Breve panorama da prática filosófica no Brasil

“Em pleno século 21… países colonizados como o Brasil vêem-se diante          do dilema… em optar entre o artificialismo de uma cultura cerrada no passado…e o funcionalismo de uma cultura desvinculada da tradição”. 

Antes de mais nada – partimos do pressuposto de que não existe, em filosofia – ‘originalidade total’…os pensadores emergem… da mesma tradição filosófica ocidental pensando problemas específicos… próprios da sua época, e seu meio.  A ‘originalidade filosófica‘ … deve ser procurada aí — nas peculiares condições histórico-culturais que, influenciam a forma com que cada pensador reflete suas ideias, condicionado ele próprio por fatores subjetivos inerentes a todo ato humano… – É justamente por essa razão…que tratar sobre este tema é sempre algo problemático… – E, o 1º desses problemas que logo enfrentamos se refere ao critério do que é, ou não filosofia. Como separar o joio do trigo?

Depois, nos perguntamos se ‘originalidade‘ é o único critério válido, ou exige-se também profundidade nos temas…além de uma enorme erudição… – ou mesmo, se a… “chave da questão”… não estaria na “enunciação de um novo problema”, ou na solução definitiva, e racional de alguns daqueles “insondáveis problemas clássicos“. – Todas estas perguntas precisam ser feitas…para que a filosofia, quando do diálogo com a tradição, se ocupe dos problemas atuais…lançando, por essa maneira, as bases para um futuro mais consciente.

jorge jaimeA filosofia no Brasil

No Brasil… muitos já se lançaram a essa tarefa, e colaboraram com respostas à velha questão…“Quem somos nós?”… e assim contribuíram para uma “cultura brasileira” mais consciente, e preparada. Jorge Jaime em seu História da Filosofia no Brasil  comenta que – a rigor… a filosofia no Brasil começa já na fase colonial, com a instituição do ‘governo-geral’…em 1549… e…o desembarque da “missão jesuítica” no país… — dando início à construção dos alicerces fundamentais que viriam a moldar o desenvolvimento cultural da adolescente sociedade brasileira.

Contudo, a história da Filosofia no Brasil ainda é das mais obscuras, à espera de uma justa  sistematização. Não por acaso, em suas bases repousa a caricatura pueril do medievalismo mais retrógrado e residual… – daquele Portugal… que a partir do século XVI… até a época do Marquês de Pombal… – havia assimilado o lado mais reacionário da “Contra-Reforma” (nossa ‘herança maldita’), desprezando o que o Iluminismo renascentista tinha a oferecer.

Não por acaso…com a emancipação política do Brasil, fomos invadidos pela                      cultura modernizada francesa…sem a menor condição de assimilá-la. – Em                        terras brasileiras …expressões de alta cultura no Brasil… – como filosofia…                        tornaram-se, ao longo da história – um enredo mal digerido de influências.

A ‘fase colonial’ é marcada pelas influências da tradição filosófica e cultural portuguesa,     no esforço de civilizar uma “terra virgem e antropofágica“. Na ‘fase imperial’ a grande influência será o “positivismode Comte… – inspirador da nossa ‘Republica’… no lema “Ordem e Progresso”, como também o surgimento da escola de Recife; e a presença de pensadores do quilate de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José Bonifácio… — e outros…        Daí em diante, a partir da ‘fase republicana’ o Brasil entra na onda desenvolvimentista, absorvendo correntes… – que vão desde o marxismo… ao neoliberalismo.  (texto base)  *********************************************************************************

a 1ª missa-brasil.pngNossas origens jesuísticas

A Filosofia no Brasil não é um assunto muito falado fora dos círculos acadêmicos, e muitas vezes, nem dentro. Quando se fala em Filosofia se lembra de Sócrates, Kant, Nietzsche, Platão e Sartre; mas nunca    se fala em ‘filósofo brasileiro’.

Não creio que isso se dê por preconceito – ou por filósofos Brasileiros não exibirem trabalhos relevantes. O que acontece é que a Filosofia predominantemente, sempre          foi europeia – e, salvo os EUA – raros foram, além daqueles…os países do Ocidente        que tiveram grandes “filósofos universais”… – O que não significa que…os filósofos brasileiros, ou a história da filosofia no Brasil, esteja em um nível a ser desprezado.  Estudar Filosofia é sempre, de certa forma, estudar história, e estudar a história da filosofia no Brasil abre caminho a muitas percepções…que nos permitem entender            os rumos que o país tomou… – da época do “Descobrimento” … até os dias de hoje.

Portanto, com a Filosofia assim…tão intimamente ligada à história,              para entendermos suas origens, aqui no território brasileiro…antes              de mais nada precisamos conhecer o contexto de sua própria época.

No final do século XV…a Europa estava passando por grandes mudanças, que incluíam principalmente o ‘movimento Renascentista’, ‘Reforma Protestante’ e ‘Contra-reforma’.     A ‘Reforma Protestante’ foi um movimento liderado por Martinho Lutero que ia contra       o domínio do Catolicismo, ao criticar a hipocrisia dos líderes da Igreja na época. – Já a ‘Contra-reforma’ foi uma espécie de resposta da Igreja, tentando retomar o controle da situação – que, no entanto acabou não sendo muito bem sucedida, uma vez que outros fatores históricos contribuíam para uma sociedade mais desvinculada do ‘Catolicismo’.

Porém, enquanto o Renascimento ia deixando para trás a visão medieval, Portugal resistia à mudança, e foi lá onde a Igreja Católica encontrou um forte aliado da Contrarreforma. O monopólio do pensamento pela Igreja foi tamanho…que a partir de 1564 os professores de Filosofia foram obrigados a jurar obediência à fé católica. – A ação fiscalizadora do Santo Ofício, a catequese da Companhia de Jesus…e a ‘vigilância do Paço’ fixaram balizas ao ambiente do pensamento… reduzindo a liberdade… instituindo a censura… aumentando a intolerância, controlando e mutilando o conteúdo de livros…limitando o desenvolvimento filosófico e científico; e impondo o obscurantismo. – Em outras palavras, Portugal nadava contra a corrente das mudanças – tentando desse modo…manter seu ‘status quo’ colonial.

filosofia brasil 2

É neste ponto que o Brasil entra em cena…  —  nesse quadro econômico, político, religioso e cultural no qual se deram ‘descoberta’, ‘colonização’, e…desembarque inicial dos jesuítas no Brasil… – além dos aventureiros que vieram para cá a partir de 1500, chegaram também, em 1549, com o governador Tomé de Souza…os 1ºs religiosos da ‘Companhia de Jesus’.

A ideia da Igreja era não só combater a Reforma Protestante, mas conseguir converter outras nações ao redor do mundo ao Catolicismo – para ajudar na retomada do poder. Através da educação… buscavam a conversão dos indígenas à fé católica… e fundavam colégios que tiveram papéis relevantes… – na formação sacerdotal, na estruturação da educação formal e pública brasileira, no ensino das artes, literatura, ciência… religião,      na difusão da ideologia dominante… – e também… – nos rumos da filosofia no Brasil.

Note-se então, que a Filosofia aqui não começou como uma forma de livre pensamento – pelo contrário…atrelada à fé católica, o ensino jesuíta era feito aos moldes da “escolástica tomista”, com o básico objetivo de converter os nativos daqui ao catolicismo. (texto base***********************************************************************************

As “Reformas Pombalinas”                                                                                                  Fim da escravidão indígena; Fim das Missões; Índios como povo brasileiro;                    Expulsão dos Jesuítas; Extinção das Capitanias Hereditárias; Instituição da                    Derrama (1.500 Kg anuais); e Abolição da perseguição aos “Cristãos novos”.

As chamadas … “reformas pombalinas”, ocorridas em Portugal (1750/1777), por extensão… afetaram também o Brasil…  culminando na “expulsão dos Jesuítas”, e na tentativa de instituir nova visão de mundo (enquanto a difusão na Europa do ‘Iluminismo’, deixava Portugal para trás). – Assim, dissociada do ‘tomismo aristotélico’ proposto pelo catolicismo,  embora não o substituindo de todo, se  introduziu na colônia uma outra linha filosófica, gerando um período de alta turbulência social, e cultural no Brasil.

Durante a segunda metade do século XVIII, a ‘Coroa Portuguesa’ sofreu a influência dos “princípios iluministas”…com a chegada de Sebastião José de Carvalho ao ministério do governo de Dom José I. Mais conhecido como Marquês de Pombal, se preocupou em modernizar a administração pública do país lusitano — ampliando ao máximo os lucros provenientes da exploração colonial… — principalmente em relação à colônia brasileira.  Este objetivo, porém…encontrava obstáculos nos Jesuítas, que ao catequizar os índios    na colônia (logo conhecida como Brasil) eram profundamente contrários ao objetivo do governo português em usar a mão de obra indígena, com base na falta de escravos, que      os colonos daqui, a princípio sofriam. Nessa ‘queda de braço’, os Jesuítas chegaram até      a apoiar os indígenas nativos…contra os colonos portugueses…estabelecendo-se então,  um conflito tamanho, que só foi resolvido…ao serem removidos os Jesuítas da equação.

E foi isso o que fez Marquês de Pombal; expulsou os Jesuítas da          colônia, e impôs uma reforma educacional…que abriu caminho                para a Filosofia moderna… além de muitos outros problemas…

Marquês de Pombal queria modernizar a sociedade portuguesa… e sua ideia de modernização incluía – superar a visão ‘tomista-aristotélica’ da Igreja Católica,              para implantar aí… as ideias dos novos pensadores – que colocavam a “razão”              como o ‘princípio básico’ a ser seguido. Em outras palavras, a ‘visão iluminista’                  era a visão do progresso… – a visão que garantiria uma evolução econômica, e              riquezas sem igual à “Coroa Lusitana” (ou ao menos… assim pensava Pombal).

A mudança se consolidou no governo, e posteriormente na sociedade, com a instituição de uma reforma educacional mais voltada para uma visão “científico-naturalista”…Isso se fez com a reforma na ‘Universidade de Coimbra’, que incluiu o ensino das “ciências naturais”. Nessa nova visão de progresso…os jesuítas eram um obstáculo…e por isso foram expulsos por Pombal, o que teve reflexos diretos na colônia brasileira. – As universidades e escolas, predominantemente religiosas, foram fechadas quase que imediatamente…sendo criadas no lugar delas as ‘aulas-régias‘ (aulas de disciplinas isoladas)… – e, por consequência… ‘universidades‘ – que, normalmente… – tinham o ensino de…”Filosofia“…como base.

Porém, ao contrário do que se poderia imaginar… o “ideal iluminista” não se sobrepôs — nem substituiu a visão da ‘Igreja Católica’, pois a religião seguiu  influenciando bastante … a sociedade portuguesa. – Como consequência…a Filosofia trazida ao Brasil em seguida à expulsão dos Jesuítas…não foi uma filosofia puramente iluminista, e sim, uma mescla com os ideais católicos… uma vez que, apesar da ausência dos Jesuítas no Ensino, e uma pedagogia mais voltada às ciências naturais … a educação portuguesa ainda era profundamente influenciada pela Igreja — que não deixou de exercer seu poder dentro do governo Português – inclusive nomeando…”mestres” para ministrar asaulas-régias“. Neste período, a Filosofia no Brasil se tornou sinônimo de ciência, com a base da formação acadêmica constituída das “ciências naturais“… tendo por objetivo a transformação da…”classe sacerdotal”… – em…”agentes da modernização”.

A Filosofia perdia assim um caráter puramente abstrato, metafísico e moral, para assumir como princípio a atuação prática. Mas é importante ressaltar que as reformas pombalinas,  resultando em uma completa destruição do modelo de ensino Jesuíta (catequizador…mas bastante eficiente) trazem como consequência à colônia um ensino fragmentado…carente de métodos definidos. – Dessa forma… diferente do resto da Europa, a Filosofia no Brasil acabou se tornando…”bipolar” – por um lado, ainda tinha muita influência da fé religiosa, e por outro, tinha nas ciências naturais a confiança de um futuro brilhante. Tal fenômeno criou raízes profundas na sociedade…com ecos no sistema educacional brasileiro até hoje.

Silvestre Pinheiro Ferreira, filósofo e político português, que acompanhou a família real na vinda ao Brasil, foi quem introduziu o empirismo no país…inaugurando um movimento de reação “antiescolástica”, reinterpretando Aristóteles com base no empirismo. Mas, mesmo com a introdução do ‘Iluminismo’, faltava ao pensamento filosófico brasileiro aquela que é a base do ideal libertário. Algo que só ocorreria com a vinda do Positivismo. (texto base)

O Positivismo chega ao Brasil                                                                                               A influência do positivismo no Brasil consolida a estruturação da 1ª corrente filosófica brasileira, numa época em que o país lutava para, mantendo suas tradições, se alinhar ao espírito da época – na possibilidade de consolidar um pensamento realmente livre”.

PositivismoO século XIX trouxe para o Brasil…o ‘Positivismo’  —  visão elaborada por Augusto Comte. O mais interessante dessa visão…é considerar as ciências naturais e a razão  —  não como uma força que leva a sociedade adiante, e sim…”instrumento” para a mudança social…Comte pensava que a ciência só tinha valor…para a construção de uma sociedade… mais desenvolvida. 

Como consequência, para o pensamento brasileiro… pela 1ª vez, podíamos enxergar uma filosofia que não fosse fundamentado num…“conhecimento acabado” – para ser repetido pelas próximas gerações. Nem a filosofia Jesuíta (metafísica e abstrata) … nem a filosofia (tecnicista) da ‘Reforma Pombalina’ proporcionavam um ‘pensamento independente’, ou uma visão de mudança social. – Com o “positivismo”… os pensadores brasileiros viram a oportunidade de se livrar do ‘ensino eclesiástico’… e serem donos de suas próprias ideias.

O professor de matemática e positivista Benjamin Constant achava que o ensino primário deveria, além de formar para as escolas superiores, também ser um preparador; com isso, decretou uma reforma, que consistia na gratuidade, liberdade, e laicidade do ensino. Mas, no fim das contas a reforma fracassou…e de concreto, só se adicionou o ‘ensino científico’ às disciplinas tradicionais…mantendo-se a… “esquizofrenia” – de uma ‘estrutura bipolar’.

O Ecletismo Espiritualista                                                                                                      O objetivo básico dos pensadores era conciliar o que consideravam verdadeiro                  em todos os sistemas… tomados como manifestações parciais de uma verdade              única e ampla – em que tudo o que não era contraditório entre si … era válido.

Mas, não era só de Positivismo que vivia a filosofia brasileira da época…A mescla que já ocorria entre uma filosofia metafísica…e aquela com viés iluminista, acabou dividindo a filosofia brasileira em 2 correntes principais…uma “Positivista”…e outra “Espiritualista”.  O ‘ecletismo espiritualista’ foi a 1ª corrente filosófica rigorosamente estruturada do país.  O processo de formação da corrente eclética abrange aproximadamente o período entre 1833 a 1848. Esta corrente…fundada por Salustiano Pedrosa e Gonçalves de Magalhães,    a partir do ecletismo francês, visava superar a dicotomia ‘religião/ciência’ da época, por meio de uma convergência entre as correntes do…’naturalismo‘…e ‘espiritualismo‘.

Os principais temas desta corrente filosófica eram consciência e liberdade… assuntos deixados de lado pelos empiristas durante o século 19. A filosofia de Victor Cousin, que inspirou a fundação dessa ‘filosofia’ – foi quase sempre combatida como superficial em outros países; mas no Brasil e em Cuba foi recebida com grande entusiasmo. (texto base***********************************************************************************

A Filosofia brasileira no século XX                                                                                      A partir do século 20, com o advento da República, transformações profundas criam        um novo país… – o que leva…mais uma vez… a ‘Filosofia brasileira’ a se transformar.

mosteiro-de-sao-bento-antiga

Com a ‘queda do império’… e com a instauração da República…em 1889, a busca por uma sociedade racional, tornou-se ‘meta prioritária’ da ‘elite intelectual’ no Brasil. O surgimento de novos centros urbanos… – polos industriais… traz um forte processo de desarmonia entre campo/cidade.

E a Filosofia prossegue… — de uma forma diferente de seus primórdios, mas, ainda repleta de muitos vícios.

No ano de 1908, em São Paulo, foi fundada a “Faculdade de Filosofia e Letras São Bento“, com uma ‘orientação’ puramente “neotomista“. Nesse período também surgiram novos livros de ensino da filosofia, quase todos com orientação católica. A partir de 1914, com a 1ª Grande Guerra, acentuou-se um inédito sentimento patriótico…É nesse momento que outras modalidades do pensamento europeu, então já representados no Brasil, começam    a concorrer mais seriamente … com a até então relevante “filosofia positivista” de Comte.

Mas é a Sociologia que, aos poucos, toma conta do meio cultural. Começam a surgir obras com preocupações sociológicas. – O Brasil se descobre como um país cuja inteligência funciona melhor…resolvendo problemas práticos.

Outra contribuição importante foi a formulação do ‘método culturalista‘ na abordagem dos autores, ou seja…antes de identificá-los como membros de uma determinada corrente, era necessário saber qual a problemática que os preocupava… – a fim de construir a trilha seguida por seu pensamento. Isso permitiu ao pensamento brasileiro compreender-se a si mesmo, superando o vício da “Filosofia Apologética”, que apenas promovia o pensamento de outros filósofos…sem a capacidade de produzir o seu próprio conhecimento…e cultura.

Estado+Novo+e+as+Leis+orgânicas+do+ensino

A partir do ano de 1930, houve mais 2 reformas que mudaram a educação do Ensino Médio brasileiro. A primeira se deu em 1931…e determinava que a educação visasse não apenas à matrícula ao ‘nível superior’… mas também à formação para todos os setores profissionais.  A 2ª reforma…que aconteceu em 1942, foi a Lei Orgânica do Ensino Secundário que  dividiu o ensino básico em 2 ciclos: o ‘ginasial‘, cursado em 4 anos e o ‘colegial‘…em 3. O colegial ainda subdividia-se em científico e clássico. – O científico visava ao ensino das ciências; já o clássico previa uma carga horária de 4 horas semanais para “Filosofia”.

No ano de 1961, um marco de grande valia foi a edição da  Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, resultado de inúmeros debates e lutas ideológicas entre políticos e educadores da época. – A Filosofia foi sugerida como disciplina complementar, perdendo assim, a sua…”obrigatoriedade curricular” – na grade do “sistema federal de ensino”.

“Ditadura Militar”: A época perdida da Filosofia no Brasil

ditaduraNo ano de 1964…os militares tomaram o poder para prevenir a (suposta) ameaça comunista, e o que era para ser um intervenção – acabou se consolidando em uma ditadura … que, por não combinar com pensamento livre fez com que a base da Filosofia fosse banida dos currículos… tornando-se inicialmente facultativa. Algumas disciplinas de ‘ciências humanas’… — também sofreram restrições. – A educação assim, se voltava ao serviço dos ‘interesses econômicos’.

A “expansão econômica”, impulsionada pela chegada do capital estrangeiro, e acobertada pelas beneficies da proteção do ‘governo militar’ contribuíram para a extinção da filosofia do currículo das escolas… A educação da época acabou exercendo um papel ‘ideológico‘, pois foram impostos “valores culturais estrangeiros”… – como modelos a serem seguidos na educação brasileira. O modelo educacional se tornava “tecnicista“, e “burocrático“.

O intuito do governo era formar pessoas que executassem automaticamente ideias de fora, e não pessoas conscientes e críticas. – A Educação passou a ser tratada então … como uma questão desenvolvimentista, de segurança nacional. A Filosofia… assim considerada como ‘desnecessária’ às novas diretrizes do sistema…aos poucos foi desaparecendo. Até que, em 1968, o regime militar tornou-se mais rígido, com professores cassados e perseguidos por “pensamentos políticos”…além de inúmeras outras arbitrariedades… – contra estudantes,  e instituições de todo tipo. – E, em 1971…a Filosofia é banida por completo dos currículos.

Lei+de+Diretrizes+e+Bases+(1971)

A reforma de 1971, conseguiu conduzir o ensino público de “nível médio” – a uma profunda ‘crise de identidade’… – que se prolonga até hoje…pouco profissionaliza, não prepara ao ingresso na universidade, e não possibilita uma ‘formação humana e social’ integrada ao aluno…Pela ‘Lei de Diretrizes e Bases’…imposta por decreto, o ensino de “Filosofia” ficou ‘facultativo’, substituído por… ‘doutrinas ideológicas’, tais como… “Moral e cívica”… e, “OSPB”.

A Filosofia assim, rejeitava a formação do espírito crítico, assumindo o papel de geradora de ‘status social’ de ideias pré-fabricadascom uma função meramente ideológica. – Sua condição política constituía-se em acrítica e ornamental…com uma teoria muito longe da prática, repetindo… “doutrinas obscuras”… Esta “fase perdida” da Filosofia no Brasil, iria durar até o fim do regime militar; com a matéria Filosofia só voltando a ter sua inclusão recomendada nos currículos, em 1986…após a volta do governo democrático. (texto base)

cara-da-coruja-b7b36

Um novo Brasil… (começa do Zero…)

Com a abertura política (reflexo da anistia) no Brasil…tudo o que se passou (durante e antes do regime militar) ficou para trás… e foi aí que o país recomeçou… Dentro dessa “perspectiva“…podemos dizer que o Brasil hoje, ainda está aprendendo a andar…com suas próprias pernas … com o intercâmbio normalizado, e o pensamento moderno de volta ao “cenário contemporâneo” do país.

O advento de tecnologias como computadores…e internet, com suas “redes sociais“, muito têm contribuído para transformar a ‘cara’ do Brasil. – E aí uma nova produção filosófica se destaca… por ser mais que a continuação do que antes havia sido interrompido – ela surge com características novas, se mesclando às disciplinas de ciências humanas, se envolvendo no contexto social e político… – iniciando, aos poucos … a proposição de uma – verdadeira “filosofia intelectual” (sem ser demasiado abstrata)… – e “popular” (sem ser reducionista).

A Cultura Filosófica atual no Brasil

A cultura filosófica brasileira, assim como a cultura do país como um todo, está bastante diversificada – inserindo-se aí alguns pensadores… com resistência à tradição metafísica clássica, na perspectiva de compreender a realidade. – Destes… destacam-se pensadores com expressões teóricas ‘neotomistas‘… Outro grupo de significativa expressão seriam os filósofos ‘analíticos‘, que buscam a compreensão da realidade além do positivismo.  Numa 3ª vertente estão os autores de natureza ‘epistemológica‘ ocupados em discutir    a própria especificidade do ‘conhecimento científico’ … não só em seus aspectos formais, mas também suas condições objetivas…Nesta vertente (“neopositivista”) estão Leônidas Hegenberg, Miltom Vargas, Oswaldo Porchat, Luís Peluso, Michel Ghins, Zeliko Loparic.

A vertente transpositivista reconhece a autonomia e a relevância da ciência…sem no entanto, isolá-la das outras atividades humanas. Nesse contexto, a filosofia da ciência por não ater-se apenas às… “condições lógico-formais” do conhecimento… em virtude da sua inserção histórico-social na própria ciência, implica também “condições axiológicas“. É a linha do “racionalismo científico” de Gaston Bachelard, Thomas Kuhn… e Piaget.

Entre pensadores brasileiros cujas atividades vão por esse viés estão       Hilton Japiassu, Constança Marcondes César…Marly Bulcão Brito…   Elyana Barbosa, John Pessoa Mendonça, e Luis Carlos Bombassaro.

um-sentido-para-a-vidaOutra importante vertenteque, por aqui abrange grande número de pensadores é a ‘neo-humanista’ que tem em Cláudio de Lima Vaz seu representante maior… — Ele atribui a ‘tarefa antropológica’ como papel filosófico fundamental, e transita por toda tradição filosófica… – desenvolvendo uma nova visão da ‘existência humana’…no seu contexto histórico real, com grande ênfase na ‘antropologia’… – e “direitos humanos”.

Outros importantes pensadores brasileiros… do existencialismo neoliberal ao marxismo, são José Guilherme Merquior, Luiz Felipe Pondé, Mangabeira Unger, Sérgio P. Rouanet, Bento Prado Júnior, Paulo Freire…Leandro Konder…Marilena Chauí…José A. Giannotti, Carlos Nelson Coutinho, Aluísio Ruedell… e Alino Lorenzon. Além desses, recentemente criou-se um grupo de pesquisadores em torno de uma reflexão ética a partir da “filosofia dialógica” de Martin Buber & Emmanuel Levinas; são eles Ricardo de Souza, Luiz Carlos Susin, Pergentino Pivatto, e Antonio Sidekum.

pensadorNão esquecendo também do grupo de pensadores ligados à ‘fenomenologia‘, com um significativo número de pensadores se desdobrando em várias correntes… Uma com inspiranção em Merleau–  Ponty…e outra sob a forte ‘influência existencial’ de Sartre Heidegger… esta representada por Ernildo Stein… Dulce Critelli… Gerd Bornheim… Emmanuel Carneiro Leão, e…Luiz Carlos Maciel.

Um outro grupo de filósofos – de uma corrente chamada…’arqueogenealogia‘…tem como autor fundamental Rubem Alves. Nesse grupo estão concentrados pensadores  com influências psicossociais de Foucault — e referências axiológicas de Nietzsche.

Por fim, mas não menos importante…existe o grupo de Leonardo Boff, que criou o IFIL, Instituto de Filosofia da Libertação, ocupando-se com os estudos da filosofia na ‘América Latina’, incluindo as temáticas da… “mitologia indígena”…cultura ‘afro-latino-americana’, ética, cidadania, e “multiculturalismo”. – Ainda além de todas essas correntes citadas… é importante também destacar o grande trabalho de divulgação via internet dos abnegados pensadores…Viviane Mosé, Márcia Tiburi, Mario Cortella, e Leandro Karnal. (texto base) ******************************(texto complementar)*********************************

A busca por uma FILOSOFIA BRASILEIRA (Hugo Allan Matos)                         Falar de uma filosofia brasileira é pensar numa filosofia autêntica, voltada para a vida’.cobrasAntes de abordar o tema filosofia brasileira…penso ser primordial dizer o que penso ser a filosofia. Filosofia, ao meu ver é uma forma de vida, de existência, que tem por meio o conhecimento (teórico), e finalidade…a prática cotidiana. Ou seja, filosofia é um modo de existência que tem por mediação o conhecimento histórico atual, teórico e prático, com o único fim de transformar a realidade; visando a reprodução da vida, e denúncia da morte.

Sendo viver a vida, a finalidade última de todo ser…’O Ser humano é ser para a existência… – Isso pode parecer óbvio… mas tratar do óbvio, parece ser uma das funções da filosofia… – Todavia, a filosofia é universal, indo do particular ao geral.         E, se o particular é em âmbito local – sempre partindo da ‘experiência concreta’ do filósofo… o universal último da filosofia tem como fim a vida, em oposição à morte.

Dada a definição de filosofia como meio de transformação social…historicamente… não se conhece um só filósofo ileso em seu pensar, que não tenha sofrido criticas, perseguições, e muitas vezes vitimado por sua própria filosofia… Quanto mais fora do ‘sistema vigente’…e contraditórias suas afirmações … maior parece ser sua “recompensa filosófica”... Sócrates bebeu cicuta, Cristo foi crucificado, muitos medievais morreram pela ‘Inquisição’…alguns modernos com privações sociais/mentais — e ainda hoje a liberdade de pensar é perigosa.  E o que faziam os clássicos Sócrates, Platão, Aristóteles e todos os que vieram antes deles, inclusive os egípcios, mesopotâmios, passando pelo mundo medieval e modernidade? E o que tem feito a “filosofia autêntica”… se não utilizar o conhecimento ‘teórico-prático’ para transformar para melhor a sociedade? Melhor qualidade de vida, nas relações individuais, melhor interação como sujeitos…de si, entre si…compartilhando a natureza e a sociedade.

filosofiaPenso que uma filosofia autenticamente brasileira…deve ser antes de tudo ética, dando conta de 2 momentos: negativo, e positivo. Negativo, enquanto negação da identidade eurocêntrica… imposta a nós numa assimilada filosofia brasileira pré-histórica. E positiva… como propositora  de caminhos que reproduzam em multi- dimensões…uma vida mais digna. Desta forma…o diálogo com a “euro-tradição”, séculos a frente, será bem mais positivo.

Contudo – no momento atual da filosofia brasileira … esta pré-história pouco                      tem a contribuir – pois se a Europa se constituiu como Opressor… a partir da                      negação do Oprimido, nós seguimos sendo este oprimido, aniquilado por eles.

Portanto…agora que estamos conseguindo, ao menos gritar que somos tanto quanto eles, não podemos ignorar nossa constituição e “querer dar o troco”, simplesmente ignorando-os; pois repetiríamos o erro ontológico que eles cometeram. Ao contrário, podemos dizer-lhes…vocês erraram, e nós poderemos errar em outras coisas, mas não nisso. Permitindo assim, a “alteridade” em nossa filosofia… — Nesse sentido… acredito que o diálogo com a tradição filosófica eurocêntrica de forma ética, seria reconhecer os avanços positivos que houveram, e tentar avançar a partir deles na resolução de nossos problemas. (texto base)

Sobre Cesarious

estudei Astronomia na UFRJ no período 1973/1979.
Esse post foi publicado em filosofia e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para Breve panorama da prática filosófica no Brasil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s