Os Infinitos Jogos de Linguagem de Wittgenstein

‘Noite…Um silvo no ar…Ninguém na estação…E o trem…Passa sem parar.’  (Guilherme de Almeida)

Ludwig Wittgenstein  (1889-1951)     foi um dos filósofos mais influentes do século 20, e principal responsável pela chamada… — virada linguística da filosofia‘… movimento que colocou a própria…”linguagem“… no centro da “reflexão filosófica” … deixando de ser apenas…um meio para nomear coisas,    ou transmitir pensamentos.

Em Wittgenstein, como em Sócrates, vemos um filósofo que procura viver coerentemente com suas crenças filosóficas (ele recusou a fortuna de sua família, e trabalhou em funções humildes, como ajudante de jardineiro num mosteiro e porteiro num hospital). – Em sua trajetória intelectual…Wittgenstein foi capaz de realizar profunda revisão em sua própria teoria, a tal ponto…que muitos estudiosos de sua obra filosófica a dividem em 2 períodos: o “1º Wittgenstein”… do seuTractatus Logico-Philosophicus’, publicado em 1921; e  o “2º Wittgenstein”… da obra ‘Investigações Filosóficas’ – publicada postumamente.

Embora se tratem de escolas filosóficas diferentes, a ‘linguagem‘ permanece o tema principal de sua reflexão… unificando sua obra.

Tractatus Logico-Philosophicus                                                                                        As coisas… – por si só… não têm sentido… – só                                                                     ganham significado ao se relacionarem entre si.”

No  “Tractatus Logico-Philosophicus” — um conjunto de aforismos e corolários, Wittgenstein tenta romper com a visão tradicional da filosofia…que vê o mundo                   como um mero agregado de coisas… pensadas de modo independente umas das                 outras. Tal visão não é incorreta…apenas incapaz de explicar qual relação existe             entre elas. – Da mesma forma…como não conseguimos pensar fora do espaço e              tempo… também não podemos pensar em nenhum objeto fora da possibilidade                  de sua ligação com outros.

Para que algo possa ter significado…é preciso que esteja dentro de uma relação com outros objetos, em um determinado ‘estado de coisas’. E estar ligado a um estado de    coisas…é a condição para que um objeto possa aparecer, e assim…ser pensado. Com  palavras acontece a mesma coisa… elas só adquirem significado, quando inseridas        em uma frase, pois só estas podem ser consideradas como “verdadeiras” ou “falsas”.

Dizer – por exemplo – “cadeira“…é algo que carece de complemento para se tornar uma unidade significativa. É somente quando tenho uma frase como ‘a cadeira está na cozinha’ que posso dizer se essa proposição é verdadeira ou falsa… Porém, eu não poderia saber se uma frase é ou não verdadeira…se ela não correspondesse à estrutura (ordem das coisas) do mundo… – Mas, então… como pode a linguagem representar a estrutura do mundo?

Para Wittgenstein, essa possibilidade só existiria por uma correspondência entre mundopensamento, e linguagem.

Ou, de outra forma, entre a ‘figuração’ do mundo na linguagem… – e o mundo afigurado. – Como diz Wittgenstein:

“Na figuração, e no afigurado, deve haver algo de idêntico a fim de que um possa ser…geralmente, uma figuração do outro. E, o que a figuração deve ter em comum com a realidade para poder afigurá-la à sua maneira… — correta ou falsamente… — é a sua própria… forma de afiguração“.

Não basta portanto, que exista correspondência entre a palavra e a coisa designada, pois nas frases falsas, também se fala sobre objetos (caso contrário… – elas não seriam falsas, mas apenas absurdas). O que determina a verdade, ou falsidade… – é se a conexão entre palavras na proposição é igual à conexão entre objetos no mundo… – Logo – deve haver uma identidade entre a ‘estrutura das coisas‘, e a ‘estrutura do pensamento‘.

O que permite que a linguagem possa corresponder ao mundo, é que ambos partilham da mesma forma lógica…que é… – com efeito, a condição de possibilidade da afiguração. Mas, como Wittgenstein poderia demonstrar que pensamento, linguagem e mundo têm a mesma forma lógica?

Aqui chegamos a um ponto decisivo para a filosofia; segundo Wittgenstein – isso não pode ser demonstrado, é algo que apenas se mostra. Para demonstrar aquilo que se mostra através da linguagem e do mundo, seria preciso uma teoria que se referisse à totalidade do mundo e da linguagem. No entanto isso é impossível, pois quando falamos sobre o mundo, já estamos dentro da forma lógica, e não há como vê-la de fora. Teríamos que colocar-nos, como diziam os medievais, no ponto de vista de Deus…algo que é igualmente impossível

Para podermos representar a ‘forma lógica’ — deveríamos poder nos instalar com a ‘proposição’ fora da lógica, quer dizer, fora do mundo.         

Função da filosofia (esclarecer pensamentos)

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A filosofia não tem nada a dizer sobre investigações do … “sentido do mundo” como totalidade, já que a ‘forma lógica’ é a condição possível de toda figuração,  mas não pode ela própria ser afigurada.

“A forma lógica…não se explica… – se mostra; e o que só pode ser mostrado,  por consequência, não pode ser dito.”

Ao invés de especular sobre a totalidade do mundo… e da linguagem – a filosofia deveria ocupar-se de uma função mais modesta – qual seja…a de esclarecer a linguagem, e ajudar a formular proposições mais precisas…Assim, quando se pensar em algo metafísico como ‘ser’ ou “essência”…deve-se construir essa proposição com um significado inteligível.

Conforme Wittgenstein – “O fim da filosofia…é o esclarecimento lógico dos pensamentos, antes como que turvos e indistintos – tornando-os claros… e, precisamente delimitados”.  Todavia, não deixa de ser curioso, que o próprio Wittgenstein, para expor suas teses…teve de se valer de proposições gerais metafísicas. Ele afirmava por exemplo, que a totalidade das proposições é a linguagem’… – ‘a proposição é uma figuração da realidade’… eos limites do mundo são os limites da minha linguagem’… – Ou seja… – ele próprio, não se limitava ao que se mostra… – ao pretender falar sobre as ‘coisas’… – em sua totalidade. 

http://www.papeldeparede.etc.br/fotos/papel-de-parede_escada-2/

Assim, o seu ‘Tractatus deve ser entendido também como uma pretensão de dizer algo   metafísico, e portanto, um contrassenso. Para resolver esse problema…Wittgenstein usa a genial…’analogia da escada‘… que deve ser jogada fora logo após se subir por ela…

A filosofia é essa escada…que ele usou para descrever a estrutura lógica do mundo e da linguagem… – Assim, feito isso, sua função está praticamente encerrada, e Wittgenstein, coerentemente com seu pensamento, achou melhor mergulhar num silêncio de vários anos, a continuar a dizer mais ‘contrassensos

“Minhas proposições elucidam dessa maneira; quem me entende, acaba por reconhecê-las como ‘contrassensos’…após ter escalado através delas, por elas – para além delas.”

Uma rápida comparação entre sua ‘obra-prima’…Tractatus Logico-Philosophicus“, e sua ‘obra póstuma’…”Investigações Filosóficas“…é suficiente para perceber a radicalidade da mudança no pensamento de Wittgenstein. Embora permaneça na mesma temática…qual seja, o ‘problema da linguagem‘…o Wittgenstein das Investigações Filosóficas é profundamente crítico de si mesmo…a ponto de abandonar a forma sistemática e precisa do Tractatus, pelo que chamou de‘um álbum de anotações, e esboços de paisagens’; — às vezes… saltando rapidamente de um tema a outro… usando imagens e metáforas.

Por outro lado – há certa continuidade em seu trabalho… No Tractatus ele pretendia romper com a visão tradicional da filosofia, que dava prioridade à função designativa    da linguagem, e pouca importância às relações entre palavras… ou, entre as coisas no mundo. Nas Investigações Filosóficas ele aprofunda essa temática, criticando até, suas próprias ideias.

Partes ‘simples‘ da realidade                                                                                                A meta da ciência deve ser, buscar as mais simples explicações                                             para fatos complexos …  e desconfiar delas.”  (A. N. Whitehead) 

Para Wittgenstein, o grande problema na filosofia da linguagem tem sua origem em Platão, que interpretava todas as palavras comonomes próprios’, em que cada nome corresponde a um objeto… – Os nomes comporiam as unidades simples, das quais se formam as afigurações do mundo (sua ‘estrutura lógica’). Assim…sempre seria possível reduzir as unidades complexas de significação aos seus elementos mais simples.

Nas ‘Investigações Filosóficas‘… Wittgenstein coloca esse modelo em xeque, ao se perguntar quais são as partes simples que compõem a realidade. O que é simples…ou composto – é totalmente dependente do jogo de linguagem que se está jogando…Mas,       o que é um… ‘jogo de linguagem’?

Ludwig Wittgenstein

Wittgenstein…não nos dá uma definição, pois é justamente com essa simples ideia  de filosofia que tenta romper — a de que cada palavra… corresponde a um objeto.

A linguagem não é uma coisa morta… em que cada palavra representa algo, de uma vez por todas. – É uma atividade humana, situada na cultural… – e na história.

Os jovens, por exemplo, adoram usar ‘termos diferenciados’, que correspondem ao seu grupo – mas que, fora dele, poucos entendem… Assim… ‘radical‘ pode ser usado para designar algo que é ‘maneiro‘ ou ‘massae, um sujeito ‘legal‘ pode ser considerado ‘sangue bom‘ ou ‘jóia dependendo do lugar onde viva.

A ideia de jogos de linguagem rompe com a visão tradicional de que aprender uma língua é dar nomes aos objetos. – Imagine, que você está em um passeio turístico, e se perdeu de seu grupo. E, no lugar em que você está – a população só fala o idioma local,  que você desconhece… Como você faria para se comunicar?

Talvez tentasse se comunicar primeiro por mímica… – ou tentasse desenhar o que queria. Os nativos falariam alguma coisa, na língua deles, e você talvez repetisse, na esperança de estabelecer algum ‘laço de comunicação’. Talvez com um bocado de paciência, acabassem se entendendo, e essa história acabaria num “final feliz… (Naturalmente haveriam muito mais equívocos do que acertos… – isso porque… mesmo gestos… que para nós são banais, como acenar a cabeça… – podem significar coisas muito diferentes… – em outra cultura.)

É claro que designar ‘objetos’ é uma parte importante da linguagem – mas, esta não se reduz a isso. A criança ao aprender a falar…por exemplo, ainda é incapaz de entender elucidações indicativas (mímica, olhares) justamente por desconhecer o significado daquela palavra…que queremos representar.

Linguagem e formas de vida                                                                                               “Também podemos conceber que todo processo do uso de palavras seja um daqueles jogos por meio dos quais as crianças aprendem a sua língua natal. — A estes jogos quero chamar ‘jogos de linguagem‘… e falarei – por vezes, de uma linguagem primitiva… – como tal”mago de id

Como ilustra Wittgenstein, quando mostramos um objeto para uma criança e dizemos: ‘este é o rei!’, essa elucidação só passa a fazer sentido enquanto denominação de uma peça de xadrez, se ela já sabe que é uma ‘figura do jogo’. O que pressupõe já ter jogado outros jogos – ou, que tenha assistido – ‘com compreensão’, a outras pessoas jogando.

Portanto, o aprendizado de uma linguagem não pode ser visto, simplesmente, como mero aprendizado da designação de objetos isolados… Esse é somente um ato secundário, num processo em que a criança — ao mesmo tempo que aprende a língua materna, também se apropria de um determinado entendimento do mundo.  

A criança aprende junto com a linguagem, uma determinada forma de vida…Formas de vida e jogos de linguagem constituem, portanto, categorias centrais da nova imagem da ‘linguagem’… – elaborada por Wittgenstein… que está sempre ligada a uma determinada ‘forma de vida‘ … contextualizada dentro da práxis comunicativa interpessoal.

Josué Cândido da Silva, professor de filosofia da Universidade Santa Cruz – Ilhéus (BA). Bibliografia: Wittgenstein,”Tractatus Logico-Philosophicus”. Tradução, Luiz Henrique Lopes dos Santos – Edusp… # ‘A figuração do mundo’ # ‘Os infinitos jogos de linguagem’  ************************************************************************************

“De acordo com Jacques Lacan, na passagem do ‘paradigma da consciência’ da Filosofia Moderna a partir de Descartes… ao ‘paradigma da linguagem’; esta não só representa a ferramenta de uma comunicação… Ela é o campo onde, numa perspectiva estruturalista, se definem sujeito e sua subjetividade, e no qual o inconsciente, antes de um fato psíquico — é uma (hiperrealidade linguística”… (Gilson Iannini – ‘Da Revolução… à Subversão’)

NeopositivismoA lógicada linguagemde Wittgenstein  “Mundo é totalidade dos fatos, não das coisas.”

A análise das… Investigações Filosóficas de Wittgenstein, pressupõe um retorno ao seu  ‘Tratado Lógico-Filosófico. Falar destas 2 obras fundamentais separadas em cerca de 20 anos – é falar de 2 fases distintas, já que é nas Investigações‘, que Wittgenstein irá refutar algumas das teorias defendidas no Tratado.

Devemos, portanto, falar da 2ª  fase de Wittgenstein – correspondente às ‘Investigações’ – como uma tentativa de demarcação e refutação da 1ª fase do ‘Tratado‘, quanto à sua influencia ‘neopositivista’ da linguagem.

No Tratado Lógico-Filosófico o ‘isomorfismo‘ entre linguagem e realidade se faz presente. Wittgenstein, juntamente com seus companheiros neopositivistas, defende a ideia de que a realidade…colocada fora do Homem…se apresenta como um referencial       à linguagem. – Tudo aquilo que é passível (e possível) de ser enunciado, encontra um ‘referente extralinguístico’ ao qual, cada coisa, em particular, passa a se referir.

Com esta teoria, no ‘Tratado‘…é defendida uma perspectiva unitária, ou um “modelo canônico de linguagem… – onde os conceitos conclusivos da análise linguística são… — ‘univocidade‘… — e… ‘unidade formal‘.

O significado das palavras nos é fornecido por sua referência‘… a linguagem teria assim, uma ‘função representativa. Nesta perspectiva, a Lógica tem um duplo papel fundamental…Por um lado, se constitui como linguagem idealizanteconfluente das linguagens naturais; e por outro… o caminho para alcançar aessência da linguagem‘.

Invest. filosóficas

A 2ª fase de Wittgenstein corresponde a um conjunto de refutações a algumas teorias … defendidas pelo autor no Tratado Lógico-Filosófico…Diz agora Wittgenstein, que o importante na linguagem não é a sua denotação… mas sim… — “a forma como a palavra é utilizada“. 

Ou seja, aquilo que atribui significado à linguagem…não é mais sua referência ‘extra linguística’ – mas sim, seu uso. 

Neste novo argumento…no qual Wittgenstein refuta o isomorfismo da linguagem, há um descolamento da  ‘linguagem-retrato‘ da realidade, abrindo-se caminho         à sua ‘visão pluralista, pragmática e metafórica‘.

Inaugura-se aí… a ideia de que a linguagem possui ‘caráter pluralista’, contrariamente ao enunciado no “Tratado Lógico-Filosófico”, de que a linguagem refletiria a generalização de um caráter abstrato e unívoco.

Através da ideia de um certo pragmatismo a linguagem é introduzida em formas e práticas de vida; ao mesmo tempo em que se afirma que a ‘linguagem idealizante’ se constitui apenas como uma… das diferentes formas de linguagem… – Ainda que, por   vezes sejamos levados a pensar numa ‘generalização’ – fica evidente a pluralidade de    jogos linguísticos, se afirmando como circunstanciais – ou, adaptados aos diferentes contextos implicados.

A imagem segundo a qual nossa linguagem seria como uma “caixa de ferramentas”…em que vários utensílios desempenhariam funções diversas, denota bem como Wittgenstein defende seu argumento relativamente à grande diversidade do uso das palavras. Assiste-  se então ao abandono da generalização, e unificação da linguagem – bem exemplificado, através da… metáfora da cidade — assim descrita… pelo próprio Wittgenstein:

”Nossa linguagem pode ser vista… assim como uma ‘cidade antiga’ — labirinto de travessas e largos, em reconstruções de diversas épocas… tudo isto bem circundado por uma multiplicidade de bairros vizinhos, com ruas e casas…uniformizadas.”

Com estes argumentos, Wittgenstein dá sua primeira estocada no ‘Tratado Lógico’, essa desconstrução, contudo vai ainda mais longe… – O ‘papel’ da ‘Lógica‘…como ‘supralinguagem‘, colocada hierarquicamente…no topo, em relação às demais… – também vai ser destruído, junto à “visão unívoca” da linguagem.

Enquanto que… no “Tratado Lógico-Filosófico” – a Lógica é entendida duplamente — como a ‘linguagem ideal‘…(que alberga as linguagens naturais), e também, como forma de tradução da essência linguística;   nas “Investigações  Filosóficas” ela é substituída pela ‘Gramática‘.

“Análise gramatical” (a nova trajetória da linguagem)                                                      

A linguagem possui domínios e subdomínios – não é um todo uniforme. Fazer a gramática de seus termos é a tradução mais pragmática, que se segue ao fazer lógica. – Considerando uma mudança no teor da “análise da linguagem“… – passando ela…a estar diretamente relacionada ao uso concreto, particularizante…e não mais em termos unívocos idealizados, sua trajetória se preocupa agora… em estudar as regras do uso, e costumes de seus termos.

Com a defesa do argumento da linguagem enquanto usoe, por consequência, a defesa de diferentes ‘jogos de linguagem a lógica é transportada – de um lugar primordial, para uma parte dos muitos jogos de linguagem. Ela adquire assim, o caráter de pertencer  a um todo (sendo ela, apenas uma parte desse todo). – A lógica passa a ser uma…entre outras – forma de estudar a linguagem

Anulada a função única da linguagem, focalizada na representação – tarefa principal da Lógica… a Gramática tem como nova função, ir atrás dos vários usos da linguagem. Para isso se utiliza de uma… “investigação gramatical — através de certas analogias entre ‘formas de expressão‘… Afasta-se assim, uma possível incompreensão pelo uso da palavra em outros domínios da linguagem – substituindo uma forma de expressão por outra… em um processo denominado ‘análise da forma de expressão‘… – Associado a esse papel gramatical, para Wittgenstein, encontra-se a tarefa terapêutico da Filosofia de apontar os ‘problemas linguísticos‘, os quais se consideram a base dos ‘problemas filosóficos‘.

A ingerência de áreas científicas noutras áreas – ao nível do conteúdo do discurso… constitui-se — segundo Wittgenstein — na principal causa dos problemas filosóficos… Portanto, é função da filosofia verificar os vários  aspectos da linguagem … e, por consequência — do próprio pensamento.

Torres Garcia -'Arte Universal'

Torres Garcia -‘Arte Universal’

Teoria dos jogos de linguagem

Finalmente, uma das mudanças também verificada através da passagem do ‘Tratado Lógico-Filosófico  para as…“Investigações Filosóficas”…é a refutação   da linguagem privada’, ou seja, a ideia de uma linguagem solipsista válida, acaba, finalmente, por desaparecer com a ‘teoria dos jogos de linguagem.

Nas Investigações Filosóficas, a defesa de uma inacessibilidade de linguagem é impraticável, porque seguir regras implica…diretamente, uma prática…ou uso — e…  ‘é essa práxis que gera o significado.

Assim Wittgenstein rejeita o ‘solipsismo‘, uma vez que todas expressões psicológicas, em primeira pessoa… não parecem exprimir conteúdo cognitivo, colocando em causa o ‘privilégio epistêmico do sujeito’, pois é ilegítimo supor…em uma teoria linguística do pensar … um ‘Eu absoluto’ que se conheça ‘a priori’ perfeitamente. 

Jaime Soares (Professor de Filosofia, Psicologia e Sociologia)                                                Licenciado da “Faculdade de Letras” … do Porto. (texto base)    **********************************************************

A Linguagem e seus ‘limites’

Wittgenstein é um ‘pensador incontornável’  do século XX. Em vida, editou apenas 1 obra, “Tratado Lógico-Filosófico”… com umas escassas dezenas de páginas, mas o bastante para produzir uma “revolução” na filosofia… – Numa primeira leitura desta obra pode-se dizer que pretenda acabar com a ética… a filosofia… a religião… – e…tudo aquilo que está desprovido de sentido. – Numa leitura mais atenta porém, vemos um pensador tentando preservar o “mistério da vida“… – e o que as palavras se revelam incapazes de descrever.

Sua filosofia se divide em 2 grandes períodos:

I – Período anterior a 1929, que corresponde ao ‘Tratado Lógico-Filosófico’, assim como à enorme influência que exerce sobre o Círculo de Viena (a que nunca pertenceu),     e sobre o neopositivismo;

II – Período posterior a 1930, que corresponde às ‘Investigações Filosóficas’, destacando-se também, a sua grande influência sobre a filosofia analítica em geral,             e as escolas de Cambridge e Oxford, em particular.

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Wittgenstein, Bertrand Russell… e… outros filósofos de sua época, estavam convencidos que — boa parte dos problemas da filosofia se devia a um uso imperfeito da linguagem corrente… — o que… levava a frequentes confusões…  Era preciso – portanto… que se estabelecessem certos limites – ao uso da linguagem; assinalando assim…aquilo que fizesse sentido de se dizer, bem como o que já não havia sentido em afirmar… – Nesse sentido… – os temas seriam os seguintes:

a) A função da linguagem é descrever a realidade.                                                      (porque, a rigor… nada pode ser dado fora da linguagem) 

Os limites da minha linguagem significam os limites do mundo.

b) A estrutura lógica da linguagem. (…A Lógica determina a                                             estrutura da linguagem – é um espelho…cuja imagem é o mundo)

A lógica não é uma doutrina… A Lógica é transcendental.

O conjunto de todos os estados de coisas possíveis forma o espaço lógico da linguagem. Nada pode ser descrito fora deste espaço lógico. A lógica é o limite do mundo. Não podemos pensar nada ilógico. No ‘espaço lógico’ estão contidas todas as possibilidades   de existência, e de não existência…em suma, tudo aquilo que pode ser dito com sentido. 

c) Existe uma isomorfismo entre a linguagem e realidade.                                         Estudando os elementos que compõem a linguagem lógica perfeita…sabemos quais são aqueles que compõem a realidade, e vice-versa. – A linguagem é o que se reflete na sua natureza. Por esta razão, a realidade só pode ser compreendida através da linguagem,   e o conhecimento consiste na análise da linguagem.  

d) A ‘linguagem com sentido’ é um conjunto de proposições que descrevem, ou figuram, um estado de coisas possível. O sentido vem do fato de descreverem algo que acontece na realidade… e, em última instância – é susceptível de verificação; ideia que irá ser explorada pelo Círculo de Viena.

e) A linguagem é a totalidade das proposições. ‘Proposição’ é a linguagem expressa em sons… constituindo uma figura da realidade — um modelo de uma situação possível. A proposição…expressão de um pensamento, tem algo em comum com o que é descrito: sua  forma lógica. A cada elemento da proposição corresponde um objeto da realidade.

Se algo ocorre na proposição, algo deve ocorrer no mundo;                            no caso do enunciado ser uma ‘figura’ correta da realidade.

f) Pensamento e linguagem são uma mesma coisa.

g) O pensamento é constituído de ‘proposições complexas,                                       ligando… entre… si…  ‘nomes‘… – (signos simples dos objetos).

h) Limites da linguagemdizer e mostrar (Não é possível “representar” as semelhanças existentes entre um retrato e o objeto retratado; também não é possível expressar…mediante enunciados… a forma lógica comum à linguagem e à realidade.       – Esta, apenas se mostra, não se diz.)

i) As expressões que não descrevem nenhum estado de coisas possívelnão têm sentido, pois não figuram nada… (Entre este tipo de expressões sem sentido — isto é, que nada descrevem que aconteça na realidade… encontram-se as expressões filosóficas sobre a natureza das coisas, os valores, o sentido da vida, etc… Tratam-se de expressões que transcendem o mundo…e, portanto, carecem de sentido.)

j) A filosofia nada pode dizer acerca do mundo, pois não é uma ciência.

k) A filosofia é uma atividade de análise da linguagem… – que nos pode ajudar a distinguir o que se pode, ou não dizer. A grande tarefa da filosofia consiste em clarificar o pensamento, e nada mais.   

O ‘Tratado assume, portanto, uma concepção universal do Homem…desprezando não apenas a história, mas também as diferentes culturas. – A linguagem e o pensamento a que se refere são comuns a todos os homens – independente da sua origem… ou cultura. Assim, a ‘realidade’ – tendo apenas um único significado… é universalmente partilhada por todos. – Porém, a partir de 1929…Wittgenstein abandona esta ‘matriz universal’ da linguagem, fazendo-a mais e mais dependente da cultura a que está inserida. texto base  ***********************************************************************************

A filosofia analítica de Wittgenstein 

1. O atomismo lógico e o Tractatus

Muito se tem escrito – nos últimos anos… sobre a vida e a obra de Ludwig Wittgenstein. Todavia é difícil enquadrar seu pensamento na história da filosofia, em parte devido à sua posterior iconoclastia…e – em parte, por este se revestir de reflexões que, à luz da história, podem parecer provincianas, e até mesmo desprovidas de qualquer importância filosófica.

tractatus

A princípio… – lhe pareceu possível criar uma teoria de estrutura da linguagem que mostrasse, precisamente, o que podia, e o que não podia ser dito. E era de se supor, que…entre as coisas que não podiam ser ditas… – a mais facilmente reconhecível fosse a metafísica.

‘atomismo lógico’ – primeira teoria desse tipo…foi sumariamente expresso por Wittgenstein…em seu ‘Tractatus Logico-Philosophicus‘ (1921) — obra     que pretendia responder… em definitivo, às grandes questões da filosofia.

2. Estrutura da linguagem

De acordo com o Tractatus, tudo que pode ser pensado, também pode ser dito. Os limites da linguagem são, portanto…os limites do pensamento, de modo que, uma filosofia do que pode ser dito… será uma teoria completa  –  a partir do que Kant denominou de entendimento“Todos problemas metafísicos decorrem da tentativa de se dizer o que não pode ser dito.

Wittgenstein dividiu todas as sentenças em complexas e atômicas… afirmando que, as primeiras eram construídas a partir das segundas, mediante regras de formação. Sendo as sentenças atômicas, aquelas que empregam os primitivos da linguagem, isto é, os nomes e predicados elementares que, indefiníveis, servem para distinguir, ou descrever, o que Wittgenstein chamou de fatos atômicos.

Só uma proposição completa pode ser verdadeira ou falsa e, por consequência, pode dizer-nos algo sobre o mundo. Dessa forma, o constituinte mais básico do mundo é o que corresponde à sentença atômicaEsse constituinte básico é o ‘fato atômico‘, sendo   o mundo, portanto, a totalidade de tais fatos.

Os fatos complexos correspondem às proposições complexas e, para compreender tais fatos complexos – é necessário que compreendamos a complexidade da linguagem usada para expressá-los… Geralmente — muitas coisas a que nos referimos… são construções lógicas (ou ficções)…As sentenças que as descrevem, são abreviações de sentenças mais complexas, referentes a constituintes de fatos totalmente diferentes, porém mais básicos, em que essas “construções lógicas” não ocorrem.

Assim, o Tractatus proporcionou todo um sistema de argumentação filosófica, no que se refere a que fatos são atômicos — e quais não o são…Ele pretendia enunciar, claramente, a estrutura lógica do mundo, não se preocupando com seu conteúdo real.

A lógica ocupa-se apenas, da transformação sistemática dos ‘valores de verdade’; assim, uma linguagem lógica deve ser transparente a esses valores; sendo possível, portanto, perceber toda operação, em termos de transformação da verdade em falsidade.

3. A ‘teoria figurativa’ do significado

A noção de ‘verofuncional’ confere exatidão e força à alegação de Wittgenstein, de haver uma distinção real entre sentenças atômicas, e…não-atômicas. Ela é capaz de dizer, não apenas qual é a distinção, mas – o mais importante, como somos capazes de entendê-la.

Não é difícil…para uma linguagem verofuncional, explicar de que modo a compreensão de sentenças atômicas leva à compreensão de todos os complexos infinitos que podem ser construídos a partir delas…As ‘condições de verdade’ de uma sentença complexa, formada de maneira verofuncional, podem ser extraídas imediatamente das ‘condições-de-verdade’  de suas partes. Como consequência – se compreendermos as ‘condições-de-verdade’ das partes, compreenderemos o Todo.

Além disso, Wittgenstein é capaz de proporcionar uma nova – e, aparentemente nítida  distinção entre o necessário e o contingente, o analítico e o sintético, o a priori      e o a posteriori…que se reduzem à distinção entre verdade lógica e contingência. Com efeito, para ele… essa ‘teoria da verdade necessária’ tem consequência no fato das “verdades necessárias” serem vazias… ‘nada dizem, porque nada excluem’… (São compatíveis com todo ‘estado de coisas‘.)

mafaldaO mundo é descrito pela totalidade das proposições atômicas, as quais são verdadeiras… – mas por serem atômicas…poderiam ser falsas – já que nada em sua estrutura…define   o seu “valor-verdade”. – O “espaço lógico“, define as possibilidades da existência dos fatos…As ‘sentenças atômicas verdadeiras’ descrevem o que é real…enquanto “tautologias”  refletem propriedades…do próprio espaço lógico… – Entretanto…essa avaliação da linguagem… – suscita profundos ‘problemas metafísicos’.

Inicialmente, há o problema da relação entre sentenças, e fatos atômicos. Wittgenstein chama essa relação de “figuração“… – e tal metáfora tem enganado a muitos dos que tentam comentá-la… já que a relação não pode ser descrita, apenas mostrada… De fato, sua concepção era de que se deveria mostrar o que é mais básico, caso contrário nunca poderíamos começar a descrição… – E, não está claro, exatamente, o que ele quis dizer com “mostrar”. Talvez a melhor maneira de entender essa teoria, também chamada de ‘teoria figurativa do significado’… seja...“negar que possamos usar a linguagem, para      nos situarmos entre a linguagem e o mundo”.

Não podemos avaliar, com palavras, a relação entre um fato atômico e uma proposição atômica, a não ser usando a proposição cuja verdade estamos tentando explicar. Isto é, não podemos pensar no ‘fato atômico’… – sem pensarmos na sentença que o “figura”.

Portanto…“Os limites do pensamento são os limites da linguagem”…              E Wittgenstein, então — conclui seu livro com o lacônico enunciado:              “De tudo aquilo que não se pode falar — deve-se calar!…”

4. Wittgenstein e a Análise Linguística

Tractatus possui um pouco da fascinação da primeira Crítica de Kant… ou seja, a fascinação de uma doutrina que, na medida do possível… ‘luta para descrever os limites       do inteligível, somente para, ao fazê-lo, ser compelida a transcendê-los’… Em momento algum porém, Wittgenstein reconhece a semelhança de seu pensamento com o de Kant, mas a comparação entre os dois filósofos torna-se cada vez mais inevitável, de tal modo que, alguns têm considerado a argumentação usada em “Investigações Filosóficas“, como o complemento final da (não menos famosa) Dedução Transcendentalde Kant.

positivismo-logicoNo “Tractatus“, a metafísica do atomismo lógico é exposta quase que sem referência a qualquer teoria específica do conhecimento. Desse modo — sua filosofia dá um passo na direção do positivismo lógico, pelo qual todas doutrinas “metafísicas”…”teológicas”     e “éticas” são sem sentido… – não devido a algum defeito do ‘pensamento lógico’, mas por não poderem ser verificadas.

O slogan do “positivismo”…“O significado de uma sentença é seu método de verificação” é extraído do ‘Tractatus‘ – assim como grande parte do aparato mediante o qual se buscou livrar o mundo de “entidades metafísicas” (…não em termos de uma ‘teoria genética‘ do significado… – mas, sim – fundamentado em uma… “teoria analítica da linguagem“.)

A filosofia posterior de Wittgenstein desenvolve-se a partir de uma reação à anterior, ou à determinada interpretação dela, extremamente influente… – Nela, Wittgenstein renuncia totalmente ao atomismo e seus resultados – e…ao parar de publicar, inicia uma existência hermética e nômade, que assegura, até sua morte, que sua influência seja exercida apenas, sobre os que tiveram o privilégio de conhecê-lo pessoalmente… ou, que chegaram a ver os manuscritos que ele ocasionalmente mostrou.

A seguir…apresentaremos um esboço de doutrinas expressas em ‘Investigações filosóficas’ (1953) e ‘Observações sobre Fundamentos da Matemática’ (I956), ambas obras póstumas.  Em virtude do fato de se relacionarem diretamente, com a ‘história da filosofia‘, essas doutrinas propiciarão alguma indicação… – de até que ponto sua “filosofia póstuma” tem influenciado/transformado a tradição da ‘investigação intelectual‘ iniciada por Descartes.

5. O Outro Wittgenstein

A ênfase da filosofia posterior de Wittgenstein é, decididamente, ‘antropocêntrica‘.  Embora ainda estivesse centrada em questões concernentes ao significado, e aos limites  do significante, seu ponto de partida se tornou – não…imutáveis abstrações de um ideal lógico…mas sim… esforços falíveis da comunicação – em que o “elemento humano” não seguiu a via usual da “epistemologia“… mas um caminho totalmente ‘surpreendente’.

Wittgenstein o introduz…a priori…por meio de reflexões sobre a natureza da mente humana… e, sobre o comportamento social, que confere à essa mente, sua estrutura característica. – O que é ‘dado’…não são os “dados sensoriais” dos positivistas, mas  ‘formas de vida‘ da antropologia kantiana…Tem início assim, suas investigações        sobre a natureza da linguagem, aceitando a tese do caráter público do sentido,        que já levara Gottlob Frege a rejeitar teorias empiristas tradicionais do ‘significado’.    Tudo isso resultou numa nova avaliação da natureza da linguagem…bem como, em        uma revolucionária… filosofia da mente‘.

Os problemas metafísicos, que Kant, Hegel e Schopenhauer tentaram em vão resolver – são reescritos como…’dificuldades na interpretação da consciência’. Assim entendidos, repentinamente, se afiguraram ‘solúveis’.

A ‘perspectiva social’, por sua vez, levou Wittgenstein a se afastar da ênfase no conceito da verdade, ou a considerar que tal ênfase reflete uma exigência maior – a de que a ‘escolha humana’ acabe causando um “padrão de correçãoTal padrão é um ‘artefato humano’ –produtor de práticas linguísticas. Contudo, isso não quer dizer que um indivíduo possa decidir… por si mesmo – o que é certo, e o que  é errado na arte da comunicação.

Ao contrário, o constrangimento da publicidade refreia não somente cada um de nós, mas também todos – além disso, tal constrangimento está intimamente vinculado à concepção que fazemos de nós mesmos – seres independentes, que observam o mundo…e nele agem.  Se nos opomos a verdades que nos parecem necessárias…tal se dá… apenas porque fomos nós que criamos as regras que as fazem assim.

Esse tipo de reflexão, levou Wittgenstein a uma forma muito sofisticada    de “nominalismo“… onde… “Os fatos últimos são linguagem… — formas    de vida… — que se desenvolvem a partir dela… — a tornando possível.”

6. A insustentável prioridade do ‘Eu’

Wittgenstein realiza uma transição no plano da articulação da filosofia da linguagem com a filosofia da mente, incorporando uma filosofia da ciência, a uma teoria do conhecimento. Ao realizar tal transição, tenta subverter a principal premissa de quase toda a filosofia ocidental desde Descartes, ou seja, a premissa da prioridade da 1ª pessoa.

Wittgenstein usa vários argumentos destinados a mostrar o que essa premissa realmente significa, e ao fazê-lo, tenta demonstrar sua insustentabilidade. Esses argumentos, então reunidos… proporcionam, o que pode ser descrito como uma “figuração” da consciência humana… – Tal figuração, possui alguns aspectos metafísicos, outros… epistemológicos.

Ela envolve a rejeição da ‘busca cartesiana da certeza’ – o aniquilamento da concepção de que, os eventos mentais são episódios privados, que só podem ser observados pela própria pessoa – e a recusa de todas as tentativas de compreender a mente humana, isoladamente das práticas sociais… – por meio das quais ela encontra expressão.

7. O argumento da ‘linguagem privada’

O mais famoso argumento… desenvolvido pela posição ‘wittgensteiniana’ veio a ser conhecido como… – argumento da “linguagem privada.

Objeto de recorrência das ‘Investigações Filosóficas’, esse argumento em resumo,     pode ser definido da seguinte maneira…          Há um ‘privilégio peculiar’ envolvido no ‘saber’…de nossas próprias experiências.

Em certo sentido é absurdo sugerir que tenho de (ou poderia) descobrir estar equivocado    a respeito delas, no curso normal das coisas. Isso é o que chamamos ‘ilusão da 1ª pessoa’: 

Posso ter mais certeza de meus estados mentais do que dos seus…porque os meus estados mentais, eu observo ‘diretamente’; e os seus – ‘indiretamente’.

Essa é, em suma, a ‘teoria cartesiana do espírito’ – e Wittgenstein       alega que – tanto a teoria, quanto o que ela quer explicar … são ilusões.

Suponhamos que a teoria fosse verdadeira… Wittgenstein afirma então, que não poderíamos nos referir a nossas sensações por meio de palavras inteligíveis, numa ‘linguagem pública’pois as palavras só adquirem sentido publicamente, ao serem associadas a condições acessíveis…que assegurem sua aplicação. – Tais condições determinarão… – não somente seu “sentido“… – mas também… sua “referência“.

Wittgenstein alega que, a suposição de que essa referência seja privada, no sentido de, a princípio, só poder ser observada pela própria pessoa, é incompatível com a hipótese de que o ‘sentido é público‘. Por conseguinte…se os eventos mentais são como Descartes os descreve, nenhuma palavra, em linguagem pública, poderia, realmente, referir-se a eles.

Os cartesianos, com sua verve empirista, têm sempre… intencionalmente    ou não, aceito essa conclusão como se cada um de nós descrevesse nossas sensações numa linguagem que – em virtude de seu ‘campo de referência’ ser, em princípio, inacessível aos outros…só é inteligível para quem a usa.

Wittgenstein opõe-se à possibilidade de tal linguagem privada. Tenta provar que não pode haver diferença — para quem fala essa linguagem… — entre como as coisas lhe parecem, e como elas são… e perder essa distinção significaria perder a ideia de “referência objetiva”.  Nada desempenhará a função de um algo sobre o qual nada se possa dizer… Ademais, podemos referir-nos a “sensações as quais… – não são ‘eventos mentais cartesianos’.

De fato, conheço meus próprios estados mentais sem observar meu comportamento, mas isso não se deve ao fato de estar observando algo mais… É apenas uma ilusão…suscitada pela “autoconsciência”… sobre “alguma coisa” … da qual só o ‘eu’ … possui conhecimento.

Jesus-Cristo-na-cruz-do-calvário

“O sentimento do mundo como totalidade é um sentimento místico”

8. A prioridade da 3ª pessoa

Apesar de ter rejeitado o ‘método fenomenológico’, Wittgenstein  manifestou grande simpatia para com uma postura teórica…aliada deste método… onde pensadores como Wilhelm Dilthey buscaram fundamentos em uma percepção  peculiarmente humana…na qual o mundo seria considerado…sob o aspecto do seu significado.

Como alguns fenomenologistas…tais como Merleau-Ponty e Sartre… Wittgenstein argumentou que, percebemos e compreendemos o comportamento humano de maneira diferente da qual percebemos e compreendemos o mundo natural…Isto é, explicamos o comportamento humano, apresentando razões, e não causas…Caminhamos em direção     ao nosso futuro…tomando decisões, e não fazendo predições. Compreendemos a ‘saga’      da humanidade, por objetivos, emoções e atividades, e não mediante teorias preditivas.

Boa parte da filosofia de Wittgenstein, volta-se então, para a tarefa de descrever e analisar as características do ‘entendimento humano’ – bem como…aniquilar o que ele considerou: a vulgar ilusão…de que a ciência poderia produzir uma descrição de todas essas coisas, com as quais a nossa ‘humanidade’…(existência como agentes racionais) está mesclada”.

Ele defende, não só a posição de que, o conhecimento de nossas próprias mentes, pressupõe o conhecimento da mente de outros… mas, também… como assinala             Max Scheler, que… – “a convicção que temos da existência mental dos outros…é                 anterior, e mais profunda, que nossa crença na existência da própria natureza”.

Em outras palavras, apesar de ter atacado o método e a metafísica da fenomenologia, Wittgenstein compartilha com os fenomenologistas…o sentido atávico de que há um mistério nas ‘coisas humanas’, que não será revelado pela investigação científica. Tal mistério não se dissipa na explicação — só pela atenta descrição filosófica dos dados.

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Para Wittgenstein…a diferença reside no detalhe de que não é o conteúdo da experiência imediata que é fornecido…mas sim “formas de vida” que bancam a experiência. – Desse modo, não podemos iniciar as investigações… a partir do caso da primeira pessoa, achando que temos um “paradigma de certeza“. Além disso…embora não exista distinção entre ser    e parecer… — quando contemplo minhas próprias sensações, isso se dá, porque falo uma ‘linguagem pública’…que determina essa propriedade peculiar do conhecimento da primeira pessoa.

De fato, habito um mundo objetivo em que as coisas são, ou podem ser diferentes do que parecem. Assim, de forma surpreendente, o argumento da ‘Dedução Transcendental’ de Kant acaba fundamentado. – A precondição do autoconhecimento é, afinal de contas, o conhecimento do mundo além de mim…o mundo dos outros… – e o mundo objetivo que os contém, porque tenho em comum com eles, a forma de vida, e a natureza.

P.S.  Muita coisa mudou na filosofia…desde que Wittgenstein produziu seus argumentos, e muita coisa não mudou… Entretanto – de uma coisa podemos ter certeza… A suposição ABSOLUTA na existência da primeira pessoa  —  que proporcionou um  ponto de partida para a investigação filosófica – e levou ao racionalismo de Descartes, e ao empirismo de Hume – bem como à grande parte da epistemologia e metafísica modernas… – foi enfim deslocada do centro da filosofia. (Roger Scruton/UFSC) consulta‘Ideias em Movimento’  ****************************(texto complementar)***********************************

Da “filosofia da consciência”ao “giro linguístico”                                                     “O giro linguístico foi uma mudança radical através de seu questionamento sobre se a linguagem cotidiana é suficiente para explicar o mundo e a vida real” (Lupicinio Iñiguez)giro-linguisticoVivemos atualmente, um momento em que linguagem e discurso são recursos vastamente utilizados nas investigações das ciências humanas e sociais. Porém, nem sempre foi assim. Segundo Tomás Ibañez Garcia desde o movimento filosófico inaugurado por Descartes, as principais discussões da ciência, acerca das questões psicológicas, focavam-se em modelos introspectivos… Partindo do pressuposto “penso, logo existo”… a ciência se convenceu que para conhecer o “mundo externo” devia-se perscrutar detalhadamente o “mundo interior”, ou seja, a razão era suficiente para explicar a realidade. Consolidava-se assim, no domínio da ciência, a tão conhecida dicotomia corpo/alma proposta por Platão.

Por mais de 2 séculos esta ‘filosofia da consciência’ foi o principal palco dos debates científicos. Contudo, certos efeitos metodológicos e epistemológicos influenciaram diversos questionamentos acerca de sua hegemonia.

A primeira grande ruptura foi decorrente do desenvolvimento da ‘linguística estrutural‘   de Ferdinand de Saussure – pai da linguística moderna… Seu impacto foi tão grande na ciência em geral, que além de influenciar as demais disciplinas, estimulou na década de 50, o surgimento do ‘movimento estruturalista‘. Como próprio da ciência não demorou muito para surgirem críticas ‘antiestruturalistas’.

Chomsky, criador da ‘linguística gerativa’, foi um dos principais opositores do “estruturalismo”…Suas críticas, sem embargo, estimularam ainda mais o interesse pelos estudos linguísticos.

A segunda poderosa mudança de paradigma frente ao cartesianismo – teve início com a elaboração da ‘teoria da quantificação’ (base da lógica moderna) proposta por G. Frege. Seus estudos propunham a troca dos conceitos aristotélicos de sujeito e predicado pelos conceitos de ‘argumento e função’. Nesta vertente são incluídos grandes filósofos, como Wittgenstein, Bertrand Russell, e os neopositivistas do “Círculo de Viena”.

Ibañez aponta que estas 2 rupturas provocaram drásticas alterações na forma de conceber e praticar o conhecimento…Em 1º lugar, evocou o deslocamento do estudo das ideias – de ordem introspectiva e privada, pelos estudos da linguagem, de ordem objetivada e pública. Em 2º lugar, promoveu a troca na concepção de que não mais são as ideias que captam os objetos da realidade – mas sim, que é a própria linguagem que as constrói…A constatação da ciência como ‘construção social’ se dá por um fenômeno denominado “giro linguístico”.

Mesmo tendo estas mudanças contribuído para profunda transformação, em relação à importância da linguagem para a ciência… – os chamados “filósofos de Oxford”…e, em particular, o ‘neopragmatista’ Richard Rorty, são ainda mais radicais… Suas principais críticas tiveram como alvo os projetos dos ‘neopositivistas‘, que procuravam, por meio     do método científico, construir uma linguagem “lógica” e “pura”.

As críticas ‘anti-representacionistas‘ deslegitimaram este cientificismo, ao igualarem a linguagem cotidiana como tão importante quanto a linguagem científica. A partir deste momento, a linguagem de passiva se transforma em ativa — ela não apenas representa,   ela faz. Com a centralidade da linguagem nos processos sociais passando a ganhar bem mais importância, o desenvolvimento de perspectivas construcionistas foi amplamente estimulado – tanto nas ciências humanas…quanto sociais.   (texto base)…(18/11/2009)

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Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
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Uma resposta para Os Infinitos Jogos de Linguagem de Wittgenstein

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