente no sujeito. Nesse sentido…a cor vermelha do tomate não está nele; o que implica … que o tomate não é realmente vermelho…uma vez que sua cor estaria apenas… – na “mente” … de quem o vê.

Em contrapartida, outros pensadores defendem “qualidades sensíveis” como propriedades dos…”objetos externos”… – se aproximando assim,    daquela mais tradicional … concepção ordinária de percepção“.

Portanto, de um lado estão aqueles para os quais o caráter fenomênico das experiências perceptivas é explicado por propriedades subjetivas. – De outro…aqueles que procuram explicá-lo por referência a propriedades objetivas. E, em consequência, não se tem uma explicação consensual e satisfatória sobre o que é esse caráter fenomênico, e assim, não sabemos … com total certeza, qual a verdadeira natureza das “experiências perceptivas”.  No debate travado dentro da Fenomenologia entre subjetivistasintencionalistas,      2 teorias filosóficas que representam tais “concepções perceptivas”… – mostra-se como, convergindo e divergindo entre si…e da concepção ordinária de percepção – elas fazem  com o que é evidente ao “senso comum”…possa ser — naturalmente…”posto em xeque”.

arvorea) Subjetivismo

A concepção subjetivista tem predominado na Filosofia desde o século XVII…De modo geral – defende que a…’percepção sensível’ envolve algo mental e privado, só acessível por quem tem a ‘experiência’. – Segundo o filósofo Hilary Putnam, desde então… esse “algo” foi concebido, de diferentes modos, em denominações tais como impressõessensum, etc. Nesta concepção perceptiva,  qualidades sensíveis do objeto não seriam “propriedades objetivas do mundo”…mas, subjetivas – e intrínsecas às ‘experiências’.

Um dos principais expoentes desta teoria foi Bertrand Russell (1872-1970). Russell fazia parte do grupo de filósofos que batizou de “dados dos sentidos”… – àquilo que aparece à consciência de uma pessoa numa ‘percepção sensível‘…De forma geral, esses teóricos     os consideram objetos mentais… não físicos – que dariam à experiência perceptiva a sua qualidade aparente…Sendo, portanto… isso o que explicaria a fenomenologia das nossas percepções. Em defesa dessa teoria é comum utilizar- se o argumento da alucinação:

João está tendo uma experiência visual de uma árvore com caule marrom…e,                  folhas verdes, porém, nada assim existe diante dele. Conclui-se então que ele                    está tendo uma alucinação de uma árvore, com certas características. Ora, se                      não existe qualquer objeto diante de João…assim como aquele que aparece à                      sua…’consciência’…os objetos de sua experiência visual não lhe são externos,            devendo existir algo interno mental…que explique tais “objetos imaginados”.

No 2º passo desse argumento, devemos observar que percepções inverídicas podem ser qualitativamente indistinguíveis das verídicas, e que o caso de João é um desses. Por isso, quando João imagina a árvore, ele não consegue discriminá-la…de uma ‘visão real’.  Desse modo – sendo a “alucinação” de João introspectivamente indiscriminável de uma percepção genuína, deve existir algo que essas experiências perceptivas têm em comum.    O “subjetivista”, nesse caso, defende que tais experiências têm a mesma fenomenologia; compartilhando do mesmo caráter fenomênico… Portanto – os dados dos sentidos, que caracterizam o que aparece à ‘consciência do sujeito’…nos casos perceptivos verídicos e inverídicos – são objetos mentais…individuais. Ou seja, a ‘fenomenologia’ envolvida na percepção de João seria diferente… se, por acaso…os dados dos sentidos fossem outros.

Se em toda experiência perceptiva existem dados dos sentidos do qual João é consciente, mas nem sempre objetos externos estão presentes, tal como acontece na alucinação…diz-se que João é diretamente consciente de objetos mentais…Logo, na “percepção genuína”,  é ‘indiretamente’ consciente dos objetos externos que vê, pois existem dados de sentidos mediando a relação perceptiva dele com o mundo exterior. – Assim…é como se existisse uma tela interior na qual os objetos que vemos são sempre objetos projetados nessa tela.

Uma vez que…percepções inverídicas…”indiscerníveis“…das                verídicas são caracterizadas pelos mesmos dados dos sentidos,            conclui-se que… – “a natureza dessas experiências é a mesma”.

Por meio do argumento da ‘alucinação’… a teoria coloca em xeque a concepção ordinária de percepção em 2 sentidos: 1) Enquanto o senso comum atribui a objetos externos as qualidades sensíveis das nossas experiências…a ‘teoria filosófica subjetiva’ as explica por meio de dados dos sentidos, propriedades intrínsecas da experiência, cujas existências e naturezas dependem da consciência de quem tem uma ‘percepção sensível’…e 2) Contra   o que é usual pensar-se…existiria uma espécie de interface entre nós e o mundo exterior.

fenomenologia-husserl-fraseb) Intencionalismo

Muitos filósofos afirmam que as…teorias perceptivas – que se baseiam em objetos mentais – tais como “dados dos sentidos”, não logram explicar a…Fenomenologia da Percepção. Entre eles, os ‘intencionalistas’ entendem as experiências perceptivas por meio de um conteúdo intencional…o qual representaobjetos & eventos do mundo.

Para Gilbert Harman, um dos representantes da teoria – esse ‘conteúdo intencional’ seria suficiente para explicar o caráter fenomênico das percepções. Em seu entender, dizer que nossa experiência visual possui conteúdo é afirmar que ela representa as coisas de certo modo. E, sendo assim, o conteúdo representacional de uma experiência fica definido por referência aos objetos percebidos. Desse modo ser representacional é ser intencional, pois a experiência é sempre acerca de algo E, como a experiência perceptiva requer um conteúdo intencional  o que é percebido é tratado como um “objeto intencional”.    Harman visa mostrar a inadequação da teoria subjetivista à fenomenologia da percepção revisitando o argumento da alucinação, e o confrontando com a tese da ‘transparência da experiência‘, pela qual na ‘experiência perceptiva’ não nos tornamos conscientes de nada além do que nossos ‘estados mentais‘ representam. Nessa tese, o subjetivismo se equivoca ao tomar as “propriedades” representadascomo intrínsecas da experiência.  No exemplo anteriorsegundo Harman: João está vendo uma árvore, então, o conteúdo da sua experiência visual é a árvore, que é representada de certa maneira para João…por exemplo, contendo caule marrom e folhas verdes…Seja nas percepções verídicas, ilusões    ou alucinações…a árvore que João percebe – apresenta-se para ele … estando no mundo.

“Assim, a representação mental de uma experiência                                          representa — algo no mundo … não algo na mente”.

Harman defende que…nada na experiência visual de João lhe revela as propriedades intrínsecas da experiência, em virtude das quais possui o conteúdo que possui… – Se somente propriedades representadas nos vêm à percepção – nenhum objeto mental  individual – que daria à experiência, sua qualidade sensível… nos será revelado. Se o      que nos é revelado for apenas o… “conteúdo representacional”… é esse conteúdo que determina o ‘caráter fenomênico’ envolvido na percepção – seja ela verídica…ou não.

Nesse caso não são requeridos objetos externos para a determinação da Fenomenologia. Se a percepção individual for verdadeira, seu conteúdo também é verdadeiro – e…tendo em vista que os objetos da experiência são ‘objetos no mundo’… com suas propriedades; seu “caráter fenomênico”…é dado por referência a propriedades de… “objetos externos”.  Assim, em oposição ao ‘subjetivismo’, nos casos verídicos, os objetos da experiência não são objetos mentais. – Se a pessoa estiver alucinando…o conteúdo representado em sua experiência perceptiva é falso … embora lhe pareça o contrário. – Como ter experiência, requer um conteúdo representado…não dependendo da existência de ‘objetos externos’, explica-se assim também…a “fenomenologia das alucinações indiscrimináveis“.

O intencionalismo de Harman se aproxima então da concepção ordinária perceptiva,      na medida em que as qualidades sensíveis envolvidas nos casos verídicos se explicam    com base em propriedades objetivas. – A diferença… no entanto, é que… nesta teoria,      o que determina o caráter do fenômeno perceptivo…é seu conteúdo representacional,        e não os próprios instrumentos da percepção…tratados como…”objetos intencionais”.

epochcContraponto a Harman

Vimos … como a “tese da transparência” utilizada por Harman, contra o “argumento da alucinação”, objeta a existência de dados dos sentidos em nossas percepções…Porém, ao nos apresentarem apenas propriedades representacionais Christopher Peacocke questiona a transparência das visualizações.

Peacocke entende que o conteúdo representado nas experiências, não apreende todas as qualidades sensíveis, sendo assim, não explicaria seu ‘caráter fenomênico’. Experiências perceptivas, além de representarem propriedades de objetos…apresentam também suas aparências…e portanto – devem existir aí…”propriedades não representacionais“.

Tal conclusão, se contrapõe à tese de que o conteúdo representacional seria suficiente para explicar o caráter fenomênico subentendido nas percepções.

Nessa perspectiva…assim como objeções pesam contra a teoria dos dados dos sentidos, a teoria de Harman não explica a fenomenologia satisfatoriamente… As nossas percepções parecem nos colocar em contato direto e imediato com o mundo, ao nosso redor…porém, um dos motivos para desconfiarmos delas… – é que, podemos tomar um caso perceptivo inverídico por uma percepção genuína…e nos enganarmos a respeito do que percebemos.    O que nossa experiência perceptiva nos mostra, pode não existir no mundo…tal como se    dá nos casos alucinatórios… – E isso abre caminho à ‘teoria subjetivista’… que defende a existência de abstratos objetos mentais em todas percepções; de onde apreenderíamos o mundo indiretamente, através de uma interface entre quem percebe e o que é percebido.

Entretanto, por meio da ‘tese da transparência’…os ‘intencionalistas’ argumentam que as experiências nos mostram apenas seu conteúdo representacional, e desse modo o ‘subjetivista’ se equivoca…pois nas “percepções”… – não estaríamos conscientes de … “objetos mentais”.

Além dessa objeção…o ‘subjetivismo’ traz consigo o problema de justificar nossas crenças do mundo a partir de objetos teóricos mentais específicos. Mas eliminar ‘objetos mentais’ da Fenomenologia da Percepção não é tarefa fácil… – Isso foi mostrado por Peacocke…ao argumentar que… o “conteúdo intencional” não é suficiente para explicar o que aparece à consciência individual. – Portanto, frente aos problemas levantados contra suas próprias teorias filosóficas – ainda não há explicação satisfatória para o caráter fenomênico das percepções… e, por conseguinte – sobre qual a… “natureza das experiências perceptivas”.  Serão estas — como quer a concepção ordinária — constituídas por aspectos da realidade exterior apreendidos por nossos sentidos?…Serão as qualidades sensíveis explicáveis por objetos não físicos…ou por uma referência a propriedades objetivas?…Responder a essas questões é fundamental para uma “teoria da percepção” que se pretenda filosófica – pois esta não pode prescindir do que é vivenciado pelo sujeito…como consciência fenomênica.

Uma 3ª via… – à vista

Embora subjetivistas e intencionalistas discordem sobre o “caráter fenomênico” das experiências eles concordam que as “alucinações de percepções verídicas” compartilham a mesma fenomenologia,  onde o experienciado pelo sujeito é o bastante para se atribuirmesmo “tipo fenomênico” à elasHá, contudo, uma nova corrente que também se opõe à tal ideia (“disjuntivismo fenomênico“).

No entender de Michael Martin, seu idealizador…a experiência de alguém não o autoriza a afirmar que o “caráter fenomênico” é o mesmo…nos casos alucinatórios indiscerníveis dos verídicos. Assim, não decorre que, de experiências parecerem iguais à pessoa, que tenham algo em comum… – O que abre espaço teórico ao argumento de que estas situações sejam “absolutamente” distintas, ainda que pareçam fenomenicamente indiscrimináveis…Daí, a denominarem uma “disjunção“… – ou a pessoa viu algo de fato, ou pareceu-lhe ver algo.  Ou seja, ‘alucinações‘ indiscrimináveis de percepções verídicas seriam experiências de naturezas diversas. Tal pensamento permite a Martin concluir que, em casos verídicos: 

“os objetos são constituintes da…”experiência“… – e, portanto,                  suas naturezas determinam o caráter fenomênico da experiência”.

Retorna-se assim, à concepção comum de “percepção“, ao tratar os objetos da experiência, nos casos verídicos – como…objetos no mundo…e não, objetos mentais, ou intencionais. Mas o que dizer do que surge à consciência de quem alucina?… – Segundo Martin, o único atributo à “experiência alucinatória”…é seu caráter de indiscernibilidade. Não haveriam dados dos sentidos, conteúdos intencionais falsos, ou outra coisa qualquer, a caracterando fenomenicamente; isto é…o que se pode falar sobre a “fenomenologia da alucinação”… – é a propriedade desta… ser “indistinguível” das percepções genuínas. – Todavia, o principal problema aqui enfrentado por Martin…é negar que alucinações indiscerníveis ao sujeito… compartilhem do mesmo “caráter fenomênico” das percepções verídicas… pois – segundo ele… “o que pode existir de mais verdadeiro…ao caráter dos ‘estados conscientes da mente‘…do que a pessoa…(por si mesma) – poder discernir… quando reflete sobre eles?”

Essa teoria é assim desafiada a demonstrar que… em percepções verídicas,                      existe uma diferença experiencial em relação às alucinações — mesmo que                        esta seja subjetivamente ‘indiscriminável‘ de um caso verídico. (“o autor”) **********************************************************************                      Perdemos o mundo, para o ganhar de um modo mais puro…retendo o seu sentido. A fenomenologia põe fora de circuito a realidade da natureza… – do céu e da terra…dos homens e animais, do próprio eu e do eu alheio, mas retém por assim dizer, a alma, o    sentido de tudo com o qual estou imediatamente em contato, de modo que os objetos assim considerados não só estão presentes, mas brotam de mim mesmo”. (J. Fragata)  *******************************************************************************

A “fenomenologia da percepção” segundo Merleau-Ponty                                         Na visão cientifica o homem é só um objeto de observação e estudo, na visão filosófica, ele percebe seus pensamentos. A visão da ‘fenomenologia da percepção’ é a soma delas”.

merleaupMaurice Merleau-Ponty (1908–1961) retrata um pouco da “fenomenologia da percepção”…juntando vários conceitos de diversas áreas da ciência, dando sentido ao resgate das coisas mesmas, de uma forma na qual, o homem se coloca diante de si mesmo…do outro…e do mundo. – Ao resgatar nossas experiências – e, chegando à causa dos fenômenos, podemos assim analisar…sem ‘juízo de valor’, o que nossa relação com o mundo interfere, em nossos atos e decisões.  Essa ‘percepção da intencionalidade‘, decorre de que somos sujeitos em constante movimentomodificando, e sendo modificados pelo mundo… – sempre observando, e modificando…valoresconceitose ações…analisando as causas e consequências de nossos atos; percebendo nosso corpo, e sua atitude, perante um “mundo de sentimentos”.

Nesse mundo – o qual podemos chegar através do conhecimento que se percebe nele…a fenomenologia da percepção o vê através do homem…como uma mistura de consciência      e corpo…carregado de sentimentos e atitudes…que constrói o seu próprio agir.  (texto 1)

A fenomenologia é o estudo das essências, ou seja, repõe as essências na existência. É sua ambição filosófica torna-se uma ciência exata, mas é também um relato do espaço, do tempo, e mundo vividos, onde estas essências trazem consigo todas as relações vivas da experiência, e assim a fenomenologia no movimento existe. Todo pensamento de algo é consciência de si – é o próprio ser do espírito em exercícioo ‘modo de existência’, como consciência…que apreende à distância… – contraindo em si…tudo o que bem lhe prouver. Uma eternidade que define a subjetividade, ‘cogito’ que me revela…um novo modo de ser.

O ‘cogito’ é o pensamento de fato e ser no mundo. O verdadeiro ‘cogito’ reconhece meu pensamento como um fato, e me revela como ‘ser no mundo’. – Eu reconstituo o ‘cogito’ histórico, e não pensaria nele, se não tivesse em mim tudo que é preciso para inventá-lo.    A percepção … pressuposta por ele – é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam. Imaginamos o espaço em si com o qual o sujeito que percebe coincide; nele descreve-se      o conhecimento obtido no mundo, que ele mesmo constrói. – O sujeito faz as coisas em torno de si… – as extraindo de si… – e… as faz existir… – para as dispor… – a si mesmo.

O mundo é o que eu vivo…não o que penso. – O mundo é inesgotável… O mundo está ali, antes de qualquer análise que eu possa fazer. O real deve ser descrito. A reflexão arrebata-se a si mesma e se recoloca numa subjetividade para aquém do ser e do tempo…O homem está no mundo – meio natural e campo…de todos os pensamentos…e todas as percepções.  O mundo fenomenológico não é o ‘ser puro‘…mas o sentido, a experiência…subjetividade,  e intersubjetividade. O ‘logosque preexiste é o próprio mundo. A localização dos objetos no espaço utiliza a motricidade do corpo. – O sujeito da geometria…é um “sujeito motor”.

O corpo está no mundo, formando com ele próprio um sistema. Se para mim existe… e se posso alcançar um objeto é porque pela experiência perceptiva eu me afundo na espessura do mundo. Trata-se de despertar a experiência…tal como nos aparece…enquanto estamos,  por nosso corpo… condenados aos sentidos. – Nele…há um movimento gerador de espaço (nosso movimento intencional), que – distinto do movimento das coisas, desempenha um papel ativo na percepção do mundo como intencionalidade original, distinta do saber…Aí, nosso corpo se move inseparável de uma visão do mundo como condição de possibilidade de todas operações expressivas… e, aquisições construtoras do… “meio cultural”. (texto 2**********************************************************************************

A “consciência fenomenológica”                                                                                            A consciência tem consciência de si própria…processo que Husserl chamou de percepção imanente. Já a percepção que a consciência tem das coisas é a consciência transcendente. 

conscic3aanciaA proposta principal da fenomenologia é…”voltar às coisas mesmas”… ou seja… – ir aos fenômenos; definidos como tudo que se mostra à ‘consciência humana’. E este caminho aos fenômenos, deveria ser direto…sem a influência de análises reflexivas.  Este retorno às coisas mesmas…visa abandonar a separação entre ‘sujeito/objeto’ do conhecimento, este, para sempre objeto, à consciência do sujeito.

É a “intencionalidade” da consciência humana que dá o direcionamento para alcançar o essencial do fenômeno…processo denominado “redução fenomenológica”…que requer a suspensão de atitudes, crenças, preconceitos…teorias – de forma a só se concentrar…na experiência cotidiana do mundo vivido – permitindo que o fenômeno fale por si mesmo, para além de sua aparência…Essa concepção de uma ‘consciência intencional’, difere da visão anterior de uma consciência como fenômeno psíquico, manipulável pelas ciências      da natureza. – A ideia de uma ‘consciência intencional’ implica ao homem estar sempre em relação ao objeto – o que rompe com a ‘lógica individualizante pré-fenomenológica’.

O interesse da fenomenologia é o modo como o conhecimento desse mundo existente se    dá para cada sujeito. Os fenômenos têm sua essência de ser e é isso que lhes confere um sentido e significado próprios. Além disso…os fenômenos são captados pela consciência através da…”intuição” – um método de conhecimento…direto e imediato da realidade.

A intuição consiste numa forma de olhar…que se adianta à análise racional…e, ocorre sem mediação do discurso. O intuir não se trata de pressuposto, mas da evidência imediata que se tem do mundo. – Enquanto o método intuitivo é direto, e busca conhecer de imediato a essência dos objetos, o método descritivo ‘analisa…para conhecer a realidade. (texto base) *******************************(texto complementar)*********************************

A fenomenologia ‘positivista‘ de Husserl                                                                          “Se por positivismo, entendermos o esforço de fundar as ciências                                      sobre o que for suscetível de se conhecer de modo originário; nós                                              é quem somos os verdadeiros positivistas!…” (Edmond Hursserl)  

cover_issue.jpgA fenomenologia de Husserl, do ponto de vista metodológico, adota uma “suspensão de juízo” em relação à existência do mundo…para poder recuperá-lo na consciência plena do fenômeno. De acordo com Husserl – é um método filosófico, cuja estratégia a princípio se resume em alcançar um grau máximo de “evidência”, assim como um deslumbramento sobre a existência das coisas.

Tal exercício, então, permite uma redução fenomenológica, pelo fato de recuperar o ‘significado puro’ das coisas…como ‘objetos              de pensamento’, por meio da consciência.

Enquanto o programa positivista para o estudo humano, do ponto de vista metodológico, deixa-nos confinados a uma “lógica indutiva” – segundo a qual, conhecer consiste em descrever, segundo uma observação positiva dos fatos, sua ‘regularidade’ – a abordagem fenomenológica nas ciências humanas convida-nos a um ‘esclarecimento’ sobre o que há de mais fundamental em um objeto de pesquisa… — deslocando-nos a atenção, dos fatos contingentes…para o seu sentido originário – indissociável de uma ‘vivência intencional’.

Tal abordagem consolida uma espécie de ‘conversão filosófica’, que nos faz                      passar de uma visão ingênua do mundo — para um modo de consideração                        das coisas no qual, em sua totalidade, o mundo se revela como “fenômeno”.

Uma atitude fenomenológica                                                                                                    Para Husserl, tanto a consciência do senso comum quanto a consciência das ciências ditas “positivas”…encontram-se, ainda que de modos distintos, mergulhadas na atitude natural, expressa na relação entre uma “consciência espontânea” (empírica ou psicológica) e o ‘mundo natural’, revelado empiricamente à consciência, em suas “circunstâncias factuais”.

O…’ideal husserliano’ – exprime-se pela determinação em fundamentar rigorosamente a filosofia, assim como a todas as demais ciências. Tomado por sua ânsia de rigor absoluto, em um ímpeto próprio de sua formação matemática, no início do século XX – Husserl se convenceu de que a fundamentação da filosofia deveria implicar necessariamente, numa plena racionalidade da mesma – por meio de uma nitidez do “sentido íntimo” das coisas, através de uma reflexividade radical, que daria consistência inclusive, à própria filosofia.  A atitude fenomenológica consistiria portanto numa atitude reflexiva e analítica, a partir da qual se busca fundamentalmente…elucidar, determinar e distinguir o ‘sentido íntimo’ da coisa, enquanto objeto de pensamento, tal como se mostra à consciência…analisando seu sentido atualizado no ato de pensar, e explicitando intuitivamente significações que,    ali virtualmente surgirem por cogitos…em sua emergência na ‘consciência intencional’.

Explorar a riqueza deste universo de significações que a coisa (cogitatum)                            nos revela no ato intencional, é o que é próprio da atitude fenomenológica.

Porém, fiel ao seu projeto filosófico de constituição da filosofia como ‘Ciência de Rigor’, Husserl sabe que as tais ‘evidências incontestáveis’…necessárias para a fundamentação      da própria filosofia…não poderiam ser extraídas do ‘plano empírico-natural’, pois…por mais perfeita que seja uma percepção empírica, será sempre a percepção de um “ponto    de vista”, e enquanto tal, somente poderá revelar “aspectos” ou “perspectivas” da coisa percebida. – E isso, de fato, se justifica…porque a crença acerca do que empiricamente percebemos, vai muito além daquilo que a percepção empírica efetivamente nos revela.

A transcendentalidade da percepção empírica                                                                Observar um objeto empiricamente será sempre um misto de visto/não visto. E, toda evidência extraída do ‘plano empírico-natural’, onde a consciência se relaciona com o mundo – será sempre uma ‘evidência perspectivista‘ (existencial)…isto é, parcial.      Como nos diz Husserl: dos fatos, não podemos extrair evidências absolutas“.    (coisas são questionáveis, quando não excluem a possibilidade de sua não existência).

Assim, segundo Husserl…não podemos extrair evidência plena de nossa “percepção empírica” do mundo, pois…do que a experiência sensível nos revela … jamais eliminaríamos totalmente a possibilidade de dúvida…sobre as coisas que se nos apresentam…sempre corrigindo nossas ‘percepções’ – em relação ao estabelecido com base na experiência sensível. Seria impossível assim, denotar como “ciência rigorosa”… uma filosofia baseada apenas no…”ente mundano”.  Como…”estratégia metodológica”…para obter ‘evidências incontestáveis’… e assim, definir a filosofia com o “devido rigor”… Husserl optou por uma “epoché” (“suspensão de juízo”) em relação à questão primordial da ‘existência de coisas no mundo’ – pois assim … segundo ele:

“A fenomenologia prescindirá de tecer considerações acerca desta questão, para então direcionar sua atenção aos ‘fenômenos’tais como se revelam, na pureza irrefutável da auto-reflexão de sua consciência transcendental”.

De um lado, deparamo-nos com um modo de consideração das coisas… a partir do qual o mundo se revela para a nossa ‘consciência espontânea’ como o domínio empírico-natural dos fatos…que se encontram submetidos a uma dimensão espaço-temporal… Trata-se do modo de consideração do mundo, próprio das ciências positivas em geral. Paralelamente, como um recurso metodológico ao alcance de evidências irrefutáveis, o exercício ‘epoché’  de redução promoverá o salto ao modo “transcendental fenomenológico“, fazendo agora com que o mundo se revele como um ‘horizonte de sentidos‘ em ‘consciência pura‘.

Se esta consciência pura não pode ser tomada em termos de dados empíricos…cabe-nos apenas concebê-la a partir de sua relação intencional com seu objeto, que em sua versão reduzida (enquanto ‘objeto de pensamento’) nada mais é do que “conteúdo intencional”  da consciência. – Trata-se com tal redução, de fazer o mundo reaparecer na consciência como um horizonte de idealidades meramente significativas – que se revelam como um dado absoluto e imediato à consciência pura, que o apreende e constitui intuitivamente.

conscic3aancia-crc3adticaconsciência fenomenológica transcendental

A mesma consciência que intuitivamente apreende o objeto em sua versão reduzida…como “fenômeno puro”… – é também ‘responsável’ pela constituição desse mesmo objeto … — agora — no pensamento, sendo atualizado como uma… ‘unidade de sentido‘.  O objeto…sem ser pensado – precisamente porque inconcebível… (enquanto umcogitatum“)… exige uma doação de sentido que só pode vir através dos atos intencionais da consciência … subentendendo portanto, uma ‘consciência doadora’ (de sentidos).

Como consequência, deparamo-nos com 2 atitudes…a “natural” e a “fenomenológica“, das quais decorrem 2 modos distintos de abordagem. Se no 1º modo de consideração o mundo nos é revelado na lógica e certeza de sua “facticidade”… no 2º – o mundo se revela no puro significado de uma ‘consciência transcendental’, isto é…em sua totalidade como fenômeno. Pode-se então dizer, que – no exercício da epoché‘ (uma técnica de eliminação da dúvida inerente a toda posição do contingente) somos guiados, ao que Husserl considerou ‘a mais radical de todas as diferenciações ontológicas’. De um lado, o “ser transcendente” (‘mundo exterior’, que transcende a consciência – para o qual…estamos naturalmente orientados, e sobre o qual a epoché será exercida) e, de outro, o ser… como…”dado imanente”, presença  absoluta…sob o modo de “coisa pensadaintuitivamente na “consciência transcendental”.

A fenomenologia transcendental será então…uma fenomenologia da consciência constituinte (pode-se dizer que em Husserl…”ser evidente é ser constituído”). Exercer a epoché é reduzir o objeto à ‘consciência transcendental’. Tal redução, na medida em    que não desfaz a relação ‘sujeito/objeto’…põe em evidência uma nova dimensão dessa correspondência… – impedindo que a verdadeira e autêntica objetividade desapareça.

Essência intuída                                                                                                                            O caráter ‘necessário’ do objeto idealmente considerado, define a ‘essência’                      daquilo que se mostra na…e para a ‘consciência intencional’…revelando-se                            em sua dimensão originária na intuição vivida – onde dela se experimenta.

Frases-de-Edmund-Husserl-10

Para Husserl, toda ciência pressupõe um…quadro de essências…Todavia,    ao tomar um fato como o “objeto” de uma observação sistematizada, a fim    de descrever sua…”regularidade”… é muito comum à “ciência positivista”, ignorar esse“quadro de essências”,    já pressuposto por sua ‘investigação’, meramente no intuito de com o exercício da… “indução”… obter a definição de uma “lei geral Para Husserl tal ‘lei’ … nada mais é que uma generalização…com validade empíricaou mesmo circunstancial.

Essência“, segundo ele, deve ser entendida, não como uma…”forma pura”, que subsiste por si mesma…à revelia do modo como se mostra à… ‘consciência intencional’ — mas sim, como tudo que numa ‘redução fenomenológica’, permanece como o ‘núcleo invariante’ da coisa pensada – mesmo que à mercê de mudanças aleatórias…ao ‘arbítrio’ da imaginação.

A “atitude fenomenológica” concentra-se em um processo inverso daquele adotado pelas ciências positivas na descrição (ou análise) de essências. Nos termos de Husserl, trata-se de um ‘processo dinâmico’…uma atitude reflexiva e analítica, cujo intuito central passa a ser o de promover a elucidação do sentido originário que a coisa expressa, em sua versão reduzida, independente da sua posição de existência. Porém, engana-se quem pensa que, com a “estratégia metodológica” adotada pela fenomenologia, Husserl estaria negando a existência do mundo. – Antes, estaria renunciando a seu modo ingênuo de consideração, para…na “redução fenomenológica“, viabilizar o acesso a um…”viés transcendental”.   

Em sua versão reduzida, o mundo se abriria, enquanto…’campo fenomenal‘, na…e, para uma ‘consciência intencional’, como um “horizonte de sentidos”. Sem negar a existência  do mundo factual, renuncia-se pela epoché, à ingenuidade da atitude natural, para reter    a “alma do mundo” em sua pura significação…A redução fenomenológica faz reaparecer, na própria camada intencional do vivido, a verdadeira “objetividade”, pela qual o objeto, como conteúdo intencional do pensamento…é constituído e apreendido, intuitivamente.

“Redução fenomenológica”

Se as “ciências positivas” não deixam de considerar a relação ‘subjetivo/objetivo’, concebendo o ‘objetivo‘ como algo que sempre remete a uma realidade externa e independente, para a qual, até mesmo a “vivência” se torna “transcendente”, a ‘redução fenomenológica‘…permite, no ‘modo transcendente’, recuperar sua autêntica objetividade…domínio último e definitivo, sobre o qual seria, segundo Husserl, fundada toda ‘filosofia radical’. 

“Trata-se de uma exterioridade objetiva, fundada na pura interioridade,  unindo dessa maneira – objetivo…e subjetivo”. (Edmond Husserl…1929)

A adoção do programa positivista nas ciências humanas dá à consciência, a atitude natural de um ‘realismo ingênuo’ ao aceitar o mundo como uma realidade dos fatos acerca da qual o ‘saber‘ se torna uma possibilidade inquestionável. – Utilizando generalizações empíricas  a partir da sistematização do comportamento humano, em relação ao meio no qual este se insere, o programa confunde ‘leis do pensamento’ com leis causais da natureza…e assim… ‘sujeito do conhecimento’ com ‘sujeito psicológico’. – Do ponto de vista metodológico, nos confina à ‘lógica indutiva’…segundo a qual, conhecer consiste em descrever a regularidade dos fatos, buscando a partir de casos particulares inferir leis gerais, que por não passarem de ‘generalizações empíricas’, mantêm seu caráter circunstancial, casual…e probabilístico. Tais generalizações não são leis no sentido exato – já que não possuem um valor evidente.

Já a abordagem fenomenológica nas ciências humanas convida-nos a uma reflexão acerca do “quadro de essências” dos fatos que investiga (estabelecido por variações imaginárias), ao recuperar a intuição daquilo que se toma como objeto de investigação… – Convida-nos assim para uma atitude reflexivo/analítica, sobre o sentido íntimo daquilo que se atualiza no pensamento, bem como suas significações ali virtualmente presentes… com diferentes modos de ‘revelação‘ na camada intencional do ‘vivido’. Tal abordagem convida-nos para uma “iluminação” sobre o que há de mais fundamental no mundo que estamos vivendo… deslocando a atenção dos fatos contingentes, para o seu sentido originário…indissociável da intencionalidade, consolidando assim uma espécie de conversão filosófica que nos faz superar uma visão ingênua do mundo…pela qual este se revela…em sua totalidade, como “fenômeno exato”. Um convite, portanto, da fenomenologia à todas ciências. (texto base) *********************Carlos Diógenes Côrtes Tourinho (UFF/RJ)*********************

Origens e efeitos evolucionários da Consciência                                                          Essa é uma questão particularmente pertinente, quando os efeitos                                  reflexivos da consciência humana são considerados. – No entanto,                                    efeitos da consciência…nos processos evolutivos… são mais gerais.

estrelas-1Assim como não pode ser burra nem inteligente, a evolução não tem a chance, de ser consciente ou inconsciente… – No entanto, “sensíveis animais conscientes”, incluindo seres humanos…com pensamentos reflexivos são um dos “produtos evolutivos” mais ‘surpreendentes’…Dessa forma, mesmo que a dúvida sobre se a ‘evolução’ possa ser consciente, não faça sentido…é importante indagar como a consciência foi capaz de evoluir…e como, uma vez estabelecida…modificou as taxas e padrões evolutivos.

Como a consciência evoluiu, e afetou os ‘processos evolutivos’, são questões relacionadas. Isso porque a consciência biológica (única forma conhecida de consciência) é vinculada a uma forma particular e bastante sofisticada de cognição animal, uma livre capacidade de aprender por associação – tecnicamente conhecida como… “aprendizado associativo ilimitado” (UAL), em inglês. Animais com UAL podem atribuir valor a novos estímulos compostos e sequências de ações, lembrando deles, e usando o que foi aprendido em um aprendizado subsequente (de 2ª ordem). Em nosso trabalho, argumentamos que o ‘UAL’    é o referencial evolutivo da “consciência mínima” (da “experiência subjetiva”), porque se fizermos engenharia reversa dessa capacidade de aprendizado para o sistema subjacente que o habilita…tal sistema terá todas as propriedades e capacidades…que caracterizam a “consciência”. As quais incluem: a unificação de estímulos e ações, e sua acessibilidade à referência cognitiva; a formação de representações do mundo… – do corpo… – e de suas interrelações (levando à construção de um ‘eu virtual’); comportamentos direcionados      a objetivos…conduzidos por motivações emocionais, e baseados num sistema de valores, sujeito à percepções…e sequência de ações unificadas; flexibilidade de desenvolvimento, fundamentada em processos de seleção…incluindo atenção seletiva; e a formação de um substancial “presente”… – contendo…”sombras do passado” – mas…orientado ao futuro.

O ‘emaranhado evolutivo‘ de ‘consciência’ e ‘cognição’…indica que o comportamento animal foi impulsionado, não só pelo significado funcional direto de seu comportamento, mas por valores mediados de desejos e aversões atribuídos a um conjunto de percepções,    e ações elaboradas (onto)geneticamente. – Um animal que pudesse aprender livremente, poderia, teoricamente, atribuir valor a um número ilimitado de percepções e padrões de ação, e antecipar efeitos positivos e negativos, com base em “sintomas” a eles associados.

A ontogenia, ao contrário da filogenia, trata da história de um organismo em seu próprio tempo de vida e desenvolvimento. Já a filogenia se refere à história evolutiva de uma…ou mais espécies. – Enquanto processos do desenvolvimento – neste caso… “ontogenéticos”, podem influenciar processos evolutivos (filogenéticos)…como consequência, organismos individuais se desenvolvem (“ontogenia”), ao passo que as espécies evoluem (“filogenia”).

Aprendizado associativo (‘ontogenético’)  aprendizado associativo mudou as regras  do jogo: seres vivos agora podiam se adaptar ontogeneticamente… — enquanto espécie.

Diz-se que uma tal ‘capacidade de aprendizado’, levou à ‘explosão cambriana’. Comportamentos  aprendidos, tornaram-se assim fundamentais à sobrevivência…em um mundo…de constantes  mudanças… — Toda e qualquer…’característica comportamental’ – fisiológica…ou morfológica, que melhorasse o ajuste ontogenético, para um âmbito de aprendizado…logo seria selecionada.

O condicionamento evolutivo por aprendizagem/sobrevivência carrega consigo … uma diversificação morfológica/fisiológica…que – em última instancia, afeta diretamente o processo de…evolução das espécies.

Como o que os animais conscientes consideram bom ou ruim depende do contexto, que nem sempre é ideal, novos tipos de recursos podem evoluir. A evolução da mudança no sistema digestivo pelo consumo de outros alimentos, por exemplo, seria impulsionada pelo prazer que a comida proporciona a seus consumidores…mais do que, por seu valor nutricional. Ou, no caso de uma fêmea selecionando seu parceiroo motivo pode ser padrões complexos de cores nas asas e na cauda…A habilidade de perceber e aproveitar esses recursos leva à efetiva seleção dos machos…mesmo se estes tiverem de pagar com      a própria vida o custo da sobrevivência da espécie, segundo tal escolha por atratividade.  Não surpreende portanto que Darwin considerasse animais com complexas escolhas de parceiros como um sinal de uma mentalidade mais desenvolvida. A consciência, por tal motivo, evoluiu muito mais em alguns animais (pássaros…como papagaios; mamíferos, como elefantes, e talvez até alguns “himenópteros” e “cefalópodes“) onde a imaginação começou a impulsionar o comportamento – para que a ‘consciência reflexiva’ dos seres humanos levasse esse…mediado efeito evolutivoda consciência…a um novo patamar.

Por sistemas de representação – em uma linguagem simbólica … seres humanos podem se comunicar sobre feitos de sua própria imaginação.

A evolução humana – além de produzir complexos artefatos … tem domesticado plantas e animais, concretizado sistemas sociais, leis morais, ideologias excludentes, guerras cruéis, horríveis sofrimentos humanos e animais, e a catástrofe ecológica iminente… consolidada por mesquinhos interesses futuros. – No entanto, nossa “consciência reflexiva” nos leva a considerar tudo isso. – Somos realmente uma “espécie estranha”…cuja evolução pode ser paradoxalmente impulsionada – por visões de um futuro melhor…e por valores abstratos como justiça, beleza e verdade. Há portanto, alguma esperança. (texto original) jan/2019    **********************************************************************************

Como a atividade dos neurônios pode produzir “consciência”? (ago/2019)            Dados teimosamente mostram que todas nossas peculiaridades: linguagem, matemática, moralidade, artes, ciências…etc. estão enraizadas nas profundezas da…’evolução animal’.

Há 2.500 anos enquanto os babilônios tomavam Jerusalém, o reino de Wu capitaneado por Sun Tzu esmagava as forças de Chu e Tales de Mileto previa um eclipse… um jovem discípulo de Pitágoras … chamado Alcmeão de Crotona – propôs pela 1ª vez que ‘o cérebro era a sede da mente’. A ideia esfriou mais tarde porque Aristóteles determinou que a sede da mente era o coração – sendo o cérebro um mero sistema destinado a resfriar o sangue.

Hoje, temos certeza que era Alcmeão quem estava certo… — no entanto… — a exemplo de Aristóteles,  continuamos…basicamente, ignorando o processo que corresponde ao funcionamento do cérebro‘, e por conseguinte…continuamos ignorando em que consiste…fundamentalmente…a natureza humana.

Ninguém nega que entender o cérebro é um dos grandes desafios hoje da ciência, e que há intensa pesquisa nesse sentido. Por exemplo, sabemos da geometria de seus circuitos, que a conectividade entre os neurônios é a chave da nossa mente, conhecendo os intrincados mecanismos pelos quais um neurônio decide enviar – através de seu ‘axônio(seu output),  o resultado de um complexo cálculo – integrando as informações de seus 10 mil dendritos (input). Entendemos os reforços dessas conexões (sinapses) na base da nossa memória…e usamos ondas de alto nível, fruto da atividade de milhões de neurônios, para diagnosticar doenças mentais, e pesquisar graus de consciência. Porém…seguimos sem entender como o cérebro gera a mente. – Mesmo com as inúmeras tentativas de associar a especificidade humana a uma nova porção do cérebro – arquitetada ao longo da história do planeta – os dados teimam em nos mostrar que todas as nossas peculiaridades … estão enraizadas nas profundezas abissais da evolução animal…num processo que custou 600 milhões de anos.

Foram as ‘águas-vivas, precisamente, que inventaram os olhos — através de um gene chamado PAX6, ocupado em desenhar o olho primitivo desses cnidários e sua conexão com neurônios primitivos deles…Esse mesmo gene (inicialmente descoberto na mosca), também é responsável pelo desenho do ‘olho humano’ … de suas leves mutações, e seus neurônios associados. Em um sentido genético profundo, nossos olhos e nosso cérebro visual tiveram origem nas águas-vivas há 600 milhões de anos. E isso é só o começo da longa, longa história…da nossa conexão com as origens da vida animal. — É a partir do lóbulo óptico dos animais primitivos (precisamente o domínio de ação do PAX6) – que surge o nosso cérebro médio (ou mesencéfalo) … essencial à visão…audição…regulação      da … temperatura corporal … do controle dos movimentos – e do ciclo de sono e vigília.

Outro dos nossos sentidos…o olfato, vem do nosso córtex, a camada mais externa do cérebro, que nas espécies mais inteligentes cresceu tanto…que para caber no crânio – teve que se enrugar…resultando nas dobras da mente. Do córtex, e seus associados, emanam todas aptidões da mente humana … tudo    o que nos torna especiaisTal camada externa do cérebro gera nossas sensações do mundo exterior, nossas ordens voluntáriaspara mexer os braços,    e mais um enxame de… “áreas de associação”.     

“Consciência”…o grande mistério                    Os sentidos, lembranças e pensamentos são integrados para produzir                                    uma cena consciente única, o tecido do qual nossa experiência é feita.

Todo o cérebro é um enigma, mas se fosse preciso escolher um problema supremo nessa floresta…seria o mistério da consciência. E há uma boa história científica que precisa ser contada aqui. – Um dos grandes cientistas do século 20 … Francis Crick… pensando nos grandes problemas a resolver na ciênciadecidiu que os enigmas essenciais eram 2 a fronteira entre o vivo e o inerte…e a fronteira entre o consciente e o inconsciente. Seu 1º enigma foi resolvido satisfatoriamente com a descoberta da ‘dupla hélice‘ do DNA por    ele e James Watson, em 1953Já o 2º, nunca chegou a averiguar, contudo, foi capaz de estimular pesquisadores mais jovens e gestores de financiamento científico, nos EUA, para que investissem nesse ‘pináculo pendente do saber’. — E Christof Koch…diretor do Instituto Allen de Biociência, em Seattle, foi seu principal colaborador na empreitada.

Quinze anos após a morte de Crick, Koch continua “ligado” no problema da consciência. Como pode a atividade dos neurônios individuais, e dos circuitos formado por milhares    ou milhões deles, produzir essa sensação única e global de ser consciente, de estar vivo? Essa convicção de que somos diferentes de uma água-viva, de que somos uma entidade transcendente, capaz de compreender o mundo…e distinta de todas outras, permanece como uma linha de pesquisa crucial. É ciência básica, cujas diversas aplicações sempre surgem…após um profundo entendimento…como bem demonstra a história da ciência. Lembrando Koch: – “Consciência é tudo aquilo que os nossos sentidos experimentam”. 

Há 2 campos científicos que aspiram competir com os poetas na interpretação do mundo: a ‘cosmologia’ e a ‘neurologia’. Tem toda a lógica. Uma boa equação sintetiza uma imensa quantidade de dados em um centímetro quadrado de papel assim como um bom verso. Porém, para filósofos como Daniel Dennett, o ‘problema da consciência’ não tem solução, sendo impossível de ser abordado pela ciência…porque tais sentimentos são particulares,    e não podem ser comparados, aprendidos ou medidos por ‘referências externas’…A ideia, no entanto, contradiz o ‘princípio geral’ colocado por Alcmeão de Crotona há 2.500 anos, de que…‘a mente equivale ao cérebro’. Se tudo o que acontece em nossa mente é produto de…ou melhor, é idêntico à atividade de certos circuitos neurais…a consciência não pode ser uma exceção, ou então retornaríamos ao “animismo irracional” de crer em uma alma separada do corpo, em ‘fantasmas’ eectoplasmas. Sendo assim, Crick e Koch decidiram se concentrar em procurar os “correlatos neurais da consciência” os circuitos mínimos suficientes, para que se produza uma experiência consciente. – E a estratégia deu frutos.

Alcmeão de Crotona estava certo                                                                                                As áreas da consciência não são as que recebem os sinais diretos dos sentidos, mas  aquelas que recebem, elaboram e interconectam essa informação primáriaO que acontece nessas áreas primárias não é o que o sujeito vê, ou está consciente de ver. 

bg1Experimentos com modernas técnicas de imagem cerebral – do tipo…”ressonância magnética funcional” (fMRI) — apontam  uma zona quente posterior…composta  por circuitos de 3 lóbos (partes do córtex cerebral): ‘temporal’ (acima das orelhas), ‘parietal’ (acima do temporal) e ‘occipital’ (acima da nuca). O que foi uma surpresa,  pois boa parte dos neurocientistas, tinha como certo encontrar a consciência nos “lobos frontais“, parte anterior do córtex cerebral — a que mais cresceuao longo  da ‘evolução humana’… Mas não é assim.

A “consciência” está em áreas do cérebro compartilhadas com todos os mamíferos.

Quando essa zona quente posterior é artificialmente estimulada, experimentamos todo      um leque de sensações e sentimentos. – Podemos ver luzes brilhantesrostos e formas geométricas deformadassentir alucinações em qualquer modalidade sensorial, ou até mesmo vontade de mexer um braço (sem chegar a movê-lo)Portanto, parece ser esse,      o material com o qual nossa consciência é tecida… – Quando parte dessa zona quente é danificada, ou removida, perdem-se conteúdos da consciência. Fica assim, prejudicada      a definição do movimento externoou da cor das coisasou de lembranças familiares.

A neurociência não apenas demonstrou a “hipótese de Alcmeão” – de que o cérebro é a sede da mente…como também encontrou o lugar exato em que reside a consciência. Já entender como essa porção do cérebro funciona é uma questão muito mais difícil. Mas,      a mera localização da consciência na parte posterior do córtex cerebral, tem uma óbvia implicação. A marca peculiar da evolução humana é o crescimento explosivo do córtex frontal. – O córtex posterior, incluída a zona quente, herdamos dos nossos ancestrais mamíferos e além. Muitos animais, portanto, devem ser conscientescom uma mente,      conforme Alcmeão. Compreender o cérebro é, sem dúvida, um dos maiores desafios    que a ciência atual enfrenta. Trata-se do objeto mais complexo de que temos notícia      no Universo, e a tarefa é verdadeiramente formidável. Mas, também, por outro lado, a recompensa será imensa. E pensando bem talvez não falte tanto para isso. (texto base)

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“Licença poética”

Longe da técnica e das complicações formais da arte poética… Cesar                                    Pinheiro faz poesia, com a naturalidade de quem respira… Qualquer                                      preocupação teórica seria uma forma de corrupção em seu trabalho.                                      Em alguns pontos altos a pureza é arrebatadora … fazendo a poesia,                                    Em seu próprio estado natural… simplesmente existir. (L.C.Lisboa)

1º ato1º ATO

Mergulha a pedra para o fundo d’água e de uma nuvem opaca desabam mágoas servis… Visto o meu terno de giz, manchado de batom…Assim como um aprendiz operário – A descobrir o melhor tom. – Sonho um sonho solidário (editado à luz neón) Até tropeçar no cenário … E investir… meu pobre salário… Em um rolo de fita crepom.

A ARTE DO TEMPERO

Recolha o tempo perdido em potes de cristal. Recite um improviso                                        Para o vento no quintal … Aqueça a rotina na brasa de uma paixão,                        Temperando sua triste sina… – Em um agridoce molho de emoção.                                  Despeje na panela. Uma janela aberta pro céu. Misturando sonhos                                          Na realidade. E (des) cobrindo toda sua saudade. Em gotas de mel.

vilarejo-noite-estreladaAO TEMPO DAS COISAS

No fundo da noite estrelada…nada  E tudoSe misturam em coágulos Tentáculos de mundos … — A se… emaranhar…Jogos de vida/espaço, Corpos… brinquedos… sonetos… e Abraços GirandoAo compasso  Da sorte e azar Caminhos Por todos os lados A me embaralhar Numa soma infinita de laços…a se entrelaçar…

Começo de…Eras… – pretextos… – quimeras                                                                        Segredos a voar, Buscando o momento exato,                                                                                  O instante do fatoDe seu próprio despertar.

armadilhaARMADILHA 

Pensamento,                                                              Consciência…                                                              Moral   

Discernindo entre o Bem e o Mal

O Homem, esse ser racional                                Torna-se um pobre, cego… Indefeso animal            Preso na falsa realidade … das Luzes da sua cidade… de Consumo.    

ARTÉRIA ESTELAR                                                 

Arte, matéria… Artéria estelar… Do ar que respiro – Ao lento pulsar                                        Nave navega em próprio mar, o mundo sedento a seu tempo e lugar

A parte que é minha… Caminha pra ser… – Uma parte que sua,                                          Como a lua e o vento. No meu pensamento…não há que se ater.   

O Todo é tudo… E em tudo se faz… — Muito embora,                                                                      À sombra das horas, minha verdade escorra pra trás.

Já o Todo que é Nada… nada de mal me traz…                                                                                A não ser uma infinita saudade… Por tudo aquilo                                                                      Que hoje… Já não existe mais.

à portaBATENDO À PORTA 

A porta acorda de um sono tardio,                  No trono vazio, manchado do riso                Que não se escondeu                                        A porta se abre em pétala e espinhos            E procura caminhos que não sabe se            viveu…                                                                  A porta se fecha…por brechas e ruídos        De mundos e abismos … que o destino esqueceu;                                                              E em sonhos mal-dormidos…                          Se entorpece de sentidos… – Por                      Tudo aquilo, que em vão, se perdeu.   

COQUETEL DE EMOÇÕES 

Felicidade… palavra translúcida – Coquetel de emoções,                                                        Reabro porções de…’espectros de vida’, Deixando surgir                                                        Mentiras da existência     

A essência precisa da forma… — Mas,                                                                                                  E se a forma for austera ou submissa?

É quando lemas e brasões voam pelos cantos do quarto… Me envolvendo                            Em seus múltiplos sentidos… – Busco o sentimento de um… “grito no ar”                                Ao resgatar sonhos perdidos… – Me sincronizo com estrelas … Por entre                  Camadas de ozônio…Abro as portas do telhado…E, me julgo um SUPER-                          HOMEM!…Procuro no dicionário a forma correta para “EXPECTATIVA”

Aí está o xis do problema!…
cenário barrocoCENÁRIO BARROCO   

Peixes no aquário                                            Repousam tranquilos                                        Por entre abismos                                            De um cenário barroco

Mar morto                                                        De um porto sombrio                                      Revive seus gritos                                            Entre grutas e penhascos

A praia dos sonhos                                          Esconde tesouros

Em submersas escunas,                                  Sob brumas e espadas          

E sob o ouro e a prata                                          Das grandes conquistas,                               

Emergem as lutas vividas                              Em naves piratas.

FANTASMA CLANDESTINO

Luzes de um sobrado na noite fria inspiram elegias                                                                  Que minh’alma padece… quando o tempo esmaece                                                                        E a alegria permanece… 

‘Presa por um fio’ 

Torpor de uma aurora, que de tão distante…                                                                          Vagueio errante por seus inúmeros cômodos,                                                                              Entre assombros … e escombros do destino                                                                              Como o sonho inquietante                                                                                                                  De um (fantasma clandestino).

sol

CÉU & INFERNO

Quero pensar – pois pensar me faz sentir…que não sou eterno,  E assim… — poder sonhar um sonho… — que me prenda nos… subterrâneos de seu mundo interno….Pois, depois de pensar…    e sonhar…tantos mistérios… — quem… não irá — para sempre queimar… — nas… “profundezas“… — de seu próprio inferno?

fundo do baúDO FUNDO DO BAÚ

Quero calar minha voz para que em silêncio                                    Ela penetre na… tênue atmosfera… dos dias                                          Em que não nos sentimos sós…

Pois assim … diante dessas noites escuras,                                Salpicadas de estrelas… – pontilha de sóis                                        Talvez, percebamos … nossa solidão atroz.

efervescênciasEFERVESCÊNCIAS

Fervilham sons e ideias… Quimeras e ilusões
Visões apaixonadas… – paixões de toda sorte
Mais forte, fecunda…

Cometas brilhando sua luz vagabunda 

Jogos de carta… mapas… magia
Orgia de astros e estrelas vadias                  Espaços abertos… Em multi-sinfonias                   

Revistas da moda…Cantigas da roda…                                                                                          Que gira … Que gira.

VENTOS CORTANTES

Atmosfera solar da tarde sem dono                                                                                            Ardendo seu sono…Seu sonho impossível,                                                                                        A guerra…a terra…o míssil                                                                                                                    A fome serena, terrena, terrível                                                                                                        Lua minguante,                                   

Ventos cortantes de algum precipício.   

enigmaENIGMA

Resiste… Às vezes tão dócil… Às vezes tão fria                       Revelando – à luz do dia … Sua magia estelar

Repleta de horizontes, que por fim se escondem           Atrás de montes onde a vista não pode alcançar

Insiste, buscando caminhos que o tempo não viu ou não soube passar,                                      À procura de liberdade… que aos nervos afronte… – Seguindo sempre                                  Para bem mais longe… – Do que seja humanamente possível alcançar.

À espera do alento…Momento de se revelar…Num canto…                                                      Um tanto quanto qualquer… Enquanto puder…assim ficar                                                  Imaginando um lugar. Na pele e no ar… Na carne do olhar. 

floração

FLORAÇÃO

Nas bordas de um céu…cor de mel e algodão                De dentro da terra… – sob um sol primavera,                De uma tarde de verão                                                      Uma flor se abre…               

Em pétalas de um botão

Que se encobre de espinhos…                                              Que se esconde pelos caminhos,                                      Que se espalha pelo chão…

FRAGMENTOS 

Na estrada que corre solta…Em volta da mata…envolta                                                              Na noite… De onde o vento grita, agita…açoita… Numa                                                          Madrugada escura – Pedras da lua, entre nuvens de estrelas

Refletem sombras vermelhas… na Terra… no Céu… E,                                                                    no Anel que tu me deste…Que era vidro, e se quebrou.

PSSARO

INTERSTÍCIO

Um velho sentado…numa cadeira de palha… Lentamente se embala de memórias e sorrisos no cair da tarde… Ao cair do Sol… – Ao som    De pássaros amigos… 

Depois de todo bem ou mal…Relembra o preço de um ideal…E empresta um tom            cordial… – Ao tempo, que lento … (e até o final) … escorreu por entre seus dedos.

EXÍLIO 

Decretei morte ao sentido da perda                                                                                              Decretei corte, ao arame da cerca…                                                                                            Gritei forte… Descartei sorte e azar

Decretei livre pensar!                               

Esperei minha hora, me apagando da memória,                                                                      Vendo o tempo passar…E já quase indo embora  

Me enredei nas teias da história… E abracei minha glória, com emoção,                          Banindo os meus sonhos mortos, pros caminhos tortos do meu coração.

chorinhoCHORO UM CHORINHO 

Choro um chorinho… um choro pequenino            Molhando pandeiro e tamborim…                        Choro um chorinho de saudades sem fim
Pelos tempos de outrora,                                            Pelas luzes da aurora…                                                Em serestas de verão 

Choro um chorinho … de flauta e clarineta,            Cavaquinho e violão … que vai como quem            Não quer nada, se insinuando pela calçada  Driblando as dores do meu coração.

ELEGIA (à Ribeiro Couto)

À noite, no refúgio em que me faço…Num véu de                                                                  Nuvens… – Me descubro… me disfarço…                                                                                   

Lanço palavras tontas pelo espaço… – Tantas … que delas                                                          Logo me desfaço, Em todo verso que converso com o acaso

E a cada momento que por dentro do tempo                                                                            Atravesso lento… Por um murmúrio do mar,                                                                                    Ventos profanos – me envolvem de enganos                                                                                    Em ritos ciganos… – De lamentos mortais.

lado proibido

LADO PROIBIDO

Naturalmente…algo urgente, pra me fazer Lembrar do que já não se diz nem se pode imaginar… — Quando por pensamentos… Palavras e atos… – abstratos ou concretos              O amanhã, se faz incerto… — disperso em                Encantos do mar. E o silêncio soltoecoa                Um sopro do tempo … que ao vento escoa                De um infinito longo demais…a uma Vida                Que palpita espremida…No banco de trás.

OCEANO IMAGINÁRIO

Uma gruta se esconde do mar                                                                                                              E o mar bate nas pedras…que                                                                                                            Se desmancham em areia…

Na areia… à noite… se deitam homens sonhando com a vida                                                  Que, feita de dores, encobre o prazer que se espalha na terra                                                Quando se espelha no mar…  

O sol que alimenta a terra, também aquece o ar…E do horizonte de uma deserta Madrugada… – Do oceano de uma praia imaginada… – Agora vai DESPERTAR.

farol noturnoLUSCO-FUSCO

Por trás de arranhacéus põe-se o sol,            De dentro da noite… — pisca pisca…                Luz de farol 

Enquanto na beira da praia… Castelos de areia… Sonham ao luar… – Nas dunas ao vento, o tempo se espalha…em correntes      de ar 

E assim…  —  como se para sempre…                Fosse o mundo acabar…Suave, macia          Das ondas se anuncia… A leve…breve vadia… brisa do mar.

LINHA DA VIDA 

Existe um sinal ao final de uma estrada… Anunciando a pousada… onde minh’alma…  Descansará…Para lá levarei, para esse porto distante…A única lei, que por tudo o que  Sei…se tornou dominante. – E na luz cintilante de uma madrugada lunar, que jamais esquecerei… – Nesse altar deslumbrante… – Envolto em uma túnica e um turbante…  Desaparecerei…

MAIO DE 68

liberdadeLiberdade, no berço da paixão…A idade da razão, incompreensivelmente se manifesta … Liberdade, a saudade do ser…que Nada no mundo das bocas caladas                                    

Liberdade, a louca palavra… que                                        Abre grades das grandes cidades    

Liberdade… – verdade sombria – de muros e utopias,    Espaços futuros de noites vazias, num belo pôr de sol.

féFÉ PROFUNDA 

Indo, nesta vasta vida boa… Sem nada… – ou ninguém              Que talvez me faça um bem, E também me beije a boca      Mesmo quando essa vida… – Tão corrida… Tão a toa,                      Nas esquinas com neblina…me ultrapasse feito louca

Num canto qualquer… – uma fé profunda,                                      Vem e me barafunda… Me alivia, abençoa.

ventosMEMÓRIA DOS VENTOS

De onde vens vento viageiro                                        Me envolver por inteiro…                                              Em teu perfume volátil?

Quantas terras hás cruzado,                                        Quantos mares navegado…                                          Em tua missão secular?

Diga por tua ‘linguagem cifrada’ – peregrino da esperança,                                                  Onde desemboca a encruzilhada do futuro e da lembrança,                                                      Da vida e do destino… — Mas, se não puderes responder…                                                            Ou se não for eu capaz de entender teu ensino… Segue teu                                            Caminho pelo ar… — Até encontrar… um olhar de menino.

APENAS UM GESTO          

E seria preciso apenas um olhar sem pudor                                                                                    Uma brisa que passasse…Trazendo consigo                                                                                  Um perfume de flor              

Apenas um gesto por certo seria…Um atalho para meus pés                                              Descalços… – Um resto de festa … em uma fresta de sorriso                                                  Chegaria como um aviso… – De que a brincadeira começou.     

E eu me entregaria com prazer para me perder no jogo,                                                                E eu seria fogo… – Mágico louco … – Do circo de lona…     

E você seria a dona do meu coração.

esferaOS 7 SENTIDOS 

Da minha boca à sua, existem luas velozes,      Gritos ferozes, gemidos…Canções de ninar

Canções de acordar…os 7 sentidos…        Paixões secretas, janelas encobertas                  Por cortinas… sem fundo, e sem fim                   

Incendiando palavras frias                                Cuja soma afinal propicia…                            Atroz regalia de mim.

METAMORFOSE (1979)

Quando as estrelas tímidas forem surgindo na luz do crepúsculo                                    Quando os músculos do corpo forem se relaxando… — um a um,                                              Enquanto pássaros livres seguirem cantando sem motivo algum

Como se um sonho imenso abraçasse a realidade e passasse a existir…Como                        Se a Vida inteira se abrisse, para tudo aquilo que se possa sentir… Como se a                Própria razão…Escondida do mundo…perdesse o medo de viver… Como se o                  Homem cansado de tanto sofrer pudesse afinal entender o que diz seu coração.    

justiça

O JULGAMENTO

Senhoras e senhores, aqui estamos reunidos nesta ocasião      À espera da inapelável sentença… – desta respeitosa corte,      Na mui digna presença do meritíssimo juiz…  —  Mais alta        figura que representa a justiça em nosso país. Levantem-se, Por favor…Pois o veredicto vai ser dado – Incontestemente 

A CORTE DECLARA QUE O RÉU É                                                                                                    CULPADO… DE SER INOCENTE!…

O pulo do Gato

O PULO DO GATO 

Refresco a memória…nas horas em que existo,  E avisto entre sombras e conjecturas… rastros,  Pegadas… passadas e futuras  

Na estrada estreita, que a poeira atravessa        Com a pressa de um caracol (…de bobeira)     

O anzol na fruteira, e a maneira de ser o gesto  Em um ato de pura destreza…Do pulo do gato  Ao prato na mesa. Miséria, riqueza…tranquila beleza…Pros olhos do gato…em cima da mesa.

PENSAMENTOS AMBULANTES

Por entre vôos de pássaros, em rotas tortas e oblíquas                                                            Fora do compasso, assim como um laço em desalinho                                                          Cravei na terra submersa… a linha aberta do caminho 

pensamentosPor entre setas e pedras,                                                Demarquei linhas retas                                                        E atento — sigo sozinho,                                                  Sonhando um destempo                                                        De um próprio destino…

Quando mais desesperava,                                                Mais tristeza engolia,                                                            E sonhava mais verdades

Guardando as sobras do dia                                              No meu bolso de saudades.

RELÓGIO DE ESPUMAS

15 para as 4 no relógio de espuma da parede de cristal15 minutos

15 para as 4 nas teclas do piano… Onde                                    A voz do cantor se debruça apaixonada 

15 minutos para o fim da festa…                                                15 minutos é tudo o que resta para toda                                Sorte de convites, todo acerto de contas

15 minutos para a dama e o rapaz                                              15 minutos… — Nada mais…

PAISAGEM DISTANTE

Sangra dos meus olhos – em cores dissonantes… Uma paisagem distante                            Onde à beira do horizonte, em total nostalgia, sonhos se fazem realidade,                                Em perpétua calmaria… E utopias constroem Misteriosos portais — para                          Tornar assim seus problemas banais…navegando na rotina…do dia a dia.  

RESTINGA restinga

Existe um céu, por detrás das ruínas, onde o véu da neblina já não pode alcançar. Céu de um azul, cor de tempo esquecido … que aquece os sentidos, e me faz recordar… De um mar na restinga, onde o vento se vinga Sem parar de soprar…suas memórias para dentro de conchas – que logo … se põem a sonhar, sonhos brotando d’água cristalina, Sonhos que batem… — nas pedras do mar.

OS FRUTOS                                      

O sol na cabeça, e os sapatos pela estrada de barro                                                                  Onde frutos maduros, caem pelo mato                                                                                          Em meio a um regato tranquilo… 

O sol no regato, e os frutos caídos pelo mato…                                                                            Por um tempo esquecidos ao longo da estrada…                                                                      Embrenhada na mata – onde correm esquilos… 

 O sol pelo mato…e a mata que resta, pelo fogo – comida                                                           Da floresta só…sobraram memórias – sementes de vida.

trajetória.pngTRAJETÓRIA 

Longe, tão longe… Correndo contra o vento…            Por um vago sentimento…insano e insaciável Morre…morre lento… – O sol magento… Celebrando mais um dia…                                              De sua insondável passagem

Movendo sua luz – ‘reflexo’… da paisagem,              Escorre, andaluz – sua sombra & imagem                                                                                    Anunciando noites de lua, que em carne crua, assim também flutua, sua pálida face de aço  Em esplendor/sobressalto. Enquanto vazio…vazado, Caio em soluços…por laços absurdos, Nos teus braços macios… – Nos teus lábios frios de orvalho.

significadoSIGNIFICADO

Vagueia no ar… — no altar das coisas sem nome,                        Um olhar inconstante de tonalidade multiforme                      Que varia… conforme… — sua própria sutileza…                      Seus tons são “clarões” … que incendeiam meus                      nervos. E se chego a tocá-los nos limites da pele,                                                                             Sua presença mais leve… – Se traduz em desejo.

O MURO E O ABISMO

No azar ou na sorte da vida e da morte – Quando em vez                                                         Surge um corte … Que nos precipita… – No escuro vazio.

De onde um muro sombrio – Que limitava o caminho                                                            Observa abismos… – Guardado em espinhos.

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VELEIRO

Velejo um barco… – que os mares invade  Cortando águas tranquilas no crepúsculo    Da tarde. Viajo com o rumo voltado para    Um lugar… A ilha de liberdade…onde Almejo chegarVentos sopram brisas Que inflam a vela presa no mastro… Até Que a saudade enfim se agita … Indo em Busca de seu rastroA noite é calmaria,        É quando tudo silencia pelas ondas de Uma vidaEntre o brilho de seus astros.

COISA & TAL

Olhos pairam, pensamentos voam… Aves sobrevoam                                                              Seus ninhos… Caminhos se bifurcam num até breve

Uma onda leve… – desaba no porto…                                                                                            Uma longa saudade habita meu corpo

Um resto de sol nas nuvens ao vento… No mar, na cidade                                                          E, nas loucas verdades do meu pensamento.       

sinoSINO DE BRONZE

Pelo trabalho do corpo… – Na inércia do mar,                              Se faz passar, da água ao vinho…Pelos rumos                              Da vida…retorcida ao vento. – Se surpreende                                O momento em que não se está mais sozinho.                          Multiplicam-se os pães… Entorna-se o vinho.                                A mesa é farta… – Pois a palavra…É um hino.                                Sim…O sino é de bronze… – E o teto, destino.

SONHO SELVAGEM 

É quando as luzes se apagam – e as promessas se pagam … em beijos de despedida,            Que vejo em teus olhos refletida, minha vida passageira, de estrangeiras realidades 

E me atrai a vontade… de tê-la em meus braços… Pelo espaço de um segundo                    Até que o mundo desabe por onde ninguém mais sabe… Nem jamais voltou… 

Mergulhado em coragem… Imerso num vazio reconfortador                                                Talvez então me desperte… De um infinito sonho selvagem                                                Perdido, e louco de amor.         

bondinho

TRILHA DO BONDE

Por onde flutua… – na noite escura                  A lua e a rua … na minha ou na sua                  Imagem solar?… Por onde se esconde              A trilha do bonde … A fruta do conde,              Curva do monte & linha do horizonte          Na terra ou no ar?…  

Por onde se vai, minha vida passageira,                                                                                        Repleta de certas infindas brincadeiras                                                                                  Vivendo à beira… Da miragem sonhar?

liberdade

UM INSTANTE, LIBERDADE

Rebusco na estante…Um instante, liberdade,                Rabisco folha em branco em brancas nuvens                de saudade… — Deixando os sonhos soltos…

Voarem pelos ares…

Aposto corrida, com a vida que me cerca…                    Qual a regra a ser cumprida, quantas ilhas,                  quantos mares?…

São os ossos do ofício… Artifícios, tempestades      Mentiras, quase verdades… — Que como vícios              Nos distraem… Por entre os 4 cantos da cidade.

VESTÍGIOS

relâmpagoQualquer gesto … qualquer olhar… Pra surpreender (ou imaginar) o prazer que vier de um verso qualquer… Na noite estelar…Noite a pulsar, fazendo vibrar, pelo vasto teto solar…Teias de veias carnais… Sintonizando ondas, Onde oficinas siderais, carentes de um mundo a sonhar transmitem o arrepio… de um relâmpago fugidio… Que TRANSPASSA o AR…

INVENTÁRIO                              

Por isso me invento… – com o vento levando meus passos… – para o lado contrário do espelho … Em busca de um objetivo… – “objeto ativo”… cuja imagem…se faz na ação…    No chão, paisagem deserta, solidão sempre alerta, em contida emoção…Quando então,      A paixão proibida se sente…entre a serpente e a maçã…mito e talismã…culpa e perdão.  ****************************(texto complementar)********************************

sempreSEMPRE

Jamais se saberá com que meticuloso trabalho                  Veio o ‘Todo’… e apagou os vestígios de tudo                      E, quando nem mais suspiros havia, Ele surgiu                  De um salto…Vendendo súbitos “espanadores”                      De todas as cores. (M. Quintana)                                                                 

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“Revoluções matemáticas”…e suas Lógicas improváveis

“Deus joga dados com o Universo, mas os dados são viciados…o principal objetivo            da Física é descobrir as regras segundo as quais tal fato aconteceu.” (Joseph Ford)

número

Assim como a verdade técnica da ‘aritmética’ está fora de toda discussão – a questão de se saber o que é o…”número” — transparece a surpreendente incapacidade do pensamento, em apreender a natureza por…instrumentos, os quais acredita plenamente entender ao utilizá-los em quase todas suas práticas. O contraste entre a ‘lógica numérica’ praticada no dia-a-dia, e o ‘sufoco’ epistemológico das teorias em explicá-lo… mostra a necessidade de uma rigorosa investigaçãodas técnicas do pensamento … frente às engrenagens do seu próprio mecanismo do conhecer“.

A história do ‘número’e sua filosofia

Do ponto de vista epistemológico, o problema…“o que é o número?”…intrigou filósofos matemáticos desde a antiguidade… – evidenciando um grande contraste … entre a clareza instrumental do número, e a ‘complexidade’ das teorias, ao tentar explicá-lo. — Nenhuma, das mais destacadas correntes do pensamento matemático (“formalismo”, “simbolismo” e “intuicionismo”) até ao fim do século 20, obteve uma resposta que justificasse sua origem.  Até o século 18, embora já inteiramente ‘dedutiva, a matemática estava particularmente ligada a ‘algoritmos‘…e pouca ou nenhuma preocupação existia quanto à natureza de seus elementos, ou seus fundamentos. De modo geral, à exceção do período clássico (na Grécia Antiga) a evolução das ideias matemáticas prosseguiu, até aí…de um modo “quase linear”, sem maiores ‘revoluções‘. – Todavia…após a “descoberta geométrica de um novo mundo”, no século 19, a matemática passa a ser reconhecida, não mais como uma “ciência natural” da observação e descrição da naturezamas sim como uma “criação intelectual humana”.

Em decorrência dessa nova concepção, com o advento da ‘geometria não-euclidiana’, a aritmetização da análise e da álgebra – a adoção da lógica simbólica, como a…”linguagem matemática”… – e sua libertação do real, eclodiu a chamada…crise dos fundamentos da matemática”, com novas formas de concebê-la – incluindo aí … variadas definições de “número“.

A tese do “intuicionismo“…por exemplo – é que a matemática deve ser desenvolvida apenas por métodos construtivos finitos sobre a sequência dos números naturais, dada intuitivamente. Logo, nessa visão, a base última da matemática jaz sobre uma intuição primitiva, aliada ao nosso senso temporal do antes e depois, que nos permite conceber   um objeto…depois mais um…depois outro mais…e assim por diante…indefinidamente.  Dessa forma, obtêm-se as…”sequências infinitas“…a mais conhecida das quais, é a dos números naturais, a partir de onde, é possível a elaboração de qualquer outro objeto matemático… por ‘processos construtivos‘ – mediante um número finito de operações.                                         

O pensamento matemático, e suas vertentes

Por quase todo século 19, o mito de Euclides (450aC – 380 aC) era inabalável, tanto aos filósofos, quanto aos matemáticos. A “geometria euclidiana” era…por todos — considerada como o mais firme, e confiável ramo do conhecimento. – Contudo, a descoberta de “geometrias não-euclidianas”… gerou a perda dessa certeza abalando não só os alicerces da matemática, mas de todo saber à época… Matemáticos do século 19 buscaram então, outra ‘base segura’. Todavia, ao escolherem a ‘aritmética‘, usavam o ‘nº natural‘, como este fundamento. E então, o problema surgiu, quando verificou-se que este conjunto ainda não possuía uma definição matemática formalizada.

Estava assim, desencadeada a denominada “crise dos fundamentos” na matemática.   A partir daí se formaram diversas correntes — buscando soluções para todos problemas revelados, soluções estas que pretendiam tornar a matemática, novamente, uma ciência confiável. — Destes segmentos, se destacaram…o ‘ formalismo‘, o ‘intuicionismo‘, o ‘simbolismo‘, e o ‘construtivismo‘…cujos fundamentos — serão detalhados a seguir.

a) formalismo (de Hilbert)                                                                                                        A tese do formalismo é que a matemática é, em sua                                                              essência…o estudo dos sistemas simbólicos formais”.

david hilbert - frases

O embrião da ‘escola formalista‘ foi o estudo, realizado pelo matemático David Hilbert (1862/1943) sobre a geometria… em 1899. Nesse estudo, o ‘método matemático‘ foi refinado, desde a axiomática material dos tempos de Euclides, à ‘axiomática formal‘ do século 20… – Tentando solucionar a crise…instaurada pelas antinomias inerentes à ‘teoria dos conjuntos‘, e para responder ao desafio à… matemática clássica – estabelecido pelos ‘intuicionistas’, Hilbert dedicou-se, seriamente, à elaboração do ‘programa formalista’.

O ‘formalismo‘ considera a “matemática” … como uma coleção de desenvolvimentos abstratos – em que os termos são meros ‘símbolos’…e as afirmações são apenas fórmulas envolvendo esses símbolos … a base profunda da matemática não está plantada na lógica, mas apenas em uma “coleção de sinais“… além de um conjunto de operações com eles.

Na tese formalista se tem o desenvolvimento axiomático da matemática levado a seu extremo. – Como, por esse ponto de vista a matemática carece de conteúdo concreto, contendo apenas elementos simbólicos ideais…a demonstração da consistência entre    seus vários ramos…constitui parte importante, e necessária do ‘programa formalista’.        O acompanhamento da demonstração de sua consistência…é fundamental no estudo. 

b) intuicionismo (de Kant a Poincaré)                                                                                      Tal como em Kant, a matemática para Poincaré se apóia em intuições, em especial        na de números, razão pela qual é considerado um dos fundadores do intuicionismo”. 

kant-frasesEmbora não tenha sido matemático, nem vivido, maior parte da sua vida, no século 19, o pensamento de Kant (1724–1804) influenciou bastante o progresso científico e cultural… dos séculos XIX e XX — de modo que… algumas considerações — acerca da posição da matemática no “sistema kantiano”… – se tornam oportunas.

Até Kant, tanto os filósofos racionalistas quanto os empiristas dividiam as proposições matemáticas em 2 classes mutuamente excludentes… — que esgotavam o universo das proposições…as analíticas, que englobam as “verdades da razão” reguladas por “não-contradições” internas…e as empíricas ou “não-analíticas” – que expressam os fatos.  Kant reapresentou o problema da classificação das proposições, oferecendo outra… as proposições poderiam ser analíticas e ‘sintéticas’. – A principal diferença entre Kant e    seus antecessores…é a distinção feita entre 2 classes de ‘proposições sintéticas‘… – as empíricas…ou ‘sintéticas a posteriori’, e as ‘sintéticas a priori‘ (‘intuição pura‘).

As proposições matemáticas seriam, segundo Kant, sintéticas a priori, pois seriam formas puras da intuição (como o espaço e o tempo) que permitiriam fundamentar e legitimar os ‘juízos sintéticos a priori’ (assim como toda matemática)…expressando sua especificidade. Ou seja, a matemática se referiria à “realidade concreta”, mas utilizaria, para apreendê-la, conhecimentos a priori de tempo e de espaço… – o primeiro fundamentando o número, e consequentemente, toda a aritmética… – e o segundo (espaço)… alicerçando a geometria.

Estas ideias, que exerceram enorme influência nos matemáticos                     no século 19… constituíram a base do intuicionismo de Poincaré.

henri-poincare-facebookPoincaré, e a intuição do ‘sintético a priori’

Jules Henri Poincaré (1854-1912) é considerado o matemático mais importante, do período entre os séculos 19 e 20… – onde, nenhum de seus colegas contemporâneos … dominou tanta diversidade de assuntos…contribuindo com todos. Interessou-se pelas geometrias não-euclidianas, mas… ao invés do que após se comprovou… (de todas possuírem mesmo grau de veracidade), preocupou-se muito em investigar qual seria a “verdadeira geometria”.

Para Piaget…este pode ter sido o fato que impediu                                            Poincaré de “descobrir” a ‘Teoria da Relatividade’.

Poincaré produziu mais de 500 artigos técnicos, e mais de 30 livros… tendo sido também um dos principais, e mais hábeis divulgadores da matemática e da ciência, mediante uma série de obras populares e semi-técnicas, entre as quais se destaca “A ciência e a hipótese” (1906)… “texto de divulgação“… no qual apresenta sua “teoria matemática kantiana“.  Apesar de bastante influenciado pelas ideias de Kant, Poincaré não se contentava apenas com o fato de que postulados matemáticos fossem juízos sintéticos a priori — era preciso, também… – que os ‘conceitos‘ aos quais se referissem, correspondessem a determinadas ‘intuições materiais’ – intuições estas, que seriam indispensáveis à construção da ciência.

Para Poincaré, o número possui o duplo caráter de ‘conceito puro‘, e ‘forma intuitiva‘. É conceito puro enquanto esquema do conceito de ‘grandeza‘…a parte sem a qual não se pode passar da “grandeza pura”…à sua imagem no espaço e tempo. – E…é forma intuitiva por representar a ‘sequência aditiva’ de uma unidade a outra – realizando sua síntese, no espaço e no tempo. Sendo assim, ele deduziu o ‘princípio de recorrência‘ como sintético; por não se reduzir à lógica do “princípio da não-contradição”…e, ‘a priori‘…pois só seria provado mediante um número infinito de experiências; o que é ‘impossível‘. Desse modo, Poincaré enxergou no método matemático um elemento intuitivo…onde ‘intuição‘, bem como ‘número‘, carregavam o sentido de “fonte de noções puras“, e “instinto inventivo”.

Como “fonte de noções puras”, a intuição direciona o espírito para a    noção de número inteiro…e, como “instinto inventivo”, impulsiona o profundo trabalho do espírito … em direção à ‘descoberta científica’.

O intuicionismo de Poincaré ganhou mais força quando o matemático Luitzen Brouwer (1881-1966) conseguiu reunir em torno das ‘ideias intuicionistas‘, os oposicionistas do ‘formalismo’ de Hilbert e do ‘logicismo’ de Russell. – Para os seguidores do intuicionismo, elementos e axiomas matemáticos não são tão arbitrários quanto parecem. Para Brouwer:

“A linguagem e a lógica não são pressuposições para a matemática,               a qual tem sua origem na…’intuição‘…que, por sua vez, torna seus conceitos e inferências imediatamente claros … à nossa percepção”.

hilbert-vs-poincaré

Hilbert (formalismo) x Poincaré (intuição)  

O ‘intuicionismo’ considera a matemática uma atividade autônoma… construção de entidades abstratas, a partir da ‘intuição  matemática’…e como tal… prescinde tanto de uma redução à lógica… (defendida por simbolistas), como de uma ‘formalização‘ rigorosa em um ‘sistema dedutivo’, conforme o ‘formalismo’ de Hilbert.

Na transição do século 19 ao 20…ocorreram muitos congressos internacionais de matemática (o 1º foi em Chicago, 1893). No 2º, realizado em Paris…1900, Hilbert          proferiu a conferência principal, onde listou 23 problemas, que para ele, seriam o          foco da atenção dos matemáticos do século 20. Nesse mesmo congresso Poincaré apresentou uma tese, comparando na matemática as funções da lógica e intuição.                A partir daí, Hilbert e Poincaré criaram uma das maiores controvérsias do século.

Hilbert admirava a “teoria dos Conjuntos” de Cantor… ao passo que Poincaré a criticava fortemente. As teorias de Cantor, como os abstratos espaços de Hilbert, pareciam muito afastadas da base “empírico/intuitiva” que Poincaré… e alguns de seus contemporâneos preferiam. Os matemáticos da época agrupavam-se em torno das 3 principais correntes    de pensamento…o ‘intuicionismo’ de Poincaré, o ‘formalismo’ de Hilbert… e a turma do ‘simbolismo lógico’ de Russell, ligada, mas não identificada ao formalismo (pela lógica).

Todavia, como o sucesso ou fracasso do “programa formalista” se encontrava diretamente vinculado à sua própria consistência, o sonho de seus seguidores teve curta duração…pois em 1931, Kurt Gödel (1906-1978), discípulo de Hilbert, provou de maneira inconteste que não é possível provar a consistência formal de um sistema dedutivo, capaz de…com todos seus princípios lógicos – abranger toda matemática clássica; como idealizado por Hilbert.

Por esse motivo… o debate acerca dos ‘fundamentos da matemática‘,  passou a se centralizar em torno do ‘simbolismo‘ e do ‘intuicionismo‘.

lógica

c) simbolismo (de Frege)

O matemático Gottlob Frege (1848…1925) acreditava que a solução para o impasse da ‘crise dos fundamentos’, seria a redução da aritmética à lógica…Assim, toda expressão      aritmética se definiria…em termos de uma “proposição lógica“, que poderia ser deduzida de leis lógicas imediatamente perceptíveis.

Tentando mostrar que a aritmética poderia ser considerada como um ramo da lógica…e que suas demonstrações não necessitavam se fundamentar nem na experiência, nem na intuição, Frege eliminou da linguagem comum qualquer recurso à “intuição“. Observou  ele desse modo, que a matemática necessitava de uma profunda e inédita revisão crítica onde proposições antes aceitas como evidentes deveriam ser demonstradas, e conceitos relativamente novos…como função, contínuo, limite e infinito…precisavam ser revistos.

De maneira geral…seria necessário que todos os…”campos da matemática” fossem examinados, com o rigor da demonstração…delimitação precisa da  validade, e definição de conceitos, a partir do próprio conceito de ‘número’.

Além da perda de credibilidade da geometria como uma base sólida, praticamente na mesma época, surgiram várias antinomias da…’teoria dos conjuntos’…abalando toda matemática, e fortalecendo a ideia de Frege, de que só uma análise minuciosa de seus fundamentos pelo novo… “instrumento lógico” – estabeleceria sua própria coerência.

wHITEHEADA lógica simbólica (de Russell & Whitehead)

O programa apresentado por Frege não encontrou eco até ser acatado por Bertrand Russell (1872-1970) e Alfred Whitehead (1861-1947). Os dois, retomaram a tese de Frege…tentando demonstrar que a ‘matemática pura’ (incluída aí a ‘geometria’) poderia ser completamente deduzida da “lógica“.

Embora até então tivessem sido tratadas, historicamente falando, como estudos distintos, a matemática sempre relacionada…com as ‘ciências’ – e a lógica…com a ‘filosofia grega’, o desenvolvimento de ambas — durante o século 19… e início do século 20 – de acordo com Russell, aproximou definitivamente a lógica da matemática, tornando-as ‘indistinguíveis’.  A ‘tese simbolista‘ é que a matemática é um ramo da lógica, que em vez de ser apenas um ‘instrumento’, passa a ser considerada como ‘geradora da matemática‘…Todos os conceitos matemáticos têm que ser formulados em termos de conceitos lógicos … e todos teoremas da matemática têm que ser desenvolvidos como teoremas lógicos … a distinção entre matemática e lógica – passa a ser uma simples questão de…”conveniência prática”.

Partidários do “simbolismo” de Frege, Russell e Whitehead tinham o ambicioso plano de, literalmente…”reduzir a matemática à lógica”. Para isso, definiram a aritmética como um ramo da…”lógica pura“. – O “plano”… era traduzir os axiomas de definição do ‘número natural’ estabelecidos pelo matemático Giuseppe Peano (1858-1932) em termos lógicos,  e assim, definiram o ‘número‘ em termos de classes e relações; com o ‘aspecto cardinal’, estabelecido por ‘classes‘ – e o ‘ordinal’… em ‘relações assimétricas‘ independentes.

BijectionA ‘teoria numérica‘ de Russell e Whitehead começa com  a descrição do que é uma…“classe de classes”. Ou seja, 2 classes consideradas em sua extensão dão origem a uma mesma classe de classes, se for possível estabelecer uma ‘correspondência biunívoca entre seus elementos. O nº cardinal é definido como “classes de classes”…e assim, o número 1 é a classe de todas ‘classes unitárias‘…o nº 2 é a classe de todos os nºs pares possíveis; o nº 3, é a classe de todas as…”trincas” – e assim por diante…

Já o “número ordinal“…indicando ordem, posição, ou lugar ocupado        em uma série… é igualmente constituído por meio de classes…só que de “relações assimétricas”…cuja “semelhança” é obtida… por meio de uma correspondência biunívoca entre seus distintos elementos internos.

Uma crítica originada dessa concepção é que … pelos fato dos números se constituírem isoladamente – a partir de ‘classes‘ independentes entre si … não existiria uma iteração entre eles que resultasse na sucessão dos números inteiros. Para verificar a validade    de tal argumento, Jean Piaget propôs um método para verificar se o modo de formação dos números, equivale ao processo a partir dos quais derivam as…’classes’…e ‘relações’.

geometria

A crítica de Poincaré (ao “simbolismo lógico”)

Poincaré criticava o “reducionismo lógico” como um círculo vicioso, porque o número já estaria presente, ao se estabelecer a correspondência biunívoca entre os “objetos singulares”. O seu argumento se baseava no fato de que na expressão “um homem”… o objeto individual, ou classe singular – já subtendia o…nº 1.

A contra-argumentação simbolista expunha que existe uma distinção entre o “um” lógico e o número 1, ou seja, o “um” lógico implicaria a “identidade”, e não o número…da mesma forma como os termos lógicos ‘alguns’, ‘todos’ ou ‘nenhum’ só se referem à pertinência, ou não de indivíduos a uma determinada classe…No que se refere à diferença funcional entre classe e número, fica claro que a função da classe – como é constituída por indivíduos que gozam de uma determinada propriedade… é a de ‘identificar‘ – ao passo que a do número (abstraindo qualidades) é a de diversificar… daí, serem funções sobretudo “heterogêneas”.

Assim, de acordo com o raciocínio de Poincaré…Russell, ao não estabelecer na sua dupla redução (cardinal/ordinal) as distinções genéticas funcionais, entre operações de ‘classe’    e ‘relações isoladas’ (numéricas)… se encerraria dentro da esfera de um “círculo vicioso“.

PoincaréA intuição racional do número  Enquanto para Russell o nº cardinal seria a “classe das classes” – para Poincaré teria um caráter sintético e irredutível; já retratando a oposição entre ‘simbolismo’ e ‘intuicionismo’,  que juntamente com o ‘formalismo’, pretenderam resolver a “crise dos fundamentos” … na ‘matemática’. 

Poincaré não concordava com a tese de que…o ‘número‘ poderia ser reduzido à “lógica genética” de classes e relações. Ele entendia o processo numérico como produto de uma intuição racional (sintética a priori) e irredutível às operações lógicas. Para ele, se no século 19 os matemáticos dividiam-se em 2 correntes…uma que se apoiava na lógica…e, outra na intuição…uma releitura dos clássicos faria a balança tender ao “intuicionismo”.

Ademais, como a intuição não oferece o rigor, nem a certeza; foi necessária uma evolução na ciência matemática…evolução esta que a encaminhou para a lógica. Porém, para fazer aritmética, assim como geometria, é preciso algo mais que a lógica pura; sendo a intuição este ‘algo mais’, mas ressaltando que sob esta ‘capa’…diversas ideias estão subentendidas.  De fato, a ‘intuição‘ pode se apresentar… tanto um ‘apelo‘ aos sentidos, e à imaginação; como uma…’generalização‘…na indução de procedimentos experimentais; e… também, como “intuição do número puro (princípio da indução)…da qual se originaria…para Poincaré… o “verdadeiro raciocínio matemático”… – a única intuição passível de ‘certeza’.

A concepção de que o ‘número’ (e, por consequência…a ‘matemática’) é produto de uma intuição racional foi (e ainda é) sustentada por inúmeros matemáticos, existindo porém, divergências quanto ao sentido de ‘intuição‘…desde a intuição da ‘essência estática’ do número, até a “intuição operatória”. Ao considerar que o número inteiro se funda sobre uma “intuição sintética a priori” que se traduz no raciocínio por indução ou recorrência, Poincaré, por mais conservador que tenha sido em muitas questões…como por exemplo sobre os vários tipos de números – ou, sobre os relacionamentos entre diversos tipos de espaço, admite que uma tal intuição operatória… – é construída ”isenta de contradição”.

d) construtivismo‘ (de Jean Piaget)                                                                                              A partir da lógica e matemática Piaget (1896-1980) pretende fundar                                  uma ‘teoria do conhecimento científico’… indo das mais elementares                                atividades do sujeito… aos mais complexos ‘pensamentos científicos’. 

piaget.jpgA proposta de Russell em elevar o “número cardinal”  à noção de ‘classe de classes’… — definindo ‘número ordinal’ como classe de relações, enquanto Poincaré, intuitivamente, fazia irredutível o caráter sintético a priori dos ‘nºs inteiros’ causou inúmeras discussões sobre relações…entre números e lógica. E, foi nesse contexto – que Piaget chegou à conclusão…de que a “intuição operatória” do…”número puro” – então irredutível à lógica concebida por Poincaré…carecia de ‘especificidade’… enquanto a “redução lógica” de Russell não seria…”operatória…o suficiente”. Surge daí, a hipótese defendida por Piaget…de uma ‘função complementar‘…entre a “lógica simbólica” de Russell, e a “lógica intuicionista” de Poincaré… Como assim explica Piaget:

“É verdade que nossa hipótese, num certo sentido, permite escapar                a essa alternativa, pois se o número é classe e relação assimétrica,              ao mesmo tempo… – ele não deriva de tal… ou qual das operações      lógicas particulares, mas somente da sua reunião – o que concilia continuidade com irredutibilidade, levando a conceber…não mais              unilaterais, mas recíprocas, as relações entre lógica e aritmética”.

Piaget queria provar a hipótese…não explicitamente exposta por ele, da noção de número como uma síntese operatória entre ‘seriação’ e ‘classificação’. Para isso se utiliza do longo debate (sem vencedor) entre ‘simbolistas’ e ‘intuicionistas’ sobre a origem do “número”, incluindo aí…suas convicções…de que o saber não está – nem no ‘sujeito apriorístico‘, implícito no logicismo, nem no ‘objeto empírico‘, pano de fundo do intuicionismo,  mas numa interação entre ambos; ou seja…Piaget procurava uma ‘solução intermediária’ entre Russell e Poincaré. Assim, sua posição sobre a ‘construção do conhecimento’ fica a meio-caminho entre o empirismo…e o apriorismo – ao conceber como recíprocas, e não mais unilaterais, as relações entre lógica e aritmética… O ‘número‘ tem por fonte a lógica…sem derivar de nenhuma operação em particular…mas, construído das ‘relações    de classes’, quando sujeitos agrupam objetos por semelhança – e ‘relações assimétricas’, ao estabelecerem diferenças ordenadas – que… segundo Piaget, surgem quando objetos são agrupados simultaneamente como ‘equivalentes‘ e ‘distintos‘. (‘irredutibilidade’)

Entendendo a importância das 2 concepções de número…’intuicionismo’ e ‘simbolismo’,    e a impossibilidade da supremacia de uma delas… – pois ambas apresentavam aspectos positivos e negativos, Piaget deduz que – em vez de serem contraditórias ou opostas, as duas concepções deveriam ser… ‘complementares’ – criando com isso, uma nova teoria.

Crítica de Piaget (ao intuicionismo racional)

A discordância de Piaget com os ‘intuicionistas’  se fundamentava no fato, de que a ‘intuição do número puro’ não é a de determinado “número específico”, mas de um nº qualquer… que, para Poincaré, seria “a faculdade de conceber a uma unidade…o poder de agregar-se a um conjunto de unidades… – Entretanto… segundo Piaget: 

“Ao procederem de uma intuição que subentende a noção de unidade, as                          operações numéricas estariam em desacordo com as operações lógicas”.

Os resultados de inúmeras pesquisas sobre a gênese dos…’conceitos matemáticos’ mostram que todos conceitos de caráter extensivo e métrico…como a “medida“; a “proporção” geométrica; e o próprio “número“…só se constituem em sua forma operatória, ao se apoiarem em ‘grupamentos lógicos’. – Mas…isto não significa um            ‘estágio pré-numérico’, caracterizado por estruturas lógicas, seguido de um estágio propriamente numérico – ao contrário…há uma ‘interdependência’…originária do conceito de conservação dos conjuntos como totalidades – lógicas… ou numéricas.

E esta conservação não se apresenta como uma “intuição”…mas                                              é construída “operatoriamente”, num longo e complexo processo.

A faculdade de conceber que uma unidade possa agregar-se a um “conjunto de unidades”, assinalada por Poincaré como específica da intuição do ‘número puro’… supõe então… – a faculdade de conceber conjuntos invariantes encaixados uns nos outros… e a faculdade de ordenar, desde o início, os ‘elementos agregados’…Mas, se a sucessão dos nºs não pode se apoiar numa intuição inicial contendo de antemão a ideia de unidade; esta sucessão, após sua construção, produzirá uma…intuição racional…em tudo semelhante  à descrita por Poincaré; à diferença de ser final, e não prévia, no sentido de que o número é apreendido diretamente…sem a intermediação de raciocínios lógico-discursivos. E, sendo assim, esta ‘intuição final‘ é apenas a expressão da compreensão inteligente; não nos dizendo nada quanto à sua própria construção – ao longo do tempo. (texto base) Clélia Maria Nogueira *********************************************************************************** O projeto leibniziano de elaborar…no século 17…um idioma e cálculo racional modelados numa…”linguagem matemática”, na qual simbolicamente se poderiam expressar juízos, e raciocinar corretamente de modo tão mecânico quanto cálculo algoritmico, foi uma ideia  filosófica tão avançada – que exigiu quase 2 séculos para frutificar nos cálculos lógicos de Boole, Schroeder, Peirce, Peano, e sobretudo Frege…no século 19… — Fosse efetivamente concretizada por Leibniz, um dos criadores do cálculo diferencial e integral, tal ideia, por ele esboçada, teria dado origem a uma ‘revolução’ sem igual…na história do pensamento.  ***********************************************************************************

As revoluções matemáticasda lógica simbólica à natureza da linguagem  Kant identificou a metafísica com o reino do conhecimento sintético a priori…e deu            à matemática… como o mais convincente exemplo desse conhecimento, a prova que, analiticamente… abriria caminho para a rejeição moderna do argumento metafísico.

método indutivoJohn Stuat Mill em sua obra…”System of Logic”…já no século 19, expõe sua crítica sistemática à teoria kantiana da ‘verdade matemática’ – fazendo da ‘indução‘… o “método científico“…por excelência… Atendo-se aos fatos — o filósofo parte da experiência como base do conhecimento, quer nas ciências físicas… sociais… e, até mesmo na matemática… Mill nega o ‘a priori’ como pura construção racional, vendo nele, antes, um produto originado da experiência – pela indução… com base nas relações de causalidade entre fenômenos. Para Mill, nossa ideia de números…são abstrações a partir da experiência. O número 3…por exemplo, torna-se familiar… – pela nossa percepção de triângulos, o 4 na percepção de quadrados, e assim por diante… Além disso, as próprias ‘verdades matemáticas’, podem ser vistas como refletindo leis fundamentais da natureza.

Não só Mill apresentou uma extensa e convincente “teoria da distinção” entre “lógica” e “ciência” (dedução x indução), lançando assim as raízes da moderna filosofia da ciência; como também voltou-se para muitos dos “padrões de pensamento” que haviam feito as ilusões metafísicas tornarem-se predominantes. Esse foi aliás motivo de satisfação para  Gottlob Frege, pois foi no “absurdo” matemático de Mill… que suas ideias prosperaram.

G. Frege (‘simbolismo’) x Stuart Mill (‘empirismo’)                                                        “Ao estabelecer o limite do conhecimento matemático                                                                no limite de nossa experiência… Mill não nos dá pista                                                          alguma – sobre como entendermos… o número zero“.

Frege, em seu “Fundamentos da aritmética” (1884) afirmou que nem esta, ou qualquer outra explicação empírica da natureza dos números, poderia ser aceita, pois ao afirmar que as “leis da aritmética” são “generalizações indutivas”, Mill confunde a aplicação da matemática, com a própria matemática… – E sobre isso…ele próprio ainda argumenta:

“A matemática é inteligível… — independentemente de suas aplicações. A indução deve se basear na teoria da probabilidade…uma vez que ela jamais pode tornar uma proposição mais do que provável. Mas, como     uma teoria da probabilidade poderia ser desenvolvida sem pressupor      ‘leis aritméticas’… – é algo além de toda… – e qualquer compreensão”.

Kant afirmou…contra o “argumento ontológico” – que a existência não é um verdadeiro predicado (ou propriedade)…mas não conseguiu desenvolver uma lógica que conciliasse esse fato. Leibniz, que fez certos progressos em ‘lógica formal’, reconheceu as diferenças entre proposições existenciais e as ‘sujeito-predicado‘, porém foi incapaz de representar essas diferenças de “modo sistemático“… – Essa deficiência na lógica tradicional era de longo alcance… e foi o que erigiu a ‘barreira artificial’ (como Frege a con­siderou) entre a “aritmética“…(a lógica da quantidade) – e a “lógica formal“…(a lógica da qualidade).

simbolismo lógicoA definição conceitual de‘Número’(por Frege)

Sobre esta base, o desafio seria construir uma nova lógica formal da universalidade…que justificasse o vislumbre de Kant de que a existência não é predicado. Hoje devem ser reconhecidas novas verdades analíticas diferentes do tipo sujeito-predicado…e as leis lógicas devem ser expandidas, para abrangê-las. Daí, portanto, se tornar natural sugerir, que essa “lógica de existência…e quantificação universal” fornecesse a base sólida para uma legítima “teoria geral”.

Mas, e quanto aos números?… – Pensamos neles…como objetos (sujeitos da identidade), e no entanto não lhes permitimos independência em relação a um conceito ao qual estejam vinculados…Frege, para resolver este aparente paradoxo, propôs,  contextualmente, um critério de “identidade geral” para números,    onde expressões numéricas só podem significar ‘verdades‘ – quando vinculadas com precisão, ao conceito que determine o que está sendo descrito. – Ou seja…é somente        em um determinado ‘contexto’ – que o termo de um número denota alguma verdade.

Frege deriva sua definição de número…em termos de um conceito, introduzido na discussão dos “fundamentos da matemática” – por Georg Cantor… denominado “equinumerosidade“… – que pode ser definido…em termos puramente lógicos,            sempre que todos os itens incluídos em um conceito puderem ser colocados numa “correspondência biunívoca” com os de outro. – Sendo cada correspondência relacionada a um ‘número‘… Frege define este – como a “extensão equinumerosa”            de um conceito. Aí, o termo ‘extensão‘ é usado no sentido da ‘lógica de Port-Royal‘          (‘Extensão de um termo ou conceito…é a classe de coisas a que o termo se aplica’).      

Assim, a definição de número incorpora a generalização da ideia presente na lógica            de um conceito…e, suas definições individuais são derivadas da “definição geral”. É suficiente definir o primeiro dos ‘números naturais’…zero…e a relação de sucessão        pela qual os restantes são determinados. Zero é o número que pertence ao conceito        não idêntico a si mesmo. Frege escolheu tal definição…porque segue-se apenas            das leis da lógica que o conceito de “não idêntico a si mesmo” não possua extensão.

Gottlob (“simbolismo”) Frege x Bertrand (“paradoxo”) Russell                                        As pesquisas de Frege sobre fundamentos matemáticos trouxeram                  consequências profundas à filosofia. Dentre elas, o reconhecimento                                          de que certas ‘concepções matemáticas’ podiam/deviam ser usadas                                    para dar forma a problemas “nebulosos“, na filosofia da linguagem.

frege-fraseA cada ponto da argumentação, Frege queria prosseguir … sem a introdução de concepções, que não pudessem ser explicadas em termos lógicos. Por tal método, ele pôde derivar definições e leis aritméticas de modo a confirmar, que todas ‘provas matemáticas’ eram complexas ‘aplicações lógicas’; assim como, todas afirmações aritméticas, caso “verdadeiras“…se deviam aosignificado” dos termos usados para expressá-las. A façanha de Frege era espantosa…mas foi prejudicada pela descoberta – por Russell, de um paradoxo, onde a sua resolução pareceu exigir uma saída de…”ideias lógicas puras”…em direção ao tipo de…”pressupostos metafísicos”, que Frege queria eliminar dos fundamentos da matemática. Além disso, Kurt Gödel em seu famoso ‘teorema da Incompletude‘, de 1931, mostrou que, para qualquer ‘sistema lógico’ que se possa dizer ‘autoconsistente‘…há verdades aritméticas ‘não-demonstráveis’…E assim, a lógica… – a princípio… – não poderia abranger todo o conteúdo da matemática.

Porém, como a própria…”lógica“, orienta boa parte da argumentação filosófica, o processo de adaptação de um método matemático, em seus  fundamentos, pode ser prolongado ainda mais … produzindo filosofias quase totalmente matemáticas, como o ‘atomismo‘ e o ‘positivismo‘.

À luz desses resultados…pode parecer que deveríamos rejeitar a ‘hipótese de Frege’… do caráter analítico da aritmética, e restabelecer alguma versão da teoria kantiana de que a matemática é ‘sintética a priori’… – No entanto… Frege chegou muito perto de reduzir a aritmética à lógica, e o resultado de Gödel é tão interessante, que a questão do status da verdade matemática tornou-se um dos problemas mais relevantes da filosofia moderna.  Em seu livro “Begriffsschrift” (1879) … obra considerada um “marco” do nascimento da lógica moderna…Frege propôs o 1º sistema de lógica formal verdadeiramente completo. Seu propósito era dar firme alicerce filosófico aos argumentos de sua obra inicial, sobre “fundamentos da aritmética” – e com isso derrubar as teorias da lógica aristotélica,      e pós-aristotélica … que durante dois mil anos haviam impedido avanços nessa matéria.

Mas houve aí uma ‘consequência particular‘, que Frege – a princípio não previu… A velha lógica havia seguido a orientação gramatical da ‘linguagem vulgar’; o que tornou tão difícil representar a diferença entre “Sócrates existe” e “Sócrates vive”. A  diferença, é na verdade tão radical que somos forçados a concluir que a forma gramatical na linguagem vulgar não serve de guia para o comportamento lógico. Ou, dizer à maneira de Russell…“a verdadeira forma lógica da sentença que caracteriza uma existência, não se reflete em sua gramática”.

Como então devemos representar essa sentença?… — A resposta natural é                          buscar um sistema de símbolos no qual a linguagem só possa se expressar                        em uma verdadeira… “forma lógica“… – para toda e qualquer sentença.

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Frege… e sua “filosofia da linguagem”              A “semiótica” de Peirce foi a primeira crítica            ao psicologismo lógico de Kant e Stuart Mill.

Há modos específicos, em que a adoção e extensão de ideias matemáticas por Frege, transformaram a própria estrutura filosófica. Isso pode ser visto por exemplo, na teoria de Frege sobre a ‘natureza da linguagem‘. Para ele, era claro…como o fora para Leibniz…que expressões de identidade variam na forma como afirmam a ‘propriedade’ de um objeto.

O ‘é’identidade, e o ‘é’predicativo são logicamente” distintos entre si.

Se eu digo…”Vênus é a Estrela Matinal“… faço uma afirmação de identidade, que continua verdadeira (ou, caso falsa…falsa) quando os nomes são invertidos… – “A Estrela Matinal é Vênus”. Entretanto, na sentença “Sócrates é sábio”… os termos não podem ser igualmente invertidos. O sentido total da sentença depende de uma atribuição diferente… – ao sujeito Sócrates…e ao predicado…sábio. – Com efeito…a distinção entre sujeito e predicado é básica ao pensamento…quem não conseguisse entendê-la…só falando de identidades, não conheceria nada de seu mundo…a não ser determinações arbitrárias, pelas quais poderia substituir um nome por outro. Mas, não saberia nada sobre as coisas a quem desse nome.

A análise de Frege dessa relação, está contida em uma série de artigos entre os quais o mais importante é…“Sobre Sentido e Referência”. – Nele, Frege apresenta várias teses, algumas das quais já mostraram sua importância…na teoria da natureza da aritmética. Duas dessas teses…de especial interesse, são as seguintes: 1) a de que é só no contexto        de uma ‘sentença inteira’…que uma palavra tem um sentido definido; 2) que o sentido      de qualquer sentença deve ser derivável do sentido de suas partes. — As sentenças até parecem contraditórias, mas não são. A 1ª (definição de Frege para ‘número’) diz que:

“O sentido de uma palavra, não lhe pertence isoladamente… – mas… é sua potencialidade de criar pensamentos completos… – Assim como sentenças                        podem expressar pensamentos, as palavras que as compõem têm sentido”.

A tese seguinte diz que o sentido de uma sentença completa deve ser totalmente determinado pelas variadas “potencialidades” de suas partes. Essa dependência          mútua entre a parte e o todo é a característica da linguagem…que torna possível            apreendê-la… – conhecendo um ‘vocabulário finito’… – usando uma ‘linguagem              criativa’…e assim, tendo acesso a uma “capacidade de pensamento”…’ilimitada’.

A relação sujeito/predicado            Para descrevermos as componentes    de uma sentença sujeito-predicado:

Em relação à sentença…“Sócrates é sábio” – Frege diz que, para fins de representação, podemos pressupor,    que esta é composta – por 2 partes:  um “nome“…e um…”predicado“.

Nomes podem parecer mais inteligíveis que predicados, porque representam “objetos”;    e…se soubermos quais objetos descrevem, parece que já sabemos o que querem dizer… Mas, para Frege existe na linguagem uma distinção geral entre aquilo que entendemos (sentido de um termo), e aquilo a que um termo se refere…especificamente (referência      do termo). – O “sentido” do termo nos dirige à referência, mas não é idêntico a ela. No caso de um nome… o sentido é algo como uma descrição complexa – “o planeta que”…      ou “o homem que”… A referência, por sua vez…é um objeto. – Mas, e os “predicados“?

Um predicado tem como sua referência um conceito particular – ao entender o predicado “é sábio” … sou levado ao conceito de “sabedoria”, por seu sentido ou significado. – O que podemos dizer então, sobre a natureza dos conceitos?… – Frege foi claro sobre uma coisa, conceitos são públicos e pertencem ao aspecto reconhecível da linguagem … tanto quanto as palavras que os expressam…Assim, os sentidos de predicados são igualmente públicos.

De outro modo, o significado das palavras não poderia ser ensinado, e a linguagem  deixaria de ser uma forma de comunicação. Os sentidos devem ser distinguidos de associações particulares de imagens, ou qualquer outro modo meramente ‘interior’.        Eles estão determinados por regras de… “utilização pública” – disponíveis a todos.

Teoria da referência”                                                                                                                Incorporada à ideia do caráter público do…”sentido”…encontra-se uma rejeição às tradicionais “teorias empíricas conceituais”. Uma vez identificado o sentido de um      termo com alguma ideia subjetiva despertada dentro da mente de alguém que dela        para algo se aproprie, todas tais teorias fazem confundir ‘significado’ e ‘associação’.

matemáticaComo os predicados fazem referência?…e a referência deles… é distinta de seu sentido?  Segundo Fregue — ao contrário dos nomes, a ‘referência dos predicados’ pode ser vista,  não como um objeto completo… mas como uma ‘operação’ que precisa ser completada para que o objeto seja por ela determinado.

E (matematicamente) essa operação é uma função. Consideremos, por exemplo, a função (y = x + 2). Ela produz certo valor para qualquer número particular — valor 3 … para x = 1; valor 4 — para x = 2…e assim por diante. – Sua significação reside inteiramente nisso. – A função matemática transforma um número em outro…Do mesmo modo, o predicado “x é sábio” produz um valor para cada objeto individual, que é referido pelo nome (Sócrates…por exemplo), no lugar de “x”…Mas, nesse caso, qual seria esse “valor” ao qual a sentença se refere – que deveria ser concebido, para… “similarmente”… determinar uma função?…

Frege argumenta que ele pode ser a ‘referência‘ da sentença como            um todo…“Tendo combinado a referência do sujeito à referência do    predicado… devemos assim… obter a referência dessa combinação”.

Mas então…a que as sentenças se referem? … A resposta de Frege a esta pergunta constitui o que é talvez a parte mais original de sua filosofia. É tentador pensar que se uma sentença se refere a alguma coisa…seja um fato…umestado de coisas“, ou algo assim… – “Sócrates é sábio” refere-se ao fato de Sócrates ser um homem que adquiriu “sabedoria“. Mas então,  a que se referem “sentenças falsas”?… E ainda, quantos “estados de coisas” podem existir?  Ao tentarmos responder à 2ª pergunta logo nos damos conta de que o único meio de contar…estados de coisas…é contando – ou sentenças, ou mesmo…seus significados.

De uma série de argumentos extremamente convincentes, Frege concluiu… que a única resposta possível à pergunta: A que 1 sentença se refere?“…é – a seu valor de verdade“.

socrates-frase

Verdade e falsidade estão para sentenças, como objetos, para nomes. – E predicados referem-se a conceitos que determinam funções que rendem verdade ou falsidade;  segundo os ‘objetos’ – a que são aplicados.  Desse modo, a análise da sentença sujeito-predicado… – é respondida pela pergunta: Qual o motivo de uma sentença completa?  De acordo com Frege, o sentido é um pensamento; nesse caso, de que “Sócrates é sábio”.

Tal como o sentido da ‘sentença toda’ é determinado pelo sentido de suas partes, assim também o valor de verdade é determinado pela referência das palavras individuais. – A significação para a filosofia dessa análise quase matemática da estrutura linguística… é enorme. Se Frege estiver certo, então aquela antiga distinção entre extensão e intenção pode ser aplicada a sentenças…agora da seguinte forma: A extensão de uma sentença é      seu valor de verdade; e intenções, suas condições de verdade. Assim, a extensão de um termo é separável dele… podendo ser identificável por outros ‘inde­pendentes meios’.

O ‘princípio da verdade‘                                                                                                “O princípio de que cada termo representa sua extensão, agora pode ser                       usado para se erigir uma lógica completa das relações entre sentenças”.

A noção de uma relação lógica entre sentenças agora fica determinada. – Podemos pensar em uma sentença como representando o verdadeiro ou falso. A sentença composta “p e q”, por exemplo, é verdadeira se, e apenas se, p for verdade…e q também. Assim, a inferência de “p e q” para “q” é válida… – ela nos leva da verdade para a verdade. Outros “conectivos lógicos”, assim como “se” e “ou”, podem, do mesmo modo…ter sua lógica assim explicada.  Esta ideia revolucionou a filosofia…levando ao “atomismo lógico“, e a novas formas de ‘filosofia analítica‘, onde a noção fundamental das palavras…é o seu valor de…”verdade“.  Alguns argumentaram que, uma sentença tem ‘significado – porque as pessoas a usam para fazer afirmações, sendo portanto a função peculiar destas afirmações – como tema básico de uma filosofia da linguagem, que deveríamos analisar para obtermos a ‘essência’ da comunicação linguística…Porém, segundo Frege…uma ‘afirmativa’ não pode ser parte do significado de uma sentença. Se nos per­guntarmos o que há por trás de uma sentença, ou argumento, a resposta sempre nos faz retornar…não à afirmação, mas à “verdade“.

O que entendemos…é portanto, ou uma relação entre valores de            verdade; ou as condições que tornam uma sentença verdadeira.

Frege também supunha, que a relação de uma sentença com suas condições de verdade deva ser objetivamente determinada…“Descobrimos oculta dentro da própria lógica do discurso uma “pressuposição metafísica“… – direcionada para uma “verdade objetiva”,      à qual se orientam todas as nossas expressões — e da qual tiram o seu próprio sentido”.  Alguns pensadores são contra essa ideia – de que as “condições de verdade” definem o significado. Outros se opõem à interpretação extritamente “realista” ou “anti-idealista” que Frege deu a essa ideia. Por esse motivo a discussão de Frege reativou uma questão fundamental colocada pela metafísica de Kant: Como nos orientarmos no meio-termo      da balança entre os pesos do realismo transcendental…e do idealismo empírico?Tal pergunta… — que nos “dias de hoje” passou a ser definida da seguinte maneira:  

“O que é fundamental ao entendimento da linguagem?…a ‘verdade’ como independente de nossa capacidade de avaliá-la – ou a ‘percepção’… vista como um ‘ato limitado’ por nossos poderes epistemológicos?” (texto base) *********************************************************************

brusselConsiderações sobre a ‘exatidão‘ matemática  “Percebemos objetos e entendemos conceitos O entendimento é outra forma de percepção.” K Gödel

Realizar experiências observar o ‘mundo natural’, formular hipótese…e testá-las — são procedimentos fundamentais a qualquer um que tente fazer ciência, exata ou não… — Podemos avaliar o crescimento de uma planta, a colocando numa sala escura, sem luz solar… e, ao ar livre. Verificamos que sua sobrevivência depende do ambiente. Concluímos então, que plantas precisam de luz… O exemplo das plantas recai no já discutido problema da “indução”, cujos argumentos não são logicamente válidos. Não é o caso de quese as premissas de uma inferência indutiva forem verdadeiras então a conclusão também o será.

É possível que a conclusão de um argumento indutivo seja falsa, embora as premissas sejam verdadeiras – e… ainda assim, não haja contradição. Ou seja, pode haver lógica; mesmo para um argumento com premissa falsa… – Mas, como podemos ter “certeza absoluta” de que nossa conclusãoou hipótese é verdadeira? E aquelas plantas          que vivem dentro de cavernas…com carência de luz solar?… — E as que se encontram dentro de rios e mares?…Vou confessar para você… Não temos a mínima certeza!…          Na verdade, uma certa dose de incerteza é recorrente na maior parte das ciências. Há sempre uma infinidade de variáveis que devemos levar em conta … antes de qualquer afirmação conclusiva. – Tudo isso para que essa afirmação possa ser…”questionável”.

conjectura de goldbachProvas, Teoremas & Conjecturas

Na matemática, a mais verbalmente explicita das ditas ciências exatas (seja por mérito…ou demérito), nenhuma porção de experiência é suficiente para uma conclusão ‘inteiramente’ válida… sem que todos casos possíveis sejam finalmente esgotados…Porém, a maior parte dos problemas matemáticos, não permite tal possibilidade. A Conjectura de Goldbach por exemplo diz que todo número par maior que 3… é igual à soma de 2 nºs primos.

Já foram verificados milhares deles, mas para que a conjectura vire um teorema é preciso que alguém encontre uma prova… usando argumentos lógicos e válidos, que assegure que qualquer um dos infinitos números pares, pode ser escrito como a soma de 2 números primos. – A proposição é muito simples…mas, até hoje…ninguém conseguiu demonstrá-la.

Essa “prova”… – por meio de uma indução lógica de um acontecimento matemático, que na maioria das vezes … dele temos certeza … sem necessariamente a observação de uma contraprova… – é…de fato, algo tão especial na matemática – que possibilita a seguinte pergunta… – Será a matemática uma ciência exata, consistente, e livre de contradições?

ciencias-exatasUma definição“Exata”

Segundo o dicionário “Houaiss” da língua Portuguesa a palavra “exato” significa que não contém erro, que possui grande rigor — ou precisão, perfeito…ou irretocável. – Mesmo assim…parece que o termo – pode variar em significado — de acordo com quem conversamos…ou mesmo, com o grau de precisão da afirmação. – Por exemplo, a frase… “a matemática é uma ciência exata“… nos leva… – com certa frequência… a crer que a matemática é uma ciência livre de erroscom poderoso rigor e grande precisão.

Podemos afirmar que, no sentido epistemológico, obtemos respostas exatas de perguntas matemáticas, às vezes isso é verdade. Contudo, nem sempre a matemática é tão poderosa  quanto podemos imaginar… – Aprendemos (ou, pelo menos…tentamos) que um ‘número irracional’ é um decimal que nunca se repete, e é infinito. A partir desta definição, não há nenhuma maneira de afirmar, ou escrever o valor exato de um número irracional… – não importando quantos dígitos de um número irracional escrevermos, será no máximo uma aproximação real. – Por exemplo…escrevermos π =3,1416 está incorreto… pois a notação correta deveria ser π ≅3,1416. O símbolo ≅ significa  aproximadamente, igual a.

Um outro exemplo que é análogo ao dos números irracionais… é o conceito de limite de um número. Quando escrevemos que \lim _{ n\rightarrow \infty } \frac { 1 }{ n } = 0, ou que o limite de 1/n quando n se aproxima do infinito é zero… – de fato … não há um número grande o bastante, como o infinito… para que 1/n seja igual a zero… – podemos escolher qualquer número – e, ele sempre será um número inversamente pequeno em relação a este… – mas…nunca zero.

Cantor: Conjuntos e Transfinitos

Há certos problemas na matemática… onde a questão é sobre a existência de uma certa quantidade. Um desses, é o dos números transcendentais… que são números reais, ou complexos, não raíz de qualquer “equação polinomial” com coeficientes (π e e, são exemplos conhecidos destes nºs não algébricos).

A “existência” desses números “transcendentais” ficou exposta, quando Geoge Cantor, muito embora não exibisse um exemplar sequer … provou que o conjunto dos números algébricos é ‘enumerável‘ – o que foi surpreendente… pois tal propriedade implicaria numa quantidade infinitamente maior de números transcendentes… do que algébricos.      De fato, quando Cantor apresentou tal prova, a partir da sua “teoria dos conjuntos“,      em fins do século 19 … houve resistência de famosos matemáticos da época tal como Poincaré, mas muito disso se deu devido a algumas de suas posições filosóficas. Cantor acreditava que sua ‘teoria dos números’ era “anti-materialista”…e se assustou ao se ver como um dos poucos matemáticosà épocadesapegado das…’crenças deterministas’.

LorenzAttractorPoincaré, e os “estranhos atratores”

Essa falta de determinismo nos resultados matemáticos…ironicamente… também foi encontrada por Poincaré quando estudava sistemas gravitacionais de três corpos. Ele verificou que tais ‘sistemas gravitacionais’ evoluíam sempre em formas de equilíbrio irregular… Órbitas mútuas tendiam a não serem periódicas, invariavelmente assim, tornando-se complexas e irregulares… Os resultados então obtidosnão condiziam com a harmoniosa mecânica clássica.

Poincaré…neste seu trabalho — acabou por descobrir a possibilidade da existência de um sistema desordenado com variáveis ao acaso. Na época, não houve interesse prático pela teoria das órbitas irregulares, por vezes considerada aberração matemática. Mas talvez, esse seja um dos precursores…que levariam à “Teoria do Caos”. (texto base) Alberto Akel *******************************(texto complementar)*********************************

eureka

“Teoria Analítica dos Números (Primos)

A invenção do Cálculo Diferencial e Integral provocou um dos maiores avanços no pensamento ocidental…O trabalho monumental realizado por Newton e Leibniz propiciou o avanço da ciência, em todas as suas áreas. O matemático Leonhard Euler (1707/1783) … foi um dos pioneiros em aplicar métodos do Cálculo à Teoria (Analítica) dos Números. Contudo, o reconhecimento de tal feito…foi para Bernard Riemann (1826/1866).

Riemann revolucionou a Análise Matemática, a Geometria e a Física Matemática. Em Teoria Analítica dos Números, bem como em outras áreas da Matemática, suas ideias ainda exercem profunda influência. Variedades Riemannianas, Equações de Cauchy– Riemann, Superfícies de Riemann, e muitos outros assuntos encontram-se entre seus trabalhos. – Mas, um fato peculiar, é que a chave para alguns dos maiores problemas contemporâneos reside em uma conjectura sua, denominada “Hipótese de Riemann”:

função zetaTudo começou quando Euler definiu em 1740 uma função – denotada pela letra grega ζ (“zeta”)… – A “função zeta” de Euler, associa a todo número real maior que 1… – um outro diferente “número real“.

É interessante notar, que ao encontrar a relação ζ (2) = π2/6… Euler observou que essa função daria informações sobre o padrão dos números primos. Nascia assim, a Teoria Analítica dos Números, ou seja, o estudo dos ‘números primos’…através do Cálculo aplicado à investigação de propriedades de algumas ‘funções complexas‘. Apesar de    não se visualizar um gráfico dessas funções (com dimensão 4)…é possível, com a ajuda    de um bom software… – definir as partes “real“…e “imaginária” de uma tal função.

Convém observar que existem inúmeras funções zeta e alguns matemáticos                      costumam dizer que Teoria dos Números é o estudo de funções zeta. Porém,                    qual é a relação entre os “números primos” e a “função zeta” de Euler?

mentemc3a1tica“Função Zeta” dos Números primos

Euler demonstrou um impressionante teorema… afirmando que para qualquer número real maior que 1…a “função zeta” se expressa como produto infinito de fatores para qualquer ‘número primo’. Tal função…foi minuciosamente investigada por Riemann ao substituir o número real (x) por um ‘número complexo‘, forma algébrica (z = a + bi);        o que tornou a “função zeta” do tipo “complexa”.   

Tal função não está definida para todos números complexos. Porém, Riemann percebeu que com uma técnica da “Teoria das Funções Complexas” seria possível estendê-la para todos os ‘complexos’, exceto para o número z = 1. – Em 1859, publicou seu fundamental artigo, usando a ‘função zeta’ para checar o padrão dos “números primos”…Seu objetivo era demonstrar a Conjectura de Gauss, hoje mais conhecida como ‘Teorema do Número Primo’, provando que a quantidade de números de primos entre (1 e x)…para grandes x,     é aproximadamente o próprio x, dividido pelo logaritmo natural de x, isto é…(x / ln x).

Embora Riemann não tivesse obtido sucesso…seu trabalho foi de suma importância para o desenvolvimento da “Teoria Analítica dos Números“. Vários resultados foram obtidos quando da investigação das propriedades dessa função, intimamente ligadas à distribuição de números primos, ao longo de sua sequência natural no conjunto dos ‘inteiros positivos’.
O caminho de futuros progressos investigativos ficou assim esquematizado…em uma série de conjecturas bem fundamentadas…dentre as quais, a famosa “Hipótese de Riemann”.

Em 1896, os matemáticos… J. Hadamard e De la Vallée-Poussin, demonstraram, independentemente…o “Teorema do Número        Primo“…utilizando as ideias então desenvolvidas por Riemann.

Consideremos a equação ζ(s) = 0. Então, qualquer número complexo s, que resolva essa equação é denominado um “zero” da equação. Riemann observou primeiramente, que os inteiros negativos pares –2, -4 –6… são zeros da função…Depois, observou que deveriam existir infinitos zeros complexos, e então estabeleceu de forma audaciosa a conjectura de que…qualquer outro zero complexo da função zeta — possui parte real igual a ½, ou seja, tem a forma (s = ½ + b i). Portanto, todos os zeros da função zeta que não são números reais estarão na reta vertical (x = ½). Essa reta é geralmente chamada de “reta crítica“.

A primeira coisa a observar é que os zeros da reta crítica não são reais, colocam-se simetricamente em relação ao eixo real e também em relação à própria reta crítica.        Essa é a célebre “hipótese de Riemann“…sem dúvida, uma questão importante,          pois o arranjo dos zeros da função zeta … se traduz na distribuição dos nºs primos.

A ‘Hipótese de Riemann’ foi considerada um dos problemas do milênio, pois                        é o problema mais importante da Matemática ainda não resolvido… — com                      algumas consequências em Física quântica … e, profundas repercussões na                      Teoria da Informação, em especial, na questão de “segurança”. (texto base***********************************************************************

Riemann… e a Hipótese dos ‘Números primos’                                              “Inegavelmente a matemática é a única ‘linguagem universal’… – Podemos imaginar diferentes químicas ou biologias do outro lado do universo, mas os ‘números primos’ continuarão sendo primos … em qualquer galáxia que encontremos”. (Alain Connes)

Números primos‘ são aqueles apenas divisíveis por si próprios, e pela unidade. Nenhum número par (exceto 2) pode ser primo, porque todos os pares podem ser divididos por 2. – Mas, por exemplo, 3 é primo, assim como 19 também…porque não tem como dividir eles, por qualquer outro número, além deles mesmos… e 1.

Já se sabe que os ‘números primos’ são infinitos e que existem alguns métodos para tentar localizá-los… – mas… além disso… há outros mistérios fascinantes.

Não existe até hoje alguma fórmula capaz de agrupar todos os números primos. Ainda é impossível prever…quando o próximo vai aparecer… – às vezes eles estão separados por mais de mil números…e outras vezes – por um número apenas – e esses são conhecidos como ‘números primos gêmeos‘. Mas sabemos que a distribuição dos primos, apesar de parecer aleatória, não o é… – o que acontece é que ainda não conseguimos ver qualquer harmonia nela. (E isso é muito misterioso!…) É incrível que ainda seja impossível de se encontrar um padrão para a localização deles, ainda mais se pararmos para pensar que esses números são os ‘blocos de construção‘ para qualquer outro número… – já que todo e qualquer número pode ser gerado a partir da multiplicação dos números primos.

A Hipótese de Riemann

Em 1859, o matemático Bernard Riemann fez uma ‘hipótese’ — que continua sendo o principal avanço em direção a uma ordem no caótico mundo dos… ‘números primos’. Basicamente… a ‘hipótese de Riemann’ diz que existe uma fórmula na ‘função zeta’ de Riemann…definida num gráfico 4D – com base nos números naturais, e imagináriosonde todos zeros “não-triviais” (formados por nºs naturais positivos), se agrupariam sempre, sobre a mesma linha … conectada com a localização dos…”números primos”. 

O problema é que até agora ninguém conseguiu provar a hipótese de Riemann, principalmente porque os zeros, assim como os números primos, são infinitos;                    e, temos que achar cada zero, um por um…Até agora já foram encontrados 6,3              bilhões de zeros sobre a linha, e nenhum fora dela. Mesmo assim, ainda não é              possível garantir que a hipótese seja verdadeira… – Sem um modo de prever a              localização de todos os zeros é impossível provar que estejam na mesma linha.

A harmonia por trás do distribuição dos números primos                                  continua sendo… — um dos maiores ‘mistérios’ do mundo.

Mas, talvez a prova da “hipótese de Riemann” seja tão intrincada…que o cérebro humano não consiga alcançá-la. E assim, a lógica por trás dos números primos estaria mesmo fora do nosso alcance, comprovando então o ‘teorema da incompletude‘ de Gödel, que diz que existem certas teorias, que mesmo verdadeiras, jamais poderão ser provadas. Essa é uma perspectiva triste. Mas talvez a beleza desses números, venha justamente da sua natureza egoísta, em que cada um existe totalmente sozinho – sem divisor, e sem previsão de onde estará o próximo – que pudesse compor uma paisagem maior que si próprio. (texto base)

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Epistemologia Contemporânea; Metafísica pós-Moderna

“Em grego, theoria é repouso puro, a mais alta energia, o modo mais elevado de colocar-se na obra, excetuando-se todas atividades práticas”. (‘A Utilidade do Inútil’…Nuccio Ordine)

A ‘Teoria do Conhecimento’ – ao ser sistematizada no século XVII, possibilitou saltar da gangorra metafísica de Sócrates – para uma estabilidade epistêmica, a qual permaneceu inconteste até os efervescentes anos 70, quando o movimento pós-moderno, apresentou sua crítica à teoria… ocasionando, aparentemente… – uma ruptura epistemológica total.

teoria-do-conhecimento

Uma Teoria do Conhecimento é feita a partir das necessidades do homem em sobreviver – considerando que … para fazer frente ao…”mundo ao redor“… o primeiro passo é compreendê-lo…Isso direciona esforços à produção de cada vez mais… “sofisticados mecanismos”, suficientes às nossas necessidades, e à indagação, sobre o que mais podemos fazer a respeito. – Desse processo…ao longo do tempo, surgiram as questões filosóficas da teoria do conhecimento,  a respeito dos aspectos, que seriam os mais relevantes: experiência ou razão,  realidade ou consciência — sujeito ou objeto, entre outros temas…Questões essas que se tornaram um ‘arcabouço apropriado’, para tal…”visão teórica”.

A “Grande Sistematização”

No século XVII… tentando encontrar respostas às dúvidas sobre a origem e essência do conhecimento, ocorreu uma grande “sistematização” das metodologias…buscando uma posição filosófica de princípios e fundamentos racionais. A partir daí…uma ‘Teoria do Conhecimento‘ passou a nortear o domínio da ciência, se tornando mais um ramo da filosofia – priorizando o… ‘sujeito do conhecimento‘… e afirmando sua ‘capacidade cognoscente’ para uma realidade exterior ao pensamento…e assim, atingir a “verdade”.

Essa ‘visão racional’, considerada um marco para a filosofia… assim como para as diversas ciências particulares, no entanto, não passou incólume por mudanças e transformações de cenário, com tão peculiares circunstâncias, que fizeram surgir teorias, doutrinas, escolas e pensamentos vários, sob a ótica do interesse de cada segmento…para afinal, concordar ou, discordar sobre o formulado à época. – Por isso…analisa-se a interpretação de suas várias ‘correntes filosóficas’ em um permanente debate acerca de seus…”critérios de validade”.

Empirismo, racionalismo, intuicionismo…idealismo…’fenomenologia’,                        materialismo dialético, pragmatismo, estruturalismo…construtivismo,                                    e ainda ‘pós-modernismo’…são algumas dessas abordagens filosóficas,                    determinantes na construção de uma… “Teoria do Conhecimento“. 

oscar-wildeSurgimento da ‘modernidade’ 

O fato da razão humana ser ou não capaz de representar a…’realidade’ adequadamente…é o cerne de uma “reflexão fundamental”…visando a tentar legitimar o “conhecimento”.

Sobre isso…pensadores do século XVIII chegaram à conclusão de que não existiria uma ‘verdade universal’. Por conseguinte, cada segmento deveria procurar a verdade do tipo   de conhecimento do seu interesse – deixando de lado a concepção predominante desde     os gregos, de uma ‘ideia absoluta’, com um espírito (medieval) absoluto. As questões da Teoria do Conhecimento, permaneceriam objetos de questionamento para a elaboração     de novos pensamentos. Isto devido à consistente influência medieval, da forte presença     do cristianismo, até então justificando todas dúvidas pela verdade do “mistério divino”.

Contudo, os pensadores modernos, ao constatarem a separação estabelecida pelo cristianismo, entre Deus e o Homem (em face do pecado original), se depararam           com um grande problema. Pode o homem (um pecador) conhecer toda realidade             que o cerca, por seus misteriosos objetos?…A resposta dos filósofos modernos foi             que poderia, sime por intermédio da “razão humana”. Desse modo então, ficou estabelecido que o homem passaria a ser o sujeito, e objeto do seu conhecimento.

A partir daí…a razão passou a fundamentar o conhecimento, e René Descartes (“Cogito ergo sum”) com seu ‘método matemático’ desenvolve todo um trabalho voltado à razão, cujos princípios permanecem, sempre quando ao elaborarmos qualquer conhecimento, analisamos as causas que podem nos levar a erro…verificando se os juízos emitidos são verdadeiros — antes de chegarmos a…’alguma conclusão…’ — sobre ‘algum argumento’.

Por essa nova ‘visão filosófica’ … somos capazes de conhecer; nossa consciência adquire atividade sensível e intelectual, com um poder de análise … síntese … e representação dos objetos … através de ideias, avaliação e interpretação desses objetos por meio de juízos – e não pela ‘luz divina’. Mas, enquanto Descartes sustentava que…através do intelecto, o conhecimento vem da ‘razão‘ – John Locke lançava a corrente ‘empirista‘, onde ‘experiência’ era origem do saber. 

Para tentar resolver esse então considerado ‘grande problema’…surge uma posição mediadora entre racionalismo e empirismo…fundamentada numa nova orientação epistemológica, denominada…”Intelectualismo“… justificando a participação de        ambas as correntes no ‘processo de conhecimento’…ao argumentar que…enquanto                o ‘racionalismo‘ participa com “juízos“…(necessários ao pensar)…com validade universal — o ‘empirismo‘ retira os elementos desses juízosda “experiência“.

“Verdade”… — Conceitos, Critérios & Juízo de valores                                                  Vistas algumas questões sobre a descrição filosófica do conhecimento,                              estas nos direcionam para a questão da validade do conhecimento, ou                              seja…a “verdade”, e o critério que é usado para lhe atribuir…”certeza”. 

Os segmentos idealistas e materialistas, bem como os aspectos subjetivos e objetivos da verdade, dessa forma, assim se manifestam… – O ‘idealismo subjetivo‘ versa sobre o conceito ‘imanente’ de verdade, e o ‘objetivo‘, sobre a concepção ‘transcendente’…Mas, não podemos ignorar a doutrina do…’pragmatismo‘… – afirmando um entendimento oposto ao ‘idealismo‘… onde o conhecimento só é verdadeiro… ao produzir resultados eficazes. Tendo assim, como critério de verdade a ‘utilidade‘…o pragmatismo ignora o conhecimento, como o resultado de uma relação intrínseca entre ‘sujeito‘ e ‘objeto‘.

Em Kant…essa relação desempenha papel fundamental na explicação genética do conhecimento, onde chegamos a uma confirmação da concepção que a consciência    natural possui do conhecimento humano. Para esse conceito…é essencial a relação           do conteúdo de pensamento com o objeto. A face psicológica e a face ontológica do fenômeno do conhecimento são… por assim dizer – suprimidas em favor da lógica.

a) Conceitos de verdade                                                                                                              “O conceito de verdade … pela concordância do conteúdo do pensamento                            com seu objeto, constitui uma concepção transcendente. Mas há também                            um conceito imanente – que afirma ser a verdade…uma concordância do                        pensamento consigo mesmo… – nada existindo de exterior à consciência”.

Quando descrevemos o fenômeno do conhecimento… constatamos que, para a consciência natural, a verdade do conhecimento consiste na concordância do conteúdo do pensamento com o objeto… Mas, a verdade é a concordância do pensamento consigo mesmo…Portanto, um juízo é verdadeiro, quando construído segundo leis e normas do pensamento. – Desse modo, temos uma troca do…”conceito imanente” de verdade – por um “conceito idealista”.

Sendo apenas no terreno do ‘idea­lismo‘ que o ‘conceito imanente‘ faz sentido,            se não houver “objetos” independentes do pensamento… – se todo o ser resi­dir no        interior do pensamento… a verdade só pode consistir no acordo de conteúdos de pensamento entre si… em “correlação lógica”… – Então, nesse caso…a verdade do conhecimento residirá na produção de objetos – em con­formidade com as ‘leis do pensamento’…vale dizer…na con­cordância do pensamento com suas próprias leis.

b) Critérios de verdade

Sendo a “certeza da verdade“, incumbência de seus critérios…há várias concepções para se atribuir tal certeza…1) critério dogmático da ‘autoridade‘; 2) da ‘evidência‘ (‘teoria do conhecimento’) – 3) ‘não contradição‘; 4) ‘utilidade‘; e 5) ‘prova experimental‘.

O critério da evidência, como o mais conhecido e aceito é visto como plena clareza da verdade, e a ‘certeza‘ é o estado subjetivo que a acompanha; porém, não é um critério último de verdade, pois fatores como ‘ignorância’, ‘ilusões dos sentidos’…’preconceitos’        e ‘paixões’ podem levar a uma falsa evidência; precisando-se portanto de outro critério para dar à verdade… – o atributo da “certeza”. Quanto ao critério da imparcialidade, define-se que no processo do conhecimento … ao sujeito apreender as propriedades do objeto… – a imagem assim formada… deverá corresponder “plenamente” a esse objeto.  Mas, por transcender ao sujeito – esta imagem não deverá conter o já existente em seu próprio pensamento, e sim corresponder apenas às propriedades captadas do objeto, o    que resultaria em uma… “imagem imparcial” – o mais próximo possível da “realidade”.

Usando da argumentação do ‘materialismo dialético’, com a imparcialidade também é possível ao sujeito conhecer a ‘verdade objetiva‘, ao afirmar a apreensão do objeto, em suas características essenciais…argumento aceito pelos ‘céticos’… Apenas na concepção ‘idealista subjetiva’ a concordância do pensamento é consigo mesmo, e não com o objeto.

c) Juízo de valores                                                                                                               “Todo conhecimento científico possui validade uni­versal. – Pode-se quase identificar o conhecimento científi­co ao saber universalmente válido… Porém, no campo teórico do conhecimento científico não se pode considerar a ‘evidência’ como critério de verdade”.

Um juízo de valor pode ser definido como uma avaliação de caráter pessoal, fundamentada em informações disponíveis, a ser efetuada sobre algum sistema de valores…pelo qual uma decisão deva ser tomada — de forma independente… a qualquer critério valorativo vigente. Nesse caso argumenta-se que a ‘objetividade verdadeira’ é impossível, pois mesmo as mais rigorosas análises racionais fundamentam-se no conjunto dos valores aceitos…no curso da análise. – Por consequência, todas conclusões serão… ‘juízos de valor (e assim, suspeitas).

downloadComo exemplo, as “verdades” científicas são consideradas “objetivas” enquanto mantidas empiricamente, ressalvando que, evidências mais apuradas…e/ou experiências seguintes podem mudar os fatos. Porém, uma opinião científica (conclusão com base num sistema de valor) é um ‘juízo criterioso’…consensual.

Leis lógicas do pensamento

A questão sobre o conceito de verdade está estrita­mente ligada à questão sobre o critério da verdade. Nesse campo, um ‘juízo‘ é verdadeiro se construído conforme ‘leis e normas do pensamento’. Fixemo-nos a princípio, nos dados da consciência… Possuo uma certeza imediata a respeito do vermelho que vejo, ou da dor que sinto. – Mas não apenas o juízo: eu vejo o verde e o vermelho“, como também o juízo…o verde é diferente do vermelho pertence ao círculo de ‘auto-certezas’ da consciência. O que equivale a perguntar se além da evidência da ‘percepção‘…há também uma evidência no pensamento conceitual;  e, havendo… – será que poderíamos divisar aí – algum tipo de…’critério de verdade‘? 

Não há dúvidas de que ‘evidências’ também existam no campo do pen­samento. O que não é correto, porém, é deslocar a evidência para fora da consciência…O epistemólogo que faz isso não pode evitar a necessidade de distinguir, no interior da evi­dência lógica objetiva – o verdadeiro do falso… – o real do aparente… – o legítimo do ilegítimo. – Não reconhecer a ver­dade daqueles juízos…significa, indiretamente, negar as ‘leis lógicas’ do pensamento. Nessas leis, revela-se sua própria essência e estrutura…E nesse caso, a fundamentação do juízo não se baseia em evidências, mas em sua finalidade…fundamental ao conhecimento. 

fenomenologiaA ‘fenomenologia’ de Husserl 

O filósofo Edmund Husserl, ao final do século 19 … apresentou sua abordagem “fenomenológica” do conhecimento, para assim conseguir uma descrição da “Teoria do Conhecimento”…em âmbito geral – o que então representou, de um modo mais contundente; uma resposta      à “sistematização“, efetuada por Locke.

A ‘fenomenologia’ visa descrever todos fenômenos…materiais, naturais, ideais, culturais, do conhecimento e realidades… e considera o fenômeno como a presença real das coisas, diante da consciência daquilo que se apresenta diretamente a ela… Também se propõe a afirmar a prioridade do sujeito do conhecimento, como consciência reflexiva, diante dos objetos … aos quais intenciona apreender suas características e determinações – o que é basilar a todo conhecimento. Por isso…a fenomenologia não afirma que o homem possa conhecer a realidade em toda sua essência…e sim, somente tal como assim aparece, e se apresenta à sua própria consciência – e faz isso, por intermédio de…”representações“.

A “metodologia fenomenológica”…ao considerar a “capacidade humana” em conhecer um fenômeno exterior à sua consciência, e definindo ‘conhecimento’ como “relação do sujeito com o objeto”… destaca 3 elementos dessa relação… – o ‘sujeito cognoscente‘ (…e suas intenções)… – o ‘objeto a conhecer‘…independente do seu pensamento – e a ‘imagem mental‘… formada pelo sujeito… – correspondente ao objeto (que se pretende conhecer).  Podemos dizer então que o método do conhecimento, no processamento fenomenológico, ocorre numa relação onde a função do sujeito é apreender (captar o objeto)…o qual tem a propriedade de ser apreendido pelo sujeito. – Essa ‘apreensão’ figura para o sujeito como uma saída de sua esfera, para invadir a esfera do objeto…absorvendo suas características.

Nesse procedimento o objeto permanece independente. Não sendo arrastado para a esfera do sujeito, não é nele que ocorre alteração pela ‘função cognitiva‘…Essa alteração se dá no sujeito…com o surgimento da imagem contendo as propriedades do “objeto” – para o qual esse fato se mostra como um alastramento de seus atributos, resultando na supremacia do objeto (determinante) sobre o sujeito (determinado). – Nessa receptividade do sujeito a respeito do objeto, em razão da “intencionalidade”…o sujeito passa a ser apenas a imagem do objeto em sua mente; enquanto que, ao mesmo tempo, se dá uma “espontaneidade” do objeto a respeito da imagem em formação; na qual a mente terá participação ativa em sua representação – isto porque o sujeito lhe dá esse significado… (com a “intencionalidade”).

Todavia, quando determina o sujeito, o objeto mostra-se independente – transcendental, pois todo conhecimento visa a um objeto independente da ‘consciência cognoscente’; por isso todos os objetos do conhecimento são ‘transcendentes’…Os reais vêm da experiência externa ou interna, e os ideais…como na matemática…existem como objetos imaginados.

Ceticismo, dogmatismo, materialismo                                                                              O entendimento que afirma a possibilidade de um conhecimento total da                          realidade se manifesta na ‘doutrina dogmática‘, pela crença de conhecer                              a ‘verdade absoluta‘, de forma imediata e direta, por meios racionais ou                          “supra-racionais”… ignorando a relação cognitiva entre sujeito e objeto.

Husserl-fraseCom efeito, na visão fenomenológica  o “processo do conhecimento” ocorre, quando o sujeito capta os aspectos do objeto, formando assim uma imagem do mesmo. Essa imagem para efetuar  a percepção… — deverá corresponder totalmente ao objeto…caso contrário, há apenas um erro… – não do objeto, mas ocorrido — na ‘mente do sujeito’.

Contudo, essa descrição do processo do conhecimento pelo método fenomenológico, não explica, nem interpreta o conhecimento; apenas descreve o fenômeno ocorrido, cabendo     à Teoria do Conhecimento fazê-lo; o que nos reporta às indagações que dizem respeito à ‘possibilidade’ – ‘origem’ – ‘essência’ – ‘tipos de conhecimento’ – e, ‘critério da verdade’.  Todas as teorias ou entendimentos acerca destas “questões filosóficas” do conhecimento começam questionando seus próprios elementos da possibilidade do conhecer; isto é, se nossa mente é capaz de entender e refletir de forma adequada a realidade que nos cerca; efetivamente captando o objeto…e chegando à “verdade dos fatos”pelo uso do modelo  de uma… ‘Teoria do Conhecimento’ – aplicado a umadescrição fenomenológica“.

Partindo desse pressuposto chega-se a 2 entendimentos opostos; o que   nega a possibilidade de conhecermos a realidade (‘ceticismo’)…e o que afirma a possibilidade de conhecê-la – por… ‘doutrinas materialistas’.

Os céticos, supondo que o homem só possa conhecer a aparência das coisas, e não sua essência – negam ao sujeito sua capacidade de apreender o objeto…concentrando sua atenção nos fatores subjetivos do conhecimento humano. Assim, só teríamos acesso à manifestação exterior da coisa em si (‘objeto’), como se apresenta à nossa consciência, sendo – conforme Kant, tarefa do pensamento…dar forma e ordem nessas sensações.      Por isso não conhecemos a essência do objeto, e sim sua representação…revestida dos “elementos subjetivos“… em que a enquadramos… — os quais podemos encontrar,        tanto na metafísica de Kant, como no positivismo de Comte, ou fenomenologia        de Husserl – representando – todos eles, as variadas formas clássicas do ‘ceticismo‘.

A relação cognitiva (materialismo x idealismo)                                                  Abordada a capacidade do sujeito…conhecer ou não…o “mundo exterior”, pergunta-se em que consiste o conhecimento…em sua ‘essência’…que relação há entre o sujeito e o objeto; o que constitui questão fundamental à filosofia, e nos arrasta ao “centro de gravidade”, no fenômeno do conhecimento… – o que afinal prepondera… – o sujeito ou o objeto? 

karl-marxAsdoutrinas materialistasao afirmarem a existência real do ‘mundo externo’, refletido pela consciência – e distinguindo assim o objeto do ‘sujeito cognoscente’…agem como mediadoras  entre o ceticismo, e o dogmatismo.  Sendo ‘matéria’ anterior à consciência; sensações, representações, e conceitos refletem coisas – que apenas ‘existem’.

Da essência do conhecimento, precisamos estabelecer o referido “centro de gravidade”.      O aspecto nevrálgico da “preponderância”…nos apresenta entendimentos antagônicos,  que considerando o ‘fator humano’… nunca deixarão de sê-lo. – Dizer qual o elemento preponderante no conhecimento… – se a realidade, ou a consciência… – o sujeito ou o objeto… – se a consciência é um reflexo e reprodução do objeto… – ou… o objeto é um reflexo e reprodução da consciência, faz parte do objetivo principal de 2 fundamentais correntes (antagônicas) de pensamento; a saber… — o idealismo e o materialismo.

O idealismo e suas variantes (objetiva e subjetiva) afirmam que o sujeito determina o objeto. – A ‘variante objetiva’ afirma que o que prepondera é a ideia absoluta… espírito universal, cuja vontade existente antes da natureza e dos homens teria criado o mundo; sendo todas as coisas materiais seus produtos…(Platão…e o ‘Mito da caverna’; Hegel, e     seu ‘Demiurgo’). – A ‘variante subjetiva’ prega o ‘eu absoluto’ na consciência do sujeito, onde estaria encerrada toda realidade…e, onde a matéria é construída pela consciência.

Contrapondo-se a esse entendimento o materialismo nos sugere a existência de objetos reais e independentes do pensamento… onde a matéria é anterior à consciência… – a qual representa um reflexo, produto da matéria no sujeito. – À ‘filosofia materialista’ se atribui a resolução cientifica do problema fundamental da essência do conhecimento, mostrando que o mundo e o ser são materiais por natureza…e sensações e ideias, reflexos do exterior. O ‘materialismo‘ – apesar de afirmar serem o racionalismo, empirismo e intuicionismo unilaterais, propõe uma…’síntese dialética‘ deles – como parte do “processo cognitivo”. 

conhecimentoRacionalismo/Empirismo/Intuicionismo  Estabelecida segundo o materialismo filosófico, a essência do conhecimento, como resultado da relação sujeito/objeto…resta-nos questionar…a origem do conhecimento. Para isso precisamos avaliar, a ‘razão’, os ‘sentidos’, e a ‘intuição’, no âmbito do próprio… –processo gnoseológico“. 

Racionalismo é a visão epistemológica que coloca a “razão como a fonte primordial do ‘conhecimento humano’sempre que seu uso for logicamente necessário, e válido…de um modo universal. – E, como todo verdadeiro conhecimento se funda no pensamento, a aplicação deste“juízo de valores” — é a verdadeira fonte de todo conhecimento humano.  Quando nossa razão julga – através do…”pensamento abstrato” – que uma coisa tem que ser assim, e não pode ser de outro modo… – então estamos diante de um…’conhecimento verdadeiro’. Por exemplo, quando formulamos o juízo de:o todo e maior do que a parte, ou,todos os corpos são extensos, em ambos os casos, obrigatoriamente, encontramos a evidência de que tem de ser assim, e que a razão se contradiria se sustentasse o contrário.

‘Empirismo é o método filosófico, que tendo como formas de conhecimento…a ‘sensação’, ‘percepção’ e ‘representação’…acredita que a experiência recebida dos sentidos é suficiente para conhecer a verdade…Ao contrário do ‘racionalismo‘,          que – como os sentidos nos enganam; defende que só a razão pode produzir um conhecimento verdadeiro… — logicamente necessário… e, universalmente válido.                 Em sentido mais geral…racionalismo é a ideia de que só racionalmente podemos              chegar à verdades acerca do mundo. Sendo assim, tanto experiência como razão,                são métodos racionais de adquisição do saber, em oposição ao “intuicionismo“.    

As versões mais moderadas de racionalismo defendem que – tanto a razão…quanto os sentidos são fontes substanciais de aquisição de conhecimento. – Contudo, há que não confundir a ideia de adquirirmos conhecimento a priori acerca do mundo, com a ideia    de que o conhecimento não seria possível sem experimentarmos o mundo…Uma coisa,      é como adquirimos conceitos relevantes empregados na formulação de nossas crenças,        os quais podem ser adquiridos através da experiência; outra coisa é saber se, na posse desses conceitos relevantes, podemos, ou não, saber coisas sobre o mundo, sem ter de recorrer à experiência. Por exemplo…o fato de obtermos conceitos de azul e vermelho,      da experiência perceptiva, não nos impede de saber, a priori, que um objeto todo azul,      não pode ser vermelho… Portanto, não se deve, confundir posições tradicionais com a defesa de uma capacidade racional de intuição responsável pelo nosso ‘saber a priori’.  

E o pós-moderno finalmente veio a tona

Todas essas concepções acerca do conhecimento humano, vigoraram incontestes – até meados do século XX…sobretudo para a atividade científica. Até hoje…seja qual for a teoria que sistematiza a produção do conhecimento…ela se orienta pelos mesmos princípios… diante da ‘problemática de interesse’, isto é…pelo fato, situação… ou objeto     a conhecer. –  O homem planeja o que vai fazer, coleta o material necessário…avalia suas fontes, interpreta…e procura o que todos querem… – o conhecimento considerado como…”verdadeiro”.

E a base desse procedimento para “pensadores modernos”, era a ‘razão humana‘.          Mas, o tempo é inexorável com as ideias, em razão de ocasionar mudanças – e, por conseguinte, acarretar novos pensamentos diante dos desafios. A descontinuidade corrente na filosofia; a herança dos escombros materiais e mentais da 2ª Guerra; a bipolaridade subsequente; o ‘estado pós-industrial’ – onde modelos existentes não        mais correspondiam às necessidades e expectativas…da sociedade, e da ciênciaA cibernética e o novo modelo de comunicação; ‘capital financeiro’ gerindo política e economia; formação dos “movimentos sociais”; o ‘Construtivismo’ a ‘Gestalt’… e ambições imperialistas, ensejaram no fim dos anos 60 uma “postura negativa” de  angústia…diante da sensação de que o que se acreditava (ou foi levado a acreditar)          era errado, não mais servindo à sociedade…considerando o que ocorria no mundo.              E assim… foram negadas as bases e valores implantadas desde o século 17… que nortearamtanto a filosofia, quanto a ciência; do racionalismo ao empirismo…do idealismo ao materialismo dialético, de modo que, sob domínio do estruturalismo                e construtivismo … então acontece uma ruptura epistemológica, estabelecendo-se                o…”pós-modernismo” — como resultado de uma posição filosófica discordante.

Entre seus pensadores mais conhecidos, destacam-se Sartre, Foucault, Lévi-Strauss, François Lyotard, Deleuze, Derrida, Marcuse, Nietzsche,          e Bruno Latour, os quais negaram todas as teorias, valores, conceitos, doutrinas…enfim – tudo o que constitui o universo filosófico moderno.

As propostas ‘pós-modernas’… partem da intenção de romper … e, “desconstruir” criticamente…o “modelo epistemológico” vigente — questionando os fundamentos baseados em verdades dogmáticas…para  então…recusar a ideia de ciência – como ‘representação do real’… – em si mesmo; e adotar a ideia do… ‘objeto de pesquisa’,  como modelo construído…questionando todas as formas, que não mais serviriam.  Metodologia, e procedimentos baseados num modelo racional discursivo, seriam equivalentes ao…’modelo construtivista’, sem quaisquer…”fundamentos prontos”. Quanto ao processo do conhecimento, o ser humano não conhece ou não precisa conhecer a realidade que o cerca ele a constrói – pois a base racional, e todo    discurso moderno seria disfarce – a um “exercício da dominação” – e por isso, a negação a sistemas prontos indutores do pensar o que se quer que se pense.

A “essência” do conhecimento…que é a relação entre sujeito e objeto, é considerada sem fundamento…pois tanto filosofia quanto ciência…sendo ‘construções subjetivas’ de seus objetos – estes nada mais são do que resultado de operações teóricas e técnicas – já que cientistas não observam realidades…mas as constroem…E, nesse sentido, como objetos independentes do sujeito…não existem são apenas construções teóricas. Daí… podem ser identificados reflexos do “idealismo”, e sua “concepção imanente de verdade” – mas sem a presença de qualquer “construção interativa”, pois – naturalmente – a apreensão      do objeto pela mente do sujeito corresponde de fato ao seu conteúdo individual.

A filosofia… e o conhecimento – passam a ser considerados                           criação da linguagem, como um reflexo do ‘estruturalismo’.

A origem do conhecimento não é concebida como no ‘modernismo’ … pois o homem não é um ‘animal racional’ com livre vontade – ele é passional…se move por instintos, e por isso instituiu uma ordem social para reprimir seus desejos (proposição diametralmente oposta ao “pensamento moderno“)– A “verdade do conhecimento”… como correspondência da imagem formada, cujo critério é a ‘evidência‘…não seria apropriada, considerando que o conhecimento – seja qual a espécie, só é válido se for útil e eficaz para a obtenção dos fins, desejados por quem conhece… – “não importando que…’fins‘… sejam esses”. (texto base) ******************************(texto complementar)*********************************

O problema da “origem” do conhecimento                                                                        Afinal… – onde está o…’centro de gravi­dade‘…do                                                                          conhecimento humano…no sujeito, ou no objeto?

‘Conhecer’ é uma relação entre sujeito e objeto. Considerando que, por estar no mundo, o sujeito também pode ser objeto de conhecimento, surge          daí então, a pergunta…Será que é o sujeito quem determina o objeto…ou vice-versa? — Segundo a consciência natural o conheci­mento surge como      uma “determinação” do sujeito pelo objeto. Mas, estará correta essa concepção?… — Não poderia        ser uma… “explicação” do objeto — pelo sujeito?

Subjetivismo/Objetivismo

O ‘subjetivismo‘, ao ancorar o conhecimento humano no sujeito, desloca o mundo das ideias (encarnação dos princípios do conhecimento) para o sujeito. Nele, a característica principal do conhecimento já não mais con­siste numa focalização do ‘mundo objetivo‘, mas num voltar-se para aquele sujeito, de quem a ‘consciência cognoscente‘ recebe seus conteúdos…Todos os ‘elementos metafísicos’ são elimi­nados do núcleo do “pensamento subjetivista”, pois todos os objetos são produtos da cons­ciência, através do pensamento.

Já no ‘objetivismo‘, enquanto os objetos do mundo sensível revelam-se à uma percepção intuitiva, os objetos do pensamento revelam-se aos sonhos… à imaginação. O pensamento fundamental da doutrina platônica revive hoje na “fenomenologia” de Husserl. Da mesma forma que Platão, Husserl distingue nitidamente a intuição sensível dos objetos concretos, daquela “não-sensível“, cujos obje­tos (ao contrário) são “essências universais” das coisas.

Ontologia/Epistemologia

Ontologia significa “estudo do ser”…e consiste em uma parte da filosofia que estuda a natureza do ser, a existência, e a realidade. A palavra é formada através dos termos gregos ontos (ser) e logos (estudo, discurso). Engloba algumas questões abstratas como a existência de determinadas ‘entidades‘…o significado do Ser…etc. Os filósofos da Grécia Antiga… Platão e Aristóteles…estudaram o conceito, que muitas vezes se confunde com metafísica, por seu aspecto de categorizar o essencial/fundamental numa entidade.  O termo ontologia foi popularizado graças ao filósofo Christian Wolff, que a definiu como “philosophia prima”, ou ciência do ser enquanto ser. Assim, esta ciência tinha um caráter racional e dedutivo, com o objetivo de estudar os traços mais gerais do ser… No século 19, a ontologia foi transformada por ‘neo-escolásticos’ na 1ª ciência racional a abordar o ‘ser’. A corrente filosófica idealista de Hegel partiu da ideia de autoconsciência, para recuperar    a ontologia como ‘lógica do ser‘…No século 20, a ligação entre ontologia e metafísica deu lugar a conceitos como o de Husserl (ontologia como uma ciência material das essências). 

A epistemologia, palavra que vem do grego epistimo (ciência), trata da natureza, origem, estrutura, métodos, validade e limitações do conhecimento – estudando o grau de certeza do saber cientifico em suas diferentes áreas…no objetivo básico de avaliar a possibilidade do ser humano em alcançar o…”conhecimento pleno do mundo”. Ao surgir com Platão, já se opunha à crença ou opinião, considerando-as um ponto de vista subjetivo…(pela teoria de Platão o saber é o conjunto de informações que explicam nosso mundo natural/social).  Conhecida como ‘teoria do conhecimento’, a epistemologia relaciona-se com a metafísica, lógica, e filosofia da ciência. Um desses ramos se refere à ‘Epistemologia Genética’, teoria elaborada pelo psicólogo e filósofo Jean Piaget…como resumo de 2 teorias existentes — o ‘apriorismo’ e o ‘empirismo’. Para Piaget, o conhecimento não é algo inato dentro do indivíduocomo declara o ‘apriorismo’, bem como não é exclusividade observacional do meio ambiente, como afirma o empirismo. Segundo Piaget, o conhecimento é produzido, graças a uma interação do indivíduo com o meio, conforme suas ‘estruturas inatas‘. 

Soluções para o “problema do conhecimento”                                                                  Ao incluirmos agora, na análise desse problema, o ‘caráter ontológico’ do objeto…duas novas decisões se tornam possíveis. Ou supomos que todos os objetos possuem um “ser ideal de pensamento” (o que afirma o idealismo) – ou se admite que além dos objetos ideais há…”objetos reais“…independentemente do pensamento (segundo o realismo).

intelectualizacaoAs várias formas de“Realismo”

Por “realismo metafísico“… entende-se o ponto de vista epistemológico segundo o qual existem coisas reais, independen­tes da consciência… O ‘realismo ingênuo‘ é aquele que não distingue a “percepção” (conteúdo da consciência), do objeto percebido…Já o ‘realismo natural‘…é capaz de identificar esses conteúdos em objetos ao atribuir-lhes as propriedades presentes em seus conteúdos. O ‘realismo crítico‘, por sua vez, não acreditando no teor perceptivo vindo de objetos, atribui as reações da consciência a…”estímulos externos“.

No ‘realismo ingênuo‘…”pré-filosófico”…que dá origem aos demais, o homem aceita a identidade de seu conhecimento com coisas captadas por sua mente, sem fazer qualquer questionamento a respeito disso. — É a atitude do “homem comum”…conceber as coisas, tais como aparecem. O realismo natural, por sua vez, se compõe de ‘reflexões críticas’. Nele, indaga-se a respeito dos ‘fundamentos’, com uma busca em demonstrar se as teses são verdadeiras – numa atitude propriamente filosófica – seguindo a “linha aristotélica”. Já de acordo com os fundamentos do ‘realis­mo críticoconhecer é sempre conhecer  algo fora de nósmas o qual, ao ser conhecido, não nos é possível saber se corresponde, ou não, ao objeto, tal qual a si mesmo. Ou seja, os objetos da percepção servem para  muitos indi­víduos, mas os conteúdos da representaçãosó valem para um único objeto.

Essa inter-individualidade dos objetos de percepção só pode ser explicada segundo a visão do ‘realismo crítico’, pela supo­sição de haver ‘objetos reais’ atuando em diferentes sujeitos, provocando neles…’percepções’. – A independência dos objetos de percepção em relação à consciência que per­cebe… – manifesta-se aqui com clareza. – Esse tipo de fundamentação, contudo, parece inadequado a outros representantes do rea­lismo. Se fôssemos puros seres de entendimento, não teríamos qualquer consciên­cia da realidade (“realismo volitivo“).

Todas essas formas de realismo estão presentes na filosofia antiga. – No alvorecer do pensamento grego, o ‘realismo ingênuo‘ era predominante… Demócrito, seguidor do ‘realismo crítico‘, por seu lado, afirmava (quantitativamente) a existência de átomos. Mas sua visão não foi capaz de impor-se à ‘filosofia grega’, muito devido à da influência exercida por Aristóteles, defensor do ‘realismo natural‘… Para este, as ‘propriedades percebidas’ convêm também às coisas – sendo tais ideias predominantes, até a…”Idade Moderna”; quando a visão de Demócrito ressurgiu, com sua “doutrina atômica”…então    defendida por Galileu, aperfeiçoada por Descartes e Hobbes…definida, por John Locke.

John Locke(Locke x Descartes)                                          Descartes formulou o célebre…”cogito ergo sum”: “Em meu pensar, em meus atos de pensar (assim reflete Descartes) vivencio meu eu… enquanto ‘realidade’… certifico-me de minha existência”.

A proposição sugere, que possuímos uma certeza imediata sobre a existência de nosso próprio ‘eu’; e que todo idealismo deve fracassar diante dessa certeza imediata… (“racionalismo absoluto“).

Descartes entende o “inato” como um ‘princípio causal’…ou noção substancial (Deus). Para Locke, no entanto, tal concepção coloca Deus, como o responsável pela existência      das ideias em nós, o que para ele teria um caráter dogmático, por inquestionavelmente    ser colocado como ‘ponto de partida’. – Locke tenta assim chegar às ideias, só pelo uso    das “faculdades naturais”Em oposição a um dos argumentos principais usados pelos defensores de Descartes ( ‘universalismo‘), ele argumenta que:  “o conhecimento universal não é inato”. Segundo Locke…“a alma humana é uma tábula rasa”.

Pelo ‘empirismo‘ de Locke – o caminho pelo qual são alcançadas as verdades origina-se (ao contrário do princípio universal do racionalismo cartesiano) nas ideias particulares, isto é, na ‘concepção empírica’ que o pensamento parte do particular para o geral. Estas ideias é que dão origem às ideias abstratas. A ideia é objeto do pensamento…não se tem pensamento sem ideia, nem ideia sem pensamento. Ter consciência de uma ideia…é ter consciência de que se tem essa ideia… – ou seja – é ter… “consciência de si mesmo“.   A obra empirista de John Locke representa uma reação ao racionalismo (absoluto)    de Descartes, por considerar o entendimento, como a faculdade mais nobre da alma na investigação de objetos passíveis do “conhecer”. Tentar ir além do que as faculdades mentais podem apreender – ou adentrar veredas que extrapolam nosa compreensão é    como cair na…’especulação‘. Ao retirar das ideias seu caráter inato (‘Deus’) Locke defende que o…”aprendizado da experiência“…é que dá origem ao ‘conhecimento’:

Nossos sentidos são a única fonte de ‘ligação direta’ à realidade;                                          suas qualidades primárias… – são os ‘objetos exteriores‘;                                                enquanto as secundárias… – surgem da interação (“ideias“)                                                entre o objeto e o sujeito … (variando de sujeito para sujeito).

Idealismo psicológico (ou subjetivo)                                                                                Advoga a concepção de que… não há “coisas reais” – independentes da ‘consciência’.  Assim, com a supressão de coisas reais, só restam 2 tipos de objeto: os que ‘existem          na consciência (re­presentação/sentimento), e os objetos ideais (lógica/matemática).            A partir daí, pode-se definir os 2 tipos de idealismo… — o ‘psicológico’ … e o ‘lógico’.

Para este tipo de idealismo, toda a realidade esta na consciência do sujeito sendo assim, as coisas em si não passam de conteúdos provenientes da consciência. A existência das coisas depende da percepção do indivíduo, sendo que ‘deixar de perceber … é deixar de existir’. Seu maior expoente foi George Berkeley (1685-1753) que cunhou a fórmula adequada para tal posicionamento, qual seja: O‘ser das coisas’consiste em serem percebidas“.

Idealismo lógico (ou objetivo)

O idealismo lógico é essencialmente di­verso do psicológico. Enquanto este parte da consciência do ‘sujeito individual’…afirmando que a realidade está contida em sua consciência, e os ‘objetos’ são seus conteúdos — o ‘idealismo lógico‘ toma como ponto de partida a “cons­ciência objetiva“…ao afirmar que objetos são ‘produto do pensamento’ (em oposição ao realismo, para o qual os objetos exteriores estão disponíveis, à revelia do pensar).

Ao objetivar conscientemente (pelo “pensamento”) seu…”objeto de conhecimento” – o ‘idea­lismo lógicose distingue do subjetivismo doidealismo psicológico‘, bem como  se diferencia radicalmente do ‘realis­mo metafísico‘… – que assume um “conteúdo real” do mundo exterior, fora da cons­ciência individual. – Essa ‘forma objetiva’ de idealismo faz parte do conteúdo científico… – por uma soma de ideias…pensamentos…teorias… e juízos.

O idealismo lógico vê o ‘objeto real’ como algo em que somos encarregados                            da tarefa de conhecer sua ‘definição lógica’ … – pelos ‘dados da percepção’,                            para, a seguir … – transformar esses dados … em ‘objeto de conhecimento’.

Como exemplo … para melhor diferenciar as linhas de pensamento… “Ao segurar um pedaço de giz… – Para o realista… o giz existe exteriormente à minha consciência, e independente dela. Para o idealista, subjetivo ou psicológico, o giz existe apenas em minha consciência. Todo o seu ser consiste em ser percebido por mim…Ao idealista lógico, o giz não está nem dentro de mim, nem fora de mim…ele não está disponível       de antemão – mas deve ser construído… e isso acontece através do meu pensamento.      Na medida em que formo o “conceito giz”…meu pensamento constrói o…”objeto giz”; sendo assim… – para o idealista… o giz não é nem uma coisa real, nem um conteúdo consciente, mas sim… – um ‘conceito‘… – que consiste em um… ser lógico-ideal“.

Apesar das divergências dos 2 pontos de vistas… essa diversidade move-se dentro de uma intuição fundamental comum. Trata-se da tese idealista de que o objeto do conhecimento não é algo real, mais ideal. Não contente em formular a tese – o ‘idealismo’ também tenta prová-la. Desse modo, o pensamento de um objeto (“independente do pensar”) não traria qualquer contradição – pois o tornar-se pensado, diz respeito ao con­teúdo; enquanto que o ser independente do pensar… – o ‘não tornar-se pensado‘… – diz respeito ao objeto.

Realismo Críticoe o “feno­menalismo”                                                                            “A realidade existe…objetivamente, de forma                                                            independente…da percepção que temos dela”.

Frente ao idealismo…que pretende fazer do homem um ser totalmente intelectual,            o realismo enfatiza que o homem é um ser que quer… e age. Assim… nossa certeza    acerca do… “mundo exterior” – não se baseia numa simples ‘conclusão lógica’…mas         numa “vivência imediata”… E com isso…o “idealismo”…é superado pela “prática”.

Diogo Rivera

Mural de Diogo Rivera

O realismo crítico parte do pressuposto de que o conhecimento de um objeto se faz…por meio dos sentidos. O que estes captam – é a própria coisa…e não processos fisiológicos. A sensação    é sempre sensação do objeto…específica aos sentidos, e determinada. Ao buscar elementos formadores do sabera razão assim, encontra  experiência e reflexão como seus mananciais.

Tudo o que conhecemos…vem dessas 2 fontes:    a sensação, originada do exterior; e “reflexões” (do interior)… Todo conhecimento provém da experiência obtida dos objetos sensíveis externos – por operações internas dos sentidos.    E então…quando a mente enfim analisa suas próprias operações, ocorre a “percepção“. 

Segundo o realismo crítico, a ‘incognoscibilidade’ das coisas não convêm às próprias coisas, mas surgem apenas em nossa consciência… O feno­menalismo vai mais longe,    ao afirmar que…o mundo no qual eu vivo – é modelado por minha própria consciência;  coincidindo com o ‘realismo’…quando admite coisas reais; e com o ‘idealismo’, quando limita o conhecimento à consciência…(“mundo aparente”)…impossibilitando conhecer      as ‘coisas em si’…Para o fenomenalismo há coisas reais, mas não temos a possibilidade      de conhecê-las a fundo, em sua essência. – Assim…sempre lidamos com as aparências, surgidas da organização a priori da consciência – e nunca com as coisas em si mesmas.

Ou seja…“o mundo no qual eu vivo é modelado por minha consciência”. Jamais poderei saber como é o mundo em si mesmo… à parte de minha consciência, e de suas ‘formas a priori’, pois tão logo tento conhecer ‘as coisas’…já lhes são impostas as formas de minha consciência… – Portanto, o que tenho diante de mim…não é mais a coisa em si, mas sua ‘aparência’. Quando penso no mundo como formado de coisas dotadas de propriedades, quando aplico o conceito de “substância” às aparências – ou o conceito de “causalidade”    a certos processos condicionados, ou ainda quando falo em possibilidade…necessidade, tudo isso se baseia em certas formas e funções a priori do ‘entendimento’… que entram  em ação estimuladas pela interveniência da sensação, independente da minha vontade.

O “Fenomenalismo” de Kant                                                                                            Kant busca compatibilizar o realismo ao idealismo – propondo                                               uma metafísica baseada numa “ordem a priori” da consciência.

Assim como “racionalismo” e “empirismo” estão flagran­temente contrapostos quanto à origem do conhecimento, o ‘realismo‘ contrapõe-se ao ‘idealismo‘…na questão sobre a essência do conhecimento. Para Kant… o racionalismo e o empirismo são concepções insuficientes…para explicar o “saber”… Para Fernando Lang da Silveira, apesar de sua origem “experimental”…há condições a priori para que…”impressões sensíveis”… se tornem “conhecimento“.

OApriorismo de Kant é uma tentativa de superar o embate racionalismo x empirismo. No caso da contraposição entre o realismo e o idealismo foi proposto… – também por Kant, o “Fenomenalismo” – não tratando as coisas como são em si… mas como se nos apresentam (fenômenos); seguindo assim o realismo na aceitação de coisas reais; e o idealismo na limitação do conhecimento à realidade consciente (“mundo aparente“)Em relação a conhecer a “essência das coisas“…ou, falando como Kant, a “coisa-em-si“… a esse respeito…as concepções aristotélica e kantiana… são totalmente opostas:

A doutrina do “fenomenalismo” – em Kant – resume-se a 3 hipóteses:

  1. – A coisa em si é incognoscível;
  2. – O nosso conhecimento continua a ser limitado ao “mundo fenomênico“;
  3. – Este surge em nossa consciênciapois ordenamos e elaboramos o material                     sensível – em relação às…”formas a priori“…da intuição e do entendimento.

Enquanto que, para Kant, a “consciência cognoscente” cria a ordenação…as “sensações” apresentam um puro Caos. Elas não possuem qualquer ordenação. Toda ordenação vem   da consciência. Pensar, para Kant, não significa outra coisa senão ordenar. Essa posição, porém é insustentável… – Se o material sensível fosse totalmente indeterminado…como ordená-lo?…Seja como for, o fato é que com isso, o ‘princípio da incognoscibilidade’ das coisas foi quebrado…por se tratar de um problema que escapa a uma solução categórica,    totalmente segura, por parte de um pensamento…no limite de sua capacidade cognitiva.

Já para Aristóteles – A “consciência cognoscente” imprime uma ordem objetiva nas coisas do cosmos exterior; assim, o conhecimento é concebido, como   uma forma objetiva…numa concepção influenciada pela estrutura de espírito peculiar do mundo grego.  O conhecimento é tido como reprodução do objeto, numa simulação da realidade… que, de certo modo se dispõe: 1º) fora da consciência…(objetivamente)  e 2º) na “consciência cognitiva”…(subjetivamente).

Essa concepção possui a peculiar característica de supor                                que a realidade possui uma ‘estrutura racional própria’.

Intuicionismo (‘transcendente’)                                                                                        Também é numa intuição que se baseiam os juízos que temos nas                                        “leis lógicas do pensamento”. Dessa forma, no princípio e no final                                          de nosso conhe­cimento… – existe uma… “apreensão intuitiva“. 

Ao nos posicionarmos “criticamente“, no debate entre ‘realismo’ e ‘idealismo’…podemos concluir que ambas as proposições… buscam expressar o mesmo princípio… — a saber… que pos­suímos uma “certeza imediata” sobre a existência do próprio eu… – na qual uma parte se origina no processo do ‘pensar‘…e a outra, do ‘querer‘. Esta concepção… com forte associação à estrutura do ‘espírito grego’…concebe o “conhecimento humano”… de uma forma objetiva, como se a partir de um espelhamento do ‘cos­mos exterior‘… Assim,     a realidade se põe duplamente disponí­vel – objetivamente, fora da consciência… em um Cosmos (infinito)… – e subjetivamente… – por uma efêmera consciência cognitiva.

Reconhecer ou não a validade de um “conhecimento intuitivo”, ao lado do racional e discursivo – vai de­pender, sobretudo do “modo de se pensar” a respeito da essência humana. Quem desloca o centro de gravidade do ser mais para o lado do sentimento e da vontade, se inclinará, de antemão, a reconhecer, ao lado do tipo racional-discursivo de conhecimento… outro tipo mágico de apreen­são do objeto.

E estará convencido de que… – ao caráter multifacetado da realidade, corresponde também uma multipli­cidade de funções do conhecimento.

Encontramos no ‘co­gito, ergo sum’ de Descartes o reconhecimento da intui­ção enquanto forma autônoma de conhecimento … pois a “proposição cartesiana” não envolve nenhuma inferência, mas uma ‘intuição imediata’ de si… Deparamos ainda com um reconhecimento da ‘intui­ção‘ como fonte autônoma de conhecimento em Pascal, que com a sentença… O coração tem razões, que a própria razão desconhece”, põe ao lado do… conhecimento inte­lectual, um “conhecimento emocional”. Em Espinosa e Leibniz, ao contrário, a intuição não desempenha qualquer ‘papel especial’ na estrutura geral da “teoria do conhe­cimento”.  A exemplo do que ocorre no intelectualismo da Idade Média…e no racionalismo moderno, para Kant só há “conhecimento racional-discursivo”… – Nossos juízos éticos de valor…(o “sentido estético”…e o “sentido moral”)…ensina ele – não se baseiam na reflexão…mas na intuição. Já Husserl reconhece uma…”intuição ra­cional”, como de essência… enquanto Scheler assu­me, ao lado desta, uma “intuição emocional” – no conhecimento de valores.

Toda grande obra religiosa, filosófica, artística…por sua peculiaridade, prova que funções da consciência totalmen­te diversas da sensação e do pensamento partici­param em sua gênese… — Essas ‘forças irracionais’ formam um campo indispensável ao conhecimento do ‘mundo exterior’.

Enquanto para seres que sentem e querem…a intuição é um verdadeiro órgão de saber histórico; pela ‘meta­física racional’ chegamos ao fundamento absoluto do mundo. No campo teórico a intuição não pode reclamar o direito de ser um meio de conhecimento autônomo, em­parelhado ao conhecimento racional-discursivo… – Coisa muito diversa, porém…é a pergunta sobre a validade da ‘lógica intuitiva’. O opo­sitor do intuicionismo      está certo ao fazer essa exigência. — Ao fazer “teoria do conhecimento”, deve­mos dar à razão a última palavraToda intuição aqui legitima-seperante o “tribunal da razão”.

Ao passarmos aos valores do campo estéti­co‘, a intuição gera menos polêmica. Valores   es­téticos não podem ser apreendidos discursivamente por meio do entendimento… mas, apenas intuitivamente – por meio do sentimento… – As coisas já não são tão simples no terreno da ética‘. Enquanto que a ‘metafí­sica‘, em última análise, ocupa-se apenas do “absoluto racional“… – como ‘fundamento explicativo do mun­do. (texto base)

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Breve panorama da prática filosófica no Brasil

“Em pleno século 21… países colonizados como o Brasil vêem-se diante          do dilema… em optar entre o artificialismo de uma cultura cerrada no passado…e o funcionalismo de uma cultura desvinculada da tradição”. 

Antes de mais nada – partimos do pressuposto de que não existe, em filosofia – ‘originalidade total’…os pensadores emergem… da mesma tradição filosófica ocidental pensando problemas específicos… próprios da sua época, e seu meio.  A ‘originalidade filosófica‘ … deve ser procurada aí — nas peculiares condições histórico-culturais que, influenciam a forma com que cada pensador reflete suas ideias, condicionado ele próprio por fatores subjetivos inerentes a todo ato humano… – É justamente por essa razão…que tratar sobre este tema é sempre algo problemático… – E, o 1º desses problemas que logo enfrentamos se refere ao critério do que é, ou não filosofia. Como separar o joio do trigo?

Depois, nos perguntamos se ‘originalidade‘ é o único critério válido, ou exige-se também profundidade nos temas…além de uma enorme erudição… – ou mesmo, se a… “chave da questão”… não estaria na “enunciação de um novo problema”, ou na solução definitiva, e racional de alguns daqueles “insondáveis problemas clássicos“. – Todas estas perguntas precisam ser feitas…para que a filosofia, quando do diálogo com a tradição, se ocupe dos problemas atuais…lançando, por essa maneira, as bases para um futuro mais consciente.

jorge jaimeA filosofia no Brasil

No Brasil… muitos já se lançaram a essa tarefa, e colaboraram com respostas à velha questão…“Quem somos nós?”… e assim contribuíram para uma “cultura brasileira” mais consciente, e preparada. Jorge Jaime em seu História da Filosofia no Brasil  comenta que – a rigor… a filosofia no Brasil começa já na fase colonial, com a instituição do ‘governo-geral’…em 1549… e…o desembarque da “missão jesuítica” no país… — dando início à construção dos alicerces fundamentais que viriam a moldar o desenvolvimento cultural da adolescente sociedade brasileira.

Contudo, a história da Filosofia no Brasil ainda é das mais obscuras, à espera de uma justa  sistematização. Não por acaso, em suas bases repousa a caricatura pueril do medievalismo mais retrógrado e residual… – daquele Portugal… que a partir do século XVI… até a época do Marquês de Pombal… – havia assimilado o lado mais reacionário da “Contra-Reforma” (nossa ‘herança maldita’), desprezando o que o Iluminismo renascentista tinha a oferecer.

Não por acaso…com a emancipação política do Brasil, fomos invadidos pela                      cultura modernizada francesa…sem a menor condição de assimilá-la. – Em                        terras brasileiras …expressões de alta cultura no Brasil… – como filosofia…                        tornaram-se, ao longo da história – um enredo mal digerido de influências.

A ‘fase colonial’ é marcada pelas influências da tradição filosófica e cultural portuguesa,     no esforço de civilizar uma “terra virgem e antropofágica“. Na ‘fase imperial’ a grande influência será o “positivismode Comte… – inspirador da nossa ‘Republica’… no lema “Ordem e Progresso”, como também o surgimento da escola de Recife; e a presença de pensadores do quilate de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José Bonifácio… — e outros…        Daí em diante, a partir da ‘fase republicana’ o Brasil entra na onda desenvolvimentista, absorvendo correntes… – que vão desde o marxismo… ao neoliberalismo.  (texto base)  *********************************************************************************

a 1ª missa-brasil.pngNossas origens jesuísticas

A Filosofia no Brasil não é um assunto muito falado fora dos círculos acadêmicos, e muitas vezes, nem dentro. Quando se fala em Filosofia se lembra de Sócrates, Kant, Nietzsche, Platão e Sartre; mas nunca    se fala em ‘filósofo brasileiro’.

Não creio que isso se dê por preconceito – ou por filósofos Brasileiros não exibirem trabalhos relevantes. O que acontece é que a Filosofia predominantemente, sempre          foi europeia – e, salvo os EUA – raros foram, além daqueles…os países do Ocidente        que tiveram grandes “filósofos universais”… – O que não significa que…os filósofos brasileiros, ou a história da filosofia no Brasil, esteja em um nível a ser desprezado.  Estudar Filosofia é sempre, de certa forma, estudar história, e estudar a história da filosofia no Brasil abre caminho a muitas percepções…que nos permitem entender            os rumos que o país tomou… – da época do “Descobrimento” … até os dias de hoje.

Portanto, com a Filosofia assim…tão intimamente ligada à história,              para entendermos suas origens, aqui no território brasileiro…antes              de mais nada precisamos conhecer o contexto de sua própria época.

No final do século XV…a Europa estava passando por grandes mudanças, que incluíam principalmente o ‘movimento Renascentista’, ‘Reforma Protestante’ e ‘Contra-reforma’.     A ‘Reforma Protestante’ foi um movimento liderado por Martinho Lutero que ia contra       o domínio do Catolicismo, ao criticar a hipocrisia dos líderes da Igreja na época. – Já a ‘Contra-reforma’ foi uma espécie de resposta da Igreja, tentando retomar o controle da situação – que, no entanto acabou não sendo muito bem sucedida, uma vez que outros fatores históricos contribuíam para uma sociedade mais desvinculada do ‘Catolicismo’.

Porém, enquanto o Renascimento ia deixando para trás a visão medieval, Portugal resistia à mudança, e foi lá onde a Igreja Católica encontrou um forte aliado da Contrarreforma. O monopólio do pensamento pela Igreja foi tamanho…que a partir de 1564 os professores de Filosofia foram obrigados a jurar obediência à fé católica. – A ação fiscalizadora do Santo Ofício, a catequese da Companhia de Jesus…e a ‘vigilância do Paço’ fixaram balizas ao ambiente do pensamento… reduzindo a liberdade… instituindo a censura… aumentando a intolerância, controlando e mutilando o conteúdo de livros…limitando o desenvolvimento filosófico e científico; e impondo o obscurantismo. – Em outras palavras, Portugal nadava contra a corrente das mudanças – tentando desse modo…manter seu ‘status quo’ colonial.

filosofia brasil 2

É neste ponto que o Brasil entra em cena…  —  nesse quadro econômico, político, religioso e cultural no qual se deram ‘descoberta’, ‘colonização’, e…desembarque inicial dos jesuítas no Brasil… – além dos aventureiros que vieram para cá a partir de 1500, chegaram também, em 1549, com o governador Tomé de Souza…os 1ºs religiosos da ‘Companhia de Jesus’.

A ideia da Igreja era não só combater a Reforma Protestante, mas conseguir converter outras nações ao redor do mundo ao Catolicismo – para ajudar na retomada do poder. Através da educação… buscavam a conversão dos indígenas à fé católica… e fundavam colégios que tiveram papéis relevantes… – na formação sacerdotal, na estruturação da educação formal e pública brasileira, no ensino das artes, literatura, ciência… religião,      na difusão da ideologia dominante… – e também… – nos rumos da filosofia no Brasil.

Note-se então, que a Filosofia aqui não começou como uma forma de livre pensamento – pelo contrário…atrelada à fé católica, o ensino jesuíta era feito aos moldes da “escolástica tomista”, com o básico objetivo de converter os nativos daqui ao catolicismo. (texto base***********************************************************************************

As “Reformas Pombalinas”                                                                                                  Fim da escravidão indígena; Fim das Missões; Índios como povo brasileiro;                    Expulsão dos Jesuítas; Extinção das Capitanias Hereditárias; Instituição da                    Derrama (1.500 Kg anuais); e Abolição da perseguição aos “Cristãos novos”.

As chamadas … “reformas pombalinas”, ocorridas em Portugal (1750/1777), por extensão… afetaram também o Brasil…  culminando na “expulsão dos Jesuítas”, e na tentativa de instituir nova visão de mundo (enquanto a difusão na Europa do ‘Iluminismo’, deixava Portugal para trás). – Assim, dissociada do ‘tomismo aristotélico’ proposto pelo catolicismo,  embora não o substituindo de todo, se  introduziu na colônia uma outra linha filosófica, gerando um período de alta turbulência social, e cultural no Brasil.

Durante a segunda metade do século XVIII, a ‘Coroa Portuguesa’ sofreu a influência dos “princípios iluministas”…com a chegada de Sebastião José de Carvalho ao ministério do governo de Dom José I. Mais conhecido como Marquês de Pombal, se preocupou em modernizar a administração pública do país lusitano — ampliando ao máximo os lucros provenientes da exploração colonial… — principalmente em relação à colônia brasileira.  Este objetivo, porém…encontrava obstáculos nos Jesuítas, que ao catequizar os índios    na colônia (logo conhecida como Brasil) eram profundamente contrários ao objetivo do governo português em usar a mão de obra indígena, com base na falta de escravos, que      os colonos daqui, a princípio sofriam. Nessa ‘queda de braço’, os Jesuítas chegaram até      a apoiar os indígenas nativos…contra os colonos portugueses…estabelecendo-se então,  um conflito tamanho, que só foi resolvido…ao serem removidos os Jesuítas da equação.

E foi isso o que fez Marquês de Pombal; expulsou os Jesuítas da          colônia, e impôs uma reforma educacional…que abriu caminho                para a Filosofia moderna… além de muitos outros problemas…

Marquês de Pombal queria modernizar a sociedade portuguesa… e sua ideia de modernização incluía – superar a visão ‘tomista-aristotélica’ da Igreja Católica,              para implantar aí… as ideias dos novos pensadores – que colocavam a “razão”              como o ‘princípio básico’ a ser seguido. Em outras palavras, a ‘visão iluminista’                  era a visão do progresso… – a visão que garantiria uma evolução econômica, e              riquezas sem igual à “Coroa Lusitana” (ou ao menos… assim pensava Pombal).

A mudança se consolidou no governo, e posteriormente na sociedade, com a instituição de uma reforma educacional mais voltada para uma visão “científico-naturalista”…Isso se fez com a reforma na ‘Universidade de Coimbra’, que incluiu o ensino das “ciências naturais”. Nessa nova visão de progresso…os jesuítas eram um obstáculo…e por isso foram expulsos por Pombal, o que teve reflexos diretos na colônia brasileira. – As universidades e escolas, predominantemente religiosas, foram fechadas quase que imediatamente…sendo criadas no lugar delas as ‘aulas-régias‘ (aulas de disciplinas isoladas)… – e, por consequência… ‘universidades‘ – que, normalmente… – tinham o ensino de…”Filosofia“…como base.

Porém, ao contrário do que se poderia imaginar… o “ideal iluminista” não se sobrepôs — nem substituiu a visão da ‘Igreja Católica’, pois a religião seguiu  influenciando bastante … a sociedade portuguesa. – Como consequência…a Filosofia trazida ao Brasil em seguida à expulsão dos Jesuítas…não foi uma filosofia puramente iluminista, e sim, uma mescla com os ideais católicos… uma vez que, apesar da ausência dos Jesuítas no Ensino, e uma pedagogia mais voltada às ciências naturais … a educação portuguesa ainda era profundamente influenciada pela Igreja — que não deixou de exercer seu poder dentro do governo Português – inclusive nomeando…”mestres” para ministrar asaulas-régias“. Neste período, a Filosofia no Brasil se tornou sinônimo de ciência, com a base da formação acadêmica constituída das “ciências naturais“… tendo por objetivo a transformação da…”classe sacerdotal”… – em…”agentes da modernização”.

A Filosofia perdia assim um caráter puramente abstrato, metafísico e moral, para assumir como princípio a atuação prática. Mas é importante ressaltar que as reformas pombalinas,  resultando em uma completa destruição do modelo de ensino Jesuíta (catequizador…mas bastante eficiente) trazem como consequência à colônia um ensino fragmentado…carente de métodos definidos. – Dessa forma… diferente do resto da Europa, a Filosofia no Brasil acabou se tornando…”bipolar” – por um lado, ainda tinha muita influência da fé religiosa, e por outro, tinha nas ciências naturais a confiança de um futuro brilhante. Tal fenômeno criou raízes profundas na sociedade…com ecos no sistema educacional brasileiro até hoje.

Silvestre Pinheiro Ferreira, filósofo e político português, que acompanhou a família real na vinda ao Brasil, foi quem introduziu o empirismo no país…inaugurando um movimento de reação “antiescolástica”, reinterpretando Aristóteles com base no empirismo. Mas, mesmo com a introdução do ‘Iluminismo’, faltava ao pensamento filosófico brasileiro aquela que é a base do ideal libertário. Algo que só ocorreria com a vinda do Positivismo. (texto base)

O Positivismo chega ao Brasil                                                                                               A influência do positivismo no Brasil consolida a estruturação da 1ª corrente filosófica brasileira, numa época em que o país lutava para, mantendo suas tradições, se alinhar ao espírito da época – na possibilidade de consolidar um pensamento realmente livre”.

PositivismoO século XIX trouxe para o Brasil…o ‘Positivismo’  —  visão elaborada por Augusto Comte. O mais interessante dessa visão…é considerar as ciências naturais e a razão  —  não como uma força que leva a sociedade adiante, e sim…”instrumento” para a mudança social…Comte pensava que a ciência só tinha valor…para a construção de uma sociedade… mais desenvolvida. 

Como consequência, para o pensamento brasileiro… pela 1ª vez, podíamos enxergar uma filosofia que não fosse fundamentado num…“conhecimento acabado” – para ser repetido pelas próximas gerações. Nem a filosofia Jesuíta (metafísica e abstrata) … nem a filosofia (tecnicista) da ‘Reforma Pombalina’ proporcionavam um ‘pensamento independente’, ou uma visão de mudança social. – Com o “positivismo”… os pensadores brasileiros viram a oportunidade de se livrar do ‘ensino eclesiástico’… e serem donos de suas próprias ideias.

O professor de matemática e positivista Benjamin Constant achava que o ensino primário deveria, além de formar para as escolas superiores, também ser um preparador; com isso, decretou uma reforma, que consistia na gratuidade, liberdade, e laicidade do ensino. Mas, no fim das contas a reforma fracassou…e de concreto, só se adicionou o ‘ensino científico’ às disciplinas tradicionais…mantendo-se a… “esquizofrenia” – de uma ‘estrutura bipolar’.

O Ecletismo Espiritualista                                                                                                      O objetivo básico dos pensadores era conciliar o que consideravam verdadeiro                  em todos os sistemas… tomados como manifestações parciais de uma verdade              única e ampla – em que tudo o que não era contraditório entre si … era válido.

Mas, não era só de Positivismo que vivia a filosofia brasileira da época…A mescla que já ocorria entre uma filosofia metafísica…e aquela com viés iluminista, acabou dividindo a filosofia brasileira em 2 correntes principais…uma “Positivista”…e outra “Espiritualista”.  O ‘ecletismo espiritualista’ foi a 1ª corrente filosófica rigorosamente estruturada do país.  O processo de formação da corrente eclética abrange aproximadamente o período entre 1833 a 1848. Esta corrente…fundada por Salustiano Pedrosa e Gonçalves de Magalhães,    a partir do ecletismo francês, visava superar a dicotomia ‘religião/ciência’ da época, por meio de uma convergência entre as correntes do…’naturalismo‘…e ‘espiritualismo‘.

Os principais temas desta corrente filosófica eram consciência e liberdade… assuntos deixados de lado pelos empiristas durante o século 19. A filosofia de Victor Cousin, que inspirou a fundação dessa ‘filosofia’ – foi quase sempre combatida como superficial em outros países; mas no Brasil e em Cuba foi recebida com grande entusiasmo. (texto base***********************************************************************************

A Filosofia brasileira no século XX                                                                                      A partir do século 20, com o advento da República, transformações profundas criam        um novo país… – o que leva…mais uma vez… a ‘Filosofia brasileira’ a se transformar.

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Com a ‘queda do império’… e com a instauração da República…em 1889, a busca por uma sociedade racional, tornou-se ‘meta prioritária’ da ‘elite intelectual’ no Brasil. O surgimento de novos centros urbanos… – polos industriais… traz um forte processo de desarmonia entre campo/cidade.

E a Filosofia prossegue… — de uma forma diferente de seus primórdios, mas, ainda repleta de muitos vícios.

No ano de 1908, em São Paulo, foi fundada a “Faculdade de Filosofia e Letras São Bento“, com uma ‘orientação’ puramente “neotomista“. Nesse período também surgiram novos livros de ensino da filosofia, quase todos com orientação católica. A partir de 1914, com a 1ª Grande Guerra, acentuou-se um inédito sentimento patriótico…É nesse momento que outras modalidades do pensamento europeu, então já representados no Brasil, começam    a concorrer mais seriamente … com a até então relevante “filosofia positivista” de Comte.

Mas é a Sociologia que, aos poucos, toma conta do meio cultural. Começam a surgir obras com preocupações sociológicas. – O Brasil se descobre como um país cuja inteligência funciona melhor…resolvendo problemas práticos.

Outra contribuição importante foi a formulação do ‘método culturalista‘ na abordagem dos autores, ou seja…antes de identificá-los como membros de uma determinada corrente, era necessário saber qual a problemática que os preocupava… – a fim de construir a trilha seguida por seu pensamento. Isso permitiu ao pensamento brasileiro compreender-se a si mesmo, superando o vício da “Filosofia Apologética”, que apenas promovia o pensamento de outros filósofos…sem a capacidade de produzir o seu próprio conhecimento…e cultura.

Estado+Novo+e+as+Leis+orgânicas+do+ensino

A partir do ano de 1930, houve mais 2 reformas que mudaram a educação do Ensino Médio brasileiro. A primeira se deu em 1931…e determinava que a educação visasse não apenas à matrícula ao ‘nível superior’… mas também à formação para todos os setores profissionais.  A 2ª reforma…que aconteceu em 1942, foi a Lei Orgânica do Ensino Secundário que  dividiu o ensino básico em 2 ciclos: o ‘ginasial‘, cursado em 4 anos e o ‘colegial‘…em 3. O colegial ainda subdividia-se em científico e clássico. – O científico visava ao ensino das ciências; já o clássico previa uma carga horária de 4 horas semanais para “Filosofia”.

No ano de 1961, um marco de grande valia foi a edição da  Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, resultado de inúmeros debates e lutas ideológicas entre políticos e educadores da época. – A Filosofia foi sugerida como disciplina complementar, perdendo assim, a sua…”obrigatoriedade curricular” – na grade do “sistema federal de ensino”.

“Ditadura Militar”: A época perdida da Filosofia no Brasil

ditaduraNo ano de 1964…os militares tomaram o poder para prevenir a (suposta) ameaça comunista, e o que era para ser um intervenção – acabou se consolidando em uma ditadura … que, por não combinar com pensamento livre fez com que a base da Filosofia fosse banida dos currículos… tornando-se inicialmente facultativa. Algumas disciplinas de ‘ciências humanas’… — também sofreram restrições. – A educação assim, se voltava ao serviço dos ‘interesses econômicos’.

A “expansão econômica”, impulsionada pela chegada do capital estrangeiro, e acobertada pelas beneficies da proteção do ‘governo militar’ contribuíram para a extinção da filosofia do currículo das escolas… A educação da época acabou exercendo um papel ‘ideológico‘, pois foram impostos “valores culturais estrangeiros”… – como modelos a serem seguidos na educação brasileira. O modelo educacional se tornava “tecnicista“, e “burocrático“.

O intuito do governo era formar pessoas que executassem automaticamente ideias de fora, e não pessoas conscientes e críticas. – A Educação passou a ser tratada então … como uma questão desenvolvimentista, de segurança nacional. A Filosofia… assim considerada como ‘desnecessária’ às novas diretrizes do sistema…aos poucos foi desaparecendo. Até que, em 1968, o regime militar tornou-se mais rígido, com professores cassados e perseguidos por “pensamentos políticos”…além de inúmeras outras arbitrariedades… – contra estudantes,  e instituições de todo tipo. – E, em 1971…a Filosofia é banida por completo dos currículos.

Lei+de+Diretrizes+e+Bases+(1971)

A reforma de 1971, conseguiu conduzir o ensino público de “nível médio” – a uma profunda ‘crise de identidade’… – que se prolonga até hoje…pouco profissionaliza, não prepara ao ingresso na universidade, e não possibilita uma ‘formação humana e social’ integrada ao aluno…Pela ‘Lei de Diretrizes e Bases’…imposta por decreto, o ensino de “Filosofia” ficou ‘facultativo’, substituído por… ‘doutrinas ideológicas’, tais como… “Moral e cívica”… e, “OSPB”.

A Filosofia assim, rejeitava a formação do espírito crítico, assumindo o papel de geradora de ‘status social’ de ideias pré-fabricadascom uma função meramente ideológica. – Sua condição política constituía-se em acrítica e ornamental…com uma teoria muito longe da prática, repetindo… “doutrinas obscuras”… Esta “fase perdida” da Filosofia no Brasil, iria durar até o fim do regime militar; com a matéria Filosofia só voltando a ter sua inclusão recomendada nos currículos, em 1986…após a volta do governo democrático. (texto base)

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Um novo Brasil… (começa do Zero…)

Com a abertura política (reflexo da anistia) no Brasil…tudo o que se passou (durante e antes do regime militar) ficou para trás… e foi aí que o país recomeçou… Dentro dessa “perspectiva“…podemos dizer que o Brasil hoje, ainda está aprendendo a andar…com suas próprias pernas … com o intercâmbio normalizado, e o pensamento moderno de volta ao “cenário contemporâneo” do país.

O advento de tecnologias como computadores…e internet, com suas “redes sociais“, muito têm contribuído para transformar a ‘cara’ do Brasil. – E aí uma nova produção filosófica se destaca… por ser mais que a continuação do que antes havia sido interrompido – ela surge com características novas, se mesclando às disciplinas de ciências humanas, se envolvendo no contexto social e político… – iniciando, aos poucos … a proposição de uma – verdadeira “filosofia intelectual” (sem ser demasiado abstrata)… – e “popular” (sem ser reducionista).

A Cultura Filosófica atual no Brasil

A cultura filosófica brasileira, assim como a cultura do país como um todo, está bastante diversificada – inserindo-se aí alguns pensadores… com resistência à tradição metafísica clássica, na perspectiva de compreender a realidade. – Destes… destacam-se pensadores com expressões teóricas ‘neotomistas‘… Outro grupo de significativa expressão seriam os filósofos ‘analíticos‘, que buscam a compreensão da realidade além do positivismo.  Numa 3ª vertente estão os autores de natureza ‘epistemológica‘ ocupados em discutir    a própria especificidade do ‘conhecimento científico’ … não só em seus aspectos formais, mas também suas condições objetivas…Nesta vertente (“neopositivista”) estão Leônidas Hegenberg, Miltom Vargas, Oswaldo Porchat, Luís Peluso, Michel Ghins, Zeliko Loparic.

A vertente transpositivista reconhece a autonomia e a relevância da ciência…sem no entanto, isolá-la das outras atividades humanas. Nesse contexto, a filosofia da ciência por não ater-se apenas às… “condições lógico-formais” do conhecimento… em virtude da sua inserção histórico-social na própria ciência, implica também “condições axiológicas“. É a linha do “racionalismo científico” de Gaston Bachelard, Thomas Kuhn… e Piaget.

Entre pensadores brasileiros cujas atividades vão por esse viés estão       Hilton Japiassu, Constança Marcondes César…Marly Bulcão Brito…   Elyana Barbosa, John Pessoa Mendonça, e Luis Carlos Bombassaro.

um-sentido-para-a-vidaOutra importante vertenteque, por aqui abrange grande número de pensadores é a ‘neo-humanista’ que tem em Cláudio de Lima Vaz seu representante maior… — Ele atribui a ‘tarefa antropológica’ como papel filosófico fundamental, e transita por toda tradição filosófica… – desenvolvendo uma nova visão da ‘existência humana’…no seu contexto histórico real, com grande ênfase na ‘antropologia’… – e “direitos humanos”.

Outros importantes pensadores brasileiros… do existencialismo neoliberal ao marxismo, são José Guilherme Merquior, Luiz Felipe Pondé, Mangabeira Unger, Sérgio P. Rouanet, Bento Prado Júnior, Paulo Freire…Leandro Konder…Marilena Chauí…José A. Giannotti, Carlos Nelson Coutinho, Aluísio Ruedell… e Alino Lorenzon. Além desses, recentemente criou-se um grupo de pesquisadores em torno de uma reflexão ética a partir da “filosofia dialógica” de Martin Buber & Emmanuel Levinas; são eles Ricardo de Souza, Luiz Carlos Susin, Pergentino Pivatto, e Antonio Sidekum.

pensadorNão esquecendo também do grupo de pensadores ligados à ‘fenomenologia‘, com um significativo número de pensadores se desdobrando em várias correntes… Uma com inspiranção em Merleau–  Ponty…e outra sob a forte ‘influência existencial’ de Sartre Heidegger… esta representada por Ernildo Stein… Dulce Critelli… Gerd Bornheim… Emmanuel Carneiro Leão, e…Luiz Carlos Maciel.

Um outro grupo de filósofos – de uma corrente chamada…’arqueogenealogia‘…tem como autor fundamental Rubem Alves. Nesse grupo estão concentrados pensadores  com influências psicossociais de Foucault — e referências axiológicas de Nietzsche.

Por fim, mas não menos importante…existe o grupo de Leonardo Boff, que criou o IFIL, Instituto de Filosofia da Libertação, ocupando-se com os estudos da filosofia na ‘América Latina’, incluindo as temáticas da… “mitologia indígena”…cultura ‘afro-latino-americana’, ética, cidadania, e “multiculturalismo”. – Ainda além de todas essas correntes citadas… é importante também destacar o grande trabalho de divulgação via internet dos abnegados pensadores…Viviane Mosé, Márcia Tiburi, Mario Cortella, e Leandro Karnal. (texto base) ******************************(texto complementar)*********************************

A busca por uma FILOSOFIA BRASILEIRA (Hugo Allan Matos)                         Falar de uma filosofia brasileira é pensar numa filosofia autêntica, voltada para a vida’.cobrasAntes de abordar o tema filosofia brasileira…penso ser primordial dizer o que penso ser a filosofia. Filosofia, ao meu ver é uma forma de vida, de existência, que tem por meio o conhecimento (teórico), e finalidade…a prática cotidiana. Ou seja, filosofia é um modo de existência que tem por mediação o conhecimento histórico atual, teórico e prático, com o único fim de transformar a realidade; visando a reprodução da vida, e denúncia da morte.

Sendo viver a vida, a finalidade última de todo ser…’O Ser humano é ser para a existência… – Isso pode parecer óbvio… mas tratar do óbvio, parece ser uma das funções da filosofia… – Todavia, a filosofia é universal, indo do particular ao geral.         E, se o particular é em âmbito local – sempre partindo da ‘experiência concreta’ do filósofo… o universal último da filosofia tem como fim a vida, em oposição à morte.

Dada a definição de filosofia como meio de transformação social…historicamente… não se conhece um só filósofo ileso em seu pensar, que não tenha sofrido criticas, perseguições, e muitas vezes vitimado por sua própria filosofia… Quanto mais fora do ‘sistema vigente’…e contraditórias suas afirmações … maior parece ser sua “recompensa filosófica”... Sócrates bebeu cicuta, Cristo foi crucificado, muitos medievais morreram pela ‘Inquisição’…alguns modernos com privações sociais/mentais — e ainda hoje a liberdade de pensar é perigosa.  E o que faziam os clássicos Sócrates, Platão, Aristóteles e todos os que vieram antes deles, inclusive os egípcios, mesopotâmios, passando pelo mundo medieval e modernidade? E o que tem feito a “filosofia autêntica”… se não utilizar o conhecimento ‘teórico-prático’ para transformar para melhor a sociedade? Melhor qualidade de vida, nas relações individuais, melhor interação como sujeitos…de si, entre si…compartilhando a natureza e a sociedade.

filosofiaPenso que uma filosofia autenticamente brasileira…deve ser antes de tudo ética, dando conta de 2 momentos: negativo, e positivo. Negativo, enquanto negação da identidade eurocêntrica… imposta a nós numa assimilada filosofia brasileira pré-histórica. E positiva… como propositora  de caminhos que reproduzam em multi- dimensões…uma vida mais digna. Desta forma…o diálogo com a “euro-tradição”, séculos a frente, será bem mais positivo.

Contudo – no momento atual da filosofia brasileira … esta pré-história pouco                      tem a contribuir – pois se a Europa se constituiu como Opressor… a partir da                      negação do Oprimido, nós seguimos sendo este oprimido, aniquilado por eles.

Portanto…agora que estamos conseguindo, ao menos gritar que somos tanto quanto eles, não podemos ignorar nossa constituição e “querer dar o troco”, simplesmente ignorando-os; pois repetiríamos o erro ontológico que eles cometeram. Ao contrário, podemos dizer-lhes…vocês erraram, e nós poderemos errar em outras coisas, mas não nisso. Permitindo assim, a “alteridade” em nossa filosofia… — Nesse sentido… acredito que o diálogo com a tradição filosófica eurocêntrica de forma ética, seria reconhecer os avanços positivos que houveram, e tentar avançar a partir deles na resolução de nossos problemas. (texto base)

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A permanência do ‘método histórico’ em Spinoza

 “As coisas nos parecem absurdas quando delas só temos um conhecimento parcial; pois somos ignorantes da ordem e coerência da natureza… como um todo”. (Baruch Spinoza)

Francisco Alcântara Nogueira nasceu em Iguatu – Ceará, no dia 15 de abril de 1918…e faleceu em Fortaleza, a 26 de março de 1989. – Numa época em que educação era um privilégio … foi, em 1935 ao Rio de Janeiro… concluir sua educação superior… onde logrou bacharelar-se em Direito… na antiga ‘Faculdade Nacional do Brasil’…hoje UFRJ… – na Praia Vermelha… Urca.  Adepto do “racionalismo crítico“, encarnou a figura do livre-pensador, rumo à verdade, em sua vida & obra.

Alcântara Nogueira viveu no Rio de Janeiro por cerca de 20 anos, onde conheceu o ilustre conterrâneo Clóvis Beviláqua, de quem se tornou grande amigo… Retornando a Fortaleza, em 1963 – ingressou como professor na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), e na Faculdade de Filosofia do Ceará (hoje “Centro de Humanidades”)…Até sua morte, em 1989, publicou, entre vários artigos e livros… “Opúsculo de Filosofia”, com dissertações sobre o pensamento de Spinoza… “Spinoza e Descartes”… “Das paixões, e da moral segundo Spinoza”, “Deus na concepção de Spinoza”, “Tratado de filosofia racional”, “O método racionalista-histórico em Spinoza” – na edição comemorativa… dos 300 anos de morte de Spinoza…e “Poder e Humanismo”, relacionando Spinoza, Feuerbach e Marx.

Antes de falecer, em 26 de março de 1989, Alcântara Nogueira comunicou através de    um bilhete, que tinha enviado para a Editora Forense no Rio de Janeiro o original do  seu (último) livro… – “Direito…origem e evolução” – prefaciado…pelo grande jurista cearense Paulo Bonavides… – Infelizmente, até hoje (2011)…o livro não foi publicado. 

albert_einstein_fraseSobre suas ideias – desde seus primeiros anos de juventude — Alcântara Nogueira tentou estruturar seu pensamento — por meio do estudo das… “ciências naturais”. Influenciaram seu ‘pensamento’ … desde Lamarck, Darwin, Mendel, Huxley — até influências outras… — como Farias Brito (filósofo cearense)… e, os pré-socráticos, como Parmênides, Heráclito, Demócrito, além do revolucionário Giordano Bruno,      e do mestre Spinoza, seu grande mentor.

A influência decisiva de Spinoza, veio no seu tratado de filosofia racional…“O Universo”. Após a sua elaboração…as ideias do filósofo cearense começaram a ser atraídas por uma visão política da realidade. A Metafísica de Spinoza servia de ‘arcabouço’ a novas ideias, que procuravam levar o Homem para um caminho de libertação…não apenas mental ou intelectual, mas também social…conduzindo-o a uma posição contrária à exploração do homem pelo homem. – Daí, dirige-se então ao “socialismo“…mas rejeitando o chamado comunismo ortodoxo stalinista – com sua ditadura partidária…e, culto à personalidade.  Para isto, cita uma passagem de Marx em apoio a sua opinião, cujo artigo, publicado na “Revista Comunista”, em setembro de 1874… quando já havia se afastado de Feuerbach, foi descoberto… – e reeditado por Karl Grünberg em 1921… – O artigo começava assim:

“Nós outros não somos comunistas que renegam a liberdade pessoal e querem fazer do mundo um grande quartel de trabalhos forçados… É certo que existem comunistas que renegam a liberdade pessoal… — porque consideram que esta obstaculiza a harmonia; entretanto, nós outros não desejamos conquistar a igualdade a expensas da liberdade”.

Isto significa que Marx não era partidário de se implantar o socialismo a qualquer preço, sacrificando a liberdade. – O próprio Lênin dizia… em 18 de janeiro de 1914, que não era partidário de se implantar o socialismo pela imposição, contra a vontade do povo… – No entanto, após assumir o poder em 1917… gradativamente foi mudando de opinião – pois considerava a Rússia uma fortaleza sitiada… — “dentro da qual, nenhuma oposição…por mais frágil que fosse, podia ser tolerada” (Isaac Deutscher “O Profeta desarmado” 1984).

Alcântara Nogueira portanto, era um marxista não ortodoxo. Aceitava algumas teses marxistas – como a origem social das ideias… mas, rejeitava o catecismo bolchevista unipartidário, com opressão e repressão à liberdade…características do “comunismo    real”…tanto soviético (Stalinista), como chinês (Maoista)…ou de qualquer outro tipo.

“O MÉTODO RACIONALISTA-HISTÓRICO EM SPINOZA”                                                        ‘Em Spinoza, o homem está rigorosamente inserido na sociedade                                            como “ser objetivo”…realizando, na prática, sua própria História’.

Seu trabalho de maior relevância… na opinião do próprio Autor é seu livro “O método racionalista-histórico em Spinoza”… – prefaciado por Miguel Reale e publicado em 1976… obra comemorativa dos… — trezentos anos… — da morte de Spinoza. Nela, Alcântara, além de determinar as raízes do pensamento do filósofo holandês, defende a tese de que o racionalismo de Spinoza não foi “puro”, do tipo cartesiano ou clássico, mas um híbrido… “racionalismo realista”…dinâmico, histórico… e, por vezes…também dialético. – O grande jurista brasileiro, e ministro do ‘Trabalho e Previdência Social’…do gabinete parlamentarista do governo João Goulart, Hermes Lima, amigo de Alcântara Nogueira – escreveu um breve artigo…sobre seu livro. Além disso, lhe dirigiu uma carta…de 8 de outubro de 1976…a qual, reproduzimos a seguir:

“É um livro (O Método Racionalista-Histórico em Spinoza) maduro, denso, em que você, estudando o método histórico-racionalista de Spinoza, contrasta sua interpretação…a de outras autoridades…para chegar à conclusão, que no filósofo, a ‘historicidade da razão’ é por ele conhecida e proclamada… – Nesse sentido…os dois capítulos finais são decisivos. De fato, o estado de natureza no homem dotou-o de um equipamento biológico-psíquico que o estado social desenvolve, condiciona…e, até dirige; mas constitui o dado primitivo com que ele entra na sociedade…Você mostra que Spinoza viu isso com absoluta certeza.  E esta é a novidade de seu livro. De sua análise do método do filósofo, o caminho da sua racionalidade. Assim, diz você muito bem, o homem conserva no seu estado social certa parte do estado de natureza. Aí meu caro Alcântara, a gente poderia dizer que o homem     é natural e construído. – Bem… o livro é seu título de cidadania na cidade dos filósofos”. [assinado] Hermes Lima.

Spinoza, há mais de 200 anos, é considerado…na História do Pensamento, um panteísta imanente que adotou o método racionalista clássico na construção de seu sistema. Isto é afirmado pela quase totalidade de seus intérpretes… – Para eles, o panteísmo spinozista teria raízes diversas… na filosofia grega, no pensamento renascentista (‘Neoplatonismo’)   e, principalmente no judaísmo. – Além dessas raízes, cita-se Descartes – de quem se diz que Spinoza sofreu profundas influências… – e de quem tirou seu “método racionalista”.

CAPÍTULO I: “UNIDADE DE VIDA E PENSAMENTO EM SPINOZA”

Tudo isto era tido e aceito há mais de 200 anos. – Porém, o livro do pensador cearense, além de mostrar o verdadeiro sentido do racionalismo spinoziano, ainda discute várias afirmações tradicionais imputadas ao filósofo holandês, demonstrando em que sentido   são exatas ou falsas. E tudo isso…com autonomia, riqueza de documentação e erudição,   ao invés de se limitar a dizer amém aos intérpretes tradicionais…A tese central do livro afirma que o racionalismo de Spinoza não é “puramente formal”…como o de Descartes, mas é “historicista”, e concebe o homem como um ‘ser social‘… O “método racionalista spinoziano” é dinâmico…meio dialético, ligado à realidade do mundo; seu pensamento historicista…não separado da existência concreta do homem, não se perde numa razão acabada, eterna… imutável e vazia – como sempre acontece ao “racionalismo clássico”.

SpinozaEste 1º capítulo … além de uma biografia de Spinoza, é também um retrato de sua breve vida (1632-1677) mostrando, apesar de toda a perseguição por ele sofrida…uma  perfeita coerência desta, com seu pensamento. Suas ideias foram julgadas heréticas – e como se recusou a se retratar e renegar sua filosofia, foi excomungado pelos judeus. Mas…foi ele próprio quem tomou a iniciativa…Spinoza já havia aos poucos se distanciado do judaísmo, expondo abertamente suas ideias… – desde bem antes de 1656… data de sua excomunhão.

Alguns autores tentam justificar o rigor desta maldição pela sociedade da época, o que ainda é pior… pois apenas mostra que o espírito desse tempo estava contaminado pelo fanatismo, pela teocracia, cegueira…e intolerância religiosa. – E o curioso … é que isto ocorreu em plena Holanda… – país laico…na época, considerado um dos mais liberais.

Spinoza viveu conforme suas ideias… e suas ideias constituíam um sistema – uma visão  de mundo. Assim…no torvelinho das lutas e contradições, o comportamento de Spinoza não só se racionalizou, através de continuado progresso…como quase se confundiu com      a elaboração de sua filosofia. Talvez nenhum outro filósofo haja construído, como ele, a sua ideologia…colocando a investigação do espírito, em consonância à ‘realidade social’    de seu tempo – em plena marcha para o futuro… – que, muitas vezes… iria confirmá-la.

“CAPÍTULO II: “A AUTO-REFLEXÃO EM SPINOZA”                                                                  “Em seu sistema não há lugar para a transcendentalidade                                                          de Deus, muito menos para a criação do nada (ex nihilo)”.

Alcântara Nogueira – no 2º capítulo…procura fazer uma espécie de radiografia do          intelecto de Spinoza – para determinar-lhe o sentido…orientação, e caráter de sua          filosofia. Ao contrário do que teria dito Sócrates (platônico), para quem filosofar é aprender a morrer, Spinoza parte da afirmativa de que filosofar é aprender a viver.              É que Sócrates acreditava numa imortalidade não apenas do ente… “alma” – mas,      numa imortalidade pessoal, vivendo…em consequência, e em função desta. Como        Spinoza não aceitava uma imortalidade de caráter pessoal; rejeitou também toda      espécie de sobrenaturalidade em seu sistema. – Assim, segundo o autor…Spinoza “humanizou” o ‘pensamento filosófico’, exorcizando a “transcendência…do nada”:

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Criar do nada significa…criar alguma coisa que para existir não supõe nada antes dela, a não ser Deus. Mas Deus   e o Universo são uma só unidade…E, isso explica por que – tanto a criação única (Big Bang), quanto a pluralista (‘multiversos‘) não podem se ajustar   ‘a rigor’…ao pensamento de Spinoza.

O filósofo holandês naturalizou Deus e humanizou a Natureza… – não no sentido antropomórfico, mas no sentido de rejeitar a forma de… ‘sobrenaturalismo’ – ou, transcendentalidade de um Deus, aceitando o Universo como autor de si mesmo:

“O mundo é ‘auto-subsistente’…O mundo é pai e filho de                                        si próprio. Deus e Mundo são uma só…e mesma coisa”.

Por consequência, esse naturalismo do ‘pensamento spinoziano‘ é contrário a qualquer intervenção nas leis da natureza (daí a rejeição do “milagre”, por ser contrário às leis de Deus), pois admite, como o próprio filósofo o diz…“a ordem fixa e imutável da natureza,     ou concatenação das coisas naturais”… que Spinoza chama “governo de Deus”. Por isso,     o autor resumiu em dois – os fundamentos que predominam no…”sistema spinoziano”:

1º)  o sentido naturalista, incompatível com toda e qualquer ideia de ‘sobrenaturalidade’, visa conceber o universo como uma realidade identificada com Deuspermitindo assim explicar numa equipotência, os termos essenciais da estrutura do panteísmo spinoziano;

2º)  a compreensão dessa unidadeou, o que dela decorre – através da valorização do entendimento, oferece à razão não só a condição de elemento imprescindível mas, também o instrumento que permite ver o intelecto como expressão dinâmica, capaz        de aperfeiçoamento – fundamento ao qual se prende o “método spinoziano” como a verdadeira ‘espinha dorsal’ de seu sistema…a razão fazendo progredir e se historicizar.

Spinoza não é um representante das elites burguesas da época, ou do liberalismo eclodido no seio da burguesia dos séculos 17/18, e filiado ao ‘racionalismo clássico’…pelo contrário, Spinoza liga o poder ao povo, considerando a massa, elemento primordial na organização da sociedade política…Realça que é pelo trabalho que os homens alcançam o seu conforto.  Partidário da democracia, na forma republicana de governar, justifica isso, por uma igual natureza para todos, só se diferenciando no poder e cultura. — Considerando a “soberba”, própria de todos que dominam… defende um “Conselho”, com membros periodicamente eleitos (máximo 5 anos), a fim de limitar seu próprio poder ao contrário da monarquia.

Alcantara Nogueira termina este capítulo, demonstrando que o sistema de Spinoza caracteriza-se como uma filosofia … que busca a compreensão da vida em toda sua plenitude, alcançando uma ética onde o bem é tudo o que conduz à vida… – e o mal,           tudo o que leva à morte… A vida é a solução dos problemas; e não fim de todos eles.

CAPÍTULOS III E IV: “AS RAÍZES DO PENSAMENTO DE SPINOZA”                                      Não consta em nenhum documento histórico … que Spinoza possa ter                                exercido o ‘sacerdócio’…como pois, poderia fundar uma nova religião?

É tema por demais polêmico determinar as raízes do pensamento spinoziano…Aqui, Alcantara Nogueira discute quase tudo o que disseram quase todos os estudiosos de Spinoza – acerca dos ‘problemas e influências’ concernentes à filosofia do pensador holandês… – rejeitando…a esse respeito… o caráter místico, ou religioso de Spinoza.  Retruca o autor, que…se o objetivo de Spinoza fosse religioso – por que se colocaria      contra o judaísmo; ou não ingressou numa das várias seitas protestantes liberais da Holanda na época?… Ou ainda…por que não fundou ele próprio uma nova religião?

Tendo como base a liberdade de pensamento, Spinoza elege a natureza como poder supremo (Deus e Universo são uma mesma coisa), e aproxima o homem do próprio homem, para quem nada existe de mais útil do que seu próprio semelhante. – Deus         não é o espaço metafísico de todas as coisas, mas essência ativa, dinâmica…“Deus é             o mesmo que natureza”. – Nisto se resume o caráter de seu pensamento humanista.

Por ter sido intérprete da Bíblia, Spinoza é acusado de ser místico…Spinoza realmente foi esse intérprete, mas num sentido crítico-histórico, e não místico-religioso, como o faziam os rabinos ou quase todos os exegetas hebreus, que não perceberam o sentido naturalista-realista do filósofo de Amsterdam…cujo método visava apenas alcançar a realidade como forma de conhecimento objetivo, e não como uma forma aleatória de “sobrenaturalidade”.

Para isso, basta que se grife em Spinoza sua oposição à aceitação das profecias pelos sonhos, ou astrologia devidos à…Providência…o que para ele não tem sentido, pois          de acordo com odeterminismo naturalista‘ de SpinozaDeus é imanente‘.

Um judeu… que supostamente teria exercido enorme influência sobre Spinoza… foi Hesdai Creskas, autor de ‘Or Adonai‘ … (“Luz de Deus”).

Alcantara Nogueira admite ‘alguma influência’… por algum tempo, mas com destinos diferentes. – Creskas, diz que…de acordo com Spinoza, se fizermos uma busca de ‘causas’, até  o infinito, tudo na natureza é efeito de uma causa; portanto, nada pode existir – por sua ‘própria natureza’.

Mas, Spinoza retruca, que este argumento não parte do princípio que o infinito não possa existir em ato; ou ainda que para aceitar-se a existência das coisas, ter-se-ia de recorrer a uma busca infinita… – mas sim…do princípio que – coisas que não podem existir por sua própria natureza, não podem existir por causa de outra que existe por si mesma. Spinoza    afasta-se de Creskas…ao aceitar a existência da substância (res) por sua própria natureza, bem como unicidade e indivisibilidade. Tal indivisibilidade, se aplica ao mundo corporal, cuja extensão é tão vasta, como um “campo contínuo de forças” que rege o espaço; o que vem negar a existência do vazio – ponto de vista que…em parte… coincide perfeitamente com a moderna “física quântica”… – pelo menos no que tange às… “flutuações de vácuo”.

Se ambos caminham juntos para rejeitar a criação “ex nihilo” (do nada)…é para abolir a ideia de que o nada seja capaz de gerar algo. Como já diziam os gregos… – “nada pode sair do nada… e nada por ser revertido ao nada”. 

O espírito de Spinoza leva em conta a devoção pela verdade – para ele … entre a fé (teologia) e a razão (filosofia)…não há comércio ou afinidade. O milagre não existe        porque vai de encontro às leis naturais…e tudo o que é contrário à razão é absurdo.          Ele não tinha orientação mística ou religiosa…pois não aceitava arrependimento e humildade como virtudes (positivas) da religião. Dizia ele que “Temor, humildade, arrependimento e esperança são usados…apenas para levar submissão aos povos”.

“Há, primeiro, o infinito, e dizer primeiro é ainda impróprio, porque o infinito produz, e produz infinitamente; e o infinito sabe que produz, e o que produz, assim como também sabe que se reproduz. Esse infinito…que produz (e se reproduz) infinitamente, se chama Deus, Substância…ou Natureza”. (Baruch Espinosa). Como se pode ver…jamais Spinosa humanizou Deus e sua existência, pois para ele… “Deus afirma-se na mesma eternidade  da Natureza. Não são 2, Deus e Natureza, mas Um, que não foi, ou serápois apenas é”.

Spinoza não era um incrédulo que acreditava na revelação, mas um defensor irresoluto  da ‘razão’. Para ele, meditar sobre a vida…é o caminho da libertação. E ele assim, liberta-se da divina transcendência. O entendimento de Deus e as coisas entendidas por Ele são uma, e mesma coisa (assemelha-se com o próprio Aristóteles, na ‘Metafísica’, ao afirmar que Deus pensa o próprio pensamento)…“Se a verdade sobre as coisas…e conhecimento dessa verdade…são coisas diferentes…e, por outro lado se Deus conhece toda verdade (com sua onisciência), então a proposição…“Deus conhece toda verdade”, se verdadeira, não está dentro do entendimento de Deus. E não estando, então é falso dizer que “Deus conhece toda verdade” E, se continuarmos nessa linha de raciocínio…dizendo que: “é verdade que Deus conhece toda a verdade” … — cairíamos em uma progressão infinita”.

Embora esse problema seja seríssimo para quem gosta de raciocinar para além do infinito, em Spinoza ele não existe – porque o filósofo holandês rejeitou a ‘transcendentalidade’ de Deus… – E fazendo isso, não houve mais separação entre Deus e as coisas, desaparecendo consequentemente o dualismo entre as coisas, e o conhecimento sobre elas, isto é, entre a verdade e o conhecimento da verdade. — Portanto, em Deus, conhecimento e verdade são uma só, e mesma unidade… — E, ainda sobre issoAlcantara Nogueira também comenta:

“Diante dessas considerações, podemos concluir dizendo que…assim como as águas de inumeráveis riosalimentadas por outras tantas correntes líquidas, das mais variadas procedências, que primeiro estiveram individualizadas… – para depois…se unificarem, indissoluvelmente, na constituição de grandes massas oceânicas, também em Spinoza,    as inspirações que teve (originárias de variadas fontes), fortemente se fundiram numa unidade de pensamento… – sem mais se confundir com os elementos primitivos, para criar… – numa formulação completa… – uma nova doutrina… – vigorosa…e…original”.

Para completarmos a imagem de Alcantara Nogueira, podemos dizer, por exemplo… que a água é composta por 2 elementos (hidrogênio e oxigênio) que em nada se parecem com ela – tendo esses elementos propriedades gasosa e inflamável…mas uma vez unidos num todo, este assume propriedade qualitativamente diferente…formando uma organicidade de nível superior. Em suma, a doutrina de Spinoza não é uma eclética colcha de retalhos, mas ‘coerente sistema original’… distinto de cada influência em particular que absorveu.

CAPÍTULO V: “RAZÃO DINÂMICA E DIALÉTICA EM SPINOZA”                                            Alcantara Nogueira faz um estudo de vários pensadores marxistas…a respeito de Spinoza, onde observa que poucos conseguiram penetrar mesmo de leve no cerne           de seu pensamento. Os marxistas russos, em geral…concordam que o spinozismo               é um “materialismo”, sem mais progredir sobre a definição desse “materialismo”.

É comum de se dizer que Spinoza foi um racionalista puro… mero continuador do racionalismo cartesiano…. Racionalismo este igual ao dos iluministas dos séculos 17 e 18, ou ainda, como o de Platão…um pensamento longe da realidade concreta e histórica … produzida pelo homem. As ideias de Platão, com efeito, antecediam ao…’mundo físico sensível’ — imperfeita projeção … no espaço-tempo observável.

Nesse ‘Ideal’… a razão é tida como algo fixo, independente do real e concreto, e incapaz de progresso. O homem não participa do progresso…do evoluir histórico. Todo progresso em verdade não é progresso do homem, ou da razão humana…mas etapas de manifestação de um Espírito ou Razão extra-mundo, no tempo e na realidade. Este é o ‘racionalismo puro’, que exige apenas condições lógicas para algo ser real. E sobre isso diz Alcântara Nogueira:

“Em todas as épocas o que se chamou de racionalismo no sentido rigoroso da expressão, procurou alcançar o conhecimento através da concepção de que o mais forte argumento estava estruturado como forma de raciocínio…que dispensava limitações condicionadas aos dados da ciência…e especialmente ao tempo, como fator crucial ao aperfeiçoamento    (e evolução) deste conhecimento. Desde que atendesse regras que não pecassem contra      a lógicao raciocínio se bastava para atingir todo saber; sendo tudo o mais, mera ajuda complementar…O raciocínio assim, não pressupunha outro instrumento, que não o seu próprio…’poder criador’…em torno do qual tudo teria que acomodar-se, ou explicar-se”.

Além de não ser um racionalista puro, Spinoza também é dialético em seu pensamento, como diz Engels, ao citar a conhecida frase…“toda determinação é uma negação”Tal afirmação está, originalmente, numa carta de Spinoza a seu amigo Jarig Jelles…datada     de Haia, 02/06/1674… – “Todo ente real é limitado, e portanto envolve negação…uma separação deste ente dos demais entes que o cercam…Quando digo ‘isto é uma árvore’, implicitamente nego que seja homem, gato, pedra, ave, etc…Por isso, não há ser finito     que não traga em si sua própria negação (no sentido de … limitação … determinação)“.

CAPÍTULO VI: “PROGRESSO SOCIAL E HISTORICIDADE EM SPINOZA”                            Spinoza não rompe com o ‘estado de natureza’, mas o conserva na sociedade civil, onde cada homem deve lutar por uma vantagem própria, visando sua ‘justa’ autopreservação.     

Aqui, após estudar ideias de alguns autores em relação ao “pensamento historicista” de Spinoza – Nogueira procura determinar a verdadeira natureza desta historicidade. – O racionalismo de Spinoza é nada mais do que um método de uso da razão, para alcançar        o saber – mas, sem desprezar a experiência histórica do homem… em seu todo cultural.

rousseau, locke, hobbes

Quanto à origem da sociedade civil – Spinoza não parte das doutrinas contratualistas e abstratas de um Hobbes, Locke ou Rousseau, que fazem com que os homens se tornem civilizados de um momento para outro após celebração de um alegórico contrato social. Para Spinoza, não há oposição entre ‘estado de natureza’ e ‘estado civil’, mas sim…uma continuação daquele neste. Isto é, o homem permanece na sociedade civil guiado pelos mesmos ditames egoístas com que agia no estado natural…como parte do seuconatus‘.

Como os homens – de modo geral, agem irracionalmente – existem conflitos na ‘sociedade civil’, e cada um deve defender seus interesses; mas, se agissem racionalmente, o interesse de cada umnão seria incompatível com o interesse do coletivo…  “Logo…se o estado de natureza não se define pela razão (como pretendem Hobbes, Locke e Rousseau), no estado civil verifica-se o mesmo, sendo que o direito do homem será proporcional ao maior poder que ele obtenha quando se associar aos outros homens, e portanto, maior será a sua força”.

Um homem só, isolado, não tem direitos, pois estes são de natureza social. Mas, ao viver em comunidade, adquire direitos, e tais direitos aumentam com o poder da comunidade.   E, o homem será tão mais livre, quanto mais racionalmente agir na sociedade. Mas, para compreender o homem é preciso enxergar toda sua extensão, e uma delas é sua História, porque é lá que…verdadeiramente… ele se encontra… – realizando-a … e modificando-a.

CONCLUSÃO                                                                                                                                        A moral é da maior importância – para nós, porém… não para Deus”.

O pensamento historicista de Spinoza procura compreender o homem em todos seus aspectos – razão e ação… Sua razão cresce, com o aperfeiçoamento dos instrumentos       de ação, e estes com aquela, numa interação (ou ‘processo dialético’) que se dirige ao progresso humano. O intelecto forma seu instrumento de trabalho — como acontece     com as mãos, que constroem seus utensílios…E assim explica Spinoza esse processo:

“Assim como os homens, de início, conseguiram – ainda que com grande dificuldade (e imperfeitamente) fabricar com instrumentos naturais certas coisas fáceis; e feitas estas, fabricarem outras mais difíceis… – já com menos trabalho e maior perfeição e assim, progressivamente – das obras mais simples…aos instrumentos… e dos instrumentos, a outras obras e outros instrumentos — chegaram a fabricar, com pouco trabalho, coisas    tão difíceis… assim também a inteligência… pela sua força natural…fabrica para si instrumentos intelectuais com os quais ganha outras forças, para outros experimentos intelectuais” (“Tratado da reforma da inteligência” trad. Lívio Teixeira S.P. /1966).

Spinoza, pois, com seu método racionalista, na verdade, não rompe com o passado, com a historicidade, com a ‘condição do gênero humano’, nem apela para um racionalismo puro, logicista, que despreza a experiência. O ‘racionalismo spinoziano’ é apenas um método…o uso da razão para buscar o conhecimento… porém, sem deixar de lado o mundo prático, a historicidade do homem, e sua condição de membro participante de um todo cultural por ele criado. O trabalho sobre o qual acabamos de discorrer – é importante, não só pela sua independência, e originalidade – como tambéme sobretudo – por sua contribuição aos estudos de Spinoza, e sua arrojada filosofia, em um tempo de muitos perigos. (texto base) *******************************(Diálogo Metafísico)*********************************  Spinoza said… – “In nature there is nothing contingent… but all things are determined   from the necessity of the ‘divine nature’… – to exist… – and act… – in a certain manner.”

Einstein conclude… – “Most philosophers try to construct a… ‘philosophy of the man’… within nature… – while Spinoza… – built a…’philosophy of Nature’… – inside the man.”   *****************************(texto complementar)*********************************

A “permanência do método”…em Spinoza                                                                        “Toda experiência histórica confirma – que não teríamos alcançado o possível,                       se acaso não tivéssemos, repetidas vezes, buscado o impossível”. (Max Weber)

Benedito (Baruch) Spinoza, filósofo holandês do século XVII… assumiu de uma forma radical o racionalismo de Descartes, desenvolvendo, através do monismo, a existência     de uma substância única formadora do Universo. Dessa forma, adota o panteísmo das religiões orientais, caracterizando universo e natureza como extensões do Ser de Deus.  Este sistema é representado por ‘mônadas(Leibniz), substâncias simples, indivisíveis, indestrutíveis, que compõem todas coisas no cosmo…dando origem a si mesmas. Para Spinoza, a lei máxima da realidade é a “necessidade”… e tudo o que ocorre nela…se dá através de uma união de Deus com o Universo. Desse modo, o Deus de Spinoza é uma substância, pela qual, tudo no universo, ocorre de uma forma irreversível. (texto base) ********************************************************************************

EINSTEIN: ACREDITO NO DEUS DE SPINOZA                                                                  “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo                    o que existe… — e não, no Deus que se interessa pela sorte e ações dos homens”. 

einsteinAlbert Einstein, físico alemão de origem judaica que dispensa apresentações, quando, em 1921, perguntado          pelo rabino H. Goldstein…de New York…se acreditava          em Deus, respondeu acreditar no“Deus de Spinoza”.          Nesta mesma ocasião, o cardeal O’Connel…de Boston, publicou uma declaração onde dizia que “a teoria da relatividade encobre com um ‘manto’ – o horrível ‘fantasma do ateísmo’ – e obscurecendo especulações, produz dúvidas universais…sobre Deus e sua criação”.

Posteriormente, em uma carta escrita em Berlim a um banqueiro do Colorado, datada de  5 de agosto de 1927, Einstein explica que “não consigo conceber um Deus pessoal que influa diretamente    sobre as ações dos indivíduos…ou que julgue diretamente…criaturas por Ele criadas.      Não posso fazer isto, apesar do fato de que a causalidade mecanicista foi — até certo    ponto, posta em dúvida pela ciência moderna. Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração pelo espírito infinitamente superior, que se revela no pouco que      nós…de posse de fraca e transitória compreensão…podemos entender da realidade”.

No artigo “Religião e Ciência”, que faz parte do livro Como vejo o mundo, publicado em alemão em 1953, Einstein diz: “todos podem atingir religião, num último grau, raramente acessível em sua pureza total. Chamo isto de ‘religiosidade cósmica’ e não posso falar dela com facilidade, pois se trata de uma noção muito nova… à qual não corresponde qualquer conceito de um Deus antropomórfico… Exemplos desta ‘religião cósmica’ são notados nos primeiros momentos da evolução, em alguns ‘Salmos de Davi’, ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado…o budismo organiza os dados do cosmosOra, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por tal religiosidade, ante o cosmos, sem dogmas nem deus, concebido à imagem do homem…assim portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica Temos também a impressão de que hereges…de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Todavia seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo – bem como…às vezes, também, de santidade. – Conforme este ponto de vista, homens como Francisco de Assis, Demócrito, Giordano Bruno…e Spinoza…dentre outros…se assemelham profundamente”.

E para concluir, no artigo A religiosidade da pesquisa“, do mesmo livro, Einstein defende que: “o espírito científico firmemente armado em seu método, não existe sem religiosidade cósmica”. Para ele, a religiosidade do sábio consiste em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza – revelando uma inteligência superior a todos pensamentos humanostal que todo seu engenho não pode se desvendar, a não ser um ‘nada irrisório’. Tal sentimento desenvolve assim a regra dominante de sua vida, sua coragem, na medida em que supera a servidão dos…”desejos egoístas”… Indubitavelmente este sentimento se compara ao que animou aqueles “espíritos criadores religiosos” em todos os tempos. (texto base jun/2012)  ************************************************************************************

Perspectiva prigoginiana para uma ‘historicização’ da ciência                                  As noções de processo e estrutura, devem fazer parte da descrição física                                dos sistemas complexos da natureza como forma de não torná-la estéril.

coraisEm seu artigoEl redescubrimiento del tempode 1992… Ilya Prigogine afirmou que “a lógica dos processos irreversíveis – de sistemas longe do equilíbrio… é uma lógica narrativa”. Isto porque – para ele…um sistema longe do equilíbrio – se desenvolve por uma sucessão de instabilidades    e ‘flutuações ampliadas’… seguindo um ‘diagrama de bifurcações’, num caminho que constitui, por assim dizer, um processo. Dessa forma, a atividade coerente que caracteriza uma “estrutura dissipativa”…é, em si mesma…uma “ação histórica”, desencadeando uma “reativação mútua” entre os acontecimentos locais, e a emergência    de uma coerência global…integradora da multiplicidade dessas mesmas histórias locais.

Assim como nos pontos de bifurcação, ao escolher entre as várias possibilidades…o sistema citado gera uma narrativa histórica… nesse processo, a irreversibilidade do    tempo tem um papel construtivo importantíssimo. — De acordo com Prigogine…“a irreversibilidade, associada à ‘flecha do tempo’ é um elemento crucial da existência humana, por pressupor uma diferença intrínseca entre o passado e o futuro”…Essa propriedade foi estendida à natureza, onde…segundo a abordagem prigoginiana, a      quase totalidade dos fenômenos possui a “irreversibilidade”, e a “flecha do tempo”.

Compartilhando conceitos como assimetria temporal e caráter evolutivo…o papel criativo da irreversibilidade na flecha do tempo…impôs – no interior das chamadas…”Ciências da Natureza”, a percepção de descrevermos uma…”natureza histórica”…capaz de inovação e, desenvolvimento. Nas atividades dissipativas, com efeito, a atividade química inscreve-se na matéria, formando novas estruturas (dissipativas)… e criando moléculas capazes de se transformarem em protagonistas de novas histórias. A articulação entre Físico-Química e Biologia, “não passa de uma historicização das possibilidades físico-químicas da matéria”.

A física prigoginiana, na verdade, situa o… “tempo irreversível”… como fundamental na constituição de uma visão científica da natureza, considerando que cada ser complexo é formado por uma pluralidade de tempos, ramificados uns nos outros pelas articulações múltiplas e sutis que pode estabelecer. – Desse modo, a história…como processo de um    ‘ser vivo‘ ou de uma sociedade, nunca poderá ser reduzida à simplicidade monótona de um tempo único. E nesse sentido, o posicionamento de Prigogine é bem claro… “não há ciência nem cientistas separados do processo histórico”…As ‘temporalidades’ presentes      em todos os níveis da natureza ressaltam a historicidade como “propriedade intrínseca”    a esse processo. A descoberta de estruturas que podem ser físicas, químicas, biológicas, geológicas, históricas leva à percepção do processo. No caso de Prigogine, a descoberta, por exemplo, das estruturas dissipativas trouxe à tona o processo evolutivo/criativo de  um irreversível fenômeno temporal, histórico, inscrevendo a historicidade na natureza.

fenômenos irreversíveis

De acordo com a abordagem de Prigogine, a evolução de um sistema complexo, e aberto, não totalmente…previsível… – representa a relação entre a ‘criatividade’ nos fenômenos naturais…e a sua sensibilidade às condições iniciais. Com isso, nos estudos dos sistemas longe do equilíbrio … os físicos perceberam, que os fenômenos irreversíveis na natureza fundamentam a ação construtiva do tempo.

O tempo irreversível, presente nos níveis fundamentais e cosmológicos é o fio condutor da historicidade…Por sua vez, a historicidade é uma propriedade da realidade, seja qual for a realidade que nossa racionalidade subentender… – a física, a humana, a psicológica… Isso acarreta que tudo é perpassado e fundamentado pela condição, e pelo contexto histórico… Por conseguinte, a História da Ciência tem nos mostrado, de acordo com essa perspectiva, que não podemos descrever a natureza do exterior… como simples espectadores… pois tal comunicação está submetida a coações, que nos identificam como seres…no mundo físico.

Prigogine e a química filósofa Isabelle Stengers nos fornecem a pista para entendermos melhor a relação sujeito/objeto. Há dois níveis dessa relação evocados pelos autores…o epistemológico e o ontológico. No campo epistemológico, o conhecimento ocorre como uma construção fluente advinda de um diálogo com a natureza. As questões abordadas pelos cientistas são questões do seu tempo, e não eternas…se algumas delas se repetem eternamente é porque talvez não a compreendamos racionalmente em sua completude,    e, por isso, estão presentes em vários momentos diferentes. – A ciência é resultado não    só de uma…”interação” – mas também de uma “participação” com a natureza… em um determinado momento histórico. Não se trata de “revelação atemporal” dessa natureza.

As teorias físicas pressupõem a definição das possibilidades de comunicação com a natureza, na descoberta das questões por ela subtendidas – a menos que sejamos nós          a não podermos compreender suas respostas a esse respeito…A própria natureza dos argumentos teóricos – pelos quais explicitamos a nossa posição das descrições físicas, manifesta o duplo papel…de ator e espectador…função que passa a nos ser destinada.

Da relação sujeito/objeto                                                                                                          No campo ontológico, a visão prigoginiana nos indica que sujeito e objeto                          são indissociáveis… E o elemento essencial para essa conexão…é o tempo                      irreversível, condição indispensável para as… “histórias possíveis”. Dessa                        forma – ontologicamente – a irreversibilidade temporal possibilita…uma                          relação complexa inerente entre sujeito/observador…e objeto/observado.

edgar-morin1Ultrapassar essa oposição, mostrando que daqui em diante ‘conceitos físicos’ contêm referência ao observador, não significa sua caracterização conforme a uma visão biológica, psicológica, ou filosófica do sujeitoMas a coerência leva a saber se a Física pode trabalhar com tal propriedade, tanto no mundo micro, como no mundo macroscópico.

De acordo com a ‘irreversibilidade’, a distinção entre passado e futuro é indispensável para que, epistemológica e ontologicamente … a relação entre sujeito e objeto seja indissociável. Tal distinção é mais bem notada na consciência — já que esta é constituída pela…memória, pensamento, e sentimentos…essencialmente formados pela temporalidade. Lembramos que pela “perspectiva prigoginiana”…em sistemas instáveis longe do equilíbrio…nos quais domina a…irreversibilidade – a matéria ‘‘… – ou seja – ela reage…escolhe…participa.

Não estamos sugerindo que a ‘matéria‘ tem mesma percepção e comportamento que a consciência humana, nem Prigogine disse algo parecido. Apenas afirmamos, com base      em suas teorias, que matéria não corresponde à imagem mecanicista construída sobre      ela… E foi o “mecanicismo” quem idealizou a oposição entre “matéria” e “consciência”.

Da visão científica de Prigogine ressalta-se a “perspectiva” de uma relação muito mais profícua entre…Física e História… advinda entre outras coisas – da “temporalidade” e “historicidade” na natureza…Esse “diálogo interdisciplinar” – por meio de analogias e metáforas, busca compreender a realidade no modo complementar desses elementos, fundamentais ao conhecimento adquirido.

Conforme o filósofo francês Edgar Morin, complexus significa o que foi tecido em conjunto. É um tecido de “constituintes heterogêneos inseparavelmente associados,        uno e múltiplo… – onde acontecimentos, ações, interações, determinações e acasos constituem o nosso mundo fenomenal”.  Em sua abordagem, somente há, de fato, complexidade, quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo.        Por isso… em sua visão, a complexidade é a união indissociável entre a unidade e o múltiplo. Morin chamou a atenção para o ‘reducionismo’, presente por exemplo na fragmentação do conhecimento…Segundo tal abordagem, a complexidade podia, e          devia se resolver com base em princípios simples…e leis gerais. – “A complexidade    assim, era a aparência do real; e a simplicidade…a sua natureza”. Dessa forma…tal “paradigma da simplificação”, atrelado a leis gerais dariam conta da complexidade.

Eliminando a irreversibilidade temporal… e, tudo que é eventual e histórico, o paradigma da simplificação… se ligaria ao conjunto dos “princípios clássicos”… de inteligibilidade da ciência…simplificando a concepção (física, biológica, e social) do universo…Por sua vez, o paradigma de complexidade representaria os ‘princípios de inteligibilidade’… que ligados entre si forneceriam a complexidade do Universo. Dessa forma, segundo Edgar Morin: “a ‘simplificação’ é um paradigma – alicerçado ao princípio da confiabilidade total da lógica, para estabelecer a verdade intrínseca das teoriassendo toda contradição vista como um erro”. Assim, o ‘paradigma da complexidade’ alicerça-se no ‘princípio da inteligibilidade’, tanto local quanto singular, para o reconhecimento e integração da irreversibilidade do tempo na Física e Biologia. Suas descrições e explicações devem levar em conta a história    e acontecimento dos fatos, de modo que da relação com o sujeito, tal paradigma não se sustenta numa separação do objeto e seu meionem na limitação de suas teorias lógicas.

Na perspectiva de Morin – o saber é um fenômeno multidimensional, porém… “a organização do conhecimento, no interior de nossa cultura, racha esse ‘fenômeno multidimensional’. – E o mais grave, é que tal situação parece evidente e natural”.              Saberes” têm sido separados e esfacelados… – com cada um desses fragmentos ignorando a ‘visão global’ de onde faz parte…Como nosso modo de conhecimento          desune os objetos, precisamos conceber o que os une – sendo este um imperativo,            para a educação criar instrumentos de contextualização/globalização dos saberes.

Conclui-se então que um dos grandes interesses de Prigogine foi a reconciliação entre o mundo físicoe a realidade humana, e consequentemente, a defesa de uma abordagem que não trata o conhecimento das Ciências Naturaiscomo algo separado das Ciências Humanas. Nesse ponto, isso só poderá ocorrer, ao levarmos em conta que tanto o ‘Caos’ (sistemas instáveis sensíveis às ‘condições iniciais’)quanto sistemas termodinâmicos    de não equilíbrio‘…costumam demonstrar uma “metamorfose” na ciência. (texto base)

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Lembranças Eternas de um “Futuro Imaginário”

“O universo dura … E, quanto mais nos aprofundarmos na natureza do                              tempo, mais entenderemos que duração significa invenção…criação de                              formas, elaboração contínua do absolutamente novo”. (Henri Bergson)

David Bohm postulou … em suateoria quântico-holográficaque o universo possui características não-locais de indivisibilidade as quais podem ser observadas em sistemas – tão diferentes entre si, quanto a distribuição de matéria no Cosmos… as redes neurais, os padrões climáticos, a formação das galáxias… – a frequência dos terremotos … a radiação cósmica de fundo (em microondas)…os sistemas sociais e econômicos, ‘fluxo de trânsito’ ‘bolsa de valores’… – e, até mesmo … a ‘internet’.

Padrões harmônicos“… – geometricamente fragmentados e ‘autossemelhantes’…subjazem a todos estes fenômenos…se repetindo em escalas cada vez maiores e menoresem todo Universo.

Foi o matemático Benoit Mandelbrot … ao estudar sistemas aparentemente sem relação entre si…como as formas das linhas litorâneas, e flutuações dos preços nos mercados de ações… quem descobriu essas “relações harmônicas holográficas”… a quem Mandelbrot denominou ‘fractais‘. – Dava-se início assim…ao novo campo da ‘geometria fractal‘, mostrando a profunda e harmônica ordem holográfica fractal permeando todo Cosmos.

vitru.

Mas, sob o aparente caos dos ‘sistemas complexos’, existem ‘harmônicos de natureza holográfica’ – já demonstrados de forma intuitiva. No século 13…por exemplo…o matemático  Fibonacci demonstrou a relação harmônica … entre a soma    de cada numero pelo anterior … na sequência que passou a ser conhecida por seu nome (0,1,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89…)

Esta relação universal, encontrada por toda a natureza; nas espirais das conchas… nos redemoinhos, na forma como os galhos das árvores surgem nos troncos, nos embriões e nas galáxias…é chamada “razão áurea”…ou “proporção áurea”…nome cunhado por Fra Luca Pacioli, no século XV … que a ensinou a Leonardo da Vinci — que a utilizou no “Homem Vitruviano“. Revelando tal relação nas proporções da anatomia humana, Fra Luca então afirmava… “ser a proporção áurea, assim como Deus … sempre semelhante a si mesma”.    Na matemática, a proporção Phi (1,61803) é definida como umnúmero transcendental‘, sendo considerada uma constante universal de crescimento e evolução da naturezaOs harmônicos de Φ são um exemplo dos princípios holográficos, subjacentes a todo Cosmos. Em todos os sistemas da natureza constatamos esta invariância em relação à escala… – com o surgimento de padrões harmônicos geométrico-fractais … subjacentes.

Sistemas holográficos                                                                                                   Fractais são a assinatura dos “padrões holográficos”, presentes em todos                         os níveis de organização…revelando um universo harmônico e holográfico,                   pleno de autossimilaridades, em todas escalas de complexidade do cosmos. 

A finalidade dos sistemas holográficosé gerar “imagens tridimensionais” — a partir de uma imagem virtual ou holograma…criado quando por exemplo … a luz de um laser – incide sobre certo objeto, e este o refletesobre uma placa receptora. Se sobre essa placa incidir um 2º laser misturando ondas do 1º laser … com as do 2º … o padrão de interferência resultante armazenará a informação desse ‘objeto’ para projetar sua imagem tridimensional no espaço.

Em sistemas holográficos, cada parte do sistema contém a informação do todo, e portanto, a informação completa sobre o objeto… Se quebrarmos uma placa holográfico em pedaços, cada um desses pedaços refletirá no espaço…a imagem tridimensional do objeto… – assim mostrando que…o todo está nas partes; onde cada parte representa um pedaço desse todo. Tal propriedade fundamental dos sistemas holográficos…cujo avanço tecnológico se deu a partir dos anos 60, foi descrita metaforicamente por Dennis Gabor, Nobel de Física (1971):

“Um ‘cosmos holográfico‘ simboliza uma infinita interrelação entre todas as suas partes, com cada uma delas, definindo todas as outras. – Pode-se assim considerar o universo como um organismo ‘auto-referente’, e ‘auto-sustentável’. Esta concepção é também ‘não-teleológica’…pois não há um início do tempo, nem conceito de criador; muito menos questionamento sobre a ‘razão de tudo’. Concebido sem hierarquia… o universo não tem centro…ou seria de se supor… – que este, estivesse em toda parte”.

‘Ruptura espontânea de simetria’                                                                  ‘instabilidade’ (caos) -> ‘probabilidade’ -> ‘irreversibilidade’

A altas temperaturas, onde pequenos ímãs se orientam ao acaso…um ‘sistema magnético’ se mostra ‘paramagnético’. A baixas temperaturas contudo, temos ‘ferromagnetos‘…com todos estes…”micro-ímãs”…privilegiando uma única direção… – em uma menor simetria das equações iniciais… – Na física quântica… partículas e antipartículas desempenham o mesmo papel, com um início aleatório (caótico) em elevada temperatura, e uma “quebra   de simetria”… com a prevalência de partículas no nosso universo atual — em um sistema caótico, com leis probabilísticas irreversíveis… – As divergências (infinitos) de Poincaré    são eliminadas… – introduzindo-se as propriedades dissipativas temporais (‘autovalores complexos’) tornando suas equações integráveis…ao nível das funções de distribuição de probabilidades. Quanto maior a complexidade, maior a irreversibilidade (seta do tempo).

A não-integrabilidade se deve à ressonâncias que exprimem condições a serem satisfeitas em frequências. Como eventos locais…advindos num dado ponto do espaço, e instante de tempo, introduzem um elemento estranho à noção de trajetória local de espaçotempo. A atualização das potencialidades, portanto, não depende mais do observador, mas sim da instabilidade do sistema… – O ‘colapso da função de onda‘…é causado pelo efeito das “ressonâncias de Poincaré” no sistema físico … tornando assim, a descrição probabilística irredutível, e levando o sistema…de quântico a clássico. (Ilya Prigogine, “As leis do Caos”) ***********************************************************************************

Um Universo de Informação e Entropia                                                                             O estado informacional do Universo primordial era extremamente                                        desordenado… – a partir do qual… – toda a existência se originou.

holograma

“Holograma” é a forma mais compacta conhecida na Natureza…de se armazenar informação – permitindo-se desenvolver uma extraordinária memória holográfica, dependente da ‘entropia‘…propriedade fundamental…descrita por Boltzmann, e definida à época…como sendo a unidade medidora do “grau de desordem“…de um sistema…Quanto maior sua entropia, maior esse valor… – e… por outro lado… quanto menor…maior a sua organização.

A entropia em nosso universo vem crescendo desde o Big Bang por meio de umaseta do tempodirecionada do passado ao futuro. Desse modo, a tendência é concluir que o início do universo ocorreu a partir de um estado de…’entropia mínima‘ – isto é…informação máxima“. – Aí então, poderíamos perguntar…como, nesse caso…conseguem se estruturar os…”sistemas biológicos” – incluindo a “consciência” – que sempre evoluem para formas mais ordenadas e complexas de informação…a partir de uma simples célula embrionária?

Na verdade, a evolução dos sistemas biológicos em direção a uma complexificação informacional crescente…ocorre por estes sistemas se desenvolverem em “bolsões              de ordem”… – ricos em átomos de carbono, nitrogênio, e oxigênio … em pequenos                planetas…situados a certa distância de suas estrelas…que permitam temperaturas    amenas – para assim, então – induzir ao aparecimento de… – “moléculas d’água”.

“Teoria (clássica) da informação”                                                                                            A noção de ‘informação‘ implica em uma certa ambiguidade, podendo significar            capacidade em bits de um ‘sistema físico’ (teoria da informação clássica); e/ou o                    conteúdo semântico (significado) induzido pelos bits durante uma comunicação. 

Em 1948…Claude Shannon publicou “A Mathematical Theory of Communication”, importante artigo científico, enfocando o problema de qual é a melhor forma para         codificar a informação que um emissor queira transmitir para um receptor. Neste       artigo – trabalhando inclusive, com as ferramentas teóricas utilizadas por Wiener,             na origem da teoria das comunicações, Shannon propôs com sucesso uma medida             de incerteza (entropia da informaçãoem uma mensagem. – Já em 1949… em co-      autoria com Warren Weaverrepublicou…Teoria Matemática da Comunicação“,              agora em livro, contendo reimpressões do seu artigo científico de 1948…de forma                acessível … também a leigos — popularizando assim — os seus próprios conceitos.

teoria-da-informacao-Claude Shannon-1949Na Teoria clássica da Informação de Shannon, as definições de ‘ordem‘ e ‘informação‘ são “probabilísticas”…e dependem do conceito de entropia…numa homogeneização estatística. Por conseguinte, deixam ausente…ou bem reduzida – a imensa riqueza das significações naturais (que não são de natureza estatística). Na teoria, a ‘organização’ (representada pela função H de Shannon) é a medida da informação que nos falta… isto é, a medida da ‘incerteza‘ sobre o sistema. Por conseguintea entropia como definida por Shannon,  está intimamente relacionada à uma “entropia termodinâmica”. Posteriormente, Leon Brillouin, a partir de trabalhos de Leó Szilard, desenvolveu um teorema demonstrando a equivalência entre “informação” (ordem) e “entropia negativa”…que também representa ordem. O grau de ordem‘, portanto, se relaciona ao conteúdo de informação do sistema.

Norbert Wiener havia colocado esta identidade na base conceitual da ‘Cibernética’, afirmando que ‘informação representa entropia negativa‘, e profeticamente enfatizando que… informação é informação, não é matéria nem energia”.

Até que, em fins do século XX, o filósofo da mente David Chalmers retomando as ideias  do filósofo e antropólogo Gregory Batesondesenvolve os conceitos opostos de – “hard problem” e “easy problem”…relativos à questão da “consciência” – afirmando ser este, o caminho natural para a conexão entre “sistemas físicos”…e ‘estados informacionais‘.  Chalmers define consciência (“consciousness”)… – como… “um aspecto irredutível do universo, assim como espaço, tempo e massa”; sendo a informação: “sua propriedade intrínseca não-local, capaz de gerar ordem, auto-organização e complexidade”Em um universo gerador de vida e consciência…podemos entender melhor aspectos paradoxais   da consciência pela dualidade energia/informação; estados quânticos/consciência … tal como no início do século XX, físicos modernos conceberam a dualidade onda/partícula.    

A Complexidade na Informação                                                                                                “a entropia não deve ser compreendida como uma medida da desordem, mas muito mais como a medida da complexidade de uma dialética, entre informação e ordem molecular”.complexidade informação.png

Ao relacionar a ambiguidade e incerteza da informação à variedade e não-homogeneidade do sistema Henri Atlan conseguiu resolver certos paradoxos lógicos da auto-organização e complexidade, ampliando o alcance da “teoria de Shannon”… – Ele definiu a ‘organização’ de modo quantitativamente formal, mostrando que uma ordem do sistema, corresponde a um vínculo entre o conteúdo informacional máximo (variedade máxima), e a redundância máxima do sistema; relação que também pode ser descrita como uma “função do ruído” (desordem); ou mesmo como uma…”função do tempo“…ao considerarmos seus efeitos, como… “fatores aleatórios” … acumulados pela… – “ação entrópica” … do ambiente. 

Esta ambiguidade, característica dos sistemas auto-organizadores biológicos,                  pode se manifestar de forma negativa (‘destrutiva’) no significado clássico de            ‘desordem’…ou positiva, originando a produção de uma “autonomia relativa”                        de uma parte do sistema – em relação às outras…diminuindo dessa maneira,                          a redundância geral do sistema — ao aumentar seu ‘conteúdo informacional’.

Além de ser entendida como uma medida da desordem e da quantidade de informação, a entropia pode também ser descrita como a probabilidade de um sistema se encontrar em um…”estado energético” – desde o nível quântico de Planckaté ao nível cosmológico de todo Universo. Levando-se em conta uma mesma equação holográfica descrevendo todos estes modelos, comprova-se ser a informação mais fundamental do que a própria energia.  Com efeito, as ‘probabilidades descritivas de um sistema nunca são “aleatórias”como é comum e erroneamente interpretado…mostrando sempre uma quantidade harmônica de informação. Seja a nível quântico…ou cosmológico…todo este processo auto-organizador, representa portanto, uma ‘expressão universal de uma maior aquisição de variedade…ou conteúdo informacional… devido à redução da “redundância na totalidade do sistema.

Erich Jantsch, estudando o universo, provou que a ‘evolução cósmica‘ é também um processo auto-organizador – onde a ‘microevolução’ dos sistemas individuais co-evolui para macroestruturas mais organizadas… Segundo ele, a correspondência entre ordem, entropia e informação – é a “trilha” … que fundamentará a compreensão de todo fluxo, irredutível e natural, de ordenação quântico-holográfica, a se auto-organizar no cosmo,    na vida, nas sociedades e organizações, de uma forma autoconsciente. – A “teoria auto-organizadora” de Atlan surgiu para explicar essa complexidade dos sistemas biológicos. 

Auto-organização, Consciência & Informação quântica                                              A conceituação mais abrangente dos conceitos de ordem, organização, e                              informação é essencial ao desenvolvimento de um modelo informacional                                quantum-holográfico e auto-organizador…do universo e da consciência’. 

termodinamica-entropia-boltzmann

Conforme Boltzmann demonstrou, em 1877, a entropia de um sistema [S] cresce, quanto maior o número de arranjos possíveis [W] dos elementos do sistema. Assim, quanto mais arranjos possíveis, menor sua probabilidade de retornar espontaneamente ao estado inicial. Como há menos maneiras de ter o sistema ‘ordenado’ e muito mais maneiras de tê-lo desordenado, a entropia de um sistema neste estado desordenado é a mais provável.

Para levarmos essa ‘aventura’ do conhecimento adiante, devemos ultrapassar a “visão clássica” de informação, elaborada nos anos 40 do século XX… por Shannon, com suaTeoria da Informação‘; que na verdade, se trata de uma ‘teoria de comunicações’, criada para melhorar a transmissão de linhas telefônicas, sob o oceano.  Com ela…Shannon demonstrou que… “a quantidade máxima de informação” num sistema pode ser descrita pela mesma ‘equação de Boltzmann’ que descreve a entropia termodinâmica.

Brillouin então, formulou o “teorema de equivalência“… identificando a                        quantidade de informação de Shannon, à ‘entropia negativa’ de Boltzmann,                      numa equação logarítmica (matematicamente harmônica … e holográfica).

Segundo William Seager (1995)… utilizando como fundamento…a capacidade em bits do sistema, a teoria de Shannon é incapaz de fornecer uma conexão adequada à uma ciência da Informação Quântica. – Consciência, auto-organização e informação…se conectam ao nível da significação semântica, e não ao nível da capacidade em bits… – e, como a teoria clássica se situa a nível da capacidade em bits, seria incapaz de se conectar à consciência.

Dessa forma… seria preciso uma visão mais radical da informação,                para uma percepção mais fundamental da natureza da consciência.

Seager ainda nos faz notar que no clássico experimento quântico das ‘2 fendas’, o que está em jogo não é a capacidade em bits, mas a significatividade da correlação semântica entre sistemas físicos distintos, informacionalmente carregados de modo não-causal. Esta visão tem sustentação nos atuais desenvolvimentos de Wojciech Zurek – na chamada “física da informação“, com o conceito de informação não-local, e unidadeobservador-processo de observação-observado…onde, a “entropia física” é uma combinação dessas 2 magnitudes:

1- a ignorância do observador medida pela “entropia estatística” de Shannon;

2- o grau de desordem do sistema, medido pela… “entropia algorítmica”… que é o menor número de bits necessário para registrá-la na memória. Durante a mensuração,        a ignorância do observador é reduzida, como resultado do aumento do numero de bits      em sua memória. Contudo, a soma das 2 magnitudes (“entropia física”) fica constante.

Para entender como informação, energia e matéria…progressivamente se complexificam, para obter significados cada vez mais complexos, até chegar à uma…”hipercomplexidade consciente”, precisamos de uma “teoria quântica”, incluindo interações mecânicas locais, bem como um “desdobramento informacional quântico ‘não-local’ instantâneo“. Esta é a teoria quantum-holográfica de universo, desenvolvida por David Bohm, onde se inclui em seu arcabouço… o “holomovimento”– processamento informático não-local, auto-organizando ‘holograficamente’ … informação, energia, matéria, vida e consciência.    Recentemente Vlatko Vedral sugeriu, em seu livroDecoding Reality“…que o Universo é estruturado como informação e que tudo o que existe (inclusive nós) pode ser entendido em termos informacionais. Assim…ele retoma a profunda correlação entre o conceito de entropia (desordem) e informação (ordem), aplicando tal analogia ao universo quântico.

Nãolocalismo & sincronicidade

O campo quântico fisicamente não existe no ‘espaço-tempo’, assim como existem os campos…eletromagnético, e gravitacional…da física newtoniana clássica, apesar de matematicamente ser similar a eles… o que, lhe garante um caráter peculiar não-local… Com efeito, quando um desses fenômenos não-locais se dá… instantaneamente influencia o que ocorre … a qualquer outra região do ‘espaçotempo‘…sem que para isso seja necessário troca de energia/informação…entre essas diferentes regiões.

Einstein negou a existência deste tipo de informação…que a chamou ação fantasmagórica à distância…Hoje sabemos que a “não-localidade” é uma                            propriedade fundamental do universo … comprovada experimentalmente,                            no mundo quântico e mesmo macroscópico, demonstrando a existência de                            interações instantâneas (não-locais)…entre todos fenômenos do Universo.

Segundo a física clássica, a relatividade, e o nosso bom senso…seria impossível existir a ‘não-localidade’. Isso aliás, gerou a célebre controvérsia Einstein/Bohr, em 1927, na ‘5ª Conferência Solvay’, Bélgica. Einstein não admitia os fenômenos ‘não-locais’ – pois em  sua ‘Teoria Especial da Relatividade’…publicada em 1905, a velocidade da luz (cerca de 300 mil km/s) foi definida como uma ‘constante universal’, fisicamente intransponível.  Tal controvérsia acabou originando o célebre“Paradoxo EPR” – onde Einstein e seus colaboradores demonstraram com umexperimento mental‘, que pela impossibilidade      de uma partícula viajar mais rápido do que a luz…‘a física quântica estaria incompleta’.    E, justificando essa ‘incompletude’, postularam “variáveis ocultas” como propriedades    dos sistemas quânticos. Entretanto, ao contrário do esperado, ficou matematicamente demonstrado por John Bellem 1964, que Einstein estava errado…pois, após 1 átomo emitir 2 partículas com spins opostos … se o spin de uma delas se modificar — mesmo    que a anos-luz de distância…o spin da outra é instantaneamente alterado revelando assim uma ‘interação não-local’ entre elas – além de uma unidade cósmica subjacente.

Desde então, a existência da “não-localidade” têm sido convincentemente comprovada  nos experimentos da ‘física moderna’… – Em 1982, o físico Alain Aspect demonstrou a existência de “ações não-locais” entre 2 fótons emitidos por um átomo. Já em julho de 1997, Nicolas Gisin demonstrou a existência desta ‘ação quântica não-local’, em escala macroscópica…em uma…transmissão instantânea…entre 2 localidades…na Europa.

Potencial Quântico, e o ‘Código Cósmico Holográfico’                                                 O potencial quântico é descrito por Bohm como um novo tipo                                                   de campo… – ‘não-local‘… – que não decai com a distância, e                                                 não depende da amplitude, mas da forma da ‘função de onda’.  

David Bohm aplicou a matemática da organização holográfica à teoria quântica… ao desenvolver um modelo de universo no qual o espaço e o tempo estão ‘embrulhados’     numa dimensão espectral de frequências (…ordem oculta… implícita… sem relações espaço-temporais)… – Quando neste “campo de frequências” surgem flutuações, as ondulações mais intensas – com padrões semelhantes aos holográficos, estruturam       uma dimensão espaço-temporal (ordem explícita) similar a este universo manifesto.

Bohm afirma que na ordem implícita tudo está introjetado em tudo…Todo universo          se inclui em cada uma de suas partes pelo “holomovimento”…A ‘introjeção’ não é só superficial, estando cada parte fundamental…inter-relacionada entre si – e ao ‘todo’.

De acordo com Bohm, em seu modelo da mecânica quântica, De Broglie descreve um novo tipo de campo…no qual a atividade depende do conteúdo informacional que é conduzido a todo o campo experimental. Adicionando às equações deste campo um Potencial Quântico que satisfaz à “equação de Schrödinger”, Bohm elaborou um modelo quântico-holográfico, no qual este potencial conduz a “informação ativa”…que guia a partícula em sua trajetória.  Nesse modelo, a evolução cósmica se processa pela emergência de códigos informacionais não-locais…que auto-organizam os padrões básicos da estrutura do universo. Este ‘código cósmico’ se constitui por patamares evolutivos, correspondendo, cada um, ao surgimento no universo de um novo mecanismo de memória mais complexo, com códigos específicos.  Estes códigos informacionais constituem um vasto reservatório de informação – uma ordem significativa que pode ser comparável a uma “consciência universal“. Cada um destes depósitos corresponde ao surgimento de um sistema evolutivo…’auto-organizador de memória’, gerando um domínio específico, ou seja, os reinos da “evolução cósmica“: 

a) Cosmosfera (nível físico)

Neste 1º nível de ‘complexificação’, emerge o processo auto-organizador, numa memória quântico-holográfica… estruturando no universo… – energia… informação… e… matéria.

b) Biosfera (nível bio-sociológico)

É o 2º nível de complexificação do universo, onde observamos a emergência de um processo auto-organizador baseado na interação de 2 tipos de macromoléculas…os       ácidos nucléicos (DNA e RNA) e as proteínas (estruturais e funcionais), controlado         por um tipo de memória ou código genético… – que estrutura… – e mantém a vida.

c) Noosfera (nível tecno-social)

É o domínio das ideias… o 3º nível de complexificação cósmica, que emerge na evolução da vida como um processo auto-organizador… baseado no “código neural”. – É também dependente do DNA e do RNA, acrescido dos neurotransmissores, e de íons como sódio, potássio, cálcio e magnésio, que permitem a interconectividade neuronal. Este processo que organiza e mantém o funcionamento do cérebro e da mente — corresponde ao nível neuropsicológico, histórico, e sociocultural. Em nossa época… este nível de organização vem se bifurcando em uma Tecnosfera estruturada em nanotecnologias, biotecnologias,     e nano-robótica…com a informação armazenada em hardwares, softwares e na internet.

d) Conscienciosfera (nível espiritual)

O mais elevado e complexo nível de evolução alcançado pelo universo. É um processo auto-organizador gerador de consciência…baseado em campos quântico-holográficos constituídos pelos dendrons (redes de dendritos gerando campos eletromagnéticos)      de John Eccles… – e os teledendrons de fibras finas… – descritos por Karl Pribram.

Estes campos são os responsáveis pela interconectividade ‘holo-informacional‘…local (newtoniana clássica) e não-local (quântica holística), entre o cérebro-mente humano         e a mente-universo. Todo este fluxo universal de holoinformação, ou seja, esta ordem transmitida de modo significativo … por todos os níveis de complexidade do universo, modela os processos auto-organizadores, geradores de consciência na mente humana.

O reencontro entre ‘Ciência & Consciência’ Existe toda uma experiência interna em jogo nos nossos corações e mentes (o “hard problem”) que não é físico, mas fenomenológico, meio kantiano.

O…”hard problem” – (dualismo mente/matéria) como descrito pelo filósofo David Chalmers vem se arrastando…na cultura ocidental…desde que Descartes, no século XVII, dividiu o homem em ‘corpo mental’ e ‘corpo material’ (res cogitans e, res extensa)… Essa dicotomia, desencadeou um ‘esquizofrênico’…movimento filosófico-cultural, que penetrando de forma sub-reptícia em todos    meandros tecnológicos da ‘civilização ocidental’ nos isolou do Cosmos. E hojeela ainda subjaz nas produções científicas e culturais, que então transformaram, esta filosofia…e suas variantes, em mais um – “complexo linguajar dogmático”.

Contudo, desde os anos 70…do século 20 – vem ocorrendo um renascimento do interesse científico sobre a natureza da consciência, que se acelerou imensamente nos anos 90 com a moderna tecnologia de neuro-imagem…que utiliza sistemas de tomografia com emissão de pósitrons, ressonância magnética, etc…e que nos descortinou o “fluxo da  consciência”, descrito por William James, no século 19… E, mesmos nestes anos 90, filósofos da mente, como David Chalmers, clamaram que o “substrato neural” da consciência, não é a mesma coisa que a consciência em si; e que deveríamos estar alertas para o “hard problem” e o “easy problem”. – Este último, que aliás não é tão fácil assim,­ refere-se ao que sabemos sobre funcionamento do cérebro e ‘experiência consciente’, usando a tecnologia moderna.

Já o “hard problem” se trata da nossa experiência interior ao vermos, por exemplo, uma rosa vermelha, ou seja…a qualidade da nossa experiência consciente. — A rosa vermelha que admiramos, tocamos…e, percebemos seu odor característico – não é o mesmo que o substrato neural desta experiência. A ‘vermelhitude‘ e a forma da rosa, não são somente,    os comprimentos de onda (easy problem) que nossos computadores estão descrevendo!!

O fato da física quântica demonstrar ser o observador, com sua consciência uma unidade indivisível…com o processo observação/observado influenciando as medidas, demonstra   a correlação direta – comprovada experimentalmente…da consciência com a informação quântica não-local – o que conduz à constatação que ‘consciência‘, em sua emergência, é geração espontânea de informação; e evidencia uma correlação íntima e profunda, entre informação não-local, consciência e o processo de auto-organização do cosmos e da vida.

A visão “informacional quântico-holográfica não-local do universo”                    O universo concebido como informação quântica não-local nos revela uma visão muito mais abrangente da natureza…do que a clássica concepção científica cartesiana. Por sua natureza quantum-holística – capaz de integrar mente/universo… um cosmos quântico-holográfico não-local é interconectado continuamente – em cada ato consciente … auto-organizando (e criando) nós mesmos e o próprio cosmos, de um modo “autoconsciente”.

David Bohm argumentou… que o universo unificado possui uma natureza holográfica  em uma… ‘totalidade não-local indivisível’.  John Wheeler vendo como a informação é importante…neste caso – descreveu então,  um elegante modelo info-participativo de universo – que é… simplesmente… o mais forte…e fundamental modelo de interação “cérebro/mente & cosmos”… descrito pela ‘ciência da consciência‘. Wheeler, com    seu famoso conceito… it from bit”… fez    unir a teoria da informação quântica    à… consciência… assim como… à física.

Wheeler desenvolveu seu modelo “it from bitestudando as “teorias unificadas” de gravidade quântica nos ‘buracos negros’. Dessa maneira, tal como proposto por Tom Stonier, e David Chalmers… ele considera a “informação quântica” como sendo mais fundamental que energia, matéria…e ‘espaçotempo’. – De acordo com suas palavras:

“Cada coisa…cada partícula…cada campo de força; mesmo o continuum espaço-tempo deriva sua função…sua verdadeira existência… às questões de escolhas binárias… “sim-ou-não”, ou seja… bits. – “It from bit”… simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem… bem lá no fundo – uma fonte de explicação imaterial… – que faz com que a chamada “realidade” surja, em última análise, da colocação da questão ‘sim/não’, e do registro de respostas detectadas por um aparelho. Em suma…que todas ‘coisas físicas’, na realidade… – são ‘informações teóricas’… – e que este é um universo participativo”.

Na Teoria da Informação Quântica, o ‘bit‘ (definido pelas escolhas binárias sim/não) é transformado em ‘qbit‘ (quantum bit)…que permite possibilidades de escolher ambos (sim e não), segundo o fenômeno do emaranhamento quântico (entanglement), onde partículas que…uma vez interagiram – permanecem correlacionadas (“entrelaçadas”) por uma informação instantânea não-local…até sua eventual…(e total) ‘decoerência quântica‘.  Nesta visão…informacional quântico-holográfica não-local do Universoo observador permanece como parte do sistema, enquanto o universo se transforma porque a mente desse observador desencadeia uma transferência de informação, a nível subatômico, cujo resultado é uma “Lei de Conservação da Informação”, tão ou mais fundamental que a Lei de Conservação da Energia. E assim, como afirma Tom Stonier podemos então dizer que:  “Informação é um Princípio Organizacional Cósmico, de status igual à matéria e energia”.

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O princípio holográfico não nasce da Teoria das Cordas, mas ao associar “bits” de informação sobre o interior de um ‘buraco negro’, ao seu horizonte de eventos.

Modelo Holo-informacional da Consciência  Leibinitz, em sua “Monadologia”…foi o 1º a propor um modelo matemático “holográfico” da realidade.

Este modelo unifica as neurociências, e abordagens psicoterapêuticas ‘transpessoais’ – fundamentando cientificamente uma nova ‘cosmovisão holística’ da consciência, mais abrangente do que o “paradigma cartesiano”…Ao ser capaz de explicar os benefícios do velho paradigma, além de justificar o fenômeno da consciência… podemos estar vivendo uma troca de… “visão de mundo” … na ‘história da Ciência’.

Nesta nova visão paradigmática, nosso cérebro é compreendido como parte de uma vasta mente espectral quântico-holográfica, que assemelha-se à própria organização do Cosmo, mas de modo diferente ao proposto pelo panpsiquismo. Somos muito mais vastos do que nossas consciências individuais, e partes ativas de uma complexa estrutura holística… na qual cada consciência contém a informação do todoe pode acessá-la através de estados elevados de consciência que otimizam o tratamento holográfico da ‘informação neuronal’.  Nestes estados alterados de consciência podemos interagir com a ordem espectral oculta, descrita na Teoria da Ordem Implícita de David Bohm, e ainda com uma ordem superior ‘superimplícita‘…proposta por ele – talvez o objeto final de nossa busca… da qual somos feitos… “à imagem e semelhança” tal como o… “objeto real”… que gera o… holograma!  Este tipo de interpretação da consciência é baseado num modelo “quantum-holográfico”  da interação ‘cérebro-consciência-Universo’, e se apoia em 3 pilares da ciência moderna:

1- O modelo dos campos neurais quântico-holográficos, de John Eccles e Karl Pribram;    2- A interpretação causal holográfica da teoria quântica desenvolvida por David Bohm;    3- As propriedades não-locais do campo quântico… elaboradas por Hiroomi Umesawa.

O conceito dinâmico de consciência…baseado em um fluxo de informação não-local quântico-holográfico…interconecta as redes neurais clássicas e a dinâmica quântica cerebral holográfica…com a natureza quântico-holográfica do Universo…Este ‘fluxo       auto-organizador’ é criado pelo modo holográfico da informação neuronal. Estudos            de…’mapeamento cerebral‘…feitos durante a ocorrência desses estados elevados de consciência, mostram um estado altamente sincronizado e perfeitamente ordenado          de ondas cerebrais…em ondas harmônicas únicas; como se todas as frequências, de          todos os neurônios… – de todos os ‘centros cerebrais’… tocassem a mesma sinfonia.     

Esse ‘estado cerebral’, altamente coerente gera o campo informacional e holográfico        cortical não-local…interconectando cérebro humano…ao Cosmo quântico-holográfico,    como descrito na teoria quântica de Bohm. A informação holográfica é distribuída por todo sistema, tal como se toda informação estivesse distribuída por toda rede neural.

“Campos neurais holográficos”

A ‘teoria holonômica’ da atividade cerebral, elaborada por… Karl Pribramcomprovou, experimentalmente – que o funcionamento cerebral, além das famosas “redes neurais”, possui também no “córtex cerebral“, um modo de análise holográfica da informação  chamado holograma neural multiplex,  que usa neurônios de circuitos locais cujos afilados prolongamentos (“teledendrons”),  transmitem ‘impulsos nervosos’ incomuns:

“São neurônios que agem no… ‘modo ondulatório’ – sendo… sobretudo, responsáveis pelas ‘conexões horizontais’ das camadas do ‘tecido neural’, nas quais ‘padrões holográficos de interferência’ podem ser construídos”.

Pribram descreveu uma ‘equação de onda neural’, resultante do funcionamento das redes neurais holográficas, similar à equação de onda de Schrödinger; equação fundamental da teoria quântica. Tal holograma neural se faz, pela interação dos campos eletromagnéticos dos ‘teledendrons‘ e dos ‘dendritosdos neurônios – de modo semelhante ao que ocorre na interação das ondas sonoras no piano. Quando tocamos as teclas de um piano, estas provocam nas cordas vibrações sonoras…gerando padrões de interferência de ondas. A mistura das…”frequências sonoras”…cria a…”harmoniada música que ouvimos.  Pois bem…Pribram demonstrou que um processo similar está ocorrendo, continuamente,  no córtex cerebralgerando um campo harmônico de frequências eletromagnéticas, pela interpenetração dos campos eletromagnéticosdos neurônios adjacentes. Este campo, constituído por padrões de interferência de ondas harmônicas tal como no exemplo do piano descrito acima…pode ser calculado por transformações de Fourier…e funciona tal como o holograma descrito pelo método de Gabor…que se baseia no cálculo inverso. — É um “campo holográfico” distribuído simultaneamente por todo o cérebro…codificando e armazenando em vasto…”biocampode informação” memória‘ e ‘consciência‘.

Transformações de Fourier‘ são formulações matemáticas que descrevem a curva harmônica…resultante das interferências das ondas – as quais Dennis Gabor aplicou o holograma, em um modelo onde o padrão de interferência refaz a imagem virtual‘ do objeto pelo processo matemático inversoOu seja  empiricamente, de uma dimensão espectral de frequências, refaz-se o objeto na dimensão espaço-temporal. – Para Gabor:

“Um novo método para formar imagens óticas, pode ser obtido em 2 etapas. Inicialmente, um objeto é iluminado por uma onda monocromática coerente, onde o padrão de difração resultante da interferência da ‘onda secundária’ do objeto/fundo coerente é registrado em uma placa fotográfica. Sendo esta placa processada…colocada em sua posição original – e iluminada apenas com o fundo coerente, por detrás dela…aparecerá a imagem do objeto”.

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Uma Teoria Unificadora da Mente e Matéria  ‘Relações holográficas’ são invariantes em relação à escala expressas por logaritmos em leis de potência. Por exemplo, a ‘Escala Richter’ de terremotos; onde a potência de energia que estes fenômenos naturais liberam…é diretamente proporcional a 1 frequência.

Como Pribram demonstra de forma brilhante… “Um modo de interpretar o ‘diagrama de Fourier’…é ver a matéria como sendo uma “ex-formação”, uma forma de fluxo externalizada (extrusa). – Por outro lado…o pensamento…bem como sua “comunicação mental”, seriam assim como uma consequência internalizada  (negentrópica) de fluxo, ou sejasua “in-formação”.

Pribram considera esta dimensão informacional espectral do pensamento uma “dimensão pré-espaço-temporal”…e, segundo ele, existem 2 importantes vantagens conceituais nesta formulação: 1) a mente se transforma em ‘in-formação‘, definida quantitativamente pelas descrições termodinâmicas de Gabor e Shannon…e 2) a compreensão que a matéria como a experimentamos…é conceitualmente definida num contexto espaço-temporal específico.  Assim considerando…processos quânticos distribuídos por todo cérebro e organismo, nos permitem conceber uma teoria unificada ‘mente e matéria’, como a ‘totalidade indivisível’ de Bohm, e assim interpretar…o Universo, nosso corpo e consciência – como uma vasta e dinâmica rede holo-informacional inteligente de troca de informações…energia e matéria.

Tal como no piano, onde a harmonia da música que ouvimos não se localiza no piano, mas no campo ressonante que o circunda… – as memórias de um indivíduo não estão localizadas somente no cérebro…mas também, no ‘campo de informação holográfica’  que o envolve, se interconectando de modo não-local ao campo holográfico universal.

Teoria Holo-informational da Consciência Cósmica”                                                  A “Teoria Holo-informational da Consciência” propõe uma natureza informacional quântico-holográfica para a consciência… como propriedade intrínseca, irredutível,        não-local do universo, capaz de gerar ‘ordem’, ‘auto-organização’, e ‘complexidade’.

A teoria Holo-informational da Consciência fundamenta-se na física da informação quântica, na física holográfica, e…”neurociência da consciência”, conforme demonstrado experimentalmente por… Karl Pribam… neurocientista… professor emérito da “Stanford University”… e criador daTeoria Holonômica(holográfica) do funcionamento cerebral.    Pribram propôs sua ‘hipótese holográfica‘ de criação da memória no início da década de 1960, introduzindo a noção de ‘coerência’: “No momento de sua geração, já se manifesta como informação não-local, com dimensão tão básica… e incorporada à ‘ordem cósmica’, quanto a energia, matéria, e espaçotempo”. Hiroomi Umezawa, numa analogia à criação do laser…propôs em 1967 uma teoria do “campo quântico de memória”, incluindo tanto noções de ‘campo’…quanto de ‘coerência’… – É uma consequência desta teoria quântico-fractal (não-local)…desenvolvida por Umezawa… — unificar os campos eletromagnético, nuclear e gravitacional numa “totalidade indivisível subjacente. Assim, sua teoria explica fenômenos microscópicos e macroscópicos – como ‘laser’ e ‘supercondutividade’.

Walter Schemp…criador da ‘teoria quantum-holonômica’…que hoje é a base da técnica deimagens por ressonância magnética, pressupõe que todas as informações sobre os objetos no Universo…mesmo suas ‘formas tridimensionais’, derivam de flutuações no chamado Campo de “Energia do Ponto Zero” … um gigantesco campo de energia de vácuo…preconizado por Puthoff.

Na “Teoria Info-Holográfica” esse campo de energia é informacional, correspondendo ao campo quântico-holográfico universal, ou campo akashicoconforme a terminologia de Ervin Laszlo… onde o ‘vácuo quântico’, por conter toda informação…do ‘Big Bang‘ até os dias de hoje… é também considerado como uma… “consciência cósmica“. – Schempp conseguiu calcular … recuperar e reestruturar essas informações – codificadas no campo holoinformacional como imagens, pelas máquinas de ressonância magnética…utilizando, além de transformações de Fourier e matemática holográfica de Gabor; uma complicada matemática que ele denominou simpletic spinor vector”. E assim… constrói um gráfico expondo como a informação é processada no cérebroconfirmando a teoria de Pribram.  Lynne McTaggart, em seu livro “The Field“…afirma que Pribram poderia, perfeitamente,   ter proposto que nossas memórias fossem uma emissão coerente de ondas, vindas desse Campo… – e que as memórias – a longo prazo…seriam grupos estruturados de ondas de informação. – Isso poderia explicar a ‘instantaneidade’ deste tipo de memória…que não precisa de “mecanismos de rastreamento” para localizar informação, ao longo do tempo.

De toda forma, seja qual for o… ‘mecanismo de recepção’ — que como Pribram,                    Yasue e Scott Hagan demonstraram…está distribuído, pela função holográfica                    de Gabor, também por todo o corpo humano; o cérebro sempre está acessando                    e sendo acessado — por um continuum…”Campo Cósmico Holoinformacional”.

A interação – “cérebroUniverso”  Para Schemp nossas memórias seriam  o fluxo dinâmico “holo-informacional”  entre cérebro/Cosmo – em um campo  quântico-holográfico do “Ponto-Zero”.

Por esta interação obrigatoriamente,    ter que ser uma “conexão não-local”, isso nos conduz na direção do modo “holo-informacional”; onde padrões quânticos cerebrais, com suas redes neurais e campos holográficos… são parte ativa do campo informacional ‘quântico-holográfico cósmico‘. 

Por isso mantêm uma interconexão, conjuntamente…’quântico-holística’                                (não-local), e clássica (local)…isto é, “holoquantum(in)formacional“.

Aplicando a propriedade matemática básica dos sistemas holográficos… em que cada parte do sistema contem a informação de todo ele, mais dados matemáticos da física quântica de Bohm… com dados experimentais das teorias quântica e holográfica de John Eccles, e Karl Pribram, foi proposto que esta interconectividade universal baseada em campos quânticos não-locais de Umezawa, nos permite  acessar toda a informação codificada nos padrões de interferência de ‘ondas cósmicas’. Desde sua origem pois, a natureza holográfica universal faz com que cada parte – cada “cérebro-consciência”…contenha a informação do todo…tal como nas “mônadas” de Leibnitz…Este fluxo holo-informacional ‘mente/universo’ modela os processos auto-organizadores…geradores de inteligência…consciência e espiritualidade na mente humana. Sendo que “espiritualidade” aqui é definida como aquilo que nos religa (do latim ‘religio‘, ‘religare‘…origem da palavra ‘religião’) à nossa fonte cósmica; podendo portanto – ser interpretada como de natureza informacional quantum-holográfica. Assim, podemos estar conseguindo, pela primeira vez, explicar cientificamente a espiritualidade!

Participamos da co-criação desse universo que habitamos, por meio de uma programação cósmica em que o cérebro humano, assim como um teclado, faz a interface informacional mente-universo. Somos parte interativa deste universo quântico-holográfico…e, na teoria proposta, confirmamos a afirmação de John Wheeler: “este é um Universo participativo”.

cerebro-humano-representado-neuronas‘Campo unificado da consciência‘  “Consciência…como matéria, espaço e tempo é aspecto irredutível do cosmo”. 

O Cosmos é constituído por…matéria, vida e consciência, que são atividades significativas… referentes a processos informacionais, ordenados através da evolução cósmica. Um Universo auto-organizado…holisticamente…pleno    de informação (quântica) local e não-local é um “Universo inteligente”, que funciona mais como “mente”…do que ‘máquina’.  Este “campo quântico-holográfico” funcionaria como uma…rede cósmica inteligente.

Poderíamos então, entender esta ‘rede inteligente universal’…como uma Mente Cósmica?  Ou talvez uma “Consciência Holográfica Universal” similar à uma ‘Consciência Cósmica’?

Nesta concepção ‘holoinformacional’ do cérebro e do universo, consciência e inteligência são compreendidos como informação…’ordem significativa‘…no processo mesmo de sua geração; que se auto-organiza e se complexifica progressivamente durante a evolução do Cosmos. Consciência e inteligência são possivelmente níveis de complexidade diferentes, mas podemos afirmar que a dimensão ‘inteligência-informação‘ sempre esteve presente, em todos os níveis de organização da natureza. — Matéria…vida…e consciência…não são entidades separadas…capazes de serem analisadas num arcabouço conceitual cartesiano ‘analítico-reducionista‘…mas, uma “unidade holística indivisível” … um campo quântico ‘holo-informacional’ auto-organizador…que vem se desdobrando há bilhões de anos, em uma infinita e dinâmica evolução cósmica. A partir do Big Bang, ou o que tenha iniciado esta imensa cosmogênese… tal linguagem informacional cósmica, progressivamente, em alguns bilhões de anos…se complexificou, e se auto-organizou… – em termos de energia, matéria, vida e consciência – numa…”embriogênese cósmica”…que já dura cerca de 13,8 bilhões de anos, e da qual somos parte consciente. Estes ‘códigos informacionais’ que in-formam o Universo são aquilo que verdadeiramente nos religa à nossa fonte!…Foram colocados à nossa disposição… – como uma dádiva…que não temos como recusar!…Sua utilização correta pela espécie humana, imersa neste todo gerador de vida e consciência, deve estar direcionada para a preservação desta linguagem universalpor meio de uma Ética pela Vida (nossa responsabilidade moral!) (Francisco Di Biase) (texto base

“Information Self-Organization and Consciousness, Toward a Holoinformational Theory of Consciousness”…artigo publicado em 1999, no “The Noetic Journal”/USA, e… “World Futures, The Journal of General Systems”/Europa; editado por Erwin Laszlo, filósofo da ciência, e teórico em sistemas…Também publicado em 2000, no livro“Science and the Primacy of Consciousness, Intimation to a XXI Century Revolution”…Noetic Press, USA.  ********************************************************************************** “Não é que o mundo das aparências esteja errado, nem que não existam objetos lá, em nível de realidade. É que, se você penetra o Universo…e o vê como sistema holográfico, chega a uma realidade diversa. E essa outra realidade pode explicar coisas…que eram até então cientificamente inexplicáveis, carentes de significantes causais” (K. Pribram) *****************************(texto complementar)*******************************

Caos, Estruturas Dissipativas e Auto-organização por Atratores (estranhos)    “A ciência é obra humana – e não um destino implacável – uma obra que não pára de inventar o sentido da dupla imposição que provoca, assim como fecundaatravés da herança da sua tradição… e do mundo… – por ela interrogado”…(ILYA PRIGOGINE)

Para explicar a consciência, necessitamos, além de uma nova concepção de informação, também de um desenvolvimento unificado da física quântica…capaz de explicar a auto-organização dos sistemas complexos dinâmicos “longe-do-equilíbrio”. Este formalismo, que unificou física quântica, sistemas auto-organizadores ‘fora do equilíbrio’, ‘teoria do Caos’…’lógica da complexidade’, e consciência…foi a proeza intelectual, e o trabalho de vida de uma das maiores inteligências…do século XX – o físico-químico Ilya Prigogine.

Seus estudos sobre processos irreversíveis, fenômenos não-lineares, e sistemas complexos, permitiram o desenvolvimento de uma extensão da termodinâmica clássica… criando toda um nova física, e uma nova matemática acerca do comportamento dos sistemas ‘longe-do-equilíbrio’. – Sua “Teoria dos Sistemas Dissipativos” explica como sistemas complexos são estruturados durante a formação de um estado de dissipação energética, a partir do ‘Caos’; demonstrando como a 2ª lei termodinâmica (lei da entropia sobre a desordem do sistema) pode conduzir processos auto-organizadores, à emergência de novas estruturas de ordem.  Este tipo de auto-organização gera estruturasentão denominadas “dissipativas”, criadas e mantidas por intercâmbios de energia com o ambiente…em condições de não-equilíbrio. São processos dependentes de uma nova ordem, denominada por Prigogine… “ordem por flutuaçõesque vem a corresponder a uma flutuação gigante’… estabilizada afinal, pelas trocas com o meio… Nestes processos a estrutura é mantida por meio de uma “dissipação de energia”, na qual esta se desloca…gerando simultaneamente a estrutura através de um ‘processo contínuo’… – Quanto mais complexa a estrutura dissipativa, mais informação é necessária para manter “interconexões”tornando-a assim mais vulnerável àflutuações internas – gerando maior ‘potencial de instabilidade’…e possibilidades de reorganização.

Sendo flutuações pequenas, o sistema as acomoda, não modificando                                        sua estrutura organizacional. Se, no entanto, as flutuações atingem                                        um tamanho crítico…desencadeiam um…”desequilíbrio” no sistema,                                        ocasionando…novas interações…e, reorganizações intra-sistêmicas.

“Antigos padrões interagem entre si de novas formas…com novas conexões. As partes se reorganizam num novo todo, e o sistema alcança uma ordem mais elevada.” (Prigogine)

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No processo de desenvolvimento de sua teoria Prigogine percebeu a necessidade de criar um modelo de “teoria quântica” que pudesse explicar os fenômenos que surgiam, e assim unificou o conceito de não-localidade à… física da informação, complementando aí, a “teoria quântico-holográfica de David Bohm. – O modo como a relação – “informação/energia” gera fenômenos físicos…harmônicos quântico-holográficos…e ‘fractais‘ no Universo…depende de ‘padrões pré-existentes (‘atratores‘) com 4 tipos:

1-Atrator Linear, em que o processo repete o comportamento anterior, diferentemente do ser humano. Tarefas industriais repetitivas tentam imitar este tipo de comportamento.

2-Atrator Tórus–Símile…em que o sistema evolui com pequenas variações previsíveis.  Comportamentos individuais…e sociais — em que a variação se torna discreta e previsível.

3-Atratores tipo Borboleta, ocorrem quando o sistema é capaz de se adaptar a novos comportamentos conduzidos por atratores denominados “estranhos. Nestes sistemas      o potencial para interferência humana é mais elevado … entrelaçando linearidade e não-linearidade… — com a possibilidade da introdução de … “comportamentos adaptativos”.

4-Caos profundo… — quando o processo extrapola todas probabilidades evolutivas possíveis e compreensíveis, ultrapassando a possibilidade de interferência humana, e emergindo em uma nova forma, inteiramente inesperada…de ordem e complexidade.

Num cosmos evolutivo como o nosso… a complexificação progressiva das estruturas que fundamentam esse universo – incluído aí…a informação, a energia…a matéria…a vida, e consciência, depende da geração de códigos informacionais auto-organizadores, capazes de gerar ordem a partir do caos. Esta ‘complexificação informacional’ tem significado…e reflete a relação entre a organização (entropia)…e a capacidade de variedade do sistema.    Tal complexidade cresce progressivamente a partir das forças gravitacionais e nucleares, intensificando-se na emergência dos sistemas macromoleculares (DNA,RNA, Proteínas)    incluídos na ‘biosfera‘, até alcançar um “estado altamente ordenado de alta variedade,  complexidade, e conteúdo informacional quase infinito, com a subsequente emergência    da…’consciência‘, e ‘noosfera (o ‘mundo das ideias’). (texto base) Francisco di Biase**********************************************************************************

Segredos de uma Mente…”Vazia” (mai/2016)                                                                        Há mais de 50 anos…psicólogos, filósofos, linguistas, neurocientistas, e                            tantos outros especialistas em ‘comportamento humano’…afirmam que                                  o cérebro humano funciona como um ‘computador’. Será isso verdade?

memoria_sono_sonhosPor mais que neurocientistas…e psicólogos cognitivos se esforcem, jamais encontrarão uma cópia da 5ª Sinfonia de Beethoven no cérebro…ou…cópias de palavras…imagens, regras gramaticais…ou qualquer outro tipo de estímulo ambiental. O ‘cérebro humano’ não está realmente vazio…é claro, mas não contém a maioria de coisas, que pensamos ter, nem mesmo coisas – como ‘memórias’. Nossa ‘má interpretação’ sobre tal assunto acumula profundas raízes históricas…mas,  a invenção dos computadores… na década de 1940… especialmente — nos confundiu.

Para se ter uma ideia, considere os cérebros dos bebês‘. Graças à evolução, humanos recém-nascidos, bem como recém-nascidos de todas as outras espécies de “mamíferos”, nascem preparados para interagir efetivamente com o mundo… – A visão de um bebê é embaçada, mas presta especial atenção aos rostos – sendo capaz de identificar sua mãe rapidamente… – Ele prefere o som de vozes a sons aleatórios – podendo…basicamente, distinguir uma voz…de outra…Ou seja, somos concebidos para fazer “conexões sociais”.  Um ‘recém nascido’ saudável, também já é possuidor de mais de uma dúzia de reflexos, condicionados a certos estímulos importantes para sua sobrevivência. Ele gira a cabeça      na direção de algo que toque sua bochecha, para em seguida…sugar o que entre em sua boca…Segura a respiração quando submerge na água. Agarra coisas colocadas em suas mãos com tanta força que quase suporta seu próprio peso. — Contudo, talvez o mais importante sejam os poderosos “mecanismos de aprendizagem” que carregam consigo, que lhes fazem…muito rapidamente, interagir cada vez mais melhor com o seu mundo, mesmo que esse mundo seja bem diferente – daquele que seus ancestrais ​​enfrentaram.

Sentidos, reflexos…e mecanismos de aprendizagem é isso que herdamos… E, se não tivéssemos alguma dessas capacidades ao nascer provavelmente teríamos problemas para sobreviver… – Mas aqui está o que não herdamos – informações, software, regras, conhecimento, léxicos, representações, processadores, programas, modelos, memórias, imagens, sub-rotinas, codificadores, decodificadores, algoritmos, e símbolos. — Não só não nascemos com essas coisas… — como também… não as desenvolvemos… — nunca!

Nós não armazenamos palavras ou regras    que possam nos dizer como manipulá-las,      muito menos…criamos representações de estímulos visuais… — Na realidade as armazenamos em uma estrutura de curto prazo, para…a seguir – transferi-las a um dispositivo de memória de longo prazo.

Também não recuperamos informações, imagens… ou palavras — de registros da memória. — Computadores fazem todas essas coisas… — mas os organismos não.

Os computadores, basicamente, processam informações — números, letras, palavras, fórmulas, imagens… – Mas, para isso acontecer…a informação precisa ser codificada          em uma… linguagem de programação – o que significa padrões de zero e hum (‘bits’) organizados em pequenos grupos (‘bytes‘). Cada byte é composto por 8 bitsonde            cada número ou letra corresponde a certo padrão desses bitsconfigurados lado a        lado, formando quantidades numéricas — palavras…frases e imagens, representadas        em padrões especiais – por milhões desses bytes (‘megabytes), acompanhados por determinados caracteres – especificando assim, a opção de figura, em vez de palavra.      Os padrões se movem de um lugar para outro, em diversas áreas de armazenamento        físico, gravados em componentes eletrônicos. Às vezes, também copiam padrões…ou        os transformam de várias maneiras, por exemplo, ao corrigirmos erros de escrita, ou retocamos uma fotografia (fotoshope)…As regras para mover, copiar…e operar essas matrizes de dados…também são armazenadas nos computadores. O conjunto dessas regras é chamado de ‘programa’…ou ‘algoritmo’. – Um grupo de algoritmos, que nos    ajuda numa operação específica, é chamado “aplicativo”, ou abreviadamenteapp‘.

Computadores operam com…’representações simbólicas’, armazenando,                              recuperando e processando dados, utilizando memórias físicas…e sendo                              guiados, em tudo o que fazem… – sem exceção por algoritmos. – Tais                                procedimentos, por outro lado… os seres humanos nunca tiveram…nem                                poderão ter. Somos organismos, não computadores. Nunca teremos que                              nos preocupar com a mente humana viajando pelo ciberespaço, e nunca                              conseguiremos a imortalidade, através de um download. (texto original) *******************************************************************

A consciência é um…”campo de energia”…afirma biólogo quântico (out/2020)  A hipótese de McFadden se afasta da maioria dos neurocientistas, que geralmente veem a consciência como uma narrativa que nosso cérebro constrói … a partir de nossos sentidos, percepções e ações…Em vez disso, ele retorna a uma versão mais empírica do dualismo, a ideia de que a consciência se origina de algo além de nosso cérebro – neste caso, energia.

consciencia-campo-energeticoUma nova ideia incomum em neurociência sugere que nossa consciência é derivada de um campo de ondas eletromagnéticas emitidas pelos neurônios, quando disparam suas cargas elétricas. A ideia é que essas “ondas de atividade elétrica” sejam enviadas pelos…neurônios, e…à medida que se propagampelas mais variadas áreas do cérebro, orquestram toda a nossa experiência consciente.

A pesquisa publicada no mês passado na revista científicaNeuroscience of Consciousnessfornece mais teoria do que evidências tangíveis…mas Johnjoe McFadden, que é diretor de biologia quântica da “Universidade de Surrey”, Inglaterra, afirma que pode abrir caminho para robôs com pensamentos próprios; ao mesmo tempo em que aponta falhas em outros modelos da consciência, como a razão de não termos uma inteligência artificial ‘senciente’.

Ao recriar essas ondas elétricas em máquinas, ele sugere ser possível aos engenheiros alcançar esse propósito…  “Como a matéria cerebral se torna consciente e consegue pensar… – é um mistério que tem sido ponderado por filósofos, teólogos, místicos…e o público em geral, por milênios”, afirmou McFadden — em um comunicado à imprensa. “Acredito que este mistério foi agora resolvido…e que a consciência é a experiência dos nervos se conectando ao campo eletromagnético autogerado do cérebro, para conduzir      o que chamamos ‘livre arbítrio’, e nossas ações voluntárias.” texto base: (‘hypescience‘)

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Esboço para uma “Termodinâmica Quântica”

“A termodinâmica pode fornecer, em escala quântica, um meio natural de descrever a agitação do espaçotempo, pois sua estrutura matemática está tão bem formulada, que          é capaz de detalhar como ‘flutuações termais‘…podem fazer átomos e moléculas se agitarem… – A termodinâmica é uma teoria tão fundamental … que pode ser aplicada          a qualquer teoria física – inclusive…uma possível…teoria quântica da gravidade“.

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Cosmologistas postulam que, ao redor de 10-43 segundos após o Big Bang … a temperatura cósmica era da ordem de 1032 ºK (mesmo o núcleo do Sol…hoje com 15 milhões de ºC — é gelado…em comparação… com essa temperatura).

Quando um material se torna muito quente – suas partículas…absorvem uma grande quantidade de “energia térmica”. – Sólidos se fundem…e os líquidos vaporizam… – pois… nessa situação extrema, a ‘energia termal’, supera a força…que mantém juntos, seus próprios átomos… e moléculas.

Com temperaturas ainda maiores – os átomos se dissociam em elétrons e plasma de íons, que…por sua vez – é um outro estado da matéria… E, quanto mais energia for adicionada ao sistema, mais sua temperatura continua a subir. No entanto, considerando que há um limite para a energia total no universo, há também…uma temperatura mais alta possível.  Mas, então… – será que poderíamos conceber…fisicamente … o outro extremo da escala?

Na verdade, podemos chegar muito perto… mas nunca ao zero absoluto.                          Isso porque…para chegar à ordem perfeita – teríamos que nos livrar de                              toda desordem. Entretanto, quanto mais o sistema se aproxima desse                            zero absolutomais e mais difícil… – torna-se então excluí-la.

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Temperatura x Velocidade 

Para um gás cujos átomos são bósons…a este gás atribuímos valores de “grandezas físicas”, que o representam macroscopicamente, sem nos preocupar com sua ‘constituição interna’.  Algumas dessas variáveis são… volume que o gás ocupa…pressão sobre paredes do seu recipiente, sua temperatura… Esta última se relaciona com a “energia cinética” devido    à velocidade interna… das partículas do gás.

Assim, quando se mede a temperatura de um gás, se está realmente medindo a velocidade média das partículas que o compõem. – Quanto maior a temperatura do gás…mais rápido estas partículas se movem… – quase sempre… aleatoriamente (“movimento browniano“).

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Mas, graças a Maxwell e Boltzmann … entre outros … também sabemos, que a cada dada temperatura – corresponde um valor médio de velocidade mais frequente, em um maior número de partículas. — Isso pode ser visto, ao traçarmos um gráfico, com o ‘número de moléculas’ (eixo vertical) do gás, em função da ‘velocidade’ média das partículas… (eixo horizontal). Menor a temperatura, menor a velocidade média, e mais partículas agindo.

O aumento do pico de distribuição de partículas…se move para a esquerda…em menor temperatura e velocidade média. Em contrapartida, quanto maior a temperatura, sua distribuição se torna aleatória, com maior probabilidade de velocidades mais elevadas.

‘Condensado de Bose-Einstein’ 

Nos anos 1920 – os físicos Satyendra Bose e Albert Einstein previram, que a temperaturas muito baixas átomos de uma substância, se aglomerariam com o mesmo estado quântico, da menor energia possível. – Esse novo estado da matéria…é o “Condensado Bose-Einstein” (BEC em inglês). Em 1995…resfriando ‘átomos de rubídio’ à temperatura de 50 nanoK, afinal o fenômeno…expôs-se em laboratório.

A pesquisa com temperaturas muito baixas alcançou outro importante avanço em 2004, ao se descobrir que o “hélio sólido” também apresenta propriedades do tipo superfluido, abaixo de 0,2 ºK – indicando assim…que os 3 estados mais comuns da matéria … vapor, líquido e sólido…podem se tornar “condensados”…ao diminuímos a temperatura do gás.

  • Quando baixamos a temperatura de um gás, sabemos que é mais provável que seus constituintes – os átomos do gás tenham a mesma velocidade…e, portanto, mesma ‘energia cinética (correspondente à uma… “velocidade média” – mais provável).
  • Quando reduzimos a temperatura do gás … o comprimento de onda associado com    suas partículas (átomos, neste caso) aumenta. Se o comprimento de onda aumenta, resulta que a incerteza na posição também aumenta. Mas, como sabemos cada vez mais qual a velocidade das partículas de gás, a diminuição da temperatura reduz a incerteza na velocidade…O que é coerente ao princípio da incerteza de Heisenberg.

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Se os átomos do gás são bósons, podem estar todos no mesmo estado… – Neste caso…a única variável que determina o estado de energia das partículas de gás – é a ‘velocidade’…que define a energia cinética… – Portanto…se reduzirmos a temperatura, saberemos que a maioria das partículas estará condensada no mesmo estado de energia…mais baixo. 

Trata-se do principal fenômeno … que ocorre num “condensado“…mas o fato essencial…é a perda de identidade das partículas individuais de gás, todas no menor ‘nível coerente de energia’ – se comportando como partícula única, descrita – por uma única função.

Da figura acima… podemos deduzir que a maioria das partículas do “gás de bósons“,  ao baixar a temperatura…atingem um mesmo “estado de energia mínima“… Nesse caso… o ‘Condensado de Bose-Einstein‘ age como um único sistema quântico…com características próprias, sendo impossível individualizar as partículas que o compõem. 

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“Temperatura crítica”

Considerando a imagem à direita…de um gás cujos átomos aleatoriamente colidem  uns com outros … os consideramos como ‘partículas pontuais‘…pois a distância média entre eles…supera o comprimento de onda médio … associado às partículas.

(Quanto menor a temperatura do gás, maior a distância média entre suas partículas.)

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Diminuindo a temperatura, cada vez mais, chega-se a um nível (imagem ao lado), em que o comprimento de onda, associado às partículas pontuais … faz-se comparável à distância média entre elas. Nesse instante, as partículas passam a apresentar … o seu ‘caráter ondulatório; onde suas ondas se combinam – e se sobrepõem … entre si.

(Esse ponto corresponde à ‘temperatura crítica, que faz com                          que o sistema… altera seu comportamento… drasticamente.)

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Quando então…isso acontece — o sistema passa a ser descrito… por uma única onda…onde partículas individuais…ficam despercebidas.  Além do que…temperaturas mais baixas…significam … velocidades médias menores – sendo assim… ocupados ‘níveis de energia’ cada vez mais baixos (imagem ao lado).

Diz-se que se tem um ‘condensado‘ quando uma fração significativa do número total de partículas está no seu estado de mais baixa energia – estando suas ondas…combinadas de modo que todo sistema é descrito por uma única função… revelando que o ‘condensado  é um sistema eminentemente quântico (mas, podendo ter tamanho macroscópico).

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Obviamente, se formos capazes de reduzir a temperatura de um gás de bósons à zero ºK, todas as partículas do gás (imagem ao lado) formariam o ‘condensado‘. Por isso este é um sistema que pode ter enorme ‘número de partículas‘ – todas no mesmo ‘estado’, no qual o conjunto se comporta de forma consistente… (sem ‘partículas individuais’).  Diz-se então…que esta é a manifestação macroscópica de um estado totalmente quântico.  ***********************************************************************************

Violações da 2ª Lei Termodinâmica (em nanoescala)                                                      “Quando damos um ‘zoom’ até o mundo nanoscópico dos                                                    átomos e moléculas… – esta lei perde seu rigor absoluto”.

A maioria dos processos na natureza não pode ser revertido, o que se caracteriza por umaseta do tempo‘. A lei da física para tal é a 2ª Lei da Termodinâmica… postulando que  a entropia de um sistema (medida da desordem) nunca diminui espontaneamente, o que implica naturalmente numa alta entropia, em vez de ‘ordenado’ (com baixa entropia).  Apesar da ‘2ª Lei Termodinâmica’ geralmente permanecer válida – em todos os sistemas, há alguns eventos raros que questionam a irreversibilidade temporal em nanoescala. Um teorema para tentar explicar essas exceções… foi proposto por Jan Gieseler, e sua equipe.  Os pesquisadores da ‘Harvard University’ colocaram seu teorema à prova utilizando uma ‘nanoesfera’ de vidro, com diâmetro inferior a 100 nanômetros… levitando num “aparato    a laser”… no qual a ‘nanoesfera’ é agitada por colisões – com as moléculas do ar ao redor.

Mantendo a nanoesfera estática, foi possível medir sua posição                        em todas as 3 dimensões espaciais com uma excelente precisão.

Usando resfriamento também a laser, os cientistas atingiram uma temperatura para a nanoesfera, inferior à do gás circundante…em um “estado de não-equilíbrio”…Depois,  desligaram o resfriamento, a monitorando, enquanto era naturalmente aquecida até à temperatura mais elevada do ‘gás ambiente’. – Como resultado…o experimento então, confirmou as limitações da 2ª Lei…em escala atômica e molecular; pois…ao substituir        o ‘determinismo’ da lei em macroescala, pela imprecisão probabilística da nanoescala,      ao invés de absorvera nanoesfera libera calorao ambiente mais quente.

Assim, o quadro experimental demonstra que… – conforme a miniaturização avança para escalas cada vez menores, as condições são cada vez mais aleatórias … inaugurando assim nova área de pesquisa em física de sistemas em nanoescala fora do equilíbrio. (texto base)  ************************************************************************************

(s) leis da termodinâmica (quântica)

Sabe-se que a 2ª lei termodinâmica (clássica)  assume que o Universo se situa…num ‘estado de crescente desordem‘…Agora, um grupo de pesquisadores da College University, London,  garantiu que em nanoescala quântica, não há só uma…mas, várias 2ªs leis termodinâmicas.

Aliás, por ser a 2ª Lei Termodinâmica, basicamente…uma descrição estatística… que só vale para um número suficientemente grande de partículas (num sistema fechado)… há alguma resistência em chamá-la de “lei”… Por isso…é muito importante saber se esta se manteria válida em ‘sistemas quânticos‘ — com um número extremamente reduzido de partículas. E surpreendentemente a pesquisa mostrou que a desordem também tende a crescer nos sistemas em nanoescala, validando a 2ª Lei Clássica em sistemas quânticos.

Há, porém “2ª leis adicionaisrestringindo a forma como essa desordem pode aumentar. E estas podem ser interpretadas como havendo muitos tipos diferentes            de desordem em nanoescala (todas diferentes da conhecida ‘entropia‘) tendendo a aumentar com o tempo… — como assim explica o professor Jonathan Oppenheim:

“Embora uma ‘casa quântica’ fique mais bagunçada, em vez de arrumada,                        como uma casa normal – nossa pesquisa mostra que… as formas com que                          ela fica mais bagunçada… – são limitadas … por uma série extras de leis”.

Se não fosse estranho o suficiente, a forma como estas segundas leis interagem umas com as outras, pode até mesmo, fazer com que pareça que a tradicional 2ª Lei Termodinâmica foi violada…Nessas aparentes violações, o que ocorre é que um pequeno sistema quântico pode ficar mais ordenado ao entrar em contato com outro sistema maior – mas este…por sua vez, fica mais desordenado, ainda que seja difícil de detetar…por ser o sistema muito maior do que o outro… Assim, o efeito líquido é uma desordem ainda maior. (texto base)  **********************************************************************************

Demônio atômico de Maxwell faz sua própria Lei Termodinâmica  (fev/2017)

demonio-maxwellQuando as coisas são muito miniaturizadas… – a ‘geração aleatória de calor’… passa a ser um forte obstáculo ao avanço nanotecnológico… À medida que “nanodispositivos” ficam cada vez menores e mais complexos; feitos com peças de tamanho de  moléculas, ou mesmo de átomos… – eles têm um risco maior de gerar flutuações quânticas em seu funcionamento. – Essas flutuações são variações abruptas e imprevisíveis de energia…regidas por leis probabilísticas da mecânica quântica. — São reduzidas… – mas com potencial suficiente para danificar os super-sensíveis “nano-mecanismos”.

Em vista disso…um grupo de físicos brasileiros acaba de elaborar uma técnica… capaz de atenuar a produção dessas flutuações de calor, baseando-se na chamada “termodinâmica quântica fora do equilíbrio”… novo campo de pesquisa que abrangerá o estudo prático de dispositivos em escalas molecular e atômica – como, por exemplo…chips de computador.   Para desenvolver essa nova técnica…os cientistas se inspiraram no demônio de Maxwell; um ser imaginado pelo físico e matemático James Maxwell (1831-1879). No experimento mental…o Ser controlava uma torneira, separando 2 recipientes iguais…ambos cheios de um gás, no início, à mesma temperatura. Ao abrir… e fechar a porta… a criatura poderia ordenar as partículas do gás… – passando as lentas e frias para um lado… e, dirigindo as rápidas e quentes para o outro lado da parede…criando assim uma diferença (gradiente) de temperatura. – Como a 2ª lei termodinâmica estaria sendo ‘violada’…o físico William Thomson (Lorde Kelvin), ironicamente… – batizou o ser de… “Demônio de Maxwell“.

Desde então já foram criados em laboratório mecanismos semelhantes ao imaginado por Maxwell, cada vez menores, mas a equipe brasileira é a 1ª    a projetar um demônio de Maxwell totalmente quântico… a nível atômico.

Em um ‘laboratório’ do “Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas” (CBPF), Rio de Janeiro,    os pesquisadores dispararam um pulso de ondas eletromagnéticas…contra uma solução    de moléculas de clorofórmio (CHCl3), precisamente ajustado para provocar ‘flutuações‘  na ‘energia nuclear’ dos “átomos de carbono”…das moléculas. – Adicionalmente, foram disparadas ondas eletromagnéticas ajustando a interação do núcleo de carbono de cada molécula, com o seu ‘núcleo de hidrogênio’. O controle dessas interações, permitiu usar este núcleo como um “demônio de Maxwell”, armazenando informações sobre o estado    do núcleo de carbono. Em função do seu nível de energia, o núcleo de hidrogênio ‘entra      em operação’, limitando flutuações energéticas do vizinho. A ação exercida por núcleos    de hidrogênio, faz com que flutuações de energia dos núcleos de carbono…produzam o mínimo de entropia possível… – como explicou Roberto Serra, coordenador da equipe:

“Projetamos esse processo, por meio de uma equação matemática               que deduzimos, relacionando…informação, entropia e energia. A               equação é bem geral…e poderá ser aplicada… – não só a núcleos       atômicos, mas a todo sistema quântico…como elétrons e fótons.” 

E o físico Vlatko Vedral, da Universidade de Oxford, Inglaterra… que participou do experimento realizado em 2016 no qual se usaram feixes de laser para produzir um demônio de Maxwell, assim comentou…“É um trabalho empolgante. Eles testaram        uma fórmula que descreve a produção de entropia em sistemas quânticos – e…essa abordagem pode ajudar a entender a origem da 2ª lei termodinâmica.” (texto base)

consulta: Cientistas constroem a nanomáquina conhecida como Demônio de Maxwell  (2007) ## Demônio de Maxwell manipula calor e balança leis da termodinâmica (2016)  **********************************************************************************

ice-crystals

Questionando a 3ª Lei Termodinâmica

A 3ª Lei da Termodinâmica estabelece que…à medida que a temperatura de uma substância move-se ao ‘zero absoluto’ (matematicamente, a menor temperatura possível)…sua entropia, ou melhor – o comportamento ‘desordenado‘ de suas moléculas — também se aproxima de zero… – e, estas assim… – deverão se alinhar num ‘padrão fractal’…previamente ordenado.

Mas, recentes pesquisas de John Cumings, da Universidade de Maryland /EUA, acabam de demonstrar que a coisa não é tão simples assim. No processo de cristalização da água, por exemplo, sua transformação em gelo não é um processo totalmente entendido. — Os livros-texto afirmam que as moléculas d’água movem-se cada vez mais devagar, quando      a temperatura começa a cair… – Até que…ao atingir 0º C … elas assumem posições fixas, fazendo com que a água passe do estado líquido… para o estado sólido – formando gelo.  O que acontece ao nível molecular…porém, é muito mais complicado do que isso, afirma Cumings… E, mais importante – parece estar em contradição com aquela que é uma das mais fundamentais leis da Física… a ‘3ª Lei Termodinâmica’… Muito embora os átomos de oxigênio fixem-se para formar uma estrutura cristalina bem ordenada…o mesmo não acontece com os átomos de hidrogênio. – Como Cumings…tenta assim, melhor explicar:

“Os átomos de hidrogênio param de se mover…mas…eles simplesmente param no lugar onde estão… em configurações diferentes ao longo do cristal… sem nenhuma correlação entre si, e nenhum deles baixa sua energia o suficiente para reduzir sua entropia a zero”.

Pela 3ª Lei termodinâmica…vimos que a entropia de todos materiais cristalinos puros move-se em direção a zero… quando suas temperaturas movem-se em direção ao zero absoluto… Ora, o gelo é uma substância cristalina pura – mas, parece que apenas seus átomos de oxigênio obedecem à Lei. Pode ser que o gelo venha ordenar-se totalmente, depois de longos períodos de tempo, sujeitos a temperaturas muito baixas…mas isto é      apenas uma mera suposição… não tendo sido ainda demonstrado experimentalmente.  ********************************************************************************

agua-gelo

“Transição de fase quântica”

Coloque um cubo de gelo em uma vasilha d’água quente…e ele perderá estabilidade, fundindo-se totalmente…As moléculas do gelo…e as moléculas da água…vão atingir o equilíbrio termal…alcançando a mesma temperatura, tornando-as indistinguíveis.  E assim…um cristal sólido bem ordenado acaba…na “forma caótica” de um líquido.

Do ponto de vista quântico, porém – nessa transição para um equilíbrio termal…entre o estado ordenado inicial e o estado amorfo final, emerge algo assim como um…”estado intermediário quase estacionário“.

As transições de fase mais conhecidas…são aquelas que marcam a passagem do gelo para água, e da água para o vapor. – Nessas transições…a matéria muda entre estados mais ou menos ordenados – dependendo se a temperatura desce ou sobe. – Entretanto, para uma temperatura hipoteticamente fixada no zero absoluto… e com um outro parâmetro, como   a pressão variando…essa transição de estado ocorrerá sem qualquer variação de entropia, ou seja, numa transição de “ordem para ordem“. Apenas para destacar a importância prática disso… é na vizinhança do zero absoluto que uma ‘transição de fase’ com entropia zero apresenta a emergência de um fenômeno bem conhecido… – a ‘supercondutividade‘.

Contudo, há outras possibilidades… — Os materiais “ferroelétricos”          contêm dipolos elétricos nas ‘células’ de sua rede cristalina. Devido                às interações entre eles … os dipolos podem alinhar-se, resultando                assim… – em “campos elétricos” ordenados… permeando o cristal.

Variando a pressão ou a química, os ferroelétricos podem ser ajustados para um “regime quântico crítico” – no qual… as flutuações dos dipolos passam a ocorrer em um ‘espaço quadridimensional’ e assim além das coordenadas espaciais x, y e z, deve-se levar em conta o tempo envolvido nas “vibrações internas“… dentro da “rede cristalina”.  p/consulta:Como as coisas fervem no mundo quântico” # “Calor se movendo pelo vácuo************************************************************************************

Radiação termal x Lei de Plack  

Em 1900 o físico Max Planck havia estruturado uma fórmula — lei da radiação dos corpos negrosque descreve a radiação de calor que os corpos emitem… – como função da sua temperatura – fundamentando    a física quântica…A teoria descreve    a “radiação” de ampla variedade de objetos: da luz emitida por estrelas, até a invisível radiação de calor; só vista em câmeras do infravermelho.

Contudo, embora a teoria possa ser aplicada a muitos sistemas diferentes,                          o próprio Planck já sabia que não era universal, tendo que ser substituída                        por uma teoria mais geral, quando partículas diminutas fossem incluídas.

Christian Wuttke e Arno Rauschenbeutel da Universidade de Tecnologia de Viena, trabalhando não com distâncias…mas especificamente com dimensão e geometria            das partículas; conforme previsto por Planck, verificaram experimentalmente que, em objetos menores, que o comprimento de onda da radiação termal (‘fônons‘)…o        calor não se irradia do mesmo modo eficiente como verificado em corpos maiores

“A radiação térmica de um pedaço de carvão pode ser descrita pela lei de Planck,            mas o comportamento das partículas de fuligem…na atmosfera, por exemplo, só            pode ser descrito por uma teoria mais geral…pois, micropartículas levam muito              mais tempo para alcançar a ‘temperatura de equilíbrio’… – do que uma simples aplicação da… ‘lei de Planck’… – poderia então sugerir”. (Arno Rauschenbeutel)  ***************************************************************************

Uma nova definição de temperatura e calor                                                                      É fascinante que os seres humanos descobriram um jeito de medir                                        a temperatura… muito antes de sabermos realmente – o que ela é”.

Assim como o som, o calor é uma vibração da matéria, diferindo, na frequência de suas vibrações – enquanto o som é formado por vibrações de baixa frequência, até a faixa dos kilohertz (milhares de vibrações por seg)…o calor é formado por vibrações de altíssima frequência…na faixa dos terahertz (trilhões de vibrações por segundo). Tecnicamente…é uma vibração da rede atômica de um material – podendo ser descrita, como um feixe de fônons – uma espécie de “partícula virtual“… análoga aos fótons que transmitem a luz. 

O Sistema Internacional de Unidades definiu a unidade de temperatura – a ‘temperatura Kelvin’ – o grau Celsius etc; pela temperatura do ponto triplo da água … o ponto no qual, a água no estado líquido, bem como gelo sólido, e vapor…podem existir em equilíbrio. Esta temperatura padrão foi definida exatamente como 273,16ºK. – Todas medições de temperatura feitas…são uma avaliação de, quão mais quente, ou mais frio um objeto está…quando comparado a este ‘valor universal‘.

Porém, conforme se tornou necessária ‘precisão crescente’ na medição da temperatura, fixar uma única temperatura como padrão tem-se tornado cada vez mais problemático, especialmente quando se trata da medição de temperaturas extremamente quentes, ou extremamente frias. A solução então, é redefinir o ‘Kelvin’…usando uma constante fixa      da natureza…A sugestão hoje mais aceita consiste em usar a “constante de Boltzmann“, calculada pela técnica da “termometria acústica“… 

A “constante de Boltzmann” estabelece a quantidade de energia…ao nível                          das partículas individuais, que corresponde a cada grau de temperatura. 

Para isso, a equipe de Michael de Podesta do Laboratório Nacional de Física da Grã Bretanha, fez medições precisas da velocidade do som no “gás argônio“, por meio          de um “ressonador acústico“. As medições permitiram calcular a velocidade média          das moléculas do gás, e assim o valor médio da energia cinética delas… A partir daí,            a constante de Boltzmann foi calculada com uma precisão sem precedentes… Logo:

“Agora sabemos que a temperatura de um objeto se relaciona à ‘energia                            cinética’ dos constituintes. Ao tocarmos um objeto, e ele parecer ‘quente’,                          estamos sentindo o ‘zumbido’ das vibrações atômicas…A nova definição                            liga esta realidade física…diretamente…à sua unidade de temperatura”.  ********************************************************************

zero-absoluto

Esquema da entropia como uma função da energia para sistemas com limites superior e inferior de energia. [Rapp et al./PRL]

Baixa entropia p/ temperaturas negativas

Em 2005, o físico Allard Mosk, da ‘Universidade de Twente’, Holanda, idealizou um experimento, que daria mais chances de estudar temperaturas negativas… – Inicialmente… ‘lasers‘ são usados para agrupar átomos…até formar uma bola bem coesa … em um estado altamente ordenado… ou seja, de baixa entropia. Logo após, outros lasers são disparados sobre os átomos..para criar uma matriz de luz (‘grade ótica’)…que circundaria os átomos … numa série de poços de baixa energia.

O 1º conjunto de lasers é então reajustado, de modo que eles passam a tentar desconstruir a ‘bola de átomos’, deixando os átomos num estado instável, como se equilibrados no pico de uma montanha, prestes a rolar ladeira abaixo. A grade ótica por sua vez funciona como  uma série de fendas ao longo da montanha, travando a ‘descida’ dos átomos. Neste estado, remover parte da energia potencial dos átomos, levando-os a rolar, e se distanciar uns dos outros…levaria à maior desordem – e…à um sistema de temperaturas absolutas negativas.

Isso já havia sido feito em experimentos com ‘núcleos atômicos’ colocados em um campo magnético – sob o qual estes agem como minúsculos ímãs…alinhando-se com o campo…Quando o campo é subitamente revertido – os núcleos momentaneamente se alinham na direção oposta àquela que corresponde ao seu menor…’estado de energia‘… Na fração de tempo em que permanecem nesse ‘estado transitório’ – se comportam de forma coerente com a de um sistema com temperaturas absolutas negativas…Porém, como os núcleos só alternam entre 2 estados possíveis (paralelo, ou oposto) – logo…se realinham ao ‘campo’.

A ideia de Mosk foi posteriormente refinada pelo físico alemão Achim Rosch, e colegas, da Universidade de Colônia. O grande avanço… é uma nova forma de testar se o experimento realmente produzirá temperaturas negativas absolutas…Assim, conforme explicou Rosch:  “Como átomos no estado de temperaturas negativas … têm energias relativamente altas, eles deverão se mover…mais rapidamente – quando liberados da ‘armadilha’… – do que ocorreria com uma nuvem de átomos com temperatura positiva. Pode-se usar isso para estudar a criação de novos estados da matéria…em regimes ainda não bem conhecidos”************************************************************************************

A relatividade do zero absoluto                                                                                              Zero ABSOLUTO é um termo que impressiona… Soa como um limite inviolável, além do qual é impossível pensar em qualquer experimento…Mas, na realidade, há um estranho reino de ‘temperaturas negativas absolutas’…abaixo do “zero absoluto”…que não só são previstas pela própria teoria – como também já se mostraram alcançáveis…na prática.

temperato

A temperatura termodinâmica é definida pela forma como a adição…ou remoção de energia, afeta a quantidade de desordem…ou entropia, em um sistema. — Para aqueles sistemas com temperaturas positivas que nos acostumamos, o acréscimo de energia…aumenta a desordem. Por exemplo aquecer um cristal de gelo, vai transformá-loem um líquido desordenado

Entretanto…se quisermos remover a energia, podemos chegar cada vez mais perto do ‘zero graus absoluto’…que, na ‘escala de Kelvin‘…é estabelecido a (- 273,15 °C); representando o mínimo da entropia, e energia do sistema. Já para sistemas de temperatura abaixo do zero absoluto, somar energia reduz sua desordem, ou temperatura…Contudo, eles não são frios, no sentido de que o calor irá fluir para eles, a partir de sistemas, com temperatura positiva.

Na verdade…os sistemas com temperaturas absolutas negativas têm mais átomos em estados de alta energia do que é possível…mesmo nas mais elevadas temperaturas na escala das ‘absolutas positivas’… Desse modo, o calor deve sempre fluir deles, para os sistemas acima de zero Kelvin. Portanto…não dá para criar sistemas de temperatura negativa de forma suave e contínua sempre baixando a temperatura, já que não será possível romper a barreira do zero absoluto da maneira usual. Entretanto, é possível saltar sobre essa barreira, indo diretamente…de uma temperatura absoluta positiva, acima do 0º absoluto – a uma temperatura absoluta negativa abaixo do 0º absoluto. 

Temperaturas negativas “absurdas”para um “Calor absoluto”                            Devido à forma como a temperatura é definida… não há uma transição                            suave entre temperaturas absolutas…positivas e negativas – tão logo a                            distribuição de energia é invertida… – atinge-se um “calor descomunal”.

calor infernalA escala de temperaturas absolutas — conhecida como escala Kelvin…é um dos conceitos centrais da física. Por definição… nada pode ser mais frio do que o zero absoluto, estabelecido em K, ou (-273,15 °C). Contudo há muito os físicos sabem, que – abaixo do zero absoluto, há todo um reino de ‘temperaturas absolutas negativas’…Em 2011, um grupo de físicos teóricos… – (Mosk & Rosch) demonstrou que, se não é possível…suavemente, passar pelo zero absoluto, como acontece na escala Celsius…é possível saltar o 0ºK…e ir diretamente para esse reino ainda inexplorado. Agora, uma outra equipe demonstrou na prática como ir abaixo do zero absoluto. E a realidade mostrou-se impressionante… pois,

abaixo do quase inatingível frio absoluto… – estão algumas                              das temperaturas mais quentes, já observadas no Universo.

Distribuição de Boltzmann (normal & invertida)

Simon Braun e seus colegas da Universidade de Munique, obtiveram a temperatura absoluta negativa movendo átomos em um gás ultrafrio. – Na escala Kelvin normal,          de temperaturas absolutas positivas, temperatura é proporcional à ‘energia cinética’  média das partículas. Mas nem todas partículas têm a mesma energia – na verdade,          há uma distribuição de energia, onde… estados de baixa energia são mais ocupados,            do que estados de alta energia… isto é conhecido como “distribuição de Boltzmann”.

kelvin-negativo

O experimento pode ser comparado a esferas em uma superfície ondulada. Nas temperaturas positivas (esquerda) a maioria das esferas fica nos vales, em seu estado de energia mínimo, quase imóveis – uma distribuição de Boltzmann normal. Em uma temperatura infinita (centro), as esferas se distribuem uniformemente nos dois estados. Na temperatura absoluta negativa (direita), entretanto, a maioria das esferas vai para os picos, no limite superior de energia potencial (e cinética). Nos estados com energia total mais elevada ocorre mais frequentemente uma distribuição de Boltzmann invertida. [LMU/MPG]

No caso das temperaturas Kelvin negativas…a distribuição é invertida, e os estados de alta energia são mais ocupados do que os estados de baixa energia. O resultado é um calor que se aproxima do estado mais quente que se pode obter quanto mais próximo a temperatura absoluta negativa está do zero absoluto. A inversão drástica dos estados de energia…numa distribuição invertida de Boltzmann…faz com que a temperatura sub-Kelvin não seja mais fria, mas incrivelmente quente…Como Ulrich Schneider, coordenador da equipe, explicou:

“É ainda mais quente do que qualquer temperatura positiva – a escala de                          temperaturas não vai até ao infinito… – ela salta para valores negativos”. 

Segundo o pesquisador, essa contradição é apenas aparente…nascendo do                        modo como ‘temperatura absoluta’ tem sido definida, ao longo da história.                      Na verdade, o experimento abre a possibilidade de uma nova definição de    temperatura… – o que pode fazer com que esta “contradição” desapareça.

termometro

Átomos de potássio puderam atingir bilionésimos de 1 Kelvin abaixo do zero absoluto (FONTE)

Temperatura absoluta negativa

A inversão dos estados de energia das partículas num sistema ultrafrio não pode ser realizada em um sistema natural – como a água, por exemplo, porque o material teria que absorver quantidade infinita de energia…Mas a coisa é bem diferente, quando se trabalha com um sistema…no qual as partículas (‘átomos’) tenham um limite superior      de energia. — Simon Braun… trabalhou com um sistema artificial composto por cerca de 100 mil átomos numa ‘câmara de vácuo’…o que os torna perfeitamente isolados do ambiente externo. Os átomos foram resfriados, a uma temperatura de alguns bilionésimos de Kelvin… – Estes átomos foram então capturados por “armadilhas óticas”, produzidas por feixes de raios laser, e dispostos      em uma… “matriz”… – perfeitamente ordenada.

Cada átomo…por tunelamento, poderia mover-se do seu local na matriz ótica para o local vizinho, mas sem perder algo que é fundamental para o experimento… – ao contrário dos sistemas naturais – as partículas da matriz ótica…possuem um limite superior de energia. Assim, a temperatura do sistema não depende apenas da energia cinética, mas da energia total das partículas…incluindo as energias potencial e de interação, ambas igualmente com um limite superior impostas pelo experimento. – Em condições normais…os átomos tenderiam a escapar da rede ótica, colapsando e aglomerando-se de novo em uma nuvem disforme sugada para baixo pela gravidade…Mas a ‘rede ótica’ foi ajustada para que fosse energeticamente favorável aos átomos permanecer em suas posições ordenadas. – Sendo então levados até seu nível superior de ‘Energia total’ – materializando uma temperatura absoluta negativa de alguns bilionésimos de ºK … em um sistema que se manteve estável.

Motor com eficiência maior que 100%

Matéria em temperaturas negativas absolutas pode ter consequências sem precedentes…    Com um sistema robusto o suficiente poderá ser possível criar motores a combustão com uma eficiência energética que supere os 100%. E isso não significa uma violação da lei de conservação de energia…esse motor hipotético poderia… não apenas absorver energia do meio quente, executando um trabalho semelhante aos ‘motores normais‘ – mas também, extrair energia do meio mais frio, executando um trabalho adicional… Sob temperaturas absolutamente positivas – o meio mais frio inevitavelmente se aquece…absorvendo uma parte da energia do meio mais quente… – o que impõe um limite à “eficiência” do motor.  Contudo, se o meio quente tiver uma temperatura absoluta negativa, é possível absorver energia dos 2 meios simultaneamente. – O trabalho realizado pelo motor será, portanto, maior que a energia retirada apenas do meio quente; sua eficiência será superior a 100%.

“Desafiando a gravidade”                                                                                                      O experimento se baseia no fato de que os átomos no gás não se repelem                          uns aos outros, como nos gases normais… Na verdade, eles interagem de                            forma atrativa… ou seja… os átomos exercem uma pressão negativa“.                          

O experimento tem também um impacto direto para o campo da cosmologia, mais especificamente, sobre a “energia escura“, uma força ainda desconhecida que os cientistas utilizam para explicar a aceleração da expansão do Universo… O teste da temperatura absoluta negativa revelou um fenômeno que…desafiando a gravidade,          age no sentido contrário, exatamente como se propõe que a ‘energia escura‘ o faça.

Com base apenas nas forças conhecidas, o universo deveria estar se contraindo          devido à… atração gravitacional… – entre todas as massas que o compõem.                      A nuvem de átomos tenderia naturalmente a se contrair… — devendo colapsar,          exatamente como em um Universo onde apenas a gravidade estivesse atuando.                Mas isso não acontece justamente por causa da temperatura absoluta negativa, extremamente quente…e o gás não colapsa…exatamente como nosso Universo.  *************************************************************************

“Antes que o inferno congele…”                                                                                              Pensando na física clássica, essa ideia não faz sentido, mas, para sistemas                        quânticos… – a definição clássica de temperatura também não faz sentido.            

Sabemos desde cedo que a temperatura de um gás se relaciona à energia cinética das partículas, pela velocidade com que elas se movemPensando assim, deve existir um limite no qual as partículas têm o mínimo de energia cinética e estão “paradas”Este limite foi definido, em 1849, por William Thomsonmais conhecido por Lord Kelvin, como sendo o… “zero absoluto” cuja temperatura corresponde a -273,15 ºC. — Mas, nesse caso então o que significaria ter uma temperatura abaixo do “zero absoluto”?

temperatura

Entropia‘ é um conceito que tem a ver com a ‘desordem‘ de um sistema, e…a 2ª lei da termodinâmica diz que esta sempre aumenta, determinando então…o “fluxo dos acontecimentos”.

A definição de ‘temperatura‘… por sua vez, leva em conta a distribuição energética das partículas de um ‘gás’,  e…assim – determina a sua entropia. 

Para baixas temperaturas…usamos a temperatura termodinâmica, definida em termos da ‘variação de entropia’. – Nesse caso então, pode-se atingir uma ‘temperatura negativa‘  quando a variação de energia é positiva; isto é, todas partículas estão num estado de máxima energia, e a entropia decresce (nesse caso, só há 1 estado de ‘máxima energia’).  Em um sistema ‘sem energia máxima’, pode-se adicionar energia que as partículas vão se espalhar entre os níveis(cada vez para os mais altos) – representando uma situação em que ‘a temperatura aumenta. Porém, em um sistema com uma ‘energia máxima fixa’, conforme acrescentamos energia… – as partículas tendem a ficar juntas … diminuindo a entropia nesse estado de energia máxima … o que representa “temperatura negativa.

O importante é salientar que a ‘temperatura negativa’ é um estado formal, pois um estado com temperatura negativa sempre tem muito mais energia – que outro…com temperatura positiva (qualquer) – e, portanto…sempre cede calor a este… Assim, temperatura negativa é muito… mas, muito quente!… – E, além disso…apenas são alcançadas…por meio de uma ‘transição brusca‘… – não passando pelo zero absoluto, que continua sendo inatingível ************************************************************************************

gelo_quebrado

‘O Grande Resfriamento’                                  Segundo a teoria, o universo pode ter trincas em        sua estrutura – geradas em seu “congelamento”. 

Um grupo de físicos está propondo… – que aqueles  problemáticos femtossegundos iniciais do universo, quando, nada do que se conhece em física funciona, podem ser semelhantes…ao congelamento da água. Para eles, esses “momentos primordiais” poderiam ser modelados de uma forma que lembra a água se congelando. A teoria é conhecida como “Big Chill” (“Grande Resfriamento“)… – e teria ocorrido… imediatamente após o acontecimento…Big Bang.

O Big Bang é imaginado como um tipo de expansão que gerou algo similar                            ao plasma – extremamente quente e denso… – que desde o início, começou                            a esfriar. Mas, a forma como algo esfria, depende da estrutura desse algo.

James Quach e seus colegas afirmam que… o nosso entendimento da natureza do Cosmo pode melhorar – se prestarmos atenção às trincas e rachaduras…comuns a todos cristais, incluindo gelo d’água. Para ele…“Einstein assumiu o espaço e o tempo contínuos, fluindo uniformemente, mas agora acreditamos que esta hipótese não pode ser válida em escalas reduzidas. – Uma nova teoria… conhecida como ‘Quantum Graphity‘… – sugere que o espaço pode ser formado por blocos indivisíveis… – como os átomos… – Esses ‘blocos de construção do espaço’ podem ser pensados como semelhantes aos ‘pixels’…que formam uma imagem em uma tela porém, tão pequenosque é impossível vê-los diretamente”. 

A teoria ‘Quantum Graphity‘ – proposta em 2006… estabelece que o espaço emerge de estados de baixa energia dos graus de liberdade de uma rede dinâmica. Dessa maneira, propriedades como a velocidade da luz, e o nº de dimensões do Universo…emergiriam     de “interações” (como a massa das partículas emerge do campo do “bóson de Higgs“.)        Os pontos no ‘espaçotempo’ … (os pixels usados na comparação do pesquisador) – são representados por diminutos ‘nós‘ conectados por links, que podem estar “ligados” ou “desligados” … os nós “ligados” possuem variáveis de estado adicionais que definem o Universo resultante. – A novidade…é que Quach e colegas acreditam ter achado agora,       um modo de ver essas ‘partículas de espaço‘ indiretamente…Como ele mesmo explica:

“Pense no início do Universo como sendo um líquido. Então, conforme o Universo vai se esfriando, ele ‘cristaliza’ para as 3 dimensões espaciais, e uma temporal que vemos hoje. Teorizado desta forma…conforme o universo esfria… seria de se esperar que se formem rachaduras, semelhantes às fendas que se formam quando a água se converte em gelo.”

Se assim for…acreditam eles, alguns desses defeitos na estrutura do espaço poderiam ser detetáveis. Afinal, se o universo passou por uma fase de congelamento, com suas ‘trincas’ decorrentes, então estas poderiam ser observadas, pois – a princípio, deveriam interferir com a propagação da luz … como defende Andrew Greentree — um dos autores da teoria:

“A luz deveria se curvar, ou ser refletida nessas ‘reentrâncias’,                         e… assim – em teoria – poderíamos ser capazes de detetá-las”.  **********************************************************

‘limites para a temperatura?’ # condensado-de-bose-einstein # ‘3ª Lei Termodinâmica falha’ # ‘mundo-quântico-funde-se-parcialmente’ # transicao-fase-quantica # “tempo-termico-unificacao-relatividade-quantica”‘nova-definicao-temperatura’ # ‘Radiação termal x Lei de Plack’ # ‘Relatividade do zero absoluto’ # abaixo-zero-absolutoBaixa entropia, temperatura negativa  antes-que-o-inferno-congele  ‘big-chill, após big-bang’    *********************************************************************************

Experimento revela efeitos quânticos na Termodinâmica 

destaqueA termodinâmica é um dos pilares da física clássica. Contudo, investigá-la em termos quânticos envolve o cômputo da aleatoriedade de certas propriedades de cada partícula individual…e exige experimentos, até agora difíceis de realizar. Mas…em colaboração com colegas britânicos  pesquisadores brasileiros reconstruíram uma distribuição de probabilidade, num sistema quântico fechado…’fora do equilíbrio’.

Trabalho” é classicamente definido pelo produto da força feita sobre um objeto – pelo deslocamento que ele executa… — Na mecânica quântica, porém… o conceito precisa ser redefinido, em razão: (1) da natureza não-determinística dos sistemas quânticos (pois      é impossível prevê-los, com exatidão, a cada momento)…e (2) dos efeitos de flutuações quânticas, que também introduzem incertezas. — Diversas investigações produziram a descrição de efeitos teoricamente observáveis sem qualquer comprovação experimental.

Mas agora, com o estudo publicado na “Physical Review Letters” em 3 de outubro, que      tem por autores Tiago Batalhão e Roberto Serra…da Universidade Federal do ABC, em Santo André (SP), além de Alexandre Souza, Ruben Auccaise, Roberto Sarthour e Ivan Oliveira, do CBPF (“Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas”), Rio de Janeiro, foi criado        um dispositivo que usa espectroscopia de ressonância magnética nuclear para medir o spin individual dos núcleos atômicos de hidrogênio e carbono contidos numa amostra        de clorofórmio líquida. E, como explicam os pesquisadores, em seu artigo: “O resto da molécula pode ser desconsiderado, fornecendo efeitos ambientais leves, que na escala          de tempo dos nossos experimentos… — são não-essenciais para os nossos resultados”.

Apesar dos resultados obtidos se limitarem à termodinâmica das partículas individualmente, os pesquisadores acreditam que o trabalho possa inspirar                  técnicas experimentais que possam investigar outros fenômenos, incluindo                    problemas quânticos de muitos corpos – bem mais complexos. (texto base)

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Testando a Termodinâmica Quântica 

Uma equipe coordenada pelo físico Roberto Serra da Universidade Federal do ‘ABC’, em um experimento surpreendente…mensurou a quantidade de energia — que um ‘núcleo atômico‘ pode ganhar…ou perder … ao ser atingido por um “pulso” de ‘ondas de rádio’.

A maioria dos pesquisadores estava certa do comportamento imprevisível do núcleo. Jamais se poderia conhecer suas probabilidades de absorver energia das ondas … ao tornar-se mais quente, ou de esfriar, ao transmitir parte de sua energia para elas. As      novas experiências realizadas no ‘Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas’ (CBPF/RJ), entretanto, mostraram que essa ‘troca de energia‘ obedece a leis físicas nunca antes testadas no ‘mundo subatômico’…Segundo o pesquisador Roberto Serra: “Essas leis        podem ajudar a entender melhor reações químicas como a fotossíntese das plantas;            ou determinar quanta energia computadores quânticos usarão para funcionar. Esse            é o primeiro experimento de uma nova área da física: termodinâmica quântica”.

“Termodinâmica Clássica”                                                                                                        “Em muitas das reações químicas, quando é impossível isolar termicamente um objeto de seu ambiente por muito tempoa temperatura aumenta e diminui de modo imprevisível; ao contrário do que ocorre em… ‘sistemas isolados‘… onde tudo tende ao equilíbrio”.

Computadores quânticos prometem empregar leis da ‘mecânica quântica’ para superar exponencialmente o poder de cálculo dos computadores convencionais. — Mas, quanta energia esse novo tipo de computação gastará na prática?…Quanto calor produzirão ao funcionar?…precisarão refrigeração?…Perguntas similares pairavam no ar durante a “Revolução Industrial”, no século 19. — Qual o consumo mínimo de carvão dos fornos? Qual a temperatura das caldeiras para uma ‘eficiência máxima‘ das máquinas a vapor?

Os cientistas da época perceberam então – que… – tanto o calor, quanto a capacidade das máquinas de trabalharem são formas diferentes de uma mesma quantidade física… a energia, que – nunca é criada a partir do nada – nem pode ser destruída, só transformada.  E assim, ao investigar a conversão de uma forma de energia em outra, eles descobriram as leis da “termodinâmica clássica”. E, esta impõe limites a qualquer tecnologia. De acordo com suas leis… – a energia flui espontaneamente, de um volume com temperatura quente, para outro mais frio… enquanto que … uma máquina, mesmo que ideal, só pode converter parte da energia disponível…na forma de calor…em energia capaz de realizar movimentos mecânicos… o que significa, produzir aquilo que se conhece em física como “trabalho.

Os engenheiros vitorianos resolveram seus problemas, às custas de um pequeno truque. Seus cálculos só funcionavam quando se considerava que as máquinas estavam isoladas termicamente do resto do mundo … trocando, em ritmo lento, um pouco de calor com o ambiente…Mas, essas aproximações são inúteis – às situações que ocorrem na natureza.

fotossintese

‘Sistemas abertos’ (‘fora do equilíbrio’) 

Foi apenas em 1997…que o físico-químico  Christopher Jarzynski… desenvolveu uma “expressão matemática” capaz de calcular as ‘variações mecânicas’… de trabalho, e energia fora do equilíbrio. A equação de Jarzynski … além de outros “teoremas de flutuação”… — permitem aos químicos medirem…”variações” na energia de uma molécula…antes…e depois de uma reação.

O próprio Jarzynski confirmou sua equação em 2005…observando o trabalho mecânico de uma molécula de RNA esticada e comprimida como uma mola…Apesar de microscópico, o movimento da molécula de RNA era grande o suficiente para poder ser calculado usando a fórmula derivada das leis da mecânica de Newton: “Trabalho é força vezes deslocamento”.  As equações da termodinâmica, seja dentro ou fora do equilíbrio, foram deduzidas usando a ‘mecânica de Newton’. Mas, as leis de Newton perdem sentido para vários processos que acontecem nas moléculas…e para todos, no interior dos átomos, por ser impossível medir forças e deslocamentos com precisão. Nessas escalas valem as leis da ‘mecânica quântica’.

Roberto Serra queria saber se equações, como a de Jarzinsky, ainda valeriam nesse mundo subatômico. Esse conhecimento ajudaria a entender reações químicas como a fotossintese. Nela, moléculas nas células das folhas funcionam como máquinas quânticas que absorvem energia das partículas de luz e a armazenam na forma de moléculas de açúcar…O processo é muito eficiente  —  quase não gera calor…  E, estudos sugerem ser um processo quântico.