Hegel, e a ‘ontologia prática’ do pensamento contemporâneo

‘“Os homens se ‘auto-criaram’ através do trabalho, mas sua                 história até hoje foi apenas a pré-história da humanidade”.

É falsa a ideia de que Marx subestimava a importância da consciência, em relação ao ser material… Concretamente, esse modo de ver é equivocado. Marx entendia a consciência como um produto tardio do desenvolvimento do ser. – Aquela impressão equivocada só pode surgir ao se interpretar tal fato por um idealismo tipo platônico. Em uma “filosofia evolutiva”… ao contrário – o “produto tardio”… jamais – possui menor valor ontológico.

Quando se diz que a “consciência” reflete a realidade, e sabre essa base, torna possível intervir nessa realidade – para modificá-la, quer-se dizer, que a consciência tem poder  plenamente consolidado no “plano do ser”.

A essência do trabalho, consiste em ir além da ‘competição biológica‘ dos homens com seu ‘meio ambiente’ … Sua consolidação se realiza – não pela fabricação de ‘produtos’, mas pelo papel da “consciência” … quando deixa de ser mero acessório de reprodução biológica. Segundo as palavras de K. Marx:

O ‘produto‘ é um resultado que no início do processo, já                        existia (de modo ideal) na representação do trabalhador.

Talvez surpreenda o fato, de que … exatamente na delimitação materialista entre o ser      da natureza orgânica e o ser social…seja atribuído à consciência um papel tão decisivo. Porém, não se deve esquecer que ‘problemas complexos’ aqui emergentes (liberdade e necessidade, como exemplos) só adquirem verdadeiro sentido – quando se atribui, no ‘plano ontológico’, um papel ativo à consciência.

Com justa razão se pode designar o homem que trabalha – como um ser que dá respostas. Com efeito… – é inegável que toda atividade laborativa surja como solução de respostas à necessidade que a provoca, todavia, o núcleo da questão se perderia caso se tomasse aqui como pressuposto uma relação imediata…Ao contrário, o homem torna-se um ser que dá respostas, precisamente na medida em que…paralelamente ao desenvolvimento social, e em proporção crescente… ele generaliza… – transformando em perguntas, suas próprias possibilidades de satisfazê-las; e… quando pela resposta… funda e enriquece sua própria atividade, com tais mediações… frequentemente muito bem articuladas. – De modo que:

Não apenas a resposta… mas também a pergunta ser produto imediato da consciência que guia a atividade, não anula o fato de que ontologicamente, o ato de responder seja o “elemento primário”…nesse “complexo dinâmico”. 

TÉCNICA+TELEOLÓGICAA ‘doutrina teleológica’ do trabalho

Com o trabalho, dá-se, ontologicamente a… ‘possibilidade humana evolutiva’ – ao ser alterada uma “adaptação natural”… –  meramente…”reativa”… – do processo de ‘reprodução do mundo’, transformado-se então, de forma ativa e consciente, numa nova ordem… – vinculada ao ‘ser social‘.

O “trabalho” é um resultado de “posições teleológicas”, que põem em atividade “séries causais”… Ao contrário da ‘causalidade‘ – lei espontânea na qual todos movimentos de todas as formas do ser encontram sua expressão geral, a teleologia é um modo de conscientizar que orienta certa direção às séries causais.

As filosofias clássicas, não reconhecendo a “posição teleológica” como particularidade do ser social, eram obrigadas a inventar, por um lado, um sujeito transcendente…e de outro, uma natureza especial onde as correlações atuavam de modo teleológico…com finalidade de atribuir à natureza e à sociedade … tendências de desenvolvimento como “finalidade”.

Mas, uma ‘duplicidade’ aqui se apresenta… – numa sociedade tornada realmente social, a maior parte das atividades cujo conjunto põe a totalidade em movimento é certamente de origem teleológica, mas a sua existência real… e não importa se permaneceu isolada ou se foi inserida num contexto – é feita de conexões causais – que jamais, em nenhum sentido, podem ser de caráter teleológico… – Toda “praxis social”, considerando o ‘trabalho’ como seu modelo, contém em si esse caráter contraditório.

Por um lado, a praxis é uma decisão entre alternativas, já que todo indivíduo singular, sempre deve decidir se faz algo, ou não. – Assim, todo ‘ato social’ surge de uma decisão    entre alternativas acerca de “posições teleológicas futuras”. – A ‘necessidade social‘,  por sua vez… – só se pode afirmar pela pressão (frequentemente ‘anônima’) que exerce sobre indivíduos – a fim de que suas decisões tenham certa orientação. Segundo Marx:

“Os homens são impelidos, pelas circunstâncias, a agir de determinado modo… ‘sob        pena de se arruinarem’… – Eles devem, em última análise, realizar, por si próprios,          suas ações… – ainda que… – frequentemente… atuem contra sua própria vontade”.

Sobre as categorias de valor e dever, a natureza desconhece as 2… Na natureza inorgânica … as mudanças de um modo de ser para outro — não têm nada a ver com seus ‘auto-valores’. Já na natureza orgânica…como “ontologicamente”… o “processo de reprodução” representa… ‘adaptação ao ambiente’…se pode falar de ‘êxito/fracasso’…mas mesmo assim, essa oposição não passa dos limites de um mero… – “ser-de-outro-modo“.

Ao nos deparamos com o trabalho, no entanto… – o ‘conhecimento em geral’ distingue bem nitidamente entre ‘ser-em-si‘ dos objetos existentes, por um lado… e o “caráter mercadológico” que tais objetos adquirem no “processo cognoscitivo”, por outro… – Todavia, no “trabalho coletivo” o produto torna-se realmente ‘propriedade objetiva’, em virtude da qual … pode (“livremente”) desempenhar suas “funções sociais”.

É portanto, a ‘objetivação real’ do produto do trabalho coletivo que faz    com que possam nascer ‘autovalores’. E o fato de que, em níveis sociais mais altos, estes valores assumam formas mais ‘elevadas’, não elimina          o significado básico que permanece inscrito em sua ‘gênese ontológica‘.

Se, agora… — partirmos do sujeito que dirige um olhar… — sobre o “processo global” do trabalho, vemos que ele realiza sua posição teleológica de modo consciente… – mas sem jamais estar em condições de perceber todas as consequências, de sua própria atividade.

dejando-redes

É óbvio que isso não impede que os homens atuem… De fato, existem inúmeras situações nas quais, sob pena de se arruinar, é absolutamente necessário que o homem aja, embora tenha consciência de não poder conhecer senão uma parte ínfima das circunstâncias. – E, no próprio trabalho, o homem muitas vezes sabe que pode dominar apenas uma pequena faixa de elementos circunstantes; mas sabe também…já que a necessidade urge – que até nessas condições, o trabalho promete satisfazê-lo, em tudo aquilo que é capaz de realizar.

O trabalho é um ato de ‘conscientização’ – e assim… pressupõe um conhecimento            concreto, ainda que jamais perfeito, de certas finalidades, e determinados meios.

Essa situação tem duas importantes consequências. – Em primeiro lugar… a dialética interna do constante aperfeiçoamento do trabalho – a qual se expressa no fato de que, enquanto o trabalho é realizado… cresce continuamente a faixa de determinações que        se tornam cognoscíveis, e por conseguinte, este se aperfeiçoa…incluindo campos cada        vez maiores e diversos, subindo de nível…tanto em extensão…quanto em intensidade.      Na medida porém em que esse processo de aperfeiçoamento não consegue eliminar o ‘fundo de incognoscibilidade’ do conjunto das “circunstâncias”; paralelamente ao seu crescimento…esse modo de ser desperta a sensação de uma ‘realidade transcendente’, cujos “poderes misteriosos” o homem tenta, de algum modo, utilizar em seu proveito.

Talvez a mais importante dessas diferenciações, seja a tipificação crescente de atividades preparatórias, que no próprio trabalho concreto tem lugar entre o conhecimento, por um lado…e, por outro, suas finalidades e meios…A matemática, a geometria, física e química eram originariamente partes desse processo preparatório do trabalho – e, pouco a pouco cresceram, até se tornarem campos autônomos do saber…mas sem perderem totalmente sua respectiva função originária.

Quanto mais universais e autônomas elas se tornam, mais universal e perfeito, por sua vez, torna-se o trabalho. – Quanto mais crescem e se intensificam… maior se torna a “influência” dos conhecimentos assim obtidos – sobre as finalidades … e os meios de efetivação do trabalho.

sociedade globalA “sociedade global”

O ‘processo global‘ da sociedade é um ‘processo causal‘ – com suas próprias normatividades… — porém… jamais é objetivamente dirigido à realização de ‘finalidades’. – Mesmo quando alguns grupos…conseguem realizá-las – seus resultados – via de regra… produzem algo inteiramente diverso daquilo que se havia pretendido.

Essa discrepância interior entre posições teleológicas e seus efeitos colaterais, aumenta com o crescimento da “globalização”… e a intensificação da participação sócio-humana nelas. Naturalmente, esse ‘sentido contraditório’ também deve ser entendido… quando certos grandes eventos econômicos (como por exemplo, a crise de 1929) se apresentam  sob a aparência de irresistíveis ‘catástrofes naturais’.

A história mostra porém, que precisamente nas reviravoltas mais significativas, o ‘fator subjetivo’ foi de suma importância. – É verdade que a diferença entre finalidade e seus efeitos, aí se expressa – como preponderância dos elementos e tendências materiais no processo de reprodução da sociedade, mas isso não significa que esse processo consiga,    de modo necessário… – sempre afirmar-se – sem ser abalado por nenhuma resistência.

O fator subjetivo, resultante da reação humana a tais tendências de movimento, conserva-se sempre em muitos campos, como um fator          tão modificador… – que, por vezes… se faz… – até mesmo ‘decisivo’.

sociedade-global.O predomínio econômico do mercado mundial, que hoje em dia se afirma cada vez mais forte… mostra que a humanidade já se unificou – pelo menos no sentido econômico global. É verdade que tal unificação existe apenas, como ativação de princípios econômicos reais de unidade…ao se realizar concretamente, apenas num mundo onde essa integração é dominante.

Em todo caso, estamos diante de tendências importantes, decisivas… da transformação tanto externa quanto interna do ser social, através das quais este chega à forma que lhe       é própria; ou seja – o homem deixa a condição de ‘ser natural’ … para tornar-se ‘pessoa humana’…transformando-se de uma espécie animal… – que alcançou um certo grau de desenvolvimento relativamente elevado – em um ‘gênero humano’ … em ‘humanidade’.

Tudo isso é produto das ‘séries causais’ que surgem no conjunto da sociedade. O processo em si não tem uma finalidade… – sua evolução é no sentido de níveis superiores, por isso, contém a ativação de contradições de tipo cada vez mais elevado…mais fundamental. – O progresso é decerto, uma síntese das atividades humanas… – mas não o aperfeiçoamento no sentido de uma finalidade qualquer. – Por isso…esse desenvolvimento continuamente destrói os resultados primitivos, que… – embora belos… são ‘economicamente limitados’.

Por isso, o progresso econômico objetivo, aparece                                                 sempre… – sob a forma de novos conflitos sociais.

É assim que surgem, da comunidade primitiva humana, antinomias aparentemente insolúveis… – as “oposições de classe”; de modo que até mesmo as piores formas de inumanidade são o resultado desse progresso. No início…o escravagismo constituiu      certo progresso em relação ao canibalismo… Hoje, a generalização da alienação dos homens é um sintoma de que o desenvolvimento econômico está para revolucionar              a relação do homem…com o trabalho… — Como assim supõe o argumento de Marx:

“Os homens fazem sua história…mas não, em circunstâncias por eles escolhidas”.

pawel-kuczynski

pawel kuczynski – “necessidade/liberdade”

Liberdade x Necessidade

Isso significa o mesmo do que antes foi formulado como… – “o homem é um ser… que dá respostas”. Expressa a unidade contida no ‘ser social‘…de um modo ‘contraditoriamente indissolúvel‘… – entre liberdade e necessidade, operando o trabalho, através de… “decisões teleológicas“… envoltas em “premissas“… e “relações causais“… Uma unidade que se reproduz… ‘continuamente‘… sob formas sempre novas, cada vez mais complexas e mediatizadas em todos níveis “sócio-pessoais” da atividade humana.

Por isso…Marx fala do período inicial da autêntica história da humanidade… – como de um “reino da liberdade”, o qual…só pode florescer sobre a base do reino da necessidade (ou seja… da reprodução econômico-social de tendências objetivas do progresso). “O tipo especial de razoabilidade do reino da liberdade jamais eliminará o fundamental papel desempenhado pelo reino da necessidade”.

Precisamente essa ligação do “reino circunstancial da liberdade”…com o “reino econômico da necessidade”, mostra como o gênero humano seria o resultado de sua própria atividade. A liberdade…bem como sua possibilidade, não é algo dado por natureza, não é um dom do “alto”… e nem sequer uma parte integrante – de origem misteriosa…do ser humano. – É o produto da própria atividade humana – que decerto sempre atinge concretamente alguma coisa diferente daquilo que se propusera, mas que nas suas consequências, objetivamente, e de um modo contínuo…dilata o espaço…dentro do qual… – a liberdade se torna possível.

E, tal dilatação ocorre, de modo direto, no processo de desenvolvimento econômico, no qual, por um lado, acresce-se o número e alcance das decisões humanas alternativas…e por outro, eleva-se a capacidade humana, na medida em que se elevam as tarefas, fruto    de sua própria atividade… – E tudo isso, naturalmente, ainda no ‘reino da necessidade’.

Marx define o reino da liberdade como um “desenvolvimento de energia humana que        é fim em si mesmo”…portanto, como algo que tanto ao indivíduo, quanto à sociedade, possui conteúdo suficiente para então transformar-se em uma ‘finalidade autônoma’.

É claro que tal adequação, pressupõe um nível do “reino da necessidade”… do qual, ainda estamos muito longe. Só quando o trabalho for efetivamente dominado pela humanidade, e portanto, quando tiver em si a possibilidade de ser… – não apenas meio de vida…mas a “1ª necessidade da vida“, e a humanidade tiver superado qualquer caráter coercitivo, em sua “autoprodução”…será então possível.

Desse modo, terá sido aberto o caminho social da ‘atividade humana’… como fim autônomo. Ou seja criadas as condições materiais necessárias … e um ‘campo de possibilidades’ para o ‘livre emprego’ do produto da atividade humana… fruto do desenvolvimento necessário, bem como, resultado da utilização correta … do que necessariamente for produzido – para o “bem-estar” comum … da ‘humanidade’.

A própria liberdade não pode ser apenas um ‘produto necessário’…de um desenvolvimento inevitável, ainda que todas premissas de sua explicitação encontrem aí, suas possibilidades de existência. – É por isso que não estamos aqui, diante de uma utopia… A princípio, todas as suas efetivas possibilidades de realização…são produzidas por um ‘processo necessário‘.

Não é casual portanto, que no trabalho… – em seu ‘estágio inicial’…seja dado tanto peso ao momento da liberdade na decisão entre alternativas. O homem deve adquirir sua liberdade através de sua própria atuação. – Mas ele só pode fazê-lo…se toda sua atividade também já contiver em sua parte constitutiva – um sentido indispensável de “liberdade“. (texto base*******************************(texto complementar)********************************

As categorias ontológicasde Hegel a Marx (segundo Lukács)                               Para Hegel é o pensamento que cria a realidade, sendo esta uma manifestação                exterior à ideia. – Já para Marx…a ‘realidade material’ cria o pensamento, e a                dialética vai se processar, em condições reais – tanto históricas quanto sociais,              pela “realidade” da “existência humana”. (A DIALÉTICA…de HEGEL a MARX)

karl_marx-fraseA “crise pós-moderna“… que acomete diversas ‘concepções filosóficas’ da contemporaneidade resulta basicamente do abandono do interesse na elucidação das condições fundamentais em que a realidade social, enquanto um complexo de complexos, se vê envolvida. – Expressam a ideologia de um ‘tempo histórico‘, pautado no fim das utopias, e por uma negação declarada à perspectiva de revelação da “essencialidade” das coisas. Em certa medida…é possível afirmar que a concepção hegeliana e a concepção marxista se constituem como tentativas modais da elucidação de contradições, que como um todo, perpassam a realidade.

Marx (materialismo dialético) x Hegel (idealismo objetivo)

Tanto o ‘idealismo objetivo’ de Hegel… – quanto o ‘materialismo marxista’, partem do entendimento de que é necessário ultrapassar a percepção imediata da ‘vida cotidiana’,    que se manifesta de maneira bastante multifacetada e heterogênea, para se alcançar a essencialidade das coisas… – E, para isso, é fundamental superar, tanto o terreno das idiossincrasias que emanam de uma “percepção imediata” da realidade … quanto um conhecimento fragmentário… – resultante de uma…”representação caótica”…do todo.

Isso todavia não implica uma desconsideração pela vida cotidiana,              visto que esta se constitui no “celeiro” de onde emanam as questões decisivas … que envolvem toda a investigação científica e filosófica.

Embora a filosofia hegeliana se movimente sobre um terreno bastante movediço, consegue se desprender do processo de mistificação da realidade…ao observarmos que ela considera suas categorias, como que brotando de um desenvolvimento do ser social, ou seja, dotadas de certos ‘determinantes ontológicos‘. Por outro lado…pela ‘perspectiva lukacsiana’, a “ontologia marxista” se interessa em elucidar a gênese (‘evolução dialética’) do “ser social”, enquanto ‘ser’ que se constitui historicamente, e não um ‘ente’ brotando pronto e acabado.

A totalidade social, enquanto um complexo de múltiplas determinações, pressupõe um processo de isolamento…ou abstração…em que ‘determinação’ aparece como essencial elemento em todo esforço de apreensão da natureza constitutiva do ser… E o processo determinístico é uma ‘negação’, na medida em que significa um ‘adentrar nas malhas mais profundas do ser‘… para de lá, exibir sua legítima constituição interior…lidando com processos de captação e distinção…de tudo aquilo, que de mais singular subsiste.

Por tudo isso…para que o ‘todo’ possa emergir como um aspecto concreto, e não uma mera aparição caótica, é preciso estabelecer a conexão com sua parte estudada. Essa perspectiva tem sua gênese na “filosofia hegeliana”… enquanto concepção que estabelece as bases para uma nova compreensão das…’questões ontológicas‘. – À proporção que as categorias se afirmam como dotadas de uma realidade essencialmente dinâmica, penetrada pela relação dialética entre unidade e multiplicidade, conteúdo e forma, aparência e essência … a partir daí…a substância não emerge como algo estático; mas um ‘ente‘…em essência…’dinâmico’.

As “categorias hegelianas”                                                                                                    ‘Categorias’ são produto das ‘relações sociais’ no desenvolvimento                                      fundamental dos meios de produção … e reprodução da realidade.

hegel-y-el-idealismo

Hegel, com seu idealismo lógico-ontológico…foi um precursor no domínio do pensamento prático, na medida em que concebeu… a seu modo… a ‘ontologia’… como uma história. Em contraste com a ontologia religiosa, a de Hegel partia de baixo… do seu aspecto mais simples, e evoluir … até ao “cume” – das objetivações mais complexas da “cultura humana”.

Apesar de Aristóteles compreender a lógica como inteiramente independente do preceito pragmático da utilidade, ele considerava que a ciência (“metafísica“) só poderia florescer numa época em que um grupo de homens alcançasse… ‘quase todo o necessário‘, ou seja, as ciências…como a matemática, apenas puderam se desenvolver precocemente no Egito, porque ali a casta dos sacerdotes se encontrava ‘pronta’, em condições de ter tempo livre.

Contudo, entende Hegel que a “lógica” não é algo “extemporâneo” ao movimento que perpassa o tempo histórico. Mas, no estado em que se encontra apenas se reconhecem  nela ‘indícios’ do método científico. Portanto, para se vivificar mediante o espírito seu “esqueleto morto”, até dar-lhe substância e conteúdo… – seria necessário que, por seu próprio método, sua lógica fosse capaz de construir uma ‘ciência pura’. Desse modo, a perspectiva hegeliana corrobora uma articulação existente – entre o desenvolvimento    das ‘categorias ontológicas’ do conhecimento … e o próprio desenvolver da ‘realidade’.   

Naturalmente, o acento caía sobre o ‘ser social’ e seus produtos;              além se ser uma característica de seu pensamento … – o fato do            homem se apresentar…assim como o… “criador” – de si mesmo.

Nesse sentido… Hegel contesta o caráter histórico do afastamento do pensamento              em relação ao mundo, nos seguintes termos…Ele entende que é na ‘vida cotidiana’          que se aplicam as categorias lógicas/matemáticas…e que estas comparecem como abreviaturas da realidade…devido ao seu caráter de abrangência e universalidade.

E, estas categorias também servem como definições mais precisas de ‘relações objetivas’, em que, mesmo sem atribuir qualquer importância às suas influências individuais… – o conteúdo de verdade do pensamento aparece como totalmente dependente do existente. 

logica-fundamentoNa verdade, a lógica não é uma coisa ‘distante do mundo’ – não é algo que paire no céu de uma… ‘subjetividade’, destituída de qualquer sentido; basta observar o cotidiano – para perceber que a linguagem humana…presume sua própria existência…A lógica, por exemplo… está presente na maneira como os homens sentem…pensam e desejam as coisas… – e, pode-se dizer que também está presente na vida…proporcionando representações e finalidades. Por adentrar em todas relações e atividades naturais…de um modo abstrato, parece ser algo sobrenatural e distante da realidade… quando, na verdade, é tão somente uma “abstração universal“… – muito peculiar ao modo de ser da ciência.

A própria ‘linguagem humana‘ é perpassada por uma série de ‘expressões lógicas’… – que servem para apontar as “conclusões” do pensamento. – Sem dúvida que tais expressões se inscrevem no âmbito das sensações que compõem a “linguagem cotidiana”… que se utiliza  de suas categorias, geralmente sem plena consciência de sua natureza. – Nesse aspecto…a “tradição marxista” possui certa semelhança… — pois suas categorias podem influenciar a sociedade antes mesmo de serem apropriadas conscientemente pelo homem. Para Lukács:

“É próprio do processo efetivo da realidade mostrar que a                  consciência surge… após o desenvolvimento do ser social”.

Na Fenomenologia do espírito Hegel afirma que toda novidade apresenta-se inicialmente como abstrata (em-si), para depois explicitar-se gradualmente em formas mais concretas. Assim, o ser para-si somente é possível a partir do ser em-si, isto é…as formas superiores do ser passam pela mediação de suas formas mais simples… – Na ‘perspectiva hegeliana’,  a gênese processual da realidade, fornece a chave para a compreensão de todo ‘resultado’.

Por exemplo, o ‘absoluto’ é um processo de síntese concreta de movimentos reais… – é identidade da identidade. – Ele não repousa numa ‘imobilidade transcendente’…indiferente ao movimento efetivo da realidade… – mas se constitui como “quintessência” das variações…que percorrem a realidade.

O mérito da Fenomenologia do espírito consiste em apontar que as categorias surgem na consciência humana, enquanto expressões do modo de ser da processualidade das coisas. Por isso que Hegel na sua “Ciência da lógica” trata das “determinações reflexivas”, numa seção denominada ‘fenomenologia’. Aí, tudo parece mover-se no terreno da ‘gnosiologia’, ao Hegel revelar uma razão vinda do entendimento… – a constituir-se em sua ‘realidade’.

Hegel - frasesPor não se restringir ao dualismo entre sujeito/objeto…muito menos à simples consideração finita e limitada do saber,        a “lógica hegeliana” vai além da “lógica transcendente” de Kant…superando as “idiossincrasias” das determinações de ‘finitude’ operadas pelo entendimento,        até enfim alcançar o “terreno racional”        da ‘infinitude‘, e adentrar na esfera do conceito – enquanto articulação entre finitude e infinitude.

O tratamento adequado da propriedade essencial das coisas presume o adentrar            no reino íntimo das categorias. É nesse espaço que é possível falar das essências;            porque o conceito destas… – somente pode surgir… – na “esfera do pensamento”.

A interação dialética entre ‘entendimento’ e ‘razão’ serve de prelúdio à compreensão hegeliana da realidade como uma totalidade dinâmica e contraditória… – Realidade,      que os preceitos gnosiológicos dos séculos anteriores foram incapazes de apreender.      Por isso o idealismo hegeliano considera que a essência das coisas emana do ser em desenvolvimento… e não…simplesmente dopensamento‘… – como postulava Kant.

Com efeito… para Hegel não é possível afirmar as categorias como uma propriedade do sujeito, pois este não detém a propriedade conceitual das coisas. O que o sujeito realiza, pela mediação da ciência, é tão somente descobrir uma lógica imanente nelas… Ou seja,      o ‘conceito das coisas’ surge de sua própria ‘essencialidade’, não sendo produto de uma subjetividade transcendental (kantiana) centrada em si mesma. E, Hegel ainda destaca:

“Não podemos nos sobrepor ao objeto; nem…                                                      tampouco ultrapassar a natureza das coisas”.

Na perspectiva hegeliana, a atividade do pensamento comparece como uma força movente que trama todas nossas representações…fins, interesses e ações; atuando como uma lógica natural inconsciente…O que nossa consciência tem diante de si é o conteúdo – objetos das representações, que preenchem nosso interesse… As determinações do pensamento valem como formas, que pertencem ao conteúdo. A atividade mais elevada da “ciência lógica“…é libertar as categorias da perspectiva fragmentada… meramente instintiva; ressaltando que o conhecimento em si constitui-se com um atributo fundamental da ‘realidade do espírito’.

dialética.jpgNesse contexto é que se podem compreender as categorias da ‘identidade’…e da ‘diferença’. Segundo Lukács essas expressões categoriais não são ‘construtos’ do “sujeito cognoscente”, mas pertencem à própria “materialidade” da realidade, ou seja…o preceito da ‘identidade’ do sujeito não se funda na…’lógica formal’… mas em uma ‘objetividade’… – intrínseca ao ‘objeto material’…que se pretende conhecer.

A afirmação e negação da identidade…constituem-se como elementos imanentes à ordem do ser, não procedendo pois do sujeito do conhecimento. A identidade não emana de fora das coisas, mas da “processualidade” do mundo (interação das forças e ações recíprocas),  como uma ‘propriedade objetiva’. É a própria dinâmica do ser que indica um movimento de interação e oposição – ao afirmar e negar seus componentes categoriais. A lei do devir faz parte de toda estrutura do objeto… e a tarefa do pensamento é apenas se apropriar da razão imanente que perpassa as ‘malhas processuais’ da realidade. – O tornar-se outro é expressão de mudanças que se dão na própria constituição do “ser objetivo” (material).

Hegel recusa ainda qualquer formulação que compreenda os conceitos como puras formas, separadas do conteúdo, denunciando a “esterilidade das categorias puramente formais”. O conteúdo separado da forma é vazio, pois não pode existir sem forma, assim como a forma não pode existir sem conteúdo (como quer a ‘lógica tradicional’)…A forma tem a obrigação de oferecer uma “manifestação fenomênica” ao conteúdo. Como Hegel diz, dialeticamente:

“Ao introduzir o conteúdo na investigação lógica, não são as coisas,        senão o o conceito das coisas… – o que se converte no objetivo final”.

Hegel afirma que “o conceito tem subentendido em si todas determinações anteriores do pensar…é o pensamento universal, incomensurável abreviação diante da ‘singularidade’ dos objetos, tais como estes se apresentam à intuição e representação… indeterminados”.

O ‘conceito’, como movimento dialético de singularidade, particularidade e universalidade surge da relação objetiva de diferenciação e contraste entre objetos. Desse modo, a relação de determinação como negatividade serve de preâmbulo para a compreensão da distinção existente entre a natureza ontológica ou intrínseca de uma coisa…e sua qualidade exterior.

caminhosdosaberPara Lukács, o caminho do saber vai…do ser abstrato… – à essência mais concreta, enquanto na realidade porém, a essência mais concreta e complexa… – é ponto de partida ontológico do qual se pode obter, através da abstração…o ‘conceito do ser’, que também é… sobretudo…’ontológico’.  Porém, quando Hegel tenta fazer brotar de sua natureza…as origens da essência    do ser… o conceito padece de equívocos.

Lukács entende que não dá para sustentar a tese hegeliana, de que o conceito emana do movimento da essência do ser… – pois seus aspectos lógicos acabam contrapondo-se às exigências reflexivas em que as categorias brotam do mundo objetivo, desconsiderando assim, os “aspectos ontológicos”. Ou seja, o ‘ser coletivo’ e o ‘ser individual’, nesse caso, não brotam das determinações de um mesmo processo… – Para Lukács… o ‘conceito’ é fruto da tentativa de constituição da identidade sujeito/objeto – e não… de um ‘avanço processual’ do ser, como faz entender a ‘filosofia hegeliana’, ao conceber as ‘resoluções’    do pensamento como conteúdo de uma “suprema verdade lógica”… na qual é sujeito, e objeto de si mesmo… – Como assim definiu Hegel, por meio de suas próprias palavras:

“As determinações do pensamento têm…em si mesmas – valor e existência objetivas”.

Eis o que impede a filosofia hegeliana de avançar no entendimento efetivo da realidade. Para Marx é impossível alcançar a efetividade do ser mediante a mera reversão ideal de um processo de abstração…que tem o seu ‘ponto de partida‘ num conceito logicamente esvaziado de ‘determinação ontológica‘. Não é pela mediação do movimento do pensar consigo mesmo que se chegará à “objetividade” da lógica, pois ao se partir do “reino do abstrato” … e não do mundo concreto, constituímos uma abstração carente de resposta.

Marx destaca que… um ‘ser indeterminado’ não passa de uma construção do pensamento … pois não é possível alcançar a essencialidade das coisas, afastando-se progressivamente de seu ‘movimento ontológico’… – e assim abstrair do movimento processual contingente em seus riscos e acidentes”.

O problema da ‘perspectiva logicista‘ é que ela se afasta das determinações efetivas da “processualidade” do “ser social”… para pairar… de uma forma absoluta, no “reino da ideia”, onde o pensamento…é a ‘autodeterminação’ de si mesmo, em um ‘pano de fundo’ constituído pelas ‘categorias lógicas’, nas quais, os ‘preceitos hegelianos’… conferem uma ‘força descomunal’ ao poder de abstração…Como diz Marx:

“Assim… toda realidade submerge no ‘mundo das abstrações’ … das categorias lógicas”.

Através da regressão abstrata torna-se possível subverter todo reino da realidade objetiva à condição de ‘categorias lógicas‘, e nestas encontrar a substancialidade existente, em que o método absoluto de Hegel pode, tanto explicar todas coisas, como implicar o movimento delas, numa inusitada tentativa de afirmar… na abstração da ideia, a síntese do conceito e realidade, na qual a razão reencontra-se em si mesma… e reconhece-se em todas as coisas.

Com efeito…ao não levar às últimas consequências as disposições objetivas das categorias, e erigir a “ideia” como momento predominante, Hegel pretende fazer dela, o que existe de mais elevado, ou seja, a síntese do conceito e da realidade. É por isso que ele concebe… “O que é racional é real, e o que é real é racional”… ou seja – é a ‘consciência’ que…em última instância…define a realidade – enquanto esta se circunscreve à sua forma de pensamento.

Assim, a tentativa hegeliana de constituição de uma nova fundamentação filosófica acaba consistindo apenas numa nova roupagem de reprodução da velha perspectiva fundada na ‘consciência sobre o ser’…à medida que o ‘absoluto’ surge como o processo de síntese, em que todas diferenciações são submetidas ao nível especulativo, por uma ‘autoconsciência do espírito’… – Por esse motivo…a ‘determinação ontológica’ das categorias não pode ser concluída – e apenas com Marx assumirão verdadeiramente suas funções processuais na realidade… e não meras definições lógicas. – Por seu princípio ser a “realidade material”,  e não “preceitos lógicos” do pensamento, a “dialética materialista” levará as formulações de natureza objetiva das categorias postuladas por Hegel, às suas últimas consequências.

Anúncios
Publicado em filosofia, política | Marcado com | 1 Comentário

Imanência & transcendência…em um ‘campo fenomenológico’

“Como detetives investigando a realidade, somos livres para usar todo tipo de pista. Mas como juízes tentando verificar se uma teoria…de fato, descreve a realidade… precisamos testá-la empiricamente… – Isto… é o que torna a ciência bem sucedida”.  (Carlos Rovelli)

husserlNa primeira edição de…“Investigações Lógicas”… Edmond Husserl delimita o domínio da ‘pesquisa fenomenológica’, numa ‘imanência psicológica’…Porém, ao examinar ‘atentamente’ os critérios empregados… – constata-se…que eles implicam uma…’transcendência‘… do objeto pesquisado, acarretando assim dilemas epistemológicos … na relação entre ‘objeto físico’/’objeto percebido’.

Quanto à relação entre imanência e transcendência – da edição de 1900/1901 de ‘Investigações Lógicas’, para a edição revisada de 1913… Husserl fez importantes alterações … destacando-se uma rearticulação entre imanência e transcendência,          como consequência da compreensão alcançada por ele…de que a fenomenologia                  é uma filosofia transcendental, tendo como domínio a “consciência pura“.

teoria representacional da percepção

Por objeto da física… trata-se fundamentalmente de objetos descritos em termos lógico-matemáticos dos quais a física moderna, a partir de Newton, busca investigar; como… por exemplo, átomos ou estruturas atômicas e químicas. Por objeto da percepção, entende-se tudo o que aparece em nosso mundo circundante, como estrelas, cadeiras ou cachorros. Na relação sujeito/objeto… – as ciências naturais… em especial a física – não pretendem investigar a realidade interna – psicológica do sujeito – mas sim, a realidade externa. Daí, a pergunta que se segue: Qual a relação entre o objeto dado na percepção e o objeto físico?

Uma forma popular de se responder essa questão é a com a teoria representacional da percepção, segundo a qual, se eu vejo uma mesa…isso ocorre porque fótons estimularam minha retina desencadeando impulsos nervosos que são processados no cérebro, de modo a emergir em mim uma representação consciente da mesa… Ou seja, a mesa exterior afeta o meu sistema sensorial, de modo a produzir em mim uma ‘representação’… – ou imagem mental da mesa. – Assim teríamos, de acordo com essa teoria, 2 mesas…uma interna, que é advinda de “processos cerebrais”, oriundos da consciência – e, outra mesa física externa, que ao ser iluminada…difrata a luz – emitindo fótons que estimulam o aparelho sensorial.

Com isso…o “representacionalismo” postula a existência de duas entidades implicadas  na percepção … — um “objeto extra-mental” … — e uma “representação intra-mental”.

a consciência fenomenológica

Husserl, no entanto, rejeita essa forma de ‘representacionalismo‘. – Para ele, ao ver uma mesa, não estamos conscientes de uma imagem mental da mesa ou de sua representação, mas sim da mesa, ela própria como objeto. – É verdade, afirma Husserl, que a impressão sensorial da mesa… ou sua aparição… é uma vivência… – e assim…portanto, conteúdo de consciência, mas o que percebemos não é a impressão ou a aparição, mas a própria mesa.

Os objetos por nós percebidos – e dos quais estamos conscientes, transcendem à vivência. Ou seja, é preciso distinguir o ‘objeto percebido’, da vivência de perceber. Esta, bem como a aparição do objeto, é um autêntico conteúdo de consciência — ao passo que o objeto percebido…não. Husserl defende que na percepção visamos diretamente o objeto transcendente, sem a mediação de uma ‘representação‘, ou ‘imagem mental’.

E, sendo a ‘consciência perceptiva‘ um modo intencional descritivamente distinto da consciência, sua imagem não é uma propriedade do objeto, como ser vermelho, mas algo adquirido por este, em função de nova forma de intencionalidade que o interpreta, como representante de outro objeto. – Por mais que 2 objetos sejam semelhantes…isso não faz de um, a imagem do outro… – Para isso, o interpretamos…como ‘representando’ o outro. 

Toda consciência de imagem pressupõe a consciência de 2 objetos, o objeto-imagem e o objeto-sujeito…Contudo, uma correta descrição da ‘consciência perceptiva’ mostra que nela…somos conscientes apenas de um único objeto.

Claude Monet, Impression Sunrise_1872

Claude Monet, ‘Impression Sunrise’ -1872

a delimitação consciente da imanência

A elucidação descritiva do sentido pelo qual o objeto percebido é… ‘transcendente‘ – possui várias implicações — e, pede esclarecimentos.  Nesse sentido — uma das melhores maneiras recomendadas… é analisarmos o que Husserl entende por ‘consciência‘ e ‘conteúdos da consciência‘. – Para tanto, observamos que, de acordo com o próprio Husserl…este termo carrega consigo vários tipos de conceitos… os quais, a seguir serão devidamente elucidados:

  1. Consciência como interno dar-se conta das vivências psíquicas. Diz respeito ao fato de que toda consciência é também “autoconsciência”… ainda que não seja uma autoconsciência realizada de modo explícito – por meio de um ato reflexivo, ou de um ato de percepção interna. Esta forma de consciência se refere ao “caráter intransitivo” das vivências – isto é…ao fato de que toda vivência é uma unidade de consciência que se manifesta a si mesma… sem, por isso, devir objeto.
  1. Consciência como designação global para todo e qualquer tipo de ato psíquico. Trata-se da consciência tomada como “consciência de algo”… – como vivência intencional… e, portanto, concerne ao “caráter transitivo” das vivências. Estudar a consciência neste sentido é estudar os atos de consciência.
  1. Consciência como consistência fenomenológica do eu. Este conceito delimita    a consciência como unidade da totalidade do fluxo de vivências, como explicitado por Husserl… —  “a consistência conjunta do ‘eu espiritual’ (eu fenomenológico enquanto feixe ou entrelaçamento de vivências psíquicas).

Como Husserl rejeita a noção de ‘eu puro’, e trabalha com uma concepção não egológica de consciência, o ‘eu fenomenológico‘ nada mais é do que o próprio fluxo de vivênciasconteúdo da consciência. As vivências são marcadas pela temporalidade… devendo ser entendidas como “ocorrências reais“… – “fatos psíquicos“…que mudam de momento a momento, se interligando…e interpenetrando de muitas formas… – de modo a constituir a consciência do indivíduo psicofísico.

Sobre os conteúdos da consciência, Husserl faz as seguintes considerações:

1. Apenas vivências são vivenciadas… Portanto – um objeto exterior sensível… um estado de coisas ou uma entidade ideal, não podem propriamente ser vivenciados. Toda transcendência é uma não-vivência.

2. As vivências constituem o fluxo de consciência.

3. O fluxo de consciência tem lugar em indivíduos psicofísicos.

4. As partes de uma vivência compartilham da mesma natureza: são vividas, fazem parte do mesmo fluxo… — e são tão singulares, quanto as “vivências concretas”. 

transcendencia imanenteconsciência transcendente

Husserl afirma que o objeto intencionado é transcendente ao ato… e para esclarecer a natureza desta transcendência, ele apela para a evidência do fato que…percebemos coisas transcendentes … onde estas manifestam-se à consciência. Estes ‘objetos mentais’… contudo, não se identificam com as ‘sensações’, que também se encontram na ‘consciência’.

Husserl, guiado pela ideia de que a ‘fenomenologia’ é uma ciência puramente descritiva…e metafisicamente neutra… limita-se a afirmar que o objeto … em seu conteúdo psico-descritivo… não se acha descritivamente no ato“… Estar consciente de algo transcendente, significa portanto estar cônscio de algo descritivamente distinto de uma ‘vivência’. E assim… a estratégia de Husserl para defender a transcendência do objeto é mostrar que seus traços descritivos são distintos…tanto de traços vivenciais…quanto os de suas partes.

Uma vez que a vivência é uma ocorrência real… não pode se repetir, mas um mesmo objeto pode ser intencionado em múltiplas vivências distintas.

Cada percepção do objeto é um evento psíquico que dura enquanto durar a percepção, ao passo que o objeto deve ser descrito como algo, que permanece numericamente o mesmo. Se o objeto fosse uma vivência…não poderia se repetir… – pois uma vivência é distinta da outra… – O “objeto intencional” também não pode ser parte dessa vivência, pois toda sua parte, abstrata ou concreta, compartilha da mesma natureza singular.

No caso da percepção exterior, é possível que 2 vivências de percepção distintas sejam direcionadas ao mesmo objeto. Vejo essa mesa – tenho portanto uma vivência dirigida para ela… – Fecho os olhos…abro-os novamente – e agora tenho uma nova vivência de percepção da mesa. As vivências são distintas… tanto no todo – como em cada uma de suas partes, contudo, o objeto deve ser descrito como “permanente” … ao passo que as vivências e suas partes, serem consideradas numericamente distintas umas das outras.

Ora, se o objeto não pode ser imanente, logo ele é transcendente, ou seja, a consciência visa – por meio de operações imanentes… algo ‘transcendente’.

fenomenologiauma metafísica transcendente

Sendo a transcendência do objeto percebido uma ‘função descritiva’ não ontológica…compreendemos porque — para Husserl… o objeto  transcende ao ato de observar, de um modo independente de saber, em que sentido e com que direito se fala de seu ‘ser’. Dessa forma é preciso notar…que – a afirmação de que o “objeto intencional    é transcendente à vivência

  1. Não implica, a princípio, ontologicamente, sua independência ou não da consciência.
  2. Não implica, a princípio… – que seja real, ou exista… – muito menos…que seja irreal.

Por entender a fenomenologia como uma ciência metafisicamente neutra, Husserl se abstém de abordar frontalmente a relação entre o ‘objeto intencional’… e um suposto mundo físico, ontologicamente independente da consciência… — Limita-se a afirmar,      que o problema da existência de átomos, moléculas…e vibração do ar… diz respeito à metafísica…

“A consciência visa um ‘objeto transcendente’, sendo fenomenologicamente irrelevante se este objeto intencionado é em si, uma ilusão ou não, se existe ou não… – O problema da existência da natureza do ‘mundo externo’ é um problema metafísico”.

A diferença entre percepção e alucinação é fenomenologicamente irrelevante… na medida em que a descrição de ambas seja idêntica. Mas isso é revelador. Como a intencionalidade da consciência independe da existência ou inexistência do objeto, a relação intencional do sujeito ao objeto não é uma relação real entre 2 realidades. — Não se trata de uma relação causal entre objeto e consciência … entre uma realidade interior, e uma realidade exterior (ontologicamente independente).

A vivência intencional não é produzida pelo objeto exterior…que ao afetar a sensibilidade do organismo, acaba afetando a consciência. Pelo contrário, são os componentes internos à própria vivência que determinam sua referência a este, ou aquele objeto… — Ou seja… a intencionalidade da consciência… sua direcionalidade a uma transcendência, é produzida por elementos imanentes à vivência. Assim portanto…quando Husserl considera o objeto intencional como exterior, é preciso observar que essa é uma determinação descritiva, de onde não se pode inferir que o objeto intencional revele-se identificado com a coisa física.

(imanência transcendental)

A partir daí a pergunta que se coloca, em especial na esfera da percepção, é sobre a relação entre três instâncias…a) a aparição do objeto; b) o objeto que aparece; c) o objeto da física.

Sabemos que a aparição do objeto é imanente, e o objeto percebido é transcendente. Mas, e o objeto da física?… — Tratar-se-ia de uma transcendência que… ao contrário do objeto percebido, não aparece?… Haveria, portanto, implicitamente 2…e não um único conceito de transcendência?…Tudo parece sugerir a necessidade de duas transcendências, a saber:

  1. Uma transcendência metafísica, que…por princípio, não pode vir à doação intuitiva;
  2. Uma transcendência que aparece e que não se confunde com a vivência da aparição.

floraçãoPara a filosofia fenomenológica… — a própria ‘objetividade‘… — em termos gerais … não é nada — ela transcende    ao ato… – Independente de saber em qual sentido, e com que direito se fala do “ser”… independente de saber se é real ou ideal; verdadeira…possível ou impossível… – o ato se dirige para ela.

Com efeito, esta transcendência, para Husserl… depende da consciência, na medida em que resulta de “operações imanentes”… – que pressupõem uma ‘transcendência oculta‘ … delimitando o ‘campo fenomenológico’… pela exclusão do “corpo físico“… (hipótese, aliás… incompatível com o desenvolvimento da fenomenologia como uma “teoria do conhecimento”)… — Todavia, a compreensão desta incompatibilidade é um passo fundamental à “virada transcendental”, com o estabelecimento de um “campo fenomenológico”…a partir de um novo conceito de “imanência pura”, ou “transcendental” – que é, segundo Husserl, o “verdadeiro absoluto”.

Ao examinar a ‘teoria da percepção’ de Husserl podemos obter valiosas informações sobre o problema da dependência (ou não) do objeto percebido, em relação à consciência. Nesta, a percepção é compreendida como uma “apreensão objetivante” de sensações – através da qual se constitui a aparição do objeto…Sensações são interpretadas como ‘transcendentes’, em função dessa assimilação à manifestação do objeto, ou de suas ‘propriedades objetivas’.

“sentidos & sensações”                                                                                                                Por “sensações”… devemos entender algo que pertence a um “fluxo subjetivo“… – Nas percepções normais… sensações são vividas…mas não percebidas. É apenas por meio de uma apreensão deste algo…pertencente ao fluxo, que um ‘objeto transcendente’ aparece.

Tomemos como exemplo o caso da percepção sensível de uma esfera amarela. O termo “amarelo” pode designar tanto uma sensação, entendida como momento pertencente à aparição, quanto uma “propriedade transcendente”…(qualidade cromática amarela) do objeto. Ao afirmarmos que o objeto percebido é amarelo, designamos uma propriedade     do objeto, mas não a sensação do amarelo. Isso porque…a qualidade amarela do objeto,     é resultante da interpretação objetivante dessa sensação específica.

sol

O Sol nos aparenta amarelo devido à refração atmosférica (na verdade, é branco)

O objeto transcendente… dado na percepção… possui a propriedade transcendente de ser “amarelo”… graças à interpretação objetivante       da sensação imanente do amarelo. Para Husserl, essa interpretação é sempre realizada pelo “sentido”…     Ou seja… – perceber é interpretar objetivamente as sensações – por     um determinado sentido… – E as propriedades do objeto, resultam      dessa interpretação de sensações.

Conclui-se daí que a transcendência do objeto observado, bem como suas propriedades, são dependentes de operações imanentesE que as propriedades objetivas de um corpo se devem à sensações. Sua propriedade amarela é resultado de uma sensação imanente. 

Ou seja, a relação entre ‘sensação‘ e “propriedades transcendentes” não é arbitrária, e o sentido pelo qual o conteúdo imanente é interpretado é limitado pelos próprios dados de sensações. Uma sensação de amarelo, uma vez apreendida não pode propiciar a aparição de um objeto verde…  —  A cada uma das sensações … auditivas … gustativas … visuais … corresponde uma ‘propriedade objetiva‘ resultante de sua ‘apreensão objetivante‘.

Mas, apesar de Husserl atribuir às sensações uma… “forma espacial inautêntica”… – esta, uma vez apreendida, constitui um “espaço autêntico“…Onde aqui, Husserl compreende por “espacialidade”… — “o momento de sensação… – cuja ‘percepção objetiva’ constitui a autêntica espacialidade emergente”… – E, dessa forma…conclui-se que o ‘espaço objetivo transcendente’ é resultado de “operações imanentes“…Ou seja, pela apreensão do espaço imanente das sensações se constitui o ‘espaço objetivo transcendente’; no qual os objetos percebidos se encontram.

Tudo leva a crer, que esse espaço constituído ainda não é o “espaço físico”… — tal como concebido pelas teorias físicas. A física não estuda um espaço produzido por operações na consciência psíquica… mas sim um espaço que existe independente da existência da consciência pertencente a entes de uma determinada espécie animal.

transcendênciacontradições da transcendência

Do que foi exposto até agora, devemos considerar que… — apesar de todos os esforços de Husserl … algo permanece em aberto…

Qual o tipo de ‘vínculo ontológico’ que existe entre o objeto, e suas aparições? O que significa…”transcendência”…do objeto — em relação à sua aparição?…

E esses problemas se agravam… ao levarmos em conta que a esfera fenomenológica – a qual pertence a aparição, é obtida por uma abstração do eu empírico, ou seja, pela exclusão do corpo físico. Como consequência, isso nos leva a considerar a transcendência do objeto… misteriosa… – pois, se de um lado, o objeto que aparece como transcendente é resultado de operações puramente imanentes, por outro lado… – essas operações se passam … em um “domínio de imanência” … obtido justamente pela abstração do lado físico de um homem real… – que faz parte da natureza.

Seria a transcendência do ‘corpo físico’… a mesma do ‘objeto observado’?…

Para que tal identificação fizesse algum sentido…teríamos de supor que a transcendência constituída na ‘imanência psíquica’, milagrosamente coincidisse com a realidade exterior física… que, de saída, foi excluída para a obtenção do campo fenomenológico. Como uma transcendência produzida pela imanência, pode então … coincidir com suposta realidade exterior, que por definição, é independente da consciência?

Como o objeto percebido, que aparece como transcendente, não pode ser confundido com o objeto da física… – já que este não possui qualidades sensíveis… mas apenas qualidades lógico-geométricas, a situação torna-se ainda mais complexa, numa ‘suposição ontológica’ idealizada por Husserl, em que ele identifica o objeto sensível com o objeto real. Contudo, um átomo não é vermelho ou amarelo… — Quente e frio não se confundem com a energia cinética das moléculas de um objeto físico.

husserl-frasePor isso devemos retomar mais uma vez a pergunta… – Qual a relação entre esse objeto transcendente…’perceptível’…e o objeto da física?… – Seria este…que por princípio não pode aparecer… – apenas uma entidade irreal?… – Qual a relação entre o objeto sensível intuído e o físico? De semelhança?… Imagem?… De signo? 

Temos acesso imediato ao objeto transcendente da percepção e apenas acesso mediato ao mundo físico? Ou seria essa uma pergunta que a fenomenologia, tomada como psicologia descritiva, por princípio não pode responder?…

A física se dispõe a estudar a realidade observável, que não se identifica ‘ipsis litteris‘ com a realidade exterior… – Por isso…o antigo problema da relação entre sujeito… e realidade externa… – problema este levantado por Descartes, o qual Locke busca responder…não é eliminado pela… “fenomenologia” … — ressurgindo, pois… sob uma forma mais refinada.

O problema de relação entre experiência sensível e realidade exterior torna-se agora… – o problema da relação entre uma transcendência imanente à “consciência”…dependente portanto do sujeito… – e uma “transcendência física” … que não se mostra de uma maneira direta.

A ‘teoria do conhecimento’… que se originava a partir do pressuposto de um mundo exterior, era incapaz do legitimar qualquer forma de conhecimento a respeito deste mundo…externo ao sujeito. Assim, a epistemologia fundamentada numa psicologia descritiva… – cujo domínio era alcançado pela exclusão do mundo físico… acabava carregando pressupostos ontológicos…conflitantes com premissas epistemológicas.  Esses pressupostos permaneciam implícitos na ‘concepção fenomenológica’ – como        uma teoria do conhecimento – fundamentada na ‘consciência individual’… E assim,          a fenomenologia já no início trazia consigo uma concepção não fenomenológica de transcendência.

paradigmasa ‘Virada transcendental’ 

Husserl — na 1ª edição de sua “Investigações Lógicas, havia concebido sua fenomenologia, conforme uma ‘epistemologia’ fundada na vivência cognitiva  de uma “psicologia descritiva”. Pensava que uma…’imanência fenomenológica’… poderia ser metafisicamente neutra… Sua ideia era construir a partir daí, uma “teoria do conhecimento”.

É importante frisar que, em 1901… apesar de assumir uma neutralidade na metafísica, Husserl não a rejeitou…nem à existência de uma realidade exterior independente. Ele      deixa a entender, por exemplo…que a mera rejeição do ‘pressuposto metafísico’ sobre          o qual a física se efetiva não traria nenhuma vantagem, a menos que a fenomenologia      fosse capaz de oferecer uma proposta alternativa restabelecendo-a sobre novas bases.

Ao invés de abordar o problema do conhecimento, como uma relação entre a realidade psíquica e a realidade exterior, Husserl se propunha a recolocar o problema a partir da imanência, ou seja, como concernente à relação entre diferentes formas de vivências intencionais, nomeadamente intuitivas. Se o “problema do conhecimento” recebesse tratamento adequado a partir dessa imanência, aparentemente não haveria razão para      ir da esfera da psicologia descritiva — aos problemas metafísicos da realidade exterior.

fenomenologiaÉ isso que Husserl pensa em 1900/1901… Mas poucos anos depois ele percebe que a sua teoria do conhecimento extrapolava o âmbito psicológico…trazendo implicações ontológicas… – até então despercebidas…

Em 1906/1907, quando cria o método da ‘redução transcendental‘, passa a rejeitar      a determinação da fenomenologia, como metafisicamente neutraafirmando, ao contrário, que uma boa epistemologia só     seria possível numa autêntica ‘metafísica‘. A fenomenologia, concebida como ‘filosofia transcendental’… é, para Husserl… a elaboração de uma nova ‘teoria do conhecimento’.

os (3) conceitos de imanência

A partir de 1907, a fim de libertar a fenomenologia de sua carga psicológica, Husserl opera algumas modificações no texto da 2ª edição… — Destas…merece destaque a distinção de 3 tipos de conteúdos fenomenológicos … assim classificados em 3 conceitos de “imanência”:

1) Imanência real. Trata-se da esfera de vivências obtidas pela abstração do corpo físico. Na 1ª edição Husserl denomina de “eu empírico” ao conjunto composto por corpo físico, e uma ‘esfera de vivências’…O domínio da fenomenologia é obtido justamente pela exclusão do corpo físico, como se observa na seguinte passagem…“Se separarmos o eu corporal do eu empírico, e limitarmos, portanto, o eu psíquico puro ao seu teor fenomenológico… ele reduz-se à uma unidade de consciência; por conseguinte, à complexão real de vivências, que, evidentemente, encontramos disponível para nós próprios, e que na parte restante, com fundadas razões… supomos”.

cogitoEste conceito de ‘imanência real‘ é análogo ao “conceito cartesiano“… – no sentido de que permanece implícita a suposição de que se trata de um “cogito humano” … com o lado físico pressuposto – e um lado psíquico…explícito. Sendo o domínio da fenomenologia, obtido na abstração do corpo – é claro que este…tomado como base material das vivências (e não correlato objetivo delas) permanece como dado de antemão, pois do contrário não haveria sentido em apartá-lo. Tal caso só faz sentido…numa concepção ingênua de transcendência.

Na medida em que se constitui da abstração do corpo…em relação ao ‘mundo exterior’… a fenomenologia abstém-se de tratar os problemas concernentes à natureza dessa suposta exterioridade então abstraída,    cuja investigação é relegada à ‘metafísica’.

2) Imanência inata…Designa o fluxo constituído pelas vivências (atos da consciência)  purificadas de sua ‘apercepção‘ psicológica…sem contaminações transcendentes. Em “A Ideia da fenomenologiaHusserl exemplifica…“Ao efetuar a reflexão, o imanente surge como incontestável… – pois nela (“reflexão”) nada mais exibe para além de si mesmo”.

O conceito de ‘transcendência’…obtido por contraposição a esse conceito de imanência é distinto do conceito anterior. Todo conteúdo impróprio de um ato (…conteúdos ideais, e os objetos intencionais dados em atos não reflexivos) é…nesse sentido…transcendente…, pois o próprio ‘sujeito psíquico’ (tomado como parte de um sujeito real), bem como suas vivências (oriundas da consciência) é também algo transcendente deste “ser psicofísico”.

3) Imanência pura… é constituída pelos conteúdos fenomenológicos, ou seja, por dados evidentes…no sentido genuíno, e dados absolutos… apreendidos em ‘intuição pura’, com o propósito de descobrir estruturas essenciais dos atos (noesis) … e suas entidades objetivas correspondentes (noema). A ‘imanência inata’ é apenas um caso especial desta imanência.

epochéEpoché‘ é um exercício de suspensão da tese de existência do mundo… a fim de alcançar o dado absoluto.

A “imanência pura” pode ser circunscrita a 3 níveis de ‘consideração fenomenológica’…No 1º (incluindo a ‘imanência inata’), trata-se do “cogito” tomado em sua singularidade. No 2º, dos “eidos“… universais. No 3º, os correlatos de toda espécie, na medida em que, ao serem formados na consciência, fazem da fenomenologia uma ‘ciência universal‘ … baseada na correlação consciência (noesis) / objeto (noema).

No caso da ‘percepção externa’… — tais correlatos fazem                                  parte da ‘imanência pura’, mas não da ‘imanência inata’.

o problema da ‘transcendência Pura’                                                                                   “Cada conceito de imanência tem como contraponto…um conceito de transcendência.”

Uma vez de posse destes 3 conceitos…de imanência e transcendência – podemos agora concluir que… Se em 1901, Husserl faz a distinção entre a aparição e o que aparece, em 1907 ele acrescenta que essa distinção deve ser realizada no interior da imanência pura. Tanto aparição quanto objeto são imanentes no sentido absoluto… Contudo, a aparição     do objeto pertence à ‘imanência inata’, enquanto o objeto é transcendente com relação       à ela…“Por conseguinte, temos 2 dados absolutos… – o dado do fenômeno, e o dado do objeto; e o objeto, dentro desta imanência, não é imanente no sentido incluso (inato).”

‘Objetos da percepção’…entendidos de maneira reduzida, também podem     ser vistos em sentido absoluto… – tanto quanto sua aparição (fenômeno).

Inicialmente… – temos o conceito de “imanência (real) descritiva”… – que compreende a consciência como uma região ontológica do mundo, ao lado de outras regiões que lhe são transcendentes… A ‘imanência psíquica’ é tomada apenas como um objeto, dentre outros tantos possíveis de ‘investigação científica’. – Já o conceito de ‘imanência inata‘ traz uma ideia relativa de transcendência… – todo conteúdo fenomenológico que não é inato… – é transcendente… — como por exemplo… as essências e correlatos objetivos das ‘vivências intencionais’… – Neste caso, o objeto percebido… (pela consciência)… é “transcendente”.

Se, em termos de transcendência, os 2 primeiros conceitos de imanência      se encontram bem definidos, isso não se pode dizer do 3º conceito… Aí…        o problema se coloca…ao buscarmos um conceito de “transcendência”… contraposto à “imanência transcendental”… – como veremos a seguir…

fenomenologia.O domínio da fenomenologia… – após 1907, não é mais obtido pela exclusão daquilo que transcende ao ‘conteúdo inato’… – mas pela ‘desconexão’ de tudo que é transcendente, à “imanência pura”, ou seja… tudo aquilo que não é dado após a ‘redução transcendental’. Mas… o que não é dado após a efetuação da epoché?… A única resposta é — tudo aquilo que não pode…a princípio…ser constituído na consciência. Mas então, o que seria isto?

A resposta mais óbvia para essa pergunta… – parece ser o ‘mundo real‘ … o mundo em si, ontologicamente independente da consciência. No entanto, ainda que essa seja a resposta mais óbvia, é problemática. – Como Husserl nos mostrou em 1913, a redução não implica em perdas…pois caso algo desconectado possua algum tipo de validade, será reconectado.  Assim, a objeção de que a redução limita o campo de pesquisa à interioridade…ainda que transcendental, só pode ser resultado de uma má compreensão da mesma, ao confundir a atitude transcendental com a natural. – Se há algo que a ‘epoché‘ exclui…esse algo não é a própria realidade, mas apenas uma concepção absurda da mesma – nomeadamente, uma realidade independente de toda teoria, de toda experiência.

Todo objeto passível de ser conhecido, predicado e experienciado é correlato de operações noéticas…Mas, quando esta consciência é vista a partir de uma perspectiva externa…não é possível revelar sua dimensão transcendental…. Querer assim compreender a constituição do mundo é recair em psicologismo e contrassenso…Contudo, quando a consciência não é vista sob esta perspectiva naturalística, mas a partir de uma ‘redução transcendental’, não há exterioridade, nem interioridade…Estes são 2 dados correlatos a uma ‘imanência pura’.

Com efeito, um dos maiores ganhos da redução é que ela revela o vínculo essencial que há entre ser e aparecer… – O sujeito transcendental é condição do aparecimento de qualquer ente possível, pois a essência de um ‘objeto transcendente’… diz respeito ao próprio modo como o objeto deve se mostrar. A postulação de um ser que, a princípio, não se manifeste,  e não se anuncie… — nem mesmo ao pensamento teórico… — não é algo que faça sentido.

Segundo Husserl… – do ponto de vista transcendental… – a concepção de    um ‘mundo ontológico’, independente da consciência, é um ‘contrassenso’.

fenomenologia-introduçãorelação entre objeto ‘físico‘…e percebido

A partir de 1906 … com a ‘virada transcendental’, Husserl entende que a epistemologia não deve se fundamentar na ‘psicologia descritiva’…mas sim, numa ‘filosofia transcendental‘… – Desde então, o domínio autêntico da “fenomenologia”… não é mais a ‘imanência psíquica’ – mas sim…a ‘imanência pura‘. – Nesta, se incluem não só as vivências – mas também as essências…e todos os correlatos constituídos pela consciência. E assim, o ‘objeto emergente‘ passa a ser entendido por uma “dupla chave“… – como transcendente aos conteúdos inatos, mas imanente, em sentido puro. Essa ampliação do “campo da fenomenologia” possibilita a Husserl solucionar várias questões… inclusive, o status do “objeto intencional“, agora definido como…“o idêntico de múltiplas aparições, motivadas de modo coerente”.

Ele não é nem a soma das aparições, nem algo por trás destas…e muito      menos algo destas realmente separado, mas apenas algo que as unifica.

Com a defesa do “primado” da ‘consciência’ em relação ao ser transcendente, Husserl rejeita a doutrina de Locke que prega a existência…de – ‘qualidades secundárias’ (cor, som, cheiro) pois, as ‘qualidades primárias’ (solidez…extensão…inércia…)  não teriam privilégios…frente àquelas… – E assim, também rejeita a ideia de que o objeto da intuição seja ‘signo’ do objeto físico… – Mas então… qual seria a relação entre ambos?

Husserl oferece uma solução para este problema a partir da concepção de que o objeto da física é constituído a partir de ‘operações noéticas’ realizadas sobre o objeto da percepção. Isto é, o portador das determinações sensíveis será concebido como idêntico ao portador das determinações físicas, de modo que, do ponto de vista transcendental, não se poderá afirmar que a coisa física é algo que exista por detrás do objeto sensível, que é sua ‘causa’.

Se o objeto físico fosse uma causa escondida por trás do objeto que aparece, teríamos como consequência, uma teoria dos dois mundos, na qual haveria uma “realidade fenomênica” — e, por detrás desta… uma “realidade física”.

É verdade que o objeto da física possui atributos que não são dados no objeto tal qual    este se manifesta na experiência direta, e vice-versa…mas isso não é problema, já que          é preciso distinguir entre o portador das determinações, e as próprias determinações.         O portador é o mesmo, já as determinações de um e outro variam, conforme o tipo de       ato e sentido com o qual é intencionado. E isso não significa uma ausência de relação       entre as determinações físicas, e as percepcionadas. O objeto, enquanto portador das determinações sensíveis, tal como dado na intuição original…possui, não só primazia epistemológica, mas também ontológica frente ao objeto da física. Este por sua vez, é constituído no processo de idealização operado sobre a objetividade dada na intuição. 

As próprias…”determinações físicas”… – se anunciam…                                     antes de qualquer teoria… em suas ‘condições sensíveis’.

Em suma…todo conhecimento científico teórico encontra sua raiz na intuição originária. Essa ideia irá culminar, na posição amplamente desenvolvida por Husserl nos ‘anos 20’, de que diferentes domínios das ciências teóricas encontram sua raiz no ‘mundo externo’,  aquilo que ele… — posteriormente irá denominar de… — “mundo da vida”… (texto base) *****************************(texto complementar)*********************************

fenomenologia-ideiaLições fundamentais de fenomenologia

Edmund Husserl é o pai da “fenomenologia”, filosofia que – partindo da matemática… e da psicologia … faz a ruptura com o pensamento moderno, abrindo as portas a um novo modo de raciocínio. Esta ciência…preocupa-se com    o estudo dos ‘fenômenos’ – do modo estes se apresentam ao sujeito… Imaginação…espaço, tempo e empatia – são dados ao sujeito…por meio de uma ‘consciência’…que os apreende.

Em sua obra — “A Ideia da Fenomenologia“… Husserl preocupa-se em apresentar as “raízes” da sua reflexão filosófica, dividindo o trabalho metodologicamente em 5 lições, pronunciadas em 1907…na cidade de Göttingen – como uma nova perspectiva em sua linha de pensamento.

No resumo a seguir (1ª e 2ª lições)… Husserl – além de apresentar as definições básicas da fenomenologia, também se preocupa em analisar a essência do conhecimento, ou seja, que métodos utilizar para torná-la acessível.

Na 1ª lição, Husserl mostra a diferença entre ‘atitude espiritual natural’, da qual provém a ‘ciência natural’…e ‘atitude espiritual filosófica’ (fonte da ‘ciência filosófica’). – A primeira,
não se atém à ‘crítica do conhecimento’, portanto…não é capaz de atingi-lo – pois todas as coisas presentes no mundo tornam-se… de alguma forma, objeto da ‘investigação natural’. Nesta atitude… – as coisas estão no mundo… – e caem, “naturalmente” sobre a percepção.

Desse modo, as ciências naturais podem ser da própria natureza, assim como de natureza psíquica, ciências do espírito, e ciências matemáticas.

Na atitude intelectual filosófica, Husserl mostra que ela é esclarecida em seus propósitos, pela percepção de um mistério acerca da possibilidade do conhecimento…Dessa forma, a essência do conhecimento se apresenta como um problema… – isto é… um mistério a ser investigado… – É desse mistério sobre a busca da essência do conhecimento, que surge a atitude intelectual filosófica. – E é assim… que Husserl busca fundamentar a essência do conhecimento e sua possibilidade.

Pode-se então dizer que o ‘conhecimento’ é uma “vivência de natureza psíquica“, pois o homem busca ter consciência de seu próprio conhecimento. E dessa afirmação… têm-se que o ‘saber’ é uma das formas de vivência do sujeito, o qual se dá na consciência. Desse modo então, somente os ‘fenômenos’ são vinculados diretamente ao cognoscente, e esta    é justamente a conexão de suas vivências.

Diante dos ‘problemas’ relativos à correlação conhecimento… sentido… e objeto… – cabe à “teoria do conhecimento” – ou… à “crítica da razão teorética” solucioná-los. — Sua tarefa é de aspecto crítico… – “refutar teorias sobre a essência do conhecimento”… pois, segundo o próprio Husserl… “Só a reflexão gnosiológica separa a ciência natural da prática filosófica”.

       As ciências naturais do ser não são ciências definitivas do ser.                         É preciso uma “ciência do ente”… – e esta … é a “metafísica“.

Finalizando a 1ª lição, Husserl apresenta a definição de ‘fenomenologia’… – como sendo   uma ciência, ou conexão de disciplinas científicas, sobre o estudo do ‘fenômeno‘ … (tudo aquilo que se manifesta…e se revela à consciência)… – E assim sendo, a ‘fenomenologia’ designa um método (filosófico), e uma atitude intelectual filosófica… propriamente dito.

Seguindo com sua reflexão, já na 2ª lição, Husserl afirma que… – ao iniciar uma crítica ao conhecimento, o importante é submeter o índice de questionabilidade da natureza física e psíquica do mundo, ao próprio ‘ser humano’, assim como às ciências que dizem respeito a essas realidades. Tudo isso é colocado em questão…Logo, o conhecimento é um problema de difícil compreensão. Sua obscuridade crítico-cognitiva faz com que não se compreenda que sentido exista em um ser em si…que assim seja compreendido – atestando o mistério na apreensão do conhecimento.

descartes_frasesEdmund Husserl faz uma referência à meditação de Descartes quanto à ‘dúvida hiperbólica’ citada em suas “Meditações Metafísicas“. – Ele diz que, mesmo que se duvide de tudo – da maneira mais cética, é impossível de se duvidar da existência, à medida que se duvida…isto é, nem tudo pode ser duvidoso… — pois, ao afirmar isto, seria absurdo manter uma dúvida universal. E este argumento, como se pode ver, vale para todos atos do cogito.

Husserl compara a “percepção intuitiva” com a “imaginação” … Ele dá pouca importância ao fato de ser verdadeiro ou não o que se percebe… pois o que importa é a verdade da sua percepção. Para isso, ele propõe uma nova ciência da ‘crítica do conhecimento’… a fim de elucidar sobre sua essência. – Com efeito… apesar de questionar o saber, Husserl mostra que não se deve colocar em questão, tudo aquilo que transcende a experiência intuitiva e imanente do “eu percebo” … na tentativa de recuperar algo exterior…”transcendental”.

A transcendência segundo Husserl é o problema inicial e guia da crítica do conhecimento, isto é…é o enigma que bloqueia o caminho do conhecimento natural… – constituindo assim… o ‘impulso’… para as novas investigações.

O conhecimento é uma coisa distinta do seu objeto – ou seja… o conhecimento está dado, mas o objeto não… Assim, apesar do conhecimento ser questionado… isso não implica na negação de sua possibilidade. Não se pode interrogar o que é conscientemente percebido, uma vez que este, enquanto possível objeto transcendente, já fora repudiado pela dúvida.  Dessa forma… – ao tratar da “redução gnosiológica“… – Husserl conclui sua 2ª lição.

Nessas lições, Husserl se propõe trabalhar como é, em geral, possível o conhecimento, e o que pode ser conhecido (seu objeto)… – Pode-se concluir… a partir da leitura dessas duas primeiras lições que fenomenologia é a ciência de tudo aquilo que se manifesta e se revela à consciência. – Consistindo num método que se deriva de uma atitude sem pressupostos, tem por objetivo dar bases sólidas a uma ciência, que busque alcançar a ‘coisa’ como ela é.

Para Husserl…consciência é ‘intencionalidade’, uma vez que toda consciência é consciência de algo… e sendo assim… constitui uma atividade formada por atos (…imaginação…e percepção) dispostos num “feixe vivencial”.

Enquanto um transcender em direção à outra coisa — a intencionalidade é um ‘modo de ser’ da consciência .

A consciência não está no mundo, é transcendental… De tal modo,              que só é possível definir o objeto em relação à consciência, ou seja,                o objeto só é objeto… se referenciado a algum determinado sujeito.

Mesmo diante do que Descartes e outros filósofos já disseram…Husserl vai além das ideias destes, ao propor uma reflexão científica sobre o conhecimento, tornando a fenomenologia não apenas atitude intelectual natural, mas atitude intelectual filosófica … ao colocar todas as coisas, enquanto fenômeno da consciência… de tal modo que se pode interrogar, como é possível que… – tudo o que está em torno de um sujeito…exista somente em relação à ela…

Para que a verdade filosófica se torne permanente… é preciso que a consciência alcance as coisas do modo como estas à ela se mostram.              A filosofia assim, deve buscar alcançar a essência do conhecimento.

Esta obra de Husserl é essencial para uma compreensão filosófica…principalmente no que diz respeito ao pensamento contemporâneo. É dirigida a todo público que se sente admirado pelo saber… pelo conhecimento… – mas, principalmente, para quem deseje pesquisar a contemporaneidade – pois Husserl está entre os que mais influenciaram        este período(texto base)

Publicado em filosofia | Marcado com | 1 Comentário

Husserl, e o poder fenomenológico da ‘Percepção’

A capacidade de apreensão das coisas, por meio dos sentidos é fundamental na formação do conhecimento. Mas, como garantir o saber objetivo e erigir uma teoria do conhecimento … se a percepção envolve “objetos subjetivos”?

Conhecemos o mundo ao redor por meio dos órgãos sensoriais, onde a “percepção sensível, isto é… — nossa capacidade de assimilação das coisas, através da visão, audição, tato… olfato     e paladar… – desempenha um importante papel na formação das nossas crenças, e portanto no conhecimento… Por isso, a percepção tem sido discutida, desde a antiguidade… — com inúmeros problemas filosóficos girando em torno dela.

Podemos entendê-la como uma relação entre aquele que percebe… e o que é percebido, isto é, entre um organismo com capacidades sensoriais, como o humano, e os objetos e eventos do mundo… Na percepção, a pessoa informa-se sobre esses objetos ou eventos, essa informação porém, deve ser percebida pela pessoa para que se possa dizer que ela   teve uma experiência.

Desse modo, a fenomenologia envolve uma percepção das ‘qualidades sensíveis’ das experiências que surgem à consciência do sujeito… e que, em ‘Filosofia da Mente‘, denominamos caráter fenomênico. Em outras palavras, o que é experienciado pelo indivíduo quando vê, ouve, etc. – Tomemos um exemplo: ao ver um tomate maduro…         a cor vermelha aparece à minha consciência de determinada forma…ou seja, com uma característica qualitativa por mim apreendida subjetivamente. – Assim, quando tenho         a experiência visual do tomate maduro, meu estado mental tem um caráter qualitativo     que aparece de certo modo à minha consciência. Essa é a ‘consciência fenomênica‘.

Já determinado o escopo da “Fenomenologia” … surge a questão sobre o ‘caráter fenomênicodas percepções… – Na concepção ordinária, que se refere à nossa visão comum de mundo – é a ‘característica’ de um objeto, considerando que o ‘emergente’ à consciência diz respeito ao objeto externo.

reflexão Contudo, existem ‘argumentos filosóficos’ que defendem que as qualidades sensíveis comumente atribuídas aos ‘objetos’ – não são suas propriedades, mas propriedades intrínsecas das ‘percepções’… – existindo somente no sujeito…                                         Nesse sentido…a cor vermelha do tomate não está nele, o que implica que o tomate não é realmente ‘vermelho’…  –  uma vez que sua cor está na ‘mente’ de quem o vê.

Em contrapartida, outros pensadores defendem qualidades sensíveis como propriedades dos ‘objetos externos‘… se aproximando assim, da concepção comum de “percepção“.

Portanto, de um lado estão aqueles para os quais o caráter fenomênico das experiências perceptivas é explicado por propriedades subjetivas. – De outro…aqueles que procuram explicá-lo por referência a propriedades objetivas. E, em consequência, não se tem uma explicação consensual e satisfatória sobre o que é esse caráter fenomênico, e assim, não sabemos … com total certeza, qual a verdadeira natureza das “experiências perceptivas”.

O objetivo deste artigo é apresentar o debate travado dentro, da Fenomenologia, entre subjetivistas e intencionalistas por meio das 2 teorias filosóficas que representam estas concepções perceptivas, e mostrar como o que é evidente ao senso comum… — pode ser posto em xeque… Ao longo do texto, veremos como elas convergem e divergem entre si,   e da concepção ordinária de percepção.

a) Subjetivismo

A concepção subjetivista tem predominado na Filosofia desde o século XVII e, de forma geral, defende que a percepção sensível envolve algo mental e privado, isto é… acessível somente por quem tem a experiência. Segundo Hilary Putnam, desde então, esse “algo”     foi concebido de diferentes modos, com denominações tais como ideias, impressões, sensum, etc. – Nesta concepção de percepção, as qualidades sensíveis dos objetos não seriam propriedades objetivas do mundo, mas subjetivas, e intrínsecas às experiências.

Um dos principais expoentes desta teoria foi Bertrand Russell (1872-1970). Russell fazia parte do grupo de filósofos que batizou de “dados dos sentidos”… – àquilo que aparece à consciência de uma pessoa numa ‘percepção sensível‘…De forma geral, esses teóricos     os consideram objetos mentais… não físicos – que dariam à experiência perceptiva a sua qualidade aparente…Sendo, portanto… isso o que explicaria a fenomenologia das nossas percepções. Em defesa dessa teoria é comum utilizar- se o argumento da alucinação:

arvoreJoão está tendo uma experiência visual de uma árvore – com caule marrom, e folhas verdes, porém … nada assim existe diante dele. Conclui-se então…que ele está tendo uma alucinação… – de uma árvore … com certas características.

Ora, se não existe nenhum objeto diante de João… – assim como aquele, que aparece à sua ‘consciência‘, os objetos de sua visual experiência não lhe são externos…portanto, deve existir algo interno mental que explica os objetos e propriedades…que ele imagina.

No 2º passo desse argumento, devemos observar que percepções inverídicas podem ser qualitativamente indistinguíveis das verídicas, e que o caso de João é um desses. Por isso, quando João imagina a árvore — ele não consegue discriminá-la de uma visão real.

Se a alucinação de João é introspectivamente indiscriminável de uma percepção genuína, deve existir algo que essas experiências perceptivas têm em comum… – Dessa maneira, o “subjetivista” defende que essas experiências têm a mesma fenomenologia… quer dizer… compartilham do mesmo caráter fenomênico… – E então… – os dados dos sentidos…que caracterizam o que aparece à consciência de um sujeito nos casos perceptivos verídicos e inverídicos, são objetos mentais, individuais.

Isso implica que a Fenomenologia envolvida na percepção de                   João seria diferente… se os dados dos sentidos fossem outros.

Se em toda experiência perceptiva existem dados dos sentidos do qual João é consciente e nem sempre os objetos externos estão presentes – tal como acontece na alucinação, diz-se que João é diretamente consciente de objetos mentais…Logo, na percepção genuína, ele é ‘indiretamente‘ consciente dos objetos externos que vê – pois existem dados dos sentidos mediando a relação perceptiva de João com o mundo exterior. Assim, é como se existisse uma tela interior na qual os objetos que vemos…são sempre objetos projetados nesta tela.

Uma vez que, percepções inverídicas indiscerníveis das verídicas               são caracterizadas pelos mesmos dados dos sentidos…conclui-se                   que a natureza dessas experiências é a mesma.

Por meio do argumento da ‘alucinação’… a teoria coloca em xeque a concepção ordinária de percepção em dois sentidos: 1) Enquanto o senso comum atribui a objetos externos as qualidades sensíveis das nossas experiências…a ‘teoria filosófica subjetiva’ as explica por meio de dados dos sentidos, propriedades intrínsecas da experiência, cujas existências e naturezas dependem da consciência de quem tem uma percepção sensível… e; 2) Contra   o que é usual pensar-se, existiria uma espécie de interface entre nós e o mundo exterior.

fenomenologia-husserl-fraseb) Intencionalismo

Muitos filósofos a afirmam que as teorias perceptivas … que se baseiam em objetos mentais – tais como ‘dados dos sentidos’, não logram explicar a Fenomenologia da Percepção satisfatoriamente. Neste grupo estão os ‘intencionalistas’…que entendem as ‘experiências perceptivas’ … através de um conteúdo intencional…representando de certo modo objetos/eventos do mundo.

Para Gilbert Harman, um dos representantes da teoria – esse ‘conteúdo intencional’ seria suficiente para explicar o caráter fenomênico das percepções. Em seu entender, dizer que nossa experiência visual possui conteúdo é afirmar que ela representa as coisas de certo modo. E, sendo assim, o conteúdo representacional de uma experiência fica definido por referência aos objetos percebidos. Desse modo, ser representacional é ser intencional, pois a experiência é sempre acerca de algo. – E, como a experiência perceptiva requer um conteúdo intencional… – o que é percebido é tratado como um “objeto intencional“.

Harman visa mostrar a inadequação da teoria subjetivista à Fenomenologia da Percepção, revisitando o argumento da alucinação…e o confrontando com a tese da transparência da experiência, pela qual… — na ‘experiência perceptiva’ não nos tornamos conscientes de nada além do que nossos estados mentais representam. Nessa tese – ele defende que o subjetivismo se equivoca ao tomar as ‘propriedades‘ representadas como “intrínsecas” da experiência.

No exemplo anterior, segundo Harman…João está vendo uma árvore, então, o conteúdo da sua experiência visual é a árvore, que é representada de certa maneira para João, por exemplo, contendo caule marrom e folhas verdes. Seja nas percepções verídicas, ilusões      ou alucinações, a árvore que João percebe apresenta-se para ele estando no mundo. Ou seja, quando João tem sua experiência visual, está consciente de uma árvore com certas características, e que está a certa distância dela…Desse modo, o conteúdo representado,    é uma árvore, suas propriedades e seu entorno.

“Assim, a representação mental de uma experiência                                          representa algo no mundo … — não algo na mente”.

representação mentalHarman defende que nada na experiência visual de João…lhe revela as propriedades intrínsecas da experiência, em virtude das quais possui o conteúdo que possui… – Se somente propriedades representadas nos vêm à percepção… nenhum objeto mental  individual… – que daria à experiência sua qualidade sensível… – nos será revelado…

Se o que nos é revelado for apenas o ‘conteúdo representacional‘… – é esse conteúdo que determina o caráter fenomênico envolvido na percepção, seja ela verídica ou não… Nesse sentido, não são requeridos objetos externos para a determinação da Fenomenologia. Se    a percepção individual for verdadeira, seu conteúdo também é verdadeiro … e, tendo em vista que os objetos da experiência são ‘objetos no mundo’, com suas propriedades… seu próprio “caráter fenomênico” é dado por referência a propriedades de “objetos externos”.

Desse modo, contrariamente ao subjetivismo, os objetos da experiência nos casos verídicos não são objetos mentais… – Se a pessoa estiver alucinando…o conteúdo representado em sua experiência perceptiva é falso, muito embora possa parecer-            lhe o contrário. Uma vez que ter experiência requer conteúdo representado, e não existência de objetos externos…explica-se assim também — a ‘fenomenologia das alucinações indiscrimináveis‘.

O intencionalismo de Harman se aproxima então da concepção ordinária perceptiva,      na medida em que as qualidades sensíveis envolvidas nos casos verídicos se explicam    com base em propriedades objetivas. – A diferença… no entanto… é que, nesta teoria,      o que determina o caráter do fenômeno perceptivo… é seu conteúdo representacional,        e não os próprios instrumentos da percepção… – tratados como ‘objetos intencionais’.

imagem 3DContraponto a Harman

Vimos… como a “tese da transparência” utilizada por Harman contra o “argumento da alucinação” objeta a existência de dados dos sentidos em nossas percepções. Porém, o filósofo Christopher Peacocke…questiona a transparência dessas experiências visuais, ao nos apresentarem apenas “propriedades representacionais”… Peacocke entende que o conteúdo representado nas experiências, não apreende as qualidades sensíveis – logo… não explicaria seu caráter fenomênico. – Assim… além de representarem as propriedades dos objetos, as experiências perceptivas apresentam também suas aparências, e portanto, devem existir propriedades não representacionais.

Isso contrapõe a tese de que o conteúdo representacional seria suficiente para explicar o…”caráter fenomênico”… – subentendido nas ‘percepções’.

Retrospecto inconclusivo

Nessa perspectiva, assim como objeções pesam contra a teoria dos dados dos sentidos, a teoria de Harman não explica a fenomenologia satisfatoriamente…As nossas percepções parecem nos colocar em contato direto e imediato com o mundo, ao nosso redor, porém, um dos motivos para desconfiarmos delas… – é que podemos tomar um caso perceptivo inverídico por uma percepção genuína, e nos enganarmos a respeito do que percebemos.

O que a nossa experiência perceptiva nos mostra pode não existir no mundo…tal como acontece nos casos alucinatórios…Isso dá margem à ‘teoria subjetivista’, que defende a existência de objetos mentais, privados e não físicos em todas as percepções … e assim, apreenderíamos o mundo de forma indireta, uma vez que existiria uma interface entre quem percebe e o que é percebido. Entretanto, por meio da ‘tese da transparência’…os intencionalistas argumentam que as experiências nos mostram somente seu conteúdo representacional, e assim o subjetivista se equivoca – posto que, nas percepções… não estaríamos conscientes de “objetos mentais”.

Além dessa objeção, o ‘subjetivismo’ traz consigo o problema de justificar nossas crenças do mundo a partir de objetos teóricos mentais específicos. 

Mas eliminar objetos mentais da Fenomenologia da Percepção não é tarefa fácil. Isso foi mostrado por Peacocke ao argumentar que o conteúdo intencional não é suficiente para explicar o que aparece à consciência individual… – Desse modo, mediante os problemas levantados contra suas próprias teorias filosóficas… ainda não há explicação satisfatória para o que seja o ‘caráter fenomênico‘ das percepções… e, por conseguinte, sobre qual a natureza das experiências perceptivas.

Serão estas constituídas por aspectos da realidade exterior… – apreendidos por nossos sentidos, como quer a concepção ordinária?…Serão as qualidades sensíveis explicáveis por objetos não físicos ou por referência a propriedades objetivas?…Responder a essas questões é fundamental para uma ‘teoria da percepção’ que se pretenda filosófica, pois esta não pode prescindir do que é vivenciado pelo sujeito, com consciência fenomênica.

Uma 3ª via

Embora subjetivistas e intencionalistas discordem sobre o ‘caráter fenomênico’ das experiências … eles concordam que as ‘alucinações de percepções verídicas’ compartilham a mesma fenomenologia.

Esses filósofos – portanto, consideram que o ‘experienciado’ pelo sujeito… – é suficiente para que se atribua…mesmo caráter fenomênico à elas…Contra isso, surgiu a corrente filosófica ateísta do… “disjuntivismo fenomênico“, tendo Michael Martin como seu principal representante.

No entender de Martin…a experiência de alguém não o autoriza a afirmar que o caráter fenomênico é o mesmo nos casos alucinatórios indiscerníveis dos verídicos. Assim, não decorre que – de experiências parecerem iguais à pessoa…que tenham algo em comum.    O que abre espaço teórico ao argumento de que estas situações sejam…’absolutamente’ distintas, ainda que pareçam fenomenicamente indiscrimináveis…Daí a denominarem uma disjunção…ou a pessoa viu algo, de fato…ou pareceu-lhe ver esse algo… Ou seja, alucinações indiscrimináveis de percepções verídicas serem ‘experiências perceptivas‘,      de naturezas diversas. Essa forma permite a Martin defender que, nos casos verídicos:

“os objetos são constituintes da experiência, ou que suas reais                          naturezas determinam o caráter fenomênico da experiência”.

Por conseguinte… retorna-se à concepção comum de “percepção”, ao tratar os objetos da experiência perceptiva nos casos verídicos como objetos no mundo… e não como objetos mentais, ou intencionais. Mas o que dizer do que aparece à consciência de quem alucina?

Para Martin… a única caracterização à experiência                          alucinatória… é o seu caráter de ‘indiscernibilidade’.

Não existiriam dados dos sentidos, conteúdos intencionais falsos, ou outra coisa que a caracterizasse ‘fenomenicamente’, isto é, o que se pode falar sobre a fenomenologia da alucinação é a propriedade de ser “indistinguível” das percepções genuínas… Contudo,      o principal problema enfrentado por Martin é negar que alucinações indiscerníveis ao sujeito, compartilhem do mesmo caráter fenomênico das ‘percepções verídicas’…pois:

“o que mais pode existir para o caráter dos estados conscientes da mente, que a pessoa, por si mesma, possa discernir quando reflete sobre eles?”…

Assim… essa teoria é desafiada a demonstrar que em percepções verídicas existe uma diferença experiencial em relação às alucinações — mesmo que esta seja subjetivamente ‘indiscriminável’ de um caso verídico. (texto base) **********************(texto complementar)****************************

                             A fenomenologia ‘positivista’ de Husserl                                                “Perdemos o mundo, para o ganhar de um modo mais puro… retendo o seu sentido. A fenomenologia põe fora de circuito a realidade da natureza… – do céu e da terra…dos homens e animais, do próprio eu…e do eu alheio, mas retém…por assim dizer, a alma,      o sentido de tudo com o qual estou imediatamente em contato, de modo que os objetos assim considerados não só estão presentes, mas brotam de mim mesmo”. (J. Fragata)

Do ponto de vista metodológico, a  fenomenologia de Husserl adota uma… ‘suspensão de juízo‘… em relação à existência do mundo… para recuperá-lo na ‘consciência plena’ da expressão do fenômeno. Segundo Husserl… é um método especificamente filosófico – cuja estratégia consiste no alcance de um grau máximo de ‘evidência’… — durante uma ‘suspensão de juízo’ sobre a existência das coisas. Tal exercício permite a ‘redução fenomenológica’, recuperando as coisas, em sua ‘significação pura’, como ‘objetos de pensamento’… pela consciência.

Enquanto o programa positivista para o estudo humano, do ponto de vista metodológico, deixa-nos confinados a uma ‘lógica indutiva‘… – segundo a qual conhecer consiste em descrever, segundo uma observação positiva dos fatos – sua ‘regularidade’, a abordagem fenomenológica nas ciências humanas convida-nos a um ‘esclarecimento’ sobre o que há de mais fundamental em um objeto de pesquisa… — deslocando-nos a atenção, dos fatos contingentes… para o seu sentido originário – indissociável de uma vivência intencional.

Tal abordagem consolida uma espécie de ‘conversão filosófica’, que nos faz passar de uma visão ingênua do mundo — para um modo de consideração das coisas no qual o mundo se revela, em sua totalidade, como “fenômeno”.

O ‘ideal husserliano’ exprime-se pela determinação em dar uma fundamentação rigorosa à filosofia…e assim, a todas as demais ciências…Tomado por sua ânsia de rigor absoluto, em  um ímpeto próprio de sua formação matemática… no início do século XX… Husserl estava convencido de que a fundamentação da filosofia deveria implicar necessariamente…numa plena racionalidade da mesma — através de uma clarificação do sentido íntimo das coisas, por meio de uma reflexividade radical, que daria consistência inclusive, à própria filosofia.

A partir daí…Husserl não se contentaria com algo que não se revelasse,      em seu sentido próprio à consciência… – como um dado absolutamente evidente. — À fenomenologia caberia pois, promover uma investigação rigorosa…do incomensurável campo da “subjetividade transcendental“.

A atitude fenomenológica consiste numa atitude reflexiva e analítica… a partir da qual se busca fundamentalmente elucidar, determinar e distinguir o sentido íntimo das coisas, a coisa enquanto objeto de pensamento – tal como se mostra à consciência. Analisar o seu sentido atualizado no ato de pensar…explicitando intuitivamente as significações que se encontram ali virtualmente implicadas em cogitos…bem como seus diferentes modos de aparecimento na consciência intencional.

Explorar a riqueza deste universo de significações que a coisa (cogitatum) nos revela no ato intencional, é o que é próprio da atitude fenomenológica.

Para Husserl, tanto a consciência do senso comum quanto a consciência das ciências ditas “positivas”…encontram-se, ainda que de modos distintos, mergulhadas na atitude natural, expressa na relação entre uma “consciência espontânea (empírica ou psicológica) e o ‘mundo natural’, revelado empiricamente à consciência, em suas “circunstâncias factuais”.

Fiel ao seu projeto filosófico de constituição da filosofia como uma… ‘Ciência de Rigor’, Husserl sabe que as tais ‘evidências incontestáveis’…necessárias para a fundamentação      da própria filosofia – não poderiam ser extraídas do ‘plano empírico-natural’…pois por mais perfeita que seja uma percepção empírica, será sempre a percepção de um “ponto    de vista”, e enquanto tal, somente poderá revelar “aspectos” ou “perspectivas” da coisa percebida. – Com efeito, a crença acerca do que percebemos empiricamente, vai muito além daquilo que a percepção empírica efetivamente nos revela. Desse modo, pode-se dizer que empiricamente observar um objeto será sempre um misto de visto/não visto.    E, toda evidência extraída do ‘plano empírico-natural’, onde a consciência se relaciona com o mundo, será sempre uma ‘evidência perspectivista’ (existencial)…isto é, parcial.

Como nos diz Husserl…“dos fatos…não podemos extrair evidências absolutas” (as coisas do mundo não são inquestionáveis… pois não          excluem a possibilidade delas duvidarmos, ou de sua inexistência).

Eis um 2º motivo para não podermos, na visão de Husserl…extrair evidências plenas de nossa percepção empírica do mundo – pois…a julgar pelo que a…”experiência sensível” nos revela… jamais poderíamos eliminar, por completo – a possibilidade de dúvida, sobre a existência das coisas que se nos apresentam…e neste sentido, estaríamos sempre prestes a corrigir as nossas percepções… — do que havia sido estabelecido com base na experiência sensível. Assim, para Husserl…seria impossível traçar uma filosofia, que pudesse se apresentar como uma “ciência rigorosa”, baseada apenas no ‘ente mundano’.

Como estratégia metodológica para o alcance de ‘evidências incontestáveis’…condição para    a fundamentação da filosofia como…”ciência rigorosa”, Husserl optou pelo exercício de uma ‘suspensão de juízo’ (epoché) em relação    à questão da primordial da ‘existência das coisas no mundo’. E assim, por consequência:

a fenomenologia prescindirá de tecer considerações acerca desta questão, para então, direcionar sua atenção aos ‘fenômenos’, tais como se revelam, na pureza irrefutável da auto-reflexão de sua consciência transcendental.

De um lado, deparamo-nos com um modo de consideração das coisas… a partir do qual o mundo se revela para a nossa ‘consciência espontânea’ como o domínio empírico-natural dos fatos…do que se encontra submetido a uma dimensão espaço-temporal… Trata-se do modo de consideração do mundo próprio das ciências positivas em geral…Paralelamente, como um recurso metodológico ao alcance das evidências irrefutáveis, o exercício epoché de redução promoverá o salto ao modo “transcendental fenomenológico“, fazendo agora com que o mundo se revele em ‘consciência pura como um ‘horizonte de sentidos‘.

Se esta consciência pura não pode ser tomada em termos de dados empíricos…cabe-nos apenas concebê-la a partir de sua relação intencional com seu objeto, que em sua versão reduzida (enquanto ‘objeto de pensamento’) nada mais é do que “conteúdo intencional”  da consciência.  – Trata-se com tal redução de fazer o mundo reaparecer na consciência como um horizonte de idealidades meramente significativas – que se revelam como um dado absoluto e imediato à consciência pura, que o apreende e constitui intuitivamente.

consciência críticaA mesma consciência que intuitivamente apreende o objeto em sua versão reduzida…como “fenômeno puro”… – é também ‘responsável’ pela constituição desse mesmo objeto … — agora — no pensamento, sendo atualizado como uma… ‘unidade de sentido‘.

O objeto…sem ser pensado – precisamente porque inconcebível… (enquanto umcogitatum“)… exige uma doação de sentido que só pode vir através dos atos intencionais da consciência … subentendendo portanto, que as “unidades sensíveis” pressupõem uma “consciência doadora” (…”de sentidos”…).

Como consequência, deparamo-nos com 2 atitudes – a “natural” e a “fenomenológica”, das quais decorrem 2 modos distintos de abordagem. Se no 1º modo de consideração o mundo nos é revelado na lógica e certeza de sua ‘facticidade’; no 2º… – o mundo se revela no puro significado de uma consciência transcendental, isto é, em sua totalidade como ‘fenômeno‘.

Pode-se então dizer…que no exercício da ‘epoché (uma técnica de eliminação da dúvida inerente a toda posição do contingente, concebido como um recurso metodológico para o alcance de um grau máximo de evidenciação) somos colocados frente a frente, com o que Husserl considerou a mais radical de todas as ‘diferenciações ontológicas‘. – De um lado,  o “ser transcendente” (‘mundo exterior’ que transcende a consciência… – para o qual nos encontramos naturalmente orientados, e sobre o qual a epoché será exercida) e, de outro, o ser como um “dado imanente, presença absoluta, in-existindo sob o modo de “coisa pensada”…apreendida e constituída intuitivamente na “consciência transcendental“.

A fenomenologia transcendental será então…uma fenomenologia da consciência constituinte (pode-se dizer que em Husserl…”ser evidente é ser constituído”). Exercer a epoché é reduzir o objeto à consciência transcendental… Tal redução, na medida em    que não desfaz a relação ‘sujeito/objeto’…põe em evidência uma nova dimensão dessa correspondência… – impedindo que a verdadeira e autêntica objetividade desapareça.

Segundo Husserl  — toda ciência pressupõe um quadro de essências. Todavia, ao tomar um fato como o ‘objeto’ de uma observação sistematizada…procurando descrever a sua regularidade…o cientista positivista ignora o quadro de essências que sua investigação pressupõe, almejando… com o exercício da indução inferir uma lei geral. Para Husserl, tal lei, nada mais é que uma generalização, com validade empírica… ou circunstancial.  “Essência” segundo ele deve ser entendida, não como uma “forma pura”…que subsiste por si mesma – à revelia do modo como se mostra à…”consciência intencional”… mas sim…o que permanece do pensamento em uma ‘redução fenomenológica’… – como o ‘núcleo invariante’ da coisa pensada… – mesmo à vista das variações arbitrárias, às quais submeto minha imaginação…

O caráter ‘necessário’ do objeto idealmente considerado define a ‘essência’ daquilo que se mostra na… e para a consciência intencional, revelando-se em sua dimensão originária na intuição vivida, onde dela se experimenta.

A “atitude fenomenológica” concentra-se em um processo inverso daquele adotado pelas ciências positivas, na descrição (ou análise) de essências. Nos termos de Husserl, trata-se de um ‘processo dinâmico‘…uma atitude reflexiva e analítica, cujo intuito central passa a ser o de promover a elucidação do sentido originário que a coisa expressa, em sua versão reduzida, independentemente da sua posição de existência… Engana-se quem pensa que, com a “estratégia metodológica” adotada pela fenomenologia, Husserl estaria negando a existência do mundo. Antes estaria renunciando a um modo ingênuo de consideração do mesmo, para viabilizar com o exercício da redução fenomenológica, o acesso a um modo ‘transcendental‘ de consideração do mundo.

Em sua versão reduzida, o mundo se abriria então, enquanto campo fenomenal, na/para uma ‘consciência intencional’ como um “horizonte de sentidos”… Sem negar a existência do mundo factual, renunciamos pela epoché à ingenuidade da atitude natural, para reter    a “alma do mundo” em sua pura significação… A redução fenomenológica faz reaparecer, na própria camada intencional do vivido, a verdadeira objetividade… pela qual o objeto, enquanto conteúdo intencional do pensamento é constituído/apreendido intuitivamente. Daí o próprio Husserl dizer que…

“Se por ‘positivismo’ entendemos o esforço de fundar as ciências sobre o que é suscetível de ser conhecido de modo originário…nós é quem somos os verdadeiros positivistas!…”

Se as ciências positivas não deixam de considerar a relação entre subjetivo e objetivo… – em termos da dicotomia interioridade/exterioridade, concebendo o objetivo como algo que nos remete sempre a uma realidade ‘exterior e independente‘… — para a qual transcende mesmo a vivência do mundo, a redução fenomenológica permite-nos…ao nos lançar para o “modo transcendental” de consideração do mundo, recuperar sua autêntica ‘objetividade’ – na própria subjetividade transcendental… – domínio último e definitivo, sobre o qual deve ser…segundo Husserl, fundada toda e qualquer filosofia radical – unindo, dessa maneira… – o “objetivo”… com o “subjetivo”.

Nos termos de Husserl… (Paris/1929)…trata-se de uma exterioridade objetiva na pura interioridade, unindo com isso objetivo e subjetivo“.

A adoção do ‘programa positivista‘ nas ciências humanas dá à consciência a atitude natural de um ‘realismo ingênuo’ ao aceitar o mundo como uma realidade dos fatos, acerca da qual o ‘saber‘ se torna uma possibilidade inquestionável. Utilizando generalizações empíricas – a partir da sistematização do comportamento humano, em relação ao meio no qual este se insere, o programa confunde ‘leis do pensamento’ com leis causais da natureza… e assim… ‘sujeito do conhecimento’ com ‘sujeito psicológico’. – Do ponto de vista metodológico, nos confina à ‘lógica indutiva’…segundo a qual, conhecer consiste em descrever a regularidade dos fatos, buscando a partir de casos particulares inferir leis gerais, que por não passarem de ‘generalizações empíricas’, mantêm seu caráter circunstancial, casual…e probabilístico. Tais generalizações não são leis no sentido exato…já que não possuem um valor apodítico.

Já a abordagem fenomenológica nas ciências humanas convida-nos a uma reflexão acerca do “quadro de essências” dos fatos que investiga (estabelecido por variações imaginárias), ao recuperar a intuição daquilo que se toma como objeto de investigação… – Convida-nos assim, a uma atitude reflexiva e analítica sobre o ‘sentido íntimo‘ daquilo que se investiga, tanto o que se atualiza no pensamento, quanto as significações ali virtualmente presentes – bem como seus diferentes modos de “revelação”… – na camada intencional do “vivido”.

Tal abordagem fenomenológica convida-nos enfim, para uma ‘iluminação’ sobre o que há de mais fundamental no mundo que estamos e vivemos – deslocando-nos a atenção dos fatos contingentes para o seu sentido originário, indissociável da intencionalidade, consolidando com isso uma espécie de ‘conversão filosófica’ que nos faz passar de uma visão ingênua do mundo…ao “puro ver das coisas”…no qual o mundo se revela em sua totalidade como fenômeno. Um convite da fenomenologia à todas ciências. (texto base)

Publicado em filosofia | Marcado com | 1 Comentário

“Licença poética”

Longe da técnica e das complicações formais da arte poética… Cesar Pinheiro faz poesia, com a naturalidade de quem respira… Qualquer preocupação teórica seria uma forma de corrupção em seu trabalho.           Em alguns pontos altos a pureza é arrebatadora … fazendo a poesia simplesmente existir… em seu próprio “estado natural”  (L.C.Lisboa)

1º ato1º ATO

Mergulha a pedra para o fundo d’água e de uma nuvem opaca desabam mágoas servis… Visto o meu terno de giz, manchado de batom…assim como um aprendiz, a descobrir qual é o tom. Sonho um sonho solitário…(editado à luz neón)…Até tropeçar no cenário…e investir meu salário, em um rolo de fita crepom.

arte do temperoA ARTE DO TEMPERO

Recolha o tempo perdido em potes de cristal                                    Recite um improviso para o vento no quintal                                         Aqueça a mexa a rotina nas brasas de uma paixão,                          Temperando a dor repentina num agridoce molho                            de emoção…Despeje na panela, uma janela aberta                          pro céu… Misture os sonhos na realidade…E (des)                      cubra a saudade, com gotas de mel.

quinta-dimensãoAO TEMPO DAS COISAS

No fundo da noite estrelada…
Nada e tudo se misturam em coágulos, Tentáculos de mundos a se emaranhar

Jogos de vida & espaço…Corpos, Brinquedos… sonetos, e abraços                      Girando ao compasso da sorte e azar                                                                                          Caminhos…vindo por todos os lados…                                                                                       Soma infinita de laços…a se entrelaçar

Começo de eras… pretextos, arpejos, quimeras…                                                                        Em segredos no ar, aguardam o momento exato,                                                                              O Instante do fato de seu mais pronto despertar.

florAPENAS UM GESTO          

E seria preciso apenas, um olhar sem                                  pudor…  –  Uma brisa que passasse…                                    Trazendo consigo um perfume de flor              

Apenas um gesto… – por certo seria                                        Um atalho para meus pés descalços    

Um resto de festa, em uma fresta de                                    sorriso… – Chegaria como um aviso, de que a brincadeira começou…     

E eu me entregaria com prazer para me perder no jogo,                                                                E eu seria fogo… – Mágico louco … – do circo de lona…     

 E você seria a dona do meu coração.

armadilhaARMADILHA 

Pensamento,                                                              Consciência…                                                              Moral   

Discernindo entre o Bem e o Mal

O Homem, esse ser racional                                Torna-se um pobre, cego… Indefeso animal            Preso na falsa realidade … das Luzes da sua cidade… de consumo.

ARTÉRIA ESTELAR                                                 

Arte, matéria… Artéria estelar… Do ar que respiro… Ao lento pulsar… artéria estelarNave navega…      Em seu próprio mar…O mundo sedento… Ao seu tempo e lugar

A parte que é minha…caminha pra ser… Uma parte que sua… Como a lua e o vento, no meu pensamento    Não há que se ater…

O Todo é tudo… e em tudo se faz…  Muito embora, à sombra das horas    A minha verdade escorra pra trás…

Já o Todo que é Nada… – nada de mal me traz…                                                                              A não ser, uma infinita saudade, por tudo aquilo                                                                        Que hoje… – Já não existe mais…

b.atômicaATMOSFERA SOLAR

Atmosfera solar                                        Da tarde sem dono                                    Ardendo seu sono                                    Seu sonho impossível,                              A guerra…a terra…o míssil                      A fome serena, terrena, terrível            A lua minguante,                                   

Ventos cortantes                                        De algum precipício. 

à portaBATENDO À PORTA 

A porta acorda de um sono tardio,                  No trono vazio, manchado do riso                Que não se escondeu                                        A porta se abre em pétala e espinhos            E procura caminhos que não sabe se            viveu…                                                                  A porta se fecha…por brechas e ruídos        De mundos e abismos … que o destino esqueceu;                                                            E, em sonhos mal-dormidos…se entorpece de sentidos, por tudo aquilo que se perdeu.   

cenário barrocoCENÁRIO BARROCO   

Peixes no aquário                                            Repousam tranquilos                                      Por entre abismos                                            De um cenário barroco

Mar morto                                                        De um porto sombrio                                      Revive seus gritos                                            Entre grutas e penhascos

A praia dos sonhos                                          Esconde tesouros                                            Em submersas escunas,                                  Sob brumas e espadas          

O ouro e a prata                                              Das grandes conquistas,                                Das lutas vividas                                              Em naves piratas.  

CÉU & INFERNO

sol

Quero pensar… – pois pensar me faz sentir que não sou eterno  E assim… — poder sonhar um sonho… — que me prenda nos… subterrâneos de seu mundo interno….Pois, depois de pensar…    e sonhar…tantos mistérios… — quem não irá… — para sempre queimar dentro das… “profundezas“… de seu próprio inferno?

CHORO UM CHORINHO 

Choro um chorinho… um choro pequenino                                                                            chorinhoMolhando pandeiro e tamborim… – Choro              um chorinho de saudades sem fim…
                                                                                          Pelos tempos de outrora,                                            Pelas luzes da aurora…                                                Em serestas de verão 

Choro um chorinho … de flauta e clarineta,            Cavaquinho e violão … que vai como quem            Não quer nada, se insinuando pela calçada  Driblando as dores do meu coração.

                                                                                    COISA & TAL

playa-del-sol-jessilyn-parkOlhos pairam, pensamentos voam…          Aves sobrevoam seus ninhos…                  Caminhos se bifurcam num até breve

Uma onda leve… – desaba no porto…        Uma longa saudade habita meu corpo

Um resto de sol nas nuvens ao vento,      No mar… na cidade… – E nas loucas verdades do meu pensamento.  

COQUETEL DE EMOÇÕES 

coquetelFelicidade, palavra translúcida,                                            Coquetel de emoções…                                                             Reabro porções … de “espectros de vida”                            Deixando surgir mentiras da existência…     

A essência precisa da forma… — Mas,                                    E se a forma for austera ou submissa?

É quando lemas e brasões voam pelo quarto                      Me envolvendo em seus múltiplos sentidos…                       

Busco o sentimento de um ‘grito no ar’ ao resgatar sonhos perdidos                                         Me sincronizo com estrelas cadentes…por entre camadas de ozônio                 

Abro as portas do telhado…E, me julgo um SUPER-HOMEM!                                                     Procuro no dicionário a forma correta para “EXPECTATIVA”

Aí está o xis do problema!…

fundo do baúDO FUNDO DO BAÚ

Quero calar minha voz para que em silêncio                                    Ela penetre na… tênue atmosfera… dos dias                                          Em que não nos sentimos sós…

Pois talvez das alturas dessas noites escuras,                                  Salpicadas de estrelas… – pontilha de sóis…                                         Enfim, percebamos…  –  nossa solidão atroz.

EFERVESCÊNCIAS

efervescênciasFervilham sons e ideias… Quimeras e ilusões
Visões apaixonadas… – paixões de toda sorte
Mais forte, fecunda…

Cometas brilhando sua luz vagabunda 

Jogos de carta… mapas… magia
Orgia de astros e estrelas vadias

Espaços abertos… Em multi-sinfonias                    Revistas da moda…Cantigas da roda…                  Que gira … na mais perfeita harmonia.

elegiaELEGIA (à Ribeiro Couto)

À noite, no refúgio em que me faço… num véu de nuvens…me descubro, me disfarço 

Lanço palavras…  –  tontas pelo espaço…  Tantas… – que delas – logo me desfaço…    Em todo verso que converso com o acaso

E a cada momento em que atravesso o tempo… Por um lento murmúrio do mar…        Ventos profanos me envolvem de enganos…em ritos ciganos de lamentos mortais.

enigmaENIGMA

Resiste… Às vezes tão dócil… Às vezes tão fria                       Revelando à luz do dia… — Sua magia estelar

Repleta de horizontes… — Que por fim se escondem           Atrás de montes… onde a vista já não pode alcançar

Insiste, buscando caminhos que o tempo não viu… Ou não soube passar                          Procurando liberdade… – que aos nervos afronte… Nos guiando sempre                            Para mais longe… Em seu doce balançar.

À espera do alento…Momento de se revelar…Num canto…                                                      Um tanto quanto qualquer… Enquanto puder…assim ficar                                                  Imaginando um lugar. Na pele e no ar… Na carne do olhar.

exílioEXÍLIO 

Decretei morte ao sentido da perda                                        Decretei corte, ao arame da cerca…                                         Gritei forte… Descartei sorte e azar

Decretei livre pensar!                               

Esperei minha hora, me apagando da memória,                      Vendo a chuva passar…E já quase indo embora  

Me enredei nas teias da história… E abracei minha glória… com emoção                          Banindo os meus sonhos mortos…pros caminhos tortos do meu coração.

sobrados_noite

FANTASMA CLANDESTINO

Luzes de um sobrado na noite fria… – Inspiram elegias que minh’alma padece, quando o tempo esmaece… E a alegria permanece… 

‘Presa por um fio’ 

Torpor de uma aurora… – que de tão distante…  Vagueio errante … por seus inúmeros cômodos,                                                                      Entre assombros… – biombos… – e escombros do destino,                                                          Como o sonho inquietante… de um ‘fantasma clandestino’.

féFÉ PROFUNDA 

Indo, nesta vasta vida boa                                                                  Sem nada… – ou ninguém                                                                    Que talvez me faça um bem,                                                                Ou também me beije a boca                              

Mesmo quando a vida…                                                                      Tão corrida… – tão a toa…                                                                                                                Nas esquinas com neblina,                                                                                                                  Me ultrapasse feito louca…

Num canto qualquer… – uma fé profunda,                                                                                  Vem e me barafunda… Me alivia, abençoa.             

floração

FLORAÇÃO

Nas bordas de um céu…cor de mel e algodão                De dentro da terra… – sob um sol primavera,                Numa tarde de verão. – Uma flor se abre em              

Pétalas de botão…

Que se encobrem de espinhos…                                          Que se escondem nos caminhos,                                        Que se espalham pelo chão…

FRAGMENTOS 

Eclipse SolarNa estrada que corre solta…Em                                      volta da mata…envolta na noite

De onde o vento grita, agita…açoita                                Durante a breve madrugada escura, 

Pedras da lua… Entre nuvens de estrelas refletem  Sombras vermelhas… que brilhantes escorrem do céu… Pelo anel que tu me deste… – Que era vidro,        e se quebrou.

INTERSTÍCIO

PSSAROUm velho sentado…numa cadeira de palha… Lentamente se embala de memórias e sorrisos no cair da tarde de sol… Ao som de pássaros amigos… 

Por tudo o que aconteceu de mais real relembra o preço de um ideal    E empresta um tom cordial ao tempo que lento… e até o final… – escorreu por entre seus dedos … em torno de seu umbigo.  

sertaoINVENTÁRIO                              

Por isso me invento… – com o vento levando meus passos… – para o lado contrário do espelho … Em busca de um objetivo… – “objeto ativo”… cuja imagem…se faz na ação… – No chão, paisagem deserta  –  solidão sempre alerta, em contida emoção…Quando então, a paixão proibida se sente, na disputa da serpente com a maçã… – como um mito e talismã… – pela culpa…e o perdão.

lado proibido

LADO PROIBIDO

Naturalmente… — algo urgente…
Pra me fazer lembrar — do que já                                Não se diz, nem se pode imaginar

Quando por pensamentos… – palavras e atos
Abstratos ou concretos… – O amanhã…se faz            Incerto…disperso em tantos encantos do mar

E o silêncio, solto… ecoa… um sopro que ao vento revoa…por um tempo infindo demais… Enquanto                                                                          A vida palpita espremida num beco banco de trás;

Portas de estradas, emperram… – Fogueiras derrubam milharais
Janelas opacas… – se fecham… – Em sombras … ondas e cristais.            

linha da vida

LINHA DA VIDA 

Existe um sinal… — ao final de uma estrada          Anunciando a pousada… onde minh’alma…        descansará…Para lá levarei, para esse porto distante…A única lei, que por tudo o que sei        Se tornou dominante… – E na luz cintilante        da madrugada lunar, que jamais esquecerei,        Envolto numa túnica e um turbante…Nesse      Altar deslumbrante … Desaparecerei…

farol noturnoLUSCO-FUSCO

Por trás de arranhacéus põe-se o sol,            De dentro da noite… — pisca pisca…                Luz de farol 

Enquanto na beira da praia… Castelos de areia… Sonham ao luar… – Nas dunas ao vento, o tempo se espalha…em correntes      de ar 

E assim…  —  como se para sempre…                Fosse o mundo acabar…Suave, macia          Das ondas se anuncia… A leve…breve vadia… brisa do mar.

MAIO DE 68

liberdadeLiberdade, no berço da paixão…A idade da razão, incompreensivelmente se manifesta … Liberdade, a saudade do ser…que Nada no mundo das bocas caladas                                    

Liberdade, a louca palavra… que                                        Abre grades das grandes cidades    

Liberdade… – verdade sombria – de muros e utopias,    Espaços futuros de noites vazias, num belo pôr de sol.

ventos

MEMÓRIA DOS VENTOS

De onde vens vento viageiro                                        Me envolver por inteiro…                                              Em teu perfume volátil?

Quantas terras hás cruzado,                                        Quantos mares navegado…                                          Em tua missão secular?

Diga por tua linguagem cifrada — peregrino da esperança,                                                  Onde desemboca a encruzilhada do futuro e da lembrança,                                                      Da vida e do destino… — Mas, se não puderes responder…                                                            Ou se não for eu capaz de entender teu ensino… Segue teu                                            Caminho pelo ar… — Até encontrar… um olhar de menino.

sunsetMETAMORFOSE (1979)

Quando as estrelas tímidas, forem      surgindo… – na ‘luz do crepúsculo’      Quando… — os músculos do corpo        Forem se relaxando … — um a um,        Enquanto que os pássaros livres… Seguirem cantando … sem motivo        algum…

Como se um sonho imenso abraçasse a realidade e passasse a existir… Como se a vida inteira se abrisse para tudo aquilo que se possa sentir… Como se a própria razão…escondida do mundo…perdesse o medo de viver; Como se o homem cansado de tanto sofrer pudesse afinal entender o que diz seu coração.

O JULGAMENTO   

justiçaSenhoras e senhores, aqui estamos reunidos nesta ocasião      À espera da inapelável sentença… – desta respeitosa corte,      Na mui digna presença do meritíssimo juiz…  —  Mais alta        figura que representa a justiça em nosso país… 

Levantem-se, por favor, pois o veredicto                                    Vai ser dado…  —  Incontestemente… 

A CORTE DECLARA QUE O RÉU É                                                CULPADO… DE SER INOCENTE!…

muroO MURO E O ABISMO

No azar ou na sorte da vida e da morte,                Quando em vez…  –  surge um corte…                        Que nos precipita … no escuro vazio…

De onde um muro sombrio… que limitava              O caminho…Observa abismos…Guardado            em espinhos.

O PULO DO GATO                             

O pulo do GatoRefresco a memória…nas horas em que existo,  E avisto entre sombras e conjecturas… rastros,  Pegadas… passadas e futuras  

Na estrada estreita, que a poeira atravessa        Com a pressa de um caracol (…de bobeira)     

O anzol na fruteira, e a maneira de ser o gesto  Em um ato de pura destreza…Do pulo do gato  Ao prato na mesa. Miséria, riqueza…tranquila beleza…Pros olhos do gato…em cima da mesa.

OS 7 SENTIDOS 

Da minha boca à sua, existem luas velozes,                                                                              Gritos ferozes, gemidos…Canções de ninar

esferaCanções de acordar os 7 sentidos…

Paixões secretas, janelas encobertas                  Por cortinas… sem fundo, e sem fim                    Dragões de rapina, que à toda razão                    contamina; visões de bagulhos afim;      

Que, sem maior garantia…                                    Incendeiam palavras frias,                                    Cujas larvas propicia atroz                                    regalia… nesses banquetes                                    regados a pedaços de mim.

aquárioOCEANO IMAGINÁRIO

Uma gruta se esconde do mar        E o mar bate nas pedras…que        Se desmancham em areia…

Na areia… à noite… se deitam homens sonhando com a vida,  Que, feita de dores, encobre o prazer que se espalha na terra    Quando se espelha no mar…  

O sol que alimenta a terra… é o mesmo que aquece o ar…E do horizonte de uma fria madrugada…No oceano de uma praia deserta e imaginada… agora vai DESPERTAR.

OS FRUTOSfloresta                                      

O sol na cabeça, e os sapatos                      Pela estrada de barro… onde                      Frutos maduros, caem pelo mato              Em meio a um regato tranquilo… 

O sol no regato, e os frutos caídos pelo mato… – Por um tempo esquecidos ao longo da estrada…Embrenhada na mata – onde correm esquilos… 

 O sol pelo mato…e a mata que resta, pelo fogo – comida                                                           Da floresta só…sobraram memórias – sementes de vida.

utopiaPAISAGEM DISTANTE

Sangra dos meus olhos… – em cores dissonantes…  Uma paisagem distante, onde à beira do horizonte,  Em selvagem nostalgia, sonhos se fazem realidade,  Numa perpétua calmaria… – E utopias constroem Misteriosos portais — para tornar seus problemas mais banais … navegando na rotina … do dia a dia.  

PENSAMENTOS AMBULANTES

Por entre vôos de pássaros, em rotas tortas e oblíquas                                                            Fora do compasso, assim como um laço em desalinho                                                          Cravei na terra submersa… a linha aberta do caminho 

pensamentosPor entre setas e pedras,                                                Desmarquei linhas retas                                                      E atento — sigo sozinho,                                                  Sonhando um tempo…                                                        De um próprio destino

Do que não mais sentia,                                                 Recusei seus carinhos…                                                        E engoli suas verdades, 

Guardando as sobras do dia                                                  No meu bolso de saudades.

RELÓGIO DE ESPUMAS

15 para as 4 no relógio de espuma da parede de cristal15 minutos

15 para as 4 nas teclas do piano… Onde                                    A voz do cantor se debruça apaixonada 

15 minutos para o fim da festa…                                                15 minutos é tudo o que resta para toda                                Sorte de convites, todo acerto de contas

15 minutos para a dama e o rapaz                                              15 minutos… — E nada mais…

RESTINGA restinga

Existe um céu, por detrás das ruínas, onde o véu da neblina já não pode alcançar. Céu de um azul, cor de tempo esquecido … que aquece os sentidos, e me faz recordar… De um mar na restinga, onde o vento se vinga Sem parar de soprar…suas memórias para dentro de conchas… que pronto se põem a sonhar, sonhos brotando d’água cristalina, Sonhos que batem… — nas pedras do mar.

significadoSIGNIFICADO

Vagueia no ar… — no altar das coisas sem nome,                        Um olhar inconstante de tonalidade multiforme                      Que varia conforme…  —  sua própria sutileza… 

Seus tons são “clarões”… – que incendeiam meus                      nervos…E se chego a tocá-los, nos limites da pele,                                                                      Sua presença mais leve…  —  Se traduz em desejo.

SINO DE BRONZE

Pelo trabalho do corpo na inércia do mar…se faz passar da água ao vinho…Pelos rumos da vida…retorcida ao vento… – Se surpreende o momento em que não se está mais sozinho… 

sinoMultiplicam-se os pães,                                                                        … entorna-se o vinho…                                                                   

A mesa é farta… – A palavra…                                                          Um hino… O sino… de bronze                                                            E o teto… destino… Brilhando                                                            lá fora … por detrás da aurora,                                                        Através de um longo caminho.       

SONHO SELVAGEM 

É quando as luzes se apagam… e as promessas se pagam… em beijos de despedida, que    vejo em teus olhos refletida… – minha vida passageira… – de estrangeiras realidades… 

sonhoE me atrai a vontade… de tê-la em meus braços,    Pelo espaço de um segundo, de pura eternidade 

Até que o mundo desabe por onde ninguém ainda mais sabe… – De onde ninguém… jamais voltou… 

Mergulhado em coragem, talvez então me desperte,    imerso em um vazio reconfortador… – preso de um infinito sonho selvagem… Perdido, e louco de amor.

TRAJETÓRIA 

Longe, tão longe… Correndo contra o vento… por um vago sentimento, insano e insaciável… – Morre…morre lento… – O sol magento… Celebrando mais um dia                de sua insondável passagem…

trajetória.pngMovendo sua luz… – ‘reflexo’ da paisagem,              Escorre, feito pus… – sua sombria imagem              Anunciando noites de lua…que… em carne              crua, assim também flutua, sua pálida face              de aço, d’esplendor/sobressalto. Enquanto              Lá…no mais que Alto…vazado, vazio…Caio              em soluços, por laços absurdos, dos braços macios… – Aos teus lábios frios de orvalho.

TRILHA DO BONDE         

bondinhoPor onde flutua… – na noite escura                  A lua e a rua … na minha ou na sua                  Imagem solar?

Por onde se esconde a trilha do bonde,            A fruta do conde… A curva do monte…            A linha do horizonte; na terra ou no ar?  

Por onde vagueia minha vida passageira,        Repleta de certas infindas brincadeiras…                                                                                  Vivendo à beira da paisagem do sonhar?

liberdade

UM INSTANTE, LIBERDADE

Rebusco na estante…Um instante, liberdade,                Rabisco folha em branco em brancas nuvens                de saudade… — Deixando os sonhos soltos…

Voarem pelos ares…

Aposto corrida, com a vida que me cerca…                    Qual a regra a ser cumprida, quantas ilhas,                  quantos mares?…

São os ossos do ofício… Artifícios, tempestades      Mentiras, quase verdades… — Que como vícios              Nos distraem… Por entre os 4 cantos da cidade.

VELEIRO 

veleiroVelejo um barco… – que os mares invade                                    Cortando águas tranquilas no crepúsculo                                  da tarde

Viajo com o rumo voltado para um lugar,                                    A ilha de liberdade… onde almejo chegar

Ventos sopram brisas…que inflam a vela                                  presa no mastro … E a saudade, então se                                  agita … pelas ondas dessa vida… — indo                                    em busca de seu rastro. Até que a noite chegue, e o barco assim veleje,                                    No silêncio dos astros. 

relâmpagoVESTÍGIOS

Qualquer gesto … qualquer olhar… Pra surpreender (ou imaginar) o prazer que vier de um verso qualquer… Na noite estelar…Noite a pulsar, fazendo vibrar, pelo vasto teto solar…Teias de veias carnais… Sintonizando ondas, Onde oficinas siderais, carentes de um mundo a sonhar transmitem o arrepio… de um relâmpago fugidio… Que TRANSPASSA o AR…                                                                                **************************(texto complementar)*******************************

sempreSEMPRE

Jamais se saberá com que meticuloso trabalho        Veio o ‘Todo’… – e apagou os vestígios de tudo               E quando nem mais suspiros havia, Ele surgiu            de um salto…Vendendo súbitos “espanadores”            De todas as cores. (M. Quintana)                                                                 

Publicado em poesia | Marcado com | 1 Comentário

As “Revoluções Matemáticas”…e suas conclusões improváveis

Do ponto de vista epistemológico, o problema – “o que é o número?”… intrigou filósofos e matemáticos desde a Antiguidade…evidenciando a existência de um forte contraste entre a clareza instrumental do número…e a complexidade das teorias ao explicá-lo. Nenhuma das principais correntes do pensamento matemático, como o ‘formalismo’… ‘simbolismo’, e ‘intuicionismo’…até o século 20… obteve resposta satisfatória para explicar sua origem.

númeroAssim como a verdade técnica da ‘aritmética’ está fora de toda discussão… a questão de se saber o que é o ‘número‘… deixa evidente a surpreendente incapacidade do pensamento para apreender… qual é a natureza de certos instrumentos … nos quais acredita entender, ao os utilizar… em quase todas suas práticas.

Esse contraste entre a “lógica instrumental” do número, e o sufoco das teorias epistemológicas em explicá-lo… — deixa evidente a necessidade de uma investigação… — sobre a ignorância do pensamento frente às ‘engrenagens essenciais’ de seu próprio… – “mecanismo contábil“…

O número: pela história e filosofia 

Até o século 18, embora já inteiramente ‘dedutiva, a matemática estava particularmente ligada aos algoritmos, e pouca ou nenhuma preocupação existia quanto à natureza de seus elementos; ou quanto aos seus fundamentos. De uma maneira geral, à exceção do período clássico…(na Grécia Antiga), a evolução das ideias matemáticas prosseguiu, até aí, de uma maneira praticamente linear, sem maiores revoluções.

Essa história vista hoje, parece indicar que a matemática se desenvolveu de uma maneira praticamente ‘bem esperada’. Tal não é todavia, o panorama do século 19, no qual, após a descoberta de um novo mundo na geometria, a matemática passou a ser reconhecida não mais como uma ‘ciência natural‘, decorrente da observação da natureza, ou que buscasse descrevê-la, mas como uma criação intelectual do homem.

Em decorrência dessa nova concepção do século 19…com o advento das geometrias não-euclidianas, a aritmetização da análise e da álgebra, a adoção da lógica simbólica como a linguagem da matemática, e com a libertação da matemática do real, eclodiu o que ficou conhecido como “a crise dos fundamentos” da matemática. Surgiram então diversas formas de conceber a matemática… — incluindo aí … diferentes definições de ‘número‘.

A tese do ‘intuicionismo‘, por exemplo… – é que a matemática deve ser desenvolvida apenas por métodos construtivos finitos sobre a sequência dos números naturais, dada intuitivamente. Logo, nessa visão, a base última da matemática jaz sobre uma ‘intuição primitiva’, aliada ao nosso senso temporal do antes e depois, que nos permite conceber   um objeto…depois mais um…depois outro mais…e assim por diante…indefinidamente.

Dessa maneira, obtêm-se sequências infindáveis, a mais conhecida das quais é a dos números naturais. A partir dessa base intuitiva (a sequência dos números naturais),       a elaboração de qualquer outro objeto matemático deve ser feita… necessariamente,     por ‘processos construtivos’… – mediante um número finito de passos, ou operações.

As principais correntes do pensamento matemático

Por quase todo século 19, o mito de Euclides (450aC – 380 aC) era inabalável, tanto aos filósofos, quanto aos matemáticos. A “geometria euclidiana” era…por todos — considerada como o mais firme, e confiável ramo do conhecimento. – Contudo, a descoberta de “geometrias não-euclidianas” — implicou na perda dessa certeza, abalando consequentemente…não só os alicerces da matemática…mas de todo o saber da época.

Os matemáticos do século 19 então, enfrentaram o problema e buscaram uma outra fonte segura para fundamentar seus trabalhos, elegendo a aritmética como sua nova “base sólida de conhecimento”.

Mas ao alicerçar a matemática sobre a aritmética,    se estava em última instância, fundamentando-a sobre o número natural, e verificou-se então, que este não possuía uma definição matemática formalizada, a ponto de Leopold Kronecker dizer que… “Deus fez os números inteiros, todo o resto é criação do homem”.

Estava assim, desencadeada a denominada “crise dos fundamentos” na matemática.   A partir daí se formaram diversas correntes — buscando soluções para todos problemas revelados, soluções estas que pretendiam tornar a matemática, novamente, uma ciência confiável. – Destes segmentos, 3 se destacaram… o ‘ formalismo‘, o ‘intuicionismo‘,    e o ‘simbolismo. E seus fundamentos continuam a dividir a opinião dos matemáticos.

a) formalismo (de Hilbert)                                                                                                        A tese do formalismo é que a matemática é, em sua                                                              essência…o estudo dos sistemas simbólicos formais”.

david hilbert - frases

O embrião da ‘escola formalista’ foi o estudo realizado pelo matemático David Hilbert (1862…1943) sobre a geometria… em 1899. Nesse estudo, o ‘método matemático‘ foi refinado, desde a axiomática material dos tempos de Euclides, à ‘axiomática formal‘ do século 20… – Tentando solucionar a crise…instaurada pelas antinomias inerentes à ‘teoria dos conjuntos‘, e para responder ao desafio à matemática clássica… – estabelecido pelos ‘intuicionistas’, Hilbert dedicou-se, seriamente, à elaboração do ‘programa formalista’.

O ‘formalismo‘ considera a “matemática” … como uma coleção de desenvolvimentos abstratos – em que os termos são meros ‘símbolos’…e as afirmações são apenas fórmulas envolvendo esses símbolos; a base mais funda da matemática não está plantada na lógica, mas apenas numa “coleção de sinais“… – além de um conjunto de operações com eles.

Na ‘tese formalista’ se tem o desenvolvimento axiomático da matemática levado a seu extremo. – Como, por esse ponto de vista, a matemática carece de conteúdo concreto, contendo apenas elementos simbólicos ideais…a demonstração da consistência entre    seus vários ramos…constitui parte importante, e necessária do ‘programa formalista’.        O acompanhamento da demonstração de sua consistência, é fundamental no estudo. 

Poincaré (‘intuicionismo’) x Hilbert (‘formalismo’)

O ‘intuicionismo’ considera a matemática como uma atividade autônoma, uma construção de entidades abstratas a partir da intuição dos matemáticos … e, como tal, prescinde tanto de uma redução à lógica (defendida pelos simbolistas), quanto de uma ‘formalização rigorosa em um “sistema dedutivo”… – o que era defendido por Hilbert e seus seguidores.

Na transição do século 19 ao século 20 … ocorreram muitos congressos internacionais de matemática (o primeiro foi em Chicago, em 1893). No segundo, realizado em Paris, 1900, Hilbert proferiu a conferência principal, na qual apresentou uma lista com 23 problemas, que, segundo ele, seriam o foco da atenção dos matemáticos do século 20.

Nesse mesmo congresso, Poincaré apresentou um trabalho comparando      os papéis da lógica e da intuição na matemática. A partir daí, Hilbert se envolveu com Poincaré… – numa das maiores “controvérsias” do século.

Hilbert admirava a “teoria dos Conjuntos” de Cantor… ao passo que Poincaré a criticava fortemente. As teorias de Cantor, como os abstratos espaços de Hilbert, pareciam muito afastadas da base “empírico/intuitiva” que Poincaré… e alguns de seus contemporâneos preferiam. Os matemáticos da época agrupavam-se em torno das 3 principais correntes    de pensamento…o ‘intuicionismo’ de Poincaré, o ‘formalismo’ de Hilbert… e a turma do ‘simbolismo lógico’ de Russell, ligada, mas não identificada ao formalismo (pela ‘lógica’).

Todavia, como o sucesso ou fracasso do “programa formalista” se encontrava diretamente vinculado à sua própria consistência, o sonho de seus seguidores teve curta duração…pois, em 1931, o então jovem matemático Kurt Gödel (1906-1978), discípulo de Hilbert, provou de maneira inconteste… que não é possível provar a consistência de um ‘sistema dedutivo’ formalizado, capaz de abranger toda a matemática clássica…com todos os seus princípios lógicos – conforme idealizado por Hilbert e seus seguidores.

Por esse motivo… o debate acerca dos “fundamentos da matemática”                              passou a se centralizar em torno do ‘simbolismo‘ e do ‘intuicionismo‘.

b) intuicionismo (de Kant a Poincaré)                                                                                      Tal como em Kant, a matemática para Poincaré se apóia em intuições, em especial        na de números, razão pela qual é considerado um dos fundadores do intuicionismo”. 

Kant..pngEmbora não tenha sido ‘matemático’, nem vivido a maior parte da sua vida no século 19…o pensamento de Kant (1724…1804) influenciou bastante o progresso científico e cultural … dos séculos XIX e XX — de modo que — algumas considerações … acerca da posição da matemática no “sistema kantiano”… – se tornam oportunas.

Até Kant, tanto os filósofos racionalistas quanto os empiristas dividiam as proposições matemáticas em 2 classes mutuamente excludentes… — que esgotavam o universo das proposições: as analíticas, que englobam as “verdades da razão” reguladas por “não-contradições” internas; e as empíricas ou “não-analíticas” … que expressam os fatos.

Kant reapresentou o problema da classificação das proposições…oferecendo outra… – as proposições poderiam ser analíticas e sintéticas… A principal diferença entre Kant e seus antecessores… – é que ele faz a distinção de duas classes de “proposições sintéticas” – as empíricas…ou ‘sintéticas a posteriori’, e as ‘sintéticas a priori‘… (“intuição pura“).

As proposições matemáticas seriam, segundo Kant, sintéticas a priori, pois seriam formas puras da intuição (como o espaço e o tempo) que permitiriam fundamentar e legitimar os ‘juízos sintéticos a priori’ (assim como toda matemática…expressando sua especificidade). Ou seja, a matemática se referiria à “realidade concreta”, mas utilizaria, para apreendê-la, conhecimentos a priori de tempo e de espaço… – o primeiro fundamentando o número, e consequentemente, toda a aritmética… – e o segundo (espaço) … alicerçando a geometria.

Estas ideias, que exerceram enorme influência nos matemáticos                     no século 19… constituíram a base do intuicionismo de Poincaré.

henri-poincare-facebookPoincaré, e a intuição do ‘sintético a priori’

Jules Henri Poincaré (1854-1912) é considerado o matemático mais importante, do período entre os séculos 19 e 20… – onde, nenhum de seus colegas contemporâneos … dominou tanta diversidade de assuntos…contribuindo com todos. Interessou-se pelas geometrias não-euclidianas, mas… ao invés do que após se comprovou (…de todas possuírem mesmo grau de veracidade), preocupou-se muito em investigar qual seria a ‘verdadeira geometria’.

Para Piaget…este pode ter sido o fato que impediu                                              Poincaré de “descobrir” a ‘Teoria da Relatividade’.

Poincaré produziu mais de 500 artigos técnicos, e mais de 30 livros… tendo sido também um dos principais, e mais hábeis divulgadores da matemática e da ciência, mediante uma série de obras populares e semi-técnicas, entre as quais se destaca “A ciência e a hipótese” (1906)… “texto de divulgação“… no qual apresenta sua teoria matemática kantiana“.

Apesar de bastante influenciado pelas ideias de Kant… Poincaré não se contentava apenas com o fato de que os postulados matemáticos fossem juízos sintéticos a priori; era preciso, também… – que os ‘conceitos’ aos quais se referissem… correspondessem a determinadas ‘intuições materiais’… – intuições estas que seriam indispensáveis à construção da ciência.

Para Poincaré, o ‘número’ possui o duplo caráter de conceito puro, e ‘forma intuitiva‘. É conceito puro enquanto esquema do conceito de grandeza, isto é, a parte sem a qual não se pode passar da grandeza pura à sua imagem no espaço e no tempo. — É forma intuitiva porque representa a sequência aditiva de uma unidade a outra unidade, e realiza a síntese de um mesmo objeto no espaço e no tempo.

Poincaré concluiu que o ‘princípio de recorrência‘ é sintético, porque não se reduz à lógica do ‘princípio da não-contradição’…e a priori, porque só poderia ser provado mediante um número infinito de experiências, o que é impossível. – Deste modo, Poincaré enxergou no método matemático um elemento intuitivo, e, para ele, “intuição”, bem como ‘número‘, possuía o duplo sentido de… “fonte de noções puras“… — e/ou “instinto inventivo”.

Como “fonte de noções puras”, a intuição direciona o espírito para a    noção de número inteiro…e, como “instinto inventivo”, impulsiona o profundo trabalho do espírito … em direção à ‘descoberta científica’.

O intuicionismo de Poincaré ganhou mais força quando o matemático Luitzen Brouwer (1881-1966) conseguiu reunir em torno das ‘ideias intuicionistas‘, os oposicionistas do ‘formalismo’ de Hilbert e do ‘logicismo’ de Russell. – Para os seguidores do intuicionismo, elementos e axiomas matemáticos não são tão arbitrários quanto parecem. Para Brouwer:

“A linguagem e a lógica não são pressuposições para a matemática,               a qual tem sua origem na…’intuição‘…que, por sua vez, torna seus conceitos e inferências imediatamente claros … à nossa percepção”.

c) simbolismo (de Frege)

O matemático Gottlob Frege (1848…1925) acreditava que a solução para o impasse da ‘crise dos fundamentos’ seria a redução da aritmética à lógica…Para realizar esta tarefa, pretendia efetivar a consecução de 2 grandes objetivos…o 1º deles era definir toda ‘expressão aritmética’ em termos lógicos… e, então mostrar que toda ‘expressão aritmética’ equivale a uma ‘expressão lógica‘… a ser determinada.

Caso conseguisse realizar essa tarefa…o 2º objetivo seria mostrar que proposições lógicas assim obtidas poderiam ser deduzidas de leis lógicas imediatamente perceptíveis.

Frege eliminou qualquer recurso à intuição da linguagem comum – procurando mostrar que a aritmética poderia ser considerada como um ramo da lógica, e que suas demonstrações não necessitavam se fundamentar — nem na experiência, nem na intuição. Observou então…que a matemática necessitava de uma profunda revisão crítica — como nunca acontecera antes. Acreditava que seriam necessárias demonstrações de proposições – que antes se aceitavam como ‘evidentes’…e, que conceitos relativamente novos… – como função… contínuo… limite… infinito, etc… precisavam ser ‘reexaminados’.

De maneira geral…seria necessário examinar todos os campos da matemática com o rigor de demonstração, delimitação precisa da    validade dos conceitos, e sua exata definição… a partir do próprio    conceito de ‘número’.

Além da perda de credibilidade da geometria, como base sólida, é preciso recordar que, praticamente na mesma época, apareceram várias antinomias da teoria dos conjuntos, abalando todo edifício matemático, e fortalecendo a ideia de Frege, de que apenas uma análise minuciosa dos ‘fundamentos da matemática’… – pelo novo ‘instrumento lógico’, poderia estabelecer uma coerência matemática.

wHITEHEADA lógica simbólica (de Russell & Whitehead)

O programa apresentado por Frege não encontrou eco até ser acatado por B. Russell (1872-1970) e A. Whitehead (1861-1947). Os dois retomaram a tese de Frege, tentando demonstrar que a ‘matemática pura’ (…incluída aí a ‘geometria’) poderia ser toda deduzida da lógica.

Embora até então tivessem sido tratadas, historicamente falando, como estudos distintos, a matemática sempre relacionada com as ‘ciências’… — e a lógica com a ‘filosofia grega’, o desenvolvimento de ambas … durante o século 19 e início do século 20… – de acordo com Russell, aproximou definitivamente a lógica da matemática… de maneira a ser impossível traçar uma linha entre as duas:

“Na verdade, as 2 são uma…a lógica é a juventude da matemática,                e a matemática… – é a maturidade da lógica…” (Bertrand Russell)

A tese ‘simbolista‘ é que a matemática é um ramo da lógica. Assim, a lógica, em vez de ser apenas um ‘instrumento‘, passa a ser considerada como a geradora da matemática. Todos os conceitos matemáticos têm que ser formulados em termos de conceitos lógicos, e todos os teoremas da matemática têm que ser desenvolvidos como teoremas lógicos; a distinção entre matemática e lógica…passa a ser uma simples questão de… – “conveniência prática”.

Partidários do “simbolismo” de Frege, Russell e Whitehead tinham o ambicioso plano de, literalmente “reduzir a matemática à lógica”. Assim, apresentaram a aritmética como um ramo da lógica pura. Para isso, o “plano” era traduzir os axiomas de definição do número natural estabelecidos pelo matemático Giuseppe Peano (1858-1932) em “termos lógicos”,   e assim definiram o ‘número‘ em termos de classes e relações; com o aspecto ‘cardinal’ estabelecido por classes – e o ‘ordinal’, em “relações assimétricas” independentes.

A teoria de Russell e Whitehead para o número começa com a descrição do que é uma “classe de classes”. Ou seja, 2 classes consideradas em sua extensão dão origem a uma mesma ‘classe de classes’, se for possível estabelecer uma “correspondência biunívoca” entre seus elementos. O número cardinal é definido como estas “classes de classes”,        e assim … o número 1 é a classe de todas ‘classes unitárias‘ … o nº 2 é a classe de todos  pares possíveis … o nº 3 é a classe de todas as trincas…e assim por diante…

Já o número ordinal é igualmente constituído por meio de classes…só que de relações assimétricas “semelhantes”… cuja “semelhança” é obtida  pela ‘correspondência biunívoca’ entre seus distintos elementos internos.

A crítica de Piaget (ao ‘simbolismo’)

Uma crítica originada dessa concepção é que – pelos números se constituírem isoladamente …  —  a partir de ‘classes’ independentes entre si — não existiria uma iteração entre eles que resultasse na sucessão dos “números inteiros“. Para verificar, se tal explicação era de fato satisfatória … Jean Piaget propôs    um novo método, ao estabelecer se os processos formadores de nºs… são ou não os mesmos, daqueles a partir dos quais derivam as ‘classes’, e ‘relações’.

A crítica de Poincaré (ao “reducionismo lógico”)

Poincaré foi o maior crítico do ‘reducionismo lógico’. Ele denunciava a existência de um círculo vicioso, porque o número já estaria presente ao se estabelecer a correspondência biunívoca entre os objetos singulares. Ele argumentava que na expressão ‘um homem’…    o objeto individual, ou a classe singular já implica a presença do número 1.

A contra-argumentação simbolista expunha que existe uma distinção entre o “um” lógico e o número 1, ou seja, o “um” lógico implicaria a “identidade”, e não o número…da mesma forma como os termos lógicos ‘alguns’, ‘todos’ ou ‘nenhum’ só se referem à pertinência, ou não de indivíduos a uma determinada classe…No que se refere à diferença funcional entre classe e número, fica claro que a função da classe – como é constituída por indivíduos que gozam de uma determinada propriedade… é a de ‘identificar‘ – ao passo que a do número (abstraindo qualidades) é a de diversificar… daí, serem funções sobretudo “heterogêneas”.

Assim, de acordo com o raciocínio de Poincaré…Russell, ao não estabelecer na sua dupla redução (cardinal/ordinal) as distinções genéticas funcionais, entre operações de ‘classe’    e ‘relações isoladas’ (numéricas)…se encerraria em um “círculo vicioso”.

A intuição racional do número

Enquanto para Russell… – o ‘número cardinal’ seria a ‘classe das classes‘, para Poincaré… este número teria um caráter sintético e irredutível…Só isto já retrata a ‘oposição radical‘ entre as correntes de pensamento matemático do ‘simbolismo’ e ‘intuicionismo’ que, juntamente com o “formalismo” … de Hilbert pretenderam resolver a “crise dos fundamentos”… – na matemática.

Poincaré não concordava com a tese de que o “número“…poderia ser reduzido à ‘lógica genética‘ das classes e relações. Ele entendia o número como produto de uma intuição racional (sintética a priori) e irredutível às “operações lógicas”… – Para Poincaré, se no século 19 os matemáticos dividiam-se em 2 correntes… – uma que se apoiava na lógica e outra na intuição – uma releitura dos clássicos faria a balança tender ao “intuicionismo”.

Ademais, como a intuição não oferece o rigor, nem a certeza…foi necessária uma evolução na ciência matemática, evolução esta que a encaminhou para a lógica. Todavia, para fazer aritmética, assim como geometria, é preciso algo mais que a lógica pura…sendo a intuição este ‘algo mais’; ressaltando porém, que sob esta capa diversas ideias estão subentendidas.

Com efeito…a ‘intuição’ se apresenta sob diversas formas… – como um apelo aos sentidos e à imaginação – como ‘generalização’…na indução de procedimentos experimentais – e a que interessa particularmente a este trabalho, a “intuição do número puro” (princípio da indução)…da qual se originaria, para Poincaré, o “verdadeiro raciocínio matemático”… a única intuição passível de ‘certeza’.

A concepção de que o ‘número’ (e, por consequencia…a ‘matemática’) é produto de uma intuição racional foi (e ainda é) sustentada por inúmeros matemáticos, existindo porém, divergências quanto ao sentido de intuição… desde…“a intuição da essência estática do número, até a intuição operatória”. Ao considerar que o número inteiro se funda sobre uma “intuição sintética a priori” que se traduz no raciocínio por indução ou recorrência, Poincaré, por mais conservador que tenha sido em muitas questões, como por exemplo sobre os vários tipos de números…ou, sobre relacionamentos entre os diversos tipos de espaço, admite que uma tal intuição operatória… – é construída ”isenta de contradição”.

A crítica de Piaget (a Poincaré)

A discordância de Piaget com os ‘intuicionistas’ se fundamentava no fato de que, a “intuição do nº puro” … não é a de determinado número específico… mas, de um nº qualquer…que para Poincaré, seria “a faculdade de conceber a uma unidade o poder de agregar-se a um…conjunto de unidades”

Porém, segundo Piaget… Ao procederem de uma intuição que subentende a noção          de unidade… as operações numéricas estariam em oposição às operações lógicas“.

Entretanto, os resultados de inúmeras pesquisas sobre a gênese dos conceitos matemáticos mostram que…todos os conceitos de caráter extensivo e métrico,                como a medida, a proporção em geometria, e o próprio número … somente se              constituem em sua forma operatória ao se apoiarem em grupamentos lógicos.

Mas, isto não significa que exista um estágio ‘pré-numérico’…caracterizado por estruturas lógicas, seguido de um estágio numérico; ao contrário, existe uma interdependência entre lógico e numérico…originária do conceito de conservação dos conjuntos como totalidades, sejam tais totalidades lógicas ou numéricas…

E esta conservação não se apresenta como uma “intuição”, mas                    é construída “operatoriamente”, num longo e complexo processo.

A faculdade de conceber que uma unidade possa agregar-se a um “conjunto de unidades”, assinalada por Poincaré como específica da intuição do ‘número puro’… supõe então… – a faculdade de conceber conjuntos invariantes encaixados uns nos outros… e a faculdade de ordenar, desde o início, os ‘elementos agregados’…No entanto, se a sucessão dos números não pode se apoiar em uma intuição inicial contendo de antemão a ideia de unidade, após sua construção… – esta sucessão produzirá uma ‘intuição racional‘…em tudo semelhante  à descrita por Poincaré…à diferença porém, de ser final, e não prévia, no sentido de que o número é apreendido diretamente, sem a intermediação de raciocínios lógico-discursivos.

E, como concentração instantânea de inumeráveis raciocínios anteriores, esta ‘intuição final’…é só a expressão da compreensão inteligente… – não nos informando nada … quanto à sua construção… — ao longo do tempo.

O+Construtivismo+Piaget+(1896-1980)A concepção de Piaget

Sabe-se bem quantas discussões o problema das relações entre nº e lógica ocasionou…com Russell elevando o ‘número cardinal‘ à noção de “classe de classes”, e definindo “número ordinal” como ‘classe de relações‘; ao mesmo tempo em que Poincaré intuitivamente… mantinha o “irredutível” caráter sintético a priori dos números inteiros.

E foi nesse contexto, que Jean Piaget chegou à conclusão de que a intuição operatória  do ‘número puro‘… – então irredutível à lógica concebida por Poincaré…carecia de “especificidade“… enquanto que a “redução lógica” de Russell não seria ‘operatória o suficiente’. Daí, surge a hipótese defendida por Piaget, de uma ‘função complementar’ entre a lógica simbólica de Russell, e a intuicionista de Poincaré. E assim…diz Piaget:

“É verdade que nossa hipótese, num certo sentido, permite escapar a essa alternativa, porque se o número é classe e relação assimétrica ao mesmo tempo, ele não deriva de    tal ou qual das operações lógicas particulares… – mas somente da sua reunião, o que concilia a continuidade com a irredutibilidade, e leva a conceber como recíprocas… e    não mais unilaterais, as relações entre a lógica e a aritmética”.

Piaget queria provar a hipótese, não explicitamente exposta por ele… da noção de número como uma síntese operatória entre ‘seriação’ e ‘classificação’. Para isso, se utiliza do longo debate (sem vencedor) entre ‘simbolistas’ e ‘intuicionistas’…sobre aquela antiga questão… acerca da origem do “número”. – A este debate acrescentem-se suas convicções de que o conhecimento não está nem no ‘sujeito apriorístico’…implícito no ‘logicismo’), nem no ‘objeto empírico‘…pano de fundo do ‘intuicionismo’), mas numa interação entre ambos.

Pode-se inferir assim, que Piaget procurava uma solução intermediária entre Russell e Poincaré… – Ou seja, sua posição acerca da “construção do conhecimento” fica a meio-caminho entre o empirismo e o apriorismo, ao conceber como recíprocas, e não mais unilaterais… as relações entre a lógica e a aritmética.

O ‘número‘ tem por fonte a lógica, mas não deriva de nenhuma operação em particular; sendo construído das ‘relações de classes’… quando os sujeitos agrupam objetos por suas semelhanças, e das ‘relações assimétricas’, quando estabelecem as diferenças ordenadas;    e surgem… – quando os sujeitos agrupam os objetos… – ‘simultaneamente‘… – como ‘equivalentes‘ e ‘distintos (o que é conciliatório com a ‘irredutibilidade‘ de Poincaré).

Entendendo a importância das 2 concepções de número…o intuicionismo e o simbolismo, e a impossibilidade da supremacia de uma delas… – pois ambas apresentavam aspectos positivos e negativos…Piaget deduz que – em vez de serem contraditórias ou opostas, as duas concepções deveriam ser ‘complementares’…criando uma nova teoria. (texto base) ***********************************************************************************

A revolucionária “lógica simbólica” de Gottlob Frege                                                   Kant identificou a metafísica com o reino do conhecimento sintético a priori, e deu à matemática, como o mais convincente exemplo desse conhecimento… – a prova que, analiticamente, abriria caminho para a rejeição moderna do argumento metafísico.

método indutivoJohn Stuat Mill em sua obra… “System of Logic”, já no século XIX, expõe sua crítica sistemática à teoria kantiana da “verdade matemática“… – fazendo da ‘indução‘ o “método científico“… por excelência… Atendo-se aos fatos — o filósofo parte da experiência como base do conhecimento, quer nas ciências físicas… sociais… e, até mesmo na matemática… Mill nega o ‘a priori’ como pura construção racional, vendo nele, antes…um produto originado da experiência… – pela indução – com base nas relações de causalidade entre fenômenos.

Para Mill, nossas ideias de nºs são abstrações a partir da experiência. O número 3…por exemplo… torna-se familiar… – pela nossa percepção de triângulos, o 4 na percepção de quadrados, e assim por diante. Além do que, as próprias ‘verdades matemáticas’, assim como 2 + 3 = 5…podem      ser vistas… – como refletindo leis básicas … fundamentais da natureza.

Não só Mill apresentou uma extensa e convincente “teoria da distinção” entre “lógica” e “ciência” (dedução x indução), lançando assim as raízes da moderna filosofia da ciência; como também voltou-se para muitos dos “padrões de pensamento” que haviam feito as ilusões metafísicas tornarem-se predominantes. Esse foi aliás motivo de satisfação para  Gottlob Frege, pois foi no “absurdo” matemático de Mill… que suas ideias prosperaram.

Frege (simbolismo) x Mill (empirismo)                                                                    “Ao estabelecer o limite do conhecimento matemático                                                                no limite de nossa experiência…Mill não nos dá pista                                                            alguma, sobre … como entendermos o número zero“.

Frege, em seu “Fundamentos da aritmética” (1884) afirmou que nem esta, ou qualquer outra explicação empírica da natureza dos números, poderia ser aceita, pois ao afirmar que as “leis da aritmética” são “generalizações indutivas”, Mill confunde a aplicação da matemática, com a própria matemática… – E sobre isso…ele próprio ainda argumenta:

“A matemática é inteligível… — independentemente de suas aplicações. A indução deve se basear na teoria da probabilidade…uma vez que ela jamais pode tornar uma proposição mais do que provável. Mas, como     uma teoria da probabilidade poderia ser desenvolvida sem pressupor      ‘leis aritméticas’… – é algo além de toda… – e qualquer compreensão”.

Kant afirmou, contra o “argumento ontológico”… – que a existência não é um verdadeiro predicado (ou ‘propriedade’), mas não conseguiu desenvolver uma lógica que conciliasse esse fato… Leibniz, que fez certos progressos em lógica formal, reconheceu as diferenças entre proposições existenciais (proposições do tipo ‘x existe’… – e as ‘sujeito-predicado’), porém, mais uma vez, foi incapaz de representar essas diferenças de “modo sistemático”.

Essa deficiência na lógica tradicional era de longo alcance…e foi o que     erigiu a barreira artificial (como Frege a con­siderou) entre aritmética       (a lógica da quantidade)… — e “lógica formal” (a lógica da qualidade).

A definição conceitual de ‘Número’ (por Frege)

Sobre esta base, o desafio seria construir uma nova lógica formal da universalidade … que justificasse o vislumbre de Kant de que a existência não é um predicado…Hoje, devem ser reconhecidas novas verdades analíticas, diferentes do tipo sujeito-predicado…e, as leis da lógica devem ser expandidas … para abrangê-las. Daí, portanto… natural sugerir que essa lógica de existência e quantificação universal fornecesse a base para uma… “teoria geral”.

Mas, e quanto aos números?…Falamos deles como objetos (‘sujeitos da identidade’) e, no entanto não lhes permitimos serem determinados independentemente de um conceito ao qual estejam vinculados…Para resolver este aparente paradoxo, Frege propôs um critério de identidade geral para números. Esse critério teve de ser fornecido contextualmente, uma vez que expressões numéricas só podem ser usadas para dizerem coisas verdadeiras, quando, exatamente vinculadas ao conceito que determine o que está sendo contado. Ou melhor… é somente em um dado contexto que o termo de um nº denota alguma verdade.

Frege deriva sua definição de nº em termos de um conceito, introduzido na discussão dos… “fundamentos     da matemática“…por G. Cantor, denominado…”equinumerosidade”, que pode ser definido … em termos puramente lógicos, quando os itens incluídos num conceito … puderem ser colocados em “correspondência biunívoca” … com os itens de outro.

Sendo cada correspondência relacionada a um ‘número‘… Frege define este… – como a extensão equinumerosa de um conceito. – Aí… o termo “extensão” é usado no sentido dalógica de Port-Royal“…‘A extensão de um termo ou conceito é a classe de coisas a que o termo se aplica’Desse modo, a definição de número incorpora a generalização da ideia, invocada na lógica de um conceito. E assim…definições individuais de nºs são derivadas da ‘definição geral’…

É suficiente definir o primeiro dos números naturais – zero…e a relação  de sucessão pela qual os números restantes são determinados… Zero é o número que pertence ao conceito “não idêntico a si mesmo“. – Frege escolheu essa definição porque segue-se somente das leis da lógica, que o conceito de… – “não idêntico a si mesmo“… “não possua extensão“.

Frege (simbolismo lógico) x B. (paradoxo) Russell                                                              As pesquisas de Frege sobre fundamentos matemáticos trouxeram                  consequências profundas à filosofia…dentre elas, o reconhecimento                                      de que certas concepções matemáticas podiam e deviam ser usadas                                    para dar forma a ‘problemas nebulosos’ na filosofia da linguagem”.

A cada ponto da argumentação … Frege queria prosseguir… – de modo a não introduzir concepções que não pudessem ser explicadas em termos lógicos. Seguindo esse método, ele pôde derivar definições e leis da aritmética de forma a demonstrar que todas provas matemáticas eram complexas aplicações da lógica, e todas afirmações aritméticas eram, caso “verdadeiras”… – em virtude do “significado” dos termos usados para expressá-las.

A façanha de Frege foi espantosa. Mas ela foi comprometida pela descoberta, por Russell, de um paradoxo, e a resolução desse paradoxo pareceu exigir uma saída de ideias lógicas ‘puras’… em direção aos tipos de pressupostos metafísicos que Frege queria eliminar dos fundamentos da matemática. Além disso, Kurt Gódel, em seu ‘teorema da Incompletude‘ em 1931, mostrou que, para qualquer sistema lógico que se possa dizer ‘autoconsistente’; há verdades aritméticas ‘não-demonstráveis’. E assim, a lógica…a princípio, não poderia abranger todo conteúdo da matemática.

frege-frase

Porém… como a própria “lógica” orienta boa parte da argumentação filosófica… o processo de adaptação de um… “método matemático” em seus fundamentos pode ser prolongado ainda mais… produzindo filosofias quase totalmente matemáticas, como o ‘atomismo‘…e o ‘positivismo‘.

À luz desses resultados…pode parecer que deveríamos rejeitar a ‘hipótese de Frege’… do caráter analítico da aritmética, e restabelecer alguma versão da teoria kantiana de que a matemática é ‘sintética a priori’… – No entanto… Frege chegou muito perto de reduzir a aritmética à lógica, e o resultado de Gódel é tão interessante, que a questão do status da verdade matemática tornou-se um dos problemas mais relevantes da filosofia moderna.

Em seu livro “Begriffsschrift” (1879), obra considerado como um marco do nascimento da “lógica moderna”… Frege propôs o 1º sistema de lógica formal verdadeiramente completo. Seu propósito era dar firme alicerce filosófico aos argumentos de sua obra inicial sobre os “fundamentos da aritmética” … – e com isso derrubar as teorias da lógica aristotélica e pós-aristotélica… — que durante dois mil anos haviam impedido avanços nessa matéria.

Mas houve aí uma ‘consequência particular‘, que Frege – a princípio não previu… A velha lógica havia seguido a orientação gramatical da ‘linguagem vulgar’; o que tornou tão difícil representar a diferença entre “Sócrates existe” e “Sócrates vive”. A  diferença, é na verdade tão radical que somos forçados a concluir que a forma gramatical na linguagem vulgar não serve de guia para o comportamento lógico. Ou, dizer à maneira de Russell… “a verdadeira forma lógica da sentença que caracteriza uma existência…não se reflete em sua gramática”.

Como então devemos representar essa sentença?… — A resposta natural é buscar um sistema de símbolos no qual a linguagem só possa se expressar em uma verdadeira… “forma lógica“… – para toda e qualquer sentença.

A “natureza da linguagem”

Há modos específicos, em que a adoção e extensão de ideias matemáticas por Frege, transformaram a natureza da filosofia. – Por exemplo, isso pode ser visto, na teoria de Fregesobre a natureza da linguagem… Para ele era claro, como o fora para Leibniz, que expressões de identidade variam na forma como afirmam a propriedade de um objeto.

O ‘é’ de identidade, e o ‘é’ predicativo                      são… – “logicamente distintos“…

Se eu digo “Vênus é a Estrela Matinal”, faço então uma afirmação de identidade, que continua verdadeira (ou, caso falsa…falsa) quando os nomes são invertidos: ‘a Estrela Matinal é Vênus’. – Entretanto, na sentença “Sócrates é sábio” os termos não podem ser invertidos do mesmo modo. O sentido total da sentença depende de uma atribuição diferente… – ao sujeito “Sócrates“…e ao predicado…”sábio“.

Com efeito…a distinção entre sujeito e predicado é básica ao pensamento. – Uma criatura que não conseguisse entendê-la, que só falasse de identidade, não conheceria nada de seu mundo – a não ser ‘determinações arbitrárias’…por meio do que é capaz de substituir um nome por outro. Mas, não conheceria nada sobre as coisas… a que, desse modo, dá nome.

A análise de Frege dessa relação está contida em uma série de artigos entre os quais o mais importante é “Sobre Sentido e Referência”. Nele, Frege apresenta várias teses, algumas das quais já demonstraram sua importância na descrição da natureza da aritmética. – 2 dessas teses de particular interesse são as seguintes: 1) a de que é só no contexto de uma sentença inteira que uma palavra tem um sentido definido…e 2) que o sentido de qualquer sentença deve ser derivável dos sentidos de suas partes.

Essas parecem ser contraditórias, mas não são… A primeira (uma aplicação…inserida na definição de Frege para ‘número’) diz que…o “sentido de uma palavra”, não lhe pertence isoladamente, mas consiste em sua potencialidade de formar um ‘pensamento completo’. E, porque sentenças podem expressar ‘pensamentos’… que as palavras que as compõem têm um sentido.

A tese seguinte diz que o sentido de uma sentença completa deve ser totalmente determinado pelas variadas “potencialidades” de suas partes. Essa dependência          mútua entre a parte e o todo é a característica da linguagem…que torna possível            apreendê-la… – conhecendo um ‘vocabulário finito’… – usando uma ‘linguagem              criativa’… – e tendo acesso a uma “capacidade de pensamento“… – “ilimitada“.

Sujeito & predicado

E assim, pensando nisso, como  poderíamos então, descrever as          “partes componentes”…de uma              sentença ‘sujeito-predicado’?…

Em relação à sentença…”Sócrates é sábio” … Frege diz que, para fins de representação, podemos pressupor,    que esta é composta por 2 partes – um nome, e um predicado… Nomes podem parecer mais inteligíveis do que predicados — nós os entendemos porque representam objetos,        e se soubermos quais objetos eles descrevem… parecemos já saber o que querem dizer.

Mas, para Frege, existe na linguagem uma distinção geral entre aquilo que entendemos    (o ‘sentido’ de um termo) e aquilo a que um termo se refere “especifica” (‘referência’ do termo)…O sentido do termo nos dirige para a referência, mas não é idêntico a ela. – No caso de um nome… o sentido é algo como uma descrição complexa — “o planeta que…”    ou “o homem que…”. A referência, por sua vez, é um objeto. — Mas, e os predicados?… 

Um predicado tem como sua referência um conceito particular – ao entender o predicado “é sábio” … sou levado ao conceito de “sabedoria”, por seu sentido ou significado. – O que podemos então, dizer sobre a natureza dos conceitos?… – Frege foi claro sobre uma coisa, conceitos são públicos e pertencem ao aspecto reconhecível da linguagem … tanto quanto as palavras que os expressam…Assim, os sentidos de predicados são igualmente públicos.

De outro modo, o significado das palavras não poderia ser ensinado, e a linguagem deixaria de ser uma forma de comunicação…Os sentidos devem ser distinguidos de associações particulares de imagens, ou qualquer outro modo meramente ‘interior’.        Eles estão determinados por regras de “utilização pública” … – disponíveis a todos.

– “Teoria da referência” – 

Incorporada à ideia do caráter público do “sentido” encontra-se uma rejeição às tradicionais ‘teorias empíricas conceituais’.

Uma vez identificado o sentido de um termo com alguma ideia subjetiva despertada dentro da mente de uma pessoa, que dela – para algo, se aproprie…todas estas teorias…fazem confundir ‘significado‘, e ‘associação‘.

Como os predicados fazem referência? … Como a referência deles é distinta de seu sentido?…Para Fregue, diferentemente dos nomes, os predicados são ‘insaturados’.        Sua referência pode ser compreendida não como um objeto completo, mas apenas,        como uma operação que precisa ser completada, para que todo objeto possa ser —            por ela determinado. E ele chamou (matematicamente) essa operação de ‘função‘.

Considerem, por exemplo, a ‘função matemática’ (x = 2 + 2)… – Ela produz um valor para qualquer número particular: o valor 3, para x = 1; o valor 6, para x = 2, e assim por diante. Sua significação reside inteiramente nisso… A função matemática transforma um número em outro. Do mesmo modo, o predicado “x é sábio”, que deveria ser concebido como para determinar uma função, produz um valor para cada objeto individual…que é referido pelo nome (Sócrates, por exemplo), posto no lugar de “x”.

Mas, qual seria esse “valor” ao qual a sentença se refere?… Frege argumenta que ele pode ser a ‘referência‘ da sentença como um todo… (“Tendo combinado a referência do sujeito à referência do    predicado, devemos assim obter a referência dessa combinação”).

Mas então…a que as sentenças se referem? … A resposta de Frege a esta pergunta constitui o que é talvez a parte mais original de sua filosofia. É tentador pensar que se uma sentença se refere a alguma coisa… – é a um fato…ou “estado de coisas”, ou algo assim… “Sócrates é sábio” refere-se ao fato de Sócrates ser um homem que adquiriu “sabedoria”. – Mas então,  a que se referem “sentenças falsas”?… E ainda, quantos “estados de coisas” podem existir?

sentença-proposição

Ao tentarmos responder à 2ª pergunta… – logo nos damos conta de que o único meio de contar “estados de coisas” —        é contando… — ou sentenças,      ou seus próprios significados.

Por uma série de argumentos ‘extremamente convincentes’, Frege pôde concluir que – na realidade  –  a única resposta possível à pergunta … “A que uma sentença se refere?”…é “A seu valor de verdade”… Isto é… à verdade, ou falsidade.

Verdade e falsidade estão para sentenças, como objetos para nomes. E predicados referem-se a conceitos que determinam funções que rendem verdade ou falsidade;            de acordo com objetos a que são aplicados. E assim, a análise da sentença ‘sujeito-predicado’ é enfim concluída, respondendo-se à pergunta: ‘qual o sentido de uma sentença completa?‘…

Frege afirmou que o sentido é um pensamento… – aquele                    pensamento, em nosso exemplo…de que ‘Sócrates é sábio’. 

Tal como o sentido da ‘sentença toda’ é determinado pelo sentido de suas partes, assim também o valor de verdade é determinado pela referência das palavras individuais. – A significação para a filosofia dessa análise quase matemática da estrutura linguística… é enorme. Se Frege estiver certo, então aquela antiga distinção entre extensão e intenção pode ser aplicada a sentenças… – agora… da seguinte forma:

A extensão de uma sentença é seu valor de verdade; e as intenções… suas condições de verdade. A extensão de um termo é separável dele, podendo ser identificável por outros meios; e assim … ter existência inde­pendente.

Podemos pensar em uma sentença como representando o verdadeiro ou falso. A noção de uma relação lógica entre sentenças agora fica determinada… A sentença composta “p e q”, por exemplo, é verdadeira se, e apenas se, p for verdade…e q também. Assim, a inferência de “p e q” para “q” é válida… – ela nos leva da verdade para a verdade. Outros “conectivos lógicos”, assim como “se” e “ou”, podem, do mesmo modo…ter sua lógica assim explicada.

— O ‘princípio da verdade‘ —                                                                                                    “O princípio de que cada termo representa sua extensão, agora pode ser                       usado para se erigir uma lógica completa das relações entre sentenças”.

Foi esta ideia que revolucionou a filosofia… – levando ao atomismo lógico de Russell e Wittgenstein (I), e posteriormente às novas formas de ‘filosofia analítica‘…onde nestas, a noção fundamental envolvida na compreensão das palavras… é o seu valor de ‘verdade‘.

sócratesAlguns desejaram argumentar que uma sentença tem significado… – porque as pessoas a usam para fazer afirmações… É portanto, a ‘função peculiar’ exercida na afirmação, que deveríamos analisar. É esta ‘afirmação’…que pode nos dar a essência da ‘comunicação linguística’,  e assim deve ser isolada — como tema básico de uma ‘filosofia da linguagem’.

Contudo, segundo Frege… – uma ‘afirmativa’ não pode ser parte do ‘significado’ de uma sentença… – Se nos per­guntarmos o que há por trás de uma sentença, ou argumento…a resposta sempre nos faz retornar, não à afirmação, mas à verdade. O que entendemos é, portanto, ou uma relação entre valores de verdade… – ou as condições que tornam uma sentença verdadeira.

Frege também supunha que a relação de uma sentença com suas condições de verdade deva ser objetivamente determinada…‘Descobrimos oculta dentro da própria lógica do discurso uma “pressuposição metafísica” … direcionada para uma ‘verdade objetiva’ —        à qual se orientam todas as nossas expressões … e da qual tiram o seu próprio sentido’.

Conclusões finais‘                                                                                                                  Os pensamentos de Frege – por meio de sua ‘teoria da referência’…foram…                      lenta e irregularmente incorporados à estrutura da filosofia analítica atual,   desenvolvendo a base para uma rejeição do idealismo metafísico kantiano”.

Alguns pensadores são contra a ideia de Frege de que condições de verdade determinam o significado. Outros se opõem à interpretação especificamente “realista”, ou “anti-idealista” que Frege deu a essa ideia… – Por esse motivo a discussão de Frege reativou uma questão fundamental colocada pela metafísica de Kant…  Como nos orientarmos no meio-termo da balança entre os pesos do ‘realismo transcendental‘ e do ‘idealismo empírico‘?

Pergunta essa, que hoje passou a ser definida da seguinte forma…“O que é fundamental para o entendimento da linguagem… – a verdade considerada independente de nossa capacidade de avaliá-la… – ou a percepção, vista como um ‘ato limitado’…por nossos próprios poderes epistemológicos?”…

Outros filósofos opõem-se à descrição de Frege da natureza dos predicados, e a sua caracterização da lógica da linguagem vulgar em termos quase matemáticos. – Seja        qual for a posição adotada, contudo, quer na teoria do significado, ou na metafísica, podemos ter certeza de que a tradição da “filosofia analítica”… tem contado com as      ideias de Frege; se não em argumentos…ao menos na sugestão da terminologia em          que são expressas. texto base ***********(texto complementar)******************

wittgenstein14Filosofia analítica (“lógica formal”)

Desenvolvida ao longo do século XX, a ‘filosofia analítica’ caracteriza-se como um estilo de fazer filosofia; renovando  a metodologia filosófica…ao inaugurar nova forma de conduzir seus “estudos”.  Como prática filosófica…se caracteriza pela valorização da clareza…e precisão argumentativa… – usando para isso, a lógica formal, análise conceitual…bem como matemática, e ‘ciências naturais’.

Tem suas raízes no início do século XX com o “positivismo lógico“, e em filósofos como Bertrand Russell; Gottlob Frege (fundador da lógica moderna)…e Ludwig Wittgenstein, autor do influente “Tractatus Logico-Philosophicus”, de 1921. – Muitos aspectos destes primeiros tempos da filosofia analítica foram abandonados – ou rejeitados ao longo do tempo, mas foram importantes para seu desenvolvimento. – Entre estes, encontramos        o princípio “positivista lógico”, pelo qual o objeto da filosofia é o esclarecimento lógico    do pensamento, pela análise de suas proposições.

De acordo com Russell, a filosofia analítica tem mais qualidades de ciência do que da própria filosofia produzida anteriormente, uma vez que… diferente do que aconteceu    com os empiristas britânicos… como John Locke, George Berkeley e David Hume, na filosofia analítica chega-se a resultados definitivos…incorporando-se a matemática, e poderosas técnicas lógicas. Isto acontece porque, na filosofia analítica…os problemas        são ‘atacados’, um de cada vez, provando, ou refutando hipóteses… sobre os variados aspectos específicos, tanto do mundo da “linguagem“, como da “mente humana.

Na ‘filosofia analítica’… quando uma tese é derrubada ou refutada,                a “perspectiva geral” sobre o tema… — avança com esta conclusão.

Embora recusando muitos dos elementos iniciais oriundos do ‘positivismo lógico‘, a “filosofia analítica” atual desenvolveu-se em um estilo de filosofia muito semelhante          ao apresentado por Russell, caracterizando-se pela busca da precisão, clareza e rigor acerca de tópicos específicos…Além do que, a filosofia analítica conta hoje com uma “lógica modal“…no tratamento de assuntos correlatos como…’possibilidade’, ‘acaso’, ‘necessidade’, ‘probabilidade’, etc. interligados em um mesmo “campo de pesquisa“.

Entre as áreas mais comumente exploradas por filósofos analíticos estão… ‘Filosofia da mente’ e ‘ciência cognitiva’; ‘ética’; ‘filosofia politica’; ‘filosofia da ciência‘; e ‘metafísica’, retomada por filósofos como David Armstrong e David Lewis…com teorias sofisticadas    em tópicos como: ‘causalidade’, ‘filosofia da linguagem‘, ‘epistemologia’, etc. texto base

Publicado em filosofia, matemática | Marcado com , , , | 1 Comentário

Aspectos gerais da ‘Teoria (informal) do Conhecimento’

A ‘Teoria do Conhecimento’… ao ser sistematizada no século XVII, possibilitou saltar da gangorra metafísica de Sócrates para uma estabilidade epistêmica, a qual permaneceu inconteste até os efervescentes anos 70, quando o movimento pós-moderno, apresentou sua crítica à teoria – ocasionando… aparentemente, uma ruptura epistemológica total.

millor-fernandesUma Teoria do Conhecimento é feita a partir das necessidades do homem em sobreviver… – considerando que para fazer frente ao ‘mundo ao redor’ primeiramente precisa compreendê-lo. Isso direciona seus esforços… – à produção de mecanismos… cada vez mais sofisticados, suficientes às suas necessidades, e a se indagar… – o que mais poderá fazer a respeito…

Desse processo, ao longo do tempo, surgiram as questões identificadas e estudadas pela filosofia, na formulação de teorias sobre o conhecimento.

No século XVII, buscando encontrar respostas às questões sobre a origem e essência do conhecimento, ocorreu uma grande “sistematização” de metodologias e procedimentos, para se chegar a uma posição filosófica de princípios e fundamentos racionais…A partir   daí uma ‘Teoria do Conhecimento‘ passou a nortear as ciências específicas, se tornando mais um ramo da filosofia… – priorizando o ‘sujeito do conhecimento’, e afirmando sua capacidade ‘cognoscente’ para uma realidade exterior ao pensamento…e assim atingir a “verdade“.

A discussão a respeito de quais aspectos seriam preponderantes: a experiência ou a razão, a realidade ou a consciência, sujeito ou objeto, entre outros temas, é um fator importante para definir qual o arcabouço teórico apropriado para ser fundamentada tal visão teórica.

Essa ‘visão racional’, considerada um marco para a filosofia… assim como para as diversas ciências particulares, no entanto, não passou incólume por mudanças e transformações de cenário – com circunstâncias peculiares tais… – que ensejaram o aparecimento de teorias, doutrinas, escolas e pensamentos vários, sob a ótica do interesse de cada segmento – para afinal, concordar ou discordar sobre o que se formulava à época. Por esse motivo, analisa-se a interpretação de suas várias ‘correntes filosóficas‘…em um permanente debate acerca de seus critérios de validade…

Empirismo…racionalismo…’fenomenologia’…intuicionismo…materialismo dialético, pragmatismo, estruturalismo, construtivismo e pós-modernismo são algumas dessas ‘abordagens filosóficas’…determinantes na construção de uma “Teoria do Conhecimento“. 

oscar-wildeSurgimento da ‘modernidade’ 

O fato da razão humana ser ou não capaz de representar a…’realidade’ adequadamente…é o cerne de uma “reflexão fundamental”…visando a legitimar o “conhecimento”.

Sobre isso…pensadores do século XVIII chegaram à conclusão de que não existiria uma ‘verdade universal’. Por conseguinte, cada segmento deveria procurar a verdade do tipo   de conhecimento do seu interesse – deixando de lado a concepção predominante desde     os gregos, de uma ‘ideia absoluta’, com um espírito (medieval) absoluto. As questões da Teoria do Conhecimento, permaneceriam objetos de questionamento para a elaboração     de novos pensamentos. Isto devido à consistente influência medieval, da forte presença     do cristianismo, até então justificando todas dúvidas com a verdade do ‘mistério divino’.

Contudo, os pensadores modernos, ao constatarem a separação estabelecida pelo cristianismo, entre Deus e o Homem (em face do pecado original), se depararam           com um grande problema. Pode o homem (um pecador) conhecer toda realidade             que o cerca, por seus misteriosos objetos?…A resposta dos filósofos modernos foi             que poderiam, sim, e por intermédio da ‘razão humana’. Desse modo então, ficou estabelecido que o homem passaria a ser, o sujeito, e objeto do seu conhecimento.

A partir daí, a razão passou a fundamentar o conhecimento…e René Descartes (“Cogito ergo sum”) com seu ‘método matemático’ desenvolve todo um trabalho voltado à razão, cujos princípios permanecem, sempre quando ao elaborarmos qualquer conhecimento, analisamos as causas que podem nos levar a erro…verificando se os juízos emitidos são verdadeiros… — antes de chegarmos a ‘alguma conclusão’… — sobre ‘algum argumento’.

Racionalismo x Empirismo

Por essa nova ‘visão filosófica’ … somos capazes de conhecer. Nossa consciência adquire atividade sensível e intelectual, com um poder de análise … síntese … e representação dos objetos … através de ideias, avaliação e interpretação desses objetos por meio de juízos – e não pela ‘luz divina’ (…na visão do cristianismo), como até então se acreditava. – Porém, enquanto Descartes sustentava…que o conhecimento deriva da “razão” – por ‘operações‘ do nosso intelecto… concomitantemente… John Locke inaugurava a corrente ‘empirista‘… concluindo que todos os princípios do conhecimento vêm da ‘experiência‘.

Surgiam assim duas perspectivas totalmente opostas…diversificando             a “teoria do conhecimento” … em várias outras concepções diferentes. 

Para tentar resolver esse então considerado ‘problema’…surge uma posição mediadora entre racionalismo e empirismo, fundamentada numa nova orientação epistemológica, denominada “Intelectualismo” … justificando a participação de ambas correntes, no ‘processo de conhecimento’, ao argumentar que… – enquanto o racionalismo participa com juízos (necessários ao pensar)… com validade universal… – o empirismo retira os elementos desses juízos da “experiência”.

A ‘fenomenologia’ de Husserl 

Somente ao final do século XIX… – o filósofo Edmund Husserl apresentou sua abordagem ‘fenomenologica’ do conhecimento…para descrever a ‘Teoria do Conhecimento’ em âmbito geral…o que representou de forma mais contundente, a sistematização efetuada por Locke.

A fenomenologia visa descrever todos fenômenos… materiais, naturais, ideais, culturais, do conhecimento e realidades… e considera o fenômeno como a presença real das coisas diante da consciência, daquilo que se apresenta diretamente a ela. – Também se propõe afirmar a prioridade do sujeito do conhecimento com consciência reflexiva – diante dos objetos… aos quais intenciona apreender suas características e determinações – o que é basilar a todo conhecimento.

Por isso… a fenomenologia não afirma que o homem possa conhecer a realidade em toda a sua essência, e sim somente tal como aparece e se apresenta a sua consciência, e o faz por intermédio de representações.

fenomenologiaA “metodologia fenomenológica” … ao considerar a “capacidade humana” em conhecer um ‘fenômeno exterior’ à sua consciência, e definindo conhecimento como a relação do sujeito com o objeto; destaca três elementos dessa relação: o ‘sujeito cognoscente’ (e suas intenções); o ‘objeto a conhecer’…independente do seu pensamento; e a ‘imagem’ formada pela mente do sujeito…correspondente ao objeto (…que se pretende conhecer).

Podemos dizer então, que o método do conhecimento, no processamento fenomenológico, ocorre numa relação onde a função do sujeito é apreender…captar o objeto – o qual tem a propriedade de ser apreendido pelo sujeito. – Essa ‘apreensão‘ figura para o sujeito como uma saída de sua esfera, para invadir a esfera do objeto – absorvendo suas características.

Nesse procedimento, o objeto permanece independente. Não sendo arrastado para a esfera do sujeito, não é nele que ocorre alteração pela função cognitiva… Essa alteração ocorre no sujeito…(com o surgimento da imagem contendo as propriedades do “objeto”…para o qual esse fato se mostra como um alastramento de seus atributos) resultando na supremacia do objeto (determinante) sobre o sujeito (determinado).

Nessa receptividade do sujeito a respeito do objeto… – em razão da “intencionalidade“…     o sujeito passa a ser apenas a imagem do objeto em sua mente. Enquanto que, ao mesmo tempo se apresenta uma espontaneidade do objeto a respeito da imagem em formação – na qual a mente terá participação ativa na sua representação; isto porque o sujeito lhe dá esse significado (com a intencionalidade).

Todavia, quando determina o sujeito … o objeto mostra-se independente, transcendental, pois todo conhecimento visa a um objeto independente da consciência cognoscente… por isso todos os objetos do conhecimento são transcendentes, sejam reais ou ideais. Os reais são os dados na experiência externa ou interna, e os ideais são os meramente pensados, e mesmo assim possuem um ser em si…uma transcendência. Assim como na matemática e operações aritméticas com os números, eles existem – mas são objetos ideais… não reais.

Husserl-fraseCom efeito, na visão fenomenológica, o processo do conhecimento ocorre… quando o sujeito capta os aspectos do objeto, formando assim uma imagem do mesmo. Essa imagem para efetuar o conhecimento deverá corresponder totalmente ao objeto…caso contrário, há apenas um erro… – não do objeto, mas ocorrido na mente do sujeito.

Contudo, essa descrição do processo do conhecimento pelo método fenomenológico não explica, nem interpreta o conhecimento; apenas descreve o fenômeno ocorrido, cabendo     à Teoria do Conhecimento fazê-lo…o que nos reporta às indagações que dizem respeito à ‘possibilidade’ … ‘origem’ … ‘essência’ … ‘tipos de conhecimento’ … e ‘critério da verdade’.

Ceticismo, dogmatismo, materialismo                                                                   Estabelecida a essência do conhecimento como relação entre o sujeito e o objeto, conforme ao materialismo filosófico, resta-nos saber a origem do conhecimento.               Ou seja, saber se os sentidos…a razão…e a intuição, participam desse fenômeno.

Todas as teorias ou entendimentos acerca das questões filosóficas do conhecimento começam questionando seus próprios elementos da possibilidade do conhecer…isto             é, se nossa mente é capaz de entender…e refletir de forma adequada a realidade que       nos cerca… – efetivamente captando o objeto…e chegando à ‘verdade dos fatos’ pelo       uso do modelo da ‘Teoria do Conhecimento’ … em uma “descrição fenomenológica”.

Partindo desse pressuposto chega-se a 2 entendimentos opostos; o que   nega a possibilidade de conhecermos a realidade (‘ceticismo’)…e o que afirma a possibilidade de conhecê-la… – por ‘doutrinas materialistas’.

karl-marx.jpgOs céticos… supondo que o homem só possa conhecer a aparência das coisas, e não a sua essência, negam ao sujeito sua capacidade de apreender o objeto, concentrando sua atenção nos fatores subjetivos do ‘conhecimento humano’. Só teríamos acesso… à “manifestação exterior” da coisa em si… (o ‘objeto‘) como se apresenta à nossa consciência, sendo, conforme Kant, tarefa do pensamento dar forma e ordem nessas sensações. Por isso não conhecemos a essência do objeto, e sim sua representação… revestida dos “elementos subjetivos” em que a enquadramos… – os quais podemos encontrar… – além da ‘metafísica‘ de Kant…no ‘positivismo‘ de Comte…e na ‘fenomenologia‘ de Husserl… representando as variadas formas clássicas do ‘ceticismo’.

O entendimento que afirma a possibilidade de um conhecimento total da realidade se manifesta na ‘doutrina dogmática’, pela crença de conhecer     a ‘verdade absoluta’, de forma imediata e direta, por meios racionais ou “suprarracionais”… ignorando a relação cognitiva entre sujeito e objeto.

Ao afirmarem a existência real do mundo exterior refletido por nossa consciência, e distinguindo o objeto, do sujeito cognoscente, as doutrinas materialistas revelam-se como mediadoras entre o ceticismo e o dogmatismo… – Dessa forma… pressupõem       que a matéria é anterior à consciência… – e, nossas sensações… representações… e conceitos são reflexos das coisas que existem, independentes dela.

A relação cognitiva (materialismo x idealismo)

Destacados alguns entendimentos sobre a capacidade do sujeito…conhecer ou não, o mundo exterior, pergunta-se em que consiste o conhecimento…a sua ‘essência’… que relação há entre o sujeito e o objeto… o que constitui questão fundamental à filosofia,           e nos arrasta ao ‘centro de gravidade’ no fenômeno do conhecimento… – o que afinal prepondera, o sujeito ou o objeto?

Da essência do conhecimento, precisamos estabelecer o referido centro de gravidade. O aspecto nevrálgico da “preponderância”, nos apresenta entendimentos antagônicos e… considerando o ‘fator humano’…nunca deixarão de sê-lo. – Dizer qual o elemento preponderante no conhecimento … — se a realidade ou a consciência… o sujeito ou o objeto… — se a consciência é um reflexo e reprodução do objeto … ou, o objeto é um reflexo e reprodução da consciência, faz parte do objetivo principal de 2 fundamentais correntes (antagônicas) de pensamento; a saber… — o idealismo e o materialismo.

O idealismo e suas variantes (objetiva e subjetiva) afirmam que o sujeito determina o objeto. – A ‘variante objetiva’ afirma que o que prepondera é a ideia absoluta… espírito universal, cuja vontade existente antes da natureza e dos homens teria criado o mundo; sendo todas as coisas materiais seus produtos…(Platão, e o ‘Mito da caverna’… Hegel, e     seu ‘Demiurgo’). A ‘variante subjetiva’ apregoa o ‘eu absoluto’ na consciência do sujeito, onde estaria encerrada toda realidade; e onde a matéria…é construída pela consciência.

Contrapondo-se a esse entendimento o materialismo nos sugere a existência de objetos reais e independentes do pensamento… onde a matéria é anterior à consciência… – a qual representa um reflexo, produto da matéria no sujeito. – À ‘filosofia materialista’ se atribui a resolução cientifica do problema fundamental da essência do conhecimento, mostrando que o mundo e o ser são materiais por natureza…e sensações e ideias, reflexos do exterior.

Sobre a origem do conhecimento

Estabelecida, conforme afirma o materialismo filosófico… a essência do conhecimento, como resultado da relação sujeito/objeto…resta-nos questionar sobre a “origem do conhecimento”.

Para tentar resolver essa questão, precisamos avaliar qual o grau de participação dos sentidos, razão e intuição no processo gnoseológico. 

‘Empirismo é o método que, tendo como formas de conhecimento…’sensação’, ‘percepção’ e ‘representação’…acredita que a experiência recebida dos sentidos                    é suficiente para conhecer a verdade. Por outro lado, o ‘racionalismo‘, através                 do pensamento abstrato, defende que todo conhecimento vem da razão…Como                 os sentidos nos enganam…só pela razão podemos produzir um saber verdadeiro, logicamente necessário, e universalmente válido… Já o ‘Intuicionismo‘ afirma                 ser possível chegar à verdade, sem os sentidos e razão… ao usarmos a faculdade           irracional (ou sobrenatural) chamada intuição. – E por fim, o ‘materialismo‘,           apesar de afirmar serem o empirismo, racionalismo, e intuicionismo unilaterais,       propõe uma síntese deles, como partes do ‘processo cognitivo’, numa dialética.

Verdade…Conceitos & Doutrinas 

Vistas algumas questões da descrição fenomenológica do conhecimento, estas nos direcionam para a grande questão da validade do conhecimento… a verdade, e o critério utilizado para lhe atribuir certeza. O ‘conceito de verdade’… – como a concordância do ‘conteúdo do pensamento’ com o seu objeto…constitui a concepção transcendente de verdade… – Há, no entanto, também o conceito da imanência – que afirma ser a verdade a concordância do pensamento consigo mesmo… – nada existindo de exterior à consciência.

Os segmentos idealistas e materialistas, bem como os aspectos subjetivos e objetivos da verdade, dessa forma, assim se manifestam… – O idealismo subjetivo‘ versa sobre o conceito ‘imanente’ de verdade, e o ‘objetivo‘, sobre a concepção ‘transcendente’. Mas, não podemos ignorar a doutrina do ‘pragmatismo‘ … — afirmando um entendimento oposto ao ‘idealismo‘…onde o conhecimento só é verdadeiro… ao produzir resultados eficazes. Tendo assim, como critério de verdade a ‘utilidade‘, o pragmatismo ignora o ‘conhecimento‘ como o resultado de uma relação entre sujeito e objeto.

Em Kant… essa relação desempenha papel fundamental, na explicação genética do conhecimento… onde chegamos a uma confirmação da concepção que a consciência natural possui do conhecimento humano. – Para esse conceito, é essencial a relação           do conteúdo de pensamento, com o objeto…A face psicológica e a face ontológica do fenômeno do conhecimento são, por assim dizer… – suprimidas em favor da lógica.

a) Conceitos de verdade

Quando descrevemos o fenômeno do conhecimento… constatamos que, para a consciência natural, a verdade do conhecimento consiste na concordância do conteúdo do pensamento com o objeto… – A verdade é a concordância do pensamento consigo mesmo… Um juízo é verdadeiro, quando construído segundo leis e normas do pensamento. Isso significa uma rejeição do conceito imanente de verdade, que pode muito bem ser caracterizado como um conceito idealista. – Sendo apenas no terreno do ‘idea­lismo‘ que o ‘conceito imanente‘ faz sentido, todavia essa con­cepção será certamente necessária, pois se não houver objetos independentes do pensamento…se todo o ser resi­dir no interior do pensamento, a verdade só pode consistir no acordo de conteúdos de pensamento entre si… em ‘correção lógica‘.

Nesse caso…a verdade do conhecimento reside na produção de objetos em con­formidade com as leis do pensamento, vale dizer…na con­cordância do pensamento com suas próprias leis.

b) Critérios de verdade

Sendo a “certeza da verdade“, incumbência de seus critérios…há várias concepções para se atribuir a essa certeza… – tais como… – o critério da ‘autoridade‘ (dogmática) – o da ‘evidência‘ (‘teoria do conhecimento’) – da ‘ausência de contradição‘ (no ‘idealismo subjetivo’); da utilidade (pragmatismo) e o da prova experimental (ciências diversas).

O critério da evidência, como o mais conhecido e aceito, é visto como plena clareza da verdade…e a ‘certeza‘ é o estado subjetivo que a acompanha. Porém, não é um critério último de verdade, pois fatores como ‘ignorância’, ‘ilusões dos sentidos’…’preconceitos’        e ‘paixões’ podem levar a uma falsa evidência; precisando-se portanto de outro critério para dar à verdade… o atributo da “certeza”. – Quanto ao critério da imparcialidade, define-se que no processo do conhecimento – ao sujeito apreender as propriedades do objeto… – a imagem assim formada, deverá corresponder ‘plenamente’ a esse objeto…

Mas, por transcender ao sujeito, esta imagem não deverá conter o já existente em seu próprio pensamento, e sim corresponder apenas às propriedades captadas do objeto;       o que resultaria em uma “imagem imparcial”, o mais próximo possível da ‘realidade’.

Utilizando da argumentação do ‘materialismo dialético’ … também é possível – com a imparcialidade, o sujeito ser capaz de conhecer a verdade objetiva, ao afirmar a apreensão do objeto, em suas determinações e características essenciais – argumento aceito pelos ‘céticos’. – Somente na concepção ‘idealista subjetiva’…a concordância do pensamento é consigo mesmo, e não com o objeto.

c) Juízo de valores                                                                                                               “Todo conhecimento científico possui validade uni­versal. – Pode-se, quase identificar o conhecimento científi­co ao saber universalmente válido. – Porém, no campo teórico do conhecimento científico, não se pode considerar a ‘evidência’ como critério de verdade”.

Um juízo de valor pode ser definido como uma avaliação de caráter pessoal, fundamentada em informações disponíveis, a ser efetuada sobre algum sistema de valores…pelo qual uma decisão deva ser tomada… — de forma independente a qualquer critério valorativo vigente. Nesse caso argumenta-se que a ‘objetividade verdadeira’ é impossível, pois mesmo as mais rigorosas análises racionais fundamentam-se no conjunto dos valores aceitos…no curso da análise. Por consequência, todas conclusões são necessariamente ‘juízos de valor (e assim, suspeitas).

Como exemplo, as “verdades” científicas são consideradas “objetivas”… enquanto mantidas empiricamente – com a noção de que evidências mais cuidadosas, e/ou experiências posteriores, possam mudar os fatos.

Além do que…uma “opinião científica” (no sentido de uma conclusão baseada num sistema de valores) é um ‘juízo de valor’ baseado em avaliação rigorosa…com amplo consenso. Por esse motivo, caracterizar uma opinião como um ‘juízo de valor’ é algo vago, sem a descrição do contexto que a cerca. (wikipédia)

d) Conclusões práticas

A questão sobre o conceito de verdade está estrita­mente ligada à questão sobre o critério da verdade. Nesse campo, um ‘juízo‘ é verdadeiro se construído conforme leis e normas do pensamento. Fixemo-nos, a princípio, nos dados da consciência…Possuo uma certeza imediata a respeito do vermelho que vejo, ou da dor que sinto. Mas, não apenas o juízo… “eu vejo um claro e um escuro“… como também o juízo… “o claro é diferente do escuro” pertence ao círculo de ‘auto-certezas’ da consciência.

O que equivale a perguntar se, além da evidência da percepção…               há também uma evidência no ‘pensamento conceitual‘… – e, se         houver…poderíamos divisar aí algum tipo de ‘critério de verdade’? 

Não há dúvidas de que ‘evidências’ também existam no campo do pen­samento. O que não é correto, porém, é deslocar a evidência para fora da consciência…O epistemólogo que faz isso não pode evitar a necessidade de distinguir, no interior da evi­dência lógica objetiva – o verdadeiro do falso… – o real do aparente… – o legítimo do ilegítimo. – Não reconhecer a ver­dade daqueles juízos…significa, indiretamente, negar as ‘leis lógicas’ do pensamento.

Nessas leis, revela-se sua própria essência e estrutura…E nesse caso, a fundamentação do juízo não está assenta­da em sua evidência, mas em     sua finalidade, fundamental em relação ao conhecimento. (texto base)

e) o ‘pós-modernismo‘ veio a tona 

Todas essas concepções acerca do conhecimento humano, vigoraram incontestes – até meados do século XX…sobretudo para a atividade científica. Até hoje…seja qual for a teoria que sistematiza a produção do conhecimento…ela se orienta pelos mesmos princípios… diante da ‘problemática de interesse’, isto é…pelo fato, situação… ou objeto     a conhecer. –  O homem planeja o que vai fazer, coleta o material necessário…avalia suas fontes, interpreta…e procura o que todos querem… – o conhecimento considerado “verdadeiro”.

E a base para esse procedimento é a ‘razão humana’,                                       em quem os “pensadores modernos” acreditaram.

Mas, o tempo é inexorável com as ideias, em razão de ocasionar mudanças – e, por conseguinte, acarretar novos pensamentos diante dos desafios. A descontinuidade corrente na filosofia; a herança dos escombros materiais e mentais da 2ª Guerra; a bipolaridade subsequente; o estado pós-industrial, com os modelos existentes não        mais correspondendo às necessidades e expectativas da sociedade… e da ciência; a cibernética e o novo modelo de comunicação; ‘capital financeiro’ gerindo política e economia; formação dos “movimentos sociais”; o ‘Construtivismo’ … a ‘Gestalt’… e ambições imperialistas, ensejaram, no fim dos anos 60…uma ‘postura negativa’ de angústia diante da sensação de que… o que se acreditava, ou foi levado a acreditar,           era errado, não mais servindo à sociedade…considerando o que ocorria no mundo.

Assim, foram negadas as bases e valores implantados desde o século XVII, que nortearam filosofia e ciência. Do racionalismo ao empirismo, do idealismo ao materialismo dialético. Sob as bandeiras do estruturalismo e construtivismo… se dá uma ruptura epistemológica, estabelecendo-se o… “pós-modernismo“… — como uma posição filosófica discordante.

Entre seus pensadores mais conhecidos, destacam-se Sartre, Foucault, Lévi-Strauss, François Lyotard, Deleuze, Derrida, Herbert Marcuse, e Bruno Latour… os quais negaram todas as teorias, valores, conceitos, doutrinas, enfim… tudo o que constitui o universo filosófico moderno.

As propostas ‘pós-modernas’… partem da intenção de romper… — e “descronstruir” criticamente…o “modelo epistemológico” então vigente — bem como questionar os fundamentos… – que sejam baseados em ‘verdades dogmáticas’…recusando assim, a ideia de ciência como representação da realidade em si mesma; adotando a ideia de que, o “objeto científico” é um modelo construído — e, desse modo… questionar todas formas que não nos serviriam mais.

As metodologias e procedimentos baseados num modelo racional discursivo     passariam ao modelo similar ao ‘construtivista’…sem fundamentos prontos.

Quanto ao processo do conhecimento, o ser humano não conhece, ou não precisa conhecer a realidade que o cerca – ele a constrói… – pois a base racional, e todo o discurso moderno seria, nesta nova visão…um disfarce para o exercício da dominação – por isso, a negação a ‘sistemas prontos’… – que induzam a pensar…o que se quer que se pense. – A ‘essência’ do conhecimento…que é a relação entre sujeito e objeto, é considerada sem fundamento, pois tanto filosofia quanto ciência… sendo ‘construções subjetivas’ de seus objetos – estes nada mais são do que resultado de operações teóricas e técnicas; já que cientistas não observam realidades, mas as constroem… E, portanto, objetos independentes do sujeito não existem, sendo apenas construções teóricas.

Daí podem ser identificados reflexos do ‘idealismo’, e sua concepção imanente de verdade, porém, sem a presença de qualquer construção interativa, pois a apreensão do objeto pela mente do sujeito corresponde ao seu próprio conteúdo – por um procedimento individual.

A filosofia e o conhecimento… – passam a ser considerados                           criação da linguagem, como um reflexo do ‘estruturalismo’.

A origem do conhecimento não é concebida como no ‘modernismo’ – pois o homem não é um ‘animal racional’ com livre vontade – ele é passional…se move por instintos, e por isso instituiu uma ordem social para reprimir seus desejos (proposição diametralmente oposta ao “pensamento moderno”)– A verdade do conhecimento… – como correspondência da imagem formada, cujo critério é a ‘evidência‘…não seria apropriada, considerando que o conhecimento – seja qual a espécie, só é válido se for útil e eficaz para a obtenção dos fins desejados por quem conhece…  —  “não importando que ‘fins‘ sejam esses”… (texto base) ***********************************************************************************

O “problema do conhecimento”

Conhecimento é uma relação entre sujeito…objeto. Considerando que o sujeito — por estar no mundo, também pode ser objeto de conhecimento … surge daí então, a ‘grande pergunta’: Será que é o sujeito quem determina o objeto; ou o objeto determina o sujeito?… – Para aconsciência natural‘, o conheci­mento aparece como uma determinação do sujeito pelo objeto… – Mas estará correta essa concepção? Não devería­mos, ao contrário, ver o conhecimento como uma “explicação” do objeto – pelo sujeito?… Afinal… – onde está o ‘centro de gravi­dade‘ do conhecimento humano – no sujeito, ou no objeto?

Sujeito x Objeto

O ‘subjetivismo‘, ao ancorar o conhecimento humano no sujeito, desloca o mundo das ideias (encarnação dos princípios do conhecimento) para o sujeito. Nele, a característica principal do conhecimento já não mais con­siste numa focalização do ‘mundo objetivo‘, mas num voltar-se para aquele sujeito, de quem a ‘consciência cognoscente‘ recebe seus conteúdos… Todos os ‘elementos metafísicos’ são elimi­nados do núcleo do “pensamento subjetivista”…pois todos os objetos são produtos da cons­ciência, através do pensamento.

Já no ‘objetivismo‘, enquanto os objetos do mundo sensível revelam-se à uma percepção intuitiva, os objetos do pensamento revelam-se aos sonhos… à imaginação. O pensamento fundamental da doutrina platônica revive hoje na “fenomenologia” de Husserl. Da mesma forma que Platão, Husserl distingue nitidamente a intuição sensível dos objetos concretos; da “não-sensível“… cujos obje­tos – ao contrário… são as “essências universais” das coisas.

Ontologia x Epistemologia

Ontologia significa “estudo do ser”…e consiste em uma parte da filosofia que estuda a natureza do ser, a existência, e a realidade. A palavra é formada através dos termos gregos ontos (ser) e logos (estudo, discurso). Engloba algumas questões abstratas como a existência de determinadas ‘entidades‘ … o significado do Ser, etc. Os filósofos da Grécia Antiga… Platão e Aristóteles…estudaram o conceito, que muitas vezes se confunde com metafísica. De fato, a ontologia é um aspecto da metafísica que busca categorizar o que é essencial e fundamental em determinada entidade.

O termo foi popularizado graças ao filósofo Christian Wolff, que definiu a ontologia como “philosophia prima”, ou ciência do ser enquanto ser. Assim, esta ciência tinha um caráter racional e dedutivo, com o objetivo de estudar os traços mais gerais do ser. No século XIX, a ontologia foi transformada por ‘neo-escolásticos’ na 1ª ciência racional a abordar o ‘Ser’. A corrente filosófica idealista de Hegel partiu da ideia de ‘autoconsciência’ para recuperar a ontologia como ‘lógica do ser’. No século XX a ligação entre ontologia e metafísica geral deu lugar a novos conceitos, como o de Husserl, que vê a ontologia como ciência material das essências. Para Heidegger, a ‘ontologia’ é o 1º passo para a “metafísica da existência”. (texto base)

Epistemologia significa ‘ciência‘, conhecimento‘, é o estudo científico que trata dos problemas relacionados com a crença e o conhecimento, sua natureza e limitações. É uma palavra que vem do grego epistimo (ciência) e estuda a origem, estrutura, métodos   e validade do conhecimento. Conhecida como ‘teoria do conhecimento’, relaciona-se com   a metafísica, a lógica, e a filosofia da ciência…sendo uma das principais áreas da filosofia, ao avaliar a possibilidade do ser humano em alcançar o “pleno conhecimento do mundo”.

A epistemologia trata da natureza, origem e validade do conhecimento, estudando o grau de certeza do conhecimento cientifico em suas diferentes áreas…com o objetivo principal de estimar a sua importância para o espírito humano. Ao surgir com Platão, já se opunha   à crença ou opinião, ao considerá-las um ponto de vista subjetivo… onde o conhecimento   é crença verdadeira e justificada. (pela teoria de Platão, o ‘conhecimento’ é o conjunto de todas as informações que descrevem e explicam o mundo natural e social que nos rodeia)

Obs. Um ramo epistemológico especial se refere à Epistemologia Genética, uma teoria elaborada pelo psicólogo e filósofo Jean Piaget. A epistemologia genética é um resumo de duas teorias existentes, o apriorismo, e o empirismo. Para Piaget, o conhecimento não é algo inato dentro do indivíduo, como declara o ‘apriorismo’…bem como o ‘conhecimento’ não é exclusividade observacional do meio ambiente, como afirma o ‘empirismo’. Segundo Piaget… o conhecimento é produzido graças a uma interação do indivíduo com o seu meio, de acordo com “estruturas inatas” … que fazem parte do próprio indivíduo. (texto base)

Soluções para o “problema do conhecimento”

Ao incluirmos agora, na análise desse problema…o ‘caráter ontológico’ do objeto, duas novas decisões se tornam possíveis… Ou supomos que todos os objetos possuem um ser ideal de ‘pensamento’ (é o que afirma o idealismo); ou se admite que além dos objetos ideais, há objetos reais, independentemente do pensamento (modo de ver do realismo).

1) Realismo metafísico

Por “realismo metafísico”… entende-se o ponto de vista epistemológico segundo o qual existem coisas reais, independen­tes da consciência… O ‘realismo ingênuo‘ é aquele que não distingue a “percepção” (o conteúdo da ‘consciência’) do objeto percebido. – Já o ‘realismo natural‘ é capaz de identificar esses conteúdos, em objetos, ao atribuir-lhes as propriedades presentes em seus conteúdos…Enquanto o realismo crítico, por sua vez, ao não acreditar que os conteúdo da percepção, venham dos objetos… atribui as reações da consciência … a ‘estímulos externos’.

No ‘realismo ingênuo‘… também conhecido como ‘pré-filosófico’… – que dá origem aos demais, o homem aceita a identidade de seu conhecimento com as coisas captadas por sua mente, sem formular qualquer questionamento a respeito disso. — É a atitude do “homem comum”, que concebe as coisas… tais e quais aparecem. — O ‘realismo natural‘, por sua vez, é composto por reflexões críticas e epistêmicas. Nele há uma indagação a respeito dos fundamentos, e uma procura em demonstrar se as teses são verdadeiras… em uma atitude propriamente filosófica… – seguindo a ‘linha aristotélica’.

Porém, para o defensor do ‘realismo natural’…assim como do ‘realismo ingênuo’…é absurdo admitir que sangue não seja vermelho, que açúcar     não é doce… e que esses ‘atributos’… – pertençam apenas à consciência.

Já o ‘realis­mo crítico‘ apoia sua concepção, principalmente sobre fundamentos tomados às ciências da natureza. A fisiologia põe à sua disposição ou­tros tantos fundamentos…Dos nervos, são conduzidos ao cérebro…Tais elementos, de ‘conteúdo perceptivo‘, não podem ser atribuídos a ‘estímulos obje­tivos’ … por representarem propriedades da ‘consciência‘.

De acordo com seus fundamentos, conhecer… é sempre conhecer algo colocado fora de nós; mas o qual, ao ser conhecido…não nos é possível verificar se este objeto que nossa subjetividade compreende…corresponde ou não ao objeto tal qual a si mesmo. – O que significa que nem todas as propriedades dos ‘conteúdos perceptivos’ são pertinentes às coisas.

Os objetos da percepção servem para muitos indi­víduos; porém,             os conteúdos da representação só valem para um único objeto.

Essa interindividualidade dos objetos de percepção só pode ser explicada, segundo a visão do ‘realismo crítico’, pela supo­sição de haver ‘objetos reais’ atuando em diferentes sujeitos, provocando neles…’percepções’. – A independência dos objetos de percepção em relação à consciência que per­cebe… – manifesta-se aqui com clareza. – Esse tipo de fundamentação, contudo, parece inadequado a outros representantes do rea­lismo. Se fôssemos puros seres de entendimento, não teríamos qualquer consciên­cia da realidade…(‘realismo volitivo‘).

Todas essas 3 formas de realismo estão presentes na filosofia antiga. – No alvorecer do pensamento grego, o ‘realismo ingênuo‘ era predominante…Demócrito, seguidor do ‘realismo crítico‘, por seu lado, afirmava (quantitativamente) a existência de átomos. Mas sua visão não foi capaz de impor-se à ‘filosofia grega’, muito devido à da influência exercida por Aristóteles, defensor do ‘realismo natural‘. – Para ele…as propriedades percebidas convêm também às coisas…sendo seu ponto de vista foi predominante até a Idade Moderna, quando a visão de Demócrito ressurgiu… – Sua doutrina ‘atômica’, foi então defendida por Galileu…aperfeiçoada por Descartes e Hobbes… e consolidada por John Locke, incluindo a distinção entre qualidades sensíveis… primárias e secundárias.

A obra do empirista John Locke representa uma reação ao ‘racionalismo‘ (“absoluto”) de Descartes, por considerar o ‘entendimento’ como a faculdade mais nobre da alma, na investigação dos objetos passíveis de conhecimento. Tentar ir além do que as faculdades mentais são capazes de apreender… ou adentrar veredas que extrapolam a compreensão humana é cair na ‘especulação’… — Ao retirar das ideias seu caráter inato (‘Deus’) Locke defende que o “aprendizado da experiência” é que dá origem ao conhecimento…Nossos sentidos são a única fonte de ‘ligação direta’ à realidade… – suas qualidades primárias      são os ‘objetos exteriores’… – e as secundárias, surgem da interação (‘ideias‘) entre o objeto e o sujeito (variando de sujeito para sujeito).

2) Idealismo epistemológico

À princípio devemos entender que a palavra “idealismo” … possui diversos sentidos, de acordo com a forma… e o contexto em que é empregada. Aqui…vamos tratar o idealismo no sentido epistemológico, isto é, que prega a concepção da “não existência de coisas reais…  —  independentes da “consciência”.

                           Não existem objetos fora da consciência;                                                                  toda realidade está contida dentro dela.

O idealismo, no sentido epistemológico, advoga a concepção de que não há coisas reais, independentes da consciência. Como, após a supressão das coisas reais, só restam 2 tipos de objeto – os existentes na ‘consciência‘ (re­presentações/sentimentos) … e os ‘ideais‘ (objetos da lógica/matemática)… – o ‘idealismo’ deve, necessariamente, con­siderar esses pretensos objetos reais, ou como objetos exis­tentes na consciência, ou objetos ideais… A partir daí formam-se os dois tipos de idealismo…  —  o ‘psicológico‘…  —  e o ‘lógico‘.

2.a) Idealismo psicológico (ou subjetivo)

Para este tipo de idealismo, toda a realidade esta na consciência do sujeito sendo assim, as coisas em si não passam de conteúdos provenientes da consciência. A existência das coisas depende da percepção do indivíduo, sendo que – ‘deixar de perceber … é deixar de existir’. Seu maior expoente foi George Berkeley (1685-1753) que cunhou a fórmula adequada para tal posicionamento… – O ser das coisas consiste em serem percebidas. – A frase a seguir demonstra igualmente bem os fundamentos da teoria do ‘idealismo psicológico’:

“Se é assim, a pena em minha mão não passa de um complexo de       sensações visuais e táteis. – Por trás dessas sensações, não existe             coisa alguma… que as esteja provocando em minha consciência”.

2.b) Idealismo lógico (ou objetivo)

O idealismo lógico é essencialmente di­verso do psicológico. Enquanto este parte da consciência do ‘sujeito individual’…afirmando que a realidade está contida em sua consciência, e os ‘objetos’ são seus conteúdos — o ‘idealismo lógico‘ toma como ponto de partida a “cons­ciência objetiva“…ao afirmar que objetos são ‘produto do pensamento’ (em oposição ao realismo, para o qual os objetos exteriores estão disponíveis, à revelia do pensar).

Ao objetivar conscientemente (pelo “pensamento”) seu “objeto de conhecimento“… – o ‘idea­lismo lógicose distingue do subjetivismo doidealismo psicológico‘, bem como  se diferencia radicalmente do ‘realis­mo metafísico‘… – que assume um “conteúdo real” do mundo exterior, fora da cons­ciência individual. – Essa ‘forma objetiva’ de idealismo faz parte do conteúdo científico… – por uma soma de ideias…pensamentos…teorias… e juízos.

O idealismo lógico vê o ‘objeto real’ como algo em que somos encarregados da tarefa de conhecer sua ‘definição lógica’ … – pelos ‘dados da percepção’, para, a seguir … – transformar esses dados … em ‘objeto de conhecimento’.

Apesar das divergências dos 2 pontos de vistas… essa diversidade move-se dentro de uma intuição fundamental comum. Trata-se da tese idealista de que o objeto do conhecimento não é algo real, mais ideal. Não contente em formular a tese – o ‘idealismo’ também tenta prová-la. Desse modo, o pensamento de um objeto (“independente do pensar”) não traria qualquer contradição – pois o tornar-se pensado, diz respeito ao con­teúdo; enquanto que o ser independente do pensar… – o ‘não tornar-se pensado‘… – diz respeito ao objeto.

Como um exemplo para melhor diferenciar as linhas de pensamento… “Ao segurar um pedaço de giz… – Para o realista… o giz existe exteriormente à minha consciência, e independente dela. Para o idealista, subjetivo ou psicológico, o giz existe apenas em minha consciência. Todo o seu ser consiste em ser percebido por mim… Ao idealista lógico, o giz não está nem dentro de mim, nem fora de mim…ele não está disponível       de antemão – mas deve ser construído… e isso acontece através do meu pensamento.   Na medida em que formo o “conceito giz”…meu pensamento constrói o “objeto giz”… sendo assim… – para o idealista… o giz não é nem uma coisa real, nem um conteúdo consciente… – mas sim, um “conceito“… – que consiste em um…ser lógico-ideal“.

Frente ao idealismo… que pretende fazer do homem um ser totalmente intelectual,         o realismo enfatiza que o homem é um ser que quer… e age. Assim… nossa certeza acerca do “mundo exterior”… – não se baseia numa simples ‘conclusão lógica’, mas         numa “vivência imediata”… – E com isso… o “idealismo”… é superado pela prática.

3) Posicionamento Crítico                                                                                               Todo idea­lismo deve fracassar…diante dessa certeza imediata do eu;                            com isso, resolve-se então a questão sobre a existência dos objetos reais”.

Descartes formulou o célebre “cogito ergo sum”… “Em meu pensar, em meus atos de pensar (assim reflete Descartes) vivencio meu eu… — enquanto ‘realidade’… — certifico-me de minha existência”. A proposição sugere, que possuímos uma certeza imediata sobre a existência de nosso próprio ‘eu’; e que todo idealismo deve fracassar diante dessa certeza imediata.

Locke x Descartes (racionalismo absoluto)

Descartes entende o (inato) como um ‘princípio causal’, ou noção substancial (Deus). Para Locke, tal concepção inatista coloca Deus como o responsável pela existência de determinadas ideias em nós, o que, segundo ele, teria um caráter dogmático, uma vez que é ‘inquestionavelmente’ colocado como ‘ponto de partida’. Com isso… Locke tenta chegar às ideias… – apenas pelo uso das “faculdades naturais“.

Um dos argumentos utilizados pelos defensores do inatismo é o “universalismo”, isto é, o fato de todos os homens concordarem acerca de uma ideia. No entanto, Segundo Locke o “conhecimento universal” não é ‘inato‘…Para Locke, a alma humana é uma “tábula rasa”. Assim, ao buscar os ‘elementos responsáveis’ pela formação do conhecimento… – a razão encontra a ‘experiência’ e a ‘reflexão’ como seus mananciais… Tudo que conhecemos vem dessas 2 fontes de ideias…as sensação, originadas do exterior; e as reflexões (do interior).

Todo conhecimento provém da experiência obtida dos objetos sensíveis externos…por operações internas dos sentidos. Um outro tipo de fonte de ideias… a percepção… – ocorre quando a ‘mente’ analisa suas próprias operações. – São aquelas como… conhecer…duvidar…querer…crer… etc.

Pelo empirismo de Locke… – o caminho pelo qual são alcançadas as verdades origina-se (ao contrário do princípio universal do racionalismo cartesiano) nas ‘ideias particulares’, isto é, na ‘concepção empírica’ que o pensamento parte do particular para o geral. Estas ideias é que dão origem às ideias abstratas. A ideia é objeto do pensamento…não se tem pensamento sem ideia, nem ideia sem pensamento. Ter consciência de uma ideia…é ter consciência de que se tem essa ideia, ou seja, é ter consciência de si mesmo. (texto base)

4) Fenomenalismo kantiano                                                                                             Kant busca compatibilizar o realismo ao idealismo – propondo                                               uma metafísica baseada numa “ordem a priori” da consciência.

Assim como racionalismo e empirismo estão flagran­temente contrapostos quanto à origem do conhecimento, o realismo contrapõe-se ao idealismo, na questão sobre a essência do conhecimento.

O “Apriorismo de Kant é uma tentativa de superar o embate racionalismo x empirismo. No caso da contraposição entre o realismo e o idealismo foi proposto… – também por Kant, o “Fenomenalismo” – não tratando as coisas como são em si… mas como se nos apresentam (‘fenômenos‘) seguindo assim o realismo na aceitação de coisas reais; e o idealismo na limitação do conhecimento à realidade consciente (“mundo aparente“).

O Fenomenalismo é a doutrina segundo a qual, não conhecemos as coisas como são em si, mas como se nos apresentam. – Para o fenomenalismo há coisas reais…mas não podemos conhecer a sua essência. O fenomenalismo coincide com o realismo quando admite coisas reais…e coincide com o idealismo quando limita o conhecimento à consciência, ao mundo da aparência…o que resulta prontamente na impossibilidade de conhecer as ‘coisas em si’.

Segundo o realismo crítico, a ‘incognoscibilidade’ das coisas não convêm às próprias coisas, mas surgem apenas em nossa consciência. O feno­menalismo vai mais longe…ao afirmar que o mundo no qual eu vivo… – é modelado por minha própria consciência.

O realismo crítico parte do pressuposto de que o conhecimento de um objeto se faz através dos sentidos. O que estes captam é a própria coisa, e não processos fisiológicos. A sensação é sempre “sensação do objeto“. Tal sensação é específica aos sentidos com que se capta um objeto… — não atuando de maneira holística, integrada… — mas específica, e determinada.

‘A realidade existe objetivamente, de forma                                       independente da percepção que temos dela’.

Quando penso no mundo como formado de coisas dotadas de propriedades, quando aplico o conceito de “substância” às aparências, ou o conceito de “causalidade” a certos processos causalmente condicionados, ou ainda quando falo em possibilidade, necessidade… — tudo isso se baseia em certas formas e funções a priori do entendimento – que entram em ação estimuladas pela sensação, independentemente de minha vontade.

Segundo o “fenomenalismo”, lidamos sempre com o mundo das aparências, com o mundo que aparece na organização a priori da consciência… e nunca com as coisas em si mesmas. Noutras palavras… – o mundo no qual eu vivo é modelado por minha consciência. Jamais serei capaz de saber como é o mundo em si mesmo… – à parte de minha consciência, e de suas formas a priori, pois tão logo tento conhecer as coisas já lhes são impostas as formas de minha consciência… – O que tenho diante de mim, portanto…não é mais a coisa em si, mas a aparência das coisas – as coisas tal como me aparecem.

A “essência das coisas”

A doutrina do “fenomenalismo” – em Kant – resume-se a 3 hipóteses:

  1. – A coisa em si é incognoscível;
  2. – O nosso conhecimento continua a ser limitado ao “mundo fenomênico“;
  3. – Este surge na nossa consciência porque ordenamos e elaboramos o material                     sensível… – em relação às “formas a priori”…da intuição e do entendimento.

Em relação a conhecer a “essência das coisasou, falando como Kant, a “coisa-em-si… a esse respeito… – as concepções aristotélica e kantiana… – são totalmente opostas:

para Aristóteles… — A “consciência cognoscente” imprime uma ordem objetiva nas coisas do cosmos exterior; assim, o conhecimento é concebido, como   uma forma objetiva; numa concepção influenciada pela estrutura de espírito peculiar do mundo grego.

O conhecimento é apresentado como reprodução do objeto, numa simulação da realidade… que, de certo modo se dispõe duplamente: 1º) fora da consciência (objetivamente)… e… 2º) na “consciência cognitiva” (subjetivamente). Essa concepção possui a peculiar característica — de supor de que a realidade possui uma ‘estrutura racional própria‘.

Enquanto que, para Kant… a “consciência cognoscente” cria a ordenação. As sensações apresentam um puro caos. Elas não possuem qualquer ordenação. Toda ordenação vem   da consciência. Pensar para Kant, não significa outra coisa senão ordenar. Essa posição, porém é insustentável… – Se o material sensível fosse totalmente indeterminado, como poderíamos ordená-lo?…

Seja como for, o fato é que com isso, o ‘princípio da incognoscibilidade’ das coisas foi quebrado… E, como mostram as soluções de ambos o lado, trata-se de um problema firmemente postado nos limites de nossa ‘capacidade cognitiva’ – que escapa a uma solução categórica, e absolutamente segura, por parte de um ‘limitado pensamento’.

5) Intuicionismo (transcendente)                                                                           Também é numa intuição que se baseiam os juízos que temos nas ‘leis lógicas do pensamento’. Dessa forma, no princípio e no final de nosso conhe­cimento, existe           uma apreensão intuitiva’. 

Ao nos posicionarmos “criticamente“, no debate entre ‘realismo’ e ‘idealismo’…podemos concluir que ambas as proposições… buscam expressar o mesmo princípio… — a saber… que pos­suímos uma “certeza imediata” sobre a existência do próprio eu… – na qual uma parte se origina no processo do ‘pensar‘…e a outra, do ‘querer‘. Esta concepção… com forte associação à estrutura do ‘espírito grego’…concebe o “conhecimento humano”… de uma forma objetiva, como se a partir de um espelhamento do ‘cos­mos exterior‘… Assim,     a realidade se põe duplamente disponí­vel – objetivamente, fora da consciência… em um Cosmos (infinito)… – e subjetivamente… – por uma efêmera consciência cognitiva.

Reconhecer ou não a validade de um “conhecimento intuitivo”, ao lado do racional e discursivo – vai de­pender, sobretudo do “modo de se pensar” a respeito da essência humana. Quem desloca o centro de gravidade do ser mais para o lado do sentimento e da vontade, se inclinará, de antemão, a reconhecer, ao lado do tipo racional-discursivo de conhecimento… outro tipo de apreen­são do objeto.

E estará convencido de que… – ao caráter multifacetado da realidade, corresponde também uma multipli­cidade de funções do conhecimento.

Encontramos no co­gito, ergo sum de Descartes o reconhecimento da intui­ção enquanto forma autônoma de conhecimento … pois a “proposição cartesiana” não envolve nenhuma inferência, mas uma ‘intuição imediata’ de si… Deparamos ainda com um reconhecimento da ‘intui­ção’ como fonte autônoma de conhecimento em Pascal, que com a sentença… “O coração tem razões, que a própria razão desconhece”, põe ao lado do conhecimento inte­lectual, um “conhecimento emocional”. Em Espinosa e Leibniz, ao contrário, a intuição não desempenha qualquer ‘papel especial’ na estrutura geral da “teoria do conhe­cimento”.

A exemplo do que ocorre no intelectualismo da Idade Média e no racionalismo moderno, para Kant só há “conhecimento racional-discursivo”. – Nossos juízos éticos de valor…(o “sentido estético”…e o “sentido moral”), ensina ele – não se baseiam na reflexão, mas na intuição. Já Husserl reconhece uma “intuição ra­cional” … como de essência; enquanto Scheler assu­me, ao lado desta, uma “intuição emocional“, no conhecimento de valores.

Enquanto seres que sentem e querem, a ‘intuição’ é um verdadeiro órgão de conhecimento histórico. Todavia pela ‘meta­física racional’ chegamos ao fundamento absoluto do mundo. 

No campo teórico, a intuição não pode reclamar o direito de ser um meio de conhecimento autônomo, em­parelhado ao conhecimento racional-discursivo. Coisa muito diversa porém, é a pergunta sobre a validade da lógica intuitiva…O opo­sitor do intuicionismo está certo ao fazer essa exigência. – Ao fazer “teoria do conhecimento” … deve­mos dar à razão a última palavra. Toda intuição deve aqui legitimar-se… — perante o “tribunal da razão”.

Toda grande obra religiosa, filosófica, artística, por sua peculiaridade, prova que funções da consciência totalmen­te diversas da sensação e do pensamento partici­param em sua gênese… — Essas ‘forças irracionais’ formam um campo indispensável ao conhecimento do ‘mundo exterior’.

Ao passarmos aos valores do campo estéti­co‘ a intuição gera menos polêmica. Valores   es­téticos não podem ser apreendidos discursivamente por meio do entendimento… mas apenas intuitivamente – por meio do sentimento… – As coisas já não são tão simples no terreno da ética‘. Enquanto que a ‘metafí­sica‘, em última análise, ocupa-se apenas do “absoluto racional“… – como ‘fundamento explicativo do mun­do. (texto base) ********************************(texto complementar)******************************

Kant… ‘juízos sintéticos a priri’ (…e outros temas)                                                            A priori” não significa algo necessário ao pensamento, mas apenas um                           possibilitador do conhecimento da “realidade” … através da ‘experiência’;                   tendo como “pressuposto central“… – o ‘princípio da causalidade’.

O ‘apriorismo’ nada mais é do que uma tentativa de conciliar racionalismo com empirismo, ao situar um ‘fator a priori’       no pensamento (e não…da experiencia).

Tende ao ‘racionalismo’…supondo que o sujeito desempenha papel principal, ao produzir conhecimento…pela existência intrínseca de ‘elementos independentes’   da experiencia, ou seja…’a priori‘.

Estes elementos (fatores apriorísticos) são de ‘natureza formal’… – isto é, formas de conhecimento, análogas a recipientes vazios … a serem preenchidos com conteúdos vindos da experiênciaNeste caso, o material do conhecimento vem da experiência, enquanto a ‘forma’ que este material irá adquirir… – é proveniente do pensamento.

No apriorismo o pensamento sempre se mostra ativo frente à experiência, isto por que é ele que organiza o processo de conhecimento, levando as formas a priori ao conteúdo da experiência, determinando assim … os objetos a serem conhecidos. Kant – fundador do apriorismo, afirmava que o material do conhecimento apresenta-se como um ‘caos‘, e o pensamento é quem se encarrega de dar ordem a este caos … relacionando os conteúdos sensíveis entre si, por intermédio da ‘intuição’ (sucessão/simultaneidade… no tempo e espaço)… – e do… ‘pensamento’ … (pelo “princípio da causalidade“). (texto base)

Semântica (intuicionista) transcendental

Talvez possamos dizer que, de certa maneira, ao revés da ordem arquitetônica, no sentido kantiano, a ‘semântica transcendental’ seja uma ideia do ‘todo’…que surge não no começo, mas ao cabo de uma trajetória reflexiva sobre a obra kantiana. Ora, nesta partitura parece que a ‘filosofia analítica‘ fará as vezes de leitmotiv, uma espécie de tema para as variações sucessivas… – Em que medida seria então, tal vertente uma nova teoria do conhecimento? 

Como são possíveis ‘juízos sintéticos a priori?“, é uma pergunta sobre a possibilidade desses juízos serem ou verdadeiros ou falsos – de uma forma determinada. Mas, uma coisa é decidir se um juízo pode ser verdadeiro ou falso; outra é ter meios de afirmar que ele é de fato verdadeiro, ou falso. — Segundo Kant é exigido que as condições de verdade dos juízos sintéticos a priori, sejam explicitadas em termos de “operações intuitivas“. – E assim, toda construção, tanto do sistema categorial, quanto do sistema de princípios do entendimento, se justifica não por uma semântica a priori qualquer… mas, pela semântica “intuicionista”.

Tanto na lógica, quanto na filosofia da ciência, é possível encontrar exemplos de teorias formais a priori, que tratam separadamente de estruturas sintáticas, de domínios de interpretação… e de modos de estabelecer relações entre essas estruturas e domínios.

Falsos problemas insolúveis

Parece-me que a reconstrução adequada da sintaxe kantiana dos juízos sintéticos a priori, dos domínios de dados intuitivos explicitados por Kant – e da sua teoria do esquematismo transcendental e empírico, permite a elaboração de uma interpretação da ‘teoria kantiana‘ segundo esse mesmo padrão. – E a ‘filosofia analítica‘ funciona como um ‘leitmotiv’…pela entrada no modo semântico de ler Kant tendo por ponto de partida a Crítica da razão pura.

Um dos pontos básicos do projeto do neopositivismo é a tese de que todo problema científico bem formulado é solúvel…Se não é solúvel, ele não é     bem formulado…e não é um bom problema.

Por que Kant pergunta como juízos sintéticos a priori são possíveis?… Se for formulada uma pergunta por meio de um juízo desse tipo – que não pode ser nem verdadeiro nem falso, de uma forma determinada… ou sejaque não é um juízo possível, então não há resposta possível. Ora, um problema sem solução é um falso problema.

Daí a tese de que, no essencial, a ‘analítica transcendental’ serve como fundamento da teoria kantiana da solubilidade de problemas da razão pura teórica…e que o problema básico de Kant não é tanto a possibilidade dos ‘juízos sintéticos a priorimas saber se         é possível conhecer certas coisas sobre as quais a “razão pura” necessariamente se faz perguntas, e das quais se ocupa a metafísica tradicional… como saber se posso provar     que Deus existe, se há alma, etc.

O problema que ocupa Kant em 1º lugar, é o de decidir se posso resolver racionalmente as disputas da ‘filosofia tradicional‘, como as da filosofia da história, da moral, enfim…todas as outras disputas nas quais a ‘razão humana’ se vê envolvida. – E o seu diagnóstico é que tradicionalmente essa disputas surgem do mal uso da razão pelos filósofos, os quais antes de tentarem resolver um problema, não se perguntam se este é comprovadamente solúvel.

E como se determina se um problema da razão é solúvel?… – Quando a pergunta é feita por um ‘juízo sintético a priori’ que é possível, que pode     ser determinadamente verdadeiro ou falso.

E essa “ressonância analítica“… – por trás da qual certamente haverá uma ressonância neokantiana; como ela fica diante do ‘nada’; de Heidegger… tão criticado pelos analíticos?

Só para acrescentar mais um ponto sobre a pergunta anterior…Penso que a abordagem kantiana da estrutura do discurso filosófico   e científico ainda está viva, em boa parte da Filosofia da Ciência…e da Ciência do século XX. Só para dar um exemplo, alguém como W. Heisenberg se dizia um “neokantiano“.

A ideia de Kant é que em elaboradas ciências, conceitos são aplicados a ‘objetos empíricos‘, e esses objetos nos são dados pela percepção, ao capturar os ‘modos’ como eles nos afetam.

O que Heisenberg nos diz é que isso é verdadeiro, apenas dentro de certos limites. Quando entramos em contato com objetos, nem sempre nos limitamos a captar esse objeto… – Em determinados níveis da realidade, como os considerados pela física quântica, modificamos inevitavelmente esses objetos. Assim – pelos menos em certos domínios…os conceitos das ciências exatas não se aplicam ao modo como objetos nos afetam – mas como interagimos com eles… É o que sustenta Heisenberg; e faz parte da sua filosofia quântica ‘neokantiana’.

Acrescento que Kuhn também se diz neokantiano. Ele trabalha com conceitos a priori, mas admite que, sob pressões factuais, o a priori       muda com a história. Eu creio que Kant abre a possibilidade de um     diálogo frutífero com o que temos de melhor na filosofia da ciência             do século XX.

Mas, acaba tudo em Teoria da Linguagem?… Não há outra saída?… Filosofia é isso?

Em Kant, a linguagem fala por falar – ela sozinha não diz nada… Ela só diz algo se for amarrada por baixo. Essas amarras são intuições possíveis. Quando se faz um discurso prático, as amarras são outras… Quais?… A exequibilidade. Por exemplo, quando digo:       “A paz perpétua é seu dever, você tem de buscá-la“…a um chefe de Estado, falo de um “dever ser”. Esse “dever ser” precisa ser exequível, senão ele permanece uma ‘quimera’.

Nem tudo é linguagem… – Mas ela é o instrumento da “estruturação” das coisas. Na parte teórica da organização; na parte prática da modificação. 

E quando você fala – com toda razão, desse tecido que dá, por assim dizer, ‘carne e osso’ a essa teoria da linguagem kantiana, eu penso que o pano de fundo dessa relação é o quadro problemático, frustrante do “como se. Por que, afinal de contas, essa carne e osso é algo que o próprio entendimento legislador determina nas ‘intuições puras’… é aquele múltiplo a priori determinado pelo “entendimento legislador”…e, só por isso, pela espécie de ‘dupla face’ das intuições puras – uma face voltada para experiência empírica, outra voltada para experiência possível, é que haveria contato dessa formalidade a priori, com a carne e osso.

Há conceitos que você pode amarrar aos dados empíricos…As categorias você pode. Mas, há conceitos que você não pode interpretar da mesma forma…por exemplo – as ideias da razão… Mesmo não podendo amarrá-las aos objetos, pode-se amarrá-las aos sistemas de conceitos, que por sua vez, podem ser referidos aos objetos. Então, as ideias servem para organizar a casa, para articular as estruturas conceituais. Elas não se referem aos objetos da experiência possível, não há esquemas para elas.

Com o tempo, me dei conta que a mesma abordagem semântica podia ser estendida além do domínio teórico. A partir de 1785, Kant pergunta como é possível um ‘juízo sintético a priori prático’…que é a ‘lei moral’. E sobre a possibilidade dele, a ‘exequibilidade’. Depois, Kant quer saber como são possíveis juízos sintéticos a priori… – do direito…da estética…da história, e da política…que é o direito em execução.

De repente, eu me vi diante da possibilidade de ler a obra de Kant no seu todo, como resposta à pergunta: “Como são possíveis juízos sintéticos a priori em geral?” E essa resposta consiste em explicitar condições de aplicabilidade desses juízos, a domínios efetivamente acessíveis… – Assim, de repente acabei achando um ‘fio condutor’ para interpretar toda obra crítica de Kant, do começo ao fim.

E abre-se assim caminho para uma ética?

Sim, estar com outro é na origem um cuidar. Se estou em relação originária com outro…e ele me solicitar uma ‘necessidade’… – posso dizer: Isto eu não posso fazer, mas eu não posso dizer: “Isso não é comigo”. No mínimo devo tentar entender o que o outro necessita.

Entender – num certo nível… já é participar. Se eu ‘entendo’ o incômodo físico de alguém, não vou simplesmente virar as costas… nem construir uma teoria sobre isso…Entender é articular um sentido do mundo… – no qual é possível afastar o incômodo meu e do outro.

Trata-se aqui de fundamentos de uma ética que não é lei, mas uma             ética de cuidado e responsabilidade… – Uma ‘ética originária’, que         decorre do sentido essencial de presença e preservação. (texto base)

Publicado em filosofia, política | Marcado com , , , , | 1 Comentário

Breve panorama da prática filosófica no Brasil

Em pleno século 21, países colonizados como o Brasil vêem-se diante do dilema… em optar entre o artificialismo de uma cultura cerrada no passado, e o funcionalismo de uma cultura desvinculada da tradição”. 

Antes de mais nada…não existe em filosofia – ‘originalidade total’… os pensadores emergem da milenária “tradição filosófica ocidental” pensando problemas específicos… próprios da sua época, e seu meio.

A ‘originalidade filosófica’… deve ser procurada aí – nas peculiares condições histórico-culturais que influenciam a forma com que cada pensador reflete suas ideias, condicionado ele próprio por fatores subjetivos inerentes a todo ato humano. (texto base)

É justamente por essa razão, que tratar sobre este tema é sempre algo problemático…E, o 1º desses problemas que logo enfrentamos diz respeito ao critério do que é… e do que não é filosofia… Como separar o joio do trigo?… Depois, nos perguntamos se a originalidade é o único critério válido, ou exige-se também uma profundidade de temas… – além de uma enorme erudição…ou mesmo, se a “chave da questão”… não estaria na enunciação de um novo problema, ou na solução definitiva e racional de ‘problemas clássicos’…

Essas são perguntas que precisam ser feitas. E a filosofia precisa dialogar com a tradição, ocupar-se dos problemas atuais…e lançar bases para um futuro mais consciente.

jorge jaimeNo Brasil… muitos já se lançaram a essa tarefa, e colaboraram com respostas à velha questão…“Quem somos nós?”… e assim contribuíram para uma “cultura brasileira” mais consciente e preparada.

Segundo Jorge Jaime em seu “História da Filosofia no Brasil”, a rigor, a filosofia no Brasil começa já na fase colonial, com a instituição do ‘governo-geral’…em 1549… – e o desembarque da missão jesuítica no país… – dando início à construção dos alicerces fundamentais que moldariam a sociedade brasileira.

Contudo… – a história da Filosofia no Brasil ainda é das mais obscuras… – à espera de uma sistematização. – Não por acaso, em suas bases repousa uma caricatura pueril do medievalismo mais retrógrado e residual… – daquele Portugal… que a partir do século XVI… até a época do Marquês de Pombal… – havia assimilado o lado mais reacionário da ‘Contra-Reforma(nossa ‘herança maldita’) … decretando sua incapacidade em absorver o que de melhor o ‘Iluminismo‘ renascentista oferecia.

Não por acaso, com a emancipação política do Brasil, fomos invadidos pela cultura modernizada francesa, sem a menor condição de assimilá-la. – Em terras brasileiras…expressões de alta cultura no Brasil… – como filosofia… tornaram-se ao longo da história… um enredo mal digerido de influências.

A ‘fase colonial’ é marcada pelas influências da tradição filosófica e cultural portuguesa,     no esforço de civilizar uma “terra virgem e antropofágica“. Na ‘fase imperial’ a grande influência será o “positivismode Comte… – inspirador da nossa ‘Republica’… no lema “Ordem e Progresso”, como também o surgimento da escola de Recife; e a presença de pensadores do quilate de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José Bonifácio… — e outros…        Daí em diante, a partir da ‘fase republicana’ o Brasil entra na onda desenvolvimentista, absorvendo correntes… – que vão desde o marxismo… ao neoliberalismo.  (texto base)  *********************************************************************************

filosofia brasilNossas origens jesuísticas

A Filosofia no Brasil não é um assunto muito falado fora dos círculos acadêmicos, e muitas vezes, nem dentro. Quando se fala em Filosofia se lembra de Sócrates, Kant, Nietzsche     e Sartre… mas nunca de um filósofo brasileiro…

Não creio que isso se dê por preconceito, ou por filósofos Brasileiros não possuírem trabalhos relevantes… – O que acontece é que a Filosofia sempre foi predominantemente europeia – e… salvo os EUA, raros foram os países do Ocidente que tiveram Filósofos para a posteridade. O que não significa que os filósofos brasileiros, ou a história da filosofia no Brasil seja desprezada.

O que acontece é que falar de Filosofia…é pensar em inúmeros filósofos,       e, para isso é preciso estabelecer prioridades – senão, na prática, seria impossível ensinar e aprender Filosofia… no sentido de uma disciplina.

Estudar Filosofia é sempre, de certa forma estudar história, e estudar a história da filosofia no Brasil abre caminho para muitas percepções, que nos permitem entender os rumos que país tomou, da época do ‘Descobrimento’ até os dias de hoje (até por que, não se fala tanto em Filosofia no Brasil)… – Então, estando a Filosofia assim, intimamente ligada à história, para entendermos suas origens aqui no Brasil, antes de mais nada, precisamos conhecer o contexto da época.

No final do século XV…a Europa estava passando por grandes mudanças, que incluíam principalmente o ‘movimento Renascentista’, ‘Reforma Protestante’ e ‘Contra-reforma’.     A ‘Reforma Protestante’ foi um movimento liderado por Martinho Lutero que ia contra       o domínio do Catolicismo, ao criticar a hipocrisia dos líderes da Igreja na época. – Já a ‘Contra-reforma’ foi uma espécie de resposta da Igreja, tentando retomar o controle da situação – que, no entanto acabou não sendo muito bem sucedida, uma vez que outros fatores históricos contribuíam para uma sociedade mais desvinculada do “Catolicismo”.

Porém, enquanto o Renascimento ia deixando para trás a visão medieval, Portugal resistia à mudança, e foi lá onde a Igreja Católica encontrou um forte aliado da Contrarreforma. O monopólio do pensamento pela Igreja foi tamanho…que a partir de 1564 os professores de Filosofia foram obrigados a jurar obediência à fé católica. – A ação fiscalizadora do Santo Ofício, a catequese da Companhia de Jesus…e a ‘vigilância do Paço’ fixaram balizas ao ambiente do pensamento… reduzindo a liberdade… instituindo a censura… aumentando a intolerância, controlando e mutilando o conteúdo de livros…limitando o desenvolvimento filosófico e científico; e impondo o obscurantismo. – Em outras palavras, Portugal nadava contra a corrente das mudanças, tentando manter seu ‘status quo’ colonialista.

filosofia brasil 2

É neste ponto que o Brasil entra em cena…  —  nesse quadro econômico, político, religioso e cultural no qual se deram ‘descoberta’, ‘colonização’, e o desembarque inicial dos jesuítas no Brasil… – além dos aventureiros que vieram para cá a partir de 1500, chegaram também, em 1549, com o governador Tomé de Souza…os 1ºs religiosos da ‘Companhia de Jesus’.

A ideia da Igreja era não só combater a Reforma Protestante, mas conseguir converter outras nações ao redor do mundo ao Catolicismo – para ajudar na retomada do poder. Através da educação… buscavam a conversão dos indígenas à fé católica… e fundavam colégios que tiveram papéis relevantes… – na formação sacerdotal, na estruturação da educação formal e pública brasileira, no ensino das artes, literatura, ciência, religião…       na difusão da ideologia dominante… – e também… – nos rumos da ‘filosofia no Brasil’.

Note-se então, que a Filosofia aqui não começou como uma forma de livre pensamento – pelo contrário…atrelada à fé católica, o ensino jesuíta era feito aos moldes da “escolástica tomista”, com o básico objetivo de converter os nativos daqui ao catolicismo. (texto base)

ref.pombalina

As “Reformas Pombalinas”

As chamadas “reformas pombalinas”…ocorridas em Portugal (1750-1777), por extensão, afetaram também o Brasil  –  culminando na expulsão dos Jesuítas, e na tentativa de instituir nova visão de mundo mais “atual” (considerando que na época, a difusão na Europa do Iluminismo” … estava deixando Portugal para trás). Desse modo, outra perspectiva Filosófica foi inserida à colônia — já dissociada do “tomismo aristotélico propagado pela Igreja Católica, embora não o substituindo totalmente … o que gerou um período turbulento para o Brasil.

Durante a segunda metade do século XVIII, a ‘Coroa Portuguesa’ sofreu a influência dos “princípios iluministas”…com a chegada de Sebastião José de Carvalho ao ministério do governo de Dom José I. Mais conhecido como Marquês de Pombal, se preocupou em modernizar a administração pública de seu país lusitano, e ampliar ao máximo os lucros provenientes da exploração colonial… — principalmente em relação à ‘colônia brasileira’.

Este objetivo encontrava obstáculos nos Jesuítas, que ao catequizar os índios na colônia (logo conhecida como Brasil)… – eram profundamente contrários ao objetivo do governo português em usar a mão de obra indígena, com base na falta de escravos, que os colonos daqui, a princípio sofriam…Nessa “queda de braço”, os Jesuítas chegaram até a apoiar os índios contra os colonos, estabelecendo-se então um conflito… – que só foi resolvido…ao serem removidos os Jesuítas da equação.

E foi isso que o Marquês de Pombal fez…expulsou os Jesuítas da colônia,     e impôs uma reforma educacional… que abriu caminho para a Filosofia moderna… – além de muitos outros problemas…

Marquês de Pombal queria modernizar a sociedade portuguesa… e sua ideia de modernização incluía – superar a visão ‘tomista-aristotélica’ da Igreja Católica, para implantar aí… as ideias dos novos pensadores – que colocavam a “razão” como o ‘princípio básico’ a ser seguido.

Em outras palavras, a visão iluminista era a visão do progresso — a visão que garantiria uma evolução econômica, e riquezas sem igual à “Coroa Lusitana” (ou ao menos assim Pombal pensava).

A mudança se consolidou no governo, e posteriormente na sociedade, com a instituição de uma reforma educacional mais voltada para uma visão “científico-naturalista”…Isso se fez com a reforma na ‘Universidade de Coimbra’, que incluiu o ensino das “ciências naturais”. Nessa nova visão de progresso, os jesuítas eram um obstáculo – e por isso foram expulsos por Pombal… – o que teve reflexos diretos na colônia Brasil…

As universidades e escolas, predominantemente religiosas, foram fechadas quase que imediatamente, sendo criadas no lugar delas as ‘aulas-régias(aulas de disciplinas isoladas)… – e, por consequência… ‘universidades‘ — que… normalmente… — tinham o ensino de… “Filosofia“… como base.

Porém, ao contrário do que se poderia imaginar, o “ideal iluminista” não se sobrepôs, nem substituiu a visão da Igreja Católica, pois a religião continuou tendo bastante influência na sociedade Portuguesa. – Como consequência…a Filosofia trazida ao Brasil após a expulsão dos Jesuítas não foi uma filosofia “puramente iluminista”, e sim uma mescla com os ideais católicos… – uma vez que, apesar da ausência dos Jesuítas no ensino…e de uma pedagogia mais voltada às ciências naturais, a educação portuguesa (e portanto … a brasileira), ainda era profundamente influenciada pela Igreja…que não deixou de exercer o poder dentro do governo Português… – inclusive nomeando “mestres”… – para ministrar as “aulas-régias”.

A Filosofia no Brasil deste período se tornou sinônimo de ciência, onde as ciências naturais acabaram por constituir a base da formação acadêmica, com o objetivo de transformar sacerdotes…em “agentes da modernização”.

A Filosofia então, deixa de ter um caráter puramente abstrato, metafísico e moral, para assumir como princípio a atuação prática…Mas é importante ressaltar que as ‘reformas pombalinas’… resultando numa completa destruição do modelo de ensino Jesuíta (que, apesar de catequizador – como ‘metodologia’… – era altamente eficiente) trazem como consequência à colônia… – um “ensino fragmentado“…carente de um método definido.

Dessa forma… – diferente do resto da Europa…a Filosofia no Brasil acabou se tornando “bipolar” – por um lado, ainda tinha muita influência da fé religiosa…e por outro, tinha nas ciências naturais a esperança de um futuro mais brilhante. Essa bipolaridade, criou raízes profundas em nossa sociedade, com ecos no sistema educacional brasileiro até os dias de hoje.

Silvestre Pinheiro Ferreira, filósofo e político português, que acompanhou a família real na vinda ao Brasil, foi quem introduziu o empirismo no país…inaugurando um movimento de reação “antiescolástica”, reinterpretando Aristóteles com base no empirismo. Mas, mesmo com a introdução do ‘Iluminismo’, faltava ao pensamento filosófico brasileiro aquela que é a base do ideal filosófico… – o pensamento independente e “sem amarras”… – Algo que só começaria a acontecer com a chegada do “Positivismo” ao país. (texto base)

O Positivismo chega ao Brasil                                                                                               A influência do positivismo no Brasil consolida a estruturação da 1ª corrente filosófica brasileira, numa época em que o país lutava para, mantendo suas tradições, se alinhar ao espírito da época – na possibilidade de consolidar um pensamento realmente livre”.

auguste-comteO século XIX trouxe para o Brasil…o ‘Positivismo’  —  visão elaborada por Augusto Comte. O mais interessante dessa visão…é considerar as ciências naturais e a razão  —  não como uma força que leva a sociedade adiante, e sim…”instrumento” para a mudança social.

Comte acreditava que a ciência só tinha validade, como uma forma ‘holística’, com suas possibilidades estendidas para a construção de         uma sociedade melhor… (não só economicamente mais avançada)

Como consequência, para o pensamento brasileiro… pela 1ª vez, podíamos enxergar uma filosofia que não fosse fundamentado em um “conhecimento acabado”…para ser repetido pelas próximas gerações… Nem a Filosofia Jesuíta (metafísica e abstrata) nem a Filosofia (tecnicista) da ‘Reforma Pombalina’ proporcionavam um ‘pensamento independente’, ou uma visão de mudança social… – Com o “positivismo”, os pensadores brasileiros viram a oportunidade de se livrar do ‘ensino eclesiástico’… e serem donos de suas próprias ideias.

Benjamin Constant.jpg

O professor de matemática, e positivista Benjamin Constant achava que o ensino primário deveria  –  mais do que formar para as ‘escolas superiores’, também ser um preparador; com isso, decretou uma reforma… – que consistia na gratuidade, liberdade e laicidade do ensino. Mas, no fim das contas a reforma fracassou, e só se adicionou o ensino científico ás disciplinas tradicionais…mantendo-se a ‘bipolaridade’.

O Ecletismo Espiritualista

Mas, não era só de Positivismo que vivia a filosofia brasileira da época. A mescla que já ocorria entre uma filosofia metafísica, e aquela com viés iluminista, acabou dividindo a filosofia brasileira em 2 correntes principais…uma “Positivista”, e outra “Espiritualista”.

O “ecletismo espiritualista” foi a 1ª corrente filosófica rigorosamente estruturada do país. O processo de formação da ‘corrente eclética’ abrange aproximadamente o período entre 1833 a 1848. Esta corrente, fundada por Salustiano Pedrosa e Gonçalves de Magalhães –     a partir do ecletismo francês, visava superar a dicotomia “religião/ciência” da época, por meio de uma convergência entre as correntes do ‘naturalismo‘, e do ‘espiritualismo‘.

O objetivo básico dos pensadores era conciliar o que consideravam verdadeiro em todos os sistemas… — tomados como manifestações     parciais de uma verdade única e ampla em que tudo o que não era contraditório entre si, era válido.

Os principais temas desta corrente filosófica eram consciência e liberdade… assuntos deixados de lado pelos empiristas durante o século XIX. A filosofia de Victor Cousin, que inspirou a fundação dessa ‘filosofia’… – foi quase sempre combatida como superficial em outros países, mas no Brasil e em Cuba foi recebida com grande entusiasmo. (texto base)

A Filosofia brasileira no século XX

A partir do século XX, com o advento da República… transformações profundas criam um novo país… – o que leva, mais uma vez… a ‘Filosofia brasileira’ a se transformar…

Com a ‘queda do império’… e com a instauração da República…em 1889, a busca por uma sociedade racional, tornou-se ‘meta prioritária’ da ‘elite intelectual’ no Brasil. O surgimento de novos centros urbanos… – polos industriais… traz um forte processo de desarmonia campo/cidade… E a Filosofia prossegue…de uma forma diferente de seus primórdios…mas, ainda com muitos vícios…

No ano de 1908 … — foi fundada a “Faculdade de Filosofia e Letras de São Bento” – com uma ‘orientação’ puramente “neotomista“. Nesse período também apareceram novos livros de ensino da filosofia, quase todos com orientação católica… A partir de 1914, com a 1ª Grande Guerra, acentuou-se um inédito sentimento patriótico. É nesse momento que outras modalidades do pensamento europeu representado no Brasil entram a concorrer mais seriamente com   a até então relevante Filosofia de Augusto Comte.

Mas é a Sociologia que, aos poucos, toma conta do meio cultural. Começam a surgir obras com preocupações sociológicas. – O Brasil se descobre como um país cuja inteligência funciona melhor…resolvendo problemas práticos.

Outra contribuição importante foi a formulação do método culturalista na abordagem dos autores, ou seja, antes de identificá-los como membros de uma determinada corrente, era necessário saber qual a problemática que os preocupava… – a fim de construir a trilha seguida por seu pensamento. Isso permitiu ao pensamento brasileiro compreender-se a si mesmo, superando o vício da “Filosofia Apologética”, que apenas promovia o pensamento de outros filósofos, sem produzir o próprio conhecimento.

Estado+Novo+e+as+Leis+orgânicas+do+ensino

A partir do ano de 1930, houve mais 2 reformas que mudaram a educação do Ensino Médio brasileiro. A primeira se deu em 1931…e determinava que a educação visasse não apenas à matrícula ao ‘nível superior’… mas também à formação para todos os setores profissionais.

A 2ª reforma… que aconteceu em 1942…foi a Lei Orgânica do Ensino Secundário, que dividiu o ensino em 2 ciclos – o ‘ginásio‘… que era cursado em 4 anos e o ‘colegial‘, em 3. Ainda o colegial subdividia-se em científico e clássico. O científico visava ao ensino das ciências — já o clássico, previa uma carga horária de 4 horas semanais para a Filosofia.

No ano de 1961, um marco de grande valia foi a edição da  Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, resultado de inúmeros debates e lutas ideológicas entre políticos e educadores da época. – A Filosofia foi sugerida como disciplina complementar, perdendo assim, a sua obrigatoriedade no sistema federal de ensino.

A Ditadura Militar: A época perdida da Filosofia no Brasil

ditaduraNo ano de 1964…os militares tomaram o poder para prevenir a (suposta) ameaça comunista, e o que era para ser um intervenção – acabou se consolidando em uma ditadura … que, por não combinar com pensamento livre fez com que a base da Filosofia fosse banida dos currículos… tornando-se inicialmente facultativa. Algumas disciplinas de ‘ciências humanas’… — também sofreram restrições. – A educação assim, se voltava ao serviço dos ‘interesses econômicos’.

A expansão econômica, impulsionada pela chegada do capital estrangeiro, bem como a proteção do ‘governo militar’ contribuíram para a extinção da filosofia do currículo das escolas. A educação acabou exercendo um papel ‘ideológico‘… – pois foram impostos valores culturais estrangeiros…como modelos a serem seguidos na educação brasileira.     O modelo educacional era totalmente tecnicista e burocrático.

O intuito do governo, era de formar pessoas que executassem “automaticamente” ideias de fora, e não pessoas conscientes e críticas. A educação nesse momento, passou a ser tratada como uma questão do desenvolvimento do país e de segurança nacional. A Filosofia foi aos poucos desaparecendo, considerada ‘desnecessária’ às novas diretrizes do sistema. Quando então, em 1968, o regime militar tornou-se mais rígido, muitos professores foram cassados e presenciaram-se frequentes perseguições a associações…instituições – e inúmeras outras arbitrariedades contra estudantes e professores de Filosofia. Em 1971, a Filosofia é expulsa por completo dos currículos.

Lei+de+Diretrizes+e+Bases+(1971)

A reforma de 1971 conseguiu conduzir o ensino público de ‘nível médio’ – a uma profunda crise de identidade… – que se prolonga até hoje, pouco profissionaliza, não prepara ao ingresso na universidade, e não possibilita uma ‘formação humana e social’ integrada ao aluno…Pela ‘Lei de Diretrizes e Bases’…imposta por decreto, o ensino de “Filosofia” ficou ‘facultativo’, sendo substituído por meras doutrinas… — como… — “Moral e cívica”… e “OSPB”.

Assim, a Filosofia rejeitava à formação do espírito crítico, assumindo o papel de geradora de ‘status social’ de ideias pré-fabricadas, com uma função meramente ideológica… – Sua condição política constituía-se em acrítica e ‘ornamental’, com uma teoria muito longe da prática, repetindo doutrinas obscuras. – Esta ‘fase perdida’ da Filosofia no Brasil, duraria até o fim do ‘regime militar’… e a Filosofia só voltaria a ter sua inclusão recomendada nos currículos em 1986, após o retorno do governo democrático. (texto base)

cara-da-coruja-b7b36

Um novo Brasil começa do Zero…

Com a abertura política (reflexo da anistia) no Brasil…tudo o que se passou (durante e antes do regime militar) ficou para trás… e foi aí que o país recomeçou…

Dentro dessa ‘perspectiva‘, podemos dizer que o Brasil hoje, ainda está aprendendo a caminhar com as próprias pernas. Apenas após a ditadura muitos filósofos modernos   e contemporâneos puderam chegar ao Brasil – influenciando assim, de uma forma ou de outra, aspectos da filosofia no país.

O advento de tecnologias como computadores, internet, e redes sociais, entre outras, muito têm contribuído para mudar a ‘cara’ do Brasil. E aí a produção filosófica neste     novo cenário se destaca… – por ser mais do que continuação do que antes havia sido interrompido – ela surge com características novas … se mesclando às disciplinas de ciências humanas, se envolvendo no contexto social e político, iniciando, aos poucos,           a proposição de uma ‘filosofia intelectual’ – sem ser demasiado abstrata … e popular,           sem ser reducionista. 

A Cultura Filosófica atual no Brasil

A cultura filosófica brasileira, assim como a cultura do país como um todo, está bastante diversificada… – inserindo-se aí alguns pensadores com resistência à tradição metafísica clássica, na perspectiva de compreender a realidade… dos quais destacam-se pensadores com expressões teóricas ‘neotomistas‘… Outro grupo de significativa expressão seriam os filósofos ‘analíticos‘, que buscam a compreensão da realidade além do positivismo.

Numa 3ª vertente estão os autores de natureza ‘epistemológica‘, que se ocupam em discutir a própria especificidade do conhecimento científico…não só em seus aspectos formais mas também em suas condições objetivas. Nesta vertente situam-se Leônidas Hegenberg (“neopositivista”)… Miltom Vargas, Oswaldo Porchat, Luís Alberto Peluso, Michel Ghins, Zeliko Loparic, para só citar alguns.

A vertente “transpositivista” reconhece a autonomia e a relevância da ciência…sem no entanto, isolá-la das outras atividades humanas. Nesse contexto, a filosofia da ciência não pode ater-se apenas às “condições lógico-formais” do conhecimento – em virtude da sua inserção histórico-social na própria ciência, implica também “condições axiológicas”. É a linha do “racionalismo científico” de Gaston Bachelard, Thomas Kuhn… e Piaget.

Entre pensadores brasileiros cujas atividades vão por esse viés estão       Hilton Japiassu, Constança Marcondes César…Marly Bulcão Brito…   Elyana Barbosa, John Pessoa Mendonça…e Luis Carlos Bombassaro.

Padre_vaz

Henrique Cláudio de Lima Vaz

Outra importante vertente… que, por aqui, abrange grande número de pensadores é a ‘neo-humanista’ que tem em Cláudio de Lima Vaz seu representante maior… — Ele atribui a ‘tarefa antropológica’ como papel filosófico fundamental, e transita por toda tradição filosófica… – desenvolvendo uma nova visão da ‘existência humana’…no seu contexto histórico real, com grande ênfase na ‘antropologia’… – e ‘direitos humanos’.

Para este filósofo… — é impossível pensar a problemática dos direitos humanos sem se referir à filosofia que reconhece esses direitos do homem dentro da sociedade política.

Outros importantes pensadores brasileiros… do existencialismo neoliberal ao marxismo, são José Guilherme Merquior, Luiz Felipe Pondé, Mangabeira Unger, Sérgio P. Rouanet, Bento Prado Júnior, Paulo Freire…Leandro Konder…Marilena Chauí…José A. Giannotti, Carlos Nelson Coutinho, Aluísio Ruedell… e Alino Lorenzon. Além desses, recentemente criou-se um grupo de pesquisadores em torno de uma reflexão ética a partir da “filosofia dialógica” de Martin Buber e Emmanuel Levinassão eles… – Ricardo T. de Souza, Luiz Carlos Susin, Pergentino Pivatto, e Antonio Sidekum.

diálogo.jpgNão esquecendo também – do grupo de pensadores ligados à fenomenologia, com um nº significativo de pensadores, se desdobrando em várias correntes: Uma delas se inspira em Merleau-Ponty…e outra, sob a grande influência ‘fenomenológica existencial’ de Heidegger…é representada por Gerd Bornheim, Ernildo Stein… Dulce Critelli… e…Emanuel C. Leão.

Um outro grupo de filósofos… – de uma corrente chamada ‘arqueogenealogia‘…tem como autor fundamental Rubem Alves… – Nesse grupo estão concentrados pensadores com influências epistemológicas de Foucault…e referencias axiológicas de Nietzsche.

Por fim – mas não menos importante, existe o grupo de Leonardo Boff, que criou o IFIL, Instituto de Filosofia da Libertação, ocupando-se com os estudos da filosofia na ‘América Latina’, incluindo as temáticas da… “mitologia indígena”…cultura ‘afro-latino-americana’, ética, cidadania, e “multiculturalismo”. – Ainda além de todas essas correntes citadas… é importante também destacar o grande trabalho de divulgação via internet dos abnegados pensadores…Viviane Mosé, Márcia Tiburi, Mario Cortella, e Leandro Karnal.  (texto base) ******************************(texto complementar)*********************************

A busca por uma FILOSOFIA BRASILEIRA (Hugo Allan Matos)                         Falar de uma filosofia brasileira é pensar numa filosofia autêntica, voltada para a vida’.cobrasAntes de abordar o tema filosofia brasileira… penso ser primordial dizer o que penso ser a filosofia. – Filosofia, ao meu ver é uma forma de vida, de ‘existência’…que tem por meio o conhecimento (teórico), e finalidade…a prática cotidiana. Ou seja, filosofia é um modo de existência que tem por mediação o conhecimento histórico atual, teórico e prático, com o único fim de transformar a realidade; visando a reprodução da vida, e denúncia da morte.

Sendo viver a vida, a finalidade última de todo ser…’O Ser humano é ser para a existência… – Isso pode parecer óbvio… mas tratar do óbvio, parece ser uma das funções da filosofia… – Todavia, a filosofia é universal, indo do particular ao geral.         E, se o particular é em âmbito local – sempre partindo da ‘experiência concreta’ do filósofo… o universal último da filosofia tem como fim a vida, em oposição à morte.

Dada a definição de filosofia como meio de transformação social…historicamente… não se conhece um só filósofo ileso em seu pensar, que não tenha sofrido criticas, perseguições, e muitas vezes vitimado por sua própria filosofia… Quanto mais fora do ‘sistema vigente’…e contraditórias suas afirmações … maior parece ser sua “recompensa filosófica”... Sócrates bebeu cicuta, Cristo foi crucificado, muitos medievais morreram pela ‘Inquisição’…alguns modernos com privações sociais/mentais — e ainda hoje a liberdade de pensar é perigosa.

E o que faziam os clássicos Sócrates, Platão, Aristóteles e todos os que vieram antes deles, inclusive os egípcios, mesopotâmios, passando pelo mundo medieval e modernidade? E o que tem feito a “filosofia autêntica”… se não utilizar o conhecimento ‘teórico-prático’ para transformar para melhor a sociedade? Melhor qualidade de vida, nas relações individuais, melhor interação como sujeitos…de si, entre si…compartilhando a natureza e a sociedade.

Penso que uma filosofia autenticamente brasileira – deve ser antes de tudo ética… dando conta de dois momentos…negativo e positivo. Negativo, enquanto negação da identidade eurocêntrica… – imposta a nós como uma… “assimilada filosofia brasileira pré-histórica”. E positiva… enquanto propositora de caminhos que reproduzam, em diversas dimensões, uma melhora da vida dos brasileiros. Desta forma, o diálogo com a tradição eurocêntrica, com séculos a frente, de conhecimento teórico-prático — será mais positivo que negativo.

Contudo…para o momento positivo da filosofia brasileira, esta pré-história pouco têm a contribuir…pois se a Europa se constituiu enquanto ‘Opressor’, a partir da negação do ‘Oprimido’, nós nos constituímos sendo este próprio oprimido, aniquilado por eles.

Portanto…agora que estamos conseguindo, ao menos gritar que somos tanto quanto eles, não podemos ignorar nossa constituição e “querer dar o troco”, simplesmente ignorando-os; pois repetiríamos o erro ontológico que eles cometeram. Ao contrário, podemos dizer-lhes…vocês erraram, e nós poderemos errar em outras coisas, mas não nisso. Permitindo assim, a “alteridade” em nossa filosofia… — Nesse sentido… acredito que o diálogo com a tradição filosófica eurocêntrica de forma ética, seria reconhecer os avanços positivos que houveram, e tentar avançar a partir deles na resolução de nossos problemas. (texto base)

Publicado em filosofia | Marcado com | 1 Comentário